quinta-feira, setembro 26, 2013

INFOSCÍVEL

*
Ao Paulo de Toledo


desistir é mais fácil
e mesmo assim difícil
se até o que fosse fóssil
detona como míssil

*

segunda-feira, setembro 16, 2013

SOL DOS INSONES!

[SUN OF THE SLEEPLESS! George Gordon, Lord Byron]

Sol dos insones! melancólico astro!
Teu raio de lágrima ao longe é um rastro,
Mostrando à treva, a qual não esconjuras,
Quão semelhante és às lembranças puras!
Brilha assim o passado, luz de outrora,
Que não aquece a quem atinge agora;
Brasa que a Angústia vela, findo o dia,
Distinta e distante — clara — mas fria!


versão brasileira: Ivan Justen Santana

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terça-feira, setembro 10, 2013

NOSSA VILA (PUXA VIDA, CURITIBA)

*
nossa vila tem as taras de costume
e outros podres gestos menos ou mais nobres
dos poderes que a controlam com seus cobres
das mamatas que inda causam muito ciúme

nesta festa tem também a classe artística
com autistas quase gênios quase monstros
produzindo em jorros obras feitas mênstruos
feitas frases mísseis de fatal balística

mas bombando estão as forças repressoras
civilização-barbárie: são conceitos
tão semelhos que nem sei bem se eu aceito-os
como aceito que haja raivas ruivas loiras

e eu faria até canções semiambiatômicas
tipo aquela Desolation Row do Dylan
só filando esse filé que tantos filam
junto às nossas priscas juventudes sônicas

mas o simples se tornou aqui complexo
se estes versos não te soam bem: meus pêsames
pois o idioma que não fiz nessa hora pesa-me:
sexo é nexo --- nexo é plexo --- plexo é sexo

da linguagem tu leitor que assim mereças
largo então estreitas pistas pelos pés
recalcando as babas prontas dos manés
e imortalizando-os mesmo que às avessas

se puderem compreender coisas como essas

IJS

....................

sexta-feira, agosto 30, 2013

PARA A ANIVERSARIANTE FAENA FIGUEIREDO ROSSILHO

*
Hoje é o teu aniversário,
porém eu estou pobrinho,
então uso lá do William
(e da bárbara tradutora)
um soneto de presente
do teu Ivanzinho ardente...


SONETO 116 DE WILLIAM SHAKESPEARE, VERTIDO POR BARBARA HELIODORA


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
__Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
__Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

terça-feira, agosto 27, 2013

segunda-feira, agosto 26, 2013

BALDES DE CHUVA (DE BOB DYLAN, EM VERSÃO BRASILEIRA DE IVAN JUSTEN SANTANA)

BUCKETS OF RAIN
(Bob Dylan, Blood On The Tracks, 1974)
vb: ijs

Buckets of rain
Buckets of tears
Got all them buckets comin’ out of my ears
Buckets of moonbeams in my hand
You got all the love, honey baby
I can stand
Baldes de chuva
Baldes de lágrimas
Tantos baldes saindo pela minha cara
E nas minhas mãos, baldes de luares
Você tem todo o amor, doçura
Que eu posso aturar

I been meek
And hard like an oak
I seen pretty people disappear like smoke
Friends will arrive, friends will disappear
If you want me, honey baby
I’ll be here
Eu fui fraco
E duro qual carvalho
Já vi belas pessoas sumir qual fumaça
Amigos virão, amigos vão sumir
Se você me quiser, doçura
Eu estarei aqui

Like your smile
And your fingertips
Like the way that you move your lips
I like the cool way you look at me
Everything about you is bringing me
Misery
Feito seu sorriso
E as pontas dos dedos
Feito o jeito que você movimenta os quadris
Eu gosto do jeito que você olha pra mim
Tudo em você já me deixa triste
Assim

Little red wagon
Little red bike
I ain’t no monkey but I know what I like
I like the way you love me strong and slow
I’m takin’ you with me, honey baby
When I go
Vagãozinho rubro
Bicicleta rubra
Não sou nenhum macaco mas sei da doçura
Eu gosto do jeito que você me ama forte e lenta
Vou te levar comigo, doçura
Quando for a hora certa

Life is sad
Life is a bust
All ya can do is do what you must
You do what you must do and ya do it well
I’ll do it for you, honey baby
Can’t you tell?
A vida é triste
A vida é um rolo
Cheia de deveres e não tem consolo
Faça o que precisa e faça isso muito bem
Posso fazer por você, doçura
Já não deu pra perceber?

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quinta-feira, agosto 22, 2013

SIM, LEMINSKI:

*
sim leminski

o graffiti
é o limite

não tem poeta
que não imite

não tem selva
que não acre
dite

na página concreta
da cidade perversa

quem não tem mal
que evite

quem não tem pau
que apite

quem não tem sal
que edite

ijs

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sábado, julho 27, 2013

HORIZONTAL NA VERTICAL

Fermento
zen
sem
bemol
solta
a
valer
asa
e
vela
num
parto:

momento
em
que
o
sol
volta
a
bater
na
janela
do
quarto.

ijs

sábado, julho 20, 2013

PARA FAENA FIGUEIREDO ROSSILHO

Você reclama dos meus silêncios
Enquanto tiro o pranto pro canto;
Não pense nesses preços: pense-os
Feito feitiço pedindo encanto
Enquanto o planeta se revolta
Acelerando – só acelerando,
Só planejando uma grande volta
Quando ninguém mais está esperando.

IJS

quarta-feira, julho 10, 2013

A HARD RAIN'S A-GONNA FALL



UMA DURA CHUVA QUE VAI CAIR
Bob Dylan

Ah, onde você esteve, meu filho de olhar azul?

Ah, onde você esteve, minha pequena aqui do sul?
Eu tropecei nas neblinas de doze montanhas
Eu andei – rastejei – seis estradas estranhas
Pisei pelo meio de sete florestas tristes
Estive em frente a uma dúzia de oceanos mortos
Estive por dez mil milhas na boca das covas
E é uma dura, e é uma dura, é uma dura, é uma dura
E é uma dura chuva que vai cair

Ah, o que você viu, meu filho de olhar azul?

Ah, o que você viu, minha pequena aqui do sul?
Vi um recém-nascido com os lobos selvagens
Vi uma estrada de diamantes sem carros que passem
Vi uma árvore negra com sangue pingando
Vi uma sala com homens, seus martelos sangravam
Vi uma escada branca coberta de água
Vi dez mil oradores, línguas todas quebradas
Vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças
E é uma dura, e é uma dura, é uma dura, é uma dura
E é uma dura chuva que vai cair

E o que você ouviu, meu filho de olhar azul?

E o que você ouviu, minha pequena aqui do sul?
Ouvi o som de um trovão que rugia um alerta
Ouvi o rugido de uma onda que afogaria o mundo todo
Ouvi cem bateristas, suas mãos estavam em chamas
Ouvi dez mil sussurrando e ninguém escutando
Ouvi um morto de fome e escutei muitos rindo
Ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta
Ouvi o som de um palhaço que gritou no beco
E é uma dura, e é uma dura, é uma dura, é uma dura
E é uma dura chuva que vai cair

E quem você cruzou, meu filho de olhar azul?

Quem você cruzou, minha pequena aqui do sul?
Cruzei uma criancinha com seu pônei morto
Cruzei um branco levando um cão preto a passeio
Cruzei uma mulher jovem, seu corpo queimava
Cruzei uma menininha, ela me deu um arco-íris
Cruzei um homem que estava ferido de amor
Cruzei outro homem que estava ferido de ódio
E é uma dura, e é uma dura, é uma dura, é uma dura
E é uma dura chuva que vai cair

Ah, o que fazer agora, meu filho de olhar azul?

Ah, o que fazer agora, minha pequena aqui do sul?
Eu vou voltar antes que esta chuva dura desabe
Eu vou a pé às profundezas da floresta negra
Onde as pessoas são muitas, suas mãos tão vazias
Onde as pastilhas de veneno já inundam suas águas
Onde a casa no vale atola na prisão imunda
Onde o rosto do agente é sempre bem escondido
Onde a fome é mais feia e as almas se esquecem
Onde preto é a cor e nenhum é o número
E eu vou dizer e pensar e falar respirando
E refletir das montanhas pra toda alma enxergar
E vou andar pelo mar até que as pernas afundem
Mas saberei minha canção antes de começá-la
E é uma dura, e é uma dura, é uma dura, é uma dura
E é uma dura chuva que vai cair

versão brasileira:

Ivan Justen Santana





terça-feira, junho 18, 2013

QUEM LIDERARIA OS ANTILÍDERES?

nenhum sociólogo
nenhuma cientista política
nem qualquer comentarista pontual
demonstram entender
que porra está acontecendo
exatamente porque não sabem
o que é um movimento anárquico --
a política deles está em conceitos
de esquerda ou direita
e só entendem de fracasso
ou de sucesso
-- pouca gente nota
que nosso mote positivista
carrega os opostos:
caos e regresso--

quinta-feira, junho 06, 2013

Depois do depois de

Depois de garimpar [já tinha feito isso na "vida real"] na rede isso aqui [traduções feitas por Leminski publicadas na revista Remate de Males, da Unicamp], resolvo transcrever um dos poemas, porque deslizaram na transcrição e não respeitaram um "enjambement" [quando um verso continua no outro] -- é uma tradução de um soneto enigmático do italiano Antonio Malatesti (1610-1672), da centúria de sonetos La Sfinge, publicada originalmente em Florença, em 1643. Teorias sobre o significado do poema serão muito bem-vindas nos comentários...


eu vi em terra um homem fazer dona
depois de uma tela ter por terra
e de mostrar, por homem, a terra
sob terra tela e sobre terra dona

não era mais que sombra enfim a dona
mais que sombra e que tela enfim a terra
quem vive de sombra e tela na terra
é quem fazia em tela sombra à dona

tal força com sombras tinha este homem
que transformava dona, terra e tela
no loiro metal que contenta ao homem

quero ver se é possível que uma tela
intrincada, destrinchar saiba um homem
que diga quem a dona, a terra, a tela


Malatesti vertido por Leminski
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segunda-feira, junho 03, 2013

A FASE & AS FRASES

de ijs a ffr:

A fase é difícil, como sempre foi e foram de outro modo as outras fases, e as frases demoram ou às vezes nem saem para ver o clima que está fazendo. A poesia engata nos interstícios, dissolve-se nos interlúdios, ou fica com aquela cara do que podia ter sido, porque a fase é difícil, e as frases ainda não se recuperaram das dores de garganta, mas até que às vezes um verso volta a insistir em ser feito. De seu lado, a prosa até que funciona, mas as frases se enrolam ou não se desenrolam, o que se diz e o que deveria ter sido dito às vezes até coincide, mas a fase é... Pois é: talvez nem assim tão difícil, mas é estimulante também só para ver se o ânimo mais singelo volta e completa o que ficou por ser explicado, ou estabelecido, ou só existe sem muitas questões a respeito. E os versos querem ser escritos, mas... Mas vão ter que sair assim mesmo:


Nem o problema da física mais complexa,
nem outra dificuldade insuperável já transposta,
nada resolve uma proposta ainda não proposta,
nenhuma ação ou liberdade ou coisa mais desconvexa:

tudo isso só seria uma mera enrolação
se não fosse mais que importante pra ti e pra mim, assim:
a diferença entre os nãos que só querem ser não
e a palavra simples que nos dizemos um ao outro: sim.

...

sexta-feira, maio 24, 2013

TARA MELA

*
TARA MELA
INSIRA CURA
TINTA CLAQUE
ATAQUE DURA

OGRO MALA
EM MERDA LIRA
TANTO BOTE
A TOQUE FIRA

FRÁGUA GULA
ENCERA FALA
TONTA CIFRA
ATÉ QUE NÃO

ijs

quarta-feira, maio 08, 2013

NÃO BANKSY O LEMINSKI

*
NÃO BANKSY O LEMINSKI

FATURE O FUTURO ASSIM QUE

O TERROR OSSO RISO E AFLORA

E AGORA QUEM NÃO EMBOLORA?

QUEM É QUE TE MATA NO PEITO?

SINCERO SEM SER O AMOR DOMO SUSPEITO?

QUEM PIXO? QUAL DESPACHO? QUANDO?

CAMINHOS PELOS CABELOS: VOANDO

SOU MAIS O PIXO DO QUE O LIXO DO CONSUMO

SUMA DO FISCO E FIQUE COM O SUMO


ijs

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quarta-feira, abril 17, 2013

CADA MANÉ (COM SUA FÉ)


palpite
o grafite
é o limite

p.leminski

cada mané
com sua fé

cada maria
com sua mania

cada josé
com seu pelé

cada joanete
com sua elisabete

cada centavo
com seu escravo

cada arbusto
com seu augusto

cada pateta
com seu poeta

cada poeta vagau
com sua treta sacal

cada gata
com sua pata

cada cara pálida
com sua tara esquálida

cada corno manso
com sua dor no ganso

cada cinema
com seu poema

cada fraldinha
com sua maminha

cada fervo
com seu frevo

cada consulta
com sua jurisconsulta

cada pato
com seu sapato

cada extrato
com seu abstrato

cada pacto
com seu compacto

cada cabeça besta
com sua sentença funesta

cada crítico
com seu diacrítico

cada crítico raquítico
com seu tríptico sifilítico

cada paga pau
com seu não apaga nem a pau

cada cova rasa
com sua escova da nasa

cada arte de rua
com sua parte de sua

cada porte de arma
com seu capote de alma

cada sol
com seu lençol

cada gógol
com seu google

cada bacilo
com seu vacilo

cada pinote
com seu vinhote

cada velha seita
com sua cela estreita

cada cela estreita
com sua tela suspeita

cada celacanto provoca maremoto
com seu acalanto sem controle remoto


IJS (com parceria de FFR)

...

terça-feira, abril 09, 2013

Mais Byron, logo antes do arremate do Canto I do Childe Harold's Pilgrimage


PARA INEZ

                   1.
Não, não sorrias a meu cenho,
    Que eu já sorrir posso mais não:
E os Céus evitem que tu venhas
    Chorar alegremente em vão.

                   2.
Perguntas qual secreta dor
    Suporto sobre a Juventude?
E queres, vã, saber sabor
    De ardor que tu curar não podes?

                   3.
Não é o amor, tampouco é o ódio,
    Ou parcas honras de Ambição,
Que deixam podre este meu pódio,
    E me dispersam na amplidão:

                   4.
É o tal cansaço que desponta
    De todos que já ouvi e já vi:
A Beleza me desaponta;
    Teus olhos são sem charme a mim.

                   5.
É o tal eterno tédio fundo
    Que o Judeu Errante aturava;
Que nada vê a não ser a tumba,
    Mas vive agitação escrava.

                   6.
Que Exílio de si mesmo existe?
    A Zonas mais e mais remotas,
E inda assim me persegue o chiste –
    Na Mente o Demo toma notas.

                   7.
Mas outros parecem gozar,
    Saboreando o que larguei;
Ah, possam inda assim sonhar
    Sem acordar como acordei!

                   8.
Por tantos climas vai meu fado,
    Com tantas maldições e dores,
Que meu alívio é este ditado:
    “Venha o que vier, já estive em piores.”

                   9.
Mas quais piores? Nem perguntes –
    Por piedade aqui te abstenhas:
Sorria – as peças jamais juntes
    Do peito humano: Inferno e brenhas.


versão brasileira: Ivan Justen Santana

quinta-feira, abril 04, 2013

O MACHISTE & A EFEMINISTA

I

Era um sonho num consultório dentário,
Dantesco, extravagau, alucinário:

Numa poltrona não namoradeira,
A Efeminista aguardava, à beira

De um ataque de nervos, a sua vez;
O Machiste, também dali velho freguês,

Folheava uma revista fiu-fiu-menina,
Em busca de consolo a sua triste sina.

Entreolhavam-se, de instante a instante,
Amor de fábula, muito inconstante,

Enquanto lá dentro, sentada na cadeira
Quase elétrica do dentista, uma confreira

Submetia-se a um tratamento de canal:
Esperemos que a história não acabe mal.

II

Ninguém suspeitava que o dentista
Era uma orangotanga sofrendo da vista.


ijs

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CHOCOLATES SÃO PRESENTES

*
Chocolates são presentes
mais amargos quando são
envolvidos inocente-
mente em temas sem questão.

Mas a Páscoa já passou---
sexta-feira foi Paixão:
ou nos tomam por mim ou
não sei mais pronome não.

ijs

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