quarta-feira, maio 13, 2009

Sintonizando novamente a blogosfera

Topei com uma breve postagem-poema muito bacana de meu caro amigo Mario Negrello, cientista da inteligência humana. Resolvi prontamente fazer a tradução, e antecipo que um comentarista da referida postagem descreveu-a como "uma obra de Escher em palavras".

Senão vejamos...


The unfathomable of the wise

The unfathomable to the wise
Is the obvious to the dimwit
And vice-versa.

Who is who?


O insondável do sábio

O insondável ao sábio
É o óbvio ao estúpido
E vice-versa.

Qual é qual?



Texto original: Mário Negrello
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sexta-feira, maio 08, 2009

O POETAÇO E O POETENTO

O poetaço e o poetento
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:

“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces que não tem preço
o meu cantar de tom tão só?”

O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho

passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.

sexta-feira, maio 01, 2009

OVILEJOS EM FARRAPOS

Com coragem neste drama, ama.
Intimando a nota prima, rima.
Na vertigem do dilema, lema.

Sem vacilo em hora extrema
Trame um tema que resuma
Toda a terra ou lua alguma
E ame a rima como lema.

Chova uns pingos mas não trema.

Se o seu verso é pouco esperto perto
E as palavras não são cruas ruas
Nem apagam as velinhas linhas

Manje as canjas das galinhas
Demonstrando o ritmo certo
De belezas quase nuas,
Quase suas, quase minhas.

Nunca estanque um corte aberto:
Resta o grito no deserto.

terça-feira, abril 28, 2009

Sintonizando a blogosfera

Meu mais que prezado amigo Lepre
inaugurou um blog -
já faz um tempinho, e muita gente já sabe,
mas eu me importo bem menos com novidades
do que com poesia...

Mudando de enfant pra terrible,
vou prestar agora
uma homenagem ao cartunista-poeta
mais bem-humorado de Curitiba...

Quem duvida que estou me referindo ao Solda?

Ele que me desculpe por estas


VARIAÇÕES PARA VERSOS DO SOLDA

um poeta sentado
é um poeta em pé de guerra

um poeta rezando
é um poeta em fé que berra

um poeta lutando
é um poeta em paz na terra

um poeta que morre
é um poeta enfim não erra

terça-feira, abril 21, 2009

Para quem ainda acha que letra de música não é poesia...

A ROSE FOR EMILY
UMA ROSA PARA EMÍLIA

Though summer is here at last
The sky is overcast
And no one brings a rose for Emily
O verão finalmente veio
Mas nuvens deixam o céu cheio
E ninguém traz uma rosa para Emília

She watches her flowers grow
While lovers come and go
To give each other roses from her tree
But not a rose for Emily...
Ela vê suas flores se abrindo
E os casais passam indo e vindo
Distribuindo-se rosas de sua roseira
Porém nenhuma rosa para Emília...

Emily, can't you see
There's nothing you can do?
There's loving everywhere
But none for you...
Emília, você não vê?
Não há mesmo nada a fazer
Existe amor por toda parte
Porém nenhum para você...

Her roses are fading now
She keeps her pride somehow
That's all she has protecting her from pain
Suas rosas fenecem agora
Ela mantém o orgulho de alguma forma
É só o que sobrou para protegê-la da dor

And as the years go by
She will grow old and die
The roses in her garden fade away
Not one left for her grave
Not a rose for Emily...
E à medida que o tempo escorrer
Ela vai envelhecer e morrer
As rosas do jardim desaparecerão
Nenhuma restará para seu caixão
Nenhuma rosa para Emília...

The Zombies (Rod Argent)
Ivan Justen Santana



Para ouvir a maravilhosa canção dos Zombies clique aqui.

terça-feira, abril 14, 2009

Eloquência com azeite de oliva


À ré poesia a verdade é a sentença,
desde que a nós, cegos poetas, coube
consagrar com oniscipotenpresença
até o mais modesto, humilde e simples pé de couve –

portanto: que o único calo que me cale,
que a única bela que não me abale
e que o único amor que me amordace
eu colha nas fímbrias das fibras duma folha de alface.

sábado, abril 04, 2009

PARÁFRASE VITAL EM BILABIAIS ELÍPTICAS

Superar seres, sis e circes
no acesso sensível ao si das sílabas
– sobrar só com os lábios –

triunfar dos perigos das perífrases
– cilas e caríbdis perdido(a)s por
períneos ígneos – furar as fúrias
– pérfidas erínias – simplégades
fenecendo ao final flechado
dos fragmentos de fragrâncias fatais –

sintetizar as sintonias
sem assíndetos ou polissíndetos –
sem venci nem vi tampouco vim –
e desferir enfim um simplíssimo
sim

domingo, março 22, 2009

Poema a um aniversário

Post digitatum: destaque positivo que já deveria ter sido feito - a tradução deste poema em sete partes deve muito às sugestões e observações feitas por Isa Fonseca, que merece parte do crédito por tudo que você, leitor(a), gostar nestes textos, pois a Isa foi uma leitora atenta das partes 1 a 5, e quem sabe ainda possa fazer mais observações sobre estas e as cabulosas partes 6 e 7...
Destaque negativo de que tomei conhecimento hoje: no dia 16 de março deste ano, Nicholas Hughes, filho de Sylvia e Ted, suicidou-se.


Poema a um aniversário

1. Quem
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.

O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.

Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.

Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.

Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.

Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um adubo de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas qual banha de porco.

Ah, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.

Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.

Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.

Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.

Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem como uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.


2. Casa Escura
Esta é uma casa escura, muito grande.
Eu mesma a fiz,
Cela por cela, de uma esquina discreta,
Mascando o papel cinzento,
Pingando a cola,
Assobiando, mexendo as orelhas,
Distraída em pensamentos.

Ela tem tantos porões,
Tantas reentrâncias traiçoeiras!
Eu sou redonda como uma coruja,
Eu vejo com minha própria luz.
Qualquer dia eu boto uns cãezinhos no lixo
Ou adoto um cavalo. Minha barriga se agita.
Preciso fazer mais mapas.

E estes túneis medulares!
Mãos verruguentas, devoro meu caminho.
O Garganta consome os arbustos
E as paneladas de carne.
Ele mora num velho poço,
Um buraco pedregoso. Ele é o culpado.
Ele é um tipo gorducho.

Cheiros de seixo, aposentos estilo nabo.
Narininhas respirando.
Pequenos amores humildes!
Insignificâncias, cartilagens de narizes,
É morno e tolerável
Na víscera da raiz.
Eis a mãe aconchegante.


3. Mênade
Uma vez eu era comum:
Sentava ao pé de feijão de meu pai
Comendo os dedos da sabedoria.
As aves davam leite.
Quando trovoou me escondi sob uma pedra chata.

A mãe das gargantas não me amava.
O velho encolheu a um boneco.
Ah, eu sou grande demais pra retornar:
Leite de ave é plumagem,
As folhas de feijão são mudas feito mãos.

Este mês serve pra pouca coisa.
Os mortos amadurecem nos vinhedos.
Uma língua vermelha está entre nós.
Mãe, fique longe do meu curral,
Eu estou me tornando outra.

Cabeça-de-cão, devoradora:
Me alimente com as bagas da escuridão.
As pálpebras não fecham. O tempo
Desenrola do grande umbigo do sol
O seu brilho sem fim.

Eu tenho que engolir tudo isso.

Dama, quem são estes outros no tonel da lua –
Dormindo de porre, braços e pernas em discordância?
Sob esta luz o sangue é negro.
Diga-me o meu nome.


4. A Besta-Fera
Ele era homem-touro antes,
Rei da bandeja, meu bicho da sorte.
Respirar era fácil no seu abraço aéreo.
O sol pousava no seu sovaco.
Nada mofava. Os pequenos invisíveis
Desdobravam-se para servi-lo.
As irmãs azuis me mandaram a outra escola.
Macaco vivia embaixo do chapéu de burro.
Ele sempre me atirava beijos.
Eu mal o conhecia.

Livrar-se dele – quem há de?
Patas-choramingas, gementes e doridas,
Alminha de Mascote, entranhas são estranhas.
Uma lata de lixo já lhe é suficiente.
A escuridão é o seu osso.
Chame-o por qualquer nome, ele vai atender.

Lodo-fossa, alegre face de pocilga.
Eu casei com um armário de entulhos.
Eu me deito numa poça de peixe.
Aqui embaixo o céu sempre está caindo.
Lama de chiqueiro na janela.
Os insetos estelares não me pouparão este mês.
Eu cuido de um lar no reto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa do Vazio,
Noiva do Peludentuço.


5. Notas de Flauta numa Lagoa Juncosa
Agora desce, peneirando-se em camadas, o frio
Ao nosso refúgio à raiz do lírio.
Sobre a cabeça os velhos guarda-sóis do estio
Murcham feito mãos sem tutano. Há pouco abrigo.

De hora em hora o olho do céu alarga seu vago
Domínio. Estrelas estão fixas.
A boca-de-sapo e a boca-de-peixe já tragam
O licor da indolência, e tudo naufraga

Numa suave coifa protetora de esquecimento.
As cores fugitivas morrem.
Larvas de mosca d´água dormitam em cápsulas de seda,
As ninfas de cabeças-lâmpadas acenam ao sono, pétreas.

Marionetes, libertas das cordas do manipulador,
Usam chifres-máscaras na cama.
Isso não é a morte, é uma coisa mais segura.
Os mitos alados nunca mais vão nos comover:

Estão mudas as exúvias que cantaram de cima das águas
O gólgota na ponta de um junco,
E como um deus frágil feito o dedo de um infante
Sairá da própria casca e navegará pelos ares.


6. Bruxa em Chamas
Na praça do mercado estão empilhando os galhos secos.
Um mato trançado de sombras é uma pobre manta. Habito
Uma imagem de cera de mim mesma, corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou o alvo de dardos para bruxas.
Somente o diabo pode passar um sabão no diabo.
No mês das folhas secas eu subo numa cama de fogo.

É fácil culpar a treva: a boca de uma porta,
O ventre do celeiro. Apagaram minha chispa.
A dama de élitros pretos me guarda em gaiola de papagaio.
Que olhos grandes os mortos têm!
Estou íntima com um espírito peludo.
Fumaça rodopia do bico deste jarro vazio.

Se eu sou assim, pequena, mal eu não posso fazer.
Se sequer me movimento, nada posso derrubar. Assim falei,
Sentada sob a tampa da panela, inerte grãozinho de arroz.
Estão acendendo os bocais do fogão, anel por anel.
Somos cheios de amido, meus branquinhos camaradas.
Crescemos. Dói no início. Línguas rubras dirão a lição.

Mãe dos besouros, só peço que abras o punho:
Voarei pela boca das velas qual mariposa não-tostada.
Devolve minha forma. Estou pronta para interpretar os dias
Em que fiz par com a poeira à sombra de uma pedra.
Meus tornozelos brilham. O brilho ascende às minhas coxas.
Eu estou perdida, perdida, nos meandros de toda esta luz.


7. As Pedras
Esta é a cidade onde se remendam os homens.
Eu deito sobre uma grande bigorna.
A achatada abóbada azul

Voou feito o chapéu duma boneca
Quando eu caí fora da luz. Ingressei
No estômago da indiferença, armário sem fala.

A mãe dos pilões me reduziu.
Tornei-me um grânulo tranquilo.
As pedras da barriga eram pacíficas,

A pedra-chefe quieta, nada a chacoalhava.
Somente a boca-buraco flauteava,
Grilo impertinente

Numa pedreira de silêncios.
O povo da cidade ouviu.
Caçaram as pedras, taciturnas e apartadas,

A boca-barriga gritando aonde estavam.
Ébria como um feto
Eu sugo as papinhas da escuridão.

Tubos de alimento me envolvem. Esponjas lambem-me os liquens.
O mestre-joalheiro impele seu cinzel para
Extrair um olho da pedra.

Este é o pós-inferno: eu vejo a luz.
Um vento destampa a câmara
Do ouvido, velho preocupador.

A água amolece o lábio da pederneira,
E a luz do dia dispõe sua mesmice na parede.
Os enxertadores são alegres,

Esquentando as torqueses, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt sobre volt. Categute sutura minhas fissuras.

Um operário passa carregando um torso cor-de-rosa.
Os almoxarifados estão cheios de corações.
Esta é a cidade das peças sobressalentes.

Meus membros enfaixados tem cheiro doce feito borracha.
Aqui operam cabeças, ou quaisquer pedaços.
Às sextas-feiras as criancinhas vêm

Para trocar os ganchos por mãos.
Mortos deixam os olhos para os outros.
Amor é o uniforme da minha enfermeira careca.

Amor é tendão e osso da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa elusiva.

Dez dedos moldam um bojo às sombras.
Meus remendos coçam. Não há nada a fazer.
Ficarei nova em folha outra vez.


Sylvia Plathversão brasileira:
Ivan Justen Santana

terça-feira, março 17, 2009

Intermezzo onírico: desperto no cinema e lembro que me prometi a tradução de um poema...

OZYMÂNDIAS

Topei um viajante duma antiga aldeia
Que disse: Há duas pernas de pedra, sem corpo,
De pé no deserto. Perto delas, na areia,
Um rosto meio enterrado jaz, cujo torto
Lábio de escárnio e de frio orgulho alardeia
Que seu escultor tais paixões reconhecia,
As quais ainda vivem, e ali são as marcas
Que a mão tripudiava e o coração nutria.
No pedestal, palavras que sempre lembrei:
“Eu sou Ozymândias, monarca dos monarcas:
Olhai minhas obras, ó Fortes, e tremei!”
Nada mais restou: ao redor da corrosão
Do colossal destroço, nuas e sem lei,
As ermas areias se estendem na amplidão.

I. J. Santana


(decalque do original de
P. B. Shelley:)

OZYMANDIAS

I met a traveller from an antique land

Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

sábado, março 14, 2009

Como foi o seu sonho? 4: oriente ao ocidente do ocidente no oriente

_
era um filme japonês:

cura e saia – céu e fêmea –

koan do cai um tanka estanca


sete sons – van gogh – bashô

mil versinhos em um só

segunda-feira, março 09, 2009

Como foi o seu sonho? 3: Ao trair do outronho...

Ao trair do outronho, num lugar da mecha,
erra um sonhalves castresco, o tombatrilho,
quedos luvernos esverlhando o alidrilho,
abailatrava escarlacéu sedúleo – ...

Em vão eu li na láspide da catatumba:
"deixa aqui dentro toda sua esperancinha",
enquando banzos de vampirilâmpagos
amassamassacravam clécticas mnelistras...

No maio do flábil camirinto das perdas,
a minatáurea dossedice: tinha um livro –
foi um manual munido de instrepções
pra me acordar daquele pesadédalo –

e não é que deu certo?

sexta-feira, março 06, 2009

SONHO DE VERDADE

(um poema feliz aniversário)

Quando vejo você vivendo de verdade,
sim, é um sonho que invade em parte a realidade,
gravando mais arte no tecido da vida,
com a dádiva mais sincera dividida
entre som, sensação, cor, perfume e sabor –
tudo que se transforma enfim em luz e em amor.

Nem a linguagem mais sublime, nem os velhos
meus versos lerdos se espalhando, escaravelhos
perdidos por pirâmides de poesia,
podem traçar ou expressar o que seria
simplesmente traçado e expresso tão bem
numa só curva do seu sorrisinho zen.

E aqui faltou apenas que você complete
a idade que atingiu (parabéns:) ______

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O sonho de todos os sonhos

(um epílogo intermediário)

Hoje eu consegui –
sonhei o sonho de todos os sonhos –
mas alguém me disse lá: “Suma daqui!
O Mestre está recebendo a Irmã...”
E eu pensei “pô, nem na sonholândia
eles se livram do gerúndio”,
no entanto, ante meu rosto de pavor,
prosseguiram: “Sim, Ela, a iniludível...”
E então escutei um som de tom-tom tantã
e minha angústia terrível de ivan
me fez crer mais do que cri ser crível
e correr mais do que ainda seria corrível,
e orar ainda mais naquela hora horrível:
– ó, Sonho, soturno caçula da Morte,
permita-me perpetrar bem parcamente
um pobre poema de pequeno porte,
não que eu pense que ninguém se importe,
porém que proponha, simples e pungente,
ó, Sonho, soturno caçula da Morte:
a vida é breve, a arte é longa, a carne é fraca
mas o sonho é forte! –
Naquele instante, o sonho de todos os sonhos
(bem como agora este poema puxa-saco)
teve (tiveram) que sofrer um corte.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Como foi o seu sonho? 2: Dormindo de manhã

Sonhei outro sonho,
também muito gordo:
o gosto de Goethe
sorvendo um sorvete,
os dentes de Dante,
Dalí por diante,
sorrindo satíricos
serviam Cervantes
em régias bandejas
de cérebros líricos –

e contudo veio aquele velho todavia,
arruinando até a métrica,
espantando a freguesia,
espanando a poeira mágica
do meu tempo quando,
quando os fantasmas de todas as poetas,
de Safo até Cecília,
selecionavam a trilha sonora
e palpitavam posições para a mobília.

Àquela hora
e naquele lugar,
percebi que já estava de manhã:
ainda delirava,
me achando um terrível czar,
mas ao despertar
vi que eu era só um ivan.

O primeiro de uma série de sete - e todos os sete são na verdade um poema só (Poem for a birthday / Poema a um aniversário)

Who
Quem

The month of flowering's finished. The fruit's in,
Eaten or rotten. I am all mouth.
October's the month for storage.
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.

The shed's fusty as a mummy's stomach:
Old tools, handles and rusty tusks.
I am at home here among the dead heads.
O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.

Let me sit in a flowerpot,
The spiders won't notice.
My heart is a stopped geranium.
Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.

If only the wind would leave my lungs alone.
Dogsbody noses the petals. They bloom upside down.
They rattle like hydrangea bushes.
Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.

Mouldering heads console me,
Nailed to the rafters yesterday:
Inmates who don't hibernate.
Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.

Cabbageheads: wormy purple, silver-glaze,
A dressing of mule ears, mothy pelts, but green-hearted,
Their veins white as porkfat.
Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um molho de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas feito banha de porco.

O the beauty of usage!
The orange pumpkins have no eyes.
These halls are full of women who think they are birds.
Oh, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.

This is a dull school.
I am a root, a stone, an owl pellet,
Without dreams of any sort.
Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.

Mother, you are the one mouth
I would be a tongue to. Mother of otherness
Eat me. Wastebasket gaper, shadow of doorways.
Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.

I said: I must remember this, being small.
There were such enormous flowers,
Purple and red mouths, utterly lovely.
Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.

The hoops of blackberry stems made me cry.
Now they light me up like an electric bulb.
For weeks I can remember nothing at all.
Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem feito uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.

Sylvia Plath
Ivan Justen Santana

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

COMO FOI O SEU SONHO?

Sonhei com um sonho,
um sonho bem gordo,
redondo, balofo,
com cara de Byron
e pâncreas de Poe –
o ar de Baudelaire
roubando Rimbaud.

Porém entretanto
nenhum sonho é uma ilha –

aumentando a redondilha,
um poeta brasileiro,
miserável e banguela
veio pro sonho e falou:
– Essa rima aí é velha!
Tira o sorriso do rosto
e vem jogar gol a gol –
e o gordo: – Não vou, não tiro –
e meu sonho só acabou
com seu último suspiro.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Fidji breque (com direito a tradução)

Então, eu não costumava fazer isso, mas tenho voltado a examinar o que o sitemeter diagnostica das visitas e vistos de página aqui neste humilde tugúrio.

Me agradou muito que volta e meia aparecem visitantes que ficam uns cinquenta minutos por aqui e produzem umas vinte ou mais, vá lá, peidjvíiús (page views) - gosto que não tratem o blog como um diário em que a postagem anterior passou a ser embrulho de peixe, e adoro quando surge um comentário novo numa postagem de três meses atrás.

Esses dias veio alguém de Coimbra, Portugal, e acho que foi graças a uma menção do Rodrigo Garcia Lopes em seu EstúdioRealidade -

coincidentemente, ando lendo e curtindo escritores portugueses (nominalmente, António Lobo Antunes [Os cus de Judas] e Gonçalo M. Tavares [Jerusalém] - e aliás, graças àquele, hoje li uns poemas de Ruy Belo, e saboreei-os com muito gosto).

Então, em homenagem à língua portuguesa (espera aí, deixa eu frisar uma coisa - eu gosto mais que um ou dois me leiam umas vinte ou trinta vezes, do que uns trocentos venham e me leiam uma vez só, sumindo sem deixar vestígios),

enfim, em homenagem à língua portuguesa, deixo aqui a tradução de um poema de Theodore Roethke, um vilancete meio canção de ninar para octogenários (que eu - agora corro o risco de ofender, mas vá lá de novo - que eu associo um pouco ao espírito da cultura portuguesa, um negócio assim meio "archaico" e conservador e ao mesmo tempo visionário e infantil - arre, se é que me entendem...), senão vejamos:

The Waking
A Vigília

I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Destino eu sinto no que não posso temer.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.

We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
Pensamos ao sentir. O que é que há pra saber?
De orelha a orelha, escuto o meu ser a dançar.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.

Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.
Qual é você, dentre estes, tão perto de mim?
Deus abençoe o Chão, que irei macio trilhar,
E aprender quando for aonde eu devo ir.

Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.
A Planta sofre a Luz; mas quem explica o fim?
O verme vil escala a escada em espiral;
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.

Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.
A Natureza tem outra coisa a cumprir
Comigo e com você; receba então este ar,
E, adorável, aprenda indo onde deve ir.

This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.
Este tremor mantém-me firme. Sim, eu sei.
O que perece é sempre. E está perto aqui.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.

Theodore Roethke (1952)
Ivan Justen Santana

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Porque hoje é dia da marmota

No limbo alegre e lúgubre da literatura,
Jorge Luis Borges rosna: "Ninguém me segura!"
e intima o velho John Milton para um páreo duro:

recitar em grego tudo que souber de Homero,
até passar toda a madruga em claro – quero
só ver:
______vai ser uma briga de Joyce no escuro...

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Um pouso forçado em Eldorado, pensando em Poe, graças ao Pozzo...

Pois é: se não fosse o meu prezado amigo Ricardo Pozzo,
eu nem ia esboçar qualquer tchuns sobre a data de hoje:

Edgar Allan Poe assopra duzentas velinhas -
(*Boston, 19/01/1809 – †Baltimore, 07/10/1849)

então dedico ao Pozzo, que por meio de e-mail me alertou
(e a seus outros amigos) para essa fantástica efeméride,
a versão brasileira que acabei de perpetrar do pelágico poema

ELDORADO
ELDORADO

__Gaily bedight,
__A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
__Had journeyed long,
__Singing a song,
In search of Eldorado.
Trajado galhardamente,
Um cavaleiro galante,
Sob sombra e sol saturado,
Viajara um estirão,
A cantar uma canção,
À procura do Eldorado.

__But he grew old–
__This knight so bold–
And o'er his heart a shadow
__Fell as he found
__No spot of ground
That looked like Eldorado.
Porém ele envelheceu –
Com orgulho todo seu –
Seu coração conturbado
Mergulhou em densa treva
Por não ver traço de terra
Semelhante ao Eldorado.

__And, as his strength
__Failed him at length,
He met a pilgrim shadow–
__"Shadow," said he,
__"Where can it be–
This land of Eldorado?"
Quase exausto em sua sina,
Topou sombra peregrina
Que estacou ao seu chamado –
"Sombra," indaga o cavaleiro,
"Como chego ao verdadeiro
Território do Eldorado?"

__"Over the Mountains
__Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
__Ride, boldly ride,"
__The shade replied,–
"If you seek for Eldorado!"
"Sobre as Montanhas da Lua,
Que subir não se insinua,
Descerás Vale Assombrado:
Cavalga com ousadia,"
Disse a sombra fugidia,–
"Se tu buscas o Eldorado!"

Edgar Allan Poe
Ivan Justen Santana