domingo, fevereiro 28, 2010

BOB DYLAN, VOLTANDO AQUI EM GRANDE ESTYLAN...

(ou melhor: EM GRANDE ESTILO, desculpem pelo trocadallen robertado de zimmerman...)

Esta postagem é dedicada a Luiz Felipe Leprevost, que sugeriu e depois cobrou:

– Lepre, taí o que você queria... Que tal?


A ALA DOS DESCONSOLADOS
(DESOLATION ROW)
_________________Bob Dylan


Vendem-se postais do enforcamento
Pintam-se os passaportes de marrom
O salão de beleza lotou de marinheiros
E esses dias o circo chegou

Lá vem o comissário cego
Mantido em transe permanente
Uma mão atada ao cara da corda bamba
A outra nas suas calças de sempre

E a tropa de choque está inquieta
Precisam ser movimentados
Enquanto Lady e eu observamos
Da Ala dos Desconsolados

Cinderela parece tão acessível
“Os iguais se reconhecem”, sorri ela
E põe as mãos nos bolsos de trás
Feito uma Bette Davis Cinderela
Entra Romeo, gemendo queixas
“Acho que eu sou teu proprietário”
E alguém diz, “Lugar errado, amigo,
Saia sem pagar de otário”

E o único som que sobra
Após sirenes e ossos quebrados
É Cinderela fazendo a faxina
Na Ala dos Desconsolados

Agora a lua está quase oculta
Estrelas se velam em segredo
Mesmo a dama que lê a sorte
Levou suas coisas pra dentro
Todos menos Caim e Abel
E o corcunda de Notre Dame
Todos estão fazendo amor
Ou esperando a tempestade

E o Bom Samaritano veste-se
Tomando todos os cuidados
Ele vai sair no desfile desta noite
Na Ala dos Desconsolados

Ofélia está embaixo da janela
Confesso que temo muito por ela
Após completar vinte e dois anos
Já é uma solteirona velha
Pra ela, a morte é bem romântica
E ela veste um colete blindado
Sua profissão é a sua religião
Sua inação é o seu pecado

E embora ao arco-íris de Noé
Os olhos dela estejam fixados
Ela gasta seu tempo espreitando
A Ala dos Desconsolados

Einstein, disfarçado de Robin Hood
Leva as memórias num baú
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge cru
Parecia tão imaculadamente assustador
Enquanto filava um cigarro
E aí saiu farejando canos de esgoto
E recitando um ABC bizarro

Você nem se incomodaria em vê-lo
Mas ele já foi famoso por esses lados
Tocava um violino elétrico
Na Ala dos Desconsolados

O Dr. Sujeira mantém seu mundo
Dentro dum caneco de couro
E todos os seus pacientes sem sexo
Querem estourar aquele couro

A enfermeira, uma triste qualquer
Administra o cianureto aos traumas
Ela também guarda os cartões que dizem
“Tende piedade desta alma”

Eles todos brincam com apitinhos
Pode-se ouvi-los a soprá-los
Se esticar a cabeça pra fora o suficiente
Da Ala dos Desconsolados

Do outro lado da rua, pregam cortinas
E se preparam prum bacanal
Pois então é o Fantasma da Ópera
A perfeita imagem sacerdotal

Alimentam Casanova às colheradas
Pra ele se sentir mais à vontade
E aí o matarão de autoconfiança
Depois de o envenenarem com frases

E o Fantasma grita às magricelas
“Sumam daqui os que ficaram abalados
Pois Casanova foi punido por ter ido
À Ala dos Desconsolados”

À meia-noite todos os agentes
E a equipe de super-homens
Saem à cata de todas as pessoas
Que sabem mais que os supers podem

Então levam-nas até a fábrica
Onde a máquina de enfarte
É afivelada aos ombros delas
E logo depois eles trazem

O querosene dos castelos
E dos Seguros os homens magros
Vêm conferir que ninguém escapa
Da Ala dos Desconsolados

Seja louvado o Netuno de Nero
O Titanic navega à aurora
E agora todo mundo grita
“De qual lado você mora?”

E Ezra Pound e T. S. Eliot
Lutam na torre de controle
Enquanto calipsocantores riem deles
E pescadores trazem flores

Ali entre as janelas do oceano
Onde sereias têm seus prados
E ninguém precisa pensar muito
Na Ala dos Desconsolados

Sim, recebi sua carta ontem
(Foi quando quebrou a maçaneta)
Me perguntar se estou indo bem
Foi algum tipo de brincadeira?

Todos esses que você menciona
Sim, eu conheço, são uns toscos
Tive que lhes dar nomes diferentes
E rearranjar todos os seus rostos

Agora eu já não leio mais tão bem
Não mande mais estes seus recados
A não ser que sejam remetidos
Da Ala dos Desconsolados



Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

sábado, fevereiro 27, 2010

MAIS UMA POESIA FICÇÃO CIENTÍFICA PROFÉTICA REALIDADE ABSOLUTA

(só que dessa vez é distopia, porque o frio me secou a euforia)

O MUSEU DO MAUSOLÉU

esse é o desenho foto filme
animação jogo virtual
do nosso tempo

estamos no museu do mausoléu

não tema:
a morte não existe mais
e acabou-se o fim de tudo

tudo está e será sempre
novamente registrado

como nunca

essa é a nova lei
ou melhor
o velho postulado:

já não existe mais morte possível
todo cadáver será exumado
tudo que importa e não importa
será razão de sobra e ao lado
pra consagrar a alguma academia
e superar todo mal entendido

tudo merece a atenção
de quem quer que seja
e nada mais se perderá
pois alguém sempre quer rever de novo
basicamente todo mundo

qualquer coisa pode ser importante
contanto que seja qualquer coisa

o corpo é descartável
e a alma sumiu
mas ninguém mais acha
ninguém mais acha necessária

a morte já morreu
a indesejada foi assassinada
pela permanência eterna de tudo
mas principalmente de nada

o epílogo de tudo nada disso
não é inferno purgatório ou paraíso
e nem sequer é um mero céu

já não seria mais que um não epílogo
reencenando este nem não diálogo
de mim comigo e com um de mim eu
fazendo a dança de nenhum véu

aqui
no museu
do mausoléu

terça-feira, fevereiro 23, 2010

INSPIRANDO-ME... (O TÍTULO NÃO COUBE AQUI, ENTÃO ESTE É O PRÉ-TÍTULO) ...

INSPIRANDO-ME NUM HIPOTÉTICO FUTURO TURISMO LÍTERO-POÉTICO, QUANDO PEREGRINOS DE TODAS AS PLAGAS DA GALÁXIA VIRIAM (VIRÃO?) A CURITIBA PARA CONHECER A TERRA EM QUE PONTIFICARAM MARCOS PRADO, DALTON TREVISAN, PAULO LEMINSKI, DARIO VELLOZO, EMILIANO PERNETA ET CATERVA (SEM ESQUECER AS DAMAS, HELENA KOLODY À FRENTE DAS MOCINHAS DA CIDADE...), E TAMBÉM DIANTE DAS ABSOLUTAS REVELAÇÕES EPIFÂNICAS QUE TIVE EM NOSSO CARNAVALZINHO MULTITUDINÁRIO DOS GARIBALDIS & SACIS (AOS DOMINGOS DE JANEIRO E FEVEREIRO NO LARGO DA ORDEM) E NA GALANTÍSSIMA FESTA POPULAR (A QUADRA CULTURAL) NA RUA PAULA GOMES, NO DIA 20/02/2010, QUANDO, PARA CELEBRAR A MEMÓRIA DE PENA BRANCA, O MUI BATUTA "MAGRÃO" ARLINDO VENTURA ORQUESTROU INSOFISMÁVEIS E ESMERADOS ARTISTAS – ESPINHO DA ROSEIRA, FABIO ELIAS, GENTE BOA DA MELHOR QUALIDADE, LAMARÃO & A BANDA DE UM DIA, ÍRIA BRAGA & MULUNGU, PAULINHO CATARINENSE & VIOLEIROS DA CANJA DE VIOLA, O POETA PAULO BEARZOTI FILHO, O ATOR E CINEASTA JOTA ÊME (OU MELHOR, ROBERTO CARLOS), OS VIOLONISTAS ARNALDO FREITAS & RAFAEL SCHIMIDT, VIOLA QUEBRADA, IRMÃS GALVÃO – AOS QUAIS HOMENAGEIO TODOS NA PESSOA DE MEU XARÁ IVAN GRACIANO, PROGÊNIE DE BELARMINO & GABRIELA –, ENFIM, INSPIRANDO-ME EM TODOS ESSES E TUDO ISSO, EU, IVAN JUSTEN SANTANA, CURITIBANO, ESCREVO OS SEGUINTES VERSOS DE CONVITE UNIVERSAL A ESTA CIDADE DE CURITIBA (versos mimicrizados em estilo e modos do poeta SÉRGIO VIRALOBOS)

Vocês querem Prado?
Velho Dalton? Lema? Dario não?
De artistas que tais assim há necessidade?

Não dou nem um dado:
Passo logo uma procuração:
Distribuo o molho de chaves da cidade:

Usem com cuidado,
Apreciem com moderação,
E saboreiem com responsabilidade...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

ARCO-ÍRIS NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

A foto ilustrativa desta postagem veio das lentes de Gilson Camargo, fotógrafo que mantém o belo blog Olhar Comum.

Gilson captou Thadeu puxando o Rancho das Flores, no desfile de domingo de carnaval, em Curitiba.

Já eu, captei a foto do Gilson e muito atrasado lhe dou o devido crédito...

Quando fazem um scaps assim com alguma tradução eu fico uma arara, então vou fazer atos de contrição nesta quaresma, pelo meu saque imperdoável ao Gilson...


Nosso grande amigo Antonio Thadeu Wojciechowski nos dedicou hoje um poema inefável - desvanecidos replicamos lá e repostamos aqui:


fênix para uma quarta-feira de cinzas

ao ivan e gianna

perguntam-me quem sou
coração? mente? sol? soul?
e sei, sou de tudo um pouco
poeta, santo, profeta, louco

artífice de mim, me conheço
me faço onde me aconteço
são os outros minha ternura
e não a minha envergadura

amigos fiz para toda a vida
ida na subida e na descida
e aconteça o que acontecer
todo dia será dia de colher

sim, abri mão das sementes
como os versos estão contentes!
e já que estamos aqui nessa lida
vamos brindar à nossa vida!

um tanto mais de luz e céu
e deciframos a língua de babel
hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!

Antonio Thadeu Wojciechowski


- QUERIDO AMIGO THADEU:

com versos em tão humana língua angelical
você nos fez muito mais que um carnaval -

eu rio dessas rimas que aqui engancho
ao perceber você aí puxando o rancho -

sua poesia vem de cima, e no entanto atinge
todos, ilumina e decifra toda e qualquer esfinge -

só nos resta fazer nossas as suas lindas
palavras descabeladoras de ranzinzas -

“hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!”

Ivan & Gianna

terça-feira, fevereiro 09, 2010

CARRASCO DE SI E DE MIM

Assim como depois do sol a tempestade
Encharca muito mais – feito ébrio que recai
E estraga o carnaval no abuso da vontade –
Assim degringolou o filho de meu pai.

Não sei quem fui que fez, só sei que sei de cor
A dor de me perder e ser quem mais não sou,
Pois meu saber foi mal, dos bons foi o pior
Se eu errei por querer e acertei no meu gol.

Seria necessário o sim virar um não
Ao beque tão mané que quebra o próprio pé,
Se achando algum herói – pagando de vilão:

Espectador basbaque, em fila atrás de si,
Repete lá e ali, repete a si e a ré
Como quem diz de novo: esse filme eu já vi.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

DE NATAL A JOÃO PESSOA – DE JOÃO PESSOA A NATAL

Chegamos a Natal em mês de festa
Pois Natal vive em festa o ano inteiro:
Suas paisagens são feito seresta
E mais não fosse de Janeiro o mês
Todo mês em Natal é mês festeiro,
Todo dia em Natal, dia de Reis.

A chegada a Natal, para quem chega
E se depara com a Ponta Negra,
A quem, parco poeta, flagra ali
O mar de Cotovelo e Pirangi,
E redescobre em si sua alma a nu,
Sentindo o quanto o coração se agita
Subindo as dunas de Genipabu,
Perlustrando as pedras de Santa Rita,

Enfim, a este verboso cantador,
Que no Nordeste purgou com suor
A dor de ser assim seja onde for,
Essa ideia-rima vem tão banal
Mas nunca surgiria diferente
Pois, do passado ao futuro, Natal
É realmente bem mais que um presente.

Neste estado do Rio Grande do Norte
Ficamos eu e minha nega Gianna
Em êxtase por esta enorme sorte
De vosso bardo Ivan Justen Santana,
Pois lá tivemos um tão grande aporte
Da parte do pai da dita Gianna:
Márcio Roland, anfitrião galante
E então feliz aniversariante.

Márcio e sua bela Waleska Maux
Nos receberam com comes e bebes –
Cervas, caranguejos, nada faltou
Para tornar nossas almas mais leves.
Já os corpos... Bem, foram repletos
Na hospitalidade dos muitos tetos:
Nos lares de Artúnio, pai de Waleska,
E Herildo, bom amigo desta mestra.

Merece uma menção especial
A praia em que ficamos por dois dias,
Após sair saudosos de Natal:
Foi lá que vi falésias, fantasias
De paisagens, de miragens, e as fadas
Flutuando pelas casas e pousadas –
Lá o azul era um azul mais azul:
Na Praia da Pipa, em Tibau do Sul.

Lá, sorvendo sururus e cervejas,
Confesso que sofri certas invejas
Pois à mesa chegou um cantador
Cujo nome, disse ele, era Saraiva.
Cantou tão bem este improvisador
Que, sorrindo, no fundo senti raiva,
Largada agora, ao provar meu valor
Nestes versos, em vã arte maior.

Agora vou falar de outra cidade
Onde curtimos muitos bons momentos
E quando eu tiver mais felicidade
Versarei ainda mais sobre tais tempos.
Mas chega de versar e rimar em decassílabos
Que já cansei de oitavações que tais –
As rimas podem ficar lá com os ílabos
Das sílabas dos vates ancestrais.

João Pessoa é uma cidade linda,
Não pela específica pessoa deste João,
Mas por todas e quaisqueres – as de lá – pessoas,
Afinal, para este alguém que sim também
Pois não e pois então sou um Ivan,
Sou um Jean, sou um Johann, e sou um John,
Sou Giovanni, Iokanan, e sou João.

João Pessoa é uma cidade linda
Assim também por sua maneira brejeira,
No som com que seu nome ressoa
E a faz ser ainda mais que capital da Paraíba
Pois lá, a este modesto cidadão de Curitiba,
A vida foi tão bela, tão bela e tão boa
Naquela dita cidadela de João Pessoa.

Lá curtimos de relance um show de Pitty –
E por mais que essa lembrança à Gianna irrite
Vou confessar: a mim esta cantora
Revela-se simples, requintada compositora.
Declaro então, emprestando dum seu refrão
Uma palavra que, fofa ou feia, não me incomoda:
A Pitty é realmente muito foda.

E assim eu verso respeitando a regra
Ou mesmo me largando dela sem arranco,
Compondo em forma que ao ouvido alegra
Seja em sonora rima, seja em verso branco.
E ainda que a consoante perca a prega
Ou que as palavras se repitam, o final é franco:
Salve a beleza potiguar na Ponta Negra –
Salve o sossego paraibano em Cabo Branco!

sexta-feira, janeiro 22, 2010

POSTANDO POR POSTAR (ou UM CABRA DA PESTE NO NORDESTE...)

(perdoem a falta de acentuacao...)

esta postagem e' so' pra avisar que, ao contra'rio de dois mu'sicos do Afterdeath,
estou nadando em praias nordestinas e nao morri afogado...

Aqui vai uma foto pra provar.
(eu ia comentar sobre muitos e momentosos assuntos, mas estou com muita pregui,ca...)

segunda-feira, dezembro 28, 2009

UM PRESENTE AO MEU AMIGO FILIPPO, QUE PEDIU E VAI LEVAR

Subterrâneo Banzo Blues

Johnny no subsolo
Manipula os ingredientes
Enquanto eu aqui no térreo
Penso em nossos governantes
O homem do capote
Sem emblema nem emprego
Diz que o troço só deu tosse
Exige troco ou arrego
Cuidado, guri
Você fez alguma aqui
Aprontou sabe Deus quando
E outra vez vem me enrolando
Melhor agachar no beco
Pra ver se acha um novo amigo
O homem do chapéu felpudo
Muita pinta e bem marrudo
Quer trocar nota graúda
Você só tem dez miúdas

Maga vem ligeira
Cara cheia de fuligem
Diz que um x-9 de aplique
Plantou miques no tabique
Mas já tem grampo na linha
Maga tá de conversinha
Que eles vinham em tal dia
Ordens da promotoria
Cuidado, guri
Não estamos nem aí
Ande na ponta dos pés
Sem rebite no café
Melhor evitar manés
Jatos d’água e boa fé
Mantenha o nariz limpo
Verifique o figurino
Não precisa olhar pra cima
Pra saber qual é o clima

Fique ruim, fique bom
Cole lá no poço ou
Toque um som, nesse tom
Pode ser que venda algum
Tente mais, tome um baile
Volte atrás, escreva em Braille
Seja preso, fuja triste
Se falhar então se aliste
Cuidado, guri
Ainda atiram em ti
Usuários, salafrários
Perdedores perdulários
Enchem cines e teatros
Garota em redemoinho
Já procura outro cretino
Não confie em sufrágios
Saiba os preços dos pedágios

Nasça, cresça, se aqueça e não esqueça
Calça curta, escaramuça
Num romance dance rumba
Troque a roupa, faça a crisma
Tente vencer nesta vida
Presenteie ambos os sexos
Com bilhetes em anexo
Não furte nas lojas
Vinte anos de escola
E você ganha essa esmola
Cuidado, guri
Dissimulam mas eu vi
Pule logo num esgoto
Acenda incensos de sândalo
Não use sandálias, evite os escândalos
Não queira ser um pixote
Antes sim mascar chiclete
A bomba não funciona
Foi depredada pelos bandos de vândalos

Bob Dylan

Subterranean Homesick Blues,
versão brasileira:
Ivan Justen Santana,

em oferenda a Filippo Mandarino

...

(outro link recomendável, a propósito)

segunda-feira, dezembro 14, 2009

COMO UM DYLAN DEPOIS DO OUTRO...

– Isso não é coisa que se Dylan,
mas eu adylanmito: sou um dylantante
e curto Cobain ficar me fazendo de Bob...
Afinal, Dylan-me com quem Thomas
e Roberte-ei quem és...

– Argh, Ivan! Não faça aZimmerman...

– Tá bom, então, já que like a rolling estou,
juro que este é o último dos trocadylans...



[E aqui vai mais um Dylan (di)vertido a vocês:]


AMOR MENOS ZERO / INFINITO
(LOVE MINUS ZERO/NO LIMIT)

O meu amor, ela fala silenciosamente,
sem ideais, pacificamente,
não precisa ser abertamente fiel.
Igual ao gelo, igual ao fogo ela fala–
tem pessoas que fazem um escarcéu:
rosas, promessas, bilhetes,
e o meu amor, ela ri em ramalhetes–
paqueradores não podem comprá-la.

Nos pontos de ônibus e nas lojas de conveniência
as pessoas se enchem mutuamente a paciência,
leem livros, repetem poetas,
tiram conclusões em excesso.
Alguns falam como se fossem profetas
e o meu amor, ela delicadamente anota:
–nenhum sucesso é mais que a derrota
e a derrota não é nenhum sucesso.

O romântico chora e se descabela,
a madame acende uma vela–
nas promoções da cavalaria
até os peões amargam desilusões.
Estátuas feitas com palitinhos
desabam umas sobre as outras.
Meu amor pisca e nem se incomoda,
ela sabe demais pra achar as razões.

A ponte à meia-noite balança,
o médico rural vagueia e se cansa,
a sobrinha do banqueiro busca o sublime,
esperando reis magos virem presenteá-la.
O vento uiva como um crime.
A noite é fria e o dia, chuvoso.
E meu amor, ela é como um corvo
de asa quebrada pousado na minha sala.


Bob Dylan
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

domingo, novembro 29, 2009

TÁ TUDO CERTO, MÃE (SÓ ESTOU SANGRANDO)

(It´s Alright, Ma, I´m Only Bleeding)

Ao raiar do meio-dia, a escuridão
Assombra até a lâmina feita à mão,
A colher de prata, o bebê e o balão,
Eclipsa a lua e o sol no chão,
Não adianta nem buscar razão:
Você sabe que não está entendendo.

Ameaças agudas lançadas ao ar,
Declarações suicidas a se rasgar,
Porta-voz de ouro-de-tolo a cornetar
Palavras gastas que só vêm provar:
Quem não está nascendo por lá
Está ocupado ali morrendo.

O pajem da tentação sai pela janela,
Você vai atrás e se acha em guerra,
A cascata piedosa rosna e berra,
Você quer berrar, mas não é mais aquela
Pessoa que achava que você era,
É só mais um gemendo.

Então se um ruído esquisito
Ressoar aí no seu ouvido
Tá tudo certo, mãe, é só meu lamento.


Alguns cantam glória e outros, derrota,
Grandes ou não, razões sempre próprias
São vistas nos olhos daqueles que forçam
E arrastam as pessoas pra serem mortas
Enquanto outros dizem: somente o ódio
Deve ser odiado.

Palavras cínicas disparam em uivos
De deuses humanos criando seus mundos
Com armas de brinquedo feitas pra adultos
E Cristos coloridos que brilham no escuro,
É fácil perceber, sem procurar muito:
Hoje nada mais é sagrado.

Pregadores pregam um destino infeliz,
Professores professam o saber da raiz,
O mapa da mina no quadro de giz,
A bondade se esconde na própria matriz
Mas até o presidente de um grande país
Às vezes precisa andar pelado.

E se a regra do jogo está fora de alcance
É só se desviar de quem faz o lance
E tá tudo certo, mãe, dou conta do recado.


Propagandas te levando a mal,
A pensar que só você é que é o tal
Que pode mais que qualquer mortal
E que merece o mais sensacional
Enquanto isso a vida vai normal
E você nem vê.

Você se perde e se encontra de novo,
Súbito quer ser um pouco mais corajoso,
Sozinho você vai pra longe do povo
Quando uma voz em tom cavernoso
Surpreende o seu ouvido em repouso
E diz achar mesmo que achou você.

Uma pergunta bate à sua porta
Mas você sabe que não tem resposta
Pra assegurar que algo ainda importa,
Pra que a verdade seja toda exposta:
Não há coisa ou pessoa, viva ou morta
A quem você deva pertencer.

E apesar dos senhores fazerem os planos
Aos homens sábios e aos insanos
Nada me obriga, mãe, a corresponder.


Aos que precisam bater continência
À lei que desprezam em sã consciência
E odeiam o que fazem, não têm paciência,
Invejam quem é livre na sua ausência,
Cultivam as flores dessa experiência
Somente como algo a investir.

Enquanto outros, batizados em princípios
A laços estreitos, ideias e partidos,
Clubes restritos disfarçam contidos,
Aqueles que escondem o senso crítico
Só falam em quais devem ser os ídolos
E depois “Deus abençoe aquele ali”.

Enquanto quem canta com a língua em chamas
Gargareja num coral de falsos dramas,
Torto pela sociedade e suas tramas
Não luta pra tirar os seus pés da lama
Mas sim pra arrastar à mesma lama
Todos que passem por ali.

Mas não quero mal nem aponto defeito
A qualquer sujeito que viva sujeito
E tá tudo certo, mãe, se eu fizer ele sorrir.


Velhas senhoras observam casais,
Limitadas no sexo, julgam-se as tais,
Desprezam baseadas em falsas morais
E a grana não fala, xinga e grita mais
Obscenidade em todos os canais,
Propaganda é isso aí, hipocrisia.

Enquanto defende-se o que nem se vê
Com orgulho assassino, e é assim que
As certezas estupidificam você,
E aos que não conseguem nem perceber
A verdade natural de que vão morrer
Deve ser bem solitária a vida.

Meus olhos colidem em cheio em cheios
Cemitérios, deuses vazios, não creio
Na mesquinhez que se impõe no meio,
Vou de ponta-cabeça, algemado, sem freio,
Catando cavaco e enfim, já cheio,
Digo O.K., você disse a que veio,
Tem outro lance na partida?

E se vissem o que minha mente imagina
Provavelmente me condenavam à guilhotina
Mas tá tudo certo, mãe, é a vida, é só a vida.


Bob Dylan

versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, novembro 07, 2009

CARMINA I, 4

SOLUITUR ACRIS HIEMS GRATA UICE UERIS ET FAUONI
__TRAHUNTQUE SICCAS MACHINAE CARINAS
AC NEQUE IAM STABULIS GAUDET PECUS AUT ARATOR IGNI
__NEC PRATA CANIS ALBICANT PRUINIS
IAM CYTHEREA CHOROS DUCIT UENUS IMMINENTE LUNA
__IUNCTAEQUE NYMPHIS GRATIAE DECENTES
ALTERNO TERRAM QUATIUNT PEDE DUM GRAUIS CYCLOPUM
__VOLCANUS ARDENS UISIT OFFICINAS
NUNC DECET AUT UIRIDI NITIDUM CAPUT IMPEDIRE MYRTO
__AUT FLORE TERRAE QUEM FERUNT SOLUTAE
NUNC ET IN UMBROSIS FAUNO DECET IMMOLARE LUCIS
__SEU POSCAT AGNA SIUE MALIT HAEDO
PALLIDA MORS AEQUO PULSAT PEDE PAUPERUM TABERNAS
__REGUMQUE TURRIS O BEATE SESTI
UITAE SUMMA BREUIS SPEM NOS UETAT INCHOARE LONGAM
__IAM TE PREMET NOX FABULAEQUE MANES
ET DOMUS EXILIS PLUTONIA QUO SIMUL MEARIS
__NEC REGNA UINI SORTIERE TALIS
NEC TENERUM LYCIDAN MIRABERE QUO CALET IUUENTUS
__NUNC OMNIS ET MOX UIRGINES TEPEBUNT

Dissolve-se o áspero inverno, voltando a estação agradável,
__e secas se arrastam as quilhas dos barcos;
já não se aconchegam no estábulo o gado e ao fogo o campônio,
__nem prados alvejam com brancas geadas.

Já Vênus Citérea os coros conduz, sob a Lua alta,
__e junto das Ninfas as Graças tão belas
batem os pés alternados na terra, enquanto aos Ciclopes
__o ardente Vulcano visita nas forjas.

Agora convém elegante envolver a cabeça com o verde mirto
__ou flores que brotam das terras aráveis;
agora também é mister nas sombrias florestas fazer sacrifícios
__ao Fauno, quer queira cordeiros ou mesmo cabritos.

A pálida Morte marcha igualmente em tavernas de pobres
__e em torres de reis. Ó Sesto feliz,
a vida tão breve proíbe erigir esperanças extensas;
__jjá oprimem-te a Noite, as almas das fábulas

e a fúnebre casa Plutônia, aonde tão logo chegares
__não sortearás com teus dados os goles de vinho
nem admirarás o suave Lícidas, por quem ora arde
__toda a juventude e em breve as virgens ferverão.


QUINTUS HORATIUS FLACCUS
Ivan Justen Santana

terça-feira, novembro 03, 2009

EDGAR WILLIAM ALLAN BLAKE POE

Edgar Allan Poe, investido de corvo,
Encontra William Blake em pele de tigre:
A este a pelugem empresta um ar de estorvo
E àquele a plumagem negra não denigre.

Assim figurei-os na imaginação
E um, só por ter visto o outro, se embeveceu
Pois ambos pensaram, cheios de razão:
“Meu poema-bicho é mais animal que o seu!”



sexta-feira, outubro 23, 2009

PARA QUE OS MEUS AMIGOS NÃO SEJAM INFELIZES (E O RENATO VOLTE A POSTAR)

No meio do caminho da poesia
as formas ondulantes voltam como
sempre. A vontade brilhante e sombria
é refazer quem, quando, por que, como.

Onde encontrar a velha vaca fria?
Qual será a língua da vaca sagrada?
As antas e os tatus de antologia
vazam do mato que a ninguém agrada.

E você, o que quer, meu caro Ivan?
Tanta firula e nada de chutar?
Empacou na quadra quadrada e vã
ou vai enfim chegar nalgum lugar?

Bom, o que eu queria, queria muito,
muito bastante mesmo (gaguejando)
era que, mais que um blábláblá fortuito,
meu verso tivesse poder de mando.

Primeiro, pra mandar os meus amigos
largarem mão de brigas por bobeira,
erguendo os olhos longe dos umbigos
(essa foi pro Renato e pro Ferreira).

Segundo, não sei. Era isso que estava
sujando a minha veia de poeta:
venenos agindo na vida brava
e eu só versando feito um mero esteta.

Quero influir na vida de verdade
e, mais que rimas ricas e solenes,
conseguir resgatar uma amizade,
reconciliando a banda dos Marlenes.

Se meus amigos têm que tomar algo,
eu resolvi tomar uma atitude:
o resto é com vocês. Agora eu salgo
essa sopinha e fim – fiz o que pude.

terça-feira, outubro 06, 2009

AO LONGO DA TORRE DE CONTROLE

– Tem que ter uma saída de emergência –
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.

– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.

Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam

E o vento inventava de uivar.


Versão brasileira feita por este que vos escreve - quem comentar respondendo de quem é o "texto original" e acertar, ganhará três links de presente...

quarta-feira, setembro 30, 2009

Poemento de circuritinstância

Hoje dois eventos que ocorrem esta noite me chamaram a textualizar.

Em São Paulo, inaugura-se uma ocupação-exposição da obra de Paulo Leminski, por iniciativa e esforços de Ademir Assunção - maiores detalhes aqui.

Aqui em Curitiba, o jornalista Luiz Claudio Oliveira lança livro sobre a revista Joaquim e seu conspícuo fundador, Dalton Trevisan - outras informações aqui.

Esses acontecimentos me lembraram (e não sei por que) de um poema de Emiliano Perneta, mais especificamente de um verso-risada dele. Fui procurá-lo nesta vasta e áspera rede de silício e não achei.

Ponto para os livros que dormem nas bibliotecas, e que desencavarei pra reproduzir o poema nesta postagem, se possível ainda hoje.

E há mais um acontecimento pra celebrar as nossas letras (se me permitem esta expressão arcaica, e se não permitem vão lá ver se tem um fusca gelo na esquina...) -

Alice Ruiz ganhou o Jabuti de poesia deste ano.

Assim, eu por mim já estou exausto de vergonha reprimida pra não me sentir no mínimo ufano e orgulhoso por ser um escrevinhador curitibano...


(acréscimo em primeiro de outubro:)

O lançamento do livro do Luiz Claudio foi ótimo, e não tenho nenhuma dúvida de que a inauguração da ocupação Leminski em SP também foi uma noitada excelente.

Então aqui vai o poema do Emiliano Perneta que lembrei ontem: acho que lembrei desse poema por conta da radicalidade de versos publicados aqui na "província" em 1911. São versos pra modernista nenhum achar antiquados, e antecipam até mesmo um soneto-retrô do Marcos Prado.

Apesar de encarnarem a voz da morte, leio ironicamente nesses versos uma prova de vida. A transcrição vai especialmente dedicada à Nara (que repostou esta singela postagem e tenho certeza de que vai curtir o poema), com um salve também à Alice Ruiz e a todos os poetas e artistas que tiveram a dúbia sorte e o precioso azar de nascer-viver-morrer no estado do Paraná...


D. MORTE

entrando num albergue:

– Mãe, que és tão pobre e não tens leite,
Ó dor crescente! ó lua cheia!
Vida – candeia sem azeite,
Olha-me, vê, não sou tão feia!
_____Pé ante pé,
_____Queres? olé!

Glacial, esguia, num momento,
Eu entro, sopro essa candeia...
_____Queres? olá!
Quem foi? quem foi?
_____– O norte, o vento...
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!


Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)

sábado, setembro 12, 2009

Feriado em Floripa







Neste feriado de setembro, eu e minha nega Gianna fomos pra Floripa, visitar a mãe dela e seu feliz consorte.
As fotos já falam o suficiente sobre como foi a viagem.
Fiz uma ivanzice e não avisei meu amigo Vinícius Alves, poeta local, que iríamos baixar por lá.
É que seria a primeira visita aos sogros, e eu também queria explorar a ilha por minha conta e risco...
Enfim, não há nenhuma justificativa boa pra ter feito tal desfeita - assim, faço um poema...
PREZADO VINÍCIUS,
o ser curitibano é assim: esquivo,
soturno, depressor e repressivo -
contudo, sempre surge quem é vivo...

Então não invoco nem razão nem coração
pra justificar minha falseta tão sacana -
no entanto, aceite este pedido de perdão
do seu poeta camarada
_________________Ivan Justen Santana

quarta-feira, setembro 02, 2009

(...) BEM QUE EU TENTEI DESPISTAR A GOVERNANTA...

porém a poesia pinup poppins veio voando de sombrinha
___e um verso jason me perseguiu até o fim da linha –
tinha uma rima ali muito na sua que também tava na minha
___feito alguma avezinha suavezinha que se avizinha
quando você já despachou o vizinho e refugou a vizinha
___só pra ler sossegado o seu jogo da amarelinha
e aí chega a sua gostosa atrás do açúcar que você nem tinha
___e então vocês passam a noite toda trocando figurinha,
lendo, anotando, interpretando e comentando
___a carta de pero vaz de caminha