quinta-feira, março 07, 2013

QUANDO AMBOS PARTIMOS

George Gordon, Lord Byron. [1788–1824]

WHEN WE TWO PARTED
QUANDO AMBOS PARTIMOS

[First published, Poems, 1816]
{versão brasileira: Ivan Justen Santana, 2013}

WHEN we two parted
QUANDO ambos partimos
  In silence and tears,
  Em silêncio e prantos,
Half broken-hearted
Corações partidos
  To sever for years,
  Longe tantos anos,
Pale grew thy cheek and cold,
Branco teu semblante e frio,
  Colder thy kiss;
  Mais frio teu beijo; 
Truly that hour foretold
Aquela hora sim previu  
  Sorrow to this.
  Triste o desejo. 

The dew of the morning  
O orvalho da aurora
  Sunk chill on my brow—
   Correu frio em mim—
It felt like the warning  
Aviso de outrora
  Of what I feel now.  
   Do que sinto enfim.
Thy vows are all broken,  
Teus votos quebraste,
  And light is thy fame:  
   E leve é tua fama:
I hear thy name spoken,
Teu nome em contraste
  And share in its shame.  
   Já deitam na cama.

They name thee before me,  
Nomeiam-te a mim,
  A knell to mine ear;  
   Som lúgubre soa;
A shudder comes o'er me—  
Tremores por mim—
  Why wert thou so dear?
   Por que foste boa?
They know not I knew thee,  
Não sabem que te vi,
  Who knew thee too well:  
   Conheço-te bem:
Long, long shall I rue thee,  
Sofrerei, sofrerei por ti,
  Too deeply to tell.  
   Não o saiba ninguém.

In secret we met—
Secretos, nos vimos—
  In silence I grieve,  
   Calado, eu lamento
That thy heart could forget,  
Que tenhas te esquecido,
  Thy spirit deceive.  
   O espírito ao vento.
If I should meet thee  
Se acaso eu te vir
  After long years,
   Depois de anos tantos
How should I greet thee?  
Como hei de sorrir?
  With silence and tears.
   Com silêncio e prantos.


*NOTA DE RODAPÉ IMPORTANTE:]
Este poema já foi traduzido em equipe pelos estudantes de Letras da UFPR Anna Beatrice, Juliano Costa, Laura Faraone e Stephanie da Silva, sob orientação do pesquisador Vinícius Barth -- clique aqui pra conferir o resultado -- Devo a eles a solução-base inicial de alguns dos versos, pois trabalhei em cima do texto deles, que saiu num jornal do CAL -- clique aqui pra maiores vistas -- Valeu, gente. Gente? ...


* * * * * * *

sábado, fevereiro 16, 2013

QUEM SABE EU

_
Quem sabe eu
ainda sou
aquele piazinho
cdf e bagunceiro
que usaria plágio
depois cópia elaborada
depois paródia pós-estilizada.

Quem sabe eu ainda
sou aquele adolescentezinho
que foi piá de prédio
mas também piá de bairro
depois músico esqueitista
burro que o pai pensava artista.

Eu não peço a deuses nenhuns
nem que todos me achem ateu
judeu comunista vagau vigarista
piá pançudo sem nem
um pouco de malandragem:

sim: também não conheço a verdade.

Fale pra mim quem você é
e eu te digo
sem vontade
que a vontade
é o preço mais barato
a pagar pela fé.

ijs

...

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

PARA IANTHE


{BYRON, dedicatória do épico A Peregrinação de Childe Harold}
_
    Não nas paisagens onde andei vagando,
    Bem que a Beleza seja lá sem par,
    Nem nas visões ao coração mostrando
    Formas que este suspira só em sonhar,
    Nada de Vero e Mago a te igualar:
    Tendo te visto, buscarei em vão
    Pintar teus charmes vários a piscar—
    Aos que não te observam, meu verso é anão;
Aos que te podem ver, quais rimas bastarão?

    Ah! possas tu ser sempre o que agora és,
    Seguindo um despontar tão promissor—
    Tão bela e pura da cabeça aos pés,
    Na terra a imagem sem asas do Amor,
    E ingênua além do esperado a uma flor!
    Sem dúvida a que agora cerca em muros
    Teus verdes anos, grata ao resplendor
    Contempla os arcos—teus anos futuros—
Iridescentes sobre os céus claros e escuros.

    Fada jovem do Poente! — tenho a sorte
    De superar em dobro os anos teus;
    Meus olhos te olham sem querer consorte,
    Notando que despontas rumo aos céus;
    Feliz, a ti nunca darei o adeus;
    E mais feliz, enquanto corações
    Mais jovens sangrem pelo amor do teu,
    Escaparei ileso de teus dons,
Mesmo que volte sempre o Amor às aflições.

    Ah! que os teus olhos loucos das Gazelas,
    De brilhos bravos, bela timidez
    A conquistar e a provocar sequelas,
    Leiam meus versos e lhes cedam vez,
    Sorrindo a quem em vão te quer talvez—
    Pudesse eu ser mais do que teu amigo:
    Aceita então, ó Moça, sem porquês;
    Teu jovem ser assim ser meu perigo,
E dá a minha coroa um Lírio sem castigo.

    Assim teu nome esteja aqui entrançado;
    E sempre que olhos bons nos venham ler
    Teu nome, Ianthe, aqui sacramentado
    Será o primeiro a ler, sempre a reter:
    Meus dias já contados—reste haver
    Este tributo te atraído à Lira
    De quem te sagra a mais bela de ver—
    O que mais desejar eu poderia?
Se não pôde a Esperança, a Amizade exigia.



{vb:ijs:2013}
________________________

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

PARA UMA CERTA CANDIDATA A NORTE-AMERICANA:

;
Dum chapéu meu sobrou só a caixa.
De outra paixão, nem sobrenome.
Do caratê sobra esta faixa—
Da humanidade, a flor e a fome.
Dos meus carinhos sobro em todos:
Meus próprios céus são meus infernos.
Eu tenho modos: ostrogodos.
Eu tenho meios: pós-modernos.
Dos sentimentos nos compomos.
Reescrevo então um parnasiano,
Pois onde estamos sempre há pomos
E o nosso amor é tão cigano.
__Nós combinamos sem talvez
__Feito este sonetilho inglês.

[de ijs a ffr]

...

sábado, fevereiro 02, 2013

MARMOTA JOYCE YEMANJÁ CURITIBA


Outra vez é o dois de fevereiro.
Outra vez é o dia da marmota.
Outra vez James Joyce, inzoneiro,
Sopra vela e quase ninguém nota.

Hoje é também dia de Iemanjá.
O calorzão faz mais lerda a lesma.
Tantas frases feitas manjo já.
Curitiba nunca é mais a mesma.

...

terça-feira, janeiro 29, 2013

quinta-feira, janeiro 24, 2013

"Temos que estudar Dylan e noite!" [eu, ontem à noite...]

ROMANCE EM DURANGO
(Romance in Durango -- Bob Dylan -- vb: IJS)

Pimenta vermelha no sol de torrar
Poeira na minha cara e na capa
Eu e Madalena fugindo pra lá
Acho que dessa a gente escapa

Vendi o violão pro filho do padeiro
Por umas migalhas e um mocó
Mas já arranjo outro instrumento
E na estrada pra ela eu toco

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Passando a ruína asteca e nossos fantasmas
Cascos feito castanholas batendo no tom
À noite eu sonho sinos pelas torres pasmas
E então vejo o rosto em sangue de Ramón

Fui eu quem atirou nele na cantina?
Foi minha mão na arma a disparar
Vamos lá fugir, minha Madalena
Os cães ladram e o passado morto está

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Numa tourada sentaremos à sombra
Veremos o jovem toureiro por lá, só
Beberemos tequila onde os nossos avós
Trilharam com Pancho Villa até Torreón

O padre recitará em seu velho tomo
Naquela igrejinha lá daquele bairro
Eu com botas novas e brinco de ouro
Você com diamantes no vestido branco

O caminho é longo mas o fim é ali
A fiesta até já começa bem animada
A face de Deus já surgiu, eu vi
Com seus olhos de serpente de obsidiana

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos levará a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto acabará
Logo você dançará o fandango

Foi um trovão esse som que eu ouvi?
Minha cabeça vibra e só dói se eu respiro
Não diga mais nada e sente aqui
Pelo jeito é meu fim, tomei um tiro

Madalena, rápido, pegue a arma
Veja nas colinas aquele reflexo
Mire direitinho, minha pequena alma
Desta noite não passamos, pelo jeito

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

...

quarta-feira, janeiro 16, 2013

SEM PEN SARNA

sem pensar na mosca morta
nessa dor que nos dilata
sem o sol que a sombra entorta
nessa flor dentro da mata
sempre sarna tosca e torta
nessa dor que nos dilata
sempre a carne fraca corta
nessa flor dentro da mata
no calor que a pata enxota
sem som sem sal sem birita
sensei e não estagirita
pata peta pita pota

...

sexta-feira, janeiro 11, 2013

A MEMÓRIA DO MESTRE

*
conta mais o que não esquece--
senta que nem vem a história:
rima fácil, cachorra, o B desce
e foge o A do auge da glória--

sim, a memória do mestre
conhece o de dentro e ode fora
transtorna equestre em pedestre
e em costa sua cabecinha chora

tudo isso causa o avesso do
gosto escasso de um seu discípulo
o qual ousa do gênese ao êxodo
mas no final esquece o título
*

quinta-feira, janeiro 03, 2013

AS QUATRO FACES DO ESGAR

*
Na tradução o sangue engrossa o caldo.
No pensamento a mente se dilata.
Na sorte a concepção repete o mal do
Milênio e por azar a vida é ingrata.
O sangue refluindo esgota o saldo.
A mente rutilando pede a pata.
A concepção ainda é bela e, baldo,
O afã da vida pega, come e mata.

Nem tudo se vincula ao nada em tudo.
Nem todo carnaval me é tudo ou nada.
Até um pateta um dia atenta entrudo.
Se passa ou se não passa uma de cada
Vez, eis citadas as faces do esgar:
Tradução. Pensamento. Sorte. Azar.

*   *   *   *

sábado, dezembro 08, 2012

Dedicado individual e especialmente a cada pessoa que acha não ser possível traduzir poesia (ou, nesse caso, texto poético de canção do Bob Dylan, sem ouvir e ler e entender no original).


BALADA DE UM MAGRO
Bob Dylan: Ballad Of A Thin Man --

Você entra na sala
Com um lápis na mão
Vê alguém sem roupa
E diz: “Quem é esse?”
Você tenta tanto
Mas não compreende
Nem sabe o que vai dizer
Pros espectadores insones
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você ergue a cabeça
Diz: “É aqui que é o negócio?”
E alguém aponta você e diz: “Sócio”
E você: “O que é meu?”
E um outro: “Onde o que é?”
E você: “Meu Deus
Estarei só entre fingidores?”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você entrega o ingresso
E vai assistir à esquisitice
Que vem direto até você
Ao ouvir o que você disse
E diz: “Como é que é
Ser uma aberração dessas?”
E você diz: “Impossível”
Enquanto ele lhe entrega um cone
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você tem muitos contatos
Entre lenhadores natos
Pra obter fatos
Se algo faz você torcer o rosto
Mas ninguém tem respeito
Só esperam do seu jeito
Entregar mais um cheque
De caridade abatível no imposto

Você esteve entre professores
Que amaram seus remoques
Com grandes advogados você
Discute leprosos e escroques
Já passou por todos aqueles
Livros de Scott Fitzgerald
Você os leu e já eram de
Domínio de todos, né?
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, o engolidor de espadas vem
Até você e se ajoelha
E se persigna e se benze
E estala os saltos-agulhas
E sem mais nenhum alerta
Pergunta-lhe o que dá na telha
E diz: “Estou devolvendo tua goela
Grato também pelos fones”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz nem ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Agora você vê um caolho anão
Que grita a palavra “AGORA”
E você: “Por qual razão?”
E ele: “Como fora?”
E você: “O que significa isso?”
E ele: “Você é vaca leiteira
Me dê logo algum leite
Ou sai fora, tetas de clone”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, você entra na sala
Qual camelo, franze a testa
Coloca os olhos no bolso
E o nariz numa fresta
Tinha que haver uma lei
Contra você por perto
Você devia ser forçado
A usar nos ouvidos tampões
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

vb: ijs
...

sábado, dezembro 01, 2012

Mais Lord Byron...

[extraído de Childe Harold´s Pilgrimage, Canto I, de Lord Byron --- versão brasileira: Ivan Justen Santana]

O ADEUS DO INFANTE

1.
Adeus, adeus! nativas costas
__Somem no azul do mar;
Ventos suspiram, ondas postas,
__Guincha a espuma a vogar.
O Sol se põe lá no horizonte,
__Seguimos os voos seus;
Boa noite agora a quem te aponte,
__Terra natal---Adeus!

2.
Daqui a umas horas nascerá
__P'ra dar a Aurora à luz;
E eu saudarei os céus de lá
__Mas não meus chãos tão nus.
Deserta está minha mansão,
__Lareira desolada;
Ervas selvagens no portão;
__Meu cão uivando ao nada.

3.
"Vem cá, vem cá, pequeno pagem!
__Por que choras e gemes?
Tens medo de alguma voragem
__Ou pelo barco tremes?
Limpa estas lágrimas dos olhos;
__Nosso barco é potente:
Nosso falcão despreza escolhos,
__Planando alegremente."

4.
"Zurzam ventos; ondas: avante!
__Não temo ondas nem ventos:
Mas não te espantes, Mestre Infante,
__Pelos meus sentimentos;
Do lar de meu pai eu parti
__Deixando a mãe amada,
Não tenho amigos; tenho a ti
__E ao Pai maior---mais nada.

5.
"Meu pai me abençoou com fé,
__E assim restou contente;
Mas minha mãe sofrerá até
__Que eu volte novamente."---
"Já basta, basta, meu rapaz;
__Teu pranto tem valia,
Deixasse tanto para trás
__Eu também choraria.

6.
"Vem cá, vem cá, meu bom feitor,
__Por que pálido estás?
Temes por francês malfeitor
__Ou pelo barco audaz?"---
"Achas que só por mim lamento?
__Ó Infante, não sou fraco;
Na esposa ausente o pensamento
__Comove até um velhaco.

7.
"Esposa e filhos meus deixei
__Lá à borda do teu Lago,
Se eles chamarem por seu pai
__O que ela há de falar?"---
"Já basta, basta, meu feitor
__De dor justa e pesada;
Pois eu, que trago leve o humor
__Fujo dando risada.

8.
"Pois quem confiava nos gemidos
__De esposa ou namorada?
Secam olhos já umedecidos
__Por nova paixão dada.
Por prazer morto não me enluto,
__Perigo não me assusta;
A grande dor pela qual luto
__Lágrima não me custa.

9.
"E agora aqui sozinho estou
__Sobre este vasto mar:
Por que grunhir por outros vou
__Se a mim não vão chorar?
Talvez meu cão se queixe em vão,
__'Té que estranho o alimente;
E se eu voltar noutra estação
__Ele me crava o dente.

10.
"Contigo, barco, eu vou veloz
__Sobre a campa marinha;
Nem ligo aonde vamos nós
__Se não de volta à minha.
Bem-vindas, ondas, vindo eternas!
__Sumindo aos olhos meus;
Bem-vindos, desertos, cavernas!
__Terra natal---Adeus!"

sexta-feira, novembro 30, 2012

VARIAÇÕES MAIS OU MENOS PRÓXIMAS DO LIMERICK 'THERE WAS AN OLD MAN OF PERU', DE EDWARD LEAR (1812-1888)

There was an old man of Peru
Who never knew what he should do;
So he tore off his hair,
And behaved like a bear,
That intrinsic Old Man of Peru.

____5
Havia um velhinho silvícola:
Cultivava uma dúvida ridícula;
__Então raspou a cabeça
__E urrou bem à beça
O intrínseco velho silvícola.

____4
Era uma vez um velho homem
Cujos vacilos já o consomem;
__Resolveu ser careca
__Feito urso que impreca
Idiossincrático, velho homem.

____3
Havia um ancião incapaz
Pedindo a um rapaz inca paz;
__Sem dúvida ignorava
__Sua situação escrava
De ancião, inca, incapaz.

____2
Era uma vez um velho de Madagascar
Que não sabia nem polir e nem lascar;
__Então voltou ao Neolítico,
__Realizando estudo crítico,
Aquele velho da ilha de Madagascar.

____1 
Havia um velhinho do Peru:
Sem saber o que vestir, andava nu;
__Depilado fez discurso
__E comportou-se como um urso
Aquele intrínseco velhinho do Peru.

versões brasileiras:
Ivan Justen Santana

*  *  *

terça-feira, novembro 13, 2012

MÃO PATA


Se era a vida andando estranha ou
Se eram latas no porão,
Macaquinhos pelo sótão,
Borboletas nem se notam,
Galunfantes, como não?
Mas se a vida andava estranha
Nem se a aranha arruína a Espanha
A espada é pena ao violão?

Só essa vida andando estranha e
Borboletas pelo sótão:
Macaquinhas que se socam!
(E uma gata no porão:
Só uma gata, e só esta gata,
Úmida, serena gata
Amaciando minha
Em sua: dela: pata: mão...

[de ijs a ffr]
____< 3____

domingo, novembro 04, 2012

NÓS (CANÇÃO NÚMERO DOIS PARA FAENA)


perdemos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos

queremos
ciganos
sabemos
arcanos
derrames
de sangues
nos mangues
nos becos
trememos
nos mesmos
abismos
extremos
gememos
gingamos
choramos
perdemos

gramamos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos


[harmonia: Am Em F G Abº -> Am]

sexta-feira, novembro 02, 2012

DESESTRELADO


A estrela que brilha forte
Cai do céu de encontro à morte.
Quer saber o que é o amor?
Astro enfiado no fedor.

Ele é feito um cão sarnento
Que se espoja na sujeira.
Porca grunhe, galo canta,
E ele exclama em sua lama.

Ah, se eu fosse nesta rocha
Onde a amada desabrocha,
Onde eu sonho a terna sova:
Minha e dela em mesma cova...!

Heinrich Heine (1838)
Ivan Justen Santana (2012)

texto original: UNSTERN

Der Stern erstrahlte so munter, 
Da fiel er vom Himmel herunter. 
Du fragst mich, Kind, was Liebe ist? 
Ein Stern in einem Haufen Mist.

Wie 'n räudiger Hund, der verrecket, 
So liegt er mit Unrat bedecket. 
Es kräht der Hahn, die Sau, sie grunzt, 
Im Kote wälzt sich ihre Brunst.

Oh, fiel ich doch in den Garten, 
Wo die Blumen meiner harrten, 
Wo ich mir oft gewünschet hab 
Ein reinliches Sterben, ein duftiges Grab!

FONTE: CLIQUE AQUI

quarta-feira, outubro 31, 2012

VENDAVAL NUMA CANÇÃO

Teu amor na treva: estrela,
no silêncio: melodia,
na brisa: a calmaria
abrigo: no furacão,
céu: poema: noite negra:
vendaval numa canção.


de ijs a ffr

segunda-feira, outubro 29, 2012

NÃO VAMOS MAIS PRA BALADA (mais uma do Lord Byron)

Não vamos mais pra balada
__Tão tarde, na madrugada,
Bem que o peito ainda nos bata
__E a lua ainda vague, alta.

Se a espada gasta a bainha,
__E se a alma desgasta o peito,
Cansa um corpo que caminha,
__E o próprio Amor dorme em leito.

Bem que a noite a amar foi dada,
__E o dia retorne em regra,
Não vamos mais pra balada
__Sob a luz da lua negra.

texto original de Lord Byron:
So We'll Go No More A-Roving ---

versão brasileira e notívaga:
Ivan Justen Santana

*  *  *

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA COM UM CRÂNIO HUMANO

(texto original: Lord Byron ---
versão século XXI:
Ivan Justen Santana)

Não te assustes! Aqui estou, em copo e alma;
__O único crânio (sem remédio)
Do qual, diverso da mente humana,
__Flui tudo menos tédio.

Vivi, amei, bebi, tal como tu:
__Morri: que a terra não me tenha;
Enche-me!--- já estou mais que nu;
__Antes teus lábios que os da tênia.

Antes ser taça a um bom espumante
__Que berço a um verme enroladinho;
Correr de boca em boca, sempre avante,
__Esquivo aos répteis, levando vinho.

Aqui talvez brilhou meu cérebro:
__Agora aos outros brindarei
E após---ó vida!---voar meu gênio
__Trago comigo vinhos de rei.

Bebe tu enquanto podes: outra raça,
__Quando restarem só os teus ossos,
Talvez também os tome e faça
__De ti uma taça e versos insossos.

Então por que não? Se a vida é breve
__E os nossos crânios já estão cheios disso,
Longe de argilas e beijos de vermes,
__Cumpram também tal sacro ofício.

...........................................................

Subitamente, numa segunda-feira de releituras, redescubro este poema:

A LAGARTIXA

Álvares de Azevedo (1831-1852)

A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão dos teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores,
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis dos teus amores.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol dos seus olhos namorados,
Como ao sol do verão a lagartixa.

*  *  *

sábado, outubro 27, 2012

Um soneto de Guido Cavalcanti (1258-1300)

Tu tens a flor e o verdor
E o que luz e é belo ao ver;
Resplendes qual sol maior:
Quem não te vir vai perder.

Neste mundo não há flor
Tão bela, nata ao prazer,
E ao te ver perde o temor
Quem ao Amor quer temer.

As Damas que te acompanham
Me agradam por teu amor;
Peço a elas, se te ganham,

Que te honrem com justo ardor
Pois dentre estas que te banham
De graças és a melhor.

versão brasileira: Ivan Justen Santana

* * *
Seguem a tradução feita por Ezra Pound e o original de Guido Cavalcanti:

THOU hast in thee the flower and the green
And that which gleameth and is fair of sight,
Thy form is more resplendent than sun's sheen;
Who sees thee not, can ne'er know worth aright.
Avete ’n vo’ li fior’ e la verdura
e ciò che luce od è bello a vedere;
risplende più che sol vostra figura:
chi vo’ non vede, ma’ non pò valere.

Nay, in this world there is no creature seen
So fashioned fair and full of all delight;
Who fears Amor, and fearing meets thy mien,
Thereby assured, he solveth him his fright.
In questo mondo non ha creatura
s’ piena di bieltà né di piacere;
e chi d’amor si teme, lu’ assicura
vostro bel vis’ a tanto ’n sé volere.

The ladies of whom thy cortèconsisteth
Please me in this, that they've thy favour won;
I bid them now, as courtesy existeth,
Le donne che vi fanno compagnia
assa’ mi piaccion per lo vostro amore;
ed i’ le prego per lor cortesia

Holding most dear thy lordship of their state,
To honour thee with powers commensurate,
Sith thou art thou, that art sans paragon.
che qual più può più vi faccia onore
ed aggia cara vostra segnoria,
perché di tutte siete la migliore.

Fontes:
POUND [clique aqui e busque o Sonnet XV]
CAVALCANTI [link Wikisource]

Cid, Fernão, Ivan, Sérgio e Márcio, trinta e poucos anos atrás...


O AMOR, DE NOVO

O amor
é uma flor

que racha rocha,
machuca madeixa
e deixa
bochecha
roxa.

---<--{@
...

}{


(de IJS a FFR)

quinta-feira, outubro 25, 2012

O MITO DO MITO DO ERA UMA VEZ

Existe um mito do mito
do era uma vez:
disto estou certo
e convicto aqui eu
me declaro a vocês:
até a tecla mute
é usada no rito
o qual condiz,
por sua vez,
e universal será,
posto que aflito,
tal mito que admito
e enfim finito grito:
já era uma ou duas
mas nunca mais que 3.

*  *  *

terça-feira, outubro 23, 2012

Um soneto de Joachim Du Bellay (1522-1560), curitibanizado por Ivan Justen Santana (1973 - )...

FELIZ QUEM, COMO ULYSSES, FEZ BELA VIAGEM...

Feliz quem, como Ulysses, fez bela viagem,
Ou como este outro herói, o vencedor Jasão,
Que, ganho o Velo de Ouro, volta com razão
A viver entre os seus, em sua prima paisagem!

Quando inspirarei, ai, da minha Vila a aragem,
Seus cheiros, chaminés? E em qual verão que tarda
Reverei o arvoredo da pobre mansarda,
Minha Província, onde levo em tudo vantagem?

Bem mais me agradam céus caingangues, botocudos,
Que dos paços de Roma os frestões e os veludos:
Bem mais que o duro mármore a poeira urbana,

Bem mais meu rio Belém que o Tibre dos latinos,
Bem mais Serra do Mar que Montes Palatinos,
Mais que maresia a brisa curitibana.

texto original: Joachim Du Bellay
versão paranaense:
Ivan Justen Santana
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sábado, outubro 20, 2012

Emiliano Perneta (1866-1921), dialogando com Satanás (?-?)...

CHRISTE, AUDI NOS

A Dario Vellozo

“Meu Senhor, meu Senhor morto, a Teus pés feridos,
Junto ao Teu coração, que sangra e luz, enfim
Eu me prostro, e ajoelho os meus cinco sentidos
– Cinco feras, Senhor! – Tem piedade de mim!”

– “Tu desejas que aos céus, e como estrelas de ouro,
Vá teu Verso insculpir a Mágoa e a Dor cruel,
Para que o mundo, ouvindo o deslumbrante coro,
Do teu Orgulho veja a Torre de Babel.

A ânsia mortal conténs de uma árvore maldita
Que, estéril, sob o sol, flor nem fruto produz,
E, presa à Terra, em vão os braços torce e agita:
Sugam-lhe a seiva e a polpa as ventosas da luz.

Buscas, mas só porque do ‘novo’ o aroma exala,
O crisântemo azul de uma Quimera vã...”
“Surdo! Senhor, sê surdo! É o Demônio quem fala!
É o Blasfemo! É Satã!... Livra-me de Satã!

Creio. Desejo crer. O Invisível fulgura...
A Ciência é um pobre monge estudando o ABC.
Desse Enigma feroz e dessa Luz obscura
Tremo. Quem sou? Quem és? Um Mistério!... Por quê?”

– “Mentes. Tudo isso é pura obra do teu Orgulho.
Tu não crês!” – “Ó cruel, cala-te! Eu hei de crer.
Hei de crer, apesar desse negro marulho
Do teu ódio crescente, abominável Ser!

Hei de crer nessa Mãe Misericordiosa
Que à minha sede o peito oferece do Bem,
Pois vi rolar, rolando em vaga tonitruosa,
Tudo quanto eu amei nos escombros do Além!...

Hei de crer...” – “Não crerás! Não hás de crer mais nunca!
A descrença, infeliz, é como o bronze cru:
Não torce. Eu arranquei a luz dessa espelunca...”
– “Ó maldito Satã!” – “Maldito serás tu!”

“Tem piedade, meu Deus, da lôbrega miséria,
Do veneno animal e da infâmia feroz
De quem Te pede, ó Justo, a paz do Sonho, etérea,
Com angústia no olhar, com soluço na voz!

Do óleo santo do Teu perdão magoado ungi-me,
Dá-me forças, Jesus! Dá-me alento, Senhor!
Para que eu não sucumba ao peso do meu Crime
Antes de ter gozado o verdadeiro Amor!...”

– “Alma, dentro de ti mora um triste coveiro,
Mudo e gelado, como num tanque a boiar...
Sentes-lhe o peso enorme!...” – “Eu faleço, Cordeiro!
Vinho, divino Vinho! Embriaga o meu pesar!

– “Sobre o teu coração dobra angustioso o Remorso,
O Desespero grasna um rouco Cantochão.”
“Em vão, em vão, Senhor, em vão é que eu me esforço
Para deixar de ouvir o clamor da Aflição.

Eu sou triste, Senhor! Triste é a minha existência.
Minha tristeza é bem como a lepra de Jó.
Não resplandece mais a real magnificência...
Tem piedade de mim, meu Senhor! Estou só.”

– 1897 –

Fonte:
Poesias Completas de Emiliano Pernetta
Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde, 1945
[volume II, pp. 100-102].
Texto transcrito e atualizado por Ivan Justen Santana.

*  *  *

quarta-feira, outubro 17, 2012

NOWA CONJURLGASÇÃO: VER BO TER

eu tenho pinto
e nunca minto

tu tens boceta
e queres treta

você tem acento
e um pau lhe assento

ele tem olhos
e frita os miolos

ela tem cabeça
e é boa à beça

nós temos nada
e tememos tudo

a gente é agente
e atrás tem frente

vós tendes dó
e virastes pó

vocês têm sexo
e circunflexo

eles têm elas
e pra quê mais?

ijs

terça-feira, outubro 09, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

DE PLEITO ABERTO

De pleito aberto sangram os candidatos
___E as candidatas gemem.
As urnas, dentro os óvulos ingratos,
___Recebem os votos: sêmen.

Numa elegia a quem não se elegia,
___Transmudam-se de lado
Os marqueteiros de quem já dizia
___O rei está pelado.

Num último e desesperado apelo
___Propõe-se anulação.
Frágil sufrágio: pode-se empreendê-lo
___Porém prendê-lo não.


______IJS

quarta-feira, outubro 03, 2012

DE PLECTRO ABERTO

Um verbo que você não conheça.
Um verso que ninguém esqueça.
Um pé no lugar da cabeça.

Um P da palavra mais certa
que eu busquei no teu grito de alerta:
nosso caso é uma porta---entre!---aberta.

Nosso amor sim deu certo:
bobo, quieto, tranquilo, esperto---
todas as cores do espectro

de plectro aberto.

*/*
ijs

MÁDIDAS FRESCURAS

Mádidas frescuras: hírcicas contrações.
Espasmos módicos: cáries ósseas de más tenções.
Hastes, trastes, contrastes:
hibridismo nas quantias: e a miséria de acha vero.
Mergulhos intrauterinos: ultrainteriores.
Fuligens na pelugem: gen de nucleotídeo.
Mitos e côndrias, para que vos quero!
Inequações aproximadamente iguais: há zero.

ijs

*/*

quarta-feira, setembro 26, 2012

SE UM POÇO

Se um poço pode ser torre ao contrário,
Se um trôço até parece belo ao fosso,
Se mesmo o velho som do estradivário
Segunda de manhã gera alvoroço,
Se as gralhas vão de azul até o pescoço,
Se um malandro bom não vale um otário,
Se o rosto fala do retardatário
E a farra rói o moço até só o osso,
Sou tão memorioso quanto Funes
Quando repito os itens desta lista
De poetas mal dispostos sem arranjos:
Estou bem mais Arnaldo do que o Antunes,
Mais Arnaldo do que o Dias Baptista,
Mais Augusto que os de Campos dos Anjos.

IJS
__________

DENTRE FACÇÕES

Dentre facções, facões, contrafações,
Colhi pro meu amor uma begônia
E na agonia da espermatogônia
Pintei perfumes fósseis feito ações;
Fui besta e seta aos olhos dos falcões:
Azul a mosca numa mira errônea,
Vergonha enfronha-se fedendo a amônia,
De Navarone soltando os canhões.

Canhoto, fraco, gaguejante, fanho,
Afanador, velhaco, adolescente,
Sinto-me um pulha mas ainda apanho
Da impunidade de quem rouba irmão;
Assim quem sente geme como a gente:
Assim todos os teus serás serão.

IJS

---}--{---

segunda-feira, setembro 24, 2012

PARA CAIR:)

Para cair, chute a queda:
para chutar, lamba os beiços--
caso apareça uma Al-Qaeda
preocupe-se com os óbices.

Mas no caso de um asno no caso,
desde outro desde denteado demônio,
use ônix, safira e, penteada no ocaso,
uma pérola de ofir no estramônio.

Sim, nada mais há a (aha) entender:
reflexos atrasados de pouco adiantam--
antas roem, mães doem, ratos cantam

e os raros que inda extraem prazer
tem que aturar tantas demonstrações:
porém são bons os sons os dons os tons

sem esquecer as rãs tantãs e os meus ronrons...


 */* ... ;]

quinta-feira, setembro 20, 2012

VISÕES DE JOHANNA

VISÕES DE JOHANNA
[Visions Of Johanna, Bob Dylan -- vb: ijs]

Não é a noite exata pra truques quando você só tenta ficar tão quieta?
Sentamos aqui perdidos, mas fazendo o melhor pra não ver isso
E Louise tem um punhado de chuva e atenta você ao desafio
Piscam luzes no apêzão em frente
Aqui cachimbos tossem e acendem
A estação country macia mantém-se
Mas não há nada nem ninguém a quem apelar
Só Louise e seu amante enlaçados tão docemente
E essas visões de Johanna que me ganham a mente.

No galpão vazio onde as damas brincam de gatomia com a chave da cadeia
E as garotas de noite toda sussurram de escapadelas na conexão ligeira
Dá pra ouvir o vigia da noite acender a lanterna
Perguntar-se quem: ele ou elas – quem está louco?
Louise, ela está bem, só está bem perto
Ela é delicada e parecida com o espelho
Ela só coloca cada pingo em seu i
Sobre Johanna não estar aqui
O espectro da eletricidade lhe uiva nos ossos da face
Onde essas visões de Johanna agora vêm encaixar-se.

Já o pequenino perdido, ele se leva mesmo tão a sério
Que se vangloria da miséria, gosta de viver em perigo e mistério
E quando menciono o nome dela
Ele me fala no seu beijo de adeus
Ele certamente tem peito pra ser um inútil tão perfeito
Murmurando coisinhas lá fora quando já estou na sala
Como posso agora explicar a...
Ah é tão difícil até citar a...
E essas visões de Johanna me deixam desperto além da aurora.

Nos museus, o Infinito segue em julgamento
Vozes ecoam que a salvação fica assim com o tempo
Mas Mona Lisa precisa dançar o blues da estrada
Dá pra saber pelo som da sua risada
E a crua parede floreada congela
Quando espirra a mulherada cara de geleia
Ouça aquele de bigode dizer “Meu Jesus,
Já não acho mais meus joelhos”
Ah as joias e binóculos pendurados no pescoço da mula
Mas essas visões de Johanna fazem tudo parecer tão cruel.

O mascate agora fala com a condessa que finge dar bola pra ele
Dizendo “Me conte de um que não é chupim que vou lá e rezo pra ele”
Mas, como Louise sempre diz:
“Nunca dá pra olhar muito em detalhe, né?”
No que ela mesma se prepara pra ele
E Madonna ainda não deu as caras
Vemos essa jaula vazia já enferrujada
Onde a cortina dela já foi levantada
E o violinista já meteu o pé na estrada
E escreve que toda dívida é paga
Na caçamba do caminhão de peixe carregada
E minha consciência explode no nada
As gaitas tocam tons-chaves e a garoa
E essas visões de Johanna são tudo que resta agora.

* * *

quarta-feira, setembro 19, 2012

JÁ ERA: VERÃO

Já era: verão: ou to no inverno?
Foi uma primavera violenta.
As violetas desabrocharam
principalmente pra quebrar o gelo
porque a geada negra veio –
e veio de novo o seu colega granizo
depois de mais um falso verão indiano.

Tudo isso foi naquele mesmo dia.

IJS

terça-feira, setembro 18, 2012

AME & REPROGRAME

(ou: DAS COISAS QUE MARK CHAPMAN DEVERIA ESTAR LENDO EM OUTUBRO DE 1980, EM VEZ DO FAMIGERADO ROMANCE DE J. D. SALINGER)

Ame & Reprograme.
Execute ações invioláveis.
Seja fechado.
Cumprimente a vizinha,
aquela
que mora
ao lado
do pecado.
Aquela
já tem
seu namorado.
Faça algum programa
semelhante
com uma garota
semelhante,
uma garota
bem urbana,
uma garota marginal--
mas nunca assine nada
e acima de tudo
não assassine ninguém
a partir do próximo
final
de semana.

segunda-feira, setembro 17, 2012

FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO

Deixe que o sol sozinho a si palestre
__e as cataratas caiam sem se ouvir.
Veja os turistas vendo a estátua equestre
__co’as aves a ruflar e a refluir.
Façamos estalar o som pedestre
__dos nossos passos desgastando a seguir
o chão de trabalhadores sem mestre
__que calçam’as pedras prestes a fugir.
____A fuga é uma ilusão de quem começa
__a correr sabendo permanecer –
____um ser que pensa que nada interessa
__a não ser talvez que já já vai morrer.
O fim dispensa especialista hebraico
feito esta peça co’este apelo arcaico.

________IJS -- 2004-2012

sexta-feira, setembro 14, 2012

ASSIM VEJO

Assim vejo nosso mundo:
num desejo a mais que fundo---
dum modo imbuído inundo
e
canto deite, dama, deite;
você me faz: faz-se em céu:
você bebendo meu leite
e eu absorvendo seu mel.

ijs a ffr

quinta-feira, setembro 13, 2012

O AMOR É

O amor é um poço profundo
que pode ser poço raso:
nele pula todo mundo e
se estabaca em qualquer caso.

IJS

quarta-feira, setembro 12, 2012

SE EU CRESSE

que o que visse
fosse e viesse
aí talvez soubesse
se você supusesse
ou se ao menos
tudo que apodrece
não tivesse esse
sabor doce tão doce
tão doce feito o espólio
de seringas com pólio
que hoje a maré
nos trouxe.

ijs

segunda-feira, setembro 10, 2012

OS DUENDES, TRASGOS, BRUXOS E VAMPIROS...

de ALPHONSUS DE GUIMARAENS (1870-1921)

Os duendes, trasgos, bruxos e vampiros
Vinham, num longo e tenebroso bando,
Os meus passos de múmia acompanhando,
Por entre litanias de suspiros...

Em tudo eu via os infernais retiros,
Onde ficava sem cessar sonhando:
E Satanás mostrava-me, nefando,
Negros sinais traçados em papiros...

Era, na sombra, o meu destino oculto,
--- Sirtes, penhascos, saturnais, paludes,
Todo o mistério de um funéreo culto...

Mas, de repente, os passos meus, tão rudes,
Firmaram-se no chão, e erguendo o vulto
Vi-me amparado pelas Três Virtudes...

(Pulvis -- em Poesias, Rio de Janeiro, 1938)

digitado e revisto por Ivan Justen Santana

sábado, setembro 08, 2012

O AMOR IMORTAL

Todo amor é imortal.
Quem vai a Roma
não embroma: fatal.

Porém no fim
não diz-- pensa um sim.


ijs a ffr

quinta-feira, setembro 06, 2012

O CORO DOS POETAS MORTÍFEROS

Poetas, somos temidos:
se chatos, gênios ou toscos –
se modernos, carcomidos,
enxeridos, decompostos;
nos detestam uns maridos,
nos valem mais desvalidos,
nos abominam, se lidos,
nos leem mesmo em desgostos;
se concretos, visuais,
quer sem letras, vozes, rostos,
somos monstros naturais
artificialmente expostos;
somos mais que um time em campo:
gamos, bisões, sem manada;
uns sem outros solidários
pros leitores ou por nada.
Morreremos abraçados,
distraídos, algemados,
mas na mesma algema extrema
de quem não temeu seu tema.

IJS

terça-feira, setembro 04, 2012

COMO FAZER DE SI UM IDIOTA FINANCEIRO E INCOMODAR A SI MESMO E A OUTREM

Fique devendo para deus e o mundo.
Empreste de uns para pagar os outros.
Dance cirandas financeiras num segundo
e ache suas copas mais caras que os ouros.

Seja torturado, e calado, por seus credores.
Tolere até que abusem dos seus fiadores.
Continue agindo como se nem mesmo aí
dizendo frases de consolo em tom de não ouvi.

Finalmente, à beira da catástrofe total,
quando a merda já estiver toda disseminada,
fature enfim o numerário---sim: o capital---
e o esfregue neles feito não fosse nada.

ijs

segunda-feira, setembro 03, 2012

CANTO ÚLTIMO [ABSQUE METU ABSURDI]

para Rodolfo Jaruga, futuro pai

Para o diabo odiado já parodiado, Ezra Pound,
este canto aqui é pequeno demais para dois Dantes---

e ainda que fossem só uns quatro provençais pingados,
não sobraria espaço nem na sexta dimensão
da poesia de terceiras intenções
suficiente a mais outra paródia
da tua ezravoz de pound oco cada
vez mais vérica e
feérica
eérica
érica
rica
ica
ca
a
ótica
caótica
muvucaótica---
assim -- .

Assim ... :

antes da morte, sonhemos com vidros grisblaus
de vaga, sussurros de pobre, cego poeta,
vagidos de infantes, suspiros vagaus---

todos os turbilhões e as torvelinhas,
e as torpes linhas, nada, estas escunas,
algumas frases traduzidas

da escrita cuneiforme
ou o que mais
sim forme--

porfiriamente, por fim------.......

nos veremos em Naxos, -- ... !?
sim: ver-nos-emos,
lá, lacem, la ci darem, se lapidassem, dilapidassem, ralassem,
relassem,
sem nexos,
os nossos todos lados, de amplos os sexos:
interdesencobrinexos---
roçando a rezar
extrampando
pelo mais puro lazer---

[...] e o séquito
das tigresas avermelhadas
encantava quem tivesse
a imaginação de as ver......

Asvermelhadas.

;]

IJS [III/IX/MMXII]

domingo, setembro 02, 2012

Snakecharmers...

A ENCANTADORA DE SERPENTES

texto original: Sylvia Plath Hughes
versão escamosa: Ivan Justen Santana

Como os deuses iniciaram um mundo, e o homem, outro,
Assim a encantadora inicia uma esfera serpentina, com
Luaolho, bocaflauta. Ela flauteia. Flauteia verde. Flauteia água.

Ela flauteia água verde até verdes águas tremularem
Com juncosas extensões e istmos e ondulações.
E entrelaçando-se as suas verdes notas, o rio verde

Modela as próprias imagens em volta das canções.
Ela flauteia a si um lugar em pé, mas sem pedras,
Sem piso: uma onda de tremeluzentes línguas de relva

Lhe sustenta o pé. Flauteia um mundo de serpentes,
Gingados e coleios, do fundo serpienraizado
Da própria mente. E agora nada a não ser serpentes

Está visível. As serpiescamas se tornaram
Folha, tornada pálpebra; serpicorpos, galho, busto
De árvore e humano. E de dentro da serpentidade

Ela comanda as contorções que fazem manifestos
Sua serpenteza e poder, com melodias flexíveis
Saídas da sua flauta esguia. Afora deste ninho verde,

Como afora do umbigo do Éden, contorcem-se as filas
Das gerações serpiformes: que haja serpentes!
E serpentes houve, há, haverá – até que bocejos

Consumam tal flautista a qual, cansada das canções,
Flauteie o mundo de volta ao tecido simples
Da serpiurdidura, serpitrama. E flauteie os ofídios panos

A uma fusão de águas verdes, até que serpente alguma
Mostre a cabeça, e aquelas águas verdes de volta à
Água, ao verde, a nada semelhante a uma serpente.

E guarde sua flauta, e empalpebre seu enluarado olhar.


http://fr.wikipedia.org/wiki/La_Charmeuse_de_serpents

quinta-feira, agosto 30, 2012

Presentinhos...

VENHA CÁ, MINHA GATA...

Venha cá, minha gata,
e engatilhe a carabina
da minha língua ingrata;
venha até na chuva, mina,

ser a ninfa do meu ribeiro –
ontem você me fez chover
quase que pelo dia inteiro;
agora vou me declarar

nestas frases descompostas:
eu serei sempre o seu amor,
seu segurança mais pessoal,
o seu maior guarda-costas,

seu eterno, seu só e principal,
homem, monstro, felino, parceiro.
Assim de novo me declaro
todo seu todo, e por inteiro.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

ELE & ELA (ou: ELE TEM TUDO MAS CADÊ ELA?)

Ele sempre aposta tudo.
Ela é bela e estrela a tela
(atenção ao tom agudo:
fá tal tom que a estrela atrela).

Não fosse porém, contudo,
oporem ventos à vela,
assim lho deixando mudo.
Mas se a bela estrela a tela

sem remela e só dá trela
pros que gama em sua umbela,
pros que grava em seu escudo,
nele sempre aposta tudo.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

EU TE JURO, MEU AMOR

Eu te juro, meu amor,
te dizer só frases meigas –
ser quem não sofreu horror,
ser-te as broas das manteigas

– todas coisas sem pendor,
mais que coisas, sem rancor,
mais que meigas, mais que lindas
– mais que até nem furta-cor,

mais que as coisas, tuas vindas...

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

EU ESTOU QUERENDO VOCÊ QUE DÓI

Eu estou querendo você que dói:
estou só fazendo como se fora
um poeta mais seco – morto, embora
vivo, tola e totalmente um herói –
que faria sim qualquer coisa, sim,
se você deixasse que eu a seguisse
– eu faria toda e qualquer tolice,
seria ao fim quase morto: sem fim.
Se você nem soubesse – fosse o que fosse –
do tiro na quermesse, da cara dura,
da fossa escura a mira mais a loucura:
daquela que foice, e se foi: encabulou-se.
Portanto sacuda a poeira e saiba: o carnaval
sempre começa quando alguém lava o canal.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

QUASE SEM QUERER QUERENDO

Tenho andado distraído com isso isso isso.
Eduardo nem Mônica contavam com nossa astúcia.
Todos os nossos movimentos culturais
foram precisamente calculados:
o livro está sobre a mesa
mas quem me dera ao menos uma vez
se aproveitassem da sua nobreza.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

[as vinhetas entre os poemas são trinta e cinco estrelas-asteriscos para celebrar a data natalícia de Faena Figueiredo Rossilho - e os poemas desta postagem são dedicados a ela, com beijos múltiplos...]

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

quarta-feira, agosto 29, 2012

O AMOR E A VERDADE

Encontrei o amor e a verdade
hoje à tarde, na praça central;
descrever sei lá eu quem há de,
sei que rende um Catatau.

Sem jogar suas mãos para o céu,
sem assaltos mortais num beco,
o amor me ofereceu seu chapéu
e ela, um naco de pão seco.

ijs

segunda-feira, agosto 27, 2012

O TIGRE [outradução da estrofe-crânio]

Tigre! Tigre! brilho em fogo
Nas florestas desta noite,

Que imortal mão ou qual olho
Moldar-te-iam tal simetria?


[...]

Ivan William Justen Blake Santana


sexta-feira, agosto 24, 2012

AURORA AUSTRAL

Para quem ama de dia e de noite
é sempre aurora austral.

Ora pois quem viaja para Astrália
(quem viaja, para;
quem para, viaja)
não tem falha nem tralha:
sua carne vale um carnaval;
seu astral, tal e qual;
sua conjunção, sim: carnal;
e assim repetir sequer faz mal---

para quem ama de dia e de noite
é sempre aurora austral:

vale por um fundo mundo
(e uma leitura do Catatau!)...


[no sexagésimo oitavo aniversário de Paulo Leminski Filho; centésimo décimo terceiro aniversário de Jorge Luis Borges --- Curitiba, 24/08/MMXII]

[ __________________________ ;]

sexta-feira, agosto 17, 2012

MEU AMOR:]

eu te amo muito
e te amo mais além

te amo como também
amo
a humanidade
_____________inteira

como eu amo esta cidade
como amo a vazante
e a maré cheia

com a paciência
e a velocidade
dum gato famélico
em meio a ratoeiras

e com muito
mas muito mais
intensidade
que a do ódio
dos que odeiam
as segundas-feiras


* * *

terça-feira, agosto 14, 2012

TRÊS QUARKS

[James Augusta Joyce
Ivan Justen Santana]

--- Três quarks pro Mimostre Marcos!
Certo que os barcos dele já são meio parcos
E certo que todos que tem estão bem além de seus marcos.
Mas, Ó Ceus Corvopoderoso, seria assim tão para lá dos arcos
Vermos o velho babutre a crocitar por largas camisas de marca
E nuns escuros caçando as suas duas calças sujas nos Palmer-
__stown Parkos?

Hohohoho, moulti Marcos!
És o garnizé mais pigarrelante já esvoaçado da noelina arca

E achas que és o talo do galo tetrarca desta grata fuzarca.
Asas, alto! Tristinhoé é um espanto espartano e remarca
Que vai se casar e acasalar e a casa lar dela e escarlateá-la
Sem nunca picapiscar nenhuma pena de cauda nela ou de ala
E é assim que esse chapa fará sua grana e marca (em marcos)!

[FW : 383 : 1-14]

Clica e dá só uma olhada nessa versão do texto original...]

sábado, agosto 11, 2012

NUMA NUVEM DE FLORES ALADAS

Parecia simples a parceria assim animada:
um olhar uma piscadela, uma pupila em brasa em cada
menina dos olhos; -- alguns devaneios verdes de fada
e a vermelha paixão já bebia sua sangria, desatada.

Foram sortes a desafiar vãos entre paredes e escadas,
sinais de afeto e dons e sensações enamoradas,
as maiores dores e seus alívios chegando em manadas,
manás, nadas, damas, danadas, danças, sambas, saladas.

Cai chuva imóvel de cores sobre a paleta da amada adorada:
rigores e amores que emanam,
evolam-se e se irmanam
numa nuvem de flores aladas.


[to _ _ _ _ _ ]
...

sexta-feira, agosto 10, 2012

DEITE, DAMA, DEITE

canção original: Lay, Lady, Lay
Bob Dylan
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
E todas as cores que você quiser imaginar
Te mostro brilhando no fundo do teu olhar

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Fique, dama, fique
Fique com seu cara mais um bocado
Até que nasça o dia
Talvez você lhe diga algo engraçado
Suas roupas são sujas mas as mãos são limpas
E você é a melhor mulher que ele verá na vida

Fique, dama, fique
Fique com seu cara mais um bocado
Pra que esperar que o mundo enfim comece
Você tem o bolo nas mãos: pode comer
Pra que esperar mais pelo seu amor
Se ele está aqui diante de você

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Fique, dama, fique
Fique enquanto a noite é nova canção
Quero te ver às luzes da manhã
De noite sem você até a lua é vã
Fique, dama, fique
Fique enquanto a noite é nova canção

* * *

quarta-feira, agosto 08, 2012

Já que uma vez me chamaram de "Em Vão" Justen...

LOVE IN VAIN
AMOR EM VÃO

Robert Johnson
versão brasileira curitibana:
Ivan Justen Santana

É, eu a segui até a estação carregando uma mala na mão
Sim, eu segui ela até a estação com uma mala na minha mão
É, é difícil dizer, é difícil prever, se todo seu amor é em vão

Quando o trem chegou na estação eu a olhei de frente
É, no que o trem chegou na estação eu olhei ela de frente
É, me senti tão triste, tão só, que acabei por chorar, finalmente

E o trem deixou a estação arrastando duas luzes em corrente
Sim, o trem deixou a estação e arrastava duas luzes em corrente
A luz azul era minha pequena e a vermelha era minha mente
Todo meu amor em vão
Todinho meu amor
Em vão

…………………………………………………..

segunda-feira, agosto 06, 2012

EU TEREI MINHA ALFORRIA

[de Bob Dylan -- canção original: I Shall Be Released
versão curitibana: Ivan Justen Santana]

Dizem que tudo é recomposto
Mas a distância é um longe em si
Assim relembro cada rosto
De quem me colocou aqui
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

Dizem todos precisam de proteção
Dizem que todos vão cair
Mas juro que vejo minha reflexão
Num ponto além do muro aqui
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

A meu lado neste grupo solitário
Um cara jura que é inocente
O dia todo ele grita bem alto:
"Caí num esquema inteligente"
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

* * * *

sábado, agosto 04, 2012

A CHEGADA

é rápida. A alegria também:
chega, acerta, abala, estupefaz,
suspende, surpreende e invade---

já não tem mais pra ninguém:
porque já me orientei, rapaz--
e agora é só felicidade:

depois da partida da amada

mais emocionante
porque menos distante
é sua chegada.

;]

sexta-feira, agosto 03, 2012

BREVÍSSIMA ANTOLOGIA DE VERSINHOS INVISÍVEIS (Clique selecionando a postagem para ler os versinhos)

ao ver que eu não me enxergava
minha anja de resguarda
me deu translúcidas asas


a teia de aranha
numa gruta do vácuo:
até o espaço apanha


eu te amo quando te vejo
mas meu desejo faz isso inclusive
de olhos bem fechados


ijs

;)

quinta-feira, agosto 02, 2012

SUPLICANDO, CONHECENDO, CONVERGINDO

Neste mundo de ilusões e desavenças
Bichos-gentes se iniciam suplicando
Ou aceitam situações até mais tensas

Ou então nonada. Eis senão quando o
Bicho pensa que imagina que conhece e
Conhecendo segue imaginando. Em bando

Muitas dessas ilusões se tornam prece
E assim surgem desavenças, convergindo.
Só nos resta aqui propor: "O que é, o que é: se

Nasce meio feio às vezes morre lindo?"
Tu respondes "Gente" pois também tu pensas
E até aceitas situações mais tensas

Suplicando, conhecendo, convergindo.

_____


GRILO

grilo cricrila

corrimão coração

na mão da axila

<=;>´

quarta-feira, agosto 01, 2012

CHEGA

Chega de paixões fugazes,
chega de incensar já ídolas,
chega de remédios e antrazes
e das cartas de amor rirridículas.

O que vai e vaivém agora--
quem me vem ao encontro e chega
[chega de verdade: e não gora]
quem me atrai-- eu chamo: "Nêga,

minha Neguinha, minha Lili-lalalá--
ó meus os quatros pontos cardeais---
minha aqui---minha ali---minha acolá
minha fáfá-fin-fizinha ultiminha e mais....

ijs
for
ffr

,]

terça-feira, julho 31, 2012

Um coyote uivando faz dez anos: vamos?


O número 24 da revista Coyote, editada de Londrina às galáxias por Ademir Assunção, Marcos Losnak, e Rodrigo Garcia Lopes, celebra o aniversário de dez anos da publicação.

O lançamento nacional será aqui em Curitiba, neste Sábado, dia 4 de Agosto, no SESC-Paço da Liberdade, a partir das 11h, com entrada franca.

Este que vos escreve saiu no número 21, do inverno de 2010.

O Rodrigo deve trazer números deste número também, portanto, para quem quiser aparecer, eu estarei lá e posso autografar minha estreia numa das mais longevas publicações poéticas nacionais de alto gabarito...

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domingo, julho 29, 2012

SE CLIN TON [or: IF CLIN TON =]

Se Clinton inalou e disse:
[and I quote:] "fumei mas não traguei"
eu por mim fujo dessa tolice
mas também confesso: fumo mas não trago.
Levar e trazer é uma coisa meio gay
e [excuse me] me trinca os bago.
Isso talvez até me levasse a compor
um Noturno de um Mago.

Porém: e se George Clinton Jorge Benjor?
E se Carla Bruni Maurice Bèjar?
E se eu soubesse pauta e entendesse de cor,
recitaria de cor e salteado [sendo assaltado]
tudo que em você é melhor e maior
do que qualquer mar,
qualquer mármore
qualquer vagau amor...

Esse poema se estragou, mas vai ficar aqui até postagem em contrário, ou indefinidamente.

Pedimos desculpas aos nossos leitores e leitoras: nem sempre se pode ser um poeta consequente

sexta-feira, julho 27, 2012

SEM PRE

sempre pensando em você
sempre querendo te ver
pensando e querendo
e querendo e pensando
num tema: não tema: você

hoje me senti perdido:
hoje perdido sem ti

mas sempre sempre
pensando em você
me encontrei comigo
e fomos te ver na tela do PC

você sempre me acompanha
e até me faz escrever
diferente do que nunca
diferente em muita manha
diferente até de ler

porque estou sempre pensando
[e você sabe] em você

ijs
to
ffr

=]

terça-feira, julho 24, 2012

MAIS FAMILIARMENTE

"Ele não sabe quem eu sou"
disse ela em voz de dó--
e eu pensei se a alma assou
no enquanto do quiproquó--

enquanto conto contente
como desfazer tal nó:
as ligações obviamente
perigosas são, mesmo só

e não seria tão pungente
se outro diverso fosse o dó--
o dó da voz da mãe da gente--
o dó do bem da minha vó.


Ivan: neto, filho, irmão, tio, pai, sobrinho, amigo, e às vezes até poeta...

segunda-feira, julho 23, 2012

BEBENDO DE MANHÃ

Nossa vida não disputa
__Bebendo de manhã

Uma flor nunca se assusta
__Nas calhas do amanhã

Poetas são araruta
__Ou não me chamo Ivan

E hoje o dia se fez fruta
__Feito o amor se faz romã


Ivan Justen Santana
Ricardo "Syd" Janiszweski

terça-feira, julho 17, 2012

VOCÊ PRECISA

Você precisa me tocar
Qual instrumento musical:

Você precisa ser a fã
De um enamorado total:

Você precisa ser a terra
E eu seu enosigeu* mortal --

Você não precisa mais nada:
Uma pequena dose: e tchau.

IJS

* Enosigeu, epíteto do deus Netuno [Poseidon:], de enosíkhton, "abarcador da terra"
[fonte: HOMERO, Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes; edição de Antonio Medina Rodrigues. -- São Paulo: Ars Poetica / Edusp, 1992. p. 67. n. 62.]

terça-feira, julho 10, 2012

PORQUE VOCÊ SABE

você sabe que
eu sei que
você sabe que eu
sei que você sabe
que eu sei que você
sabe que eu sei que
você sabe que eu sei
que você sabe
que sabe

ijs

[to

ffr

:]

UM DIA ACHEI QUE TINHA ACHADO

Um dia achei que tinha achado a mulher perfeita:
engano meu, pois só depois achei você.

Um dia achei que tinha achado um amor que aceita:
engano meu, e só você sabe por que.

[de ijs para ffr, a vinte e cinco dias...]

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segunda-feira, julho 02, 2012

VINHO DAS FADAS

Estou bêbado do vinho de mel
Da eglantina que a lua deu no céu,
E que as fadas embalam em florpotes.
O arganaz, a toupeira, e os morcegos
Dormem nos muros ou sob o dossel
Do quintal do castelo meio ao léu;
E quando ele encharca a terra, ao verão,
Ou torna os orvalhos mais vaporosos,
Com sonhos cheios de alegre irrisão
Eles murmuram seu gozo em sono; pois
Poucas fadas podem com potes tão novos!

Percy Bysshe Shelley
Ivan Justen Santana

[WINE OF THE FAIRIES]

A LUA: UMA FALENA

A lua desceu hoje na janela
aqui de casa. Tinha um halo: um "moonbow"
[que é quando a gente vê um arco-íris nela,
ou melhor, em volta dela]. Acabou
cedo demais aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela
que é quando a gente vê um arco-íris nela
e é verdade mesmo que já acabou.

Mas aquela palavra, aquele nome
não era o de uma borboleta: letra
a mais faz muita diferença--- E sí-

laba a menos, então?! Até fome some.
E o poema enfeia. Perto dela. Aqui.
---cedo demais!---aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela.
A lua parecia uma falena.
Sim... Falena: borboleta tão bela.
Mas até mesmo a lua e a borboleta
ficariam feias perto dela.

O:) O:)

sábado, junho 30, 2012

NOSSO PRIMEIRO BEIJO

[de IJS a FFR]

foi tenso. E sim, eu adoro um sim,
e sim, nossos sins são do bem,
e sim, eles não são sinsalabins,
mas
sim
sala
bens.

Vem
e vai e vai e vem:
maremotos pervagando os mares,
ondas leviatânicas elevando os oceanos,
submergindo as ilhas, devastando os bos-
ques, desbastando as árvores---
e nós?

Procuramos um só refúgio juntos,
só para modos de o primeiro beijo festejar:
eu e você e você e eu e os nossos assuntos,
a sua nota fá, o meu deslize em I
[sem pingo nem rima, mas agora com par:]

ambos em busca de nosso lugar,

mesmo que hoje este seja apenas
um lar doce bar.

<3

segunda-feira, junho 25, 2012

ENTRE MIM E ELA

entre mim e ela é muito mais que sex
nossa alegria é muito mais que tétrica:
provei-lhe com sabor uva e tex mex
e ela me revelou que eu ronco em métrica

* * * * * * * * * *

quinta-feira, junho 21, 2012

OS AMIGOS

No rapé, no café, e também no vinho,
ao limiar da noite eles se levantam
como as vozes que à distância cantam
sem que se saiba o quê, pelo caminho.

Levemente irmãos de igual destininho,
dióscuros, sombras pálidas, me espantam
as moscas das rotinas, me adiantam
a seguir à tona no redemoinho.

Os mortos falam mais alto: ao ouvido,
e os vivos são mão fraca, teto, jeito,
soma do que é ganho e do que é perdido.

Assim, um dia, sombra em barca cheia,
de tanta ausência abrigará meu peito
essa ternura antiga que os nomeia.


Julio Florencio Cortázar
versão curitibana:
Ivan Justen Santana

quarta-feira, junho 20, 2012

Duas parcerias a seis mãos, neste Bloomsday passado


CANTO MÍTICO

Entre o fato e a dança
Como a criança
Chupeta teta valeta

Cavo sombria bonança
Mal da nau catarineta
No cabo da boa esperança

* * *

EIS EINSTEIN

Na prática, a teoria é relativa:
Somos fruto da engrenagem que nunca para--
Universo em curva---uno verso e cura.

O suco é gástrico---ponta da saliva--
O som só uma nota: a mais rara:
Sol sou luar---realidade pura.


Cristiano Farias
Ivan Justen Santana
Juliano Samways Petroski


Curitiba, Villa Bambu, noite de 16 de junho de 2012.

terça-feira, junho 12, 2012

A TELA TREME BEM DE LEVE

A tela treme bem de leve, porém treme:
tremem com ela a mesa e o teclado--
pronto: acendo um cigarro e logo o apago--
o movimento todo faz uma letra ême:

feito funis em ritmo sincopado
ou feito os seis remos de uma mesma trirreme--
de fato, não adianta comparar, já geme
o fim do quarteto em tom de prelado--

E agora, nos tercetos, quem serei?
Um fã dessas sereias que me encantam?
Ou só mais um naufrágio? Outra manhã?

Ao fim e à nota fá, não sei nem sei.
As outras notas todas já me cantam,
já chegam solfejando: Ivan, Ivan, Ivan...


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sábado, junho 09, 2012

VIRAM MEU CORAÇÃO

Viram meu coração virar por água abaixo.
Ou viram apenas um rim, amigo escuso?
Na caixa dela exatamente não me encaixo:
Uso ou abuso? Abuso ou uso? Uso? Uso.

Viram meu coração saindo aos sete mares.
Seriam mais? Oito? Dezoito? Setecentos?
E quantas seriam as ilhas? E os lugares?
Havia de haver mais: e vieram rebentos.

Viram meu coração depois de três batalhas.
De seis, de nove, dezenove vezes mil:
façam as suas apostas, teçam as mortalhas,
o que ontem sempre foi já vai ao fundo rio.

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domingo, junho 03, 2012

PARA CELEBRAR

Lutando com chuvas, combatendo tempestades,
ao menos um bom banho vou tomar---
decifrando infernos, comovendo Plutos e Hades,
tocando corações de lar em lar.

Batalhas e batalhas e batalhas:
gemendo a Grécia, geme Gibraltar---
cangalhas gralhas tralhas que atrapalhas:
diversas razões para celebrar.

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