terça-feira, junho 18, 2013

QUEM LIDERARIA OS ANTILÍDERES?

nenhum sociólogo
nenhuma cientista política
nem qualquer comentarista pontual
demonstram entender
que porra está acontecendo
exatamente porque não sabem
o que é um movimento anárquico --
a política deles está em conceitos
de esquerda ou direita
e só entendem de fracasso
ou de sucesso
-- pouca gente nota
que nosso mote positivista
carrega os opostos:
caos e regresso--

quinta-feira, junho 06, 2013

Depois do depois de

Depois de garimpar [já tinha feito isso na "vida real"] na rede isso aqui [traduções feitas por Leminski publicadas na revista Remate de Males, da Unicamp], resolvo transcrever um dos poemas, porque deslizaram na transcrição e não respeitaram um "enjambement" [quando um verso continua no outro] -- é uma tradução de um soneto enigmático do italiano Antonio Malatesti (1610-1672), da centúria de sonetos La Sfinge, publicada originalmente em Florença, em 1643. Teorias sobre o significado do poema serão muito bem-vindas nos comentários...


eu vi em terra um homem fazer dona
depois de uma tela ter por terra
e de mostrar, por homem, a terra
sob terra tela e sobre terra dona

não era mais que sombra enfim a dona
mais que sombra e que tela enfim a terra
quem vive de sombra e tela na terra
é quem fazia em tela sombra à dona

tal força com sombras tinha este homem
que transformava dona, terra e tela
no loiro metal que contenta ao homem

quero ver se é possível que uma tela
intrincada, destrinchar saiba um homem
que diga quem a dona, a terra, a tela


Malatesti vertido por Leminski
________________________________

segunda-feira, junho 03, 2013

A FASE & AS FRASES

de ijs a ffr:

A fase é difícil, como sempre foi e foram de outro modo as outras fases, e as frases demoram ou às vezes nem saem para ver o clima que está fazendo. A poesia engata nos interstícios, dissolve-se nos interlúdios, ou fica com aquela cara do que podia ter sido, porque a fase é difícil, e as frases ainda não se recuperaram das dores de garganta, mas até que às vezes um verso volta a insistir em ser feito. De seu lado, a prosa até que funciona, mas as frases se enrolam ou não se desenrolam, o que se diz e o que deveria ter sido dito às vezes até coincide, mas a fase é... Pois é: talvez nem assim tão difícil, mas é estimulante também só para ver se o ânimo mais singelo volta e completa o que ficou por ser explicado, ou estabelecido, ou só existe sem muitas questões a respeito. E os versos querem ser escritos, mas... Mas vão ter que sair assim mesmo:


Nem o problema da física mais complexa,
nem outra dificuldade insuperável já transposta,
nada resolve uma proposta ainda não proposta,
nenhuma ação ou liberdade ou coisa mais desconvexa:

tudo isso só seria uma mera enrolação
se não fosse mais que importante pra ti e pra mim, assim:
a diferença entre os nãos que só querem ser não
e a palavra simples que nos dizemos um ao outro: sim.

...

sexta-feira, maio 24, 2013

TARA MELA

*
TARA MELA
INSIRA CURA
TINTA CLAQUE
ATAQUE DURA

OGRO MALA
EM MERDA LIRA
TANTO BOTE
A TOQUE FIRA

FRÁGUA GULA
ENCERA FALA
TONTA CIFRA
ATÉ QUE NÃO

ijs

quarta-feira, maio 08, 2013

NÃO BANKSY O LEMINSKI

*
NÃO BANKSY O LEMINSKI

FATURE O FUTURO ASSIM QUE

O TERROR OSSO RISO E AFLORA

E AGORA QUEM NÃO EMBOLORA?

QUEM É QUE TE MATA NO PEITO?

SINCERO SEM SER O AMOR DOMO SUSPEITO?

QUEM PIXO? QUAL DESPACHO? QUANDO?

CAMINHOS PELOS CABELOS: VOANDO

SOU MAIS O PIXO DO QUE O LIXO DO CONSUMO

SUMA DO FISCO E FIQUE COM O SUMO


ijs

____________________________________

quarta-feira, abril 17, 2013

CADA MANÉ (COM SUA FÉ)


palpite
o grafite
é o limite

p.leminski

cada mané
com sua fé

cada maria
com sua mania

cada josé
com seu pelé

cada joanete
com sua elisabete

cada centavo
com seu escravo

cada arbusto
com seu augusto

cada pateta
com seu poeta

cada poeta vagau
com sua treta sacal

cada gata
com sua pata

cada cara pálida
com sua tara esquálida

cada corno manso
com sua dor no ganso

cada cinema
com seu poema

cada fraldinha
com sua maminha

cada fervo
com seu frevo

cada consulta
com sua jurisconsulta

cada pato
com seu sapato

cada extrato
com seu abstrato

cada pacto
com seu compacto

cada cabeça besta
com sua sentença funesta

cada crítico
com seu diacrítico

cada crítico raquítico
com seu tríptico sifilítico

cada paga pau
com seu não apaga nem a pau

cada cova rasa
com sua escova da nasa

cada arte de rua
com sua parte de sua

cada porte de arma
com seu capote de alma

cada sol
com seu lençol

cada gógol
com seu google

cada bacilo
com seu vacilo

cada pinote
com seu vinhote

cada velha seita
com sua cela estreita

cada cela estreita
com sua tela suspeita

cada celacanto provoca maremoto
com seu acalanto sem controle remoto


IJS (com parceria de FFR)

...

terça-feira, abril 09, 2013

Mais Byron, logo antes do arremate do Canto I do Childe Harold's Pilgrimage


PARA INEZ

                   1.
Não, não sorrias a meu cenho,
    Que eu já sorrir posso mais não:
E os Céus evitem que tu venhas
    Chorar alegremente em vão.

                   2.
Perguntas qual secreta dor
    Suporto sobre a Juventude?
E queres, vã, saber sabor
    De ardor que tu curar não podes?

                   3.
Não é o amor, tampouco é o ódio,
    Ou parcas honras de Ambição,
Que deixam podre este meu pódio,
    E me dispersam na amplidão:

                   4.
É o tal cansaço que desponta
    De todos que já ouvi e já vi:
A Beleza me desaponta;
    Teus olhos são sem charme a mim.

                   5.
É o tal eterno tédio fundo
    Que o Judeu Errante aturava;
Que nada vê a não ser a tumba,
    Mas vive agitação escrava.

                   6.
Que Exílio de si mesmo existe?
    A Zonas mais e mais remotas,
E inda assim me persegue o chiste –
    Na Mente o Demo toma notas.

                   7.
Mas outros parecem gozar,
    Saboreando o que larguei;
Ah, possam inda assim sonhar
    Sem acordar como acordei!

                   8.
Por tantos climas vai meu fado,
    Com tantas maldições e dores,
Que meu alívio é este ditado:
    “Venha o que vier, já estive em piores.”

                   9.
Mas quais piores? Nem perguntes –
    Por piedade aqui te abstenhas:
Sorria – as peças jamais juntes
    Do peito humano: Inferno e brenhas.


versão brasileira: Ivan Justen Santana

quinta-feira, abril 04, 2013

O MACHISTE & A EFEMINISTA

I

Era um sonho num consultório dentário,
Dantesco, extravagau, alucinário:

Numa poltrona não namoradeira,
A Efeminista aguardava, à beira

De um ataque de nervos, a sua vez;
O Machiste, também dali velho freguês,

Folheava uma revista fiu-fiu-menina,
Em busca de consolo a sua triste sina.

Entreolhavam-se, de instante a instante,
Amor de fábula, muito inconstante,

Enquanto lá dentro, sentada na cadeira
Quase elétrica do dentista, uma confreira

Submetia-se a um tratamento de canal:
Esperemos que a história não acabe mal.

II

Ninguém suspeitava que o dentista
Era uma orangotanga sofrendo da vista.


ijs

______________________

CHOCOLATES SÃO PRESENTES

*
Chocolates são presentes
mais amargos quando são
envolvidos inocente-
mente em temas sem questão.

Mas a Páscoa já passou---
sexta-feira foi Paixão:
ou nos tomam por mim ou
não sei mais pronome não.

ijs

________________________

terça-feira, março 26, 2013

NOSSOS SÍMBOLOS & EU

*

Nossa terra tem pinheiro: araucária;
Nossa araucária tem gralha: azul;
Miseravelmente interplanetária:
Sorriso se orientando para o Sul.

Nosso poeta – araucária – é polaco;
Nosso contista – gralha –, vampiro;
Não seja eu gralha mas só um Ivan-piro:
Em vão poeta sem curro nem paco.

ijs

...

terça-feira, março 19, 2013

ORAÇÃO DOIS [TRÊS, QUATRO, CINCO, MIL...]

*
Essa é a primeira oração
Pra salvar a próxima geração:
A ração atual de cultura é simplória
E os criticuzinhos não estão prontos pra glória.

Cabem mil vidas inteiras
De quem praticou e teorizou
Sobre todas as mais sérias brincadeiras.
Cabe até o amor que poucos mostram
Enquanto muitos, tantos, se prostram.

Se a alegria já foi a prova dos nove
Agora teremos uma infinita graça
Junto de um sublime que comprove

No seu, no meu, no vosso bar,
No dela, nos deles, em qualquer lar.
Responderão então a este curitibano mar?

Quem poderá controlar?

*

quinta-feira, março 07, 2013

NÃO FAÇA DE MIM SEU PTERODÁTILO

de ijs a ffr

Não faça de mim
seu pterodátilo,
seu cantor anterior
até ao neolítico,
também não seja eu
seu núncio apostólico.

Por você eu me
transformo num Átila,
livro-nos dessa
situação crítica,
deixo até que você
pense em ser católica.

--<-- p="">

QUANDO AMBOS PARTIMOS

George Gordon, Lord Byron. [1788–1824]

WHEN WE TWO PARTED
QUANDO AMBOS PARTIMOS

[First published, Poems, 1816]
{versão brasileira: Ivan Justen Santana, 2013}

WHEN we two parted
QUANDO ambos partimos
  In silence and tears,
  Em silêncio e prantos,
Half broken-hearted
Corações partidos
  To sever for years,
  Longe tantos anos,
Pale grew thy cheek and cold,
Branco teu semblante e frio,
  Colder thy kiss;
  Mais frio teu beijo; 
Truly that hour foretold
Aquela hora sim previu  
  Sorrow to this.
  Triste o desejo. 

The dew of the morning  
O orvalho da aurora
  Sunk chill on my brow—
   Correu frio em mim—
It felt like the warning  
Aviso de outrora
  Of what I feel now.  
   Do que sinto enfim.
Thy vows are all broken,  
Teus votos quebraste,
  And light is thy fame:  
   E leve é tua fama:
I hear thy name spoken,
Teu nome em contraste
  And share in its shame.  
   Já deitam na cama.

They name thee before me,  
Nomeiam-te a mim,
  A knell to mine ear;  
   Som lúgubre soa;
A shudder comes o'er me—  
Tremores por mim—
  Why wert thou so dear?
   Por que foste boa?
They know not I knew thee,  
Não sabem que te vi,
  Who knew thee too well:  
   Conheço-te bem:
Long, long shall I rue thee,  
Sofrerei, sofrerei por ti,
  Too deeply to tell.  
   Não o saiba ninguém.

In secret we met—
Secretos, nos vimos—
  In silence I grieve,  
   Calado, eu lamento
That thy heart could forget,  
Que tenhas te esquecido,
  Thy spirit deceive.  
   O espírito ao vento.
If I should meet thee  
Se acaso eu te vir
  After long years,
   Depois de anos tantos
How should I greet thee?  
Como hei de sorrir?
  With silence and tears.
   Com silêncio e prantos.


*NOTA DE RODAPÉ IMPORTANTE:]
Este poema já foi traduzido em equipe pelos estudantes de Letras da UFPR Anna Beatrice, Juliano Costa, Laura Faraone e Stephanie da Silva, sob orientação do pesquisador Vinícius Barth -- clique aqui pra conferir o resultado -- Devo a eles a solução-base inicial de alguns dos versos, pois trabalhei em cima do texto deles, que saiu num jornal do CAL -- clique aqui pra maiores vistas -- Valeu, gente. Gente? ...


* * * * * * *

sábado, fevereiro 16, 2013

QUEM SABE EU

_
Quem sabe eu
ainda sou
aquele piazinho
cdf e bagunceiro
que usaria plágio
depois cópia elaborada
depois paródia pós-estilizada.

Quem sabe eu ainda
sou aquele adolescentezinho
que foi piá de prédio
mas também piá de bairro
depois músico esqueitista
burro que o pai pensava artista.

Eu não peço a deuses nenhuns
nem que todos me achem ateu
judeu comunista vagau vigarista
piá pançudo sem nem
um pouco de malandragem:

sim: também não conheço a verdade.

Fale pra mim quem você é
e eu te digo
sem vontade
que a vontade
é o preço mais barato
a pagar pela fé.

ijs

...

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

PARA IANTHE


{BYRON, dedicatória do épico A Peregrinação de Childe Harold}
_
    Não nas paisagens onde andei vagando,
    Bem que a Beleza seja lá sem par,
    Nem nas visões ao coração mostrando
    Formas que este suspira só em sonhar,
    Nada de Vero e Mago a te igualar:
    Tendo te visto, buscarei em vão
    Pintar teus charmes vários a piscar—
    Aos que não te observam, meu verso é anão;
Aos que te podem ver, quais rimas bastarão?

    Ah! possas tu ser sempre o que agora és,
    Seguindo um despontar tão promissor—
    Tão bela e pura da cabeça aos pés,
    Na terra a imagem sem asas do Amor,
    E ingênua além do esperado a uma flor!
    Sem dúvida a que agora cerca em muros
    Teus verdes anos, grata ao resplendor
    Contempla os arcos—teus anos futuros—
Iridescentes sobre os céus claros e escuros.

    Fada jovem do Poente! — tenho a sorte
    De superar em dobro os anos teus;
    Meus olhos te olham sem querer consorte,
    Notando que despontas rumo aos céus;
    Feliz, a ti nunca darei o adeus;
    E mais feliz, enquanto corações
    Mais jovens sangrem pelo amor do teu,
    Escaparei ileso de teus dons,
Mesmo que volte sempre o Amor às aflições.

    Ah! que os teus olhos loucos das Gazelas,
    De brilhos bravos, bela timidez
    A conquistar e a provocar sequelas,
    Leiam meus versos e lhes cedam vez,
    Sorrindo a quem em vão te quer talvez—
    Pudesse eu ser mais do que teu amigo:
    Aceita então, ó Moça, sem porquês;
    Teu jovem ser assim ser meu perigo,
E dá a minha coroa um Lírio sem castigo.

    Assim teu nome esteja aqui entrançado;
    E sempre que olhos bons nos venham ler
    Teu nome, Ianthe, aqui sacramentado
    Será o primeiro a ler, sempre a reter:
    Meus dias já contados—reste haver
    Este tributo te atraído à Lira
    De quem te sagra a mais bela de ver—
    O que mais desejar eu poderia?
Se não pôde a Esperança, a Amizade exigia.



{vb:ijs:2013}
________________________

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

PARA UMA CERTA CANDIDATA A NORTE-AMERICANA:

;
Dum chapéu meu sobrou só a caixa.
De outra paixão, nem sobrenome.
Do caratê sobra esta faixa—
Da humanidade, a flor e a fome.
Dos meus carinhos sobro em todos:
Meus próprios céus são meus infernos.
Eu tenho modos: ostrogodos.
Eu tenho meios: pós-modernos.
Dos sentimentos nos compomos.
Reescrevo então um parnasiano,
Pois onde estamos sempre há pomos
E o nosso amor é tão cigano.
__Nós combinamos sem talvez
__Feito este sonetilho inglês.

[de ijs a ffr]

...

sábado, fevereiro 02, 2013

MARMOTA JOYCE YEMANJÁ CURITIBA


Outra vez é o dois de fevereiro.
Outra vez é o dia da marmota.
Outra vez James Joyce, inzoneiro,
Sopra vela e quase ninguém nota.

Hoje é também dia de Iemanjá.
O calorzão faz mais lerda a lesma.
Tantas frases feitas manjo já.
Curitiba nunca é mais a mesma.

...

terça-feira, janeiro 29, 2013

quinta-feira, janeiro 24, 2013

"Temos que estudar Dylan e noite!" [eu, ontem à noite...]

ROMANCE EM DURANGO
(Romance in Durango -- Bob Dylan -- vb: IJS)

Pimenta vermelha no sol de torrar
Poeira na minha cara e na capa
Eu e Madalena fugindo pra lá
Acho que dessa a gente escapa

Vendi o violão pro filho do padeiro
Por umas migalhas e um mocó
Mas já arranjo outro instrumento
E na estrada pra ela eu toco

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Passando a ruína asteca e nossos fantasmas
Cascos feito castanholas batendo no tom
À noite eu sonho sinos pelas torres pasmas
E então vejo o rosto em sangue de Ramón

Fui eu quem atirou nele na cantina?
Foi minha mão na arma a disparar
Vamos lá fugir, minha Madalena
Os cães ladram e o passado morto está

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

Numa tourada sentaremos à sombra
Veremos o jovem toureiro por lá, só
Beberemos tequila onde os nossos avós
Trilharam com Pancho Villa até Torreón

O padre recitará em seu velho tomo
Naquela igrejinha lá daquele bairro
Eu com botas novas e brinco de ouro
Você com diamantes no vestido branco

O caminho é longo mas o fim é ali
A fiesta até já começa bem animada
A face de Deus já surgiu, eu vi
Com seus olhos de serpente de obsidiana

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos levará a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto acabará
Logo você dançará o fandango

Foi um trovão esse som que eu ouvi?
Minha cabeça vibra e só dói se eu respiro
Não diga mais nada e sente aqui
Pelo jeito é meu fim, tomei um tiro

Madalena, rápido, pegue a arma
Veja nas colinas aquele reflexo
Mire direitinho, minha pequena alma
Desta noite não passamos, pelo jeito

No llores, mi querida
Dios nos vigila
O cavalo logo nos leva a Durango
Agarrame, mi vida
Logo o deserto vai acabar
Logo você vai dançar o fandango

...