quarta-feira, abril 23, 2014

PALAVRAS DE TITÂNIO

[sim, mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (1971-2014), escrito em homenagem a seus professores, quando o Cid fazia a oitava série e tinha 13 para 14 anos de idade -- esse texto não foi selecionado para nenhuma premiação, mas fica aqui registrado a quem possa emocionar]

I

Tu, que trabalhas arduamente,
fazendo plantas e esquemas
de construção simples mas engenhosa,
engenheiro da mente humana.

Tens nas tuas rédeas,
tens nas tuas mãos
olhinhos agressivos e espertos
ou olhares reprovadores e radicais.

Que levas e mais levas!
(quase não acabam mais)
Se dormes, é tarde da noite,
Se não, são planejamentos que fazes,

planejamentos audazes,
planejamentos tenazes,
pra conter na tua mão
o que às vezes numa sala não cabe.


II

Carregas em teu nome
tua dura vida
com centenas de alunos
-- um pai com centenas de filhos.

É duro não ser perfeito.
É duro nem sempre acertar,
pois tuas palavras de titânio
consolidam mil caracteres,

pois em tuas mãos
formas as existências.
O que disseres, o que fizeres
vai comandar o futuro.

És o elo entre antes e depois:
quanto mais passares adiante
e quanto menos segurares
mais razão teve a tua vida.

Sem exagero, pode-se dizer:
-- Sublime tarefa de amor.
Vida doada ao futuro,
vida doada à esperança!

És os olhos do mundo
modelando teus alunos.
És os olhos dos teus alunos
olhando corretamente o mundo.


[Curitiba, 7 de outubro de 1985]

...

segunda-feira, abril 14, 2014

Mais um poema do meu irmão --

Esse é uma joia rara: confiram --


SONETO DA FELICIDADE

A felicidade não é grande nem azul.
A felicidade não é o norte nem o sul.
Não tem mapa nem direção.
É frágil e de curta duração.

Para que nela caiba toda tua vida
procura em todos os momentos a alegria escondida.
Usa cada tristeza tua como uma lição.
Usa cada alegria como impulsão.

A busca da felicidade é uma estrada
por selvas cercada e por pedras barrada:
remove-as sem levantar para não ser derrubado.

Não as empurres que o tesouro será esmagado.
Verte-as apenas para o lado, de mansinho
e terás aberto o caminho.


Cid Justen Santana (1971-2014)

[publicado num boletim informativo do Colégio Positivo, em outubro de 1986]

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quinta-feira, abril 10, 2014

BATENDO NA MESMA TECLA

[Mais um poema do meu irmão Cid Justen Santana (Curitiba, 8 de novembro de 1971 - 6 de abril de 2014); este foi premiado no décimo segundo concurso Palavra Viva, da Sociedade Educacional Positivo, em 1988.]

Batendo na mesma tecla,
eu vou conseguir explicar
que bater na mesma tecla
é o que devemos realizar,
pois nos batem na mesma tecla
que está certo o que é antigo,
já batido de mesma tecla,
copiar não tem perigo,
e todos batemos na mesma tecla,
precisamos bater pra existir,
e até que bater tanto a tecla
fica um pouco legal de se ouvir,
e eu bato na mesma tecla,
pois tal bate toda a gente,
e batendo na mesma tecla
eu não pareço diferente,
e de tanto bater na tecla
eu já me sinto até decente,
especialista em batimento de tecla,
de grande engrenagem sou dente,
não se apoquente (batendo na mesma tecla),
que eu já consegui reservar
(enquanto batia na tecla)
meu nome na lista de espera
(e vou batendo na mesma tecla)
pra um dia eu poder viajar
(até lá eu bato na tecla)
ao mundo dos Sem-Polegar.
(Batendo na mesma tecla.)

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domingo, abril 06, 2014

MUDANÇAS

(poema de Cid Justen Santana, meu irmão, falecido neste dia 6 de abril de 2014, aos 42 anos de idade; o poema foi premiado no décimo Concurso Literário Palavra Viva, promovido pela Sociedade Educacional Positivo, em 1986, quando o Cid contava 15 anos de idade)

Mudanças.
A vida está cheia delas.
Depois de amores e procelas,
coisas feias e belas,
que resta para o Homem?
Apenas o nome.

Quando se é criança,
moleque, se é tratado pelo nome
mais um "inho" e apenas.
Doce vida a das crianças pequenas...

Depois vem a idade adulta
(daí o tratamento é mudado).
É "senhor" ou "senhora" e o nome.
É duro sustentar os alicerces desse mundo avacalhado.

Então vem a velhice:
"vô", "vó" e o nome; é só.
Vibração microscópica no silêncio
ostracístico da solidão do pó.

Causa, procedimento, conseqüência.
Estudo por estudo, vida do Homem,
chega-se à conclusão de que
o tempo muda e tudo consome.

É distância impercorrível que fica
da pureza do parto à morte do Homem.
Vai ficando embrutecido pelo mundo
e só permanece... inalterado... o nome.

Cid Justen Santana

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sexta-feira, abril 04, 2014

E AÍ É O UI E O OU

...
Todo mundo faz cocô.
Todo mundo tem chulé.
Tudo bem que tem a flor.
Tudo bem que tem o pé.
Todo mundo sofre dor.
Ninguém faz tudo o que quer.
Tudo bem que tem amor.
Tudo bem que tem a fé.
Mas às vezes até a fé
se confunde com o horror
e portanto, meu senhor,
não me diga, por favor,
dessa vida sem temor
ser questão de o que é o que é.

ijs
...

segunda-feira, março 31, 2014

quinta-feira, março 06, 2014

O MEU IRMÃO ENQUANTO INSPIRAÇÃO

Ao Cid Justen Santana
*
O meu irmão enquanto inspiração
é tanto o que não fez e o que tentou
porém também tanto o que fez, na ação
de ser, mesmo no ser que não chegou.

O meu irmão enquanto aspiração
prossegue sendo esse desenrolar
das coisas que inda não são mas serão
e no que ele tentar bolar colar

e até no medo que me dói de assim
o transformar em futura canção,
considerando um não qual sim e em mim
o meu irmão enquanto inspiração.


...

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

DO AMOR E ESSES TRABALHOS DE POESIA

*
Sim, você sabe, não são tão difíceis
os versos decassílabos perfeitos.
E versos bem escritos são quais mísseis

que atingem muitos mil, de muitos jeitos.
Mas todo dia tem algum problema:
tem cercas com limites muito estreitos,

tem quem queira que o resto reze e gema,
e quem proponha tiros, socos, chutes.
Bem poucos ousam não seguir esquemas

enquanto a gente segue e só deglute
os ditos sanduíches de realidade,
sentindo falta de outras teclas mutes

pra suportar a vida na cidade.
Talvez só esteja, sim, perdendo tempo.
Talvez viva contente atrás de grades.

Talvez tais três talvezes que aqui tento
não sejam um final que alguém queria.
Porém é só. Sim. Só. Fiz só de exemplo

do amor e esses trabalhos de poesia.

ijs

...

terça-feira, fevereiro 25, 2014

The Quiet Crowd




A Multidão Silenciosa

Would you rather be more than the things that you say
Or just be the words that you sing to yourself in your head
When nobody's around
Or would you rather be a part of the crowd or just a single sound
Waiting to be heard
Do you know what I mean?
Well you could be one of the lovers or liars
Hiding all the things that they do on the back of their hands
Well it's just you and me
'Cause everybody's got a little wrong in all the right places
Just depends on where you are
While you're hanging around
Você preferiria ser mais do que as coisas que diz
Ou só as palavras que canta na cabeça para si
Quando ninguém está perto
Ou você preferiria ser parte da multidão ou apenas um som
Esperando ser escutado
Sabe o que quero dizer?
É você podia ser um dos amantes ou dos mentirosos
Escondendo tudo que fazem nas costas das mãos
É somos só você e eu
Pois todo mundo tem lá um erradinho bem nos lugares certos
Só depende de onde você está
Quando você está por aí

Dear Mr. Quiet who's got so much to say
So much more than all of the sleeping parade
If I could tie up a string to your mouths and make you scream
All of the things that you keep to your self
I'd love to get to know you better
Dear Mr. Quiet I'd love to get to know you better
When nobody's around
While we're all staring at the end of the world
Will everybody have their hands on their head while they say
Well I told you so
While everybody's walking their own way through the quiet crowd
All thinking the same old things
If they only knew
Caro Sr. Silencioso com tantas coisas para dizer
Tão muito mais do que todos do desfile sonolento tem
Se eu amarrasse um barbante em suas bocas e fizesse você(s) gritarem
Todas as coisas que você(s) guarda(m) para si
Eu adoraria conhecer você(s) melhor
Caro Sr. Silencioso eu adoraria conhecer você melhor
Quando ninguém está perto
Enquanto assistimos todos ao fim do mundo
Será que colocarão todos as mãos na cabeça e dirão
É eu falei pra você
Enquanto seguem seus próprios caminhos pela multidão silenciosa
Todos pensando as mesmas velhas coisas
Se apenas eles soubessem

Patrick Watson
Ivan Justen Santana

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domingo, fevereiro 02, 2014

DIA DE IEMANJÁ, DIA DA MARMOTA, DIA DE JAMES JOYCE: IEMANJOYSTARAM?

*
E eis mais um jamsjoysversário:
centenário de Um Retrato
do Artista como um Mancebo.

Isso: A Portrait of the Artist
as a Young Man. Não concebo
não fazer um trocadilho

com o como e até com sebo,
pois foi pai, marido e filho
mesmo sem ter sido santo.

Pelo menos por enquanto...


ijs, 2/2/2014 --

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sábado, fevereiro 01, 2014

AO POETA CESAR ROSSILHO

*
Pelo festejo do dia
que é uma data natalícia,
dou-lhe um presente-notícia
mas que você já sabia:
seus versos, Cesar Rossilho,

não deixam de ter seu brilho.
Porém seus melhores poemas
você os fez em parceria
com a esposa-canção, Carmen:
seus dois filhos, Troy e Faena.
Aos quatro deixo estes charmes
de celebração serena.


(a primeira estrofe é por mais cinquenta, e a segunda, por mais sete anos: e essas congratulações em parênteses prosaicos são porque não consegui dizer tudo que queria em versos medidos e rimados: felicitações, Cesar!)

Ivan Justen Santana

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terça-feira, janeiro 28, 2014

TERRÍVEL FALTA VOCÊ FAZ

(para quem sabe para quem)

Terrível falta você faz
porém quem mais faltou fui eu.
História estranha masca paz.
Fosse sufoco se perdeu.

Quem gosta de perder o pé?
Quem curte não usar a mão?
Quando nem chega a ser até
não tem desculpa o que foi vão.

Fosse algo um pouco em mim perdi.
Nada que nem se leva e traz.
Só quis dizer sem troco aqui
terrível falta você faz.

(Mas se deixei de algo falar
está no chão do céu do mar.)

...

ijs

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quinta-feira, janeiro 23, 2014

ESCRITO APÓS NADAR DE SESTOS A ABIDOS

WRITTEN AFTER SWIMMING FROM SESTOS TO ABYDOS *
(Traduzido após verter o Childe Harold's Pilgrimage, Cantos I & II)

 _____1.
If, in the month of dark December,

__Leander, who was nightly wont
(What maid will not the tale remember?)
__To cross thy stream, broad Hellespont! 
_____1.
Se, num dezembro escuro e frio,
__Leandro, às noites sempre pronto,
(Qual dama não relembra o mito?)
__Cruzava o mesmo amplo Helesponto! 

____2.
If, when the wintry tempest roared,

__He sped to Hero, nothing loth,
And thus of old thy current poured,
__Fair Venus! how I pity both! 
____2.
Se, no rugir da chuva brava,
__A Hero ele ia, sem querer menos,
E assim as águas já puxavam,
__Tenho dó de ambos, bela Vênus!

____3.
For me, degenerate modern wretch,

__Though in the genial month of May,
My dripping limbs I faintly stretch,
__And think I've done a feat to-day.
____3.
Pois eu, moderno decadente,
__Mesmo no ameno mês de maio,
Achei meu feito algo excelente,
__E quase que sofro um desmaio.

____4.
But since he crossed the rapid tide,

__According to the doubtful story,
To woo,—and—Lord knows what beside,
__And swam for Love, as I for Glory;
 ____4.
Se a correnteza ele enfrentava,
__Segundo a duvidosa história,
Por dons — ou algo mais — da amada,
__Enquanto que eu nadei por glória;
__
____5.
'Twere hard to say who fared the best:

__Sad mortals! thus the Gods still plague you!
He lost his labour, I my jest:
__For he was drowned, and I've the ague. 
____5.
Quem dirá qual prêmio melhor
__O Olimpo aos mortais receita?
Um perde o amor, e o outro, o humor:
__A Leandro, o mar; e a mim, maleita.

Lord Byron, 1810

Ivan Justen Santana, 2014

* Nota de Byron: No dia 3 de maio de 1810, enquanto a Salsette (do Capitão Bathurst) estava ancorada nos Dardanelos, o oficial Ekenhead, daquela fragata, e o autor destas rimas nadaram da costa europeia até a asiática — por sinal, de Abidos a Sestos seria mais correto. A distância total, de onde partimos até a chegada na outra costa, incluindo o que percorremos levados pela corrente, foi computada por aqueles a bordo da fragata como mais de quatro milhas inglesas, não obstante a extensão real não ultrapassar uma [milha inglesa]. A velocidade da corrente é tal que nenhum bote a cruza a remo sem desvio, e pode nalguma medida ser estimada pelo tempo que os nadadores levaram, um [Ekenhead], uma hora e cinco minutos, e outro [Byron], uma hora e dez minutos. A água estava extremamente fria, pelo derretimento da neve das montanhas. Por volta de três semanas antes, em abril, fizemos uma tentativa; mas tendo cavalgado o caminho todo desde a Tróade naquela mesma manhã, e a água estando congelante, foi necessário adiar a natação até que a fragata ancorasse perto dos castelos, quando cruzamos o estreito conforme declarado, entrando consideravelmente acima do forte europeu, e chegando abaixo do asiático. [Le] Chevalier diz que um jovem judeu nadou a mesma distância por sua amada; e Olivier menciona um feito semelhante por um napolitano; mas nosso cônsul, Tarragona, não se recorda de nenhum desses acontecimentos, e procurou nos dissuadir da tentativa. Vários da tripulação da Salsette são reconhecidos por terem nadado distâncias maiores; e a única coisa que me surpreendeu foi que, uma vez que já se duvidou da história de Leandro, nenhum viajante jamais tivesse buscado certificar-se pessoalmente quanto à praticabilidade da façanha.

Fonte: http://www.gutenberg.org/files/21811/21811-h/21811-h.htm#Page_13

Postagem interessante a respeito: http://amitologianahistoria.blogspot.com.br/2010/08/mitologia-grega-hero-e-leandro.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Abidos_%28%C3%81sia_Menor%29

domingo, janeiro 12, 2014

VALENDO TODAS ELAS JUNTAS NUM SÓ SER

(mais uma vez, a FFR)

Tu sabes que eu não sou capaz de tanto,
feito um Lenine com Carlos Rennó;
só que cantando assim neste óbvio canto
te dou as rimas todas numa só;

pois se eu fizesse outra canção com lista
das musas todas dos compositores,
dos poetas vivos, mortos, trapezistas,
rimando as cores, flores e os amores,

seria assim tão óbvio quanto sou:
um poeta vivo, morto e trapezista
que sem as conjunções nem mas nem ou,
no estilo bolha que inda te conquista,

num só versinho já te conquistou.


IJS

__

sábado, dezembro 21, 2013

VOLTAR AQUI (PARA AQUELA QUE ESTÁ LÁ)

a FFR

Depois de tanto ti-ti-ti.
Depois de muito blablablá.
Eu não me canso e fico aqui
só esperando você voltar.

O mundo arrota e faz xixi.
A lua nem diz sai pra lá.
E ainda assim eu sigo aqui
só esperando você voltar.

Existe um sol além de si.
Existe um chão no fim do mar.
Portanto ainda existo aqui
só esperando você voltar.

Se descobriu-se o colibri,
se o sabiá sobrou sem par,
sobrei também trilando aqui
só esperando você voltar.

Talvez seja algo eterno (um pi).
Talvez já feche (feito um bar).
Talvez alguém (tipo eu) aqui
só esperando você voltar.

E que moleza, hein, nisso aí,
versinhos de nunca acabar...
Mas é isso mesmo: eu, aqui,
só esperando você voltar.

ijs

quarta-feira, dezembro 18, 2013

CURRICULUM VITAE

Dorothy Parker

Se atirar da ponte é piada
e cortar os pulsos dói.
Drogas? Não garantem nada.
Ácido mancha e corrói.
Pistolas? Muito barulho.
Forcas? Podem se romper...
Gases provocam engulho.
Não dá na mesma viver?

versão brasileira:
Ivan Justen Santana

clique aqui para o texto original

domingo, dezembro 15, 2013

CARTA A MEU CARO MARCOS PRADO, EM MAIS UM SEU ANIVERSÁRIO

*
Pois é, meu caro Marcos Prado:
é mais um teu aniversário
e Curitiba segue a mesma,
talvez até um pouco diversa
se vai envelhecendo a turma
enquanto inauguram de novo
a nossa tradição nenhuma –

pois sim, meu caro Marcos Prado:
foi minha vez de recordar o
festejo na data querida
e ainda aqui rimar com vida
em mais outra menção honrosa
ao que é poesia a todo povo,
se hoje tanto se aposta em prosa –

pois não, meu caro Marcos Prado:
não vamos mais recriminar o
cabuloso estado de coisas
das gentes velhas e das moças
enquanto seguem consumindo
um sempre mais dum outro corvo
embranquecido e mais que lindo –

pois é, meu caro Marcos Prado:
até que vale ter passado
algumas noites e alguns dias
nas boas e más companhias
do nosso seleto pessoal –
e com água brindo este estorvo
duns poucos versos. Sem mais, tchau.
*

quarta-feira, dezembro 04, 2013

ENQUANTO TEU

a FFR
*
Todas as paranoias estão vendo
com olhinhos e linguinhas de naja
e o teu nojo nem chega a ser horrendo
enquanto teu amor viaja.

A língua portuguesa é culta e feia
feito as frases dum gajo à sua gaja
e o símbolo é fatal a quem não leia
enquanto teu amor viaja.

Se tudo valeu o que nem te contem
na selva selvagem desnuda maja
e o totem de hoje foi o mesmo de ontem
enquanto teu amor viaja,

eu sei: ninguém entende e que se lasque:
uma mossa ou amolgadura é uma jaja.
Importa que ela entenda e siga em paz que
enquanto teu, teu amor viaja.

E lage continua sendo laja
enquanto teu amor viaja.

*

sábado, novembro 30, 2013

ANTES DO FIM DE NOVEMBRO

*
O surto: de nascença.
A fase: fim no meio.
Os verbos: sem presença.
O saco: sempre cheio.
A sarça: fogo incógnito.
As secas: nada harmônicas.
O corso: todo insólito.
As cordas: tão sinfônicas.
Soneto: lixo antigo.
Sonata: luxo aos poucos.
Soneca: mais perigo.
Silêncio: tosse aos loucos.
Silício: nuvem perda.
Cenário: mesma merda.

*

quinta-feira, outubro 24, 2013

A MÁQUINA DO CU DO MUNDO

(ao Rodrigo Madeira, que inadvertidamente me deu a ideia de, e ao resto da renca toda [eu ia dizer da putarada toda, mas sou um beletrista de respeito e de família, então...)

E como eu não nem a pau humilhasse por
Nenhum lugar incomum mas aquele um mesmo
Lugar qualquer vagamente cu do

Mundo agora nunca mais tão vasto imundo
E sem essa de versar em decassílabos
Rimados que se já veio o Modernismo e

O Concretismo e o Daltonismo e a
Porra toda é sim essas merdas e luzes
Totais são só pra poder botar pra

Foder e usar essas tais todas palavras tabus
Que nem chocam mais ninguém talvez quem sabe
Os beletristas que nem eu ou

Alguns dos meus vários demônios de
Mania ou depressão e as porras todas, enfim,
A máquina do cu do mundo já está

Toda aberta arregaçada rapinada vamos
Lá dialogar com ela desse jeito e
Comentar que agora sim tudo desanda e anda e

Se encaminha: esse poema de merda genial é também
Pra dizer que por exemplo o livro do Pellegrini
Sobre o Leminski é quase mais do mesmo

Quem não soube (ninguém soube) sobre a
Grande bosta e sublimidade do ego amigo
Inimigo enfim de novo é parte e quase nem faz

Parte do problema todo que é fazer
Poesia e agora ligo isso com a merda que
Ocorreu com o livro Ultralyrics do Marcos

Prado que devia estar sendo vendido e distribuído
E aquele bosta e bom escritor bom romancista e
Até razoável poeta daquele Fábio Campana

Não devia ter refugado as condições porque
Não é favor nenhum publicar um poeta de verdade
Foda (muito foda) como foi e é será o Marcos

Prado e pois é que as novas gerações estão
Chegando e se informando e se desinformando
Com as porras todas desses pesadelos pesadédalos

Dos quais tentamos e não conseguimos
Acordar (nem a cor dar) pois sim então eu
Ia dizendo bem no meio da máquina do cu do

Mundo meu eu no espelho e as porras todas
Quais eram mesmo? Ah sim o lance da
Poesia na Bienal de Curitiba -- os lançamentos

Dessa semana que passou (sim estou datando a
Porra do poema e sim eu fui naquele novo shopping
Onde os versos de poetas paranaenses estão lá

Até que venha alguma loja e ocupe o lugar
Onde estão enfeitando e ninguém lê nem sabe
Só acha culto e bonito a poesia local é sim: LOCAL --

Porque enfim a porra toda do
Sistema quer disciplinar a existência da arte e
Não adianta e adianta sim estamos no ponto

Em que as coisas são e não são tranquila
Mente enfim se fosse mesmo pra representar a
Poesia em Curitiba não podiam ter faltado

O Thadeu e o Lepre e o Adriano Smaniotto o
Qual devia estar lá com o poema "A Velha da
Rodoviária" possivelmente o mais emblemático

Dessa nova velha safra desde sempre de
Poetas e poemas se fodendo pra tentar mudar o
Cu do mundo ou mesmo pouco se fodendo

Sim estou queimando mesmo o decoro e a porra
Toda porque é e não é ou não assim
Mesmo a poesia se metendo a Black

Bloc ou só fazendo chuvisco e plic & ploc
Porque a arte tem e foda-se não tem essa missão --
Quem tem no fim muito essa e mais missões

São esses poucos e poucas que controlam a porra
Toda e criam cargos comissionados e puta merda
Não adianta responsabilizar o cara que está lá

Porque meramente cumpre seu papel no jogo mais
Pesado da merda toda mas faz o que consegue
Essas barganhas todas nessas merdas e prosseguem

Mantendo o sistema funcionando que se não
Fosse de outro jeito eu nem não poderia estar
Aqui tentando escrachar e eu mesmo me

Escrachando diante da bosta toda conforme
Ela está posta na mesa de todos mesmo
Quem nem tem mesa diante da qual comer.

E foi só tudo isso que a máquina do cu do mundo me
Disse eu sendo também ela e parte dela e
Envergonhando minha família procurando ser

E não sendo a voz das artes que essa
Renca e eu tentamos ir fazendo e questionando
E postando em blogues e anunciando nessa rede que

De social tem pouco ou quase nada mas
É quase tudo que podemos nessa não fazer
E mesmo assim arriscando a nem sequer

Ser ou não ser ouvido ou levado a sério
E servir na gente o capuz de
Beletrista enquanto o horizonte de

Expectativas é restrito mesmo a
Porra da boceta da caralha da
Máquina do cu do mundo me disse

Isso mesmo melhor seria eu nem não
Me meter a besta de escrever sem freio
E contextualizar mal e porcamente dessa

Forma datando poema com referências
Imediatas mas ficar só assim fazendo
Embaixadinhas com rimas e métricas e

A porra toda da poesia (des)compro(omissada)
Mas já passou da hora e do limite de atenção
De quem está lendo que nem vê aonde quero

Chegar ao mencionar por exemplo o poema da Marília
Kubota no livro da Bienal (Fantasma Civil) que
Nesse ela conclui falando do cu do

Vácuo e esse cu desse vácuo desse
Nosso cu diário de mundo de máquinas
Somos nozes cegos que fazemos também

Merdas sem nem prestar atenção e
O fôlego vai acabando e
Nem pude tramar mesmo o que

Eu queria e esperava pra honrar a
Camisa da poesia que no fundo
Mal se espreme e mal se exprime

Pra sacudir e esculachar ainda que
Com o calão e os palavrões essa porra
Toda que nos transforma e conforma e transtorna

Em todos membros dessa máquina
Desse cu
Desse mundo

Enfim: foda-se e agora está é será com vocês


ijs

____