The Lion
The Lion, the Lion, he dwells in the Waste,
He has a big head and a very small waist;
But his shoulders are stark, and his jaws they are grim,
And a good little child will not play with him.
O Leão
O Leão, o Leão, morador das savanas sem fim,
Possui um crânio enorme e uma cinturinha assim;
Porém seus ombros largos, e as mandíbulas, afiadas,
Não são brinquedos próprios às crianças educadas.
The Tiger
The tiger, on the other hand,
Is kittenish and mild,
And makes a pretty playfellow
For any little child.
And mothers of large families
(Who claim to common sense)
Will find a tiger well repays
The trouble and expense.
O Tigre
Já o tigre, por seu turno,
com sua índole mansa,
será excelente amigo
para qualquer criança.
As mães de larga prole,
tão cheias de certezas,
bem sabem como um tigre
poupa muitas despesas.
Hilaire Belloc
Versão brasileira:
Ivan, o siberiano amestrado.
domingo, abril 30, 2006
terça-feira, abril 25, 2006
Os versinhos: sempre os versinhos...
Hoje eu triste levantei sorrindo
num contraste tal qual nunca vi:
o dia estava extremamente lindo
e nenhuma pista de você aqui.
num contraste tal qual nunca vi:
o dia estava extremamente lindo
e nenhuma pista de você aqui.
segunda-feira, abril 24, 2006
Sorte póstuma de hoje
Você tem um coração generoso e é bem amado, mas vai continuar achando que sua vida está arruinada, ouvirá o choro agônico da pessoa que você ama, terá trinta e sete ataques de nervos e nunca mais vai querer falar com ela até a meia-noite...
segunda-feira, abril 17, 2006
Domingo de Páscoa:
dia da ressurreição do deus da sua civilização:
você se sente morrer como cristão
e como cidadão.
Você passa o domingo inteiro sem ver ninguém:
sozinho, sozinho totalmente,
você se sente morrer como gente,
você se sente morrer como pai,
filho, irmão, neto, primo, sobrinho e tio;
ainda mais complicado,
você se sente morrer como amor,
amante e amado;
você se sente morrer como torcedor,
como poeta, como amigo:
você se sente morrer consigo.
Você sente também que tudo que faz é falho:
você morre até como colega de trabalho.
Você sente enfim que morrer mesmo seria perfeito:
mas quem é você pra morrer tanto,
ou pra morrer de qualquer jeito?
Mortas as rimas, morre também a sua prosa:
é mole ou quer mais?
Bem: você se sente mole:
e por isso quer mais.
você se sente morrer como cristão
e como cidadão.
Você passa o domingo inteiro sem ver ninguém:
sozinho, sozinho totalmente,
você se sente morrer como gente,
você se sente morrer como pai,
filho, irmão, neto, primo, sobrinho e tio;
ainda mais complicado,
você se sente morrer como amor,
amante e amado;
você se sente morrer como torcedor,
como poeta, como amigo:
você se sente morrer consigo.
Você sente também que tudo que faz é falho:
você morre até como colega de trabalho.
Você sente enfim que morrer mesmo seria perfeito:
mas quem é você pra morrer tanto,
ou pra morrer de qualquer jeito?
Mortas as rimas, morre também a sua prosa:
é mole ou quer mais?
Bem: você se sente mole:
e por isso quer mais.
quarta-feira, abril 05, 2006
Modesta contribuição pretensiosíssima ao Livro dos Contrários, de Marcos Prado
O tigre se encontrou com o cordeiro
na selva surreal do imaginário:
impossível dizer qual por primeiro
saudou: "Mas se não vejo o meu contrário!"
Depressa o tigre intrépido alertou,
com olhos faiscantes quais coriscos:
"Eu sempre amedrontei quem me topou,
pois minhas listras são sinais dos riscos."
O cordeiro obtemperou calmamente,
sorrindo feito a estrela da manhã:
"Mesmo a voragem faz bem à semente,
ternura que se aprende em minha lã."
Incapaz de interpretar tais finuras,
o tigre abriu a boca e devorou-o:
foi quando as duas belas criaturas
fundiram-se num anjo que ergueu vôo.
na selva surreal do imaginário:
impossível dizer qual por primeiro
saudou: "Mas se não vejo o meu contrário!"
Depressa o tigre intrépido alertou,
com olhos faiscantes quais coriscos:
"Eu sempre amedrontei quem me topou,
pois minhas listras são sinais dos riscos."
O cordeiro obtemperou calmamente,
sorrindo feito a estrela da manhã:
"Mesmo a voragem faz bem à semente,
ternura que se aprende em minha lã."
Incapaz de interpretar tais finuras,
o tigre abriu a boca e devorou-o:
foi quando as duas belas criaturas
fundiram-se num anjo que ergueu vôo.
sábado, abril 01, 2006
A dona do meu coração...
A dona do meu coração é bem estranha
no jeito que ela lida com o que ganha:
meu coração batendo à sua porta,
confiante que com ele ela se importa.
Às vezes ela mima ele no colo,
às vezes ela solta ele no solo...
Tem horas que ela mata ele nos peitos,
momentos em que lista os seus defeitos,
tem dias que ambos passam feito vítimas
e noites que enchem com loucuras íntimas...
A dona do meu coração é bem estranha
mas sempre que eu me jogo ela me apanha.
no jeito que ela lida com o que ganha:
meu coração batendo à sua porta,
confiante que com ele ela se importa.
Às vezes ela mima ele no colo,
às vezes ela solta ele no solo...
Tem horas que ela mata ele nos peitos,
momentos em que lista os seus defeitos,
tem dias que ambos passam feito vítimas
e noites que enchem com loucuras íntimas...
A dona do meu coração é bem estranha
mas sempre que eu me jogo ela me apanha.
quinta-feira, março 30, 2006
versinhos balsâmicos (refletidos por ti*)
*
DAS UTOPIAS
Mario Quintana
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
DAS UTOPIAS
Mario Quintana
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
terça-feira, março 28, 2006
a dor que agora dói ne mim
a dor que agora dói ne mim
não é qualquer dorzinha assim
a dor que agora dói ne mim
não é qualquer riminhazinha que dá fim
a dor que agora dói ne mim
não dá pra te explicar timtim por timtim
a dor que agora dói ne mim
não some nem com pó de pirlimpimpim
a dor que agora dói ne mim
não é por te saber tão perto e longe enfim
não é por tantos nãos e im
perfeições que escrevo aqui
talvez então seja porque
eu hoje não ouvi
não compreendi
pedi pra você repetir
sentindo a dor que agora dói ne mim
na palavrinha que você me disse sim
não é qualquer dorzinha assim
a dor que agora dói ne mim
não é qualquer riminhazinha que dá fim
a dor que agora dói ne mim
não dá pra te explicar timtim por timtim
a dor que agora dói ne mim
não some nem com pó de pirlimpimpim
a dor que agora dói ne mim
não é por te saber tão perto e longe enfim
não é por tantos nãos e im
perfeições que escrevo aqui
talvez então seja porque
eu hoje não ouvi
não compreendi
pedi pra você repetir
sentindo a dor que agora dói ne mim
na palavrinha que você me disse sim
quinta-feira, março 23, 2006
Pediu ganhou...
se nosso sexo
é sempre assim,
assim não iria
a bissetriz
verter-te despida?
por isso peço
que espirre em mim:
vai ser o dia
mais feliz
da minha vida...
é sempre assim,
assim não iria
a bissetriz
verter-te despida?
por isso peço
que espirre em mim:
vai ser o dia
mais feliz
da minha vida...
Vamos abrir as portas da esperança...
(um diálogo fora do tempo e do espaço)
- Ivan: você deve escolher todas as seguintes alternativas:
- Oba! Quer dizer: tá bom: manda...
- Você vai ver seu time em crise (sem o técnico germanofáustico) perder em seu próprio chão, e assim ser eliminado do campeonato, com direito a contusão do craque da equipe; depois você vai ver pela TV o time perder de novo, em solo carioca, no dia (na noite) do seu aniversário (e também do craque em crise); você vai ser enxovalhado neste dia de aniversário, vai sofrer uma dose concentrada das torturas acumuladas ao longo dos últimos tempos...
- É emocionante: e o que mais?
- O pior fica pro fim: na manhã seguinte, ligeiramente ressaqueado, você vai acordar sorrindo e o dia vai estar lindo.
- Eu não mereço tanto...
- Não mesmo: melhor você voltar pros versinhos antes que se quebre o encanto...
- Positivo, operante: deixa aqui pro beque que só mesmo em rima eu adianto.
- Ivan: você deve escolher todas as seguintes alternativas:
- Oba! Quer dizer: tá bom: manda...
- Você vai ver seu time em crise (sem o técnico germanofáustico) perder em seu próprio chão, e assim ser eliminado do campeonato, com direito a contusão do craque da equipe; depois você vai ver pela TV o time perder de novo, em solo carioca, no dia (na noite) do seu aniversário (e também do craque em crise); você vai ser enxovalhado neste dia de aniversário, vai sofrer uma dose concentrada das torturas acumuladas ao longo dos últimos tempos...
- É emocionante: e o que mais?
- O pior fica pro fim: na manhã seguinte, ligeiramente ressaqueado, você vai acordar sorrindo e o dia vai estar lindo.
- Eu não mereço tanto...
- Não mesmo: melhor você voltar pros versinhos antes que se quebre o encanto...
- Positivo, operante: deixa aqui pro beque que só mesmo em rima eu adianto.
quinta-feira, março 09, 2006
Eu só reflito você...*
*
ESTIVAL
Rubén Darío
___I
A tigresa de Bengala,
com sua lustrosa pelugem de listras,
está alegre e gentil, está de gala.
Salta pelas águas ariscas
dum riacho, ao cerrado
bambuzal; logo ei-la diante
da rocha à entrada de sua gruta.
Ali lança um rosnado,
se agita feito uma bacante
e eriça de prazer a pele hirsuta.
A fera virgem ama.
É o mês do ardor. Parece o solo
um rescaldo, e o sol
no céu, imensa chama.
Pela ramagem sepulcral
salta em fuga um marsupial.
A jibóia incha, dorme, esquenta-se
ao tórrido lume;
um pássaro senta-se
repousando sobre o verde cume.
Sentem-se vapores de forno;
e a selva indiana,
em lufadas de ar morno,
lança, sob os langues tons
do céu, um sopro de si.
A tigresa ufana
respira a plenos pulmões,
e ao ver-se bela, altiva, soberana,
dilata os seios, acelera as pulsações.
Contempla sua grande pata, e nela a garra
de marfim; logo toca
o veio de uma rocha,
o testa e o marca.
Observa então seu flanco
que açoita com o rabo pontiagudo
em preto e branco,
inquieto e felpudo;
depois seu ventre. Em seguida
abre as largas mandíbulas, altaneira
qual rainha a exigir vassalagem;
e então fareja, busca, segue. A fera
exala algo à maneira
de um suspiro selvagem.
Um surdo rosnado
ouviu. Depressa
volve a visão de lado a lado.
E cintila o olhar verde e dilatado
ao ver de um tigre a cabeça
surgir sobre o topo de um penhasco.
O tigre aproximava-se.
____..............................Mui garboso.
Gigantesco talhe, pêlo fino,
olhar puxado, robusto pescoço,
era um Don Juan felino
na selva. Em silenciosos solavancos
vem, vê a tigresa inquieta, sozinha,
e lhe exibe os brancos
dentes; e logo agita
a cauda catita.
Ao caminhar se via
seu corpo ondear, com garbo e bizarria.
Miravam-se os músculos inchados
debaixo da pelugem. E se diria
ser aquela criatura
um rude gladiador da altura.
Os pêlos eriçados
do lábio relambia. Quando andava,
seu peso afundava
a relva verde e mole,
e o ruído de seu bafo semelhava
o ressoar de um fole.
Ele é, ele é o rei. Cetro de ouro
não, mas a garra vasta
que se crava régia no crânio do touro
e carnes desbasta.
A grande águia negra, de pupilas
de fogo e curvo bico reluzente,
tem o Aquilão; as fundas e tranqüilas
águas são do caimão; o elefante
possui planalto e planície;
a víbora, os juncais à sua malícia;
e um ninho aquecido,
na árvore suspendido,
é da ave doce e terna
que ama a primeira luz.
_______........................Ele, a caverna.
Não inveja ao leão a juba, nem ao potro
o casco, nem ao hipopótamo
o lombo corpulento,
que, sob as ramagens do copado
baobá, ruge ao vento.
Assim caminha orgulhoso, chega, afaga;
corresponde a tigresa que lhe espera,
e com carícias as carícias paga,
em seu selvagem ardor, a carniceira.
Depois, o misterioso
tato, as impulsivas
forças que arrastam com poder pasmoso;
e – Oh, grande Pan! o idílio monstruoso
sob as vastas selvas primitivas.
Não aquele das musas de brandas horas
suaves, expressivas,
nas curtas auroras
e nas azuis noites pensativas;
mas o que a tudo inflama, anima, exalta,
pólen, seiva, calor, nervo, braveza,
e em torrentes de vida brota e salta
do seio da grande Natureza.
____II
O príncipe de Gales vai à caça
por bosques e por morros,
com seu grande séquito e cachorros
da mais fina raça.
Silenciando o tropel dos vassalos,
detendo parelhas e cavalos,
com a visão inquieta
contempla os dois tigres, na entrada
da gruta. Demanda a escopeta,
e avança e não se abala.
As feras se acariciam. Não ouviram
o tropel dos caçadores.
A esses terríveis seres,
embriagados de amores,
com cadeias de flores
poderiam tê-los jungido
à nevada concha de Citera
ou ao carro de Cupido.
O príncipe atrevido
se adianta, se aproxima, pára;
aponta a arma e fecha um olho; dispara;
da arma o estrondo
ecoa pelo bosque fechado.
O tigre sai correndo
e a fêmea cai, o ventre perfurado.
Oh, está morrendo!... Mas antes, fraca, hirta,
esguichando sangue pela ferida aberta,
com olhar dolorido
fita aquele caçador, lança um gemido
feito um ai! de mulher..., e cai morta.
_____III
Aquele macho que fugiu, bravo e medonho
com os raios ardentes
do sol, em seu covil depois dormia.
E então tem um sonho;
que enterrava as garras e os dentes
em ventres rosados
e peitos de mulher; e que engolia
em pedaços delicados
refeições tão plenas,
como tigre guloso entre gulosos,
umas quantas dezenas
de bebês tenros, louros e saborosos.
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
ESTIVAL
Rubén Darío
___I
A tigresa de Bengala,
com sua lustrosa pelugem de listras,
está alegre e gentil, está de gala.
Salta pelas águas ariscas
dum riacho, ao cerrado
bambuzal; logo ei-la diante
da rocha à entrada de sua gruta.
Ali lança um rosnado,
se agita feito uma bacante
e eriça de prazer a pele hirsuta.
A fera virgem ama.
É o mês do ardor. Parece o solo
um rescaldo, e o sol
no céu, imensa chama.
Pela ramagem sepulcral
salta em fuga um marsupial.
A jibóia incha, dorme, esquenta-se
ao tórrido lume;
um pássaro senta-se
repousando sobre o verde cume.
Sentem-se vapores de forno;
e a selva indiana,
em lufadas de ar morno,
lança, sob os langues tons
do céu, um sopro de si.
A tigresa ufana
respira a plenos pulmões,
e ao ver-se bela, altiva, soberana,
dilata os seios, acelera as pulsações.
Contempla sua grande pata, e nela a garra
de marfim; logo toca
o veio de uma rocha,
o testa e o marca.
Observa então seu flanco
que açoita com o rabo pontiagudo
em preto e branco,
inquieto e felpudo;
depois seu ventre. Em seguida
abre as largas mandíbulas, altaneira
qual rainha a exigir vassalagem;
e então fareja, busca, segue. A fera
exala algo à maneira
de um suspiro selvagem.
Um surdo rosnado
ouviu. Depressa
volve a visão de lado a lado.
E cintila o olhar verde e dilatado
ao ver de um tigre a cabeça
surgir sobre o topo de um penhasco.
O tigre aproximava-se.
____..............................Mui garboso.
Gigantesco talhe, pêlo fino,
olhar puxado, robusto pescoço,
era um Don Juan felino
na selva. Em silenciosos solavancos
vem, vê a tigresa inquieta, sozinha,
e lhe exibe os brancos
dentes; e logo agita
a cauda catita.
Ao caminhar se via
seu corpo ondear, com garbo e bizarria.
Miravam-se os músculos inchados
debaixo da pelugem. E se diria
ser aquela criatura
um rude gladiador da altura.
Os pêlos eriçados
do lábio relambia. Quando andava,
seu peso afundava
a relva verde e mole,
e o ruído de seu bafo semelhava
o ressoar de um fole.
Ele é, ele é o rei. Cetro de ouro
não, mas a garra vasta
que se crava régia no crânio do touro
e carnes desbasta.
A grande águia negra, de pupilas
de fogo e curvo bico reluzente,
tem o Aquilão; as fundas e tranqüilas
águas são do caimão; o elefante
possui planalto e planície;
a víbora, os juncais à sua malícia;
e um ninho aquecido,
na árvore suspendido,
é da ave doce e terna
que ama a primeira luz.
_______........................Ele, a caverna.
Não inveja ao leão a juba, nem ao potro
o casco, nem ao hipopótamo
o lombo corpulento,
que, sob as ramagens do copado
baobá, ruge ao vento.
Assim caminha orgulhoso, chega, afaga;
corresponde a tigresa que lhe espera,
e com carícias as carícias paga,
em seu selvagem ardor, a carniceira.
Depois, o misterioso
tato, as impulsivas
forças que arrastam com poder pasmoso;
e – Oh, grande Pan! o idílio monstruoso
sob as vastas selvas primitivas.
Não aquele das musas de brandas horas
suaves, expressivas,
nas curtas auroras
e nas azuis noites pensativas;
mas o que a tudo inflama, anima, exalta,
pólen, seiva, calor, nervo, braveza,
e em torrentes de vida brota e salta
do seio da grande Natureza.
____II
O príncipe de Gales vai à caça
por bosques e por morros,
com seu grande séquito e cachorros
da mais fina raça.
Silenciando o tropel dos vassalos,
detendo parelhas e cavalos,
com a visão inquieta
contempla os dois tigres, na entrada
da gruta. Demanda a escopeta,
e avança e não se abala.
As feras se acariciam. Não ouviram
o tropel dos caçadores.
A esses terríveis seres,
embriagados de amores,
com cadeias de flores
poderiam tê-los jungido
à nevada concha de Citera
ou ao carro de Cupido.
O príncipe atrevido
se adianta, se aproxima, pára;
aponta a arma e fecha um olho; dispara;
da arma o estrondo
ecoa pelo bosque fechado.
O tigre sai correndo
e a fêmea cai, o ventre perfurado.
Oh, está morrendo!... Mas antes, fraca, hirta,
esguichando sangue pela ferida aberta,
com olhar dolorido
fita aquele caçador, lança um gemido
feito um ai! de mulher..., e cai morta.
_____III
Aquele macho que fugiu, bravo e medonho
com os raios ardentes
do sol, em seu covil depois dormia.
E então tem um sonho;
que enterrava as garras e os dentes
em ventres rosados
e peitos de mulher; e que engolia
em pedaços delicados
refeições tão plenas,
como tigre guloso entre gulosos,
umas quantas dezenas
de bebês tenros, louros e saborosos.
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
terça-feira, março 07, 2006
só mais um poeminha de amor...
| minhas lágrimas em teus olhos me falaram de amor: pra que queimar meus miolos se basta ofertar-te uma flor? se tudo que eu dissesse chegasse até você como prece, quem sabe a falta de pressa fosse afinal um fim que começa sem essa de querer ser deusa: já é demais ser só você mesma: você já descansou minha beleza musa: nossa comida está servida no banho, na cama e na mesa Antonio Thadeu Wojciechowski e Ivan Justen Santana |
terça-feira, fevereiro 28, 2006
DIRETO DE SÃO PAULO, AO VIVO, UM POEMA COM INÍCIO, MEIO E SEM FINAL FELIZ.
| Caso eu forçasse o meu lápis ou o teclado pra produzir algum versinho combinado, não é certeza, mas muito provavelmente faria um poema mesmo digno de gente: eu até poderia enganar qualquer uma que desejasse se enxergar inteira em bruma e cada letra viraria então verdade, ganhando assim com a rima a realidade. Mas meu sentimento não é somente som: não é só esse ó aqui que soa certo e bom: quando eu começo (e comecei) minha arapuca é pra roçar sem nenhum dó na tua nuca, é pra pescar teu corpo, e de quebra o coração, é pra fazer do nosso amor enfim canção que muito mais do que palavra é sopro da alma, é olho no olho, lábio em lábia, palmo a palma. Só que se você faz pouco caso e não liga me sinto feito um poeminha duma figa, feito um versinho que perdeu o metro e a rima (buscando embaixo o que ficou ali pra cima): feito um Cupido que só atira bumerangues: um coração que bate seco por seus sangues. |
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
MAIS UM TEXTO DE HOSPÍCIO, PARA DETALHAR A RAZÃO DA MINHA VIDA E MEU ESTADO EMOCIONAL NO PERÍODO
O ENIGMA
Numa certa vez incerta, um cidadão que por pura coincidência se chamava Édipo foi consultar o Oráculo, que por pura coincidência era o de Delfos.
Aí, por pura coincidência, o cidadão Édipo chegou para uma muito sedutora pitonisa que vivia por lá e perguntou: “Qual é a resposta do Enigma?”
E a pitonisa, muito sedutora: “É uma face imaginária enquadrada numa circunferência.”
Então Édipo percebeu que não sabia qual era a pergunta do Enigma.
E assim tudo ficou por isso mesmo.
Numa certa vez incerta, um cidadão que por pura coincidência se chamava Édipo foi consultar o Oráculo, que por pura coincidência era o de Delfos.
Aí, por pura coincidência, o cidadão Édipo chegou para uma muito sedutora pitonisa que vivia por lá e perguntou: “Qual é a resposta do Enigma?”
E a pitonisa, muito sedutora: “É uma face imaginária enquadrada numa circunferência.”
Então Édipo percebeu que não sabia qual era a pergunta do Enigma.
E assim tudo ficou por isso mesmo.
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
TODA A VERDADE SOBRE O DESAPARECIMENTO DE IVAN JUSTEN SANTANA
Pois então: o que ocorreu mesmo foi que, após fechar seu botequinho predileto da rua Trajano Reis, Ivan se deparou com sua própria imagem espelhada no laguinho ali diante do cavalo-monumento do Largo da Ordem.
Nisso ele pressentiu algo e no que olhou pro lado viu se materializar uma ruiva estupefaciente (um olho verde, o outro furta-cor), de pele muito pálida e com um vestido preto que cobria apenas as partes mais insinuantes.
Ela disse vemcá com o indicador da mão esquerda, e no que Ivan fez menção de ir lá, uma luz cegante o abduziu até o interior duma cozinha hiperdimensional.
Enquanto um gato preto gigante com chapéu de mestre-cuca preparava iguarias inigualáveis, uma cadela trifauce identificou-se como a psicanalista, e cada uma das suas caras carrancudas fez a Ivan uma pergunta:
– Por que está aqui?
– Não sei, eu...
– Qualé a sua?
– É que eu...
– Você só pensa em si mesmo: é tudo eu, eu, eu?
– Mas eu...
Aí o gato bateu com uma colher no prato e numa explosão de trevas surgiu o anjo portador da luz, o qual determinou, apontando seu dedo inflamado para Ivan:
– Ficarás aqui até segunda ordem.
– Então tá, disse Ivan, encolhendo os ombros.
E foi assim que tudo aconteceu.
Nisso ele pressentiu algo e no que olhou pro lado viu se materializar uma ruiva estupefaciente (um olho verde, o outro furta-cor), de pele muito pálida e com um vestido preto que cobria apenas as partes mais insinuantes.
Ela disse vemcá com o indicador da mão esquerda, e no que Ivan fez menção de ir lá, uma luz cegante o abduziu até o interior duma cozinha hiperdimensional.
Enquanto um gato preto gigante com chapéu de mestre-cuca preparava iguarias inigualáveis, uma cadela trifauce identificou-se como a psicanalista, e cada uma das suas caras carrancudas fez a Ivan uma pergunta:
– Por que está aqui?
– Não sei, eu...
– Qualé a sua?
– É que eu...
– Você só pensa em si mesmo: é tudo eu, eu, eu?
– Mas eu...
Aí o gato bateu com uma colher no prato e numa explosão de trevas surgiu o anjo portador da luz, o qual determinou, apontando seu dedo inflamado para Ivan:
– Ficarás aqui até segunda ordem.
– Então tá, disse Ivan, encolhendo os ombros.
E foi assim que tudo aconteceu.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Porque o amor não admite reflexões prudentes
Tá: então nem você nem eu entendemos direito por que eu postei sobre um flerte com a morte, ou por que eu transformei minha fuça hirsuta numa face glabra.
Mas uma das explicações possíveis pro flerte com a morte foi a efeméride desse último dia 6: completaram-se 90 anos da morte do poeta nicaraguense Rubén Darío: na minha sacrossanta ignorância, eu já tinha ouvido falar nesse chapa, mas nesta última segunda entrei de novo na biblioteca e, além ter virado Borges e Cortázar (por alguns instantes), metamorfoseei-me em Rubén Darío, aprendendo que meu primeiro nome era Félix (se me lembro direito) e que nasci no dia 18 de janeiro de 1867 e morri em 6 de fevereiro de 1916.
Toda essa prosa pernóstica não diz nada do que eu quero mesmo dizer, que está aqui nestes versinhos de Rubén Darío, por mim traduzidos e dedicados para aquela que não me sai do pensamento
PORQUE O AMOR NÃO ADMITE REFLEXÕES PRUDENTES
Senhora: o Amor é violento,
e quando nos transfigura
nos inflama o pensamento
a loucura.
Não peças paz a meus braços
que aos teus braços estão presos:
são de fúria os meus abraços
e são de incêndio meus beijos;
e seria vão o intento
de qualquer razão obscura
se me inflama o pensamento
a loucura.
Minha mente é iluminada
com chamas de amor, Senhora,
qual tenda da madrugada
e qual palácio da aurora.
E ao olor do teu ungüento
vai atrás minha ventura,
e me inflama o pensamento
a loucura.
Meu gozo teu paladar
como um favo conceitua,
como no santo Cantar
mel et lac sub lingua tua.
A delícia: teu alento
em tão fino vaso apura,
e me inflama o pensamento
a loucura.
Mas uma das explicações possíveis pro flerte com a morte foi a efeméride desse último dia 6: completaram-se 90 anos da morte do poeta nicaraguense Rubén Darío: na minha sacrossanta ignorância, eu já tinha ouvido falar nesse chapa, mas nesta última segunda entrei de novo na biblioteca e, além ter virado Borges e Cortázar (por alguns instantes), metamorfoseei-me em Rubén Darío, aprendendo que meu primeiro nome era Félix (se me lembro direito) e que nasci no dia 18 de janeiro de 1867 e morri em 6 de fevereiro de 1916.
Toda essa prosa pernóstica não diz nada do que eu quero mesmo dizer, que está aqui nestes versinhos de Rubén Darío, por mim traduzidos e dedicados para aquela que não me sai do pensamento
PORQUE O AMOR NÃO ADMITE REFLEXÕES PRUDENTES
Senhora: o Amor é violento,
e quando nos transfigura
nos inflama o pensamento
a loucura.
Não peças paz a meus braços
que aos teus braços estão presos:
são de fúria os meus abraços
e são de incêndio meus beijos;
e seria vão o intento
de qualquer razão obscura
se me inflama o pensamento
a loucura.
Minha mente é iluminada
com chamas de amor, Senhora,
qual tenda da madrugada
e qual palácio da aurora.
E ao olor do teu ungüento
vai atrás minha ventura,
e me inflama o pensamento
a loucura.
Meu gozo teu paladar
como um favo conceitua,
como no santo Cantar
mel et lac sub lingua tua.
A delícia: teu alento
em tão fino vaso apura,
e me inflama o pensamento
a loucura.
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Flerte com a morte
não consegui olhar direto
dentro dos olhos dela:
ali,
a milímetros da morte certa,
relaxei,
tentei não pensar em nada
ou coisa que o valha:
sim, o fim sorriu pra mim
e eu não vi
nem o fio da navalha...
(isso é supostamente um poema celebrando o fato de que eu raspei barba, bigode e cabelo...)
dentro dos olhos dela:
ali,
a milímetros da morte certa,
relaxei,
tentei não pensar em nada
ou coisa que o valha:
sim, o fim sorriu pra mim
e eu não vi
nem o fio da navalha...
(isso é supostamente um poema celebrando o fato de que eu raspei barba, bigode e cabelo...)
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Entrei na biblioteca, abri um livro e quando vi
tinha me transformado em Jorge Luis Borges:
O AMEAÇADO
É o amor. Terei que me esconder ou fugir.
Crescem os muros de sua prisão, como num pesadelo. A bela máscara mudou, mas, como sempre, é única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, a aprendizagem de palavras em línguas exóticas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar dos meus mortos, a noite atemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta com a voz da ave, já se obscureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver uma hora depois da outra.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Os exércitos já me cercam, as hordas.
(Esta casa é irreal; ela ainda não a viu.)
O nome de uma mulher me dedura.
Me dói uma mulher no corpo todo.
(ligeiramente adaptado de El Amenazado, El oro de los tigres)
O AMEAÇADO
É o amor. Terei que me esconder ou fugir.
Crescem os muros de sua prisão, como num pesadelo. A bela máscara mudou, mas, como sempre, é única. De que me servirão meus talismãs: o exercício das letras, a vaga erudição, a aprendizagem de palavras em línguas exóticas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hábitos, o jovem amor de minha mãe, a sombra militar dos meus mortos, a noite atemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta com a voz da ave, já se obscureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir tua voz, a espera e a memória, o horror de viver uma hora depois da outra.
É o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Os exércitos já me cercam, as hordas.
(Esta casa é irreal; ela ainda não a viu.)
O nome de uma mulher me dedura.
Me dói uma mulher no corpo todo.
(ligeiramente adaptado de El Amenazado, El oro de los tigres)
domingo, janeiro 29, 2006
Outro soneto de Emiliano Perneta
SÚCUBO
Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas...
Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas...
E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!
Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!
quinta-feira, janeiro 26, 2006
E em vez de respostas, outro surto de lirismo...
| vem a noite, surge a lua: meu humor muda veloz - vento quente, brisa em brasa: um verão sonhando em nós - virações de carnes cruas no calor da febre atroz - vibram sons nas musas nuas por meu violão feroz - novamente as mesmas tramas: tema em fás, mis, rés e dós - vingo um não: minha alma sua - digo o sim: minha alma é sua - e sigo ouvindo sua voz |
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