quarta-feira, agosto 27, 2008

Urgência

urgência de sentir
o que uma pessoa
propriamente
sente

urgência de agir
sem se jogar à toa
e ser um pouco mais
inteligente

consequentemente
ser pelo menos
um protótipo de gente

uma idéia ancestral de gente:

Ur-gente

sexta-feira, agosto 01, 2008

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio...

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
sabe que a linguagem presta pra isso mesmo:
fingir de morto assim feito um cachorro,
ensaiar sinceridade que no fim é só disfarce,
querer falar de tudo e mal extrair
de si um versinho simples.

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
queria versos bons mas se saiu com estes
(podia ter desempenhado melhor, talvez uma quadrinha,
algo do tipo:
"Aqui dentro do meu intrincado crânio
tem um poeta morto que soluça
e age como se beneficiasse urânio
amortizando alguma crise russa.")

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
tenta manter seu blog atualizado
(mas só posterga, esquece, nem dá bola),
não tem passado muito bem disposto,
e solta um uivo quase fraco e mal composto
só porque hoje começou o mês de agosto.

quarta-feira, julho 16, 2008

Amor Plathônico

Aí vai a tradução dum soneto de juvenília da idololizada Sylvia Plath, em homenagem às mulheres - parece que ela conhecia o próprio gênero...

Sonnet : To Eva
Soneto : Para Eva

All right, let's say you could take a skull and break it
The way you'd crack a clock; you'd crush the bone
Between steel palms of inclination, take it,
Observing the wreck of metal and rare stone.
Tá: digamos que desse pra quebrar um crânio
Como se racha um relógio; triturando o osso
Entre palmas de aço inclinadas, pegando-o,
Veríamos metais e jóias em destroço.
This was a woman : her loves and stratagems
Betrayed in mute geometry of broken
Cogs and disks, inane mechanic whims,
And idle coils of jargon yet unspoken.
Isso era uma mulher: paixões e estratagemas
Traídos em muda geometria de discos
E engrenagens, fúteis mecânicas venetas,
Molas de palavrórios ainda não ditos.
Not man nor demigod could put together
The scraps of rusted reverie, the wheels
Of notched tin platitudes concerning weather,
Perfume, politics, and fixed ideals.
Nem homem nem um semideus remontariam
As sobras de sonho oxidado, os maquinismos
De platitudes entalhadas sobre clima,
Perfume, política, sobre ideais fixos.
__The idiot bird leaps up and drunken leans
__To chirp the hour in lunatic thirteens.
__O pássaro idiota pula e bêbado ergue-se
__Pra trinar o horário em lunáticos trezes.

Sylvia Plath
Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 10, 2008

Um erudito?

Bem, aproveitando o gancho do comentário do meu mui prezado amigo William sobre eu ser "sempre preciso na erudição", vou escrever uns dois dedos de prosa aqui (fazia um tempinho que eu não fazia isso) - só pra partilhar dois dos milhares de momentos em que meu mundo caiu:

um foi quando descobri que "em meados do século X" significava "na metade do século X" - não me perguntem por que, mas eu costumava entender que "meados" significava "no início"...

E quando aprendi que o nome do Fellini era "Federico", e não "Frederico"?
Foi um baque abissal. Tive que descobrir também que o Garcia Lorca é outro "Federico", o que é realmente estarrecedor...

São lições de humildade, que também fazem a gente pensar: além da letra "r" nesses nomes, o que mais a gente sempre acreditou que existia e no fim era apenas ilusão?

sexta-feira, julho 04, 2008

Parco poema pinçado praticamente pronto d´O Tempo Redescoberto, de Proust

__o tempo
torna espaçados
__os encontros
e vagas
__as relações

as reminiscências
__raras
fazem imprecisas
__as noções

__há romances
que nos brindam
__com uns versos
que pensamos
__quase bons

pois assim lidas
__em voz alta
às vezes
__as palavras
se descolam
__dos seus sons

terça-feira, junho 24, 2008

Três trastes sinistros

Na falta de palavras, uma imagem de um humorista, um poeta e um jovem inútil, todos extremamente sinistros, ali pelos idos do milênio passado...

segunda-feira, junho 16, 2008

Impromptu pra mais um Bloomsday

Pra achar essas rimas fui ao fun-
do da sintaxe que, Tróia, destrói-se:
mais um dia de Stephen, Molly e Bloom,
palestrando sobre o Ulysses, de Joyce...

sexta-feira, junho 13, 2008

Improviso súbito pra hoje

Qual bom pagão que mal se preze
Me vejo numa dessas vezes:
Me faltam deuses a quem reze
Pra atravessar as sextas 13...

sexta-feira, junho 06, 2008

Vilancete em velho estilo

Vim rimar feito quem não tem escolha –
Porém tentando expressar algo vivo,
Mesmo naquele velho estilo bolha.

Palavras já se espalham pela folha –
Fugi do computador pra este arquivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Não tenho mais em mim quem me recolha
Do rosto que no espelho espia esquivo
Também naquele velho estilo bolha.

O leitor que ainda sou sequer me olha –
Sem crítica o que escrevo sai sem crivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Quem dera, como ao saque duma rolha,
Eu libertasse um vinho criativo
Sem me valer dessa forma zarolha,

E jorrasse de versos todo um livro,
Nutrindo os corações. Mas já não sirvo:
Vim rimar feito quem não tem escolha,
Sempre naquele velho estilo bolha.

terça-feira, junho 03, 2008

Contornando

Acho ótimo quando blogueiros e blogueiras camaradas vêm aqui responder comentários meus por aí: a coisa fica bem confusa, combina com meu atual estado de quebradeira.

No entanto, não gostei que a Nara apagou a postagem do seu pô Ema flaubertiano -

também não entendi o porquê da menção do Giuliano ao Piva, sendo que eu fiquei desolado só pelo emoticon de cara triste (que interpretei como insatisfação quanto à postagem anterior).

Outrossim, eu acho interessante o trabalho do Fausto Fawcett (bem como as loiras que costumam estar ao redor...) -

Fui ver a peça do França no Hotel Del Rey: gostei do desempenho das duas atrizes, que não são mãe e filha por acaso. O texto também é bem engraçado.

Estou com dois poemas quase prontos no subconsciente, mas ainda não escrevi nada, porque não quero forçar a mão (mas deve ser preguiça mesmo, enfim).

Ah, e antes que me esqueça de novo, estou devendo muitas saudações e muitos obrigados ao Renato Quege, que anda replicando alguns versinhos e traduções de minha modesta fatura, além de ter incorporado ao repertório de sua atual banda uma composição que fizemos ali pelos idos de 1912... Fucem por aqui .

E pra Nara eu vou colar uma explicação, aproveitando pra puxar sua orelha: a expressão é "pior a emenda que o soneto":

"A expressão "pior a emenda que o soneto" surgiu por causa do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Ele era tão respeitado que, um belo dia, uma pessoa interessada em ser escritor procurou-o com um soneto. Pediu ao poeta que o lesse com carinho e anotasse os erros. Bocage concordou. No dia seguinte, encontraram-se para conversar. Para surpresa do poeta aprendiz, Bocage não havia anotado nada. Tinha achado o texto tão ruim que nem valia a pena corrigir, porque a emenda seria pior do que o soneto. Se o conselho fez com que o escritor desistisse da carreira, a história não registra. Mas a frase se tornou uma espécie de ditado popular. Se alguma coisa que fazemos não sai exatamente como deveria, nem sempre dar um jeitinho resolve. A emenda pode sair pior do que o soneto."

quinta-feira, maio 29, 2008

Incontornável

Passando mais uma semana sem postagem (está difícil colar os caquinhos), sou forçado a me valer dum poema do Leminski, que fazia tempo que eu não mencionava. Eu di uma busca (sim, eu "di uma busca", porque "quilo", tolerem...), eu di uma busca e não achei esse poema zanzando pela rede...

Leiam e repitam 37 vezes, como um mantra...


vento
que é vento
fica

parede
parede
passa

meu ritmo
bate no vento
e se
___des
_____pe
_______da
________ça


p.leminski

quarta-feira, maio 21, 2008

Os pedaços de verso que ainda me caem da cabeça

Tal qual todo horror e medo ela não demonstrasse -
Feito se o prazer e a dor ela descompusesse -
Tipo assim um rito e mito que ela só vestisse -
Como por um bem do qual só ela fosse a posse -

Essa face fez-se doce e disse: "fique susse..."

***

Tal qual um tolo que não mais se controlasse -
Feito em versinhos que ninguém mais entendesse -
Tipo assim mesmo sem poder que redimisse -
Como no tom errado que o surto lhe trouxe -

Você não tinha aqui no fim a rima em "-usse".

terça-feira, maio 13, 2008

Para aquela a quem nunca escrevi

Àquela que rolou sobre meu parco limite de poeta,
Que nunca revelou qualquer vontade sua, secreta,
De ser musa daquele que mal sobrou por aqui –

A quem meus pedaços são obras completas,
A ela, que ainda vê gume nessas cegas setas,
Vai o lapso do melhor verso que jamais escrevi.

sexta-feira, maio 02, 2008

De volta a uma obsessão

Semana retrasada foi lançada a revista Cadernos de Literatura em Tradução 8, contendo entre outros textos uma tradução que fiz do conto All the Dead Dears, da Sylvia Plath. No período em que mexia nesse conto, descobri que ela também escreveu, em 1956, um poema com o mesmo título.

Numa noite dessas perpetrei a tradução do poema, que segue aqui abaixo, dedicada à Marina Della Valle. Eu sei que não adianta advertir, mas é um texto muito sinistro: se você é uma pessoa impressionável, evite ler...


All the Dead Dears
Todos os Mortos Queridos

In the Archæological Museum in Cambridge is a stone coffin of the fourth century A.D. containing the skeletons of a woman, a mouse and a shrew. The ankle-bone of the woman has been slightly gnawed.
No Museu Arqueológico em Cambridge há um caixão de pedra do século IV dC, contendo os esqueletos de uma mulher, um camundongo e um mussaranho. O osso do tornozelo da mulher foi levemente roído.

Rigged poker-stiff on her back
With a granite grin
This antique museum-cased lady
Lies, companioned by the gimcrack
Relics of a mouse and a shrew
That battened for a day on her ankle-bone.
Ornamentado atiçador nas suas costas
Com um esgar granítico
Esta arcaica dama museu-encaixotada
Jaz, em companhia dos restos
Sem valor de um rato e um mussaranho
Que por um dia se refestelaram com sua tíbia.
These three, unmasked now, bear
Dry witness
To the gross eating game
We'd wink at if we didn't hear
Stars grinding, crumb by crumb,
Our own grist down to its bony face.
Estes três, já desmascarados, prestam
Seco testemunho
Do grosseiro jogo de comer
Que nem veríamos se não ouvíssemos
Estrelas triturando, migalha por migalha,
Nosso próprio grão até sua face óssea.
How they grip us through thin and thick,
These barnacle dead!
This lady here's no kin
Of mine, yet kin she is: she'll suck
Blood and whistle my marrow clean
To prove it. As I think now of her hand,
Com que esforço eles se agarram a nós,
Estes mortos encalacrados!
Esta dama aqui não é parenta
Minha, mas parenta ela é: vai sugar
Sangue e limpar minha medula até os fiapos
Pra prová-lo. Quando penso agora na mão dela,
From the mercury-backed glass
Mother, grandmother, greatgrandmother
Reach hag hands to haul me in,
And an image looms under the fishpond surface
Where the daft father went down
With orange duck-feet winnowing his hair ---
Da ampulheta banhada de mercúrio
Mãe, avó, tataravó
Estendem mãos megeras pra me arrastar,
E uma imagem surge sob a superfície do lago
Onde o pai apatetado afundou
Com pés-de-pato laranjas joeirando seu cabelo –
All the long gone darlings: They
Get back, though, soon,
Soon: be it by wakes, weddings,
Childbirths or a family barbecue:
Any touch, taste, tang's
Fit for those outlaws to ride home on,
Todas as queridas há muito idas: Elas
Voltam, entretanto, logo,
Logo: seja por velórios, casamentos,
Partos ou um churrasco de família:
Qualquer toque, gosto, olfato
Servem ao retorno destas proscritas ao lar,
And to sanctuary: usurping the armchair
Between tick
And tack of the clock, until we go,
Each skulled-and-crossboned Gulliver
Riddled with ghosts, to lie
Deadlocked with them, taking roots as cradles rock.
E ao santuário: usurpando a poltrona
Entre o tique
E o taque do relógio, até partirmos,
Cada Gulliver de crânio e ossos cruzados
Crivado de fantasmas, jazer com elas
Amortecidos, nos enraizando enquanto berços rangem.

Sylvia Plath
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

quarta-feira, abril 23, 2008

A quem interessar possa a numerologia...

Hoje é aniversário de William Shakespeare.

Aniversário de nascimento e morte.

Curioso, não?

Mais curioso ainda é a idade que ele completa, a qual (pelo menos pra mim) exerce um fascínio meio idiota, uma estupidez que talvez entenda quem já ficou de madrugada assistindo ao relógio digital transmitido pelas emissoras de TV junto com as faixas coloridas...

O momento em que os dígitos ficam todos iguais vira um acontecimento a ser comemorado, no mínimo com um esgar de sorriso e um pouco de baba escorrendo no canto da boca...

Pra não largar mão da minha tradição de poetastro, cometi a seguinte quadra de celebração:


Falar da idade do bardo é meio abstrato,
Mas por acaso alguém viu, neste mundo ingrato,
Que o velho Will, cuja obra eu também idolatro,
Faz hoje quatrocentos e quarenta e quatro?


De brinde extra, publico a seguir o que talvez sejam os únicos versos de Shakespeare ainda não traduzidos trocentas milhões de vezes em português – curiosamente, são os versos do seu epitáfio – será que foi ele mesmo o autor? – em qualquer caso, diz a lenda que estão inscritos na sua lápide – e deviam ter servido pra eu não me meter a besta de mexer com a figurinha mais carimbada da literatura universal...


Good friend, for Jesus´ sake forbear
To dig the dust enclosed here;
Blessed be the man that spares these stones
And cursed be he that moves my bones!

Bom amigo, pelo amor de Jesus não tente
Escavar a poeira que aqui jaz presente;
Bendito aquele que poupar estes destroços,
E maldito seja quem mexer nos meus ossos!

domingo, abril 20, 2008

Mais uma colagem...

Você traiu seus próprios sentimentos,
Brincou de vida feito nem ligasse,
Se fez de bobo e disse em versos lentos

Não conhecer nem mais a própria face.
Você prossegue com seu ego enorme
Como se a indulgência comprovasse

Que mesmo quando a consciência dorme
Uma terzina usada ainda a redime.
Você acredita que nesse uniforme

Sua poesia esconde qualquer crime,
Podendo mesmo se fazer verdade
E revelar a imagem mais sublime.

Porém a própria artificialidade
Que com desplante você leva adiante,
Não importando o quanto e a quem agrade,

Só se revela mesmo redundante.
Você devia era criar vergonha,
Em vez de se arvorar aos pés de Dante,

Substituindo essa ilusão bisonha
Por humildade em doses cavalares.
E se de fato você ainda sonha

Em superar contudos e apesares,
Vai ter que detonar seu egoísmo,
Purgando esses infernos pelos ares,

Vai ter que reencontrar o seu lirismo,
Ter mais pureza, não fazer mais cenas,
Atravessar abismo após abismo,

E, pelo jeito, as chances são pequenas.

segunda-feira, abril 14, 2008

Menipeando a sonetagem...

Soneto é um tipo de vírus que a gente contrai e não é fácil largar mão - quando você se flagra, já começou a calcular as rimas e a escandir o verso em decassílabos.
Nos idos do milênio passado, quando comecei a descobrir a poesia, abominava a técnica parnasiana, e, apesar de nunca ter deixado de idolatrar as sonetagens simbolistas, se me dissessem que dali a uns vinte anos eu estaria perpetrando algo remotamente semelhante a um soneto, seria pior que a última das ilusões perdidas.
Este intróito em prosa não redime nada, mas serve pra me autojustificar, porque vou postar aqui mais um soneto, e ver se na seqüência me livro da infecção - quem sabe um poema visual seja o antídoto, mas ficou difícil desencalacrar um esqueleto tão pronto, que só precisa do recheio carnoso das palavras pra ficar um monstrinho tão cheio de graça...
Senão vejamos...

1, 2, 3, 4, ... , 31

Parte de mim sente um ódio brutal
Sempre que lê as coisas que escrevi:
– Como você pôde, pobre animal,
Matar o lirismo que estava ali? –
Outro pedaço não chega ao extremo,
Perdoa refrão aqui, versinho lá:
– Com essa rima opulenta até tremo,
Mas o teor abstruso, pô: não dá! –
As partes promíscuas que agora admitem
Mais um soneto feito item por item
Nutrem a crença com força de fé –
Que um dia eu redima tantos maus modos
E ao bater trinta-e-um-meu-salva-todos
Mostre a pureza do amor como ela é.

terça-feira, abril 08, 2008

FEITO ESQUECENDO...

Feito esquecendo as pulsões mais brutais
Encantasse fácil as almas puras
E administrando delícias nos sais
Das palavras travadas de amarguras
Pudesse mesmo arrelvar com carícias
As passadas pesadas de rotinas
Sem que o medo patético partisse as
Rimas com saturações assassinas,
Eu levaria os versinhos na veia
Feito o flautista aos ratos da aldeia
E aos obrigados diria: de nada!
Mas tem sempre um porém em toda via
E a minha inspiração ficou vazia
Lamentando a saliva derramada.

sexta-feira, abril 04, 2008

PÓS-DESCONSTRUÇÃO ARCAICA

Sentindo um cheiro pestilento, lento,
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.