*
Busquei pra um Tiranossauro
a ilusão duma riminha
que não fosse apenas minha
mas de cada dinossauro.
Sim, também das Maiassauras,
cuidadoras dos filhinhos:
todos tempos e caminhos
já merecem ter as auras
deste poema meio ingênuo.
Príncipe grande ou pequeno,
pouco importa de onde for,
todo início é uma criança,
e mesmo sofrendo de ânsia
toda rima é por amor.
ijs
*
sexta-feira, agosto 22, 2014
sexta-feira, agosto 15, 2014
terça-feira, agosto 12, 2014
AMOR & VELHO VERSO
(além de a toda a humanidade, à Faena Figueiredo Rossilho)
Passam caravanas,
cães latem e mordem,
surge uma nova ordem,
novos povos doidivanas,
e no mar os polvos
desenvolvem mais tentáculos
e linguagens e seus sustentáculos
despontam, morrem, nascem,
ingressam noutras áureas decadências
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Modernos, ancestrais, os mesmos
nos princípios eram o verbo,
e eis a escravidão,
e eis uns dois ou três
vivendo o que acham um vidão,
e eis a humanidade agindo feito besta,
e algum lirismo, e algum realismo,
e outra guerra, e outra religião,
e outros cortes
noutros ternos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Nenhumas novidades,
museus contemporâneos,
paixões se achando amor,
extinções em massa, jogos olímpicos,
distrações fenomenais, traições sutis,
o mundo vai girando, os rios correndo,
paraísos imutáveis são reformados,
tudo perde o sentido,
grandes são os desertos,
grandes são os invernos,
grandes ardem os infernos,
grandes os sentimentos
maternos e paternos,
e as teorizações
e as práticas de artistas tão ternos,
e os romances, e as peças, e os contos,
e os filmes, e as exposições,
e os etcéteras, e sim, tudo é tão chato,
tudo tudo tudo já catalogado
como naqueles nossos caquéticos cadernos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Mas não mais
ou nem não mais
e só que não
por nunca menos
pois talvez embora então
alguéns alguma vez
fermentarão uns ancestrais vinhos falernos
enquanto
amor e velho verso vão seguindo eternos.
ijs
*
Passam caravanas,
cães latem e mordem,
surge uma nova ordem,
novos povos doidivanas,
e no mar os polvos
desenvolvem mais tentáculos
e linguagens e seus sustentáculos
despontam, morrem, nascem,
ingressam noutras áureas decadências
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Modernos, ancestrais, os mesmos
nos princípios eram o verbo,
e eis a escravidão,
e eis uns dois ou três
vivendo o que acham um vidão,
e eis a humanidade agindo feito besta,
e algum lirismo, e algum realismo,
e outra guerra, e outra religião,
e outros cortes
noutros ternos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Nenhumas novidades,
museus contemporâneos,
paixões se achando amor,
extinções em massa, jogos olímpicos,
distrações fenomenais, traições sutis,
o mundo vai girando, os rios correndo,
paraísos imutáveis são reformados,
tudo perde o sentido,
grandes são os desertos,
grandes são os invernos,
grandes ardem os infernos,
grandes os sentimentos
maternos e paternos,
e as teorizações
e as práticas de artistas tão ternos,
e os romances, e as peças, e os contos,
e os filmes, e as exposições,
e os etcéteras, e sim, tudo é tão chato,
tudo tudo tudo já catalogado
como naqueles nossos caquéticos cadernos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Mas não mais
ou nem não mais
e só que não
por nunca menos
pois talvez embora então
alguéns alguma vez
fermentarão uns ancestrais vinhos falernos
enquanto
amor e velho verso vão seguindo eternos.
ijs
*
terça-feira, julho 29, 2014
UMA GUERRA
*
Uma guerra faz cem anos
e faz um milésimo de segundo.
Faz os seres tão humanos
insanos e insanas subindo ao fundo.
Sim: uma guerra até liberta – dizem.
– Não, não, nossa causa é justa – sublinham.
Daqui deste lado da minha fronte
sem muito mais novidade,
penso na razão – ou rima – que aponte
a institucionalidade
da guerra, da guerra interior
da poesia – e largo da métrica
sem desistir
e penso no xadrez, no futebol, no boxe,
na existência aparentemente impossível
sem guerra –
penso em metáforas, metaforizações e justificativas,
me ocorre o poema “guerra sou eu”
do samurai Leminski
mas fico atentado – e estendo
estrategicamente
esta postagem
colando uma tradução:
QUEM MATOU DAVEY MOORE?
[Who Killed Davey Moore? – Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana]
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o juiz
“Não apontem o dedo pra mim
Podia ter suspendido no oitavo assalto
Talvez assim salvasse ele, de fato
Mas eles gritariam (e quem me escolta?)
E exigiriam seu dinheiro de volta
É triste que ele tenha ido assim
Mas tinha muita pressão sobre mim
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não foi nós,” rosnou a multidão
Zumbindo na arena com seu calão
“É uma pena, que nem se discuta
A gente só queria uma boa luta
Não era pra ele encontrar a morte
A gente só queria o suor dos fortes
Nada de errado com esse esporte
E a gente não derrubou ninguém
Não culpem a gente, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o empresário
Fumando seu charuto salafrário
“É difícil falar, é difícil dizer
Eu sempre achei que ele tava bem
Pior para a esposa e para seus filhos
Mas se ele tava mal, devia ter dito
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o apostador
Ainda com seu papel marcador
“Não fui eu que o levei a nocaute
Nem toquei nele naquela noite
Eu não cometi nenhum pecado
E até apostei nele algum bocado
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o jornalista
Tomando umas notas numa lista
Dizendo “A culpa não é do boxe
Perigo existe em qualquer esporte”
Dizendo “As lutas vieram pra ficar
O estilo da América é aí que está
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse aquele cujos punhos
Levaram Davey para além dos sonhos
Ele veio duma ilha lá do Caribe
Lá onde o boxe já se proíbe
“Eu bati nele, não vou negar
Mas eles me pagam pra lutar
E não me chamem de assassino
Deus quis assim, foi o destino”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
__
Uma guerra faz cem anos
e faz um milésimo de segundo.
Faz os seres tão humanos
insanos e insanas subindo ao fundo.
Sim: uma guerra até liberta – dizem.
– Não, não, nossa causa é justa – sublinham.
Daqui deste lado da minha fronte
sem muito mais novidade,
penso na razão – ou rima – que aponte
a institucionalidade
da guerra, da guerra interior
da poesia – e largo da métrica
sem desistir
e penso no xadrez, no futebol, no boxe,
na existência aparentemente impossível
sem guerra –
penso em metáforas, metaforizações e justificativas,
me ocorre o poema “guerra sou eu”
do samurai Leminski
mas fico atentado – e estendo
estrategicamente
esta postagem
colando uma tradução:
QUEM MATOU DAVEY MOORE?
[Who Killed Davey Moore? – Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana]
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o juiz
“Não apontem o dedo pra mim
Podia ter suspendido no oitavo assalto
Talvez assim salvasse ele, de fato
Mas eles gritariam (e quem me escolta?)
E exigiriam seu dinheiro de volta
É triste que ele tenha ido assim
Mas tinha muita pressão sobre mim
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não foi nós,” rosnou a multidão
Zumbindo na arena com seu calão
“É uma pena, que nem se discuta
A gente só queria uma boa luta
Não era pra ele encontrar a morte
A gente só queria o suor dos fortes
Nada de errado com esse esporte
E a gente não derrubou ninguém
Não culpem a gente, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o empresário
Fumando seu charuto salafrário
“É difícil falar, é difícil dizer
Eu sempre achei que ele tava bem
Pior para a esposa e para seus filhos
Mas se ele tava mal, devia ter dito
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o apostador
Ainda com seu papel marcador
“Não fui eu que o levei a nocaute
Nem toquei nele naquela noite
Eu não cometi nenhum pecado
E até apostei nele algum bocado
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o jornalista
Tomando umas notas numa lista
Dizendo “A culpa não é do boxe
Perigo existe em qualquer esporte”
Dizendo “As lutas vieram pra ficar
O estilo da América é aí que está
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse aquele cujos punhos
Levaram Davey para além dos sonhos
Ele veio duma ilha lá do Caribe
Lá onde o boxe já se proíbe
“Eu bati nele, não vou negar
Mas eles me pagam pra lutar
E não me chamem de assassino
Deus quis assim, foi o destino”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
domingo, junho 29, 2014
DOIS ANOS JUNTOS
(à Faena Figueiredo Rossilho)
Dois anos de carinhos e de espinhos,
De calores, de dores e de flores,
Palmas, calmas, traumas, certezas
E incertezas nessas nossas almas,
Simplicidades, complexidades,
Necessidades, multiplicidades,
Dois anos, mais de setecentos dias
De incontáveis emoções e alegrias,
Com carícias e delícias,
Mágicas, místicas, músicas,
Dois anos com brinco e com afinco,
Pra compor o que for, com cor e com amor.
IJS
*
Dois anos de carinhos e de espinhos,
De calores, de dores e de flores,
Palmas, calmas, traumas, certezas
E incertezas nessas nossas almas,
Simplicidades, complexidades,
Necessidades, multiplicidades,
Dois anos, mais de setecentos dias
De incontáveis emoções e alegrias,
Com carícias e delícias,
Mágicas, místicas, músicas,
Dois anos com brinco e com afinco,
Pra compor o que for, com cor e com amor.
IJS
*
segunda-feira, junho 23, 2014
POR UMA VIDA INTEIRA
(ao Rodrigo Madeira --
e à Luciana Cañete, ao Fernando Koproski, ao Alexandre França, ao Luiz Felipe Leprevost, à Marilia Kubota, à Marilda Confortin, ao Thadeu Wojciechowski, ao Sérgio Viralobos, ao Roberto Prado, à Monica Berger, à Luci Collin, ao Marcelo Sandmann, ao Rodolfo Jaruga, ao Jaques Brand, ao Ricardo Pozzo, ao Adriano Scandolara, ao Adriano Smaniotto, ao Mario Domingues, e a quem mais se considerar)
Um verso por uma vida inteira.
Um verso inteiro por uma vida.
Qual a troca mais descabida:
a segunda ou a primeira?
Se os concretos abstraíram
e o(a)s marginais distraíram
veio uma outra geração?
Ou a poesia migrou
e minguou e morreu
na canção?
Pois é:
não.
A poesia nunca vai tarde
e aí estamos nós, ou a gente
na rede,
rimando o que sente ou quase nem sente
na cara e na coragem covarde
que o verso sempre vai e vem
e revolta
com
ou sem alarde.
ijs
...
e à Luciana Cañete, ao Fernando Koproski, ao Alexandre França, ao Luiz Felipe Leprevost, à Marilia Kubota, à Marilda Confortin, ao Thadeu Wojciechowski, ao Sérgio Viralobos, ao Roberto Prado, à Monica Berger, à Luci Collin, ao Marcelo Sandmann, ao Rodolfo Jaruga, ao Jaques Brand, ao Ricardo Pozzo, ao Adriano Scandolara, ao Adriano Smaniotto, ao Mario Domingues, e a quem mais se considerar)
Um verso por uma vida inteira.
Um verso inteiro por uma vida.
Qual a troca mais descabida:
a segunda ou a primeira?
Se os concretos abstraíram
e o(a)s marginais distraíram
veio uma outra geração?
Ou a poesia migrou
e minguou e morreu
na canção?
Pois é:
não.
A poesia nunca vai tarde
e aí estamos nós, ou a gente
na rede,
rimando o que sente ou quase nem sente
na cara e na coragem covarde
que o verso sempre vai e vem
e revolta
com
ou sem alarde.
ijs
...
segunda-feira, junho 16, 2014
ABC: uma Apresentação do Bloomsday em Curitiba (ou Para: compreender o Paraná?)
*
Antes de tudo, esse texto é para celebrar a data, paradoxalmente fundamental para as literaturas curitibana, paranaense, brasileira e universal, tanto quanto para a irlandesa.
Sim: 16 de junho é o Bloomsday, e se você não sabe do que se trata, a Wikipédia está aí também para isso. O importante para nós aqui e agora é que, desde que o Dalton Trevisan (que fez 89 anos anteontem) publicou na sua revista Joaquim um trecho do Ulysses de James Joyce (não creditou a tradução do trecho, que está no número 4 da revista, mas presume-se que foi ele, Dalton, o tradutor), e desde que o Paulo Leminski publicou seu livro-emblema Catatau, catatotalmente sob o influxo do Finnegans Wake daquele mesmo James Joyce, tais gestos (entre outros) foram estabelecendo um grau de parentesco, uma familiaridade bem tipicamente curitibana, irlandesa, paranaense, inglesa, brasileira, ou -- numa palavra: humana.
Mas eu talvez começasse melhor ainda explicando o título alternativo desse texto: "Para: compreender o Paraná?"
Em idos do milênio passado, meu amigo e parente [primo de minha mãe em terceiro grau] Hélio Puglielli publicou um pequeno livro de breves textos, intitulado "Para comprender o Paraná". O aproveitamento aqui é para expor uma característica fundamental "nossa", como paranaenses, brasileiros, e até -- enfim: humanos.
Chegaremos ao ponto: paciência. Com o novo acordo ortográfico, foi suprimido o acento diferencial, mas (humanos, demasiadamente) só nalguns casos, como esse da palavra "para", quando é verbo, por exemplo em frases como "ele não para de escrever", ou em "o Paraná para para a explicação", o que dificulta assim a desambiguação com a preposição "para", sacaram?
Enfim: para com isso, Ivan! Compreender o Paraná? E estou parando mesmo, mas para, além de propor uma compreensão do Paraná, explicar Joyce, Leminski, Dalton, e tudo mais...
Sim: porque hoje é o Bloomsday, e esta será talvez mais uma única última chance minha de tais explicações, então passemos a um ponto nevrálgico: uma ocasião em que Leminski foi gravado mencionando o nome do Hélio Puglielli. Foi numa entrevista ao jornalista Aramis Millarch, e pode ser ouvida clicando aqui.
Atenção: são 4 horas de gravação, e a partir da segunda hora o nível da conversa começa a escorregar, pois Leminski atinge um pico alcoólico e aí... Aí a certa altura, sem mais censura, ele se refere ao meu caro Helio Puglielli. Mas não é muito elogioso. De qualquer modo, para tudo de novo -- é esse fato de falar mal a característica fundamental do paranaense, do curitibano, do irlandês, do ser humano?
Quero confiar que não: mas é uma das formas de nos irmanarmos e nos identificarmos a todos. Temos origens todas compartilhadas e que se imbricam no fenômeno da vida, nos tornando uma família planetária: isso pode ser percebido melhor, se em vez de nos referirmos à raça paranaense, passarmos essa referência, por exemplo, à literatura paranaense...
Sim: você pode me dizer: a armadilha está armada: quem procura estabelecer um senso de origem, uma separação e definição desse tipo, está a um milímetro do fascismo. Mas eu sou paranaense (sem tanto orgulho, mas com muito amor) e digo: sim, só que a percepção da diferença, ou a tentativa de especialização, acabam por nos fazer perceber a relatividade disso, especialmente num caso como o do Paraná: humanamente, brasileiramente, e até mesmo ortograficamente (tão esquizofrênica e confusa quanto nossa brasilidade expressa na língua portuguesa, humanamente bagunçada e organizada desse jeito), enfim: sim: vivenciamos uma condição de busca de origens, de mitos de unidade, e afinal de contas, de percepções de diversidade, biológica, política, artística -- e assim começamos a nos compreender mesmo a partir dessas percepções.
Enfim: sim: eu pretendia escrever muito mais, mencionar muito mais gente, especialmente gente ainda mais contemporânea na "literatura curitibana", feito o Adriano Scandolara (italiano? curitibano? joyciano?), que postou uma beleza de texto sobre Joyce hoje aqui neste blog Escamandro mencionando aí o também tradutor agora bastante notório de Joyce, Caetano Galindo -- enfim: mas sim: vamos concluir: está tudo relacionado, minha/sua/nossa/outra/toda gente: a mistura de culturas é o que faz a cultura, e a vontade de cercar e definir uma "literatura paranaense" deve incluir e adotar o fato cultural de que esta literatura é formada/deformada/influenciada/engolida/cercada por todas as outras, especialmente neste estado constituído de misturas, mas caracteristicamente em toda a face do planeta -- e quiçá fora dele...
E assim: sim: tudo se explica, não?
Mas parece que tem um evento acontecendo também aqui em Curitiba que também pode explicar isso de certa forma, mas me falhou agora a memória qual é... De qualquer modo: bola pra frente!
...
Antes de tudo, esse texto é para celebrar a data, paradoxalmente fundamental para as literaturas curitibana, paranaense, brasileira e universal, tanto quanto para a irlandesa.
Sim: 16 de junho é o Bloomsday, e se você não sabe do que se trata, a Wikipédia está aí também para isso. O importante para nós aqui e agora é que, desde que o Dalton Trevisan (que fez 89 anos anteontem) publicou na sua revista Joaquim um trecho do Ulysses de James Joyce (não creditou a tradução do trecho, que está no número 4 da revista, mas presume-se que foi ele, Dalton, o tradutor), e desde que o Paulo Leminski publicou seu livro-emblema Catatau, catatotalmente sob o influxo do Finnegans Wake daquele mesmo James Joyce, tais gestos (entre outros) foram estabelecendo um grau de parentesco, uma familiaridade bem tipicamente curitibana, irlandesa, paranaense, inglesa, brasileira, ou -- numa palavra: humana.
Mas eu talvez começasse melhor ainda explicando o título alternativo desse texto: "Para: compreender o Paraná?"
Em idos do milênio passado, meu amigo e parente [primo de minha mãe em terceiro grau] Hélio Puglielli publicou um pequeno livro de breves textos, intitulado "Para comprender o Paraná". O aproveitamento aqui é para expor uma característica fundamental "nossa", como paranaenses, brasileiros, e até -- enfim: humanos.
Chegaremos ao ponto: paciência. Com o novo acordo ortográfico, foi suprimido o acento diferencial, mas (humanos, demasiadamente) só nalguns casos, como esse da palavra "para", quando é verbo, por exemplo em frases como "ele não para de escrever", ou em "o Paraná para para a explicação", o que dificulta assim a desambiguação com a preposição "para", sacaram?
Enfim: para com isso, Ivan! Compreender o Paraná? E estou parando mesmo, mas para, além de propor uma compreensão do Paraná, explicar Joyce, Leminski, Dalton, e tudo mais...
Sim: porque hoje é o Bloomsday, e esta será talvez mais uma única última chance minha de tais explicações, então passemos a um ponto nevrálgico: uma ocasião em que Leminski foi gravado mencionando o nome do Hélio Puglielli. Foi numa entrevista ao jornalista Aramis Millarch, e pode ser ouvida clicando aqui.
Atenção: são 4 horas de gravação, e a partir da segunda hora o nível da conversa começa a escorregar, pois Leminski atinge um pico alcoólico e aí... Aí a certa altura, sem mais censura, ele se refere ao meu caro Helio Puglielli. Mas não é muito elogioso. De qualquer modo, para tudo de novo -- é esse fato de falar mal a característica fundamental do paranaense, do curitibano, do irlandês, do ser humano?
Quero confiar que não: mas é uma das formas de nos irmanarmos e nos identificarmos a todos. Temos origens todas compartilhadas e que se imbricam no fenômeno da vida, nos tornando uma família planetária: isso pode ser percebido melhor, se em vez de nos referirmos à raça paranaense, passarmos essa referência, por exemplo, à literatura paranaense...
Sim: você pode me dizer: a armadilha está armada: quem procura estabelecer um senso de origem, uma separação e definição desse tipo, está a um milímetro do fascismo. Mas eu sou paranaense (sem tanto orgulho, mas com muito amor) e digo: sim, só que a percepção da diferença, ou a tentativa de especialização, acabam por nos fazer perceber a relatividade disso, especialmente num caso como o do Paraná: humanamente, brasileiramente, e até mesmo ortograficamente (tão esquizofrênica e confusa quanto nossa brasilidade expressa na língua portuguesa, humanamente bagunçada e organizada desse jeito), enfim: sim: vivenciamos uma condição de busca de origens, de mitos de unidade, e afinal de contas, de percepções de diversidade, biológica, política, artística -- e assim começamos a nos compreender mesmo a partir dessas percepções.
Enfim: sim: eu pretendia escrever muito mais, mencionar muito mais gente, especialmente gente ainda mais contemporânea na "literatura curitibana", feito o Adriano Scandolara (italiano? curitibano? joyciano?), que postou uma beleza de texto sobre Joyce hoje aqui neste blog Escamandro mencionando aí o também tradutor agora bastante notório de Joyce, Caetano Galindo -- enfim: mas sim: vamos concluir: está tudo relacionado, minha/sua/nossa/outra/toda gente: a mistura de culturas é o que faz a cultura, e a vontade de cercar e definir uma "literatura paranaense" deve incluir e adotar o fato cultural de que esta literatura é formada/deformada/influenciada/engolida/cercada por todas as outras, especialmente neste estado constituído de misturas, mas caracteristicamente em toda a face do planeta -- e quiçá fora dele...
E assim: sim: tudo se explica, não?
Mas parece que tem um evento acontecendo também aqui em Curitiba que também pode explicar isso de certa forma, mas me falhou agora a memória qual é... De qualquer modo: bola pra frente!
...
domingo, junho 15, 2014
Porque a minha namorada Faena esperava que eu escrevesse um poema sobre a abertura da copa, e também porque hoje é aniversário do meu pai, e também em pré-homenagem a James Joyce e Luci Collin e Samuel Beckett e Luiz Felipe Leprevost e Bento Cego e Batista de Pilar e Patativa do Assaré e quem mais chegar e ler e conseguir gostar.
*
Ali é nado.
Ali, nada.
Ali é nação.
Ali, alienação.
Aqui nem começa.
Aqui vem com essa.
Aqui o poema é peça.
Aqui peça e despeça.
Acolá: ninguém mais usa
Ou usa: botões da blusa.
Só termina. Quando acaba.
Lá pode ser nem ou não.
Amor. Morte. Temor. São.
Além do abismo: lá: uma aba.
...
*
Ali é nado.
Ali, nada.
Ali é nação.
Ali, alienação.
Aqui nem começa.
Aqui vem com essa.
Aqui o poema é peça.
Aqui peça e despeça.
Acolá: ninguém mais usa
Ou usa: botões da blusa.
Só termina. Quando acaba.
Lá pode ser nem ou não.
Amor. Morte. Temor. São.
Além do abismo: lá: uma aba.
...
*
segunda-feira, maio 26, 2014
LEVE PRA VOCÊ
(pra Faena)
Já te perdi e assim percebi teu valor
e já tentei viver sem tirar nem compor.
Risquei uns versos –
riscos sempre estão por perto –
e o nosso amor às vezes míngua
feito uma lua – misteriosa língua.
Mas esse poema não é só pra impressionar,
e sim pra te refletir nesse bem simples olhar,
em verso aceso que o coração-cais te escreve
e faz o peso do universo agora tão mais leve.
ijs
...
Já te perdi e assim percebi teu valor
e já tentei viver sem tirar nem compor.
Risquei uns versos –
riscos sempre estão por perto –
e o nosso amor às vezes míngua
feito uma lua – misteriosa língua.
Mas esse poema não é só pra impressionar,
e sim pra te refletir nesse bem simples olhar,
em verso aceso que o coração-cais te escreve
e faz o peso do universo agora tão mais leve.
ijs
...
quinta-feira, maio 15, 2014
A ANGÚSTIA DA EXISTÊNCIA
(Um
poema-ensaio-anseio paranaense)
Disseram
que não existe cultura paranaense.
Que
a cultura paranaense não tem passado nem
presente
nem futuro. Escreveram isso ali,
na
rede social.
E
é verdade mesmo, pois quem escreveu
é
um dos mais notórios fabricantes de
cultura
paranaense.
E
a cultura paranaense é mais que consistente:
é
paraconsistente: não existe e existe –
ocupa
e não ocupa dois ou mais lugares
em
mais de uns sete ao-mesmo-tempos
no
espaço de infinitos lugares nenhuns:
sim,
está bem ali.
Olhem
só: vocês não sabem o que é:
e
está bem por lá:
é a cultura paranaense.
é a cultura paranaense.
Cultura
de uma gente que sabe dizer quem não é.
Sabemos
e estamos até cansados de dizer que não.
Outra
fabricante de cultura paranaense definiu:
“em
Curitiba, os dez mandamentos se resumem a um:
não”
– pois é: sim, paranaense não é só
o
curitibano que não se enxerga no espelho
do
banheiro de manhã – olhem mais ali,
logo
ali, em Londrina: Londrina nasceu ontem,
não
pode existir, não fica no Brasil: portanto...
É
paranaense.
Sim,
pode até ser um drama pro Domingos
Pellegrini,
que certamente se dependesse dele
moraria
num estado chamado Iguaçu,
com
capital londrinense – a capital: talvez Foz –
enfim,
é outro fabricante de cultura paranaense:
não
existe, logo está ali, nesse nosso estado –
e
já que estamos citando nomes, não espalhem:
não
existiu um compositor musical
chamado
Brasílio Itiberê, ali de Paranaguá,
que
compôs uma certa “Sertaneja”, música
precursora
da mistura de elementos clássicos
com
tradição popular – mas cadê essa “Sertaneja”?
Ninguém
sabe, ninguém ouviu – portanto:
existe:
é paranaense.
Vamos
passar à arquitetura:
“o
estilo arquitetônico predominante durante
o
ciclo do mate, quando Curitiba deu um salto
civilizatório,
foi o eclético” – sim, eclético, mas
o
que é isso? É o que não é – é a mistura das coisas
que
são, portanto, novamente:
paranaenses.
Vamos
lá, vamos aprofundar mais ao nível pessoal:
estava
eu (até que demorei pra falar de mim, não?
enfim,
agora aguentem...) mediando e organizando
um
evento bem paranaense: o Bloomsday – sabem,
o
Bloomsday, sobre a obra daquele escritor irlandês
James
Joyce, que escreveu um livro que não tem ponto
final
(epa, claro que tem – então, devia ser algo bem
paranaense),
sabem, né, então, estávamos naquela
livraria
paranense chamada Fnac, sabem, e eu
fui
babaca –
opa,
vamos parar: você, Ivan, foi babaca?
Sim,
pois é: estava na assistência
(querem
coisa mais paranaense que chamar
quem
assiste de assistência? – enfim, vamos lá,
Ivan,
demorou com a história) estava na assistência
um
grande escritor paranaense: Cristóvão Tezza –
ué,
mas ele não nasceu em Lages?
Exatamente:
eu fui babaca de “brincar” que o
Tezza
não podia ser um escritor paranaense –
e
enfim, meio que me justificando:
nunca
fomos ali tão paranaenses:
a
livraria era francesa, o escritor homenageado,
irlandês
– mas o nome do shopping, apesar de “park”
era
(é) Barigui.
Tá
aí.
Podemos
ser curitibabacas o quanto nossas falhas
permitam
– e gostamos de fazer esses meas-culpas,
pelo
menos eu por mim estou gostando disso,
eu
que sempre-nunca me orgulhei
de
ser curitibano de pai e mãe curitibanos,
e
pra meu próprio horror-amor um dia descobri:
se
aqui somos alguma coisa,
somos
todos (e todas) tingui,
tinguis,
tupis, nos nossos topônimos
estão
essas “nossas” (com e sem aspas)
origens:
Curitiba, Guarapuava, Maringá,
Paraná
– pois é: dizem que até nem mesmo
o
nome desse estado foi escolhido aqui,
mas
está aí, nosso, e nosso de quem,
meus
caros e caras pálidas?
O
negócio é que o adiantado da hora
me
obriga a seguir atrasando e incomodando –
e
também me desculpando: Domingos,
nada
pessoal: os paranaenses que acham que se
sabem
minimamente paranaenses
gostam
de que você exista,
tenha
seu jeito e suas opiniões:
com
o perdão da intimidade
(imperdoável
aos curitibanos, mas perdoável –
porque
inexistentes – aos paranaenses),
o
teu sobrenome de imigrante, Domingos,
é o
mesmo sobrenome de Kolody,
de
Leminski, de Trevisan, de Karam,
de
Bueno, de Wojciechowski, e até do
França
– sim, do Alexandre França,
esse
grego curitibano que agora resolveu
morar
em São Paulo – do mesmo jeito
que
aquele Carlos Careqa, que mantém
essa
nossa cultura bem paranaense:
que
não existe, está aí, não incomoda,
incomoda
–
e
ninguém nota.
Aliás,
alguém aí
ouviu
falar da Ada Macaggi?
Então,
lá
em
Paranaguá,
políticos
confundem Júlia da Costa
com
Júlia Wanderley
nas
inaugurações de bustos de praças,
portanto:
sim, existe
a
cultura paranaense,
existiram
e existem e existirão
Arrigo
Barnabé,
Itamar
Assumpção,
que
são lá de Londrina,
de
Arapongas, ou não –
voltando
aos mais paranaenses
lá
de Santa Catarina, como não:
se
por lá existe uma cidade chamada
Curitibanos,
que quem nasce lá deve ser o quê?
Curitibanense?
Ou não existe: ou melhor: sim:
paranaense.
paranaense.
Uma
cultura que se deseja assim nenhuma,
apagada,
emprestada, que quer ser outra
ou
adota fácil o que “vem de fora” mas
nasceu
logo ali, ali nesse nosso mundo,
tão
inexistente e paranaense – enfim:
vamos
a mais um descarrego pessoal,
que
isso aqui é um poema inexistente,
uma
coisa típica paranaense:
alguém
aí já viu uma gralha azul
plantando
uma araucária?
Que
angústia mais angustifólia –
sinto
como deve ser essa saudade,
estou
escrevendo esse ensaio-anseio também
pruma
certa paranaense
que
agora está vivendo nos “esteits” –
Xanda
Lemos, veja só, que vergonha,
me
perdoe a menção – mas vamos rápido
a
um corte pra falar de inimizade, calma aí,
que
esse treco tem que ser mais polêmico,
então
reservem a Xanda e sua banda – e também
a
banda Mordida, e quem sabe nessa enrolação
eu
também deva mencionar um certo xará,
o
Ivan Rodrigues, filho daquele Ivo Rodrigues,
daquela
banda, o Blindagem, a Blindagem, enfim,
eu
sei, vocês não conhecem, não existe, pois é:
paranaense,
demasiadamente paranaense.
Mas
estou perdendo o pé:
eu
ia falar dum amigo curitibano meu,
um
camarada aí, o Márcio Renato dos Santos –
sim:
esse também – publicou recentemente
um
livro-dicionário sobre Curitiba:
vejam
lá, leiam: eu não li (ainda),
sou
um tremendo curitibabaca,
mas
soube que no livro o Márcio diz
que
“autofagia” não existe, que os curitibanos
são
na verdade muito críticos e exigentes,
vejam
só então:
não
é perfeito, perfeitamente
paranaense?
–
nos
negamos com facilidade:
e
aí nesse negamos podemos
até
negar que somos “um Brasil diferente”,
e
também dizer que não houve escravidão aqui,
e
promover esse apagamento duma mestiçagem
duma
negritude
que
possivelmente vamos ter muita vergonha
em
confessar – afinal:
paranaenses,
percebem, não existimos,
não
temos nem mais a nossa própria
maledicência,
está se perdendo...
E
o sotaque? Qual sotaque?
Agora
está virando mais marcadamente
uma
fala acaipirada, porque não, de jeito
nenhum
somos caipiras, somos esse
experimento
de “primeiro” mundo,
não
é mesmo?
Somos
essa tentativa
de
não ser jacus
que
acaba sendo ainda mais jacu:
vide
os socorros batéis...
Enfim,
como
sempre,
restou
muito a ser dito –
quase
fiquei ainda mais aflito,
e
se é poema também tem que ser
alguma
forma de grito – mas tolerem,
que
é um modo curitibano – e paranaense,
de
ser assim tímido, calado, quieto,
mas
de repente flutuante – pois é:
de
fato – ultimamente sentimos que
estava
acontecendo algo,
que
as pessoas (muita gente vindo de fora,
querem
algo mais contraditoriamente
paranaense?)
estavam mais simpáticas,
mudando,
se enturmando –
e
realmente – mudamos pra novamente
voltar
a amaldiçoar nossas angústias
de
existência inexistente,
e
agora – ei, e agora, você nem falou
das
artes plásticas, do problema do grafite,
da
oficialidade versus o vandalismo,
e
já vai indo?
É,
meu caro Ivan:
a
sua loucura não é mais
nem
menos paranaense
que
a de todos esses que nem fazemos
uma
identidade cultural homogênea:
quem
sabe com toque de gênio,
ainda
com algum oxigênio pra queimar, mas –
não,
não existimos como povo,
o
Brasil não é isso, nada é assim,
a
rima até que é fácil nesse fim,
e
você com essa mania de “sim”
quem
sabe faça sorrir algum querubim
se
não se esquecer de dar à amada um quindim
de
um versinho apaixonado e nada chinfrim,
mas
outra vez enfim,
volte
pra sua tese, não existe cultura paranaense,
não
tem jeito, não adianta, esquece,
já
bastou, de novo: fim.
Nos
vemos todos lá no MON,
na
exposição
do
João
Turin.
...
terça-feira, maio 06, 2014
Revisão rápida do domingo passado no Instituto Neo-Pitagórico
Foi ótimo visitar novamente o Templo das Musas, rever o presidente Anael, conversar com o Manoel Anísio e a Eliane Martins, e participar do sarau poético organizado pela Andréia Carvalho, que faz parte da turma poética da revista virtual Mallarmargens -- bom também conhecer pessoalmente o jovem Caio Tardelli, que tem publicado belos artigos sobre poesia simbolista nesta revista. E bom também ouvir poetas daqui, dali e de lá, alguns considerando Rimbaud um precursor do simbolismo, outras afirmando que Alphonsus, Cruz e Sousa, e Eduardo Guimaraens são a "trindade" simbolista brasileira [do Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro dá pra extrair umas trinta trindades, sendo que a "paranaense" seria formada por Emiliano, Silveira Neto e Dario, com Adolfo Werneck, Ricardo de Lemos e Ismael Martins na "reserva", e pelo menos mais umas três trindades possíveis...] -- Enfim, o Simbolismo é flexível e permeável mesmo: em certo sentido, toda poesia é simbolista, pois é feita com palavras, esses símbolos tão icônicos e indiciáveis, não? Enfim de novo, a foto aí foi feita pelo Decio Romano.
sexta-feira, maio 02, 2014
Os últimos dois textos do meu irmão aqui
Neste fim de semana completam-se quatro semanas da morte do meu irmão Cid Justen Santana. Resolvi registrar aqui mais dois textos. Não são os últimos dele, mas os últimos que vou postar aqui. Eu não ia postar a crônica, A Noite de um Dia Difícil, porque é prosa, e porque quando digitei achei que o texto não estava tão bem realizado quanto poderia. Bobagem crítica da minha parte: foi escrito em 1987, quando o Cid tinha 16 anos incompletos, e também selecionado para o livro do concurso literário do Positivo daquele ano. O Cid emplacou quatro anos seguidos sendo selecionado e premiado nesse concurso, de 1985 a 1988.
Segue aqui também o Ascensão e Declínio, escrito em 1985. É o primeiro poema dele selecionado no concurso, que resultava (parece que isso acontece até hoje) na publicação do livro Palavra Viva. Poema de um piá de 13 para 14 anos. Ascensão e declínio. E eis a postagem final de tributo ao meu irmão. Valeu, Cid!
***
A Noite de um Dia Difícil
Dias difíceis todos nós temos. São quando o relógio trabalha mais do que nós, ou quando o supermercado está cheio, ou quando a energia acaba. No mais, ligamos a ignição do carro e voltamos pra casa, tendo o cuidado de desligar o rádio quando começa o informe estatal.
A noite de um dia difícil é diferente, repleta de pensamentos. Mesmo que os computadores não queiram, quando algo diferente acontece, nós começamos a pensar. E eu penso.
Penso que não sei se as pessoas continuarão a correr inescrupulosamente atrás do dinheiro, como única alternativa pra uma sobrevivência decente. Somos escravos das horas, do patrão e do "descanso semanal remunerado". O egoísmo e a ambição desunem os homens. Todos correm todos os dias atrás de todo o dinheiro que possam conseguir. Uns poucos andam mais devagar, loucos ou divagadores, ou catadores de lixo. Os carrinhos de madeira não são leves... Os transeuntes fogem apressados dos monstros metálicos que fomos nós mesmos que inventamos porque não sabemos mais andar. Até dar um acidente. A multidão que se forma pra ver um acidente de carro não é muito diferente da legião de formigas que se forma em volta de um gafanhoto morto. E chegamos em casa e acendemos os fios de tungstênio e cobre. Às vezes uma sirene distante indica que houve mais uma desgraça na cidade. Acendemos a televisão instintivamente, mesmo que não queiramos ver televisão. É porque é moda, porque amanhã no trabalho vão comentar o capítulo de ontem que é o hoje amanhã. Afinal as pessoas gostam de conversar e não gostam de contas, e vão pra festas onde se esquecem das contas, bebem acima da conta e falam de assuntos que não são da sua conta. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
O bicho-homem se esconde na sua toca. Ainda há lá alguns buracos pra sabermos o que está acontecendo lá fora, e pras pessoas se suicidarem com toda a comodidade e segurança. À noite, servem também pra se olhar pra lua prateada, que serve pra lembrar que ainda estamos na Terra e que já houve homens cuja única preocupação era caçar antílopes e olhar pra lua. Esses instrumentos pra ver através das paredes chamam-se janelas. Janelas. Pontinhos brilhantes no céu da noite. Cada um deles é uma pessoa, uma realidade que eu não conheço. Vemos milhares de pessoas todos os dias e milhares de pontinhos todas as noites e não conhecemos ninguém. Somos apenas mais um semblante, mais uma janela. "Janela" não é uma boa palavra pra se terminar uma frase. Não tem ritmo, não é musical. Mas hoje em dia as músicas, que são mais importantes que as poesias, são muitas vezes meros amontoados de acordes permeados de gritos e convulsões, sem lógica ou uma idéia a transmitir. Servem pra que as pessoas se amem em salões chamados danceterias, se mexendo pra lá e pra cá como se tivessem maleita ou quebranto. É porque querem parecer charmosas, querem ser aceitas pela sociedade do consumismo, do imediatismo e do belo. Estamos tão consumistas que julgamos poder fazer as coisas sumirem, desaparecerem apenas porque não nos servem mais. Jogamos algo no lixo querendo que se desintegre, que os átomos desapareçam, contrariando a própria Lei de Lavoisier. Nessa sociedade imediatista, a forma vale mais que o conteúdo, o hábito faz o monge. A sociedade nos impede de sermos nós mesmos. A sociedade nos transforma em robôs. Bip, bip... você já lubrificou suas engrenagens hoje? Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
Temos fitas em nosso videocassete e livros em nossa biblioteca com figuras de árvores, selvas, bichos e cores. E quando nos cansarmos podemos olhar pela janela e ver prédios e flores brotando do chão. Mas as flores também nascem nos gramados que os jardineiros plantam pra depois cortar. As flores, quando ficam belas, são arrancadas por brutos que também amam, pois amar é permitido e significa gostar duma pessoa do sexo oposto, uma espécie de egoísmo a dois, porque as pessoas que se trancam em suas próprias casas precisam de outras que lhes satisfaçam o desejo. E que também ouçam quando estas reclamarem do silêncio ou do gosto do purê no almoço. Afinal não somos uma ilha, embora o oceano, poluído, cada vez aumente mais. E uma ilha não tem água por cima nem por baixo, enquanto nós temos espaços vazios por todos os lados. Nas cidades se agrupam pessoas vizinhas em Tempo e Espaço e afastadas em Espírito. Alguns não agüentam a pressão e viajam ao mundo dos sonhos. Eu já não sei mais direito o que está certo e o que está errado. Mas isso são só... você já sabe o resto.
É muito fácil e confortável pensar só nos próprios problemas. Deixar pra ser socialista na faculdade e depois se acomodar pro resto da vida, enquanto pobres coitados alheios a regimes e ideologias morrem de fome. Pior cego é o que não quer esperar doador de córnea...
Os homens buscam doutrinas perfeitas como se governo fizesse milagres. Esquecem que mudanças vêm de dentro pra fora, que se você quer deixar o mundo melhor deve ficar você melhor. Mas o problema é que o sistema escraviza a todos, ele está impregnado em nossas vísceras. O egoísmo de cada um não permite um mundo de igualdade com liberdade. O futuro é tão incerto que talvez até por ironia do destino, o mundo fique melhor. Talvez hoje mesmo haja condição de uma pessoa ser feliz, sabendo que está fazendo a sua parte, que vai morrer tentando deixar o mundo melhor. Ou não. Depende da índole de cada um. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
Cid Justen Santana (texto selecionado no décimo primeiro concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1987)
***
ASCENSÃO E DECLÍNIO
Quão grandiosa foi minha escalada!
Quão harmoniosa foi ela organizada!
Não, não posso pensar
no que era, no que fui, no que seria, no que sou,
nem pensarei, então, no que serei.
Subi na vida.
Doce escalada sofrida.
Ah, se pudesse voltar...
Não, eu não iria arriscar
perder tudo que tinha,
voltar a essa vidinha
mais baixa, mesquinha...
Corroído e corrompido fui
pela classe ostentosa.
Mas agora
o lugar de onde caí era mais alto:
minha queda foi do asfalto
para o macadame.
Fui filhinho de madame,
fui reizinho mandão,
mas agora o meu pão,
como o dos que pisei,
será do trigo que eu semear
e do trigo que eu colher.
Tão enorme era a plantação,
mas agora, agricultor
sem cavalo, sem tração,
minha aragem é a dor,
perdi o trator, o moedor, o arado,
perdi os empregados.
Agora sou eu o trator, o moedor,
o arado e os empregados.
Nunca tinha comido melado,
me sujei, me lambuzei,
quão maior eu fui
através dos que pisei.
No esbanjamento
era e sempre fui
um tremendo dum nojento.
Agora que o carro me deixou,
ó Deus, quão penoso é o caminho
do viajante que pegou carona
– a condução foi sua dona –
e agora tem que andar
sem carona a ajudar,
sem ninguém para chorar
pela queda silenciosa
da mão de obra ociosa.
Miséria, me larga!
Não me leva outra vez!
Minhas posses de burguês
foram e foram!
Se sofri para subir, e desci,
agora que mal aguento esta vida,
como poderei novamente emergir?
Não. Devo desistir.
A sorte não bate duas vezes
e eu voltei, de fazendeiro
a tocador de reses.
Segue aqui também o Ascensão e Declínio, escrito em 1985. É o primeiro poema dele selecionado no concurso, que resultava (parece que isso acontece até hoje) na publicação do livro Palavra Viva. Poema de um piá de 13 para 14 anos. Ascensão e declínio. E eis a postagem final de tributo ao meu irmão. Valeu, Cid!
***
A Noite de um Dia Difícil
Dias difíceis todos nós temos. São quando o relógio trabalha mais do que nós, ou quando o supermercado está cheio, ou quando a energia acaba. No mais, ligamos a ignição do carro e voltamos pra casa, tendo o cuidado de desligar o rádio quando começa o informe estatal.
A noite de um dia difícil é diferente, repleta de pensamentos. Mesmo que os computadores não queiram, quando algo diferente acontece, nós começamos a pensar. E eu penso.
Penso que não sei se as pessoas continuarão a correr inescrupulosamente atrás do dinheiro, como única alternativa pra uma sobrevivência decente. Somos escravos das horas, do patrão e do "descanso semanal remunerado". O egoísmo e a ambição desunem os homens. Todos correm todos os dias atrás de todo o dinheiro que possam conseguir. Uns poucos andam mais devagar, loucos ou divagadores, ou catadores de lixo. Os carrinhos de madeira não são leves... Os transeuntes fogem apressados dos monstros metálicos que fomos nós mesmos que inventamos porque não sabemos mais andar. Até dar um acidente. A multidão que se forma pra ver um acidente de carro não é muito diferente da legião de formigas que se forma em volta de um gafanhoto morto. E chegamos em casa e acendemos os fios de tungstênio e cobre. Às vezes uma sirene distante indica que houve mais uma desgraça na cidade. Acendemos a televisão instintivamente, mesmo que não queiramos ver televisão. É porque é moda, porque amanhã no trabalho vão comentar o capítulo de ontem que é o hoje amanhã. Afinal as pessoas gostam de conversar e não gostam de contas, e vão pra festas onde se esquecem das contas, bebem acima da conta e falam de assuntos que não são da sua conta. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
O bicho-homem se esconde na sua toca. Ainda há lá alguns buracos pra sabermos o que está acontecendo lá fora, e pras pessoas se suicidarem com toda a comodidade e segurança. À noite, servem também pra se olhar pra lua prateada, que serve pra lembrar que ainda estamos na Terra e que já houve homens cuja única preocupação era caçar antílopes e olhar pra lua. Esses instrumentos pra ver através das paredes chamam-se janelas. Janelas. Pontinhos brilhantes no céu da noite. Cada um deles é uma pessoa, uma realidade que eu não conheço. Vemos milhares de pessoas todos os dias e milhares de pontinhos todas as noites e não conhecemos ninguém. Somos apenas mais um semblante, mais uma janela. "Janela" não é uma boa palavra pra se terminar uma frase. Não tem ritmo, não é musical. Mas hoje em dia as músicas, que são mais importantes que as poesias, são muitas vezes meros amontoados de acordes permeados de gritos e convulsões, sem lógica ou uma idéia a transmitir. Servem pra que as pessoas se amem em salões chamados danceterias, se mexendo pra lá e pra cá como se tivessem maleita ou quebranto. É porque querem parecer charmosas, querem ser aceitas pela sociedade do consumismo, do imediatismo e do belo. Estamos tão consumistas que julgamos poder fazer as coisas sumirem, desaparecerem apenas porque não nos servem mais. Jogamos algo no lixo querendo que se desintegre, que os átomos desapareçam, contrariando a própria Lei de Lavoisier. Nessa sociedade imediatista, a forma vale mais que o conteúdo, o hábito faz o monge. A sociedade nos impede de sermos nós mesmos. A sociedade nos transforma em robôs. Bip, bip... você já lubrificou suas engrenagens hoje? Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
Temos fitas em nosso videocassete e livros em nossa biblioteca com figuras de árvores, selvas, bichos e cores. E quando nos cansarmos podemos olhar pela janela e ver prédios e flores brotando do chão. Mas as flores também nascem nos gramados que os jardineiros plantam pra depois cortar. As flores, quando ficam belas, são arrancadas por brutos que também amam, pois amar é permitido e significa gostar duma pessoa do sexo oposto, uma espécie de egoísmo a dois, porque as pessoas que se trancam em suas próprias casas precisam de outras que lhes satisfaçam o desejo. E que também ouçam quando estas reclamarem do silêncio ou do gosto do purê no almoço. Afinal não somos uma ilha, embora o oceano, poluído, cada vez aumente mais. E uma ilha não tem água por cima nem por baixo, enquanto nós temos espaços vazios por todos os lados. Nas cidades se agrupam pessoas vizinhas em Tempo e Espaço e afastadas em Espírito. Alguns não agüentam a pressão e viajam ao mundo dos sonhos. Eu já não sei mais direito o que está certo e o que está errado. Mas isso são só... você já sabe o resto.
É muito fácil e confortável pensar só nos próprios problemas. Deixar pra ser socialista na faculdade e depois se acomodar pro resto da vida, enquanto pobres coitados alheios a regimes e ideologias morrem de fome. Pior cego é o que não quer esperar doador de córnea...
Os homens buscam doutrinas perfeitas como se governo fizesse milagres. Esquecem que mudanças vêm de dentro pra fora, que se você quer deixar o mundo melhor deve ficar você melhor. Mas o problema é que o sistema escraviza a todos, ele está impregnado em nossas vísceras. O egoísmo de cada um não permite um mundo de igualdade com liberdade. O futuro é tão incerto que talvez até por ironia do destino, o mundo fique melhor. Talvez hoje mesmo haja condição de uma pessoa ser feliz, sabendo que está fazendo a sua parte, que vai morrer tentando deixar o mundo melhor. Ou não. Depende da índole de cada um. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.
Cid Justen Santana (texto selecionado no décimo primeiro concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1987)
***
ASCENSÃO E DECLÍNIO
Quão grandiosa foi minha escalada!
Quão harmoniosa foi ela organizada!
Não, não posso pensar
no que era, no que fui, no que seria, no que sou,
nem pensarei, então, no que serei.
Subi na vida.
Doce escalada sofrida.
Ah, se pudesse voltar...
Não, eu não iria arriscar
perder tudo que tinha,
voltar a essa vidinha
mais baixa, mesquinha...
Corroído e corrompido fui
pela classe ostentosa.
Mas agora
o lugar de onde caí era mais alto:
minha queda foi do asfalto
para o macadame.
Fui filhinho de madame,
fui reizinho mandão,
mas agora o meu pão,
como o dos que pisei,
será do trigo que eu semear
e do trigo que eu colher.
Tão enorme era a plantação,
mas agora, agricultor
sem cavalo, sem tração,
minha aragem é a dor,
perdi o trator, o moedor, o arado,
perdi os empregados.
Agora sou eu o trator, o moedor,
o arado e os empregados.
Nunca tinha comido melado,
me sujei, me lambuzei,
quão maior eu fui
através dos que pisei.
No esbanjamento
era e sempre fui
um tremendo dum nojento.
Agora que o carro me deixou,
ó Deus, quão penoso é o caminho
do viajante que pegou carona
– a condução foi sua dona –
e agora tem que andar
sem carona a ajudar,
sem ninguém para chorar
pela queda silenciosa
da mão de obra ociosa.
Miséria, me larga!
Não me leva outra vez!
Minhas posses de burguês
foram e foram!
Se sofri para subir, e desci,
agora que mal aguento esta vida,
como poderei novamente emergir?
Não. Devo desistir.
A sorte não bate duas vezes
e eu voltei, de fazendeiro
a tocador de reses.
Cid Justen Santana (texto selecionado no nono concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1985)
...
...
quarta-feira, abril 23, 2014
PALAVRAS DE TITÂNIO
[sim, mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (1971-2014), escrito em homenagem a seus professores, quando o Cid fazia a oitava série e tinha 13 para 14 anos de idade -- esse texto não foi selecionado para nenhuma premiação, mas fica aqui registrado a quem possa emocionar]
I
Tu, que trabalhas arduamente,
fazendo plantas e esquemas
de construção simples mas engenhosa,
engenheiro da mente humana.
Tens nas tuas rédeas,
tens nas tuas mãos
olhinhos agressivos e espertos
ou olhares reprovadores e radicais.
Que levas e mais levas!
(quase não acabam mais)
Se dormes, é tarde da noite,
Se não, são planejamentos que fazes,
planejamentos audazes,
planejamentos tenazes,
pra conter na tua mão
o que às vezes numa sala não cabe.
II
Carregas em teu nome
tua dura vida
com centenas de alunos
-- um pai com centenas de filhos.
É duro não ser perfeito.
É duro nem sempre acertar,
pois tuas palavras de titânio
consolidam mil caracteres,
pois em tuas mãos
formas as existências.
O que disseres, o que fizeres
vai comandar o futuro.
És o elo entre antes e depois:
quanto mais passares adiante
e quanto menos segurares
mais razão teve a tua vida.
Sem exagero, pode-se dizer:
-- Sublime tarefa de amor.
Vida doada ao futuro,
vida doada à esperança!
És os olhos do mundo
modelando teus alunos.
És os olhos dos teus alunos
olhando corretamente o mundo.
[Curitiba, 7 de outubro de 1985]
...
I
Tu, que trabalhas arduamente,
fazendo plantas e esquemas
de construção simples mas engenhosa,
engenheiro da mente humana.
Tens nas tuas rédeas,
tens nas tuas mãos
olhinhos agressivos e espertos
ou olhares reprovadores e radicais.
Que levas e mais levas!
(quase não acabam mais)
Se dormes, é tarde da noite,
Se não, são planejamentos que fazes,
planejamentos audazes,
planejamentos tenazes,
pra conter na tua mão
o que às vezes numa sala não cabe.
II
Carregas em teu nome
tua dura vida
com centenas de alunos
-- um pai com centenas de filhos.
É duro não ser perfeito.
É duro nem sempre acertar,
pois tuas palavras de titânio
consolidam mil caracteres,
pois em tuas mãos
formas as existências.
O que disseres, o que fizeres
vai comandar o futuro.
És o elo entre antes e depois:
quanto mais passares adiante
e quanto menos segurares
mais razão teve a tua vida.
Sem exagero, pode-se dizer:
-- Sublime tarefa de amor.
Vida doada ao futuro,
vida doada à esperança!
És os olhos do mundo
modelando teus alunos.
És os olhos dos teus alunos
olhando corretamente o mundo.
[Curitiba, 7 de outubro de 1985]
...
segunda-feira, abril 14, 2014
Mais um poema do meu irmão --
Esse é uma joia rara: confiram --
SONETO DA FELICIDADE
A felicidade não é grande nem azul.
A felicidade não é o norte nem o sul.
Não tem mapa nem direção.
É frágil e de curta duração.
Para que nela caiba toda tua vida
procura em todos os momentos a alegria escondida.
Usa cada tristeza tua como uma lição.
Usa cada alegria como impulsão.
A busca da felicidade é uma estrada
por selvas cercada e por pedras barrada:
remove-as sem levantar para não ser derrubado.
Não as empurres que o tesouro será esmagado.
Verte-as apenas para o lado, de mansinho
e terás aberto o caminho.
Cid Justen Santana (1971-2014)
[publicado num boletim informativo do Colégio Positivo, em outubro de 1986]
...
SONETO DA FELICIDADE
A felicidade não é grande nem azul.
A felicidade não é o norte nem o sul.
Não tem mapa nem direção.
É frágil e de curta duração.
Para que nela caiba toda tua vida
procura em todos os momentos a alegria escondida.
Usa cada tristeza tua como uma lição.
Usa cada alegria como impulsão.
A busca da felicidade é uma estrada
por selvas cercada e por pedras barrada:
remove-as sem levantar para não ser derrubado.
Não as empurres que o tesouro será esmagado.
Verte-as apenas para o lado, de mansinho
e terás aberto o caminho.
Cid Justen Santana (1971-2014)
[publicado num boletim informativo do Colégio Positivo, em outubro de 1986]
...
quinta-feira, abril 10, 2014
BATENDO NA MESMA TECLA
[Mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (Curitiba, 8 de novembro de 1971 - 6 de abril de 2014); este foi premiado no décimo segundo concurso Palavra Viva, da Sociedade Educacional Positivo, em 1988.]
Batendo na mesma tecla,
eu vou conseguir explicar
que bater na mesma tecla
é o que devemos realizar,
pois nos batem na mesma tecla
que está certo o que é antigo,
já batido de mesma tecla,
copiar não tem perigo,
e todos batemos na mesma tecla,
precisamos bater pra existir,
e até que bater tanto a tecla
fica um pouco legal de se ouvir,
e eu bato na mesma tecla,
pois tal bate toda a gente,
e batendo na mesma tecla
eu não pareço diferente,
e de tanto bater na tecla
eu já me sinto até decente,
especialista em batimento de tecla,
de grande engrenagem sou dente,
não se apoquente (batendo na mesma tecla),
que eu já consegui reservar
(enquanto batia na tecla)
meu nome na lista de espera
(e vou batendo na mesma tecla)
pra um dia eu poder viajar
(até lá eu bato na tecla)
ao mundo dos Sem-Polegar.
(Batendo na mesma tecla.)
...
Batendo na mesma tecla,
eu vou conseguir explicar
que bater na mesma tecla
é o que devemos realizar,
pois nos batem na mesma tecla
que está certo o que é antigo,
já batido de mesma tecla,
copiar não tem perigo,
e todos batemos na mesma tecla,
precisamos bater pra existir,
e até que bater tanto a tecla
fica um pouco legal de se ouvir,
e eu bato na mesma tecla,
pois tal bate toda a gente,
e batendo na mesma tecla
eu não pareço diferente,
e de tanto bater na tecla
eu já me sinto até decente,
especialista em batimento de tecla,
de grande engrenagem sou dente,
não se apoquente (batendo na mesma tecla),
que eu já consegui reservar
(enquanto batia na tecla)
meu nome na lista de espera
(e vou batendo na mesma tecla)
pra um dia eu poder viajar
(até lá eu bato na tecla)
ao mundo dos Sem-Polegar.
(Batendo na mesma tecla.)
...
domingo, abril 06, 2014
MUDANÇAS
(poema de Cid Justen Santana, meu irmão, falecido neste dia 6 de abril de 2014, aos 42 anos de idade; o poema foi premiado no décimo Concurso Literário Palavra Viva, promovido pela Sociedade Educacional Positivo, em 1986, quando o Cid contava 15 anos de idade)
Mudanças.
A vida está cheia delas.
Depois de amores e procelas,
coisas feias e belas,
que resta para o Homem?
Apenas o nome.
Quando se é criança,
moleque, se é tratado pelo nome
mais um "inho" e apenas.
Doce vida a das crianças pequenas...
Depois vem a idade adulta
(daí o tratamento é mudado).
É "senhor" ou "senhora" e o nome.
É duro sustentar os alicerces desse mundo avacalhado.
Então vem a velhice:
"vô", "vó" e o nome; é só.
Vibração microscópica no silêncio
ostracístico da solidão do pó.
Causa, procedimento, conseqüência.
Estudo por estudo, vida do Homem,
chega-se à conclusão de que
o tempo muda e tudo consome.
É distância impercorrível que fica
da pureza do parto à morte do Homem.
Vai ficando embrutecido pelo mundo
e só permanece... inalterado... o nome.
Cid Justen Santana
...
Mudanças.
A vida está cheia delas.
Depois de amores e procelas,
coisas feias e belas,
que resta para o Homem?
Apenas o nome.
Quando se é criança,
moleque, se é tratado pelo nome
mais um "inho" e apenas.
Doce vida a das crianças pequenas...
Depois vem a idade adulta
(daí o tratamento é mudado).
É "senhor" ou "senhora" e o nome.
É duro sustentar os alicerces desse mundo avacalhado.
Então vem a velhice:
"vô", "vó" e o nome; é só.
Vibração microscópica no silêncio
ostracístico da solidão do pó.
Causa, procedimento, conseqüência.
Estudo por estudo, vida do Homem,
chega-se à conclusão de que
o tempo muda e tudo consome.
É distância impercorrível que fica
da pureza do parto à morte do Homem.
Vai ficando embrutecido pelo mundo
e só permanece... inalterado... o nome.
Cid Justen Santana
...
sexta-feira, abril 04, 2014
E AÍ É O UI E O OU
...
Todo mundo faz cocô.
Todo mundo tem chulé.
Tudo bem que tem a flor.
Tudo bem que tem o pé.
Todo mundo sofre dor.
Ninguém faz tudo o que quer.
Tudo bem que tem amor.
Tudo bem que tem a fé.
Mas às vezes até a fé
se confunde com o horror
e portanto, meu senhor,
não me diga, por favor,
dessa vida sem temor
ser questão de o que é o que é.
ijs
...
Todo mundo faz cocô.
Todo mundo tem chulé.
Tudo bem que tem a flor.
Tudo bem que tem o pé.
Todo mundo sofre dor.
Ninguém faz tudo o que quer.
Tudo bem que tem amor.
Tudo bem que tem a fé.
Mas às vezes até a fé
se confunde com o horror
e portanto, meu senhor,
não me diga, por favor,
dessa vida sem temor
ser questão de o que é o que é.
ijs
...
segunda-feira, março 31, 2014
quinta-feira, março 06, 2014
O MEU IRMÃO ENQUANTO INSPIRAÇÃO
Ao Cid Justen Santana
*
O meu irmão enquanto inspiração
é tanto o que não fez e o que tentou
porém também tanto o que fez, na ação
de ser, mesmo no ser que não chegou.
O meu irmão enquanto aspiração
prossegue sendo esse desenrolar
das coisas que inda não são mas serão
e no que ele tentar bolar colar
e até no medo que me dói de assim
o transformar em futura canção,
considerando um não qual sim e em mim
o meu irmão enquanto inspiração.
...
*
O meu irmão enquanto inspiração
é tanto o que não fez e o que tentou
porém também tanto o que fez, na ação
de ser, mesmo no ser que não chegou.
O meu irmão enquanto aspiração
prossegue sendo esse desenrolar
das coisas que inda não são mas serão
e no que ele tentar bolar colar
e até no medo que me dói de assim
o transformar em futura canção,
considerando um não qual sim e em mim
o meu irmão enquanto inspiração.
...
quinta-feira, fevereiro 27, 2014
DO AMOR E ESSES TRABALHOS DE POESIA
*
Sim, você sabe, não são tão difíceis
os versos decassílabos perfeitos.
E versos bem escritos são quais mísseis
que atingem muitos mil, de muitos jeitos.
Mas todo dia tem algum problema:
tem cercas com limites muito estreitos,
tem quem queira que o resto reze e gema,
e quem proponha tiros, socos, chutes.
Bem poucos ousam não seguir esquemas
enquanto a gente segue e só deglute
os ditos sanduíches de realidade,
sentindo falta de outras teclas mutes
pra suportar a vida na cidade.
Talvez só esteja, sim, perdendo tempo.
Talvez viva contente atrás de grades.
Talvez tais três talvezes que aqui tento
não sejam um final que alguém queria.
Porém é só. Sim. Só. Fiz só de exemplo
do amor e esses trabalhos de poesia.
ijs
...
Sim, você sabe, não são tão difíceis
os versos decassílabos perfeitos.
E versos bem escritos são quais mísseis
que atingem muitos mil, de muitos jeitos.
Mas todo dia tem algum problema:
tem cercas com limites muito estreitos,
tem quem queira que o resto reze e gema,
e quem proponha tiros, socos, chutes.
Bem poucos ousam não seguir esquemas
enquanto a gente segue e só deglute
os ditos sanduíches de realidade,
sentindo falta de outras teclas mutes
pra suportar a vida na cidade.
Talvez só esteja, sim, perdendo tempo.
Talvez viva contente atrás de grades.
Talvez tais três talvezes que aqui tento
não sejam um final que alguém queria.
Porém é só. Sim. Só. Fiz só de exemplo
do amor e esses trabalhos de poesia.
ijs
...
terça-feira, fevereiro 25, 2014
The Quiet Crowd
A Multidão Silenciosa
Or just be the words that you sing to yourself in your head
When nobody's around
Or would you rather be a part of the crowd or just a single sound
Waiting to be heard
Do you know what I mean?
Well you could be one of the lovers or liars
Hiding all the things that they do on the back of their hands
Well it's just you and me
'Cause everybody's got a little wrong in all the right places
Just depends on where you are
While you're hanging around
Você preferiria ser mais do que as coisas que diz
Ou só as palavras que canta na cabeça para si
Quando ninguém está perto
Ou você preferiria ser parte da multidão ou apenas um som
Esperando ser escutado
Sabe o que quero dizer?
É você podia ser um dos amantes ou dos mentirosos
Escondendo tudo que fazem nas costas das mãos
É somos só você e eu
Pois todo mundo tem lá um erradinho bem nos lugares certos
Só depende de onde você está
Quando você está por aí
Dear Mr. Quiet who's got so much to say
So much more than all of the sleeping parade
If I could tie up a string to your mouths and make you scream
All of the things that you keep to your self
I'd love to get to know you better
Dear Mr. Quiet I'd love to get to know you better
When nobody's around
While we're all staring at the end of the world
Will everybody have their hands on their head while they say
Well I told you so
While everybody's walking their own way through the quiet crowd
All thinking the same old things
If they only knew
Caro Sr. Silencioso com tantas coisas para dizer
Tão muito mais do que todos do desfile sonolento tem
Se eu amarrasse um barbante em suas bocas e fizesse você(s) gritarem
Todas as coisas que você(s) guarda(m) para si
Eu adoraria conhecer você(s) melhor
Caro Sr. Silencioso eu adoraria conhecer você melhor
Quando ninguém está perto
Enquanto assistimos todos ao fim do mundo
Será que colocarão todos as mãos na cabeça e dirão
É eu falei pra você
Enquanto seguem seus próprios caminhos pela multidão silenciosa
Todos pensando as mesmas velhas coisas
Se apenas eles soubessem
Patrick Watson
Ivan Justen Santana
...
domingo, fevereiro 02, 2014
DIA DE IEMANJÁ, DIA DA MARMOTA, DIA DE JAMES JOYCE: IEMANJOYSTARAM?
*
E eis mais um jamsjoysversário:
centenário de Um Retrato
do Artista como um Mancebo.
Isso: A Portrait of the Artist
as a Young Man. Não concebo
não fazer um trocadilho
com o como e até com sebo,
pois foi pai, marido e filho
mesmo sem ter sido santo.
Pelo menos por enquanto...
ijs, 2/2/2014 --
...
E eis mais um jamsjoysversário:
centenário de Um Retrato
do Artista como um Mancebo.
Isso: A Portrait of the Artist
as a Young Man. Não concebo
não fazer um trocadilho
com o como e até com sebo,
pois foi pai, marido e filho
mesmo sem ter sido santo.
Pelo menos por enquanto...
ijs, 2/2/2014 --
...
sábado, fevereiro 01, 2014
AO POETA CESAR ROSSILHO
*
Pelo festejo do dia
que é uma data natalícia,
dou-lhe um presente-notícia
mas que você já sabia:
seus versos, Cesar Rossilho,
não deixam de ter seu brilho.
Porém seus melhores poemas
você os fez em parceria
com a esposa-canção, Carmen:
seus dois filhos, Troy e Faena.
Aos quatro deixo estes charmes
de celebração serena.
(a primeira estrofe é por mais cinquenta, e a segunda, por mais sete anos: e essas congratulações em parênteses prosaicos são porque não consegui dizer tudo que queria em versos medidos e rimados: felicitações, Cesar!)
Ivan Justen Santana
...
Pelo festejo do dia
que é uma data natalícia,
dou-lhe um presente-notícia
mas que você já sabia:
seus versos, Cesar Rossilho,
não deixam de ter seu brilho.
Porém seus melhores poemas
você os fez em parceria
com a esposa-canção, Carmen:
seus dois filhos, Troy e Faena.
Aos quatro deixo estes charmes
de celebração serena.
(a primeira estrofe é por mais cinquenta, e a segunda, por mais sete anos: e essas congratulações em parênteses prosaicos são porque não consegui dizer tudo que queria em versos medidos e rimados: felicitações, Cesar!)
Ivan Justen Santana
...
terça-feira, janeiro 28, 2014
TERRÍVEL FALTA VOCÊ FAZ
(para quem sabe para quem)
Terrível falta você faz
porém quem mais faltou fui eu.
História estranha masca paz.
Fosse sufoco se perdeu.
Quem gosta de perder o pé?
Quem curte não usar a mão?
Quando nem chega a ser até
não tem desculpa o que foi vão.
Fosse algo um pouco em mim perdi.
Nada que nem se leva e traz.
Só quis dizer sem troco aqui
terrível falta você faz.
(Mas se deixei de algo falar
está no chão do céu do mar.)
...
ijs
...
Terrível falta você faz
porém quem mais faltou fui eu.
História estranha masca paz.
Fosse sufoco se perdeu.
Quem gosta de perder o pé?
Quem curte não usar a mão?
Quando nem chega a ser até
não tem desculpa o que foi vão.
Fosse algo um pouco em mim perdi.
Nada que nem se leva e traz.
Só quis dizer sem troco aqui
terrível falta você faz.
(Mas se deixei de algo falar
está no chão do céu do mar.)
...
ijs
...
quinta-feira, janeiro 23, 2014
ESCRITO APÓS NADAR DE SESTOS A ABIDOS
WRITTEN AFTER SWIMMING FROM SESTOS TO ABYDOS *
(Traduzido após verter o Childe Harold's Pilgrimage, Cantos I & II)
_____1.
If, in the month of dark December,
__Leander, who was nightly wont
(What maid will not the tale remember?)
__To cross thy stream, broad Hellespont!
_____1.
Se, num dezembro escuro e frio,
__Leandro, às noites sempre pronto,
(Qual dama não relembra o mito?)
__Cruzava o mesmo amplo Helesponto!
____2.
If, when the wintry tempest roared,
__He sped to Hero, nothing loth,
And thus of old thy current poured,
__Fair Venus! how I pity both!
____2.
Se, no rugir da chuva brava,
__A Hero ele ia, sem querer menos,
E assim as águas já puxavam,
__Tenho dó de ambos, bela Vênus!
____3.
For me, degenerate modern wretch,
__Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
__And think I've done a feat to-day.
____3.
Pois eu, moderno decadente,
__Mesmo no ameno mês de maio,
Achei meu feito algo excelente,
__E quase que sofro um desmaio.
____4.
But since he crossed the rapid tide,
__According to the doubtful story,
To woo,—and—Lord knows what beside,
__And swam for Love, as I for Glory;
____4.
Se a correnteza ele enfrentava,
__Segundo a duvidosa história,
Por dons — ou algo mais — da amada,
__Enquanto que eu nadei por glória;
__
____5.
'Twere hard to say who fared the best:
__Sad mortals! thus the Gods still plague you!
He lost his labour, I my jest:
__For he was drowned, and I've the ague.
____5.
Quem dirá qual prêmio melhor
__O Olimpo aos mortais receita?
Um perde o amor, e o outro, o humor:
__A Leandro, o mar; e a mim, maleita.
Lord Byron, 1810
Ivan Justen Santana, 2014
* Nota de Byron: No dia 3 de maio de 1810, enquanto a Salsette (do Capitão Bathurst) estava ancorada nos Dardanelos, o oficial Ekenhead, daquela fragata, e o autor destas rimas nadaram da costa europeia até a asiática — por sinal, de Abidos a Sestos seria mais correto. A distância total, de onde partimos até a chegada na outra costa, incluindo o que percorremos levados pela corrente, foi computada por aqueles a bordo da fragata como mais de quatro milhas inglesas, não obstante a extensão real não ultrapassar uma [milha inglesa]. A velocidade da corrente é tal que nenhum bote a cruza a remo sem desvio, e pode nalguma medida ser estimada pelo tempo que os nadadores levaram, um [Ekenhead], uma hora e cinco minutos, e outro [Byron], uma hora e dez minutos. A água estava extremamente fria, pelo derretimento da neve das montanhas. Por volta de três semanas antes, em abril, fizemos uma tentativa; mas tendo cavalgado o caminho todo desde a Tróade naquela mesma manhã, e a água estando congelante, foi necessário adiar a natação até que a fragata ancorasse perto dos castelos, quando cruzamos o estreito conforme declarado, entrando consideravelmente acima do forte europeu, e chegando abaixo do asiático. [Le] Chevalier diz que um jovem judeu nadou a mesma distância por sua amada; e Olivier menciona um feito semelhante por um napolitano; mas nosso cônsul, Tarragona, não se recorda de nenhum desses acontecimentos, e procurou nos dissuadir da tentativa. Vários da tripulação da Salsette são reconhecidos por terem nadado distâncias maiores; e a única coisa que me surpreendeu foi que, uma vez que já se duvidou da história de Leandro, nenhum viajante jamais tivesse buscado certificar-se pessoalmente quanto à praticabilidade da façanha.
Fonte: http://www.gutenberg.org/files/21811/21811-h/21811-h.htm#Page_13
Postagem interessante a respeito: http://amitologianahistoria.blogspot.com.br/2010/08/mitologia-grega-hero-e-leandro.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abidos_%28%C3%81sia_Menor%29
(Traduzido após verter o Childe Harold's Pilgrimage, Cantos I & II)
_____1.
If, in the month of dark December,
__Leander, who was nightly wont
(What maid will not the tale remember?)
__To cross thy stream, broad Hellespont!
_____1.
Se, num dezembro escuro e frio,
__Leandro, às noites sempre pronto,
(Qual dama não relembra o mito?)
__Cruzava o mesmo amplo Helesponto!
____2.
If, when the wintry tempest roared,
__He sped to Hero, nothing loth,
And thus of old thy current poured,
__Fair Venus! how I pity both!
____2.
Se, no rugir da chuva brava,
__A Hero ele ia, sem querer menos,
E assim as águas já puxavam,
__Tenho dó de ambos, bela Vênus!
____3.
For me, degenerate modern wretch,
__Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
__And think I've done a feat to-day.
____3.
Pois eu, moderno decadente,
__Mesmo no ameno mês de maio,
Achei meu feito algo excelente,
__E quase que sofro um desmaio.
____4.
But since he crossed the rapid tide,
__According to the doubtful story,
To woo,—and—Lord knows what beside,
__And swam for Love, as I for Glory;
____4.
Se a correnteza ele enfrentava,
__Segundo a duvidosa história,
Por dons — ou algo mais — da amada,
__Enquanto que eu nadei por glória;
__
____5.
'Twere hard to say who fared the best:
__Sad mortals! thus the Gods still plague you!
He lost his labour, I my jest:
__For he was drowned, and I've the ague.
____5.
Quem dirá qual prêmio melhor
__O Olimpo aos mortais receita?
Um perde o amor, e o outro, o humor:
__A Leandro, o mar; e a mim, maleita.
Lord Byron, 1810
Ivan Justen Santana, 2014
* Nota de Byron: No dia 3 de maio de 1810, enquanto a Salsette (do Capitão Bathurst) estava ancorada nos Dardanelos, o oficial Ekenhead, daquela fragata, e o autor destas rimas nadaram da costa europeia até a asiática — por sinal, de Abidos a Sestos seria mais correto. A distância total, de onde partimos até a chegada na outra costa, incluindo o que percorremos levados pela corrente, foi computada por aqueles a bordo da fragata como mais de quatro milhas inglesas, não obstante a extensão real não ultrapassar uma [milha inglesa]. A velocidade da corrente é tal que nenhum bote a cruza a remo sem desvio, e pode nalguma medida ser estimada pelo tempo que os nadadores levaram, um [Ekenhead], uma hora e cinco minutos, e outro [Byron], uma hora e dez minutos. A água estava extremamente fria, pelo derretimento da neve das montanhas. Por volta de três semanas antes, em abril, fizemos uma tentativa; mas tendo cavalgado o caminho todo desde a Tróade naquela mesma manhã, e a água estando congelante, foi necessário adiar a natação até que a fragata ancorasse perto dos castelos, quando cruzamos o estreito conforme declarado, entrando consideravelmente acima do forte europeu, e chegando abaixo do asiático. [Le] Chevalier diz que um jovem judeu nadou a mesma distância por sua amada; e Olivier menciona um feito semelhante por um napolitano; mas nosso cônsul, Tarragona, não se recorda de nenhum desses acontecimentos, e procurou nos dissuadir da tentativa. Vários da tripulação da Salsette são reconhecidos por terem nadado distâncias maiores; e a única coisa que me surpreendeu foi que, uma vez que já se duvidou da história de Leandro, nenhum viajante jamais tivesse buscado certificar-se pessoalmente quanto à praticabilidade da façanha.
Fonte: http://www.gutenberg.org/files/21811/21811-h/21811-h.htm#Page_13
Postagem interessante a respeito: http://amitologianahistoria.blogspot.com.br/2010/08/mitologia-grega-hero-e-leandro.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abidos_%28%C3%81sia_Menor%29
domingo, janeiro 12, 2014
VALENDO TODAS ELAS JUNTAS NUM SÓ SER
(mais uma vez, a FFR)
Tu sabes que eu não sou capaz de tanto,
feito um Lenine com Carlos Rennó;
só que cantando assim neste óbvio canto
te dou as rimas todas numa só;
pois se eu fizesse outra canção com lista
das musas todas dos compositores,
dos poetas vivos, mortos, trapezistas,
rimando as cores, flores e os amores,
seria assim tão óbvio quanto sou:
um poeta vivo, morto e trapezista
que sem as conjunções nem mas nem ou,
no estilo bolha que inda te conquista,
num só versinho já te conquistou.
IJS
__
Tu sabes que eu não sou capaz de tanto,
feito um Lenine com Carlos Rennó;
só que cantando assim neste óbvio canto
te dou as rimas todas numa só;
pois se eu fizesse outra canção com lista
das musas todas dos compositores,
dos poetas vivos, mortos, trapezistas,
rimando as cores, flores e os amores,
seria assim tão óbvio quanto sou:
um poeta vivo, morto e trapezista
que sem as conjunções nem mas nem ou,
no estilo bolha que inda te conquista,
num só versinho já te conquistou.
IJS
__
sábado, dezembro 21, 2013
VOLTAR AQUI (PARA AQUELA QUE ESTÁ LÁ)
a FFR
Depois de tanto ti-ti-ti.
Depois de muito blablablá.
Eu não me canso e fico aqui
só esperando você voltar.
O mundo arrota e faz xixi.
A lua nem diz sai pra lá.
E ainda assim eu sigo aqui
só esperando você voltar.
Existe um sol além de si.
Existe um chão no fim do mar.
Portanto ainda existo aqui
só esperando você voltar.
Se descobriu-se o colibri,
se o sabiá sobrou sem par,
sobrei também trilando aqui
só esperando você voltar.
Talvez seja algo eterno (um pi).
Talvez já feche (feito um bar).
Talvez alguém (tipo eu) aqui
só esperando você voltar.
E que moleza, hein, nisso aí,
versinhos de nunca acabar...
Mas é isso mesmo: eu, aqui,
só esperando você voltar.
ijs
Depois de tanto ti-ti-ti.
Depois de muito blablablá.
Eu não me canso e fico aqui
só esperando você voltar.
O mundo arrota e faz xixi.
A lua nem diz sai pra lá.
E ainda assim eu sigo aqui
só esperando você voltar.
Existe um sol além de si.
Existe um chão no fim do mar.
Portanto ainda existo aqui
só esperando você voltar.
Se descobriu-se o colibri,
se o sabiá sobrou sem par,
sobrei também trilando aqui
só esperando você voltar.
Talvez seja algo eterno (um pi).
Talvez já feche (feito um bar).
Talvez alguém (tipo eu) aqui
só esperando você voltar.
E que moleza, hein, nisso aí,
versinhos de nunca acabar...
Mas é isso mesmo: eu, aqui,
só esperando você voltar.
ijs
quarta-feira, dezembro 18, 2013
CURRICULUM VITAE
Dorothy Parker
Se atirar da ponte é piada
e cortar os pulsos dói.
Drogas? Não garantem nada.
Ácido mancha e corrói.
Pistolas? Muito barulho.
Forcas? Podem se romper...
Gases provocam engulho.
Não dá na mesma viver?
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
clique aqui para o texto original
Se atirar da ponte é piada
e cortar os pulsos dói.
Drogas? Não garantem nada.
Ácido mancha e corrói.
Pistolas? Muito barulho.
Forcas? Podem se romper...
Gases provocam engulho.
Não dá na mesma viver?
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
clique aqui para o texto original
domingo, dezembro 15, 2013
CARTA A MEU CARO MARCOS PRADO, EM MAIS UM SEU ANIVERSÁRIO
*
Pois é, meu caro Marcos Prado:
é mais um teu aniversário
e Curitiba segue a mesma,
talvez até um pouco diversa
se vai envelhecendo a turma
enquanto inauguram de novo
a nossa tradição nenhuma –
pois sim, meu caro Marcos Prado:
foi minha vez de recordar o
festejo na data querida
e ainda aqui rimar com vida
em mais outra menção honrosa
ao que é poesia a todo povo,
se hoje tanto se aposta em prosa –
pois não, meu caro Marcos Prado:
não vamos mais recriminar o
cabuloso estado de coisas
das gentes velhas e das moças
enquanto seguem consumindo
um sempre mais dum outro corvo
embranquecido e mais que lindo –
pois é, meu caro Marcos Prado:
até que vale ter passado
algumas noites e alguns dias
nas boas e más companhias
do nosso seleto pessoal –
e com água brindo este estorvo
duns poucos versos. Sem mais, tchau.
*
Pois é, meu caro Marcos Prado:
é mais um teu aniversário
e Curitiba segue a mesma,
talvez até um pouco diversa
se vai envelhecendo a turma
enquanto inauguram de novo
a nossa tradição nenhuma –
pois sim, meu caro Marcos Prado:
foi minha vez de recordar o
festejo na data querida
e ainda aqui rimar com vida
em mais outra menção honrosa
ao que é poesia a todo povo,
se hoje tanto se aposta em prosa –
pois não, meu caro Marcos Prado:
não vamos mais recriminar o
cabuloso estado de coisas
das gentes velhas e das moças
enquanto seguem consumindo
um sempre mais dum outro corvo
embranquecido e mais que lindo –
pois é, meu caro Marcos Prado:
até que vale ter passado
algumas noites e alguns dias
nas boas e más companhias
do nosso seleto pessoal –
e com água brindo este estorvo
duns poucos versos. Sem mais, tchau.
*
quarta-feira, dezembro 04, 2013
ENQUANTO TEU
a FFR
*
Todas as paranoias estão vendo
com olhinhos e linguinhas de naja
e o teu nojo nem chega a ser horrendo
enquanto teu amor viaja.
A língua portuguesa é culta e feia
feito as frases dum gajo à sua gaja
e o símbolo é fatal a quem não leia
enquanto teu amor viaja.
Se tudo valeu o que nem te contem
na selva selvagem desnuda maja
e o totem de hoje foi o mesmo de ontem
enquanto teu amor viaja,
eu sei: ninguém entende e que se lasque:
uma mossa ou amolgadura é uma jaja.
Importa que ela entenda e siga em paz que
enquanto teu, teu amor viaja.
E lage continua sendo laja
enquanto teu amor viaja.
*
*
Todas as paranoias estão vendo
com olhinhos e linguinhas de naja
e o teu nojo nem chega a ser horrendo
enquanto teu amor viaja.
A língua portuguesa é culta e feia
feito as frases dum gajo à sua gaja
e o símbolo é fatal a quem não leia
enquanto teu amor viaja.
Se tudo valeu o que nem te contem
na selva selvagem desnuda maja
e o totem de hoje foi o mesmo de ontem
enquanto teu amor viaja,
eu sei: ninguém entende e que se lasque:
uma mossa ou amolgadura é uma jaja.
Importa que ela entenda e siga em paz que
enquanto teu, teu amor viaja.
E lage continua sendo laja
enquanto teu amor viaja.
*
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