terça-feira, junho 29, 2010

Fora da estação (e pela metade), com vocês, um

*
RENGA DE OUTONO

garoa invisível –

finas lâminas que lavam
nossas velhas almas

som de chuva não se vê:
nem se a lua usava luvas

frágeis mãos morenas
penetram a terra negra
buscam a raiz

cavem, cavem, dedos ágeis:
suas unhas fazem medo

na testa gotículas
há pressa na rua escura
meias e uma saia

brandamente as gotas brancas
se transformam: fios de faca

corte – com três lâminas
enfeitou-se um corpo inerte –
sabe mas não sabe

poema de amor na carne
em sutil caligrafia

desenhos que brilham
numa pele que diz: sim
e os corpos se tocam

e como músicos cegos
respiram num só compasso

melodicamente
a pauta foi calculada
e os corpos se tocam

as pedras azuis do ábaco
deslizam para a direita

a crescente luz
os formatos do luar
e o calor sinfônico

joelhos e violoncelos
cicatriz num longo braço

verberam verbenas
na pauta já calculada:
e o som azul chove

o céu imenso em pedaços
nas gotinhas da janela

um gineceu abre-se
um androceu se antecipa:
anteras panteras

as razões de um negro galho
na emoção da flor do ipê


Ivan Justen Santana
Rodolfo Jaruga

quinta-feira, junho 24, 2010

A HISTÓRIA DE SEMPRE, NUNCA, NÃO, SIM, NEM E NADA SEM TUDO OU MAS

*
Nunca desejava assassinar sempre.

Não sabia serem irmãos de sangue.

Sim disse: nada havia que os cindisse.

Nem avisou: hoje é o dia de nunca.

Sempre mandou pra nunca um bumerangue.

Nunca pensou em usar o brinquedo.

Mas sempre decidiu odiá-lo em segredo.

*

quarta-feira, junho 23, 2010

Depois de ler Jaboc, romance de Otto Leopoldo Winck, até a página 21...

*

TUDO É MESMO SIMULACRO


tudo é mesmo simulacro

num labirinto de espelhos

onde narciso confunde-se

com narciso imagem e eco


eco em si nesse osso sacro

sem quaisquer sinais vermelhos

nem clímax final algum de se

esperar por repeteco

*
*

segunda-feira, junho 21, 2010

01. Elabore um título ao seguinte poema e assim torne-se nosso(a) parceiro(a) --

- acréscimo em 23/06:
Resposta da questã 01: Thadeu postou este no blog dele, e acrescentou um título matador, o qual está agora acrescentado aqui: qualquer dúvida, leiam os comentários desta postagem...
*

O CÉU QUE ME TRAGA

eu fumo porque sei que vou virar fumaça
jamais enfrentarei filas no INPS
sete palmos abaixo e a terra me esquece
o poeta é a estrela cadente que passa

nesta terra de reis sou cego em meio à messe
de todo esse tabaco o qual vicia a massa
e me faz abusar do corpo que ultrapassa
a terra o mar o céu no eterno sobe e desce

e como tudo no universo se desfaz
faço de mim a brasa e também combustível
deixo de ser concreto pra ser invisível

em fogo em fúria som silêncio guerra e paz
como num verso que nenhum poeta fez
a estas constelações convergindo outra vez


Antônio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana

quarta-feira, junho 16, 2010

Em celebração ao Bloomsday:

*
SUPEREGO EM REDONDILHA

Meu prezado e caro Ivan:
tua inspiração é vã;

larga mão de ser pedante,
pois ninguém abrigou Dante;

e não sejas cabotino:
ninguém lê Tomás de Aquino;

vê se não desce o sarrafo:
é: ninguém decifra Safo;

nenhum épico é um idílio:
ninguém quer rever Vergílio;

isto não saiu em vídeo:
ninguém assistiu Ovídio;

sim, é amargo o shake: inspira:

ninguém interpreta Shakespeare;

duplamente o caso é vil:
ninguém viu quem foi o Will;

sem Camões nem bem te espantes:
ninguém ri mais com Cervantes;

larga todos estes poetas:
ninguém curte tais estetas;

na poesia há quem se arrisque:
mas ninguém relê Leminski;

bem trovato não é vero:
quem (ninguém!) recorda Homero?

Pata de asno só dá coice:
afinal ninguém leu Joyce;

assim, enfim, tu também:
Ivan, teu nome é Ninguém.

terça-feira, junho 15, 2010

Revelando as fênix

Hoje é dia de jogo do Brasil na copa do mundo, mas tem outra coisa muito mais importante (pelo menos pra mim:)

é aniversário do meu pai -- feliz aniversário, Sr. Rui!

Ontem palestrei sobre Joyce e o Ulysses, no Centro Feminino (vide aqui), e amanhã haverá mais Bloomsday aqui em Curitiba (maiores informações, vide aqui o blog do meu prezado amigo Felipe).

Assim, prospectivamente eu postei o poema de Rilke sobre Odisseu e as sereias, e agora largo aqui a versão que eu e meu camarada William Crosué Teca fizemos para a folclórica balada anglo-irlandesa Finnegan´s Wake, a qual inspirou Joyce a escrever um catatauzinho aí que vocês devem saber qual é...

VELANDO TIM
(Finnegan´s Wake, em versão brasileira dos Dublês de Dublin)

Tim Finnegan vivia na Rua do Passeio,
um gentil irlandês muito esquisitão;
tinha uma língua cheia de asseio
e pra subir na vida ele usava um formão.
Tinha um jeitinho de quem bebia,
o uísque deixava Tim tantã,
e a fim de firmar o pulso a cada dia
bebia um traguinho toda manhã.

(refrão:)
Truque na morte, dance comigo,
varra o soalho, chacoalhe pra mim;
é ou não é assim como eu digo
uma grande bagunça velando Tim!?

Certa manhã Tim já tava torrado,
a cabeça pesada o fez bambear;
caiu da escada e quebrou seu crânio
e o levaram pra casa a fim de o velar.
Enrolaram Tim num lençol limpinho
e o deitaram na cama de revés,
à sua cabeça um barril de vinho
e um galão de uísque a seus pés.

(refrão:)

Os amigos vieram para velá-lo
e a viúva Finnegan dava um caldo,
primeiro ela trouxe chá com bolinhos,
depois uísque, tabaco e cachimbos.
Biddy O´Brien pôs-se a chorar:
"Um cadáver tão limpo jamais se viu!
Tim, camarada, por que nos deixar?"
"Ah, fecha essa matraca!" disse Paddy McGill!

(refrão:)

Aí Maggie O´Connor ganhou controle,
"Biddy," disse ela, "por certo você erra!"
Mas Biddy pregou-lhe o cinto na goela
e deixou-a no chão, esticada e grogue.
Então no velório o pau quebrou,
e foi homem a homem, mulher a mulher,
a lei da pancada ali se instalou,
salvem morto e feridos quem puder!

(refrão:)

Aí Mickey Malone sentiu o drama
quando um copo de uísque voou assim:
tirou-lhe uma fina e caindo na cama
o copo derrama-se sobre Tim!
Tim revive! Ele ressuscita!
Timothy vindo de volta, eu vi,
diz: "Vamos beber toda essa birita!
Almas do diacho, acham que eu morri?"

(refrão:)

terça-feira, junho 08, 2010

A ILHA DAS SEREIAS

*
Quando, atendendo a seus anfitriões,
após o dia inteiro de trabalho, narrava
suas viagens marítimas e tribulações
em voz calma, nem sequer suspeitava
como apavorá-los, e quais intempestivas
palavras usar para que, como ele viu
naquele tranquilo arquipélago anil,
também os ofuscasse o brilho áureo das ilhas
cuja mera visão traz novamente
o perigo, e não mais em repuxos
de fúria em tumulto, como sempre;
mas sem um som toma os marujos
que sabem: algumas vezes se ouve
uma canção daquelas ilhas douradas –
e eles se lançam aos remos como se
estivessem cercados
pelo silêncio que no espaço imenso
existe, e nos seus ouvidos insiste,
como se ao reverso fosse o denso
canto a que nenhum mortal resiste.


Rainer Maria Rilke
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

domingo, junho 06, 2010

PRA TODAS AS PESSOAS QUE CONHEÇO E QUE GOSTAM SIM DE POESIA...

(qualquer dúvida sobre o título e a quem este poema é dedicado, reportar-se à lista de blogues aqui ao lado para maiores referências imediatas...)

*
Sim, eu também já fui daqueles chatos de galocha
pra quem nenhum verso, nenhuma frase prestava.

E agora, por não querer ser mais um crica broxa,
talvez eu sofra, ao inverso, de complacência brava.

Enfim: minha visão crítica (seja rígida, seja frouxa)
não melhora nem piora as artes da palavra,

e estes dísticos aqui, com essas rimas de trouxa,
contam pouco ou nada à poesia que hoje se grava.

Mas quero e vou celebrar assim, nas coxas,
as tantas maravilhas lidas por mim, sem trava.

Por mais que pegue e largue métrica (era nenhuma),
rimas (névoas-nadas de vaidades, truques e firulas)

– e ainda que achem que só aumento o cordão
dos puxa-sacos – destaco que a poesia está à solta:

sim, assim como as bruxas, a violência e o horror,
tem cada vez mais poetas, cada vez mais arte ao redor,

cada vez mais merda e lixo, sim, mas cada vez mais
são mais motivações e mais razões e mais canções

pra criar mais
alegria: multiplicar o prazer
e assassinar a dor.

quarta-feira, junho 02, 2010

JOVEM PRA SEMPRE

(Forever Young, Bob Dylan)

Que Deus te benza e guarde sempre,
Que os teus desejos se realizem,
Que faças sempre o bem aos outros
E deixe-os fazer bem a ti.
E que uma escada até as estrelas
Construas para percorrê-la,
Que tu prossigas jovem sempre,
Jovem pra sempre, jovem pra sempre,
Que tu prossigas jovem sempre.

Que amadureças à justiça,
Que amadureças à verdade,
Que saibas sempre discernir
E as luzes ver em torno a ti.
Que tenhas sempre mais coragem,
Que te ergas alto e sejas forte,
Que tu prossigas jovem sempre,
Jovem pra sempre, jovem pra sempre,
Que tu prossigas jovem sempre.

Que tuas mãos sempre se ocupem,
Que teus pés sempre sejam ágeis,
Que tuas bases sejam firmes
Quando vierem vendavais.
Que o coração sempre te anime,
E sempre cantem tua canção,
Que tu prossigas jovem sempre,
Jovem pra sempre, jovem pra sempre,
Que tu prossigas jovem sempre.


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

terça-feira, junho 01, 2010

UMA NÊNIA A WILSON BUENO

*

Nossa Santa já não pode mais ser Cândida

Nossa vida assassinada e cada vez mais bandida

Facada que vem sem nem falar pra que vinha


Mas as frases não acabam no final da linha

Um sangue de poeta grava toda a escrivaninha


*

quarta-feira, maio 26, 2010

A SEREIA DO RIO IVO

Havia uma sereia numa cava do Rio Ivo:
tinha curvas deslumbrantes e olhar verde furtivo.
Quando a viu, à luz da lua,
flutuando na foz, nua,
Ivo disse a ela: “por ti, eu fluo e vivo.”

Mas um dia Ivo ouviu uma pedra filosofal,
segundo a qual a monogamia não seria normal:
“um rio não molha a mesma sereia duas vezes”
dizia a pedra em suas heráclitas, dialéticas teses.

A sereia também cairia naquela conversa, porém
já havia sido vítima do último viral
e abalara-se, em desabalada carreira fluvial,
a se esbaldar nas badaladas baladas do Rio Belém.

segunda-feira, maio 24, 2010

SEMPRENOVOQUANDO

(pra Gianna Roland)

enquanto eu fico aqui parado na parada
enquanto você foca ali parada nalgum prado
enquanto a gente sai pela direita ou pela esquerda

ou sai daquela uma e vai nessa pelada
ou empacota ou tem um treco e larga ao lado
ou fala um troço sério e alguma bela merda

em ganho ou perda
em detestado estado
em pleno pelo duma gata parda na calada

enquanto tudo e nada:

a vida vem ventando
inventa e cria em contrabando
um mesmo nunca velho e sempre novo quando

quarta-feira, maio 19, 2010

Rendendo homenagens


Tem um sujeito na nossa turma de amigos que eu vou falar pra vocês, é um cara que merece homenagens e condecorações.
É o tipo mais animado e divertido que eu conheço.
Eu o considero uma lenda viva da contracultura curitibana.
Ele organizou a primeira e maior exposição mundial de fanzines dessa cidade.
Ele teria diversos motivos para ser amargurado e agressivo, mas prefere ser simplesmente feliz.
E ainda por cima, formou-se em filosofia pela UFPR, em plena ditadura militar.

Édson de Vulcanis, também conhecido como "Aranha" e "Michael Édson", feliz proprietário dos blogs Aranha Céu, Dê dinheiro ao poeta, Ideias aracnídeas e Noções unidas.

Em sua própria definição, Édson é um anarcovigarista do bem.

Inigualável frasista trocadilheiro, Édson foi um dos poetas que abrilhantaram o evento Curitiba 12 Horas.

Prometi ao Édson traduzir uma canção de John Lennon (e Yoko Ono), uma canção que Édson gosta de cantar e cuja mensagem dá o que pensar.

Hoje, finalmente, cumpro essa promessa, feliz.

Aí está, Édson!:

A MULHER É O CRIOULO DO PLANETA
(WOMAN IS THE NIGGER OF THE WORLD,
by John Lennon & Yoko Ono)

A mulher é o crioulo do planeta
Sim ela é... pense sobre isso
A mulher é o crioulo do planeta
Pense sobre isso... ou aja sobre isso

Fazemos ela pintar o rosto e dançar
Se não é uma escrava, dizemos que ela não nos ama
Se ela é verdadeira, dizemos que está tentando ser homem
Enquanto a rebaixamos, fingimos que ela está acima de nós

A mulher é o crioulo do planeta
Se não acredita em mim, olhe a que está com você
A mulher é a escrava dos escravos
Ah, sim... melhor gritar sobre isso

Fazemos ela suportar e educar nossas crianças
E então a largamos de vez por ser uma velha mãe gorducha
Dizemos que o lar é o único lugar para ela
E aí reclamamos que ela não é companhia civilizada

A mulher é o crioulo do planeta
Se não acredita em mim, olhe a que está com você
A mulher é a escrava dos escravos
Ah, sim... (pense sobre isso)

Insultamos ela todo dia na TV
E cogitamos por que ela não tem confiança
Quando é jovem, matamos seu desejo de ser livre
E enquanto dizemos para ela não ser inteligente demais
Rebaixamos ela por ser muito tolinha

A mulher é o crioulo do planeta
Sim ela é... se não acredita em mim,
Olhe a que está com você
A mulher é a escrava dos escravos
Sim ela é... se você acredita em mim,
É melhor gritar sobre isso

Fazemos ela pintar o rosto e dançar
Fazemos ela pintar o rosto e dançar
Fazemos ela pintar o rosto e dançar

domingo, maio 16, 2010

Revivificação do Credoencial das Águas Claras

Neste fim de semana, tivemos eu & Gianna Roland o prazer de receber em nossa casa o poeta e meu amigo-irmão William Crosué Teca, proprietário do blog TECATATAU.

Entre outras estripulias, articulamos a volta dos Dublês de Dublin, que deve ocorrer nas comemorações do próximo Bloomsday em Curitiba.

Aguardem maiores informações...

Por enquanto, fiquem com o texto da maviosa versão que fizemos desta emblemática canção do Creedence Clearwater Revival -- quem conhece pode cantar junto...:

*
NASCEU NO BANHADO
(Born on the Bayou, John Fogerty /
Creedence Clearwater Revival)

Quando eu era só um piá de bosta,
Da altura do pé do meu pai – ali,
O pai disse “filho, não durma de touca
Do jeito que eu dormi.”
Não se perca aí...
Não se perca por aí...

E um sete de setembro, eu me lembro,
Correndo lá no bosque, nu,
Ainda escuto meu velho guapeca
Latindo atrás de um vodu.
Latindo atrás de um vodu.

Nasceu no Banhado;
Nasceu no Banhado;
Nasceu no Banhado.

Queria chegar de volta ao banhado,
Rolasse uma princesa na mão,
Como se fosse um biarticulado
Descendo até o Boqueirão.

Descendo até o Boqueirão.

Nasceu no Banhado;
Nasceu no Banhado;
Nasceu no Banhado.

Versão brasileira:
Ivan Justen Santana & William Crosué Teca

quinta-feira, maio 13, 2010

E lá vai mais um poema de uma rima só, solando pela blogosfera...

*
ORA ORA ORA

Ora bolas – ora, ora:
se você vai indo embora
sem esporro senta espora
sempre nunca mais agora
na esperança da demora
e na fé que ao demo ora
minha cor já se descora.

Ora bolas – ora, ora:
hora que passou da hora,
verso que ficou na escora
e esta estrofe não melhora.
Rainha do frevo é Dora
mas se a Carmen mira e chora
eu sou mais ouvir a Aurora.

Ora bolas – ora, ora:
se mexer o molho gora
e não chega a Bora Bora.
Abra a caixa de Pandora:
se a canção você decora
na filosofia mora
e talhou sozinha a tora
por que busca dar o fora?

terça-feira, maio 11, 2010

Ainda repercutindo o Curitiba 12 Horas...

Ainda estou vibrando com as energias do fim de semana. Convido vocês a passarem lá no blog do meu poeta camarada Luiz Felipe Leprevost, que também postou a respeito.

Pra quem não sabe do que estou falando: por gentileza, veja o texto e leia as fotos da postagem anterior.

E pra quem quer mais (sempre tem mais, e eu quero sempre maaaais!...), e também pra quem está chegando aqui pela primeira vez (dobrou a visitação deste blog: mais um dos efeitos-Curitiba-12-Horas:)

aí vai um poema inédito, que estreou no Paço Municipal, mas teve boa aceitação no Cajuru e no Bairro Novo...


PASSAGEM NEM SEQUER DE IDA...

Tudo começou como sempre no meio do caminho:
Eu estava ali feito quem não quer nada, sozinho.
Nada se acabava em quase nunca, mas era uma vez:
Só podia ser assim, falando em bom português –
A viagem via-se em muitos mapas, e não tinha escolta:
E daí? Daí eu vi que não ia mais ter volta.

O sim seria sim, sem sinsalabins nem abracadabras,
Portas e janelas se abriam com ou sem pés de cabras –
As guilhotinas caíam, as rotinas repetiam: era outono –
A brincadeira me dizia das dez tinas dum pão sem dono –
O ponto final não valia mais que uma frase solta:
E daí? Daí eu vi que não ia mais ter volta.

Achei Shakespeare, e também umas sereias em minha vida:
As mesmas trilhas de chegada também foram as de ida.
Por Camões nunca Dantes lidos, Homero em safa Safo se acabava
E meu cotovelo sempre ali, sofrendo de coceira brava.
Eu dormi conservador, acordei cheio de revolta:
E daí? Daí eu vi que não ia mais ter volta.

Sem mais enrolações, sem mais para o momento,
Li Orgulho e Preconceito, Guerra e Paz, o Tempo e o Vento –
Ri com James Joyce à sombra das mocinhas em flor
E Razão e Sensibilidade me trouxeram de novo ao amor.
Fui sabendo estar sujeito a mais alguma reviravolta:
E daí? Daí eu vi que não ia mais ter volta.

Faço ideia da cultura, do plantio e da colheita, de outra
Forma de dizer: fiz a semeadura e farei a recolta –
E daí?
Daí, no ensejo, ainda vejo: não vai mesmo ter mais volta.

domingo, maio 09, 2010

Todos os espetáculos de ontem...

Hoje só posso registrar momentos mágicos:
no Parque dos Peladeiros, os casais dançando,
os Eles Mesmos detonando,
mesmo com o ginásio semivazio,
meus três comparsas poetas e eu,
mandando bala e nos divertindo
com aquela minoria esmagadora.

Depois, no Parque do Semeador,
chegamos e Batista de Pilar estava lá,
sacudindo a massa, comandando a festa.

Subimos ao palco, nós, é bom que se registre:
Jorge Barbosa (o do Irajá)
Edson de Vulcanis,
Luiz Felipe Leprevost
e este que vos escreve --
e o povo disse: sim, a gente gosta de poesia!

Posteriormente, assistimos à Relespública,
que realmente quebrou tudo,
subimos de novo ao palco e, por nossa vez,
também quebramos tudo de novo.

E veio o Blindagem, com o novo vocalista
reencarnando o Ivo e quebrando tudo novamente,

e então,
depois de tantos instantes impressionantes,

vieram os Mutantes, com os originais integrantes
Serginho na guitarra,
Dinho Paes Leme nas baquetas,
e os novos atualmente Mutantes
(tem um curitibano nessa parada)
e agora só posso terminar com o poema imediato
feito pelo Fábio Elias e por este que aqui delira
com pé firme na realidade:

A VIDA EM CURITIBA

pro Leminski, foi meio que uma pedreira.
A vida em Curitiba já foi um Prado Velho,
mas hoje está que é um Bairro Novo,
e nenhum Sítio Cercado,
nenhuma Barreirinha
nos impedirão de abrir este Portão:

Curitiba evolui a cada segundo
e hoje o símbolo da cidade
é o Novo Mundo!


Minha filha Rúbia e Sérgio Dias Baptista (foto: Gianna Roland)


Edson de Vulcanis, Jorge Barbosa, Luiz Felipe Leprevost e Ivan Justen Santana, no palco do Parque do Semeador, em Curitiba: a poesia é boa e o povo gosta! (foto: Gianna Roland)


Eu & Gianna (foto: Ivan)


Serginho, em lótus espiritual com a guitarra, a meio metro de nós, encantando a multidão. (foto: Gianna)


Eu, incrédulo e em êxtase, naquele instante-Mutante. (foto: Gianna)


Tietagem no camarim: Serginho e Gianna, após o espetáculo. (foto: Rúbia)

terça-feira, maio 04, 2010

Pangur Bán, um felino trilíngue...

O poema original foi escrito em gaélico, e é atribuído a um monge irlandês, do século IX.
A tradução em inglês foi feita por Robin Flower.
Terminei esta versão brasileira hoje. Dedico a versão e a postagem a Ana Guimarães e seu blog O GOZO DA LETRA, no qual conheci este magnífico poema.

Pangur Bán
Pangur Bán

Pangur Ban

Messe agus Pangur Bán,
cechtar nathar fria shaindán:
bíth a menmasam fri seilgg,
mu menma céin im shaincheirdd.

I and Pangur Bán my cat

`Tis a like task we are at:
Hunting mice is his delight,
Hunting words I sit all night.
Eu e meu felino Pangur Ban,
Eis nossa filosofia vã:
Caçar ratinhos é seu deleite,
Caçando letras eu passo a noite.

Caraimse fos, ferr cach clú
oc mu lebrán, léir ingnu;
ní foirmtech frimm Pangur bán
caraid cesin a maccdán
Better far than praise of men

`Tis to sit with book and pen;
Pangur bears me no ill will
He too plies his simple skill
Muito melhor que aplauso mortal
É estar aqui com livro e penal;
Pangur concorda que a escolha é boa:
Na caça também se aperfeiçoa.

Ó ru biam, scél gan scís
innar tegdais, ar n-óendís,
táithiunn, díchríchide clius
ní fris tarddam ar n-áthius
'Tis a merry thing to see

At our tasks how glad are we,
When at home we sit and find
Entertainment to our mind.
Dá gosto ver a paixão feroz
Que dedicamos, os dois a sós,
Quando nos pomos alegremente
A contentar nosso corpo e mente.

Gnáth, húaraib, ar gressaib gal
glenaid luch inna línsam;
os mé, du-fuit im lín chéin
dliged ndoraid cu ndronchéill
Oftentimes a mouse will stray

In the hero Pangur`s way;
Oftentimes my keen thought set
Takes a meaning in its net.
Frequentemente um ratinho sói
Passar em frente a Pangur, o herói;
Frequentemente meu pensamento
Captura a ideia de um argumento.

Fúachaidsem fri frega fál
a rosc, a nglése comlán;
fúachimm chéin fri fégi fis
mu rosc réil, cesu imdis.
`Gainst the wall he sets his eye

Full and fierce and sharp and sly;
`Gainst the wall of knowledge I
All my little wisdom try.
Colado à parede, o gato vê
Com raro olho vivo, agudo em V;
Colado à parede do saber,
A percepção eu tento estender.

Fáelidsem cu ndéne dul
hi nglen luch inna gérchrub;
hi tucu cheist ndoraid ndil
os mé chene am fáelid.
When a mouse darts from its den,

O how glad is Pangur then!
O what gladness do I prove
When I solve the doubts I love!
Quando um ratinho surge da fresta
Ah, que alegria Pangur infesta!
Mesma alegria infesta meu eu
Se alguma questão se resolveu!

Cia beimmi a-min nach ré
ní derban cách a chéile
maith la cechtar nár a dán;
subaigthius a óenurán
So in peace our tasks we ply,

Pangur Bán, my cat, and I;
In our arts we find our bliss,
I have mine and he has his.
Assim, tranquilos, em santa paz,
Eu e Pangur, meu felino audaz,
Fruímos nossa iluminação,
Eu, no silêncio; ele, na ação.

Hé fesin as choimsid dáu;
in muid du-ngní cach óenláu;
du thabairt doraid du glé
for mu muid céin am messe.
Practice every day has made

Pangur perfect in his trade;
I get wisdom day and night
Turning darkness into light
A prática diária do exercício
Fez Pangur perfeito em seu ofício;
E, noite e dia, o saber me aduz
A transformar as trevas em luz.

Aistrithe ag Robin Flower
Translated by Robin Flower

Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sexta-feira, abril 30, 2010

Um coração pulsando em verso alexandrino

Um dia uma mulher comeu meu coração
Mas aparentemente sem deglutição
Cuspido o coração mascado recobrou-se
Tanto fez tanto fosse acabar-se o seu doce.
Uma noite, num bar, novamente docinho,
Meu coração topou com outra no caminho:
Aquela era uma pedra mais suave, aguda,
E o coração ainda sem razão que acuda
De novo devorado amanheceu mais morto
Que vivo amortalhado em trapo roto e torto.
Mas hoje de manhã bateu que assim ou não
Pra sempre vai pulsar meu tolo coração...

terça-feira, abril 27, 2010

HISTÓRIA UNIVERSAL DA VIRTUDE

No princípio era preguiça:
arregala-se de gula,
variando pra avareza,
sobe bárbara à soberba
mas mal raia as raias da raiva
vê que a inveja vinha da ira
chamejando de luxúria.

Já roxa, cheia de úmida humildade,
chega ao meio do caminho:
topa a tempo a temperança,
pensa e passa à sapiência,
confortável fortaleza,
onde ajusta-se,
justiça.

Por fim, descansa.
Esperança, cara a cara
com a cara caridade,
com amor sente-se fé:
virtude como nunca,
como nunca está

simplesmente é.