segunda-feira, junho 16, 2014

ABC: uma Apresentação do Bloomsday em Curitiba (ou Para: compreender o Paraná?)

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Antes de tudo, esse texto é para celebrar a data, paradoxalmente fundamental para as literaturas curitibana, paranaense, brasileira e universal, tanto quanto para a irlandesa.

Sim: 16 de junho é o Bloomsday, e se você não sabe do que se trata, a Wikipédia está aí também para isso. O importante para nós aqui e agora é que, desde que o Dalton Trevisan (que fez 89 anos anteontem) publicou na sua revista Joaquim um trecho do Ulysses de James Joyce (não creditou a tradução do trecho, que está no número 4 da revista, mas presume-se que foi ele, Dalton, o tradutor), e desde que o Paulo Leminski publicou seu livro-emblema Catatau, catatotalmente sob o influxo do Finnegans Wake daquele mesmo James Joyce, tais gestos (entre outros) foram estabelecendo um grau de parentesco, uma familiaridade bem tipicamente curitibana, irlandesa, paranaense, inglesa, brasileira, ou -- numa palavra: humana.

Mas eu talvez começasse melhor ainda explicando o título alternativo desse texto: "Para: compreender o Paraná?"

Em idos do milênio passado, meu amigo e parente [primo de minha mãe em terceiro grau] Hélio Puglielli publicou um pequeno livro de breves textos, intitulado "Para comprender o Paraná". O aproveitamento aqui é para expor uma característica fundamental "nossa", como paranaenses, brasileiros, e até -- enfim: humanos.

Chegaremos ao ponto: paciência. Com o novo acordo ortográfico, foi suprimido o acento diferencial, mas (humanos, demasiadamente) só nalguns casos, como esse da palavra "para", quando é verbo, por exemplo em frases como "ele não para de escrever", ou em "o Paraná para para a explicação", o que dificulta assim a desambiguação com a preposição "para", sacaram?

Enfim: para com isso, Ivan! Compreender o Paraná? E estou parando mesmo, mas para, além de propor uma compreensão do Paraná, explicar Joyce, Leminski, Dalton, e tudo mais...

Sim: porque hoje é o Bloomsday, e esta será talvez mais uma única última chance minha de tais explicações, então passemos a um ponto nevrálgico: uma ocasião em que Leminski foi gravado mencionando o nome do Hélio Puglielli. Foi numa entrevista ao jornalista Aramis Millarch, e pode ser ouvida clicando aqui.

Atenção: são 4 horas de gravação, e a partir da segunda hora o nível da conversa começa a escorregar, pois Leminski atinge um pico alcoólico e aí... Aí a certa altura, sem mais censura, ele se refere ao meu caro Helio Puglielli. Mas não é muito elogioso. De qualquer modo, para tudo de novo -- é esse fato de falar mal a característica fundamental do paranaense, do curitibano, do irlandês, do ser humano?

Quero confiar que não: mas é uma das formas de nos irmanarmos e nos identificarmos a todos. Temos origens todas compartilhadas e que se imbricam no fenômeno da vida, nos tornando uma família planetária: isso pode ser percebido melhor, se em vez de nos referirmos à raça paranaense, passarmos essa referência, por exemplo, à literatura paranaense...

Sim: você pode me dizer: a armadilha está armada: quem procura estabelecer um senso de origem, uma separação e definição desse tipo, está a um milímetro do fascismo. Mas eu sou paranaense (sem tanto orgulho, mas com muito amor) e digo: sim, só que a percepção da diferença, ou a tentativa de especialização, acabam por nos fazer perceber a relatividade disso, especialmente num caso como o do Paraná: humanamente, brasileiramente, e até mesmo ortograficamente (tão esquizofrênica e confusa quanto nossa brasilidade expressa na língua portuguesa, humanamente bagunçada e organizada desse jeito), enfim: sim: vivenciamos uma condição de busca de origens, de mitos de unidade, e afinal de contas, de percepções de diversidade, biológica, política, artística -- e assim começamos a nos compreender mesmo a partir dessas percepções.

Enfim: sim: eu pretendia escrever muito mais, mencionar muito mais gente, especialmente gente ainda mais contemporânea na "literatura curitibana", feito o Adriano Scandolara (italiano? curitibano? joyciano?), que postou uma beleza de texto sobre Joyce hoje aqui neste blog Escamandro mencionando aí o também tradutor agora bastante notório de Joyce, Caetano Galindo -- enfim: mas sim: vamos concluir: está tudo relacionado, minha/sua/nossa/outra/toda gente: a mistura de culturas é o que faz a cultura, e a vontade de cercar e definir uma "literatura paranaense" deve incluir e adotar o fato cultural de que esta literatura é formada/deformada/influenciada/engolida/cercada por todas as outras, especialmente neste estado constituído de misturas, mas caracteristicamente em toda a face do planeta -- e quiçá fora dele...

E assim: sim: tudo se explica, não?

Mas parece que tem um evento acontecendo também aqui em Curitiba que também pode explicar isso de certa forma, mas me falhou agora a memória qual é... De qualquer modo: bola pra frente!

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domingo, junho 15, 2014

segunda-feira, maio 26, 2014

LEVE PRA VOCÊ

(pra Faena)

Já te perdi e assim percebi teu valor
e já tentei viver sem tirar nem compor.

Risquei uns versos 
riscos sempre estão por perto 


e o nosso amor às vezes míngua
feito uma lua – misteriosa língua.

Mas esse poema não é só pra impressionar,
e sim pra te refletir nesse bem simples olhar,

em verso aceso que o coração-cais te escreve
e faz o peso do universo agora tão mais leve.


ijs

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quinta-feira, maio 15, 2014

A ANGÚSTIA DA EXISTÊNCIA

(Um poema-ensaio-anseio paranaense)

Disseram que não existe cultura paranaense.
Que a cultura paranaense não tem passado nem
presente nem futuro. Escreveram isso ali,
na rede social.
E é verdade mesmo, pois quem escreveu
é um dos mais notórios fabricantes de
cultura paranaense.
E a cultura paranaense é mais que consistente:
é paraconsistente: não existe e existe –
ocupa e não ocupa dois ou mais lugares
em mais de uns sete ao-mesmo-tempos
no espaço de infinitos lugares nenhuns:
sim, está bem ali.
Olhem só: vocês não sabem o que é:
e está bem por lá:
é a cultura paranaense.
Cultura de uma gente que sabe dizer quem não é.
Sabemos e estamos até cansados de dizer que não.
Outra fabricante de cultura paranaense definiu:
“em Curitiba, os dez mandamentos se resumem a um:
não” – pois é: sim, paranaense não é só
o curitibano que não se enxerga no espelho
do banheiro de manhã – olhem mais ali,
logo ali, em Londrina: Londrina nasceu ontem,
não pode existir, não fica no Brasil: portanto...
É paranaense.
Sim, pode até ser um drama pro Domingos
Pellegrini, que certamente se dependesse dele
moraria num estado chamado Iguaçu,
com capital londrinense – a capital: talvez Foz –
enfim, é outro fabricante de cultura paranaense:
não existe, logo está ali, nesse nosso estado –
e já que estamos citando nomes, não espalhem:
não existiu um compositor musical
chamado Brasílio Itiberê, ali de Paranaguá,
que compôs uma certa “Sertaneja”, música
precursora da mistura de elementos clássicos
com tradição popular – mas cadê essa “Sertaneja”?
Ninguém sabe, ninguém ouviu – portanto:
existe: é paranaense.
Vamos passar à arquitetura:
“o estilo arquitetônico predominante durante
o ciclo do mate, quando Curitiba deu um salto
civilizatório, foi o eclético” – sim, eclético, mas
o que é isso? É o que não é – é a mistura das coisas
que são, portanto, novamente:
paranaenses.
Vamos lá, vamos aprofundar mais ao nível pessoal:
estava eu (até que demorei pra falar de mim, não?
enfim, agora aguentem...) mediando e organizando
um evento bem paranaense: o Bloomsday – sabem,
o Bloomsday, sobre a obra daquele escritor irlandês
James Joyce, que escreveu um livro que não tem ponto
final (epa, claro que tem – então, devia ser algo bem
paranaense), sabem, né, então, estávamos naquela
livraria paranense chamada Fnac, sabem, e eu
fui babaca –
opa, vamos parar: você, Ivan, foi babaca?
Sim, pois é: estava na assistência
(querem coisa mais paranaense que chamar
quem assiste de assistência? – enfim, vamos lá,
Ivan, demorou com a história) estava na assistência
um grande escritor paranaense: Cristóvão Tezza –
ué, mas ele não nasceu em Lages?
Exatamente: eu fui babaca de “brincar” que o
Tezza não podia ser um escritor paranaense –
e enfim, meio que me justificando:
nunca fomos ali tão paranaenses:
a livraria era francesa, o escritor homenageado,
irlandês – mas o nome do shopping, apesar de “park”
era (é) Barigui.
Tá aí.
Podemos ser curitibabacas o quanto nossas falhas
permitam – e gostamos de fazer esses meas-culpas,
pelo menos eu por mim estou gostando disso,
eu que sempre-nunca me orgulhei
de ser curitibano de pai e mãe curitibanos,
e pra meu próprio horror-amor um dia descobri:
se aqui somos alguma coisa,
somos todos (e todas) tingui,
tinguis, tupis, nos nossos topônimos
estão essas “nossas” (com e sem aspas)
origens: Curitiba, Guarapuava, Maringá,
Paraná – pois é: dizem que até nem mesmo
o nome desse estado foi escolhido aqui,
mas está aí, nosso, e nosso de quem,
meus caros e caras pálidas?
O negócio é que o adiantado da hora
me obriga a seguir atrasando e incomodando –
e também me desculpando: Domingos,
nada pessoal: os paranaenses que acham que se
sabem minimamente paranaenses
gostam de que você exista,
tenha seu jeito e suas opiniões:
com o perdão da intimidade
(imperdoável aos curitibanos, mas perdoável –
porque inexistentes – aos paranaenses),
o teu sobrenome de imigrante, Domingos,
é o mesmo sobrenome de Kolody,
de Leminski, de Trevisan, de Karam,
de Bueno, de Wojciechowski, e até do
França – sim, do Alexandre França,
esse grego curitibano que agora resolveu
morar em São Paulo – do mesmo jeito
que aquele Carlos Careqa, que mantém
essa nossa cultura bem paranaense:
que não existe, está aí, não incomoda,
incomoda –
e ninguém nota.
Aliás, alguém aí
ouviu falar da Ada Macaggi?
Então, lá
em Paranaguá,
políticos confundem Júlia da Costa
com Júlia Wanderley
nas inaugurações de bustos de praças,
portanto: sim, existe
a cultura paranaense,
existiram e existem e existirão
Arrigo Barnabé,
Itamar Assumpção,
que são lá de Londrina,
de Arapongas, ou não –
voltando aos mais paranaenses
lá de Santa Catarina, como não:
se por lá existe uma cidade chamada
Curitibanos, que quem nasce lá deve ser o quê?
Curitibanense? Ou não existe: ou melhor: sim:
paranaense.
Uma cultura que se deseja assim nenhuma,
apagada, emprestada, que quer ser outra
ou adota fácil o que “vem de fora” mas
nasceu logo ali, ali nesse nosso mundo,
tão inexistente e paranaense – enfim:
vamos a mais um descarrego pessoal,
que isso aqui é um poema inexistente,
uma coisa típica paranaense:
alguém aí já viu uma gralha azul
plantando uma araucária?
Que angústia mais angustifólia –
sinto como deve ser essa saudade,
estou escrevendo esse ensaio-anseio também
pruma certa paranaense
que agora está vivendo nos “esteits” –
Xanda Lemos, veja só, que vergonha,
me perdoe a menção – mas vamos rápido
a um corte pra falar de inimizade, calma aí,
que esse treco tem que ser mais polêmico,
então reservem a Xanda e sua banda – e também
a banda Mordida, e quem sabe nessa enrolação
eu também deva mencionar um certo xará,
o Ivan Rodrigues, filho daquele Ivo Rodrigues,
daquela banda, o Blindagem, a Blindagem, enfim,
eu sei, vocês não conhecem, não existe, pois é:
paranaense, demasiadamente paranaense.
Mas estou perdendo o pé:
eu ia falar dum amigo curitibano meu,
um camarada aí, o Márcio Renato dos Santos –
sim: esse também – publicou recentemente
um livro-dicionário sobre Curitiba:
vejam lá, leiam: eu não li (ainda),
sou um tremendo curitibabaca,
mas soube que no livro o Márcio diz
que “autofagia” não existe, que os curitibanos
são na verdade muito críticos e exigentes,
vejam só então:
não é perfeito, perfeitamente
paranaense? –
nos negamos com facilidade:
e aí nesse negamos podemos
até negar que somos “um Brasil diferente”,
e também dizer que não houve escravidão aqui,
e promover esse apagamento duma mestiçagem
duma negritude
que possivelmente vamos ter muita vergonha
em confessar – afinal:
paranaenses, percebem, não existimos,
não temos nem mais a nossa própria
maledicência, está se perdendo...
E o sotaque? Qual sotaque?
Agora está virando mais marcadamente
uma fala acaipirada, porque não, de jeito
nenhum somos caipiras, somos esse
experimento de “primeiro” mundo,
não é mesmo?
Somos essa tentativa
de não ser jacus
que acaba sendo ainda mais jacu:
vide os socorros batéis...
Enfim,
como sempre,
restou muito a ser dito –
quase fiquei ainda mais aflito,
e se é poema também tem que ser
alguma forma de grito – mas tolerem,
que é um modo curitibano – e paranaense,
de ser assim tímido, calado, quieto,
mas de repente flutuante – pois é:
de fato – ultimamente sentimos que
estava acontecendo algo,
que as pessoas (muita gente vindo de fora,
querem algo mais contraditoriamente
paranaense?) estavam mais simpáticas,
mudando, se enturmando –
e realmente – mudamos pra novamente
voltar a amaldiçoar nossas angústias
de existência inexistente,
e agora – ei, e agora, você nem falou
das artes plásticas, do problema do grafite,
da oficialidade versus o vandalismo,
e já vai indo?
É, meu caro Ivan:
a sua loucura não é mais
nem menos paranaense
que a de todos esses que nem fazemos
uma identidade cultural homogênea:
quem sabe com toque de gênio,
ainda com algum oxigênio pra queimar, mas –
não, não existimos como povo,
o Brasil não é isso, nada é assim,
a rima até que é fácil nesse fim,
e você com essa mania de “sim”
quem sabe faça sorrir algum querubim
se não se esquecer de dar à amada um quindim
de um versinho apaixonado e nada chinfrim,
mas outra vez enfim,
volte pra sua tese, não existe cultura paranaense,
não tem jeito, não adianta, esquece,
já bastou, de novo: fim.

Nos vemos todos lá no MON,
na exposição
do João
Turin.


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terça-feira, maio 06, 2014

Revisão rápida do domingo passado no Instituto Neo-Pitagórico

Foi ótimo visitar novamente o Templo das Musas, rever o presidente Anael, conversar com o Manoel Anísio e a Eliane Martins, e participar do sarau poético organizado pela Andréia Carvalho, que faz parte da turma poética da revista virtual Mallarmargens -- bom também conhecer pessoalmente o jovem Caio Tardelli, que tem publicado belos artigos sobre poesia simbolista nesta revista. E bom também ouvir poetas daqui, dali e de lá, alguns considerando Rimbaud um precursor do simbolismo, outras afirmando que Alphonsus, Cruz e Sousa, e Eduardo Guimaraens são a "trindade" simbolista brasileira [do Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro dá pra extrair umas trinta trindades, sendo que a "paranaense" seria formada por Emiliano, Silveira Neto e Dario, com Adolfo Werneck, Ricardo de Lemos e Ismael Martins na "reserva", e pelo menos mais umas três trindades possíveis...] -- Enfim, o Simbolismo é flexível e permeável mesmo: em certo sentido, toda poesia é simbolista, pois é feita com palavras, esses símbolos tão icônicos e indiciáveis, não? Enfim de novo, a foto aí foi feita pelo Decio Romano.

sexta-feira, maio 02, 2014

Os últimos dois textos do meu irmão aqui

Neste fim de semana completam-se quatro semanas da morte do meu irmão Cid Justen Santana. Resolvi registrar aqui mais dois textos. Não são os últimos dele, mas os últimos que vou postar aqui. Eu não ia postar a crônica, A Noite de um Dia Difícil, porque é prosa, e porque quando digitei achei que o texto não estava tão bem realizado quanto poderia. Bobagem crítica da minha parte: foi escrito em 1987, quando o Cid tinha 16 anos incompletos, e também selecionado para o livro do concurso literário do Positivo daquele ano. O Cid emplacou quatro anos seguidos sendo selecionado e premiado nesse concurso, de 1985 a 1988.

Segue aqui também o Ascensão e Declínio, escrito em 1985. É o primeiro poema dele selecionado no concurso, que resultava (parece que isso acontece até hoje) na publicação do livro Palavra Viva. Poema de um piá de 13 para 14 anos. Ascensão e declínio. E eis a postagem final de tributo ao meu irmão. Valeu, Cid!

***

A Noite de um Dia Difícil

Dias difíceis todos nós temos. São quando o relógio trabalha mais do que nós, ou quando o supermercado está cheio, ou quando a energia acaba. No mais, ligamos a ignição do carro e voltamos pra casa, tendo o cuidado de desligar o rádio quando começa o informe estatal.

A noite de um dia difícil é diferente, repleta de pensamentos. Mesmo que os computadores não queiram, quando algo diferente acontece, nós começamos a pensar. E eu penso.

Penso que não sei se as pessoas continuarão a correr inescrupulosamente atrás do dinheiro, como única alternativa pra uma sobrevivência decente. Somos escravos das horas, do patrão e do "descanso semanal remunerado". O egoísmo e a ambição desunem os homens. Todos correm todos os dias atrás de todo o dinheiro que possam conseguir. Uns poucos andam mais devagar, loucos ou divagadores, ou catadores de lixo. Os carrinhos de madeira não são leves... Os transeuntes fogem apressados dos monstros metálicos que fomos nós mesmos que inventamos porque não sabemos mais andar. Até dar um acidente. A multidão que se forma pra ver um acidente de carro não é muito diferente da legião de formigas que se forma em volta de um gafanhoto morto. E chegamos em casa e acendemos os fios de tungstênio e cobre. Às vezes uma sirene distante indica que houve mais uma desgraça na cidade. Acendemos a televisão instintivamente, mesmo que não queiramos ver televisão. É porque é moda, porque amanhã no trabalho vão comentar o capítulo de ontem que é o hoje amanhã. Afinal as pessoas gostam de conversar e não gostam de contas, e vão pra festas onde se esquecem das contas, bebem acima da conta e falam de assuntos que não são da sua conta. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

O bicho-homem se esconde na sua toca. Ainda há lá alguns buracos pra sabermos o que está acontecendo lá fora, e pras pessoas se suicidarem com toda a comodidade e segurança. À noite, servem também pra se olhar pra lua prateada, que serve pra lembrar que ainda estamos na Terra e que já houve homens cuja única preocupação era caçar antílopes e olhar pra lua. Esses instrumentos pra ver através das paredes chamam-se janelas. Janelas. Pontinhos brilhantes no céu da noite. Cada um deles é uma pessoa, uma realidade que eu não conheço. Vemos milhares de pessoas todos os dias e milhares de pontinhos todas as noites e não conhecemos ninguém. Somos apenas mais um semblante, mais uma janela. "Janela" não é uma boa palavra pra se terminar uma frase. Não tem ritmo, não é musical. Mas hoje em dia as músicas, que são mais importantes que as poesias, são muitas vezes meros amontoados de acordes permeados de gritos e convulsões, sem lógica ou uma idéia a transmitir. Servem pra que as pessoas se amem em salões chamados danceterias, se mexendo pra lá e pra cá como se tivessem maleita ou quebranto. É porque querem parecer charmosas, querem ser aceitas pela sociedade do consumismo, do imediatismo e do belo. Estamos tão consumistas que julgamos poder fazer as coisas sumirem, desaparecerem apenas porque não nos servem mais. Jogamos algo no lixo querendo que se desintegre, que os átomos desapareçam, contrariando a própria Lei de Lavoisier. Nessa sociedade imediatista, a forma vale mais que o conteúdo, o hábito faz o monge. A sociedade nos impede de sermos nós mesmos. A sociedade nos transforma em robôs. Bip, bip... você já lubrificou suas engrenagens hoje? Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

Temos fitas em nosso videocassete e livros em nossa biblioteca com figuras de árvores, selvas, bichos e cores. E quando nos cansarmos podemos olhar pela janela e ver prédios e flores brotando do chão. Mas as flores também nascem nos gramados que os jardineiros plantam pra depois cortar. As flores, quando ficam belas, são arrancadas por brutos que também amam, pois amar é permitido e significa gostar duma pessoa do sexo oposto, uma espécie de egoísmo a dois, porque as pessoas que se trancam em suas próprias casas precisam de outras que lhes satisfaçam o desejo. E que também ouçam quando estas reclamarem do silêncio ou do gosto do purê no almoço. Afinal não somos uma ilha, embora o oceano, poluído, cada vez aumente mais. E uma ilha não tem água por cima nem por baixo, enquanto nós temos espaços vazios por todos os lados. Nas cidades se agrupam pessoas vizinhas em Tempo e Espaço e afastadas em Espírito. Alguns não agüentam a pressão e viajam ao mundo dos sonhos. Eu já não sei mais direito o que está certo e o que está errado. Mas isso são só... você já sabe o resto.

É muito fácil e confortável pensar só nos próprios problemas. Deixar pra ser socialista na faculdade e depois se acomodar pro resto da vida, enquanto pobres coitados alheios a regimes e ideologias morrem de fome. Pior cego é o que não quer esperar doador de córnea...

Os homens buscam doutrinas perfeitas como se governo fizesse milagres. Esquecem que mudanças vêm de dentro pra fora, que se você quer deixar o mundo melhor deve ficar você melhor. Mas o problema é que o sistema escraviza a todos, ele está impregnado em nossas vísceras. O egoísmo de cada um não permite um mundo de igualdade com liberdade. O futuro é tão incerto que talvez até por ironia do destino, o mundo fique melhor. Talvez hoje mesmo haja condição de uma pessoa ser feliz, sabendo que está fazendo a sua parte, que vai morrer tentando deixar o mundo melhor. Ou não. Depende da índole de cada um. Mas isso são só pensamentos da noite de um dia difícil.

Cid Justen Santana (texto selecionado no décimo primeiro concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1987)

***

ASCENSÃO E DECLÍNIO

Quão grandiosa foi minha escalada!
Quão harmoniosa foi ela organizada!
Não, não posso pensar
no que era, no que fui, no que seria, no que sou,
nem pensarei, então, no que serei.

Subi na vida.
Doce escalada sofrida.
Ah, se pudesse voltar...
Não, eu não iria arriscar
perder tudo que tinha,
voltar a essa vidinha
mais baixa, mesquinha...

Corroído e corrompido fui
pela classe ostentosa.
Mas agora
o lugar de onde caí era mais alto:
minha queda foi do asfalto
para o macadame.
Fui filhinho de madame,
fui reizinho mandão,
mas agora o meu pão,
como o dos que pisei,
será do trigo que eu semear
e do trigo que eu colher.

Tão enorme era a plantação,
mas agora, agricultor
sem cavalo, sem tração,
minha aragem é a dor,
perdi o trator, o moedor, o arado,
perdi os empregados.
Agora sou eu o trator, o moedor,
o arado e os empregados.

Nunca tinha comido melado,
me sujei, me lambuzei,
quão maior eu fui
através dos que pisei.
No esbanjamento
era e sempre fui
um tremendo dum nojento.

Agora que o carro me deixou,
ó Deus, quão penoso é o caminho
do viajante que pegou carona
– a condução foi sua dona –
e agora tem que andar
sem carona a ajudar,
sem ninguém para chorar
pela queda silenciosa
da mão de obra ociosa.

Miséria, me larga!
Não me leva outra vez!
Minhas posses de burguês
foram e foram!
Se sofri para subir, e desci,
agora que mal aguento esta vida,
como poderei novamente emergir?

Não. Devo desistir.
A sorte não bate duas vezes
e eu voltei, de fazendeiro
a tocador de reses.


Cid Justen Santana (texto selecionado no nono concurso literário Palavra Viva, da sociedade educacional Positivo, em 1985)

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quarta-feira, abril 23, 2014

PALAVRAS DE TITÂNIO

[sim, mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (1971-2014), escrito em homenagem a seus professores, quando o Cid fazia a oitava série e tinha 13 para 14 anos de idade -- esse texto não foi selecionado para nenhuma premiação, mas fica aqui registrado a quem possa emocionar]

I

Tu, que trabalhas arduamente,
fazendo plantas e esquemas
de construção simples mas engenhosa,
engenheiro da mente humana.

Tens nas tuas rédeas,
tens nas tuas mãos
olhinhos agressivos e espertos
ou olhares reprovadores e radicais.

Que levas e mais levas!
(quase não acabam mais)
Se dormes, é tarde da noite,
Se não, são planejamentos que fazes,

planejamentos audazes,
planejamentos tenazes,
pra conter na tua mão
o que às vezes numa sala não cabe.


II

Carregas em teu nome
tua dura vida
com centenas de alunos
-- um pai com centenas de filhos.

É duro não ser perfeito.
É duro nem sempre acertar,
pois tuas palavras de titânio
consolidam mil caracteres,

pois em tuas mãos
formas as existências.
O que disseres, o que fizeres
vai comandar o futuro.

És o elo entre antes e depois:
quanto mais passares adiante
e quanto menos segurares
mais razão teve a tua vida.

Sem exagero, pode-se dizer:
-- Sublime tarefa de amor.
Vida doada ao futuro,
vida doada à esperança!

És os olhos do mundo
modelando teus alunos.
És os olhos dos teus alunos
olhando corretamente o mundo.


[Curitiba, 7 de outubro de 1985]

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segunda-feira, abril 14, 2014

Mais um poema do meu irmão --

Esse é uma joia rara: confiram --


SONETO DA FELICIDADE

A felicidade não é grande nem azul.
A felicidade não é o norte nem o sul.
Não tem mapa nem direção.
É frágil e de curta duração.

Para que nela caiba toda tua vida
procura em todos os momentos a alegria escondida.
Usa cada tristeza tua como uma lição.
Usa cada alegria como impulsão.

A busca da felicidade é uma estrada
por selvas cercada e por pedras barrada:
remove-as sem levantar para não ser derrubado.

Não as empurres que o tesouro será esmagado.
Verte-as apenas para o lado, de mansinho
e terás aberto o caminho.


Cid Justen Santana (1971-2014)

[publicado num boletim informativo do Colégio Positivo, em outubro de 1986]

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quinta-feira, abril 10, 2014

BATENDO NA MESMA TECLA

[Mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (Curitiba, 8 de novembro de 1971 - 6 de abril de 2014); este foi premiado no décimo segundo concurso Palavra Viva, da Sociedade Educacional Positivo, em 1988.]

Batendo na mesma tecla,
eu vou conseguir explicar
que bater na mesma tecla
é o que devemos realizar,
pois nos batem na mesma tecla
que está certo o que é antigo,
já batido de mesma tecla,
copiar não tem perigo,
e todos batemos na mesma tecla,
precisamos bater pra existir,
e até que bater tanto a tecla
fica um pouco legal de se ouvir,
e eu bato na mesma tecla,
pois tal bate toda a gente,
e batendo na mesma tecla
eu não pareço diferente,
e de tanto bater na tecla
eu já me sinto até decente,
especialista em batimento de tecla,
de grande engrenagem sou dente,
não se apoquente (batendo na mesma tecla),
que eu já consegui reservar
(enquanto batia na tecla)
meu nome na lista de espera
(e vou batendo na mesma tecla)
pra um dia eu poder viajar
(até lá eu bato na tecla)
ao mundo dos Sem-Polegar.
(Batendo na mesma tecla.)

...

domingo, abril 06, 2014

MUDANÇAS

(poema de Cid Justen Santana, meu irmão, falecido neste dia 6 de abril de 2014, aos 42 anos de idade; o poema foi premiado no décimo Concurso Literário Palavra Viva, promovido pela Sociedade Educacional Positivo, em 1986, quando o Cid contava 15 anos de idade)

Mudanças.
A vida está cheia delas.
Depois de amores e procelas,
coisas feias e belas,
que resta para o Homem?
Apenas o nome.

Quando se é criança,
moleque, se é tratado pelo nome
mais um "inho" e apenas.
Doce vida a das crianças pequenas...

Depois vem a idade adulta
(daí o tratamento é mudado).
É "senhor" ou "senhora" e o nome.
É duro sustentar os alicerces desse mundo avacalhado.

Então vem a velhice:
"vô", "vó" e o nome; é só.
Vibração microscópica no silêncio
ostracístico da solidão do pó.

Causa, procedimento, conseqüência.
Estudo por estudo, vida do Homem,
chega-se à conclusão de que
o tempo muda e tudo consome.

É distância impercorrível que fica
da pureza do parto à morte do Homem.
Vai ficando embrutecido pelo mundo
e só permanece... inalterado... o nome.

Cid Justen Santana

...

sexta-feira, abril 04, 2014

E AÍ É O UI E O OU

...
Todo mundo faz cocô.
Todo mundo tem chulé.
Tudo bem que tem a flor.
Tudo bem que tem o pé.
Todo mundo sofre dor.
Ninguém faz tudo o que quer.
Tudo bem que tem amor.
Tudo bem que tem a fé.
Mas às vezes até a fé
se confunde com o horror
e portanto, meu senhor,
não me diga, por favor,
dessa vida sem temor
ser questão de o que é o que é.

ijs
...

segunda-feira, março 31, 2014

quinta-feira, março 06, 2014

O MEU IRMÃO ENQUANTO INSPIRAÇÃO

Ao Cid Justen Santana
*
O meu irmão enquanto inspiração
é tanto o que não fez e o que tentou
porém também tanto o que fez, na ação
de ser, mesmo no ser que não chegou.

O meu irmão enquanto aspiração
prossegue sendo esse desenrolar
das coisas que inda não são mas serão
e no que ele tentar bolar colar

e até no medo que me dói de assim
o transformar em futura canção,
considerando um não qual sim e em mim
o meu irmão enquanto inspiração.


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quinta-feira, fevereiro 27, 2014

DO AMOR E ESSES TRABALHOS DE POESIA

*
Sim, você sabe, não são tão difíceis
os versos decassílabos perfeitos.
E versos bem escritos são quais mísseis

que atingem muitos mil, de muitos jeitos.
Mas todo dia tem algum problema:
tem cercas com limites muito estreitos,

tem quem queira que o resto reze e gema,
e quem proponha tiros, socos, chutes.
Bem poucos ousam não seguir esquemas

enquanto a gente segue e só deglute
os ditos sanduíches de realidade,
sentindo falta de outras teclas mutes

pra suportar a vida na cidade.
Talvez só esteja, sim, perdendo tempo.
Talvez viva contente atrás de grades.

Talvez tais três talvezes que aqui tento
não sejam um final que alguém queria.
Porém é só. Sim. Só. Fiz só de exemplo

do amor e esses trabalhos de poesia.

ijs

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terça-feira, fevereiro 25, 2014

The Quiet Crowd




A Multidão Silenciosa

Would you rather be more than the things that you say
Or just be the words that you sing to yourself in your head
When nobody's around
Or would you rather be a part of the crowd or just a single sound
Waiting to be heard
Do you know what I mean?
Well you could be one of the lovers or liars
Hiding all the things that they do on the back of their hands
Well it's just you and me
'Cause everybody's got a little wrong in all the right places
Just depends on where you are
While you're hanging around
Você preferiria ser mais do que as coisas que diz
Ou só as palavras que canta na cabeça para si
Quando ninguém está perto
Ou você preferiria ser parte da multidão ou apenas um som
Esperando ser escutado
Sabe o que quero dizer?
É você podia ser um dos amantes ou dos mentirosos
Escondendo tudo que fazem nas costas das mãos
É somos só você e eu
Pois todo mundo tem lá um erradinho bem nos lugares certos
Só depende de onde você está
Quando você está por aí

Dear Mr. Quiet who's got so much to say
So much more than all of the sleeping parade
If I could tie up a string to your mouths and make you scream
All of the things that you keep to your self
I'd love to get to know you better
Dear Mr. Quiet I'd love to get to know you better
When nobody's around
While we're all staring at the end of the world
Will everybody have their hands on their head while they say
Well I told you so
While everybody's walking their own way through the quiet crowd
All thinking the same old things
If they only knew
Caro Sr. Silencioso com tantas coisas para dizer
Tão muito mais do que todos do desfile sonolento tem
Se eu amarrasse um barbante em suas bocas e fizesse você(s) gritarem
Todas as coisas que você(s) guarda(m) para si
Eu adoraria conhecer você(s) melhor
Caro Sr. Silencioso eu adoraria conhecer você melhor
Quando ninguém está perto
Enquanto assistimos todos ao fim do mundo
Será que colocarão todos as mãos na cabeça e dirão
É eu falei pra você
Enquanto seguem seus próprios caminhos pela multidão silenciosa
Todos pensando as mesmas velhas coisas
Se apenas eles soubessem

Patrick Watson
Ivan Justen Santana

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domingo, fevereiro 02, 2014

DIA DE IEMANJÁ, DIA DA MARMOTA, DIA DE JAMES JOYCE: IEMANJOYSTARAM?

*
E eis mais um jamsjoysversário:
centenário de Um Retrato
do Artista como um Mancebo.

Isso: A Portrait of the Artist
as a Young Man. Não concebo
não fazer um trocadilho

com o como e até com sebo,
pois foi pai, marido e filho
mesmo sem ter sido santo.

Pelo menos por enquanto...


ijs, 2/2/2014 --

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sábado, fevereiro 01, 2014

AO POETA CESAR ROSSILHO

*
Pelo festejo do dia
que é uma data natalícia,
dou-lhe um presente-notícia
mas que você já sabia:
seus versos, Cesar Rossilho,

não deixam de ter seu brilho.
Porém seus melhores poemas
você os fez em parceria
com a esposa-canção, Carmen:
seus dois filhos, Troy e Faena.
Aos quatro deixo estes charmes
de celebração serena.


(a primeira estrofe é por mais cinquenta, e a segunda, por mais sete anos: e essas congratulações em parênteses prosaicos são porque não consegui dizer tudo que queria em versos medidos e rimados: felicitações, Cesar!)

Ivan Justen Santana

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terça-feira, janeiro 28, 2014

TERRÍVEL FALTA VOCÊ FAZ

(para quem sabe para quem)

Terrível falta você faz
porém quem mais faltou fui eu.
História estranha masca paz.
Fosse sufoco se perdeu.

Quem gosta de perder o pé?
Quem curte não usar a mão?
Quando nem chega a ser até
não tem desculpa o que foi vão.

Fosse algo um pouco em mim perdi.
Nada que nem se leva e traz.
Só quis dizer sem troco aqui
terrível falta você faz.

(Mas se deixei de algo falar
está no chão do céu do mar.)

...

ijs

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quinta-feira, janeiro 23, 2014

ESCRITO APÓS NADAR DE SESTOS A ABIDOS

WRITTEN AFTER SWIMMING FROM SESTOS TO ABYDOS *
(Traduzido após verter o Childe Harold's Pilgrimage, Cantos I & II)

 _____1.
If, in the month of dark December,

__Leander, who was nightly wont
(What maid will not the tale remember?)
__To cross thy stream, broad Hellespont! 
_____1.
Se, num dezembro escuro e frio,
__Leandro, às noites sempre pronto,
(Qual dama não relembra o mito?)
__Cruzava o mesmo amplo Helesponto! 

____2.
If, when the wintry tempest roared,

__He sped to Hero, nothing loth,
And thus of old thy current poured,
__Fair Venus! how I pity both! 
____2.
Se, no rugir da chuva brava,
__A Hero ele ia, sem querer menos,
E assim as águas já puxavam,
__Tenho dó de ambos, bela Vênus!

____3.
For me, degenerate modern wretch,

__Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
__And think I've done a feat to-day.
____3.
Pois eu, moderno decadente,
__Mesmo no ameno mês de maio,
Achei meu feito algo excelente,
__E quase que sofro um desmaio.

____4.
But since he crossed the rapid tide,

__According to the doubtful story,
To woo,—and—Lord knows what beside,
__And swam for Love, as I for Glory;
 ____4.
Se a correnteza ele enfrentava,
__Segundo a duvidosa história,
Por dons — ou algo mais — da amada,
__Enquanto que eu nadei por glória;
__
____5.
'Twere hard to say who fared the best:

__Sad mortals! thus the Gods still plague you!
He lost his labour, I my jest:
__For he was drowned, and I've the ague. 
____5.
Quem dirá qual prêmio melhor
__O Olimpo aos mortais receita?
Um perde o amor, e o outro, o humor:
__A Leandro, o mar; e a mim, maleita.

Lord Byron, 1810

Ivan Justen Santana, 2014

* Nota de Byron: No dia 3 de maio de 1810, enquanto a Salsette (do Capitão Bathurst) estava ancorada nos Dardanelos, o oficial Ekenhead, daquela fragata, e o autor destas rimas nadaram da costa europeia até a asiática — por sinal, de Abidos a Sestos seria mais correto. A distância total, de onde partimos até a chegada na outra costa, incluindo o que percorremos levados pela corrente, foi computada por aqueles a bordo da fragata como mais de quatro milhas inglesas, não obstante a extensão real não ultrapassar uma [milha inglesa]. A velocidade da corrente é tal que nenhum bote a cruza a remo sem desvio, e pode nalguma medida ser estimada pelo tempo que os nadadores levaram, um [Ekenhead], uma hora e cinco minutos, e outro [Byron], uma hora e dez minutos. A água estava extremamente fria, pelo derretimento da neve das montanhas. Por volta de três semanas antes, em abril, fizemos uma tentativa; mas tendo cavalgado o caminho todo desde a Tróade naquela mesma manhã, e a água estando congelante, foi necessário adiar a natação até que a fragata ancorasse perto dos castelos, quando cruzamos o estreito conforme declarado, entrando consideravelmente acima do forte europeu, e chegando abaixo do asiático. [Le] Chevalier diz que um jovem judeu nadou a mesma distância por sua amada; e Olivier menciona um feito semelhante por um napolitano; mas nosso cônsul, Tarragona, não se recorda de nenhum desses acontecimentos, e procurou nos dissuadir da tentativa. Vários da tripulação da Salsette são reconhecidos por terem nadado distâncias maiores; e a única coisa que me surpreendeu foi que, uma vez que já se duvidou da história de Leandro, nenhum viajante jamais tivesse buscado certificar-se pessoalmente quanto à praticabilidade da façanha.

Fonte: http://www.gutenberg.org/files/21811/21811-h/21811-h.htm#Page_13

Postagem interessante a respeito: http://amitologianahistoria.blogspot.com.br/2010/08/mitologia-grega-hero-e-leandro.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Abidos_%28%C3%81sia_Menor%29

domingo, janeiro 12, 2014

VALENDO TODAS ELAS JUNTAS NUM SÓ SER

(mais uma vez, a FFR)

Tu sabes que eu não sou capaz de tanto,
feito um Lenine com Carlos Rennó;
só que cantando assim neste óbvio canto
te dou as rimas todas numa só;

pois se eu fizesse outra canção com lista
das musas todas dos compositores,
dos poetas vivos, mortos, trapezistas,
rimando as cores, flores e os amores,

seria assim tão óbvio quanto sou:
um poeta vivo, morto e trapezista
que sem as conjunções nem mas nem ou,
no estilo bolha que inda te conquista,

num só versinho já te conquistou.


IJS

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