sexta-feira, outubro 15, 2010

DIÁLOGO SOBRE A RAZÃO E A EMOÇÃO

[poema inédito de Ivan Justen Santana
e Rodolfo Brandão de Proença Jaruga --
em 27/03/2010, este poema foi apresentado ao público
no Paço da Liberdade / SESC Paraná,
durante o Café, Leite Quente e Poesia,
evento organizado sob a curadoria de Élisson de Souza e Silva]

___________________
vazio agudo
ando meio
cheio de tudo
p.leminski
___________________________
O intelecto é o espelho do vazio
O coração herdou a coisa efêmera
Bruno Tolentino
__________________________

OS POETAS RECORDAM ESSES VERSOS DE PAULO LEMINSKI E BRUNO TOLENTINO, E CONVERSAM

RODOLFO
Se é assim, se os olhos da razão
só vêem falsos vultos na penumbra
ou sombras num espelho impetuoso
que nos revela a cada instante o nada,
o mar vazio em que se agita em vão
o nosso peito ardente, a nossa dor
mais ancestral de ser e já não ser,
se é assim, eu me pergunto então,
que metro mede o mundo, mede o homem?
Os gritos comovidos com a vida
ou a despótica razão regrada?

IVAN
Nem gritos comovidos nem razão
– seja despótica, seja regrada –
são metros pra medir homem ou mundo,
ao menos não só os gritos e as razões.
Os nossos metros são nossas palavras,
infinitas às nossas vidas breves,
mas breves ao vazio do infinito.
Se o homem viu o mundo e disse: é azul!,
nosso azimute é microvibração,
nossas razões, regras e metros são
pequenos demais. E assim se quebram.

RODOLFO
Talvez sejam palavras nosso metro.
Ou não. Talvez não são senão o chão,
o solo, o fundamento da existência,
o denso sedimento do passado,
o resto do que outrora fora rosto.
Tal como uma araucária se levanta
e estende os braços nus à luz do sol,
mas com raízes garras entre o barro,
talvez assim o ser humano seja;
talvez agarre o seu vazio ao verbo
e busque pelos bosques do instantâneo
a luz, a plenitude do sentido.
Talvez não seja busca, seja fuga.
Porém, há sempre esse caminho ambíguo
de rio que flui sem margens pelo abismo,
sem norte certo que não seja ser.
Ou não?

IVAN
_______Ou sim – enfim: não ser ou ser –
mesmo invertendo, interrompendo o rio
que você vê fluindo pelo abismo,
é impossível escapar desse “ou não”.
Mas seus talvezes já viram certezas:
vamos tentar ser mais certeiros, sim?
Pois sim, o ser humano é uma araucária,
e as palavras são, também, chão e resto:
não custa reafirmarmos fundamentos.
Mas que mais? Além disso, só o silêncio?
O choro da Energia abandonada,
a dor da Força desaproveitada,
o rudimentarismo do Desejo
expostos por esta angústia de Augusto
dos Anjos?

RODOLFO
_________Sim, silêncio entre soluços.
É disso que se faz o labirinto
em que rasteja o ser que sente e pensa.
Silêncio entre soluços, nada mais.

IVAN
Nada mais, não! Tem mais tudo no nada,
tem outras travessias (tricks and treats!),
nos trinques tem truques, tratos e extratos,
tem nonadas, tem até dodecuplicadas!,
que as trucadas não acabam nem quando
terminam. Se Leminski na razão
viu paradoxo triplo – vaziomeiocheio –
e Bruno, Tolentino e tautológico,
viu o vazio espelhando o intelecto,
eu digo que há lá mais atrás do espelho,
através deste cheiovaziomeio
há mais sim que neste texto de e-mail...
Driblemos os depressivos gambitos!
Sacrifiquemos com sempreverboímpeto
até mais ver, mais além, muito mais
mais pra lá que quaisqueres infinitos!...

RODOLFO
Pois sim, há sempre um nada além de tudo.
A cada instante o ser que eu sou desfaz-se
e a cada instância inovo a minha face,
enfrento um velho espelho de absurdos.
E nada ou pouco vale o grito surdo
de um peito emocionado ou a sintaxe
de uma razão aflita, mas capaz.
Além de mim, eu sei, o mundo é mudo.
A razão é um poder que a língua exerce
sobre mim, é uma força que me cria.
A emoção é um poder que se irradia
desde mim, são as falhas do alicerce.
Porém, nem a razão nem a emoção
é o que permite, e exige, a criação.

IVAN
Mas não, não é uma falha do alicerce
a força emocional que move o mundo
e as estrelas. Ela, amor – ou qual quer que se
chame este raio a romper o rotundo
vácuo do saber voltado a si: vértice
se achando círculo – nos mostra que um do
outro dependemos. Por mais que quebrem-se
(e aqui se quebram também forma e fundo)
sintaxes, razões, eixos axiomáticos,
tais tentativas subsumem-se a um sim.
Àquele sim fundamental dos práticos,
a esse sim que nos cala e nos diz sim.
Sem sim, metas e teses, em metástase,
sobram simplesmente sem rima sim.

RODOLFO
Talvez o sim dos sábios, esse sim,
princípio feminino do ocidente,
que escapa aos moles lábios mulheris,
decerto lábios dóceis, porém hábeis,
o sim que traz em si o sêmen da razão
e por que não da emoção também,
o duplo e dúbio e amoroso sim
talvez sucumba mudo e genuflexo
ante o sentido, origem do divino,
e dos humanos o mais alvo fim.

IVAN
Protesto viva e veementemente!
Não venha travestir sim de dublê
e os duplos fiquem lá com Dostoiévski!
Um sim nunca sucumbe genuflexo:
sim sem mudez transcende qualquer sexo!
Pois sim não fica à frente do sentido:
sim é sempre assim o próprio sentido!

RODOLFO
Neste momento da conversa, Ivan,
eu me pergunto qual imagem
nos revelar iria a antinomia
que nós mal começamos a tanger.
Que imagem nos seria a bela síntese
desses conceitos, frouxos pelo tempo?

O pensamento criativo, eu creio,
não é senão o esforço sem sentido
que uma razão emocionada faz
para alcançar as lindes do sentido.
E o sim, que é síntese do verbo,
é só o princípio dessa caminhada
em precipício, nunca é o fim.
Perseguir o sentido é dar sentido
à vida. E o pensamento quando vivo,
tenso, emocionado e racional,
ele tende, ao render-se, a se fazer,
a transformar-se em simples poesia.
E a palavra vai a par do pensamento,
e o destino de uma língua é um poema.

Razão e emoção são condições
do denso pensamento ocidental.
E a imagem que me vem aos olhos
é a de um rochedo negro e impassível
ungido por um mar impetuoso.
As altas ondas de um azul marinho
explodem brancas contra a pedra escura,
carícias de cristal em pele rude,
e as aves, riscos negros espirais,
voam alvoroçadas em alarde,
e o céu parece recurvar-se à cena,
acinzentado, atento ao drama, grave.

E este poeta então entende tudo,
entende que a pesar do enfrentamento,
de todas as contradições ingênuas,
da aflição, das feridas e das dores,
que a pesar do passado em cicatrizes
e de todas as incompreensões,
é tudo um baile a desvelar aos olhos
a beleza de instâncias da existência,
fragmentos do real que se reúnem
sob o auspício arbitrário do sentido.

IVAN
Rodolfo: já respondo a questão-síntese,
mas, antes, tolere aqui que eu me queixe
ao Élisson, o maior responsável
por escolher o tema deste diálogo.
Tentarei ser, conforme o nome: Justen.
Cito Élisson, no e-mail de convite,
diz: “Dentro das temáticas propostas,
e após ler alguns escritos seus,
gostaria de convidar vocês
[sim!] para que declamem poesias
na temática razão x emoção.”
Confesso: quando li isso, pensei:
“Falar em razões e emoções é coisa
daquela cançãozinha do NX
Zero”... Zero foi quanto eu mereci
por pensar assim, tão chão, tão mesquinho.
E o Élisson, destaque-se, escolheu
com base em leituras que fez de nós.
Então, com o tema temos nossa vez
e conforme você versou, Rodolfo,
eis que “mal começamos a tanger
a antinomia”. Que imagem seria
“a bela síntese desses conceitos”?
Entre razões e emoções, qual saída?
É, sim, fazer valer a pena ser
poeta, e escutar de volta a chave
na fechadura da porta. Moramos
na Rua Real Grandeza, sim, cito
agora MACALÉ, Jards. Abram, vejam:
jatos de sangue! Abram, voltem, vejam:
espetáculos de beleza!...

Não penso em dar um corte, nem embromo:
sei com Jards que vale a pena ser poeta,
e isso sei também com você, Rodolfo,
com Waly Salomão, com Tolentino,
com quantos, quantas, poetas aqui!
Você, Rodolfo, e todos nós sabemos:
“apesar das contradições ingênuas,”
você versou tão bem que eu cito mais:
“fragmentos do real que se reúnem”
“e este poeta então entende tudo”
“e o destino de uma língua é um poema”!
O destino de uma língua é um poema:
– isso foi sim muito bem dito mesmo,
pois início, meio e fim são poesia
e assim todas questões são respondidas!

***

sexta-feira, outubro 08, 2010

CLÁUDIO BETTEGA (1971-2010)

A notícia do falecimento veio ontem, mas de um jeito que eu nem compreendi direito.

Só agora confirmei e comecei a tentar assimilar essa saída de cena do Cláudio...

Deixo um tributo, a exemplo do que já fizeram Rafael Walter, Ricardo Pozzo, Barbara Kirchner e Luiz Felipe Leprevost.

Sinal de que para nós, amigos e colegas de arte e de vida, pelo menos poeticamente o Cláudio Bettega vai continuar vivo.



Movimento:
parte do
meu eu,
em distopia,
avança pelo
tempo,
numa sinfonia
de ar e euforia,
perdido
enfrentamento
que me faz
amar e sentir o
vento a todo
momento.

Cláudio Bettega
*

quinta-feira, outubro 07, 2010

PRIMEIRA CARTILHA DE CURITIBANICE APLICADA

1

Fale como se escreve.
Escreva como se pensa.
Pense como se falasse.

Silencie a um silvo breve.


2

Sorria como se fecham os olhos.
Feche os olhos como se tapam os ouvidos.
Tape os ouvidos como se sorri.

Sim: você nunca esteve nem aqui.
Não: não se troca o E final pelo I.


3

Eu nem te ligo. Eu é um lugar que não existe.
Tu também. Este teu tu inexiste até que triste.
Ele ou ela pouco importa. Casamento atrás da porta.

Nós somos sós enquanto não somos um S. O. S.
Vós não soais na voz. O mundo vos esquece.
Eles miram. Elas passam. Todos saem de moda.

Intervalo comercial: o mundo gira e a lusitana roda.

*

segunda-feira, outubro 04, 2010

CLÁSSICOS PARANAENSES

Uma apresentação da literatura do Paraná, com leituras e comentários.

Orientador: Ivan Justen Santana
(Mestre em Letras pela USP)

Início: 07/10/2010

Período: Quintas-feiras à tarde, das 15h às 17h,
no Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Visconde do Rio Branco, 1717, tel. 3232-8123).

Curso aberto a todos os interessados, gratuito
(certificado aos participantes com 80% de presença).

Carga horária: 20h
(em 10 sessões semanais de duas horas).

***

O curso Clássicos Paranaenses objetiva divulgar a literatura paranaense (desde suas origens e formação até a produção contemporânea) e assim ampliar a consciência do público leitor sobre a literatura feita no Paraná.

Compõe-se especialmente de leituras de textos selecionados, acompanhadas de comentários sobre autores e obras.

Apesar de primordialmente destinado às integrantes do Centro Paranaense Feminino de Cultura, o curso estende-se também à comunidade em geral (jovens e adultos), sendo gratuito e franqueando a todos os interessados as instalações do Centro Feminino.

O orientador, Ivan Justen Santana (Licenciado pela UFPR, Mestre pela USP), pesquisa as letras paranaenses desde 1991.

Sinopse da ementa:

(No. da sessão – Tema – Principais autores)
1 – Origens da Literatura Paranaense – Bento Cego
2 – Romantismo no Paraná – Fernando Amaro; Júlia da Costa
3 – Origens do Simbolismo – Dario Vellozo; Silveira Neto; Nestor Victor
4 – Evolução do Simbolismo – Emiliano Perneta; Andrade Muricy
5 – Pré-Modernismo x Modernismo – Emílio de Menezes; Euclides Bandeira; Sharffenberg de Quadros
6 – O Modernismo paranaense – Tasso da Silveira; Ada Macaggi; Newton Sampaio
7 – O caso Dalton Trevisan – Dalton Trevisan
8 – A síntese da poesia paranaense – Helena Kolody
9 – Pós-Modernismo – Jamil Snege; Paulo Leminski; Alice Ruiz
10 – Contemporaneidade – Cristóvão Tezza; Marcos Prado; autores atuais

quarta-feira, setembro 29, 2010

Um poema resgatado dum passado remoto...

Pratico uma ginástica de rimas
em cadências de infinitos semantemas,
reviro temas e remas, lemas e termos,
palmilho os extremos mais extremos,
percorro as passagens mais arcaicas,
os escolhos e os abrolhos ermos,
vasculho dos sinais aos climas,
dos debaixos aos em cimas,
degusto as maneiras várias, todas,
ajusto os jeitos tredos e ledos,
rejeito preitos e alaridos,
sujeito-me aos lodos, lidos, ludos,
apenas para fins e modos
de que graças a estes meus brinquedos
tu te exprimas e me imprimas
e eu te esprema e tu tremas e gemas.

sexta-feira, setembro 17, 2010

no meio

nomeio uma pedra: perda
nomeio aquele prado: pardo
nomeio o poder: podre

nomeio nossas palavras: larvas
nomeio-te a endoderme: der-me
nomeio a ingratidão, esta pantera:
pistilo

assim, do caminho – nipônico dô –
tiro o time (ti e me em que me meti),
doo (de doer) e destilo este nosso (osso)
estilo

*

quarta-feira, setembro 15, 2010

EU, O SEU QUERIDO POETA VIRTUAL...

Sim: eu,
o seu querido
(e desprezado)
poeta (Ivan) virtual,
não sou mesmo (lesmo)
(lês-mo?) um poeta de papel:
meu coração
(também não)
também não é de papel:
meu livro (se me livro)
também (idiotamente)
quando for publicado (se for)
não será feito de papel
e eu e meu livro
seremos feito o dia de hoje
feito este céu:
de onde o sol fugiu
e um vento (frio e cinzento) veio
e o dia terminou e começou
e começou (e terminou)
no meio

segunda-feira, setembro 06, 2010

Atendendo a um "pedylan" da ótima escritora, musicista e compositora Alexandra Lemos Zagonel,

eis, com vocês:
Soprando Ao Vento(Blowin' in the wind)

Quantas estradas alguém tem que trilhar
Até ser chamado de alguém?
E mais quantos mares a pomba vai cruzar
Até deitar e dormir bem?
E mais quantas vezes as bombas vão voar
Até ser banidas pra sempre?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão

Quantos anos mais as montanhas vão durar
Até deslizarem ao mar?
E mais quantos anos essa gente vai durar
Até poder se libertar?
E mais quantas vezes o homem fingirá
Que não pode ouvir nem olhar?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão

Quantas vezes mais o homem tem que olhar
Até conseguir ver o céu?
E mais quantas orelhas o homem tem que ter
Até que escute um grito seu?
E mais quantas mortes até o homem saber
Que gente demais já morreu?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão



Robert Allen Zimmerman / Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana

quarta-feira, setembro 01, 2010

UM CONTO DE SETE

(Sobre os sete na questão:
“Muitos sabem que são sete,
porém poucos reconhecem
ou recordam-se – quais são...?”)

Gula é gula, que a tudo engole e que a tudo engula:
“Eu também gosto quando me chamam de Glutonaria,
uma palavra maior, mais cheia de recheio e poesia...
Assim como Gula, começa com um som
que vem lá do fundo da garganta,
conforme Gulodice”, disse a Gula.

A Avareza chega e resmunga:
“Eu, pra mim, prefiro Ganância,
ou melhor, Gana.
Gasta menos letras.”

Pois é, hoje a Ganância estava espoleta:
mal ouviu a voz da gula, subiu-lhe à boca
uma ânsia análoga a nada,
e teve ganas de estrangulá-la,
ou melhor: só esganá-la...

Enquanto isso,
em proclamação universal,
a Soberba declara:
“Atenderei, se me chamarem de
Ostentação, Jactância e Ufania.
Porém Orgulho não!
Orgulho soa bom demais pro meu gosto,
parece virtude...
Outrossim,
nesse ínterim,
Vaidade também não me vai muito bem,
soa feito uma palavra pobre,
meio assim "geralzona", sabem?
Coisa de quem não compreende
todo meu luxo, requinte e sofisticação...”

Por sinal, nota-se que a Soberba
adora luxo e Luxúria,
mas esta só pensa naquilo:
“Naquilo, oras! E tem outra coisa pra pensar?”,
pergunta-se a Luxúria,
com um súbito brilho malicioso no olhar,
já imaginando
se não está perdendo alguma coisa...

Quanto à Preguiça, não está nem aqui.
Mandou dizer que dela não digam nada.

Isso deixou alguém furiosa, mas
já que tem raiva até de que a chamem de Ira
– “Só tem três letras, porra!” –
melhor é sair de perto...

Vejamos o que a Inveja anda fazendo.

Ah, olha só: a Inveja estava aqui
com a gente o tempo todo,
tão dissimulada e tão discreta que ela é,
quase ninguém percebe, né?

Ficou escondidinha,
morrendo de vontade de espiar
o que os outros andavam fazendo da vida...

Nisso, veem-se três sombras que saem de fininho.
Por fim, revela-se que eram sombras
de Mentira, Falsidade e Hipocrisia.

Elas tentavam não chamar atenção demais,
receando que alguém tivesse a ideia
de pegá-las pra pecados capitais...

terça-feira, agosto 24, 2010

FELIZ DIA DO TIO LEMA PRA VOCÊ TAMBÉM

(ou POR QUE NUNCA FIZERAM UM ACRÓSTICO AO LEMINSKI?)

por pior ou melhor
mais ou menos que
quente
eu requente
rerrequente
ou rerrerrequente

levou sessenta e seis anos
até que
talveliz
ficasse pronta
essa sopa rala
instantaneamente

quinta-feira, agosto 12, 2010

Finalmente uma loucura absolutely begins:

Eis pois volvendo ao velho estilo inglês
Revelo à vera um verso sempre jovem:
Rimas as quais já enjoaram joões vocês
São estas quetais e outra vez comovem.
Se vespas vivem mais, menos um mês,
Fica um ou no ou, e ou mais as chuvas chovem.
Enxovalhantementissimanão:
A gosto do freguês francês e todas vão.

For um quisto de Keats, paira em pira de Byron,
Achei Shelley e soube que Blake na urna de Burns
Se fez de Ossian entre os todos e tantos Ossians:
Porém do pomar dos românticos só sobraram romãs.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Ontem à noite. Sem sorvete.

Sonhei um sonho sonhado por um sonhador onírico:

cenário: bar-vagão-restaurante,
de nome-fantasia Parangolé,
sito à rua Clotário Portugal
(otário no Torto é Gal?),
onde sempre tinha um louco da família
acorrentado no porão
(ou seria no sótão? Mistério...) – ...

O bar-vagão-restaurante vibra
como um gigantesco forno de micro-ondas
ligado.

Dois personagens dialogam:
cura-prosador e poeta-barbeiro:
– Mas comé que aqueles concretistas tiveram a pachorra
de querer dar por encerrado o ciclo histórico do verso?
– Manha...
– O quê?
– Manha: “tiveram a manha”.
É assim que se diz, atualmente. Reformule.
– Tá: mas comé que aqueles concretistas tiveram a manha
de querer dar por encerrado o ciclo histórico do verso? –
indaga o poeta-barbeiro.
– É que não sabiam necas de nádegas de etimologia –
replica o cura-prosador:
– Soubessem que verso tem esse nome
porque sempre volta, e volta sempre,
não passavam um vexame desses.
– Necas de nádegas, certeza!
No instante em que o poeta-barbeiro diz “nádegas”,
uma freguesa de largas ancas e polpudas nádegas
adentra o recinto e senta-se numa banqueta,
diante do balcão.
O cura-prosador começa a socar uma bronha
(alá Leopold Bloom na praia às seis da tarde)
e o poeta-barbeiro, atocontínuo,
emenda outro assunto,
pra tentar disfarçar o tesão
que também o acomete:
– Caralhus! Você viu o novo livro da Assionara?
Com sorvete! Puerra: a Nara é poda pra baralho,
sindudalguma!
O cura-prosador sacode a cabeça
(também por consequência
de seus outros sacolejos, “secretos”)
e obtempera:
– Pois é. Ela é. Sinduda!
Mas, então, por que, por que você,
você não foi, não foi no lançamento,
do Amanhã. Com sorvete! Por quê?
– Caralhus! É que eu tava doente,
de cama, com febre,
e também tava com aquela fome,
fome de Knut Hamsun...
– Pelo menos, pelo menos,
não era de Charles Manson!

Os dois se cagam de rir da piada sem graça,
enquanto a freguesa, imóvel, polpudancálida
aguarda a chegada da barwoman,
a qual se recusa a comparecer ao sonho,
pois não tinha cachê,
tampouco suspiros.

Nem sequer sorvete.

terça-feira, julho 27, 2010

Mais um da Naomi...

Eu podia comentar muito a respeito,
mas só o farei após comentários de vocês.
Gritem...
Mas antes leiam:

LETTERS MY PREZ IS NOT SENDING
Naomi Shihab Nye

(aqui tem ela declamando este)

CARTAS QUE MEU “PRESI” NÃO VAI ENVIAR

Caro Rafik, Sinto muito pela partida de futebol
à qual você não vai mais, pois agora você
não tem mais...

Cara Fawziya, Sabe, eu também tenho uma mamãe
então posso imaginar o que você...

Cara Shadiya, Pense em seu pai
versus a democracia, aposto que você escolheria...

Não, não, Sami, não é verdade
isso que você disse no ato público,
que nosso país odeia vocês,
nós realmente apoiamos seu movimento
pela liberdade,
e é por isso que você não tem mais
casa, nem família, nem vilarejo...

Caro Hassan, Se ao menos você pudesse ver
a situação sob um ângulo mais abrangente...

Cara Maria, Surpreende-me que você tenha
o que aqui chamaríamos de um nome cristão
já que você mesma...

Cara Ribhia, Sinto muito por aquele ataque cardíaco,
eu sei que deve ter sido difícil para você viver
a vida inteira sob uma ocupação,
estamos mandando somente mais algumas bombas agora
para fortalecer seus opressores,
mas algum dia esperamos que a paz reine na região,
sinto muito que você não vai estar aí para ver...

Caro Suheir, Sem dúvida vozes foram feitas para se erguerem,
você não percebe que estamos falando
pelos seus próprios interesses...

Caro Sharif, A violência é uma coisa errada
a não ser quando somos nós que a usamos,
por que é que isso não faz sentido...

Cara Nadia, Eu não sabia da
sua gaveta especial, eu também gosto
de guardar umas coisinhas que significam muito pra mim…

Caro Ramzi, Você realmente precisa parar de chorar agora
e seguir adiante com os seus afazeres...

Caro Daddo, Eu sei que 5 filhos pequenos
deve doer muito perder de um golpe só
mas não podemos suspender nossos esforços...

Cara Fatima, É claro que eu tenho sentimentos
pelo seu povo, meu colega de quarto
era do Líbano...

Caro Mahmoud, gostaria de ter tempo para
responder sua carta, mas você deve compreender,
a pilha de correspondência aqui está impossível
e cada vez aumenta mais...


Naomi Shihab Nye
versão brasileira: Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 22, 2010

Abrindo a mão a um amigo

Hoje meu prezado camarada Felipe Arruda me mandou o seguinte poema, que traduzi e posto (com ó de admiração...).
Para mais informações sobre a autora, clique aqui.


Fechando o Punho
(Making a Fist, by Naomi Shihab Nye)

Pela primeira vez, na estrada norte de Tampico,
eu senti a vida deslizando para fora de mim,
um tambor no deserto, cada vez mais difícil de ouvir.
Eu tinha sete, deitada no carro, assistindo às palmeiras
trançarem um padrão enjoativo pelo vidro.
Meu estômago, um melão rachado dentro da minha pele.

“Como a gente sabe se já está morrendo?”
supliquei para minha mãe.
Viajávamos havia dias.
Com estranha confiança, ela respondeu:
“Quando a gente não consegue mais fechar o punho.”

Anos depois, eu sorrio ao pensar naquela viagem,
nas fronteiras que temos de cruzar separadamente,
estampadas com nossas aflições irrespondíveis.
Eu, que não morri, que ainda vivo,
ainda deitada no banco de trás das minhas perguntas,
cerrando e abrindo uma pequena mão.


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 15, 2010

O Lorde Byron até que é bonitinho, mas ela...

é muito, mas muito mais.

Assim, dedico os versos seguintes a ela:

Gianna Maria Nadolny Roland

(e também ao nosso Byronzinho
que agora anda perambulando
na barriga dela...)


ELA ANDA EM CHARME

Ela anda em charme, como a noite negra
__De climas cálidos e céus sem par:
Todo o melhor que a luz à sombra agrega
__Encontra-se no seu perfil e olhar,
Mesclado àquela rutilância meiga
__Que o firmamento oculta ao dia alvar.

Uma penumbra a mais, um raio a menos,
__E então talvez tal graça se evolasse,
Que em cada trança, em balanços amenos,
__Flutua ou pousa sobre a sua face,
Onde os pensares doces e serenos
__Se expressam com simplicidade e classe.

E na maçã, no rosto radiante,
__Tão macio, tão calmo, mas eloquente:
Sorriso vencedor – rubor pulsante –
__Que diz de dias idos gentilmente,
Da mente em paz com tudo circundante,
__Do coração de amor sempre inocente!


She walks in beautyLord Byron
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, julho 10, 2010

EM AQUE, EQUE, IQUE, OQUE, UQUE

Releitura dum soneto de Antônio José da Silva (Rio de Janeiro, 8 de maio de 1705 - Lisboa, 19 de outubro de 1739), conhecido como o Judeu, poeta e dramaturgo de sucesso, condenado pelo Santo Ofício e queimado vivo.


jogou o amor comigo um toque roque
mas no meu taco não é mais cacique
cem vezes lhe tangi com tal repique
que os ouvidos tapou ao som do toque

na batalha ao amor restou-lhe o choque
em trunfo de fineza pus-lhe aplique
e a vênus renegada que se explique
brindando-me com dama de reboque

projetem-se das opções todo um leque
senão me acham aqui burro e basbaque
furando outro estepe do calhambeque

descubra-se então dama sem dar traque
ou novamente encetarei no muque
esta mercedes que só guia fuque

quinta-feira, julho 08, 2010

A HISTÓRIA DUMA GATA

Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
__(A Gata)


Aquela gata tinha patas de susto,
um lombo lento, um porte augusto,
toda espécie de sabedoria empírica
e umas unhas de puta lascada –
nunca coçava o nariz
e era tão (ou mais) polida
quanto a persona lírica
daquela moça grilada
dos versos da Alice Ruiz.

sábado, julho 03, 2010

Em homenagem ao Dunga (o técnico e o personagem)

*
CORINGA: VOCÊ

Em pé sobre as águas forjando pães em miolos
Enquanto os olhos do ídolo brilham ferro em brasa
Navios distantes vogam em nevoeiros profundos
Você nasceu com serpentes nos punhos
Enquanto furacões sopravam
A liberdade ali na esquina espera você
Mas com a verdade tão longe, que bem pode fazer?

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você

Tão veloz o sol se põe no céu
Você se ergue e diz adeus a ninguém
Os tolos se lançam onde anjos temem trilhar
Ambos os seus futuros cheios de horror
Não se expõe alguém
Descascando mais uma camada de pele
Um passo adiante do perseguidor dentro dele

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você

Você é um homem de alturas, você anda nas nuvens
Manipula multidões, enrola sonhos e afãs
Você ruma a Sodoma e Gomorra
Mas pra que toda essa pachorra?
Lá ninguém desposaria as suas irmãs
Amigo do mártir e da dona do prostíbulo
Você inspeciona a fornalha, vê o rico já sem título

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você

Pois é, o Livro do Levítico e o Deuteronômio
As leis da selva e do oceano são seu único guia
Na fumaça do luscofusco num garanhão leitebranco
Feições tais as suas só Michelangelo esculpiria
Descansando nos campos, longe do espaço tumultuoso
Semidormindo às estrelas, um cãozinho lambe-lhe o rosto

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você

Pois é, o atirador atocaia os doentes e os mancos
O pregador, competindo, guarda os mesmos planos
Cassetetes e jatos d’água, gás lacrimogêneo e algemas
Coquetéis molotov e pedras sob todos os panos
Juízes hipócritas morrem nas teias que tecem
É uma questão de tempo até que as trevas se expressem

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você

É um mundo cheio de sombras, os céus são cinzentos
Uma mulher pariu um príncipe e o vestiu de púrpura
Ele botará os padres no bolso, as lâminas nas forjas
Separará os órfãos de todas essas corjas
E os colocará aos pés de uma prostituta
Coringa você, você sabe o que quer mais
Coringa você, não mostra quaisquer sinais

Coringa você dança ao som do rouxinol
A ave voa alto à luz da lua e do sol
Ô, ô, ô, ô-ô, coringa você


Jokerman, Bob Dylan
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

terça-feira, junho 29, 2010

Fora da estação (e pela metade), com vocês, um

*
RENGA DE OUTONO

garoa invisível –

finas lâminas que lavam
nossas velhas almas

som de chuva não se vê:
nem se a lua usava luvas

frágeis mãos morenas
penetram a terra negra
buscam a raiz

cavem, cavem, dedos ágeis:
suas unhas fazem medo

na testa gotículas
há pressa na rua escura
meias e uma saia

brandamente as gotas brancas
se transformam: fios de faca

corte – com três lâminas
enfeitou-se um corpo inerte –
sabe mas não sabe

poema de amor na carne
em sutil caligrafia

desenhos que brilham
numa pele que diz: sim
e os corpos se tocam

e como músicos cegos
respiram num só compasso

melodicamente
a pauta foi calculada
e os corpos se tocam

as pedras azuis do ábaco
deslizam para a direita

a crescente luz
os formatos do luar
e o calor sinfônico

joelhos e violoncelos
cicatriz num longo braço

verberam verbenas
na pauta já calculada:
e o som azul chove

o céu imenso em pedaços
nas gotinhas da janela

um gineceu abre-se
um androceu se antecipa:
anteras panteras

as razões de um negro galho
na emoção da flor do ipê


Ivan Justen Santana
Rodolfo Jaruga

quinta-feira, junho 24, 2010

A HISTÓRIA DE SEMPRE, NUNCA, NÃO, SIM, NEM E NADA SEM TUDO OU MAS

*
Nunca desejava assassinar sempre.

Não sabia serem irmãos de sangue.

Sim disse: nada havia que os cindisse.

Nem avisou: hoje é o dia de nunca.

Sempre mandou pra nunca um bumerangue.

Nunca pensou em usar o brinquedo.

Mas sempre decidiu odiá-lo em segredo.

*