terça-feira, julho 17, 2012

VOCÊ PRECISA

Você precisa me tocar
Qual instrumento musical:

Você precisa ser a fã
De um enamorado total:

Você precisa ser a terra
E eu seu enosigeu* mortal --

Você não precisa mais nada:
Uma pequena dose: e tchau.

IJS

* Enosigeu, epíteto do deus Netuno [Poseidon:], de enosíkhton, "abarcador da terra"
[fonte: HOMERO, Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes; edição de Antonio Medina Rodrigues. -- São Paulo: Ars Poetica / Edusp, 1992. p. 67. n. 62.]

terça-feira, julho 10, 2012

PORQUE VOCÊ SABE

você sabe que
eu sei que
você sabe que eu
sei que você sabe
que eu sei que você
sabe que eu sei que
você sabe que eu sei
que você sabe
que sabe

ijs

[to

ffr

:]

UM DIA ACHEI QUE TINHA ACHADO

Um dia achei que tinha achado a mulher perfeita:
engano meu, pois só depois achei você.

Um dia achei que tinha achado um amor que aceita:
engano meu, e só você sabe por que.

[de ijs para ffr, a vinte e cinco dias...]

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segunda-feira, julho 02, 2012

VINHO DAS FADAS

Estou bêbado do vinho de mel
Da eglantina que a lua deu no céu,
E que as fadas embalam em florpotes.
O arganaz, a toupeira, e os morcegos
Dormem nos muros ou sob o dossel
Do quintal do castelo meio ao léu;
E quando ele encharca a terra, ao verão,
Ou torna os orvalhos mais vaporosos,
Com sonhos cheios de alegre irrisão
Eles murmuram seu gozo em sono; pois
Poucas fadas podem com potes tão novos!

Percy Bysshe Shelley
Ivan Justen Santana

[WINE OF THE FAIRIES]

A LUA: UMA FALENA

A lua desceu hoje na janela
aqui de casa. Tinha um halo: um "moonbow"
[que é quando a gente vê um arco-íris nela,
ou melhor, em volta dela]. Acabou
cedo demais aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela
que é quando a gente vê um arco-íris nela
e é verdade mesmo que já acabou.

Mas aquela palavra, aquele nome
não era o de uma borboleta: letra
a mais faz muita diferença--- E sí-

laba a menos, então?! Até fome some.
E o poema enfeia. Perto dela. Aqui.
---cedo demais!---aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela.
A lua parecia uma falena.
Sim... Falena: borboleta tão bela.
Mas até mesmo a lua e a borboleta
ficariam feias perto dela.

O:) O:)

sábado, junho 30, 2012

NOSSO PRIMEIRO BEIJO

[de IJS a FFR]

foi tenso. E sim, eu adoro um sim,
e sim, nossos sins são do bem,
e sim, eles não são sinsalabins,
mas
sim
sala
bens.

Vem
e vai e vai e vem:
maremotos pervagando os mares,
ondas leviatânicas elevando os oceanos,
submergindo as ilhas, devastando os bos-
ques, desbastando as árvores---
e nós?

Procuramos um só refúgio juntos,
só para modos de o primeiro beijo festejar:
eu e você e você e eu e os nossos assuntos,
a sua nota fá, o meu deslize em I
[sem pingo nem rima, mas agora com par:]

ambos em busca de nosso lugar,

mesmo que hoje este seja apenas
um lar doce bar.

<3

segunda-feira, junho 25, 2012

ENTRE MIM E ELA

entre mim e ela é muito mais que sex
nossa alegria é muito mais que tétrica:
provei-lhe com sabor uva e tex mex
e ela me revelou que eu ronco em métrica

* * * * * * * * * *

quinta-feira, junho 21, 2012

OS AMIGOS

No rapé, no café, e também no vinho,
ao limiar da noite eles se levantam
como as vozes que à distância cantam
sem que se saiba o quê, pelo caminho.

Levemente irmãos de igual destininho,
dióscuros, sombras pálidas, me espantam
as moscas das rotinas, me adiantam
a seguir à tona no redemoinho.

Os mortos falam mais alto: ao ouvido,
e os vivos são mão fraca, teto, jeito,
soma do que é ganho e do que é perdido.

Assim, um dia, sombra em barca cheia,
de tanta ausência abrigará meu peito
essa ternura antiga que os nomeia.


Julio Florencio Cortázar
versão curitibana:
Ivan Justen Santana

quarta-feira, junho 20, 2012

Duas parcerias a seis mãos, neste Bloomsday passado


CANTO MÍTICO

Entre o fato e a dança
Como a criança
Chupeta teta valeta

Cavo sombria bonança
Mal da nau catarineta
No cabo da boa esperança

* * *

EIS EINSTEIN

Na prática, a teoria é relativa:
Somos fruto da engrenagem que nunca para--
Universo em curva---uno verso e cura.

O suco é gástrico---ponta da saliva--
O som só uma nota: a mais rara:
Sol sou luar---realidade pura.


Cristiano Farias
Ivan Justen Santana
Juliano Samways Petroski


Curitiba, Villa Bambu, noite de 16 de junho de 2012.

terça-feira, junho 12, 2012

A TELA TREME BEM DE LEVE

A tela treme bem de leve, porém treme:
tremem com ela a mesa e o teclado--
pronto: acendo um cigarro e logo o apago--
o movimento todo faz uma letra ême:

feito funis em ritmo sincopado
ou feito os seis remos de uma mesma trirreme--
de fato, não adianta comparar, já geme
o fim do quarteto em tom de prelado--

E agora, nos tercetos, quem serei?
Um fã dessas sereias que me encantam?
Ou só mais um naufrágio? Outra manhã?

Ao fim e à nota fá, não sei nem sei.
As outras notas todas já me cantam,
já chegam solfejando: Ivan, Ivan, Ivan...


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sábado, junho 09, 2012

VIRAM MEU CORAÇÃO

Viram meu coração virar por água abaixo.
Ou viram apenas um rim, amigo escuso?
Na caixa dela exatamente não me encaixo:
Uso ou abuso? Abuso ou uso? Uso? Uso.

Viram meu coração saindo aos sete mares.
Seriam mais? Oito? Dezoito? Setecentos?
E quantas seriam as ilhas? E os lugares?
Havia de haver mais: e vieram rebentos.

Viram meu coração depois de três batalhas.
De seis, de nove, dezenove vezes mil:
façam as suas apostas, teçam as mortalhas,
o que ontem sempre foi já vai ao fundo rio.

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domingo, junho 03, 2012

PARA CELEBRAR

Lutando com chuvas, combatendo tempestades,
ao menos um bom banho vou tomar---
decifrando infernos, comovendo Plutos e Hades,
tocando corações de lar em lar.

Batalhas e batalhas e batalhas:
gemendo a Grécia, geme Gibraltar---
cangalhas gralhas tralhas que atrapalhas:
diversas razões para celebrar.

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segunda-feira, maio 28, 2012

ESSE PERFUME...

Emiliano Perneta

Esse perfume – sândalo e verbenas –
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas ó perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
– E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei – as minhas mãos nas tuas –
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

* * *

segunda-feira, maio 21, 2012

NA RUA DOS CHORÕES

Na rua dos chorões
os lamentos brotam.
São tantas situações
que as fomes notam.

"Não consigo pensar
pois sinto tudo:
as pessoas no ar
e o absurdo mudo."

Devorada por vozes
ela sonha que pensa.
Eu como minhas nozes.
A matéria é densa.

Ivan Justen Santana
em parceria com Ana Paula

* * * * * * * * * * * * *

quinta-feira, maio 17, 2012

ELA ESTAVA ESTUPIDAMENTE

Ela estava estupidamente linda,
o cabelo penteado, liso, brilhoso--

eu estava estupidamente seboso,
como nunca estive ainda.

Ela estava estupidamente bela
as mãos cálidas, as faces pálidas,
os sorrisos dela eram crisálidas,
as frases, as de uma inseta amarela--

e eu, estupidamente, sem o pi da mente,
a considerei bem-vinda--
foi, é, e sempre será,
seja esta ou até se for como aquela.

_(_!_)_

terça-feira, maio 15, 2012

Amanhã, no Palladium

Amanhã, na megaloja Curitiba do Palladium:

recital e noite de autógrafos do livro:

ESSÊNCIAS TRANSFIGURADAS
TRANSFIGURED ESSENCES

de Chloris Casagrande Justen
em tradução de Ivan Justen Santana
ilustrado com as gravuras de
Gianna Nadolny Roland

às 19h30

não percam (nem se não puderem).

:P



domingo, maio 13, 2012

EXISTE AMOR EM CURITIBA

Existe amor em Curitiba:
nos bares cheios de ilusões
e em necas de pitibiriba --

nas tão vazias estações
e nos contratos dessas tribos --
nos ônibus e nas mansões,

nesses lugares sem estribos.
Existe algo até além mais mesmo:
mais que as fatais Paramaribos.

Um restaurante sem torresmo,
uma avenida de uma pista,
e o esposo da lesma: sim: lesmo.

Mas não é ponto pra turista:
pois mesmo sem Sernamentiba
existe amor em Curitiba

e a quem nem sempre tem seu clima.

ijs

terça-feira, maio 08, 2012

CERIMÔNIA


Cerimônia

É por isso que eventos me enervam,
Acham todos uma história diferente
Perceba para quem as rodas giram,
Gire de novo e gire adiante dessa vez,
Tudo que ela pede é a força pra me abraçar,
Ainda assim a mesma velha história,
Os telefones vão tocar, rapidamente,
Chegue antes e se debruce adiante dessa vez.

Ah, eu os quebro, sem dó nem piedade,
Os céus sabem, tem que ser dessa vez,
Assistindo a ela, as coisas que ela disse,
As vezes em que ela chorou,
Frágil demais pra acordar agora

Ah, vou quebrá-los, impiedosamente,
Os Céus sabem, tem que ser agora,
As avenidas em fileiras de árvores,
Me fotografam e você começa a ver,
A assistir eternamente
O amor crescer, eternamente
Me fazendo saber, para sempre

Ian Curtis

versão brasileira curitibana:
Ivan Justen Santana

quinta-feira, maio 03, 2012

BEM MENOS MUITO MAIS

A chuva lava as ruas e as calçadas.
O amigo diz preferir toddy ao tédio.
Ouço canções de Lívia & os Piá de Prédio
e em versos deixo meus tudos e nadas.

Um dia os tudos vão ser mais além
das noites quando os nadas eram sós.
O que hoje falta para todos nós:
bem menos de mal, muito mais de bem.

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