quinta-feira, maio 15, 2014

A ANGÚSTIA DA EXISTÊNCIA

(Um poema-ensaio-anseio paranaense)

Disseram que não existe cultura paranaense.
Que a cultura paranaense não tem passado nem
presente nem futuro. Escreveram isso ali,
na rede social.
E é verdade mesmo, pois quem escreveu
é um dos mais notórios fabricantes de
cultura paranaense.
E a cultura paranaense é mais que consistente:
é paraconsistente: não existe e existe –
ocupa e não ocupa dois ou mais lugares
em mais de uns sete ao-mesmo-tempos
no espaço de infinitos lugares nenhuns:
sim, está bem ali.
Olhem só: vocês não sabem o que é:
e está bem por lá:
é a cultura paranaense.
Cultura de uma gente que sabe dizer quem não é.
Sabemos e estamos até cansados de dizer que não.
Outra fabricante de cultura paranaense definiu:
“em Curitiba, os dez mandamentos se resumem a um:
não” – pois é: sim, paranaense não é só
o curitibano que não se enxerga no espelho
do banheiro de manhã – olhem mais ali,
logo ali, em Londrina: Londrina nasceu ontem,
não pode existir, não fica no Brasil: portanto...
É paranaense.
Sim, pode até ser um drama pro Domingos
Pellegrini, que certamente se dependesse dele
moraria num estado chamado Iguaçu,
com capital londrinense – a capital: talvez Foz –
enfim, é outro fabricante de cultura paranaense:
não existe, logo está ali, nesse nosso estado –
e já que estamos citando nomes, não espalhem:
não existiu um compositor musical
chamado Brasílio Itiberê, ali de Paranaguá,
que compôs uma certa “Sertaneja”, música
precursora da mistura de elementos clássicos
com tradição popular – mas cadê essa “Sertaneja”?
Ninguém sabe, ninguém ouviu – portanto:
existe: é paranaense.
Vamos passar à arquitetura:
“o estilo arquitetônico predominante durante
o ciclo do mate, quando Curitiba deu um salto
civilizatório, foi o eclético” – sim, eclético, mas
o que é isso? É o que não é – é a mistura das coisas
que são, portanto, novamente:
paranaenses.
Vamos lá, vamos aprofundar mais ao nível pessoal:
estava eu (até que demorei pra falar de mim, não?
enfim, agora aguentem...) mediando e organizando
um evento bem paranaense: o Bloomsday – sabem,
o Bloomsday, sobre a obra daquele escritor irlandês
James Joyce, que escreveu um livro que não tem ponto
final (epa, claro que tem – então, devia ser algo bem
paranaense), sabem, né, então, estávamos naquela
livraria paranense chamada Fnac, sabem, e eu
fui babaca –
opa, vamos parar: você, Ivan, foi babaca?
Sim, pois é: estava na assistência
(querem coisa mais paranaense que chamar
quem assiste de assistência? – enfim, vamos lá,
Ivan, demorou com a história) estava na assistência
um grande escritor paranaense: Cristóvão Tezza –
ué, mas ele não nasceu em Lages?
Exatamente: eu fui babaca de “brincar” que o
Tezza não podia ser um escritor paranaense –
e enfim, meio que me justificando:
nunca fomos ali tão paranaenses:
a livraria era francesa, o escritor homenageado,
irlandês – mas o nome do shopping, apesar de “park”
era (é) Barigui.
Tá aí.
Podemos ser curitibabacas o quanto nossas falhas
permitam – e gostamos de fazer esses meas-culpas,
pelo menos eu por mim estou gostando disso,
eu que sempre-nunca me orgulhei
de ser curitibano de pai e mãe curitibanos,
e pra meu próprio horror-amor um dia descobri:
se aqui somos alguma coisa,
somos todos (e todas) tingui,
tinguis, tupis, nos nossos topônimos
estão essas “nossas” (com e sem aspas)
origens: Curitiba, Guarapuava, Maringá,
Paraná – pois é: dizem que até nem mesmo
o nome desse estado foi escolhido aqui,
mas está aí, nosso, e nosso de quem,
meus caros e caras pálidas?
O negócio é que o adiantado da hora
me obriga a seguir atrasando e incomodando –
e também me desculpando: Domingos,
nada pessoal: os paranaenses que acham que se
sabem minimamente paranaenses
gostam de que você exista,
tenha seu jeito e suas opiniões:
com o perdão da intimidade
(imperdoável aos curitibanos, mas perdoável –
porque inexistentes – aos paranaenses),
o teu sobrenome de imigrante, Domingos,
é o mesmo sobrenome de Kolody,
de Leminski, de Trevisan, de Karam,
de Bueno, de Wojciechowski, e até do
França – sim, do Alexandre França,
esse grego curitibano que agora resolveu
morar em São Paulo – do mesmo jeito
que aquele Carlos Careqa, que mantém
essa nossa cultura bem paranaense:
que não existe, está aí, não incomoda,
incomoda –
e ninguém nota.
Aliás, alguém aí
ouviu falar da Ada Macaggi?
Então, lá
em Paranaguá,
políticos confundem Júlia da Costa
com Júlia Wanderley
nas inaugurações de bustos de praças,
portanto: sim, existe
a cultura paranaense,
existiram e existem e existirão
Arrigo Barnabé,
Itamar Assumpção,
que são lá de Londrina,
de Arapongas, ou não –
voltando aos mais paranaenses
lá de Santa Catarina, como não:
se por lá existe uma cidade chamada
Curitibanos, que quem nasce lá deve ser o quê?
Curitibanense? Ou não existe: ou melhor: sim:
paranaense.
Uma cultura que se deseja assim nenhuma,
apagada, emprestada, que quer ser outra
ou adota fácil o que “vem de fora” mas
nasceu logo ali, ali nesse nosso mundo,
tão inexistente e paranaense – enfim:
vamos a mais um descarrego pessoal,
que isso aqui é um poema inexistente,
uma coisa típica paranaense:
alguém aí já viu uma gralha azul
plantando uma araucária?
Que angústia mais angustifólia –
sinto como deve ser essa saudade,
estou escrevendo esse ensaio-anseio também
pruma certa paranaense
que agora está vivendo nos “esteits” –
Xanda Lemos, veja só, que vergonha,
me perdoe a menção – mas vamos rápido
a um corte pra falar de inimizade, calma aí,
que esse treco tem que ser mais polêmico,
então reservem a Xanda e sua banda – e também
a banda Mordida, e quem sabe nessa enrolação
eu também deva mencionar um certo xará,
o Ivan Rodrigues, filho daquele Ivo Rodrigues,
daquela banda, o Blindagem, a Blindagem, enfim,
eu sei, vocês não conhecem, não existe, pois é:
paranaense, demasiadamente paranaense.
Mas estou perdendo o pé:
eu ia falar dum amigo curitibano meu,
um camarada aí, o Márcio Renato dos Santos –
sim: esse também – publicou recentemente
um livro-dicionário sobre Curitiba:
vejam lá, leiam: eu não li (ainda),
sou um tremendo curitibabaca,
mas soube que no livro o Márcio diz
que “autofagia” não existe, que os curitibanos
são na verdade muito críticos e exigentes,
vejam só então:
não é perfeito, perfeitamente
paranaense? –
nos negamos com facilidade:
e aí nesse negamos podemos
até negar que somos “um Brasil diferente”,
e também dizer que não houve escravidão aqui,
e promover esse apagamento duma mestiçagem
duma negritude
que possivelmente vamos ter muita vergonha
em confessar – afinal:
paranaenses, percebem, não existimos,
não temos nem mais a nossa própria
maledicência, está se perdendo...
E o sotaque? Qual sotaque?
Agora está virando mais marcadamente
uma fala acaipirada, porque não, de jeito
nenhum somos caipiras, somos esse
experimento de “primeiro” mundo,
não é mesmo?
Somos essa tentativa
de não ser jacus
que acaba sendo ainda mais jacu:
vide os socorros batéis...
Enfim,
como sempre,
restou muito a ser dito –
quase fiquei ainda mais aflito,
e se é poema também tem que ser
alguma forma de grito – mas tolerem,
que é um modo curitibano – e paranaense,
de ser assim tímido, calado, quieto,
mas de repente flutuante – pois é:
de fato – ultimamente sentimos que
estava acontecendo algo,
que as pessoas (muita gente vindo de fora,
querem algo mais contraditoriamente
paranaense?) estavam mais simpáticas,
mudando, se enturmando –
e realmente – mudamos pra novamente
voltar a amaldiçoar nossas angústias
de existência inexistente,
e agora – ei, e agora, você nem falou
das artes plásticas, do problema do grafite,
da oficialidade versus o vandalismo,
e já vai indo?
É, meu caro Ivan:
a sua loucura não é mais
nem menos paranaense
que a de todos esses que nem fazemos
uma identidade cultural homogênea:
quem sabe com toque de gênio,
ainda com algum oxigênio pra queimar, mas –
não, não existimos como povo,
o Brasil não é isso, nada é assim,
a rima até que é fácil nesse fim,
e você com essa mania de “sim”
quem sabe faça sorrir algum querubim
se não se esquecer de dar à amada um quindim
de um versinho apaixonado e nada chinfrim,
mas outra vez enfim,
volte pra sua tese, não existe cultura paranaense,
não tem jeito, não adianta, esquece,
já bastou, de novo: fim.

Nos vemos todos lá no MON,
na exposição
do João
Turin.


...

terça-feira, maio 06, 2014

Revisão rápida do domingo passado no Instituto Neo-Pitagórico

Foi ótimo visitar novamente o Templo das Musas, rever o presidente Anael, conversar com o Manoel Anísio e a Eliane Martins, e participar do sarau poético organizado pela Andréia Carvalho, que faz parte da turma poética da revista virtual Mallarmargens -- bom também conhecer pessoalmente o jovem Caio Tardelli, que tem publicado belos artigos sobre poesia simbolista nesta revista. E bom também ouvir poetas daqui, dali e de lá, alguns considerando Rimbaud um precursor do simbolismo, outras afirmando que Alphonsus, Cruz e Sousa, e Eduardo Guimaraens são a "trindade" simbolista brasileira [do Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro dá pra extrair umas trinta trindades, sendo que a "paranaense" seria formada por Emiliano, Silveira Neto e Dario, com Adolfo Werneck, Ricardo de Lemos e Ismael Martins na "reserva", e pelo menos mais umas três trindades possíveis...] -- Enfim, o Simbolismo é flexível e permeável mesmo: em certo sentido, toda poesia é simbolista, pois é feita com palavras, esses símbolos tão icônicos e indiciáveis, não? Enfim de novo, a foto aí foi feita pelo Decio Romano.

sexta-feira, maio 02, 2014

Os últimos dois textos do meu irmão aqui

Neste fim de semana completam-se quatro semanas da morte do meu irmão Cid Justen Santana. Resolvi registrar aqui mais dois textos. Não são os últimos dele, mas os últimos que vou postar aqui. Eu não ia postar a crônica, A Noite de um Dia Difícil, porque é prosa, e porque quando digitei achei que o texto não estava tão bem realizado quanto poderia. Bobagem crítica da minha parte: foi escrito em 1987, quando o Cid tinha 16 anos incompletos, e também selecionado para o livro do concurso literário do Positivo daquele ano. O Cid emplacou quatro anos seguidos sendo selecionado e premiado nesse concurso, de 1985 a 1988.

Segue aqui também o Ascensão e Declínio, escrito em 1985. É o primeiro poema dele selecionado no concurso, que resultava (parece que isso acontece até hoje) na publicação do livro Palavra Viva. Poema de um piá de 13 para 14 anos. Ascensão e declínio. E eis a postagem final de tributo ao meu irmão. Valeu, Cid!

***

A Noite de um Dia Difícil

Dias difíceis todos nós temos. São quando o relógio trabalha mais do que nós, ou quando o supermercado está cheio, ou quando a energia acaba. No mais, ligamos a ignição do carro e voltamos pra casa, tendo o cuidado de desligar o rádio quando começa o informe estatal.

A noite de um dia difícil é diferente, repleta de pensamentos. Mesmo que os computadores não queiram, quando algo diferente acontece, nós começamos a pensar. E eu penso.

Penso que não sei se as pessoas continuarão a correr inescrupulosamente atrás do dinheiro, como única alternativa pra uma sobrevivência decente. Somos escravos das horas, do patrão e do "descanso semanal remunerado". O egoísmo e a ambição desunem os homens. Todos correm todos os dias atrás de todo o dinheiro que possam conseguir. Uns poucos andam mais devagar, loucos ou divagadores, ou catadores de lixo. Os carrinhos de madeira não são leves... Os transeuntes fogem apressados dos monstros metálicos que fomos nós mesmos que inventamos porque não sabemos mais andar. Até dar um acidente. A multidão que se forma pra ver um acidente de carro não é muito diferente da legião de formigas que se forma em volta de um gafanhoto morto. E chegamos em casa e acendemos os fios de tungstênio e cobre. Às vezes uma sirene distante indica que houve mais uma desgraça na cidade. Acendemos a televisão instintivamente, mesmo que não queiramos ver televisão. É porque é moda, porque amanhã no trabalho vão comentar o capítulo de ontem que é o hoje amanhã. Afinal as pessoas gostam de conversar e não gostam de contas, e vão pra festas onde se esquecem das contas, bebem acima da conta e falam de assuntos que não são da sua conta. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

O bicho-homem se esconde na sua toca. Ainda há lá alguns buracos pra sabermos o que está acontecendo lá fora, e pras pessoas se suicidarem com toda a comodidade e segurança. À noite, servem também pra se olhar pra lua prateada, que serve pra lembrar que ainda estamos na Terra e que já houve homens cuja única preocupação era caçar antílopes e olhar pra lua. Esses instrumentos pra ver através das paredes chamam-se janelas. Janelas. Pontinhos brilhantes no céu da noite. Cada um deles é uma pessoa, uma realidade que eu não conheço. Vemos milhares de pessoas todos os dias e milhares de pontinhos todas as noites e não conhecemos ninguém. Somos apenas mais um semblante, mais uma janela. "Janela" não é uma boa palavra pra se terminar uma frase. Não tem ritmo, não é musical. Mas hoje em dia as músicas, que são mais importantes que as poesias, são muitas vezes meros amontoados de acordes permeados de gritos e convulsões, sem lógica ou uma idéia a transmitir. Servem pra que as pessoas se amem em salões chamados danceterias, se mexendo pra lá e pra cá como se tivessem maleita ou quebranto. É porque querem parecer charmosas, querem ser aceitas pela sociedade do consumismo, do imediatismo e do belo. Estamos tão consumistas que julgamos poder fazer as coisas sumirem, desaparecerem apenas porque não nos servem mais. Jogamos algo no lixo querendo que se desintegre, que os átomos desapareçam, contrariando a própria Lei de Lavoisier. Nessa sociedade imediatista, a forma vale mais que o conteúdo, o hábito faz o monge. A sociedade nos impede de sermos nós mesmos. A sociedade nos transforma em robôs. Bip, bip... você já lubrificou suas engrenagens hoje? Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

Temos fitas em nosso videocassete e livros em nossa biblioteca com figuras de árvores, selvas, bichos e cores. E quando nos cansarmos podemos olhar pela janela e ver prédios e flores brotando do chão. Mas as flores também nascem nos gramados que os jardineiros plantam pra depois cortar. As flores, quando ficam belas, são arrancadas por brutos que também amam, pois amar é permitido e significa gostar duma pessoa do sexo oposto, uma espécie de egoísmo a dois, porque as pessoas que se trancam em suas próprias casas precisam de outras que lhes satisfaçam o desejo. E que também ouçam quando estas reclamarem do silêncio ou do gosto do purê no almoço. Afinal não somos uma ilha, embora o oceano, poluído, cada vez aumente mais. E uma ilha não tem água por cima nem por baixo, enquanto nós temos espaços vazios por todos os lados. Nas cidades se agrupam pessoas vizinhas em Tempo e Espaço e afastadas em Espírito. Alguns não agüentam a pressão e viajam ao mundo dos sonhos. Eu já não sei mais direito o que está certo e o que está errado. Mas isso são só... você já sabe o resto.

É muito fácil e confortável pensar só nos próprios problemas. Deixar pra ser socialista na faculdade e depois se acomodar pro resto da vida, enquanto pobres coitados alheios a regimes e ideologias morrem de fome. Pior cego é o que não quer esperar doador de córnea...

Os homens buscam doutrinas perfeitas como se governo fizesse milagres. Esquecem que mudanças vêm de dentro pra fora, que se você quer deixar o mundo melhor deve ficar você melhor. Mas o problema é que o sistema escraviza a todos, ele está impregnado em nossas vísceras. O egoísmo de cada um não permite um mundo de igualdade com liberdade. O futuro é tão incerto que talvez até por ironia do destino, o mundo fique melhor. Talvez hoje mesmo haja condição de uma pessoa ser feliz, sabendo que está fazendo a sua parte, que vai morrer tentando deixar o mundo melhor. Ou não. Depende da índole de cada um. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

Cid Justen Santana (texto selecionado no décimo primeiro concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1987)

***

ASCENSÃO E DECLÍNIO

Quão grandiosa foi minha escalada!
Quão harmoniosa foi ela organizada!
Não, não posso pensar
no que era, no que fui, no que seria, no que sou,
nem pensarei, então, no que serei.

Subi na vida.
Doce escalada sofrida.
Ah, se pudesse voltar...
Não, eu não iria arriscar
perder tudo que tinha,
voltar a essa vidinha
mais baixa, mesquinha...

Corroído e corrompido fui
pela classe ostentosa.
Mas agora
o lugar de onde caí era mais alto:
minha queda foi do asfalto
para o macadame.
Fui filhinho de madame,
fui reizinho mandão,
mas agora o meu pão,
como o dos que pisei,
será do trigo que eu semear
e do trigo que eu colher.

Tão enorme era a plantação,
mas agora, agricultor
sem cavalo, sem tração,
minha aragem é a dor,
perdi o trator, o moedor, o arado,
perdi os empregados.
Agora sou eu o trator, o moedor,
o arado e os empregados.

Nunca tinha comido melado,
me sujei, me lambuzei,
quão maior eu fui
através dos que pisei.
No esbanjamento
era e sempre fui
um tremendo dum nojento.

Agora que o carro me deixou,
ó Deus, quão penoso é o caminho
do viajante que pegou carona
– a condução foi sua dona –
e agora tem que andar
sem carona a ajudar,
sem ninguém para chorar
pela queda silenciosa
da mão de obra ociosa.

Miséria, me larga!
Não me leva outra vez!
Minhas posses de burguês
foram e foram!
Se sofri para subir, e desci,
agora que mal aguento esta vida,
como poderei novamente emergir?

Não. Devo desistir.
A sorte não bate duas vezes
e eu voltei, de fazendeiro
a tocador de reses.


Cid Justen Santana (texto selecionado no nono concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1985)

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quarta-feira, abril 23, 2014

PALAVRAS DE TITÂNIO

[sim, mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (1971-2014), escrito em homenagem a seus professores, quando o Cid fazia a oitava série e tinha 13 para 14 anos de idade -- esse texto não foi selecionado para nenhuma premiação, mas fica aqui registrado a quem possa emocionar]

I

Tu, que trabalhas arduamente,
fazendo plantas e esquemas
de construção simples mas engenhosa,
engenheiro da mente humana.

Tens nas tuas rédeas,
tens nas tuas mãos
olhinhos agressivos e espertos
ou olhares reprovadores e radicais.

Que levas e mais levas!
(quase não acabam mais)
Se dormes, é tarde da noite,
Se não, são planejamentos que fazes,

planejamentos audazes,
planejamentos tenazes,
pra conter na tua mão
o que às vezes numa sala não cabe.


II

Carregas em teu nome
tua dura vida
com centenas de alunos
-- um pai com centenas de filhos.

É duro não ser perfeito.
É duro nem sempre acertar,
pois tuas palavras de titânio
consolidam mil caracteres,

pois em tuas mãos
formas as existências.
O que disseres, o que fizeres
vai comandar o futuro.

És o elo entre antes e depois:
quanto mais passares adiante
e quanto menos segurares
mais razão teve a tua vida.

Sem exagero, pode-se dizer:
-- Sublime tarefa de amor.
Vida doada ao futuro,
vida doada à esperança!

És os olhos do mundo
modelando teus alunos.
És os olhos dos teus alunos
olhando corretamente o mundo.


[Curitiba, 7 de outubro de 1985]

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segunda-feira, abril 14, 2014

Mais um poema do meu irmão --

Esse é uma joia rara: confiram --


SONETO DA FELICIDADE

A felicidade não é grande nem azul.
A felicidade não é o norte nem o sul.
Não tem mapa nem direção.
É frágil e de curta duração.

Para que nela caiba toda tua vida
procura em todos os momentos a alegria escondida.
Usa cada tristeza tua como uma lição.
Usa cada alegria como impulsão.

A busca da felicidade é uma estrada
por selvas cercada e por pedras barrada:
remove-as sem levantar para não ser derrubado.

Não as empurres que o tesouro será esmagado.
Verte-as apenas para o lado, de mansinho
e terás aberto o caminho.


Cid Justen Santana (1971-2014)

[publicado num boletim informativo do Colégio Positivo, em outubro de 1986]

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quinta-feira, abril 10, 2014

BATENDO NA MESMA TECLA

[Mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (Curitiba, 8 de novembro de 1971 - 6 de abril de 2014); este foi premiado no décimo segundo concurso Palavra Viva, da Sociedade Educacional Positivo, em 1988.]

Batendo na mesma tecla,
eu vou conseguir explicar
que bater na mesma tecla
é o que devemos realizar,
pois nos batem na mesma tecla
que está certo o que é antigo,
já batido de mesma tecla,
copiar não tem perigo,
e todos batemos na mesma tecla,
precisamos bater pra existir,
e até que bater tanto a tecla
fica um pouco legal de se ouvir,
e eu bato na mesma tecla,
pois tal bate toda a gente,
e batendo na mesma tecla
eu não pareço diferente,
e de tanto bater na tecla
eu já me sinto até decente,
especialista em batimento de tecla,
de grande engrenagem sou dente,
não se apoquente (batendo na mesma tecla),
que eu já consegui reservar
(enquanto batia na tecla)
meu nome na lista de espera
(e vou batendo na mesma tecla)
pra um dia eu poder viajar
(até lá eu bato na tecla)
ao mundo dos Sem-Polegar.
(Batendo na mesma tecla.)

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domingo, abril 06, 2014

MUDANÇAS

(poema de Cid Justen Santana, meu irmão, falecido neste dia 6 de abril de 2014, aos 42 anos de idade; o poema foi premiado no décimo Concurso Literário Palavra Viva, promovido pela Sociedade Educacional Positivo, em 1986, quando o Cid contava 15 anos de idade)

Mudanças.
A vida está cheia delas.
Depois de amores e procelas,
coisas feias e belas,
que resta para o Homem?
Apenas o nome.

Quando se é criança,
moleque, se é tratado pelo nome
mais um "inho" e apenas.
Doce vida a das crianças pequenas...

Depois vem a idade adulta
(daí o tratamento é mudado).
É "senhor" ou "senhora" e o nome.
É duro sustentar os alicerces desse mundo avacalhado.

Então vem a velhice:
"vô", "vó" e o nome; é só.
Vibração microscópica no silêncio
ostracístico da solidão do pó.

Causa, procedimento, conseqüência.
Estudo por estudo, vida do Homem,
chega-se à conclusão de que
o tempo muda e tudo consome.

É distância impercorrível que fica
da pureza do parto à morte do Homem.
Vai ficando embrutecido pelo mundo
e só permanece... inalterado... o nome.

Cid Justen Santana

...

sexta-feira, abril 04, 2014

E AÍ É O UI E O OU

...
Todo mundo faz cocô.
Todo mundo tem chulé.
Tudo bem que tem a flor.
Tudo bem que tem o pé.
Todo mundo sofre dor.
Ninguém faz tudo o que quer.
Tudo bem que tem amor.
Tudo bem que tem a fé.
Mas às vezes até a fé
se confunde com o horror
e portanto, meu senhor,
não me diga, por favor,
dessa vida sem temor
ser questão de o que é o que é.

ijs
...

segunda-feira, março 31, 2014

quinta-feira, março 06, 2014

O MEU IRMÃO ENQUANTO INSPIRAÇÃO

Ao Cid Justen Santana
*
O meu irmão enquanto inspiração
é tanto o que não fez e o que tentou
porém também tanto o que fez, na ação
de ser, mesmo no ser que não chegou.

O meu irmão enquanto aspiração
prossegue sendo esse desenrolar
das coisas que inda não são mas serão
e no que ele tentar bolar colar

e até no medo que me dói de assim
o transformar em futura canção,
considerando um não qual sim e em mim
o meu irmão enquanto inspiração.


...

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

DO AMOR E ESSES TRABALHOS DE POESIA

*
Sim, você sabe, não são tão difíceis
os versos decassílabos perfeitos.
E versos bem escritos são quais mísseis

que atingem muitos mil, de muitos jeitos.
Mas todo dia tem algum problema:
tem cercas com limites muito estreitos,

tem quem queira que o resto reze e gema,
e quem proponha tiros, socos, chutes.
Bem poucos ousam não seguir esquemas

enquanto a gente segue e só deglute
os ditos sanduíches de realidade,
sentindo falta de outras teclas mutes

pra suportar a vida na cidade.
Talvez só esteja, sim, perdendo tempo.
Talvez viva contente atrás de grades.

Talvez tais três talvezes que aqui tento
não sejam um final que alguém queria.
Porém é só. Sim. Só. Fiz só de exemplo

do amor e esses trabalhos de poesia.

ijs

...

terça-feira, fevereiro 25, 2014

The Quiet Crowd




A Multidão Silenciosa

Would you rather be more than the things that you say
Or just be the words that you sing to yourself in your head
When nobody's around
Or would you rather be a part of the crowd or just a single sound
Waiting to be heard
Do you know what I mean?
Well you could be one of the lovers or liars
Hiding all the things that they do on the back of their hands
Well it's just you and me
'Cause everybody's got a little wrong in all the right places
Just depends on where you are
While you're hanging around
Você preferiria ser mais do que as coisas que diz
Ou só as palavras que canta na cabeça para si
Quando ninguém está perto
Ou você preferiria ser parte da multidão ou apenas um som
Esperando ser escutado
Sabe o que quero dizer?
É você podia ser um dos amantes ou dos mentirosos
Escondendo tudo que fazem nas costas das mãos
É somos só você e eu
Pois todo mundo tem lá um erradinho bem nos lugares certos
Só depende de onde você está
Quando você está por aí

Dear Mr. Quiet who's got so much to say
So much more than all of the sleeping parade
If I could tie up a string to your mouths and make you scream
All of the things that you keep to your self
I'd love to get to know you better
Dear Mr. Quiet I'd love to get to know you better
When nobody's around
While we're all staring at the end of the world
Will everybody have their hands on their head while they say
Well I told you so
While everybody's walking their own way through the quiet crowd
All thinking the same old things
If they only knew
Caro Sr. Silencioso com tantas coisas para dizer
Tão muito mais do que todos do desfile sonolento tem
Se eu amarrasse um barbante em suas bocas e fizesse você(s) gritarem
Todas as coisas que você(s) guarda(m) para si
Eu adoraria conhecer você(s) melhor
Caro Sr. Silencioso eu adoraria conhecer você melhor
Quando ninguém está perto
Enquanto assistimos todos ao fim do mundo
Será que colocarão todos as mãos na cabeça e dirão
É eu falei pra você
Enquanto seguem seus próprios caminhos pela multidão silenciosa
Todos pensando as mesmas velhas coisas
Se apenas eles soubessem

Patrick Watson
Ivan Justen Santana

...

domingo, fevereiro 02, 2014

DIA DE IEMANJÁ, DIA DA MARMOTA, DIA DE JAMES JOYCE: IEMANJOYSTARAM?

*
E eis mais um jamsjoysversário:
centenário de Um Retrato
do Artista como um Mancebo.

Isso: A Portrait of the Artist
as a Young Man. Não concebo
não fazer um trocadilho

com o como e até com sebo,
pois foi pai, marido e filho
mesmo sem ter sido santo.

Pelo menos por enquanto...


ijs, 2/2/2014 --

...

sábado, fevereiro 01, 2014

AO POETA CESAR ROSSILHO

*
Pelo festejo do dia
que é uma data natalícia,
dou-lhe um presente-notícia
mas que você já sabia:
seus versos, Cesar Rossilho,

não deixam de ter seu brilho.
Porém seus melhores poemas
você os fez em parceria
com a esposa-canção, Carmen:
seus dois filhos, Troy e Faena.
Aos quatro deixo estes charmes
de celebração serena.


(a primeira estrofe é por mais cinquenta, e a segunda, por mais sete anos: e essas congratulações em parênteses prosaicos são porque não consegui dizer tudo que queria em versos medidos e rimados: felicitações, Cesar!)

Ivan Justen Santana

...

terça-feira, janeiro 28, 2014

TERRÍVEL FALTA VOCÊ FAZ

(para quem sabe para quem)

Terrível falta você faz
porém quem mais faltou fui eu.
História estranha masca paz.
Fosse sufoco se perdeu.

Quem gosta de perder o pé?
Quem curte não usar a mão?
Quando nem chega a ser até
não tem desculpa o que foi vão.

Fosse algo um pouco em mim perdi.
Nada que nem se leva e traz.
Só quis dizer sem troco aqui
terrível falta você faz.

(Mas se deixei de algo falar
está no chão do céu do mar.)

...

ijs

...

quinta-feira, janeiro 23, 2014

ESCRITO APÓS NADAR DE SESTOS A ABIDOS

WRITTEN AFTER SWIMMING FROM SESTOS TO ABYDOS *
(Traduzido após verter o Childe Harold's Pilgrimage, Cantos I & II)

 _____1.
If, in the month of dark December,

__Leander, who was nightly wont
(What maid will not the tale remember?)
__To cross thy stream, broad Hellespont! 
_____1.
Se, num dezembro escuro e frio,
__Leandro, às noites sempre pronto,
(Qual dama não relembra o mito?)
__Cruzava o mesmo amplo Helesponto! 

____2.
If, when the wintry tempest roared,

__He sped to Hero, nothing loth,
And thus of old thy current poured,
__Fair Venus! how I pity both! 
____2.
Se, no rugir da chuva brava,
__A Hero ele ia, sem querer menos,
E assim as águas já puxavam,
__Tenho dó de ambos, bela Vênus!

____3.
For me, degenerate modern wretch,

__Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
__And think I've done a feat to-day.
____3.
Pois eu, moderno decadente,
__Mesmo no ameno mês de maio,
Achei meu feito algo excelente,
__E quase que sofro um desmaio.

____4.
But since he crossed the rapid tide,

__According to the doubtful story,
To woo,—and—Lord knows what beside,
__And swam for Love, as I for Glory;
 ____4.
Se a correnteza ele enfrentava,
__Segundo a duvidosa história,
Por dons — ou algo mais — da amada,
__Enquanto que eu nadei por glória;
__
____5.
'Twere hard to say who fared the best:

__Sad mortals! thus the Gods still plague you!
He lost his labour, I my jest:
__For he was drowned, and I've the ague. 
____5.
Quem dirá qual prêmio melhor
__O Olimpo aos mortais receita?
Um perde o amor, e o outro, o humor:
__A Leandro, o mar; e a mim, maleita.

Lord Byron, 1810

Ivan Justen Santana, 2014

* Nota de Byron: No dia 3 de maio de 1810, enquanto a Salsette (do Capitão Bathurst) estava ancorada nos Dardanelos, o oficial Ekenhead, daquela fragata, e o autor destas rimas nadaram da costa europeia até a asiática — por sinal, de Abidos a Sestos seria mais correto. A distância total, de onde partimos até a chegada na outra costa, incluindo o que percorremos levados pela corrente, foi computada por aqueles a bordo da fragata como mais de quatro milhas inglesas, não obstante a extensão real não ultrapassar uma [milha inglesa]. A velocidade da corrente é tal que nenhum bote a cruza a remo sem desvio, e pode nalguma medida ser estimada pelo tempo que os nadadores levaram, um [Ekenhead], uma hora e cinco minutos, e outro [Byron], uma hora e dez minutos. A água estava extremamente fria, pelo derretimento da neve das montanhas. Por volta de três semanas antes, em abril, fizemos uma tentativa; mas tendo cavalgado o caminho todo desde a Tróade naquela mesma manhã, e a água estando congelante, foi necessário adiar a natação até que a fragata ancorasse perto dos castelos, quando cruzamos o estreito conforme declarado, entrando consideravelmente acima do forte europeu, e chegando abaixo do asiático. [Le] Chevalier diz que um jovem judeu nadou a mesma distância por sua amada; e Olivier menciona um feito semelhante por um napolitano; mas nosso cônsul, Tarragona, não se recorda de nenhum desses acontecimentos, e procurou nos dissuadir da tentativa. Vários da tripulação da Salsette são reconhecidos por terem nadado distâncias maiores; e a única coisa que me surpreendeu foi que, uma vez que já se duvidou da história de Leandro, nenhum viajante jamais tivesse buscado certificar-se pessoalmente quanto à praticabilidade da façanha.

Fonte: http://www.gutenberg.org/files/21811/21811-h/21811-h.htm#Page_13

Postagem interessante a respeito: http://amitologianahistoria.blogspot.com.br/2010/08/mitologia-grega-hero-e-leandro.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Abidos_%28%C3%81sia_Menor%29

domingo, janeiro 12, 2014

VALENDO TODAS ELAS JUNTAS NUM SÓ SER

(mais uma vez, a FFR)

Tu sabes que eu não sou capaz de tanto,
feito um Lenine com Carlos Rennó;
só que cantando assim neste óbvio canto
te dou as rimas todas numa só;

pois se eu fizesse outra canção com lista
das musas todas dos compositores,
dos poetas vivos, mortos, trapezistas,
rimando as cores, flores e os amores,

seria assim tão óbvio quanto sou:
um poeta vivo, morto e trapezista
que sem as conjunções nem mas nem ou,
no estilo bolha que inda te conquista,

num só versinho já te conquistou.


IJS

__

sábado, dezembro 21, 2013

VOLTAR AQUI (PARA AQUELA QUE ESTÁ LÁ)

a FFR

Depois de tanto ti-ti-ti.
Depois de muito blablablá.
Eu não me canso e fico aqui
só esperando você voltar.

O mundo arrota e faz xixi.
A lua nem diz sai pra lá.
E ainda assim eu sigo aqui
só esperando você voltar.

Existe um sol além de si.
Existe um chão no fim do mar.
Portanto ainda existo aqui
só esperando você voltar.

Se descobriu-se o colibri,
se o sabiá sobrou sem par,
sobrei também trilando aqui
só esperando você voltar.

Talvez seja algo eterno (um pi).
Talvez já feche (feito um bar).
Talvez alguém (tipo eu) aqui
só esperando você voltar.

E que moleza, hein, nisso aí,
versinhos de nunca acabar...
Mas é isso mesmo: eu, aqui,
só esperando você voltar.

ijs

quarta-feira, dezembro 18, 2013

CURRICULUM VITAE

Dorothy Parker

Se atirar da ponte é piada
e cortar os pulsos dói.
Drogas? Não garantem nada.
Ácido mancha e corrói.
Pistolas? Muito barulho.
Forcas? Podem se romper...
Gases provocam engulho.
Não dá na mesma viver?

versão brasileira:
Ivan Justen Santana

clique aqui para o texto original

domingo, dezembro 15, 2013

CARTA A MEU CARO MARCOS PRADO, EM MAIS UM SEU ANIVERSÁRIO

*
Pois é, meu caro Marcos Prado:
é mais um teu aniversário
e Curitiba segue a mesma,
talvez até um pouco diversa
se vai envelhecendo a turma
enquanto inauguram de novo
a nossa tradição nenhuma –

pois sim, meu caro Marcos Prado:
foi minha vez de recordar o
festejo na data querida
e ainda aqui rimar com vida
em mais outra menção honrosa
ao que é poesia a todo povo,
se hoje tanto se aposta em prosa –

pois não, meu caro Marcos Prado:
não vamos mais recriminar o
cabuloso estado de coisas
das gentes velhas e das moças
enquanto seguem consumindo
um sempre mais dum outro corvo
embranquecido e mais que lindo –

pois é, meu caro Marcos Prado:
até que vale ter passado
algumas noites e alguns dias
nas boas e más companhias
do nosso seleto pessoal –
e com água brindo este estorvo
duns poucos versos. Sem mais, tchau.
*

quarta-feira, dezembro 04, 2013

ENQUANTO TEU

a FFR
*
Todas as paranoias estão vendo
com olhinhos e linguinhas de naja
e o teu nojo nem chega a ser horrendo
enquanto teu amor viaja.

A língua portuguesa é culta e feia
feito as frases dum gajo à sua gaja
e o símbolo é fatal a quem não leia
enquanto teu amor viaja.

Se tudo valeu o que nem te contem
na selva selvagem desnuda maja
e o totem de hoje foi o mesmo de ontem
enquanto teu amor viaja,

eu sei: ninguém entende e que se lasque:
uma mossa ou amolgadura é uma jaja.
Importa que ela entenda e siga em paz que
enquanto teu, teu amor viaja.

E lage continua sendo laja
enquanto teu amor viaja.

*

sábado, novembro 30, 2013

ANTES DO FIM DE NOVEMBRO

*
O surto: de nascença.
A fase: fim no meio.
Os verbos: sem presença.
O saco: sempre cheio.
A sarça: fogo incógnito.
As secas: nada harmônicas.
O corso: todo insólito.
As cordas: tão sinfônicas.
Soneto: lixo antigo.
Sonata: luxo aos poucos.
Soneca: mais perigo.
Silêncio: tosse aos loucos.
Silício: nuvem perda.
Cenário: mesma merda.

*

quinta-feira, outubro 24, 2013

A MÁQUINA DO CU DO MUNDO

(ao Rodrigo Madeira, que inadvertidamente me deu a ideia de, e ao resto da renca toda [eu ia dizer da putarada toda, mas sou um beletrista de respeito e de família, então...)

E como eu não nem a pau humilhasse por
Nenhum lugar incomum mas aquele um mesmo
Lugar qualquer vagamente cu do

Mundo agora nunca mais tão vasto imundo
E sem essa de versar em decassílabos
Rimados que se já veio o Modernismo e

O Concretismo e o Daltonismo e a
Porra toda é sim essas merdas e luzes
Totais são só pra poder botar pra

Foder e usar essas tais todas palavras tabus
Que nem chocam mais ninguém talvez quem sabe
Os beletristas que nem eu ou

Alguns dos meus vários demônios de
Mania ou depressão e as porras todas, enfim,
A máquina do cu do mundo já está

Toda aberta arregaçada rapinada vamos
Lá dialogar com ela desse jeito e
Comentar que agora sim tudo desanda e anda e

Se encaminha: esse poema de merda genial é também
Pra dizer que por exemplo o livro do Pellegrini
Sobre o Leminski é quase mais do mesmo

Quem não soube (ninguém soube) sobre a
Grande bosta e sublimidade do ego amigo
Inimigo enfim de novo é parte e quase nem faz

Parte do problema todo que é fazer
Poesia e agora ligo isso com a merda que
Ocorreu com o livro Ultralyrics do Marcos

Prado que devia estar sendo vendido e distribuído
E aquele bosta e bom escritor bom romancista e
Até razoável poeta daquele Fábio Campana

Não devia ter refugado as condições porque
Não é favor nenhum publicar um poeta de verdade
Foda (muito foda) como foi e é será o Marcos

Prado e pois é que as novas gerações estão
Chegando e se informando e se desinformando
Com as porras todas desses pesadelos pesadédalos

Dos quais tentamos e não conseguimos
Acordar (nem a cor dar) pois sim então eu
Ia dizendo bem no meio da máquina do cu do

Mundo meu eu no espelho e as porras todas
Quais eram mesmo? Ah sim o lance da
Poesia na Bienal de Curitiba -- os lançamentos

Dessa semana que passou (sim estou datando a
Porra do poema e sim eu fui naquele novo shopping
Onde os versos de poetas paranaenses estão lá

Até que venha alguma loja e ocupe o lugar
Onde estão enfeitando e ninguém lê nem sabe
Só acha culto e bonito a poesia local é sim: LOCAL --

Porque enfim a porra toda do
Sistema quer disciplinar a existência da arte e
Não adianta e adianta sim estamos no ponto

Em que as coisas são e não são tranquila
Mente enfim se fosse mesmo pra representar a
Poesia em Curitiba não podiam ter faltado

O Thadeu e o Lepre e o Adriano Smaniotto o
Qual devia estar lá com o poema "A Velha da
Rodoviária" possivelmente o mais emblemático

Dessa nova velha safra desde sempre de
Poetas e poemas se fodendo pra tentar mudar o
Cu do mundo ou mesmo pouco se fodendo

Sim estou queimando mesmo o decoro e a porra
Toda porque é e não é ou não assim
Mesmo a poesia se metendo a Black

Bloc ou só fazendo chuvisco e plic & ploc
Porque a arte tem e foda-se não tem essa missão --
Quem tem no fim muito essa e mais missões

São esses poucos e poucas que controlam a porra
Toda e criam cargos comissionados e puta merda
Não adianta responsabilizar o cara que está lá

Porque meramente cumpre seu papel no jogo mais
Pesado da merda toda mas faz o que consegue
Essas barganhas todas nessas merdas e prosseguem

Mantendo o sistema funcionando que se não
Fosse de outro jeito eu nem não poderia estar
Aqui tentando escrachar e eu mesmo me

Escrachando diante da bosta toda conforme
Ela está posta na mesa de todos mesmo
Quem nem tem mesa diante da qual comer.

E foi só tudo isso que a máquina do cu do mundo me
Disse eu sendo também ela e parte dela e
Envergonhando minha família procurando ser

E não sendo a voz das artes que essa
Renca e eu tentamos ir fazendo e questionando
E postando em blogues e anunciando nessa rede que

De social tem pouco ou quase nada mas
É quase tudo que podemos nessa não fazer
E mesmo assim arriscando a nem sequer

Ser ou não ser ouvido ou levado a sério
E servir na gente o capuz de
Beletrista enquanto o horizonte de

Expectativas é restrito mesmo a
Porra da boceta da caralha da
Máquina do cu do mundo me disse

Isso mesmo melhor seria eu nem não
Me meter a besta de escrever sem freio
E contextualizar mal e porcamente dessa

Forma datando poema com referências
Imediatas mas ficar só assim fazendo
Embaixadinhas com rimas e métricas e

A porra toda da poesia (des)compro(omissada)
Mas já passou da hora e do limite de atenção
De quem está lendo que nem vê aonde quero

Chegar ao mencionar por exemplo o poema da Marília
Kubota no livro da Bienal (Fantasma Civil) que
Nesse ela conclui falando do cu do

Vácuo e esse cu desse vácuo desse
Nosso cu diário de mundo de máquinas
Somos nozes cegos que fazemos também

Merdas sem nem prestar atenção e
O fôlego vai acabando e
Nem pude tramar mesmo o que

Eu queria e esperava pra honrar a
Camisa da poesia que no fundo
Mal se espreme e mal se exprime

Pra sacudir e esculachar ainda que
Com o calão e os palavrões essa porra
Toda que nos transforma e conforma e transtorna

Em todos membros dessa máquina
Desse cu
Desse mundo

Enfim: foda-se e agora está é será com vocês


ijs

____

quinta-feira, outubro 10, 2013

SESQUIPEDANTESCAMENTE REVERSANDO

*
Sem meio nem caminho ou sequer pedra
Dalguma tradição (mesmo mais nova),
Na selva hipercinzenta que não medra

Num tempo atemporal de velha cova,
Me achei num limbo – placa: Paraná.
Um ente então piscou na treva torva

Feito se ali não fosse aqui nem lá –
Fosse ente diferente de seu ego,
Futuro a ser, passado que será.

Não era algum fantasma em desapego,
Tampouco um louco trasgo envolto em visgo.
Tratava-se do velho Bento Cego,

Cantor de redondilhas, nunca misgo
Nas rimas de improvisos mais certeiros
Que aqueles que de vez em quando eu fisgo

Até nos reservados dos banheiros.
Os olhos do poeta eram faróis
Iluminando sons, gostos e cheiros,

E ele me perguntou: “Por mim te dóis?
Machuca-te eu estar no esquecimento?”
E eu quis dizer-lhe que entre os meus heróis

Seu vulto era mais firme que cimento.
Porém não houve tempo. Repentino
O repentista se desfez num vento

O qual soprava feio, forte, fino,
Da direção da realidade humana.
Mas eu me recusava ao frio destino

De retornar a um mundo que só engana,
E assim no limbo ali dobrei a aposta
Na inexistência pura, boa, insana:

E aí me apareceu, qual mesa posta,
Outra figura, branca, meiga, longa,
Que em vida se chamou Júlia da Costa.

“Como eu não me afoguei na Babitonga,
Me alegro em ver você escrevendo assim...”
Foi feito algum feitiço de milonga

Saber que aquela voz vinha pra mim,
E todo o Romantismo dessa Júlia
Talvez já me bastasse como um fim.

No entanto o vento, novamente pulha,
Soprou levando a triste e malfadada,
E me foi necessária força hercúlea

Pra não voltar à Terra devastada.
Eu suspeitava mais, desde o princípio,
Que a sugestão de tudo, ou mais que nada,

Ao limbo, mais que estado ou município,
Tornava em dimensão jamais prevista,
Em verbo além gerúndio e particípio,

Na graça duma nuvem simbolista.
E a nuvem eram poucos e eram muitos,
A ouvido, língua, pele, nariz, vista –

Caleidoscópicos curtos circuitos
Tangidos dum saudável brilho insano
De músicas, imagens, tons fortuitos –

Vinham Dario, Silveira e Emiliano,
E Nestor Victor, Rocha Pombo, Adolfo
Werneck e outros junto a este Capistrano,

Rompendo ritmos e envolvendo em golfos
De rufos, de tambores, de fanfarras,
Rindo e chorando ao lado do balofo

Emílio com inda afiadas garras –
Eu percebia que era sonho e que era
Também fruto das minhas próprias marras

De cultivar com asas e com cera
Um pensamento que não há quem pense –
E os vultos proclamavam-me: “Pudera!

Existe a poesia paranaense!
Mesmo escandida em metros pés quebrados,
Mesmo se à crítica ela não convence!”

E festejamos livres kolodys leminskis por marcos e prados...


IJS

* * *

terça-feira, outubro 01, 2013

Carta aberta a Rogério Pereira e Luiz Rebinski Junior

"O Paraná se emancipou politicamente em 1853, mas o primeiro sinal de vitalidade intelectual no Estado aconteceria apenas décadas depois, devido à atuação de Newton Sampaio. Ele nasceu no dia 10 de setembro de 1913, em Tomazina, e morreu no dia 12 de julho de 1938, na Lapa. [...] nesse brevíssimo período de vida ele conseguiu, sem exagero, chacoalhar, e mesmo, inventar -- intelectualmente -- a província. [...] foi o primeiro a combater o provincianismo e a evitar o elogio ao escritor apenas pelo fato de ele ser uma personalidade da aldeia."

Assim começa o editorial do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná (edição 26, setembro de 2013).

Como poeta, leio esse editorial, e as diversas matérias sobre Newton Sampaio nessa edição do Cândido, como interessantes considerações sobre isso que às vezes imaginamos que existe, às vezes deliramos que tem um estatuto de realidade e de fato consumado, mas muitas outras vezes ficamos com a impressão de não ser coisa lá muito sólida: sim, essas coisas, a cultura, a arte, e especialmente a literatura paranaense.

Mas, como pesquisador e crítico, o que leio nessa edição do Cândido é um belo tiro no próprio pé.

Raciocinem comigo: se devido à atuação de Newton Sampaio houve o "primeiro sinal de vitalidade intelectual do Paraná", o que foi então a criação da própria Biblioteca Pública do Paraná, em 1857? E a inauguração do Museu Paranaense, em 1876? Sinais de mortalidade intelectual?

Deixando de reserva os jornais que passaram a ser publicados aqui após a emancipação, o que foram então as dezenas de revistas que saíram em Curitiba, durante a agitação promovida pelos simbolistas, nas décadas de 1890, 1900, 1910? (Quem quiser conferir um pouco o que foi isso, que consulte a biografia de Cruz e Souza escrita por Paulo Leminski, a qual está lá no recentemente relançado Vida.)

Mais além, no passado, o que foi a atuação do poeta Bento Cego, nascido em Antonina, por volta do ano de 1820, e que percorreu o interior do Paraná e do sul do Brasil, vencendo desafios de viola e se tornando lenda antes do fim do século XIX?

O que é a obra de Julia da Costa, nascida em Paranaguá em 1844, e que recebe atenção crítica até hoje, tendo sido re-editada em 2001, e motivando um romance de um autor contemporâneo radicado e atuante aqui, o Roberto Gomes?

Enfim, o que foram a atuação e as obras de Rocha Pombo, Emiliano Perneta, Dario Vellozo, Silveira Neto, Nestor de Castro, Adolpho Werneck, Nestor Victor, Tasso da Silveira? (São as figuras principais de um período que, a confiar nas declarações do editorial do Cândido, os autores simplesmente ficavam se elogiando só por terem nascido ou viverem aqui, e nenhum de seus trabalhos seria sinal de vitalidade intelectual...)

Mas não paremos só na literatura: o que foram a vida e obra do compositor Brasílio Itiberê? (Recentemente a Gazeta do Povo publicou matéria a respeito dele, e do esquecimento em que se encontra -- clicar aqui para ler.) Sinal de provincianismo, atuação decorativa, nenhuma vitalidade intelectual?

Pelo jeito, são esses agora os "outsiders" (os de-fora), enquanto que o "esquecido" Newton Sampaio, que ganhou prêmio da ABL na década de 1930, foi celebrado na revista Joaquim na década de 1940, re-editado pela Fundação Cultural de Curitiba na década de 1970, recebeu atenção acadêmica, e foi "redescoberto" e publicado diversas vezes nos últimos tempos, esse seria o injustiçado cavaleiro solitário da origem da literatura paranaense?

O professor Paulo Venturelli, da UFPR, e membro da Academia Paranaense de Letras, publicou numa edição anterior do Cândido um texto sobre autores paranaenses e também desconsiderou, sem solenidade nenhuma, tudo (ou seria nada?) que ocorreu na província/Estado antes do advento da revista Joaquim, na segunda metade da década de 1940.

Ora, o que parece é que estamos assim nutrindo uma vergonha do passado original do Paraná. Graças a um artigo de Dalton Trevisan (que além de sair na sua revista, foi republicado na Gazeta do Povo, em 1951), aceitamos gratuitamente que Emiliano Perneta foi um poeta medíocre, e assim ficou todo mundo dispensado de ler e conhecer o que foi feito antes da explosão modernista (com vinte anos de atraso) da revista Joaquim...

Não obstante, quando o jornalista Almir Feijó (numa entrevista de 1978 para a revista Quem) perguntou ao Paulo Leminski o porquê de ele ter atacado o Dalton Trevisan, no final dos anos de 1960, a resposta foi a seguinte:

"[...] quando o Dalton surgiu no cenário curitibano, ele se afirmou atacando Emiliano Perneta. A primeira coisa que Dalton fez, quando surgiu no cenário literário curitibano, foi atacar a marca líder, como se diz em propaganda, que era Emiliano Perneta, num artigo chamado: “Emiliano, um poeta perneta”. E, assim como Dalton começou atacando Emiliano Perneta, eu acredito que, sem saber na época dessas coisas, comecei de certa forma atacando Dalton Trevisan. Agora, Dalton estava errado. Emiliano é um grande poeta."

Para encaminhar a conclusão, dirijo-me aos caros Rogério Pereira e Luiz Rebinski Junior: é certo então que, graças a um artigo satírico sobre a criação da Academia de Letras do Paraná, publicado no Rio de Janeiro, quando Newton Sampaio já tinha abdicado da vida cultural paranaense, a ele seja atribuído esse papel de "primeiro sinal de vitalidade intelectual" do Paraná? Mas se o Emílio de Meneses, que se criou neste mesmo ambiente de provincianos, trinta anos antes de Newton Sampaio nascer, não pintava e bordava com tanta ou mais graça sobre figuras muito mais graúdas e importantes nacionalmente, com suas temidas sátiras?

Entendo que a publicação de um jornal se alimenta das sensações que é capaz de criar no leitor, e eu não teria escrito essa carta se não achasse saudável discutir, fazer afirmações radicais, provocar reações... Mas o efeito de se destacar, com esse tipo de postura polêmica, apenas uma das figuras fundamentais da nossa (será mesmo? enfim...) literatura paranaense, em detrimento de outros que também tiveram seu valor, pode ser bastante negativo para os leitores atuais, quiçá futuros pesquisadores, quando ainda estão por revelar ilustres desconhecidos como José Cadilhe, só para citar um dos verdadeiros "outsiders", que esperam por redescobertas como essa que vocês promoveram.

Ivan Justen Santana, mestre em Letras pela USP (com dissertação sobre Paulo Leminski), doutorando em estudos literários pela UFPR (com pesquisa sobre Emiliano Perneta).

segunda-feira, setembro 30, 2013

O CEGO WILLIE McTELL

Blind Willie McTell -- Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana

Seen the arrow on the doorpost
Saying, “This land is condemned
All the way from New Orleans
To Jerusalem”
I traveled through East Texas
Where many martyrs fell
And I know no one can sing the blues
Like Blind Willie McTell
A placa-seta no batente da porta
Dizia: "Condenada a terra além
Da estrada desde Nova Órleans
Até Jerusalém"
Viajei pelo Leste do Texas
Onde muito mártir já foi réu
E sei que ninguém mais canta o blues
Feito o cego Willie McTell

Well, I heard that hoot owl singing
As they were taking down the tents
The stars above the barren trees
Were his only audience
Them charcoal gypsy maidens
Can strut their feathers well
But nobody can sing the blues
Like Blind Willie McTell
É, ouvi aquela coruja cantando
Enquanto eles derrubavam as tendas
As estrelas sobre as árvores secas
Eram a única audiência dela
Aquelas moças ciganas carvoeiras
Desfilam com as penas ao céu
Mas ninguém mais canta o blues
Feito o cego Willie McTell

See them big plantations burning
Hear the cracking of the whips
Smell that sweet magnolia blooming
See the ghosts of slavery ships
I can hear them tribes a-moaning
Hear that undertaker’s bell
Nobody can sing the blues
Like Blind Willie McTell
Veja as grandes plantações queimando
Ouça os estalos dos chicotes
Sinta a doce magnólia desabrochando
Veja os navios negreiros e seus lotes
Posso ouvir as tribos e seus gemidos
E o sino do coveiro toca ao léu
Ninguém mais consegue cantar o blues
Feito o cego Willie McTell

There’s a woman by the river
With some fine young handsome man
He’s dressed up like a squire
Bootlegged whiskey in his hand
There’s a chain gang on the highway
I can hear them rebels yell
And I know no one can sing the blues
Like Blind Willie McTell
Tem uma mulher à beira do rio
Junto com algum belo rapaz
Vestido como um escudeiro
Carregando seus uísques ilegais
Tem uma gangue de correntes na estrada
Ouço seus gritos rebeldes ao céu
E sei que ninguém mais canta o blues
Feito o cego Willie McTell

Well, God is in His heaven
And we all want what’s His
But power and greed and corruptible seed
Seem to be all that there is
I’m gazing out the window
Of the St. James Hotel
And I know no one can sing the blues
Like Blind Willie McTell
É, Deus está em Seu paraíso
E todos queremos o que é Dele
Mas poder, ganância, semente corruptível
São só o que existe, ao que parece
Estou olhando pra fora da janela
Daqui deste indiferente hotel
E sei que ninguém mais canta o blues
Feito o cego Willie McTell

domingo, setembro 29, 2013

ASSISTINDO AO RIO PASSAR

[Watching The River Flow -- Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana]

Qual é o problema comigo
Não tenho muito o que dizer
A aurora já se esgueira pela janela
E eu ainda aqui nesse café
De um lado pro outro sob a lua
Lá fora os caminhões vão devagar
Sento aqui nesse banco de areia
E assisto ao rio passar

Quem dera voltasse à cidade
Em vez desse velho banco de areia
O sol batendo sobre as chaminés
E por perto a amada, bem aquela
Se eu tivesse asas e voasse
Eu saberia por onde planar
Mas agora sento aqui satisfeito
E assisto ao rio passar

As pessoas discordam sobre tudo, é
Faz você parar e refletir
Por que ontem vi alguém na rua
Que não parava com o mimimi?
Ah, esse velho rio segue correndo
Não importa quem nele nem qual vento a soprar
E enquanto isso bem aqui me sento
E assisto ao rio passar

Pessoas brigando aonde quer que se olhe
Faz você parar e querer ler um livro
Por que ontem vi alguém na rua
Que só ficava se sacudindo
Mas esse velho rio segue correndo
Não importa quem nele nem qual vento a soprar
E enquanto isso bem aqui me sento
E assisto ao rio passar

...

O poema mais importante do Cláudio Bettega

...
agora não sei por que me bateu de postar isso---é que não estava em blogue nenhum (mas tem uma postagem com vídeo aqui)

altero o ego
do meu outro
eu
de acordo

com o sonho
que nesta noite
me bateu
modulo
o abismo
que nos separa
e faço dele
minha parte
minha
somos um
não há outro
e em mesmo
sendo um
não somos
pouco

Cláudio Bettega (1971-2010)
...

quinta-feira, setembro 26, 2013

INFOSCÍVEL

*
Ao Paulo de Toledo


desistir é mais fácil
e mesmo assim difícil
se até o que fosse fóssil
detona como míssil

*

segunda-feira, setembro 16, 2013

SOL DOS INSONES!

[SUN OF THE SLEEPLESS! George Gordon, Lord Byron]

Sol dos insones! melancólico astro!
Teu raio de lágrima ao longe é um rastro,
Mostrando à treva, a qual não esconjuras,
Quão semelhante és às lembranças puras!
Brilha assim o passado, luz de outrora,
Que não aquece a quem atinge agora;
Brasa que a Angústia vela, findo o dia,
Distinta e distante — clara — mas fria!


versão brasileira: Ivan Justen Santana

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terça-feira, setembro 10, 2013

NOSSA VILA (PUXA VIDA, CURITIBA)

*
nossa vila tem as taras de costume
e outros podres gestos menos ou mais nobres
dos poderes que a controlam com seus cobres
das mamatas que inda causam muito ciúme

nesta festa tem também a classe artística
com autistas quase gênios quase monstros
produzindo em jorros obras feitas mênstruos
feitas frases mísseis de fatal balística

mas bombando estão as forças repressoras
civilização-barbárie: são conceitos
tão semelhos que nem sei bem se eu aceito-os
como aceito que haja raivas ruivas loiras

e eu faria até canções semiambiatômicas
tipo aquela Desolation Row do Dylan
só filando esse filé que tantos filam
junto às nossas priscas juventudes sônicas

mas o simples se tornou aqui complexo
se estes versos não te soam bem: meus pêsames
pois o idioma que não fiz nessa hora pesa-me:
sexo é nexo --- nexo é plexo --- plexo é sexo

da linguagem tu leitor que assim mereças
largo então estreitas pistas pelos pés
recalcando as babas prontas dos manés
e imortalizando-os mesmo que às avessas

se puderem compreender coisas como essas

IJS

....................

sexta-feira, agosto 30, 2013

PARA A ANIVERSARIANTE FAENA FIGUEIREDO ROSSILHO

*
Hoje é o teu aniversário,
porém eu estou pobrinho,
então uso lá do William
(e da bárbara tradutora)
um soneto de presente
do teu Ivanzinho ardente...


SONETO 116 DE WILLIAM SHAKESPEARE, VERTIDO POR BARBARA HELIODORA


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
__Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
__Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

terça-feira, agosto 27, 2013

segunda-feira, agosto 26, 2013

BALDES DE CHUVA (DE BOB DYLAN, EM VERSÃO BRASILEIRA DE IVAN JUSTEN SANTANA)

BUCKETS OF RAIN
(Bob Dylan, Blood On The Tracks, 1974)
vb: ijs

Buckets of rain
Buckets of tears
Got all them buckets comin’ out of my ears
Buckets of moonbeams in my hand
You got all the love, honey baby
I can stand
Baldes de chuva
Baldes de lágrimas
Tantos baldes saindo pela minha cara
E nas minhas mãos, baldes de luares
Você tem todo o amor, doçura
Que eu posso aturar

I been meek
And hard like an oak
I seen pretty people disappear like smoke
Friends will arrive, friends will disappear
If you want me, honey baby
I’ll be here
Eu fui fraco
E duro qual carvalho
Já vi belas pessoas sumir qual fumaça
Amigos virão, amigos vão sumir
Se você me quiser, doçura
Eu estarei aqui

Like your smile
And your fingertips
Like the way that you move your lips
I like the cool way you look at me
Everything about you is bringing me
Misery
Feito seu sorriso
E as pontas dos dedos
Feito o jeito que você movimenta os quadris
Eu gosto do jeito que você olha pra mim
Tudo em você já me deixa triste
Assim

Little red wagon
Little red bike
I ain’t no monkey but I know what I like
I like the way you love me strong and slow
I’m takin’ you with me, honey baby
When I go
Vagãozinho rubro
Bicicleta rubra
Não sou nenhum macaco mas sei da doçura
Eu gosto do jeito que você me ama forte e lenta
Vou te levar comigo, doçura
Quando for a hora certa

Life is sad
Life is a bust
All ya can do is do what you must
You do what you must do and ya do it well
I’ll do it for you, honey baby
Can’t you tell?
A vida é triste
A vida é um rolo
Cheia de deveres e não tem consolo
Faça o que precisa e faça isso muito bem
Posso fazer por você, doçura
Já não deu pra perceber?

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quinta-feira, agosto 22, 2013

SIM, LEMINSKI:

*
sim leminski

o graffiti
é o limite

não tem poeta
que não imite

não tem selva
que não acre
dite

na página concreta
da cidade perversa

quem não tem mal
que evite

quem não tem pau
que apite

quem não tem sal
que edite

ijs

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