sábado, abril 17, 2010

Como Uma Pedra Rolante


era uma vez
você vestida de xadrez
mão de vaca pros mendigos
sendo eleita a miss do mês
diga?!

o povo todo já xaveca
"te cuida aí, boneca,
tua caranga um dia breca"
você achava isso meleca
inveja das amigas

você só

gargalhava
das pessoas
suas escravas
e agora a sua voz sumiu
e agora o seu tom vazio
vem naquela velha fala
que prossegue na batalha
pelo próximo filé

como é que é?!
como é que é!?
ser sem terra em transe
completamente mutante
como uma pedra rolante

você foi aluna
da melhor escola
Senhorita Solitária
contudo já não cola
você sabe só ficava lá
enchendo a cara

ninguém nunca mostrou
como viver longe do lar
e agora você vê que vai ter
que se acostumar a

você sempre dizia
que jamais se renderia
pro malaco do mistério
e agora você nem pia
vê que ele não vende
qualquer guia
e sob os olhos vazios
você somente espia
perguntando sobre o trato
quanto você quer

como é que é?!
como é que é!?
ser sem terra em transe
sem caminho adiante
completamente mutante
como uma pedra rolante

você nunca olhou em volta
pra notar a cara torta
dos palhaços da patota
quando vinham fazer

truques pra você

nunca compreendeu
que não fez o seu
e não tinha um Romeu
pra Julieta que você quis ser

você cavalgava um hipocromo
com o seu diplomata
o qual levava nos ombros
uma gata acrobata

e agora você percebe
como a vida é ingrata
não tinha selo ou moeda
aquele numismata
que levou de você tudo que pôde
até mesmo a fé

como é que é?!
como é que é!?
ser sem terra em transe
sem caminho adiante
completamente mutante
como uma pedra rolante

a princesa está na torre
e o povo lindo quase morre
nesta festa bebe e pensa
que se garantiu por cima

vai trocando todo o tipo
de presentes e coisinhas
mas segure o bracelete
empenhe esse diamante, mina

você costumava
ficar tão encantada
com o Napoleão dos farrapos
e as frases que ele usava

vá pra ele agora

compareça à sua chamada
quando você não tem nada

você não tem nada a perder
você é invisível agora
não restou nenhum segredo em pé

como é que é?!
como é que é!?
ser sem terra em transe
sem caminho adiante
completamente mutante
como uma pedra rolante


(Like a Rolling Stone,

de Bob Dylan,
em versão brasileira de

Ivan Justen Santana)

quarta-feira, abril 14, 2010

ETERNA FEMININA

A mulher, a que afresca o teto do meu crânio
E algarismou meu alfabeto extemporâneo,
A sempiterna e carinhosa companhia
Cujo espinho de cor-de-rosa me amacia
E me amalgama o barro em lava incandescente –
Se me chama, me amarro, sem trava aparente;
Se me incita, e excita a cítara mais avara,
Ela compartilha o todo que amealhara –
Feliz combinação de forma e de intenção:
Um triz de distração na norma rigorosa,
Um quê de seriedade em meio à desrazão,
Um O de boca, um U de bunda, um A de rosa,
__Um E de bela, um I de indecisivamente,
__Que ilude, molha, frisa e ameniza a mente.


Francisco Cardoso
Ivan Justen Santana

terça-feira, abril 13, 2010

A GRANDE VERDADE (curta-metragem)

mentira tem perna curta
porém cabeça imensa
que pensa que pensa

mentira tem perna curta
mas chuta a tua canela
machuca, esfola, esgoela

estupra, assassina, furta

mentira tem perna curta
mas se procuro a verdade
também acho
minha perna meio curta

e se eu forçar minha cabeça
esta

pequena e tensa
nem sequer pensa que pensa:


dispensa a pretensa presença
despreza sua força abrupta
esquece qualquer perna curta

fica sem nenhuma sentença
semissuspensa
e surta

sexta-feira, abril 09, 2010

VERSOS AOS VIVOS

Eu não consigo acreditar muito em morte
mas creio sim no delírio retrospectivo:
então hoje acordei, tirei a sorte,
vi que ainda tem sim muita wood no estoque
e que, feito o Leminski, o Ivo continua vivo.

segunda-feira, abril 05, 2010

DIÁLOGO PARA A CONVERSÃO DE CASSIANO RICARDO

*

– SERENATA SINTÉTICA

(Cassiano Ricardo)


Rua
Torta.

Lua
Morta.

Tua
Porta.


– SERESTÉTICA PSICOPATA
(ou URGIA A CIRURGIA)

(...)


Nua
Corta.

Flua
Aorta.

Crua
Aborta.





terça-feira, março 30, 2010

UM CASO IMPACTANTE E SURPREENDENTE

*
Há muito tempo, numa galáxia bem, bem distante,
vivia uma era-uma-vez com um feliz-para-sempre.

Os dois faziam um casal bem bacana e elegante,
e tinham um rebento extremamente inteligente.

Mas entretanto porém contudo não inobstante
e todavia outrossim apesar de tão somente,

a criança deles cresceu totalmente demente,
pois se tratava de um verdadeiro clichê ambulante

e lá eles abusavam dos clichês constantemente...

segunda-feira, março 29, 2010

MAIS VERSINHOS AOS VINTE E NOVE DE MARÇO

Curitímida Curitilônia,
Culturistúbula Romiritiba,
Pinheiralma Ipecedônia:

A tua alma maldita de Medeia
Ainda guarda algo de Palas Ateneia

E ainda se escuta aqui – penal, vina, leite quente –
Nesta urbe experimental que tem um cu na frente.

Curitímida Curitilônia,
Culturistúbula Romiritiba,
Pinheiralma Ipecedônia:

Entre uma Pindamonhangaba e uma Paris,
Tu continuas Curitiba por um triz –

E este piá, que já te viu branca de neve,
Hoje é mais um poeta que te escreve –

Feliz aniversário.

sexta-feira, março 26, 2010

PALINCEPSESTO SOBRE 'O PRADO E A FADA'

posso escrever sobre um
poema _ ser suficiente
algum verso parente
amanhandrágora agora

osgas de picuinhos securibudos
sempre menos tudo

augures, emerges
Atlântida volta ao mundo

algum mais um
opaco
aquário de arcos
asteroides
tudo, sempre menos a hipótese
o sentido

estação do pânico
que flutua pela balaustrada:

já estamos juntos em Astrália

****
Zoe e demais leitoras e leitores deste blog:
considerem este poema um convite e uma intimação para comparecerem, neste Sábado (27/03), às 16h, ao café do Paço da Liberdade (o novo SESC em Curitiba, no edifício histórico restaurado na Praça Generoso Marques), para conferir a récita que faremos eu e o poeta Rodolfo Jaruga. Quem chegar por último é mulher do padre!

quarta-feira, março 24, 2010

UM CASO TELEVISIVO (projeto de poemaconto)

Era uma vez um relacionamento amoroso
do tipo "telenovela de ótima qualidade":

mais raro do que o choro do palhaço Bozo,
hoje casos assim só existem na saudade.

O cara, um sujeito lampeiro e faceiro,
pulava a cerca e posava de Roque Santeiro.

A garota, por sua vez, retorcia a saia
e ficava ali com uma cara de Saramandaia.

Mas apesar da grande audiência babando ovo,
nenhum dos dois valia a pena ver de novo.

O horário nobre, óbvio, cada vez mais pobre.

E tudo acabou sem casamento nem sim.

Fim.

segunda-feira, março 22, 2010

UM POETA JÁ CÉLEBRE CELEBRA SEU CAMARADINHA ANIVERSARIANTE, QUE ASSIM DEVOLVE A SAUDAÇÃO...

Versos ao Poeta

Para Ivan Justen

Certo, ninguém podia adivinhar,
Nasceu com dom, elã divino,
Mescla de dor e riso, som de sino
E água, palavra, menino a sonhar.

Coisa feita, de berço, solto no ar,
Como se o poeta fosse um caminho
Que por estar entre a flor e o espinho
A grande maioria quer desviar.

Estamos sós, mas isso é o de menos,
A mão do poeta escreve mesmo torto,
Quando seus versos não são pequenos.

Sei, pra ressuscitar esteve morto.
Mas, agora, andando sobre as mágoas,
O poeta, como um deus, ri de suas lágrimas!

Antonio Thadeu Wojciechowski

***

Devolvendo o toque de bate-pronto...

Devolvendo o toque de bate-pronto,
ainda sob o efeito deste soneto,
(ou foi sob o soneto deste efeito?)
que me deixou (e já sou) meio tonto,

confesso que fiquei até sem jeito
pra agradecer da maneira que encontro
mais própria a tão grande amigo. Aqui apronto
este poema de metro suspeito,

que não chega nem perto da catega
à qual a homenagem acima chega.
Tributo a mim? Na verdade, não faço

jus a tais versos. Neles, o Thadeu
refletiu, além do tempo e do espaço,
a poesia, que aqui agradeceu.

Ivan Justen Santana

quarta-feira, março 17, 2010

DICIONÁRIO ANALÓGICO DE RIMAS PRA LÍVIA & OS PIÁ DE PRÉDIO

Um dia conheci um poeta andarilho chamado Édio,
Édio Vargas – comprei o livreto dele, ligeiro meio-médio,
mas agora versarei pra banda Lívia e os piá de prédio.

Não quero dar alívio a nenhum ouvido médio,
nem ceder a alguma acídia ou a qualquer assédio,
pois meu verso em melodia mixolídia o próprio metro mede-o.

Remedeia minha ideia uma Medeia morta de tédio,
mastigando um serôdio sorédio e um cipripédio epimédio,
muito nítido e nédio, como um argumento em promédio.

Essa Medeia me instiga sobremaneira a ser seu estapédio
evitando, entretanto, um patropédio, um monoginopédio
ou ainda mesmo (Parcas me acudam!) um patroginopédio.

Minha Medeia inspiradora devoraria um osteopédio
mas também casar-se-ia, se ele fosse um litopédio,
com um ursinho teddy boy marino durante um quinquédio.

Desse casamento poderia surgir um fruto lacepédio,
com um pé de escamédio e um androceu selenipédio,
sobre o qual voaria um coleóptero pentâmero ampédio.

Se eu reunisse esses delírios em forma de macédio
(digamos, neste “poemacédio") e em caractere palamédio
descrevesse tudo isso sob ponto de vista planipédio,

eu mostraria domínio linguístico mais que intermédio,
pois sempre chamei center-half de centromédio
e ao futebol prefiro o cognome arcaico: ludopédio.

Assim, fingindo e fazendo, esgotadas as rimas em -édio,
não me resta outra saída e realmente “não tem mais remédio”:
o piá poeta aqui rendeu tributo a Lívia e os piá de prédio.

segunda-feira, março 15, 2010

DOIS POEMAS DUMA RIMA SÓ, EVOCATIVOS E PREPARATÓRIOS...

*
*
*
PORQUE EU SEMPRE QUIS USAR ESTA RIMA:

nem a rima assim camufla
a tristeza que se insufla
quando uma asa torta rufla


_______________________


LISTRA SINISTRA

você já não se administra
quando uma vozinha sinistra
ao modo daquela ministra
diz: te risquei da minha listra...

quarta-feira, março 10, 2010

MAIS UM POEMA PARA CURITIBA


(Foto: Lina Faria - Não lugar)


À ESTÁTUA DE CURITIBA NO PAÇO DA LIBERDADE

(também dedicado à fotógrafa Lina Faria
e a Bárbara Kirchner e seu
Curitiba é um copo vazio cheio de frio)

Estáutua de Curitiba,
(ou melhor, antes, por outra:)
estátua de Curitiba,
única representação antropomórfica
da nossa cidade, tão querida e antiga
Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais,
conforme versou Leminski rezando,
ou antes, melhor, por outra:
conforme rezou Leminski versando:
imprecisa premissa
(alguma coisa em mim também
não quer que Curitiba mude)
tende piedade de nós!

Prezada Estáutua:
eu te vi e te mostrei a uma criança,
e disse: “olhe, aquela é uma Afrodite Nikeia,
uma Vênus vencedora, uma Palas Ateneia
após a vitória sobre os gigantes,
sentada num trono,
portando a tocha olímpica da liberdade
e da verdade”,
e isso é mesmo verdade:
mais que um arco, é um triunfo,
o fofo triunfo final da inteligência
dominando a força bruta.

Querida Estáutua,
eu só queria te dizer:
nossa Curitiba tem andado muito bruta,
mas continua bonita
e agora mais animada
também por enquanto,
enquanto como uma fruta.
E até este meu trocadilho idiota
enfeita tua vida
que faria muita falta,
ó Curitiba,
minha linda e sábia estáutua.

Eu quis muito te dizer isto
nesta radiosa e azul manhã.

De um dos teus poetas,
o vadio e operoso

Ivan

segunda-feira, março 08, 2010

E MAIS UM DYLAN PROMETIDO A UM CAMARADA...

o mui prezado r.m. pediu:
então aqui estão

MINHAS CONTRACAPAS
(MY BACK PAGES)
_____________Bob Dylan

Flamas carmesins entre as orelhas

Trançando armadilhas maquiavélicas
Fogo me caçou em flamejantes estradas
Usava como mapas as minhas ideias
“Logo bateremos de frente”, eu disse
O orgulho as faces ardentes provem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Pulou adiante um preconceito semidestruído
“Rasgue o ódio até a raiz”, eu urrei
Mentiras da vida ser em preto e branco
Falaram de dentro do meu crânio. Sonhei
Fatos românticos de mosqueteiros
Com profundas bases que os promovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Faces de garotas formaram o caminho
Partindo da inveja fingida
Até memorizar toda a política
Contida na história antiga
Despejada por evangelistas-cadáveres
Que no inconsciente das massas se dissolvem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Uma língua de professor autodiplomado
Muito séria pra qualquer enrolação
Jorrou que a liberdade é
Só igualdade na educação
“Igualdade”, eu disse a palavra
Como votos nupciais que se renovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Em pose de soldado, apontei o braço
Aos vira-latas da pregação
Sem temer me tornar meu inimigo
No instante em que fizesse o sermão
Meu caminho guiado por confusos barcos
Motins de popa a proa o comovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Sim, fiquei alerta às ameaças abstratas
Nobres demais pra desperceber
Elas me iludiram um dia a cogitar
Que eu tinha alguma coisa a proteger
Bem e mal, defino-os com clareza:
De algum jeito esses termos se resolvem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, março 06, 2010

MAIS UMA CELEBRAÇÃO CURITIBANA...

______GIANNA
______MARIA
_____NADOLNY
______ROLAND:

minha inspiração não se engana
mesmo fazendo assim essa poesia
ao seu nome. Tu és um sol, “ni-
versariando” hoje, iluminan-

do meu dia e minha semana,
mês e ano, me dando alegria
(mesmo sem rima legal ao nome)
e me fazendo o mais feliz Ivan

de todos os Ivans do mundo:
um beijo sincero e longo e profundo
(como não daria poeta algum) do

seu amado Ivan

para você: Gianna Maria Nadolny Roland

domingo, fevereiro 28, 2010

BOB DYLAN, VOLTANDO AQUI EM GRANDE ESTYLAN...

(ou melhor: EM GRANDE ESTILO, desculpem pelo trocadallen robertado de zimmerman...)

Esta postagem é dedicada a Luiz Felipe Leprevost, que sugeriu e depois cobrou:

– Lepre, taí o que você queria... Que tal?


A ALA DOS DESCONSOLADOS
(DESOLATION ROW)
_________________Bob Dylan


Vendem-se postais do enforcamento
Pintam-se os passaportes de marrom
O salão de beleza lotou de marinheiros
E esses dias o circo chegou

Lá vem o comissário cego
Mantido em transe permanente
Uma mão atada ao cara da corda bamba
A outra nas suas calças de sempre

E a tropa de choque está inquieta
Precisam ser movimentados
Enquanto Lady e eu observamos
Da Ala dos Desconsolados

Cinderela parece tão acessível
“Os iguais se reconhecem”, sorri ela
E põe as mãos nos bolsos de trás
Feito uma Bette Davis Cinderela
Entra Romeo, gemendo queixas
“Acho que eu sou teu proprietário”
E alguém diz, “Lugar errado, amigo,
Saia sem pagar de otário”

E o único som que sobra
Após sirenes e ossos quebrados
É Cinderela fazendo a faxina
Na Ala dos Desconsolados

Agora a lua está quase oculta
Estrelas se velam em segredo
Mesmo a dama que lê a sorte
Levou suas coisas pra dentro
Todos menos Caim e Abel
E o corcunda de Notre Dame
Todos estão fazendo amor
Ou esperando a tempestade

E o Bom Samaritano veste-se
Tomando todos os cuidados
Ele vai sair no desfile desta noite
Na Ala dos Desconsolados

Ofélia está embaixo da janela
Confesso que temo muito por ela
Após completar vinte e dois anos
Já é uma solteirona velha
Pra ela, a morte é bem romântica
E ela veste um colete blindado
Sua profissão é a sua religião
Sua inação é o seu pecado

E embora ao arco-íris de Noé
Os olhos dela estejam fixados
Ela gasta seu tempo espreitando
A Ala dos Desconsolados

Einstein, disfarçado de Robin Hood
Leva as memórias num baú
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge cru
Parecia tão imaculadamente assustador
Enquanto filava um cigarro
E aí saiu farejando canos de esgoto
E recitando um ABC bizarro

Você nem se incomodaria em vê-lo
Mas ele já foi famoso por esses lados
Tocava um violino elétrico
Na Ala dos Desconsolados

O Dr. Sujeira mantém seu mundo
Dentro dum caneco de couro
E todos os seus pacientes sem sexo
Querem estourar aquele couro

A enfermeira, uma triste qualquer
Administra o cianureto aos traumas
Ela também guarda os cartões que dizem
“Tende piedade desta alma”

Eles todos brincam com apitinhos
Pode-se ouvi-los a soprá-los
Se esticar a cabeça pra fora o suficiente
Da Ala dos Desconsolados

Do outro lado da rua, pregam cortinas
E se preparam prum bacanal
Pois então é o Fantasma da Ópera
A perfeita imagem sacerdotal

Alimentam Casanova às colheradas
Pra ele se sentir mais à vontade
E aí o matarão de autoconfiança
Depois de o envenenarem com frases

E o Fantasma grita às magricelas
“Sumam daqui os que ficaram abalados
Pois Casanova foi punido por ter ido
À Ala dos Desconsolados”

À meia-noite todos os agentes
E a equipe de super-homens
Saem à cata de todas as pessoas
Que sabem mais que os supers podem

Então levam-nas até a fábrica
Onde a máquina de enfarte
É afivelada aos ombros delas
E logo depois eles trazem

O querosene dos castelos
E dos Seguros os homens magros
Vêm conferir que ninguém escapa
Da Ala dos Desconsolados

Seja louvado o Netuno de Nero
O Titanic navega à aurora
E agora todo mundo grita
“De qual lado você mora?”

E Ezra Pound e T. S. Eliot
Lutam na torre de controle
Enquanto calipsocantores riem deles
E pescadores trazem flores

Ali entre as janelas do oceano
Onde sereias têm seus prados
E ninguém precisa pensar muito
Na Ala dos Desconsolados

Sim, recebi sua carta ontem
(Foi quando quebrou a maçaneta)
Me perguntar se estou indo bem
Foi algum tipo de brincadeira?

Todos esses que você menciona
Sim, eu conheço, são uns toscos
Tive que lhes dar nomes diferentes
E rearranjar todos os seus rostos

Agora eu já não leio mais tão bem
Não mande mais estes seus recados
A não ser que sejam remetidos
Da Ala dos Desconsolados



Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

sábado, fevereiro 27, 2010

MAIS UMA POESIA FICÇÃO CIENTÍFICA PROFÉTICA REALIDADE ABSOLUTA

(só que dessa vez é distopia, porque o frio me secou a euforia)

O MUSEU DO MAUSOLÉU

esse é o desenho foto filme
animação jogo virtual
do nosso tempo

estamos no museu do mausoléu

não tema:
a morte não existe mais
e acabou-se o fim de tudo

tudo está e será sempre
novamente registrado

como nunca

essa é a nova lei
ou melhor
o velho postulado:

já não existe mais morte possível
todo cadáver será exumado
tudo que importa e não importa
será razão de sobra e ao lado
pra consagrar a alguma academia
e superar todo mal entendido

tudo merece a atenção
de quem quer que seja
e nada mais se perderá
pois alguém sempre quer rever de novo
basicamente todo mundo

qualquer coisa pode ser importante
contanto que seja qualquer coisa

o corpo é descartável
e a alma sumiu
mas ninguém mais acha
ninguém mais acha necessária

a morte já morreu
a indesejada foi assassinada
pela permanência eterna de tudo
mas principalmente de nada

o epílogo de tudo nada disso
não é inferno purgatório ou paraíso
e nem sequer é um mero céu

já não seria mais que um não epílogo
reencenando este nem não diálogo
de mim comigo e com um de mim eu
fazendo a dança de nenhum véu

aqui
no museu
do mausoléu

terça-feira, fevereiro 23, 2010

INSPIRANDO-ME... (O TÍTULO NÃO COUBE AQUI, ENTÃO ESTE É O PRÉ-TÍTULO) ...

INSPIRANDO-ME NUM HIPOTÉTICO FUTURO TURISMO LÍTERO-POÉTICO, QUANDO PEREGRINOS DE TODAS AS PLAGAS DA GALÁXIA VIRIAM (VIRÃO?) A CURITIBA PARA CONHECER A TERRA EM QUE PONTIFICARAM MARCOS PRADO, DALTON TREVISAN, PAULO LEMINSKI, DARIO VELLOZO, EMILIANO PERNETA ET CATERVA (SEM ESQUECER AS DAMAS, HELENA KOLODY À FRENTE DAS MOCINHAS DA CIDADE...), E TAMBÉM DIANTE DAS ABSOLUTAS REVELAÇÕES EPIFÂNICAS QUE TIVE EM NOSSO CARNAVALZINHO MULTITUDINÁRIO DOS GARIBALDIS & SACIS (AOS DOMINGOS DE JANEIRO E FEVEREIRO NO LARGO DA ORDEM) E NA GALANTÍSSIMA FESTA POPULAR (A QUADRA CULTURAL) NA RUA PAULA GOMES, NO DIA 20/02/2010, QUANDO, PARA CELEBRAR A MEMÓRIA DE PENA BRANCA, O MUI BATUTA "MAGRÃO" ARLINDO VENTURA ORQUESTROU INSOFISMÁVEIS E ESMERADOS ARTISTAS – ESPINHO DA ROSEIRA, FABIO ELIAS, GENTE BOA DA MELHOR QUALIDADE, LAMARÃO & A BANDA DE UM DIA, ÍRIA BRAGA & MULUNGU, PAULINHO CATARINENSE & VIOLEIROS DA CANJA DE VIOLA, O POETA PAULO BEARZOTI FILHO, O ATOR E CINEASTA JOTA ÊME (OU MELHOR, ROBERTO CARLOS), OS VIOLONISTAS ARNALDO FREITAS & RAFAEL SCHIMIDT, VIOLA QUEBRADA, IRMÃS GALVÃO – AOS QUAIS HOMENAGEIO TODOS NA PESSOA DE MEU XARÁ IVAN GRACIANO, PROGÊNIE DE BELARMINO & GABRIELA –, ENFIM, INSPIRANDO-ME EM TODOS ESSES E TUDO ISSO, EU, IVAN JUSTEN SANTANA, CURITIBANO, ESCREVO OS SEGUINTES VERSOS DE CONVITE UNIVERSAL A ESTA CIDADE DE CURITIBA (versos mimicrizados em estilo e modos do poeta SÉRGIO VIRALOBOS)

Vocês querem Prado?
Velho Dalton? Lema? Dario não?
De artistas que tais assim há necessidade?

Não dou nem um dado:
Passo logo uma procuração:
Distribuo o molho de chaves da cidade:

Usem com cuidado,
Apreciem com moderação,
E saboreiem com responsabilidade...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

ARCO-ÍRIS NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

A foto ilustrativa desta postagem veio das lentes de Gilson Camargo, fotógrafo que mantém o belo blog Olhar Comum.

Gilson captou Thadeu puxando o Rancho das Flores, no desfile de domingo de carnaval, em Curitiba.

Já eu, captei a foto do Gilson e muito atrasado lhe dou o devido crédito...

Quando fazem um scaps assim com alguma tradução eu fico uma arara, então vou fazer atos de contrição nesta quaresma, pelo meu saque imperdoável ao Gilson...


Nosso grande amigo Antonio Thadeu Wojciechowski nos dedicou hoje um poema inefável - desvanecidos replicamos e repostamos aqui:


fênix para uma quarta-feira de cinzas

ao ivan e gianna

perguntam-me quem sou
coração? mente? sol? soul?
e sei, sou de tudo um pouco
poeta, santo, profeta, louco

artífice de mim, me conheço
me faço onde me aconteço
são os outros minha ternura
e não a minha envergadura

amigos fiz para toda a vida
ida na subida e na descida
e aconteça o que acontecer
todo dia será dia de colher

sim, abri mão das sementes
como os versos estão contentes!
e já que estamos aqui nessa lida
vamos brindar à nossa vida!

um tanto mais de luz e céu
e deciframos a língua de babel
hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!

Antonio Thadeu Wojciechowski


- QUERIDO AMIGO THADEU:

com versos em tão humana língua angelical
você nos fez muito mais que um carnaval -

eu rio dessas rimas que aqui engancho
ao perceber você aí puxando o rancho -

sua poesia vem de cima, e no entanto atinge
todos, ilumina e decifra toda e qualquer esfinge -

só nos resta fazer nossas as suas lindas
palavras descabeladoras de ranzinzas -

“hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!”

Ivan & Gianna

terça-feira, fevereiro 09, 2010

CARRASCO DE SI E DE MIM

Assim como depois do sol a tempestade
Encharca muito mais – feito ébrio que recai
E estraga o carnaval no abuso da vontade –
Assim degringolou o filho de meu pai.

Não sei quem fui que fez, só sei que sei de cor
A dor de me perder e ser quem mais não sou,
Pois meu saber foi mal, dos bons foi o pior
Se eu errei por querer e acertei no meu gol.

Seria necessário o sim virar um não
Ao beque tão mané que quebra o próprio pé,
Se achando algum herói – pagando de vilão:

Espectador basbaque, em fila atrás de si,
Repete lá e ali, repete a si e a ré
Como quem diz de novo: esse filme eu já vi.