terça-feira, abril 09, 2013

Mais Byron, logo antes do arremate do Canto I do Childe Harold's Pilgrimage


PARA INEZ

                   1.
Não, não sorrias a meu cenho,
    Que eu já sorrir posso mais não:
E os Céus evitem que tu venhas
    Chorar alegremente em vão.

                   2.
Perguntas qual secreta dor
    Suporto sobre a Juventude?
E queres, vã, saber sabor
    De ardor que tu curar não podes?

                   3.
Não é o amor, tampouco é o ódio,
    Ou parcas honras de Ambição,
Que deixam podre este meu pódio,
    E me dispersam na amplidão:

                   4.
É o tal cansaço que desponta
    De todos que já ouvi e já vi:
A Beleza me desaponta;
    Teus olhos são sem charme a mim.

                   5.
É o tal eterno tédio fundo
    Que o Judeu Errante aturava;
Que nada vê a não ser a tumba,
    Mas vive agitação escrava.

                   6.
Que Exílio de si mesmo existe?
    A Zonas mais e mais remotas,
E inda assim me persegue o chiste –
    Na Mente o Demo toma notas.

                   7.
Mas outros parecem gozar,
    Saboreando o que larguei;
Ah, possam inda assim sonhar
    Sem acordar como acordei!

                   8.
Por tantos climas vai meu fado,
    Com tantas maldições e dores,
Que meu alívio é este ditado:
    “Venha o que vier, já estive em piores.”

                   9.
Mas quais piores? Nem perguntes –
    Por piedade aqui te abstenhas:
Sorria – as peças jamais juntes
    Do peito humano: Inferno e brenhas.


versão brasileira: Ivan Justen Santana

quinta-feira, abril 04, 2013

O MACHISTE & A EFEMINISTA

I

Era um sonho num consultório dentário,
Dantesco, extravagau, alucinário:

Numa poltrona não namoradeira,
A Efeminista aguardava, à beira

De um ataque de nervos, a sua vez;
O Machiste, também dali velho freguês,

Folheava uma revista fiu-fiu-menina,
Em busca de consolo a sua triste sina.

Entreolhavam-se, de instante a instante,
Amor de fábula, muito inconstante,

Enquanto lá dentro, sentada na cadeira
Quase elétrica do dentista, uma confreira

Submetia-se a um tratamento de canal:
Esperemos que a história não acabe mal.

II

Ninguém suspeitava que o dentista
Era uma orangotanga sofrendo da vista.


ijs

______________________

CHOCOLATES SÃO PRESENTES

*
Chocolates são presentes
mais amargos quando são
envolvidos inocente-
mente em temas sem questão.

Mas a Páscoa já passou---
sexta-feira foi Paixão:
ou nos tomam por mim ou
não sei mais pronome não.

ijs

________________________

terça-feira, março 26, 2013

NOSSOS SÍMBOLOS & EU

*

Nossa terra tem pinheiro: araucária;
Nossa araucária tem gralha: azul;
Miseravelmente interplanetária:
Sorriso se orientando para o Sul.

Nosso poeta – araucária – é polaco;
Nosso contista – gralha –, vampiro;
Não seja eu gralha mas só um Ivan-piro:
Em vão poeta sem curro nem paco.

ijs

...

terça-feira, março 19, 2013

ORAÇÃO DOIS [TRÊS, QUATRO, CINCO, MIL...]

*
Essa é a primeira oração
Pra salvar a próxima geração:
A ração atual de cultura é simplória
E os criticuzinhos não estão prontos pra glória.

Cabem mil vidas inteiras
De quem praticou e teorizou
Sobre todas as mais sérias brincadeiras.
Cabe até o amor que poucos mostram
Enquanto muitos, tantos, se prostram.

Se a alegria já foi a prova dos nove
Agora teremos uma infinita graça
Junto de um sublime que comprove

No seu, no meu, no vosso bar,
No dela, nos deles, em qualquer lar.
Responderão então a este curitibano mar?

Quem poderá controlar?

*

quinta-feira, março 07, 2013

NÃO FAÇA DE MIM SEU PTERODÁTILO

de ijs a ffr

Não faça de mim
seu pterodátilo,
seu cantor anterior
até ao neolítico,
também não seja eu
seu núncio apostólico.

Por você eu me
transformo num Átila,
livro-nos dessa
situação crítica,
deixo até que você
pense em ser católica.

--<-- p="">

QUANDO AMBOS PARTIMOS

George Gordon, Lord Byron. [1788–1824]

WHEN WE TWO PARTED
QUANDO AMBOS PARTIMOS

[First published, Poems, 1816]
{versão brasileira: Ivan Justen Santana, 2013}

WHEN we two parted
QUANDO ambos partimos
  In silence and tears,
  Em silêncio e prantos,
Half broken-hearted
Corações partidos
  To sever for years,
  Longe tantos anos,
Pale grew thy cheek and cold,
Branco teu semblante e frio,
  Colder thy kiss;
  Mais frio teu beijo; 
Truly that hour foretold
Aquela hora sim previu  
  Sorrow to this.
  Triste o desejo. 

The dew of the morning  
O orvalho da aurora
  Sunk chill on my brow—
   Correu frio em mim—
It felt like the warning  
Aviso de outrora
  Of what I feel now.  
   Do que sinto enfim.
Thy vows are all broken,  
Teus votos quebraste,
  And light is thy fame:  
   E leve é tua fama:
I hear thy name spoken,
Teu nome em contraste
  And share in its shame.  
   Já deitam na cama.

They name thee before me,  
Nomeiam-te a mim,
  A knell to mine ear;  
   Som lúgubre soa;
A shudder comes o'er me—  
Tremores por mim—
  Why wert thou so dear?
   Por que foste boa?
They know not I knew thee,  
Não sabem que te vi,
  Who knew thee too well:  
   Conheço-te bem:
Long, long shall I rue thee,  
Sofrerei, sofrerei por ti,
  Too deeply to tell.  
   Não o saiba ninguém.

In secret we met—
Secretos, nos vimos—
  In silence I grieve,  
   Calado, eu lamento
That thy heart could forget,  
Que tenhas te esquecido,
  Thy spirit deceive.  
   O espírito ao vento.
If I should meet thee  
Se acaso eu te vir
  After long years,
   Depois de anos tantos
How should I greet thee?  
Como hei de sorrir?
  With silence and tears.
   Com silêncio e prantos.


*NOTA DE RODAPÉ IMPORTANTE:]
Este poema já foi traduzido em equipe pelos estudantes de Letras da UFPR Anna Beatrice, Juliano Costa, Laura Faraone e Stephanie da Silva, sob orientação do pesquisador Vinícius Barth -- clique aqui pra conferir o resultado -- Devo a eles a solução-base inicial de alguns dos versos, pois trabalhei em cima do texto deles, que saiu num jornal do CAL -- clique aqui pra maiores vistas -- Valeu, gente. Gente? ...


* * * * * * *

sábado, fevereiro 16, 2013

QUEM SABE EU

_
Quem sabe eu
ainda sou
aquele piazinho
cdf e bagunceiro
que usaria plágio
depois cópia elaborada
depois paródia pós-estilizada.

Quem sabe eu ainda
sou aquele adolescentezinho
que foi piá de prédio
mas também piá de bairro
depois músico esqueitista
burro que o pai pensava artista.

Eu não peço a deuses nenhuns
nem que todos me achem ateu
judeu comunista vagau vigarista
piá pançudo sem nem
um pouco de malandragem:

sim: também não conheço a verdade.

Fale pra mim quem você é
e eu te digo
sem vontade
que a vontade
é o preço mais barato
a pagar pela fé.

ijs

...

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

PARA IANTHE


{BYRON, dedicatória do épico A Peregrinação de Childe Harold}
_
    Não nas paisagens onde andei vagando,
    Bem que a Beleza seja lá sem par,
    Nem nas visões ao coração mostrando
    Formas que este suspira só em sonhar,
    Nada de Vero e Mago a te igualar:
    Tendo te visto, buscarei em vão
    Pintar teus charmes vários a piscar—
    Aos que não te observam, meu verso é anão;
Aos que te podem ver, quais rimas bastarão?

    Ah! possas tu ser sempre o que agora és,
    Seguindo um despontar tão promissor—
    Tão bela e pura da cabeça aos pés,
    Na terra a imagem sem asas do Amor,
    E ingênua além do esperado a uma flor!
    Sem dúvida a que agora cerca em muros
    Teus verdes anos, grata ao resplendor
    Contempla os arcos—teus anos futuros—
Iridescentes sobre os céus claros e escuros.

    Fada jovem do Poente! — tenho a sorte
    De superar em dobro os anos teus;
    Meus olhos te olham sem querer consorte,
    Notando que despontas rumo aos céus;
    Feliz, a ti nunca darei o adeus;
    E mais feliz, enquanto corações
    Mais jovens sangrem pelo amor do teu,
    Escaparei ileso de teus dons,
Mesmo que volte sempre o Amor às aflições.

    Ah! que os teus olhos loucos das Gazelas,
    De brilhos bravos, bela timidez
    A conquistar e a provocar sequelas,
    Leiam meus versos e lhes cedam vez,
    Sorrindo a quem em vão te quer talvez—
    Pudesse eu ser mais do que teu amigo:
    Aceita então, ó Moça, sem porquês;
    Teu jovem ser assim ser meu perigo,
E dá a minha coroa um Lírio sem castigo.

    Assim teu nome esteja aqui entrançado;
    E sempre que olhos bons nos venham ler
    Teu nome, Ianthe, aqui sacramentado
    Será o primeiro a ler, sempre a reter:
    Meus dias já contados—reste haver
    Este tributo te atraído à Lira
    De quem te sagra a mais bela de ver—
    O que mais desejar eu poderia?
Se não pôde a Esperança, a Amizade exigia.



{vb:ijs:2013}
________________________

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

PARA UMA CERTA CANDIDATA A NORTE-AMERICANA:

;
Dum chapéu meu sobrou só a caixa.
De outra paixão, nem sobrenome.
Do caratê sobra esta faixa—
Da humanidade, a flor e a fome.
Dos meus carinhos sobro em todos:
Meus próprios céus são meus infernos.
Eu tenho modos: ostrogodos.
Eu tenho meios: pós-modernos.
Dos sentimentos nos compomos.
Reescrevo então um parnasiano,
Pois onde estamos sempre há pomos
E o nosso amor é tão cigano.
__Nós combinamos sem talvez
__Feito este sonetilho inglês.

[de ijs a ffr]

...

sábado, fevereiro 02, 2013

MARMOTA JOYCE YEMANJÁ CURITIBA


Outra vez é o dois de fevereiro.
Outra vez é o dia da marmota.
Outra vez James Joyce, inzoneiro,
Sopra vela e quase ninguém nota.

Hoje é também dia de Iemanjá.
O calorzão faz mais lerda a lesma.
Tantas frases feitas manjo já.
Curitiba nunca é mais a mesma.

...

terça-feira, janeiro 29, 2013

quinta-feira, janeiro 24, 2013

"Temos que estudar Dylan e noite!" [eu, ontem à noite...]

ROMANCE EM DURANGO
(Romance in Durango -- Bob Dylan -- vb: IJS)

Pimenta vermelha no sol de torrar
Poeira na minha cara e na capa
Eu e Madalena fugindo pra lá
Acho que dessa a gente escapa

Vendi o violão pro filho do padeiro
Por umas migalhas e um mocó
Mas já arranjo outro instrumento
E na estrada pra ela eu toco

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Passando a ruína asteca e nossos fantasmas
Cascos feito castanholas batendo no tom
À noite eu sonho sinos pelas torres pasmas
E então vejo o rosto em sangue de Ramón

Fui eu quem atirou nele na cantina?
Foi minha mão na arma a disparar
Vamos lá fugir, minha Madalena
Os cães ladram e o passado morto está

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Numa tourada sentaremos à sombra
Veremos o jovem toureiro por lá, só
Beberemos tequila onde os nossos avós
Trilharam com Pancho Villa até Torreón

O padre recitará em seu velho tomo
Naquela igrejinha lá daquele bairro
Eu com botas novas e brinco de ouro
Você com diamantes no vestido branco

O caminho é longo mas o fim é ali
A fiesta até já começa bem animada
A face de Deus já surgiu, eu vi
Com seus olhos de serpente de obsidiana

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos levará a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto acabará
Logo você dançará o fandango

Foi um trovão esse som que eu ouvi?
Minha cabeça vibra e só dói se eu respiro
Não diga mais nada e sente aqui
Pelo jeito é meu fim, tomei um tiro

Madalena, rápido, pegue a arma
Veja nas colinas aquele reflexo
Mire direitinho, minha pequena alma
Desta noite não passamos, pelo jeito

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

...

quarta-feira, janeiro 16, 2013

SEM PEN SARNA

sem pensar na mosca morta
nessa dor que nos dilata
sem o sol que a sombra entorta
nessa flor dentro da mata
sempre sarna tosca e torta
nessa dor que nos dilata
sempre a carne fraca corta
nessa flor dentro da mata
no calor que a pata enxota
sem som sem sal sem birita
sensei e não estagirita
pata peta pita pota

...

sexta-feira, janeiro 11, 2013

A MEMÓRIA DO MESTRE

*
conta mais o que não esquece--
senta que nem vem a história:
rima fácil, cachorra, o B desce
e foge o A do auge da glória--

sim, a memória do mestre
conhece o de dentro e ode fora
transtorna equestre em pedestre
e em costa sua cabecinha chora

tudo isso causa o avesso do
gosto escasso de um seu discípulo
o qual ousa do gênese ao êxodo
mas no final esquece o título
*

quinta-feira, janeiro 03, 2013

AS QUATRO FACES DO ESGAR

*
Na tradução o sangue engrossa o caldo.
No pensamento a mente se dilata.
Na sorte a concepção repete o mal do
Milênio e por azar a vida é ingrata.
O sangue refluindo esgota o saldo.
A mente rutilando pede a pata.
A concepção ainda é bela e, baldo,
O afã da vida pega, come e mata.

Nem tudo se vincula ao nada em tudo.
Nem todo carnaval me é tudo ou nada.
Até um pateta um dia atenta entrudo.
Se passa ou se não passa uma de cada
Vez, eis citadas as faces do esgar:
Tradução. Pensamento. Sorte. Azar.

*   *   *   *

sábado, dezembro 08, 2012

Dedicado individual e especialmente a cada pessoa que acha não ser possível traduzir poesia (ou, nesse caso, texto poético de canção do Bob Dylan, sem ouvir e ler e entender no original).


BALADA DE UM MAGRO
Bob Dylan: Ballad Of A Thin Man --

Você entra na sala
Com um lápis na mão
Vê alguém sem roupa
E diz: “Quem é esse?”
Você tenta tanto
Mas não compreende
Nem sabe o que vai dizer
Pros espectadores insones
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você ergue a cabeça
Diz: “É aqui que é o negócio?”
E alguém aponta você e diz: “Sócio”
E você: “O que é meu?”
E um outro: “Onde o que é?”
E você: “Meu Deus
Estarei só entre fingidores?”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você entrega o ingresso
E vai assistir à esquisitice
Que vem direto até você
Ao ouvir o que você disse
E diz: “Como é que é
Ser uma aberração dessas?”
E você diz: “Impossível”
Enquanto ele lhe entrega um cone
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você tem muitos contatos
Entre lenhadores natos
Pra obter fatos
Se algo faz você torcer o rosto
Mas ninguém tem respeito
Só esperam do seu jeito
Entregar mais um cheque
De caridade abatível no imposto

Você esteve entre professores
Que amaram seus remoques
Com grandes advogados você
Discute leprosos e escroques
Já passou por todos aqueles
Livros de Scott Fitzgerald
Você os leu e já eram de
Domínio de todos, né?
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, o engolidor de espadas vem
Até você e se ajoelha
E se persigna e se benze
E estala os saltos-agulhas
E sem mais nenhum alerta
Pergunta-lhe o que dá na telha
E diz: “Estou devolvendo tua goela
Grato também pelos fones”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz nem ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Agora você vê um caolho anão
Que grita a palavra “AGORA”
E você: “Por qual razão?”
E ele: “Como fora?”
E você: “O que significa isso?”
E ele: “Você é vaca leiteira
Me dê logo algum leite
Ou sai fora, tetas de clone”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, você entra na sala
Qual camelo, franze a testa
Coloca os olhos no bolso
E o nariz numa fresta
Tinha que haver uma lei
Contra você por perto
Você devia ser forçado
A usar nos ouvidos tampões
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

vb: ijs
...

sábado, dezembro 01, 2012

Mais Lord Byron...

[extraído de Childe Harold´s Pilgrimage, Canto I, de Lord Byron --- versão brasileira: Ivan Justen Santana]

O ADEUS DO INFANTE

1.
Adeus, adeus! nativas costas
__Somem no azul do mar;
Ventos suspiram, ondas postas,
__Guincha a espuma a vogar.
O Sol se põe lá no horizonte,
__Seguimos os voos seus;
Boa noite agora a quem te aponte,
__Terra natal---Adeus!

2.
Daqui a umas horas nascerá
__P'ra dar a Aurora à luz;
E eu saudarei os céus de lá
__Mas não meus chãos tão nus.
Deserta está minha mansão,
__Lareira desolada;
Ervas selvagens no portão;
__Meu cão uivando ao nada.

3.
"Vem cá, vem cá, pequeno pagem!
__Por que choras e gemes?
Tens medo de alguma voragem
__Ou pelo barco tremes?
Limpa estas lágrimas dos olhos;
__Nosso barco é potente:
Nosso falcão despreza escolhos,
__Planando alegremente."

4.
"Zurzam ventos; ondas: avante!
__Não temo ondas nem ventos:
Mas não te espantes, Mestre Infante,
__Pelos meus sentimentos;
Do lar de meu pai eu parti
__Deixando a mãe amada,
Não tenho amigos; tenho a ti
__E ao Pai maior---mais nada.

5.
"Meu pai me abençoou com fé,
__E assim restou contente;
Mas minha mãe sofrerá até
__Que eu volte novamente."---
"Já basta, basta, meu rapaz;
__Teu pranto tem valia,
Deixasse tanto para trás
__Eu também choraria.

6.
"Vem cá, vem cá, meu bom feitor,
__Por que pálido estás?
Temes por francês malfeitor
__Ou pelo barco audaz?"---
"Achas que só por mim lamento?
__Ó Infante, não sou fraco;
Na esposa ausente o pensamento
__Comove até um velhaco.

7.
"Esposa e filhos meus deixei
__Lá à borda do teu Lago,
Se eles chamarem por seu pai
__O que ela há de falar?"---
"Já basta, basta, meu feitor
__De dor justa e pesada;
Pois eu, que trago leve o humor
__Fujo dando risada.

8.
"Pois quem confiava nos gemidos
__De esposa ou namorada?
Secam olhos já umedecidos
__Por nova paixão dada.
Por prazer morto não me enluto,
__Perigo não me assusta;
A grande dor pela qual luto
__Lágrima não me custa.

9.
"E agora aqui sozinho estou
__Sobre este vasto mar:
Por que grunhir por outros vou
__Se a mim não vão chorar?
Talvez meu cão se queixe em vão,
__'Té que estranho o alimente;
E se eu voltar noutra estação
__Ele me crava o dente.

10.
"Contigo, barco, eu vou veloz
__Sobre a campa marinha;
Nem ligo aonde vamos nós
__Se não de volta à minha.
Bem-vindas, ondas, vindo eternas!
__Sumindo aos olhos meus;
Bem-vindos, desertos, cavernas!
__Terra natal---Adeus!"

sexta-feira, novembro 30, 2012

VARIAÇÕES MAIS OU MENOS PRÓXIMAS DO LIMERICK 'THERE WAS AN OLD MAN OF PERU', DE EDWARD LEAR (1812-1888)

There was an old man of Peru
Who never knew what he should do;
So he tore off his hair,
And behaved like a bear,
That intrinsic Old Man of Peru.

____5
Havia um velhinho silvícola:
Cultivava uma dúvida ridícula;
__Então raspou a cabeça
__E urrou bem à beça
O intrínseco velho silvícola.

____4
Era uma vez um velho homem
Cujos vacilos já o consomem;
__Resolveu ser careca
__Feito urso que impreca
Idiossincrático, velho homem.

____3
Havia um ancião incapaz
Pedindo a um rapaz inca paz;
__Sem dúvida ignorava
__Sua situação escrava
De ancião, inca, incapaz.

____2
Era uma vez um velho de Madagascar
Que não sabia nem polir e nem lascar;
__Então voltou ao Neolítico,
__Realizando estudo crítico,
Aquele velho da ilha de Madagascar.

____1 
Havia um velhinho do Peru:
Sem saber o que vestir, andava nu;
__Depilado fez discurso
__E comportou-se como um urso
Aquele intrínseco velhinho do Peru.

versões brasileiras:
Ivan Justen Santana

*  *  *

terça-feira, novembro 13, 2012

MÃO PATA


Se era a vida andando estranha ou
Se eram latas no porão,
Macaquinhos pelo sótão,
Borboletas nem se notam,
Galunfantes, como não?
Mas se a vida andava estranha
Nem se a aranha arruína a Espanha
A espada é pena ao violão?

Só essa vida andando estranha e
Borboletas pelo sótão:
Macaquinhas que se socam!
(E uma gata no porão:
Só uma gata, e só esta gata,
Úmida, serena gata
Amaciando minha
Em sua: dela: pata: mão...

[de ijs a ffr]
____< 3____

domingo, novembro 04, 2012

NÓS (CANÇÃO NÚMERO DOIS PARA FAENA)


perdemos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos

queremos
ciganos
sabemos
arcanos
derrames
de sangues
nos mangues
nos becos
trememos
nos mesmos
abismos
extremos
gememos
gingamos
choramos
perdemos

gramamos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos


[harmonia: Am Em F G Abº -> Am]

sexta-feira, novembro 02, 2012

DESESTRELADO


A estrela que brilha forte
Cai do céu de encontro à morte.
Quer saber o que é o amor?
Astro enfiado no fedor.

Ele é feito um cão sarnento
Que se espoja na sujeira.
Porca grunhe, galo canta,
E ele exclama em sua lama.

Ah, se eu fosse nesta rocha
Onde a amada desabrocha,
Onde eu sonho a terna sova:
Minha e dela em mesma cova...!

Heinrich Heine (1838)
Ivan Justen Santana (2012)

texto original: UNSTERN

Der Stern erstrahlte so munter, 
Da fiel er vom Himmel herunter. 
Du fragst mich, Kind, was Liebe ist? 
Ein Stern in einem Haufen Mist.

Wie 'n räudiger Hund, der verrecket, 
So liegt er mit Unrat bedecket. 
Es kräht der Hahn, die Sau, sie grunzt, 
Im Kote wälzt sich ihre Brunst.

Oh, fiel ich doch in den Garten, 
Wo die Blumen meiner harrten, 
Wo ich mir oft gewünschet hab 
Ein reinliches Sterben, ein duftiges Grab!

FONTE: CLIQUE AQUI

quarta-feira, outubro 31, 2012

VENDAVAL NUMA CANÇÃO

Teu amor na treva: estrela,
no silêncio: melodia,
na brisa: a calmaria
abrigo: no furacão,
céu: poema: noite negra:
vendaval numa canção.


de ijs a ffr

segunda-feira, outubro 29, 2012

NÃO VAMOS MAIS PRA BALADA (mais uma do Lord Byron)

Não vamos mais pra balada
__Tão tarde, na madrugada,
Bem que o peito ainda nos bata
__E a lua ainda vague, alta.

Se a espada gasta a bainha,
__E se a alma desgasta o peito,
Cansa um corpo que caminha,
__E o próprio Amor dorme em leito.

Bem que a noite a amar foi dada,
__E o dia retorne em regra,
Não vamos mais pra balada
__Sob a luz da lua negra.

texto original de Lord Byron:
So We'll Go No More A-Roving ---

versão brasileira e notívaga:
Ivan Justen Santana

*  *  *

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA COM UM CRÂNIO HUMANO

(texto original: Lord Byron ---
versão século XXI:
Ivan Justen Santana)

Não te assustes! Aqui estou, em copo e alma;
__O único crânio (sem remédio)
Do qual, diverso da mente humana,
__Flui tudo menos tédio.

Vivi, amei, bebi, tal como tu:
__Morri: que a terra não me tenha;
Enche-me!--- já estou mais que nu;
__Antes teus lábios que os da tênia.

Antes ser taça a um bom espumante
__Que berço a um verme enroladinho;
Correr de boca em boca, sempre avante,
__Esquivo aos répteis, levando vinho.

Aqui talvez brilhou meu cérebro:
__Agora aos outros brindarei
E após---ó vida!---voar meu gênio
__Trago comigo vinhos de rei.

Bebe tu enquanto podes: outra raça,
__Quando restarem só os teus ossos,
Talvez também os tome e faça
__De ti uma taça e versos insossos.

Então por que não? Se a vida é breve
__E os nossos crânios já estão cheios disso,
Longe de argilas e beijos de vermes,
__Cumpram também tal sacro ofício.

...........................................................

Subitamente, numa segunda-feira de releituras, redescubro este poema:

A LAGARTIXA

Álvares de Azevedo (1831-1852)

A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão dos teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores,
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis dos teus amores.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol dos seus olhos namorados,
Como ao sol do verão a lagartixa.

*  *  *

sábado, outubro 27, 2012

Um soneto de Guido Cavalcanti (1258-1300)

Tu tens a flor e o verdor
E o que luz e é belo ao ver;
Resplendes qual sol maior:
Quem não te vir vai perder.

Neste mundo não há flor
Tão bela, nata ao prazer,
E ao te ver perde o temor
Quem ao Amor quer temer.

As Damas que te acompanham
Me agradam por teu amor;
Peço a elas, se te ganham,

Que te honrem com justo ardor
Pois dentre estas que te banham
De graças és a melhor.

versão brasileira: Ivan Justen Santana

* * *
Seguem a tradução feita por Ezra Pound e o original de Guido Cavalcanti:

THOU hast in thee the flower and the green
And that which gleameth and is fair of sight,
Thy form is more resplendent than sun's sheen;
Who sees thee not, can ne'er know worth aright.
Avete ’n vo’ li fior’ e la verdura
e ciò che luce od è bello a vedere;
risplende più che sol vostra figura:
chi vo’ non vede, ma’ non pò valere.

Nay, in this world there is no creature seen
So fashioned fair and full of all delight;
Who fears Amor, and fearing meets thy mien,
Thereby assured, he solveth him his fright.
In questo mondo non ha creatura
s’ piena di bieltà né di piacere;
e chi d’amor si teme, lu’ assicura
vostro bel vis’ a tanto ’n sé volere.

The ladies of whom thy cortèconsisteth
Please me in this, that they've thy favour won;
I bid them now, as courtesy existeth,
Le donne che vi fanno compagnia
assa’ mi piaccion per lo vostro amore;
ed i’ le prego per lor cortesia

Holding most dear thy lordship of their state,
To honour thee with powers commensurate,
Sith thou art thou, that art sans paragon.
che qual più può più vi faccia onore
ed aggia cara vostra segnoria,
perché di tutte siete la migliore.

Fontes:
POUND [clique aqui e busque o Sonnet XV]
CAVALCANTI [link Wikisource]

Cid, Fernão, Ivan, Sérgio e Márcio, trinta e poucos anos atrás...


O AMOR, DE NOVO

O amor
é uma flor

que racha rocha,
machuca madeixa
e deixa
bochecha
roxa.

---<--{@
...

}{


(de IJS a FFR)

quinta-feira, outubro 25, 2012

O MITO DO MITO DO ERA UMA VEZ

Existe um mito do mito
do era uma vez:
disto estou certo
e convicto aqui eu
me declaro a vocês:
até a tecla mute
é usada no rito
o qual condiz,
por sua vez,
e universal será,
posto que aflito,
tal mito que admito
e enfim finito grito:
já era uma ou duas
mas nunca mais que 3.

*  *  *

terça-feira, outubro 23, 2012

Um soneto de Joachim Du Bellay (1522-1560), curitibanizado por Ivan Justen Santana (1973 - )...

FELIZ QUEM, COMO ULYSSES, FEZ BELA VIAGEM...

Feliz quem, como Ulysses, fez bela viagem,
Ou como este outro herói, o vencedor Jasão,
Que, ganho o Velo de Ouro, volta com razão
A viver entre os seus, em sua prima paisagem!

Quando inspirarei, ai, da minha Vila a aragem,
Seus cheiros, chaminés? E em qual verão que tarda
Reverei o arvoredo da pobre mansarda,
Minha Província, onde levo em tudo vantagem?

Bem mais me agradam céus caingangues, botocudos,
Que dos paços de Roma os frestões e os veludos:
Bem mais que o duro mármore a poeira urbana,

Bem mais meu rio Belém que o Tibre dos latinos,
Bem mais Serra do Mar que Montes Palatinos,
Mais que maresia a brisa curitibana.

texto original: Joachim Du Bellay
versão paranaense:
Ivan Justen Santana
__________________________________________

sábado, outubro 20, 2012

Emiliano Perneta (1866-1921), dialogando com Satanás (?-?)...

CHRISTE, AUDI NOS

A Dario Vellozo

“Meu Senhor, meu Senhor morto, a Teus pés feridos,
Junto ao Teu coração, que sangra e luz, enfim
Eu me prostro, e ajoelho os meus cinco sentidos
– Cinco feras, Senhor! – Tem piedade de mim!”

– “Tu desejas que aos céus, e como estrelas de ouro,
Vá teu Verso insculpir a Mágoa e a Dor cruel,
Para que o mundo, ouvindo o deslumbrante coro,
Do teu Orgulho veja a Torre de Babel.

A ânsia mortal conténs de uma árvore maldita
Que, estéril, sob o sol, flor nem fruto produz,
E, presa à Terra, em vão os braços torce e agita:
Sugam-lhe a seiva e a polpa as ventosas da luz.

Buscas, mas só porque do ‘novo’ o aroma exala,
O crisântemo azul de uma Quimera vã...”
“Surdo! Senhor, sê surdo! É o Demônio quem fala!
É o Blasfemo! É Satã!... Livra-me de Satã!

Creio. Desejo crer. O Invisível fulgura...
A Ciência é um pobre monge estudando o ABC.
Desse Enigma feroz e dessa Luz obscura
Tremo. Quem sou? Quem és? Um Mistério!... Por quê?”

– “Mentes. Tudo isso é pura obra do teu Orgulho.
Tu não crês!” – “Ó cruel, cala-te! Eu hei de crer.
Hei de crer, apesar desse negro marulho
Do teu ódio crescente, abominável Ser!

Hei de crer nessa Mãe Misericordiosa
Que à minha sede o peito oferece do Bem,
Pois vi rolar, rolando em vaga tonitruosa,
Tudo quanto eu amei nos escombros do Além!...

Hei de crer...” – “Não crerás! Não hás de crer mais nunca!
A descrença, infeliz, é como o bronze cru:
Não torce. Eu arranquei a luz dessa espelunca...”
– “Ó maldito Satã!” – “Maldito serás tu!”

“Tem piedade, meu Deus, da lôbrega miséria,
Do veneno animal e da infâmia feroz
De quem Te pede, ó Justo, a paz do Sonho, etérea,
Com angústia no olhar, com soluço na voz!

Do óleo santo do Teu perdão magoado ungi-me,
Dá-me forças, Jesus! Dá-me alento, Senhor!
Para que eu não sucumba ao peso do meu Crime
Antes de ter gozado o verdadeiro Amor!...”

– “Alma, dentro de ti mora um triste coveiro,
Mudo e gelado, como num tanque a boiar...
Sentes-lhe o peso enorme!...” – “Eu faleço, Cordeiro!
Vinho, divino Vinho! Embriaga o meu pesar!

– “Sobre o teu coração dobra angustioso o Remorso,
O Desespero grasna um rouco Cantochão.”
“Em vão, em vão, Senhor, em vão é que eu me esforço
Para deixar de ouvir o clamor da Aflição.

Eu sou triste, Senhor! Triste é a minha existência.
Minha tristeza é bem como a lepra de Jó.
Não resplandece mais a real magnificência...
Tem piedade de mim, meu Senhor! Estou só.”

– 1897 –

Fonte:
Poesias Completas de Emiliano Pernetta
Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde, 1945
[volume II, pp. 100-102].
Texto transcrito e atualizado por Ivan Justen Santana.

*  *  *

quarta-feira, outubro 17, 2012

NOWA CONJURLGASÇÃO: VER BO TER

eu tenho pinto
e nunca minto

tu tens boceta
e queres treta

você tem acento
e um pau lhe assento

ele tem olhos
e frita os miolos

ela tem cabeça
e é boa à beça

nós temos nada
e tememos tudo

a gente é agente
e atrás tem frente

vós tendes dó
e virastes pó

vocês têm sexo
e circunflexo

eles têm elas
e pra quê mais?

ijs

terça-feira, outubro 09, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

DE PLEITO ABERTO

De pleito aberto sangram os candidatos
___E as candidatas gemem.
As urnas, dentro os óvulos ingratos,
___Recebem os votos: sêmen.

Numa elegia a quem não se elegia,
___Transmudam-se de lado
Os marqueteiros de quem já dizia
___O rei está pelado.

Num último e desesperado apelo
___Propõe-se anulação.
Frágil sufrágio: pode-se empreendê-lo
___Porém prendê-lo não.


______IJS

quarta-feira, outubro 03, 2012

DE PLECTRO ABERTO

Um verbo que você não conheça.
Um verso que ninguém esqueça.
Um pé no lugar da cabeça.

Um P da palavra mais certa
que eu busquei no teu grito de alerta:
nosso caso é uma porta---entre!---aberta.

Nosso amor sim deu certo:
bobo, quieto, tranquilo, esperto---
todas as cores do espectro

de plectro aberto.

*/*
ijs

MÁDIDAS FRESCURAS

Mádidas frescuras: hírcicas contrações.
Espasmos módicos: cáries ósseas de más tenções.
Hastes, trastes, contrastes:
hibridismo nas quantias: e a miséria de acha vero.
Mergulhos intrauterinos: ultrainteriores.
Fuligens na pelugem: gen de nucleotídeo.
Mitos e côndrias, para que vos quero!
Inequações aproximadamente iguais: há zero.

ijs

*/*