*
(Dedicado à Faena Figueiredo Rossilho)
Numa explosão de versos bem medidos
de amor, de bem-me-quer, melhor-me-quer,
com toda acentuação, e todo ouvidos
ao próprio coração, que é teu, mulher,
com rimas ou sem rimas, com gemidos
ou cem gemidos, mil refrões fatais,
com técnica, escansão, e por aqui dos
tais encavalamentos muito mais
eu quero achar a mágica que diga
na música da métrica da antiga
revelação pagã, pagando pau,
com quantos pés se faz um hemistíquio
que te conquiste até que em ti tu estique-o
pro nosso amor ser sempre sem final.
IJS
*
quarta-feira, dezembro 03, 2014
segunda-feira, novembro 24, 2014
Literatura paranaense em pauta novamente: “Luz de velas” ou luz de vê-las?
Um ano atrás, postei aqui uma carta aberta sobre literatura paranaense, protestando contra uma opinião veiculada num editorial do jornal Cândido (n. 23, setembro de 2013), da Biblioteca Pública do Paraná. O editorial, de responsabilidade dos caros Rogério Pereira e Luiz Rebinski, dizia que esta literatura – ou ainda, a própria vida intelectual paranaense – teria sido “inventada” pelo tomazinense Newton Sampaio (1913-1938). (Clicar aqui para ver de que se tratou.)
Agora me apareceu oportunidade de obtemperar sobre outra opinião recentemente publicada, e que segue tendência diametralmente oposta à do referido editorial: em vez da desconsideração, a supervalorização da produção cultural do nosso querido (e crítico) Estado.
Antes de mais nada, repito uma percepção que já procurei externar em rede social, sobre as avaliações nossas da nossa própria cultura paranaense: são raras as visões equilibradas. A regra geral é: ou descascamos tudo criticamente, a ponto de pretender refutar sumariamente poetas, artistas e obras inteiras, chegando até a negar que algo como “cultura paranaense” de fato exista (é a visão mais frequente, que se pode chamar de autofágica – termo já cansado de ser usado), ou então, e normalmente reagindo de forma emotiva contra a autofagia, saímos em defesa louca e apaixonada dessa cultura, alardeando que todos os nossos produtos culturais são o máximo, e é mesmo uma pena que santo de casa não faça milagre, enfim (é a visão “paranista”, também já com muita quilometragem, desde que Romário Martins criou o “Centro Paranista”, em 1927).
Pois então. Na revista do festival Litercultura 2014, saiu um artigo de Robson Lima (“Luz de velas: a literatura paranaense ainda paira noir”), que de início parece refletir essa constatação das visões extremas e desequilibradas. Aliás, achei ótimo que um artigo assim tenha sido publicado, chamando atenção ao panorama local, na revista de um evento que por sua vez traz ao Paraná autores de expressão nacional e internacional.
No entanto, o prezado Robson Lima (“professor, consultor educacional, palestrante, músico, poeta e autor de material didático”, como informa sua apresentação no artigo) acaba mistificando o assunto, mesmo tendo começado como quem iria criticar as mistificações. O fato de ser um anunciado autor de material didático me convenceu definitivamente a interferir, na esperança também de que o próprio Robson Lima leia isso, e repense sua argumentação (não vá ele reproduzir nalgum material didático os problemas que a seguir comentarei).
Ao começar sua exposição, Robson escolhe falar de Fernando Amaro (1831-1857), que teria sido o “primeiro poeta do romantismo paranaense” – e depois escreve que “há muitos outros poetas” desse “movimento”, mas como a intenção é polêmica (Robson argumenta que não seria possível falar em literatura paranaense sem cometer injustiças ou heresias), não vai citar nenhum outro.
Tenho pesquisado já há bastante tempo a literatura paranaense, e posso dizer que nada impede ninguém de procurar falar no tema sem cometer qualquer injustiça ou heresia. Quanto ao período do “romantismo paranaense”, na verdade não houve tantos “muitos outros poetas” assim, e Fernando Amaro restou praticamente apenas como nome. Em vez dele, merecia ser citada a parnanguara Júlia da Costa (1844-1911), cuja obra foi re-editada no ano 2001, pela Imprensa Oficial (coleção Brasil diferente), e é o que de melhor podemos encontrar de “nosso” na época do Romantismo: uma poetisa (ou poeta, como queiram) que vale ser conhecida, estudada e compreendida. Por sinal, ela tem sido recentemente valorizada, por exemplo, pelo escritor Roberto Gomes, que publicou em 2008 o romance Júlia, e por duas montagens teatrais: Flores dispersas (com texto e direção de Regina Bastos) e Júlia na janela (monólogo de Teresa Teixeira de Britto, com atuação ímpar de Eliane Martins).
Voltando ao artigo: Robson Lima passa ao Simbolismo paranaense, e afirma que “o movimento simbolista brasileiro nasceu, cresceu e morreu no Paraná”. E ainda, que os simbolistas paranaenses teriam formado “o maior grupo de intelectuais do país, no final do século XIX”. E mais, que Cruz e Sousa não seria tão brilhante se comparado a Emiliano Perneta, o qual teria “traçado as rotas do Simbolismo brasileiro” com seu livro de estreia, Músicas, publicado em 1888, cinco anos antes do que seria a “obra mais expressiva” de Cruz e Sousa, Broquéis.
Todos esses exageros podem ser contestados facilmente. Os outros livros de poemas de Cruz e Sousa, os póstumos Faróis e Últimos Sonetos, bem como O livro derradeiro (reunido por Nestor Victor) são tão ou até mais expressivos do que Broquéis. E não seria necessário retirar brilho algum da poesia do catarinense (já avaliado pelo insuspeito crítico francês Roger Bastide como um dos três maiores poetas do Simbolismo, mundialmente falando, junto com Mallarmé e Stefan George) para assim valorizar o paranaense Emiliano Perneta, que no livro de estreia ainda hesitava entre Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, e só viria a atingir um nível poético elevado (e diga-se: antes característico e particular do que vinculado especificamente a alguma escola poética) com Ilusão, publicado em Curitiba, em 1911.
Por sua vez, os pioneiros simbolistas paranaenses formaram, sem dúvida, um grupo importante de intelectuais no final do século XIX (e o Simbolismo prosseguiu dominante aqui até a década de 1930, por mais duas gerações). Mas aquele grupo d'O Cenáculo (cuja revista pode ser encontrada na Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional) não foi necessariamente “o maior grupo de intelectuais do país” (por sinal, a Academia Brasileira de Letras foi fundada no Rio de Janeiro, em 1897), e o movimento simbolista, disseminado pelo Brasil, teve expressões importantes também no Rio Grande do Sul, além de em São Paulo, Minas Gerais e vários estados do Nordeste, sem ter propriamente nascido, crescido e morrido exclusivamente no Paraná.
Há mais um exagero no artigo de Robson, ao falar do Modernismo brasileiro e alardear que o Paraná teria antecipado a Semana de 1922. Mas faça-se justiça: talvez o único acerto de Robson esteja nas observações sobre a visibilidade de Paulo Leminski, pois realmente o polaco seria “tão pop que parece que toda a poesia paranaense se resume a Paulo Leminski” – e quem começa a estudar o assunto logo percebe que não é bem assim.
E assim, portanto, o prezado Robson acaba conduzindo uma argumentação mais consequente, ao citar Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza, e tentar expressar que “a literatura paranaense ou está tão apagada que ninguém brilha, ou brilha tanto que ofusca a todos”. Só que para leitores atentos – e pesquisadores que se aprofundem mesmo – o brilho e a qualidade de Leminski, Trevisan e Tezza não ofuscam os de Helena Kolody, Dario Vellozo, Silveira Neto, Adolpho Werneck, Jamil Snege, por exemplo, mesmo que esses não tenham sido festejados nacionalmente.
Como quer que seja, para superar as visões subordinadas ao cânone estabelecido, é importante a leitores e sobretudo a críticos e pesquisadores manter uma visão equilibrada, e não delirar em superinterpretações sem correspondência com o que pode ser conferido em leituras rigorosas. Sob pena de continuarmos patinando numa situação geral de desvalorização (e autodesvalorização) cultural. Assim, espero que o Robson Luiz Rodrigues de Lima, entre os leitores e leitoras ao meu alcance, atente a essas considerações.
Porque tiros de festim podem às vezes resultar em cartuchos queimados saindo pela culatra.
Ivan Justen Santana
Agora me apareceu oportunidade de obtemperar sobre outra opinião recentemente publicada, e que segue tendência diametralmente oposta à do referido editorial: em vez da desconsideração, a supervalorização da produção cultural do nosso querido (e crítico) Estado.
Antes de mais nada, repito uma percepção que já procurei externar em rede social, sobre as avaliações nossas da nossa própria cultura paranaense: são raras as visões equilibradas. A regra geral é: ou descascamos tudo criticamente, a ponto de pretender refutar sumariamente poetas, artistas e obras inteiras, chegando até a negar que algo como “cultura paranaense” de fato exista (é a visão mais frequente, que se pode chamar de autofágica – termo já cansado de ser usado), ou então, e normalmente reagindo de forma emotiva contra a autofagia, saímos em defesa louca e apaixonada dessa cultura, alardeando que todos os nossos produtos culturais são o máximo, e é mesmo uma pena que santo de casa não faça milagre, enfim (é a visão “paranista”, também já com muita quilometragem, desde que Romário Martins criou o “Centro Paranista”, em 1927).
Pois então. Na revista do festival Litercultura 2014, saiu um artigo de Robson Lima (“Luz de velas: a literatura paranaense ainda paira noir”), que de início parece refletir essa constatação das visões extremas e desequilibradas. Aliás, achei ótimo que um artigo assim tenha sido publicado, chamando atenção ao panorama local, na revista de um evento que por sua vez traz ao Paraná autores de expressão nacional e internacional.
No entanto, o prezado Robson Lima (“professor, consultor educacional, palestrante, músico, poeta e autor de material didático”, como informa sua apresentação no artigo) acaba mistificando o assunto, mesmo tendo começado como quem iria criticar as mistificações. O fato de ser um anunciado autor de material didático me convenceu definitivamente a interferir, na esperança também de que o próprio Robson Lima leia isso, e repense sua argumentação (não vá ele reproduzir nalgum material didático os problemas que a seguir comentarei).
Ao começar sua exposição, Robson escolhe falar de Fernando Amaro (1831-1857), que teria sido o “primeiro poeta do romantismo paranaense” – e depois escreve que “há muitos outros poetas” desse “movimento”, mas como a intenção é polêmica (Robson argumenta que não seria possível falar em literatura paranaense sem cometer injustiças ou heresias), não vai citar nenhum outro.
Tenho pesquisado já há bastante tempo a literatura paranaense, e posso dizer que nada impede ninguém de procurar falar no tema sem cometer qualquer injustiça ou heresia. Quanto ao período do “romantismo paranaense”, na verdade não houve tantos “muitos outros poetas” assim, e Fernando Amaro restou praticamente apenas como nome. Em vez dele, merecia ser citada a parnanguara Júlia da Costa (1844-1911), cuja obra foi re-editada no ano 2001, pela Imprensa Oficial (coleção Brasil diferente), e é o que de melhor podemos encontrar de “nosso” na época do Romantismo: uma poetisa (ou poeta, como queiram) que vale ser conhecida, estudada e compreendida. Por sinal, ela tem sido recentemente valorizada, por exemplo, pelo escritor Roberto Gomes, que publicou em 2008 o romance Júlia, e por duas montagens teatrais: Flores dispersas (com texto e direção de Regina Bastos) e Júlia na janela (monólogo de Teresa Teixeira de Britto, com atuação ímpar de Eliane Martins).
Voltando ao artigo: Robson Lima passa ao Simbolismo paranaense, e afirma que “o movimento simbolista brasileiro nasceu, cresceu e morreu no Paraná”. E ainda, que os simbolistas paranaenses teriam formado “o maior grupo de intelectuais do país, no final do século XIX”. E mais, que Cruz e Sousa não seria tão brilhante se comparado a Emiliano Perneta, o qual teria “traçado as rotas do Simbolismo brasileiro” com seu livro de estreia, Músicas, publicado em 1888, cinco anos antes do que seria a “obra mais expressiva” de Cruz e Sousa, Broquéis.
Todos esses exageros podem ser contestados facilmente. Os outros livros de poemas de Cruz e Sousa, os póstumos Faróis e Últimos Sonetos, bem como O livro derradeiro (reunido por Nestor Victor) são tão ou até mais expressivos do que Broquéis. E não seria necessário retirar brilho algum da poesia do catarinense (já avaliado pelo insuspeito crítico francês Roger Bastide como um dos três maiores poetas do Simbolismo, mundialmente falando, junto com Mallarmé e Stefan George) para assim valorizar o paranaense Emiliano Perneta, que no livro de estreia ainda hesitava entre Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, e só viria a atingir um nível poético elevado (e diga-se: antes característico e particular do que vinculado especificamente a alguma escola poética) com Ilusão, publicado em Curitiba, em 1911.
Por sua vez, os pioneiros simbolistas paranaenses formaram, sem dúvida, um grupo importante de intelectuais no final do século XIX (e o Simbolismo prosseguiu dominante aqui até a década de 1930, por mais duas gerações). Mas aquele grupo d'O Cenáculo (cuja revista pode ser encontrada na Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional) não foi necessariamente “o maior grupo de intelectuais do país” (por sinal, a Academia Brasileira de Letras foi fundada no Rio de Janeiro, em 1897), e o movimento simbolista, disseminado pelo Brasil, teve expressões importantes também no Rio Grande do Sul, além de em São Paulo, Minas Gerais e vários estados do Nordeste, sem ter propriamente nascido, crescido e morrido exclusivamente no Paraná.
Há mais um exagero no artigo de Robson, ao falar do Modernismo brasileiro e alardear que o Paraná teria antecipado a Semana de 1922. Mas faça-se justiça: talvez o único acerto de Robson esteja nas observações sobre a visibilidade de Paulo Leminski, pois realmente o polaco seria “tão pop que parece que toda a poesia paranaense se resume a Paulo Leminski” – e quem começa a estudar o assunto logo percebe que não é bem assim.
E assim, portanto, o prezado Robson acaba conduzindo uma argumentação mais consequente, ao citar Dalton Trevisan e Cristóvão Tezza, e tentar expressar que “a literatura paranaense ou está tão apagada que ninguém brilha, ou brilha tanto que ofusca a todos”. Só que para leitores atentos – e pesquisadores que se aprofundem mesmo – o brilho e a qualidade de Leminski, Trevisan e Tezza não ofuscam os de Helena Kolody, Dario Vellozo, Silveira Neto, Adolpho Werneck, Jamil Snege, por exemplo, mesmo que esses não tenham sido festejados nacionalmente.
Como quer que seja, para superar as visões subordinadas ao cânone estabelecido, é importante a leitores e sobretudo a críticos e pesquisadores manter uma visão equilibrada, e não delirar em superinterpretações sem correspondência com o que pode ser conferido em leituras rigorosas. Sob pena de continuarmos patinando numa situação geral de desvalorização (e autodesvalorização) cultural. Assim, espero que o Robson Luiz Rodrigues de Lima, entre os leitores e leitoras ao meu alcance, atente a essas considerações.
Porque tiros de festim podem às vezes resultar em cartuchos queimados saindo pela culatra.
Ivan Justen Santana
*
quinta-feira, novembro 06, 2014
O QUE MAIS EU E VOCÊ QUER QUERO DE VOCÊ DE MIM
[mais um de ijs a ffr]
*
O que mais você quer de mim?
O que mais quero de você?
Podia ser bem melhor assim
e assim sequer poderia ser.
Podia ser simples enfim
ou nunca poderia acontecer:
poema medido e mal pago pra ver,
bilhete listando tim-tim por tim-tim.
As coisas mais fáceis de se dizer:
aquele “eu-te-amo” diário sem rima.
Tudo que afasta um ser de outro ser
e só aquele ser especial aproxima.
O que não se troca por qualquer quê.
A simples palavra sim que diz sim.
O que mais quero de você.
O que mais você quer de mim.
*
O que mais você quer de mim?
O que mais quero de você?
Podia ser bem melhor assim
e assim sequer poderia ser.
Podia ser simples enfim
ou nunca poderia acontecer:
poema medido e mal pago pra ver,
bilhete listando tim-tim por tim-tim.
As coisas mais fáceis de se dizer:
aquele “eu-te-amo” diário sem rima.
Tudo que afasta um ser de outro ser
e só aquele ser especial aproxima.
O que não se troca por qualquer quê.
A simples palavra sim que diz sim.
O que mais quero de você.
O que mais você quer de mim.
*
quinta-feira, outubro 16, 2014
“NUVENS NEGRAS SÃO ÓTIMAS...”
*
“Nuvens negras são ótimas pra escrever poesia infravermelha.”
Foi essa a frase que um amigo me escreveu numa mensagem de correio eletrônico.
É frase proveitosa aqui pra eu seguir nessa de “prosa”.
Pois sim, pra mim, fazer prosa assim (tipo assim, mesmo disfarçando que no fundo são só versinhos, sim, cortem direito que saem até dodecassílabos, mas enfim...) fazer prosa assim é traição à minha musa mítica, porém como agora minha musa de verdade é também de carne e osso, e além de musa é uma graça (sim, uma graça com nome de graça, e que não veio “de graça”) que atende pela graça de Faena, enfim, sendo assim vou versificar o momento político e tipológico e (tipo: lógico!) escatológico que se passa, usando isso que imagino ser linguagem infravermelha, diante das forças ultravioletas que se nos por diante mobilizam:
sole um solo antes
que o sol nos assole –
– o fim do mundo acabou
mas agora começa o início
do final do meio:
sim: do meio ambiente
e você não tem nada
a ver com isso:
repita até se convencer
enquanto consegue evitar
os choques dos nãos
e aquele seu próprio não
guardado logo ali
na sua própria mão –
e ainda assim,
sim,
ainda enfim
sobrou mais um
tempinho aqui
pra mais uma
canção:
...
ijs
“Nuvens negras são ótimas pra escrever poesia infravermelha.”
Foi essa a frase que um amigo me escreveu numa mensagem de correio eletrônico.
É frase proveitosa aqui pra eu seguir nessa de “prosa”.
Pois sim, pra mim, fazer prosa assim (tipo assim, mesmo disfarçando que no fundo são só versinhos, sim, cortem direito que saem até dodecassílabos, mas enfim...) fazer prosa assim é traição à minha musa mítica, porém como agora minha musa de verdade é também de carne e osso, e além de musa é uma graça (sim, uma graça com nome de graça, e que não veio “de graça”) que atende pela graça de Faena, enfim, sendo assim vou versificar o momento político e tipológico e (tipo: lógico!) escatológico que se passa, usando isso que imagino ser linguagem infravermelha, diante das forças ultravioletas que se nos por diante mobilizam:
sole um solo antes
que o sol nos assole –
– o fim do mundo acabou
mas agora começa o início
do final do meio:
sim: do meio ambiente
e você não tem nada
a ver com isso:
repita até se convencer
enquanto consegue evitar
os choques dos nãos
e aquele seu próprio não
guardado logo ali
na sua própria mão –
e ainda assim,
sim,
ainda enfim
sobrou mais um
tempinho aqui
pra mais uma
canção:
...
ijs
*
quarta-feira, outubro 08, 2014
A LUA JÁ FOI MORTA
*
A lua já foi morta tantas vezes e hoje à noite ela sorriu cheia pra mim, por trás dum prédio. A poesia e o verso já foram assassinados tantas ou até mais vezes e, tenha certeza, estão aqui, por trás desse texto em prosa, sorrindo pra você.
ijs (pra ffr, e quem mais aqui chegar)
A lua já foi morta tantas vezes e hoje à noite ela sorriu cheia pra mim, por trás dum prédio. A poesia e o verso já foram assassinados tantas ou até mais vezes e, tenha certeza, estão aqui, por trás desse texto em prosa, sorrindo pra você.
ijs (pra ffr, e quem mais aqui chegar)
domingo, outubro 05, 2014
VIDAMOROSA
*
Tudo te intimida.
Tudo te incomoda.
Nada te incomoda.
Nada te intimida.
Toda esta tua vida
nunca sai de moda.
Sempre sai de moda
nada nesta vida.
Mesmo a poesia
diversa da prosa
diz o que queria,
diz que nem que ria
e ensina da rosa
em sim: pedregosa.
Em si: generosa.
*
Tudo te intimida.
Tudo te incomoda.
Nada te incomoda.
Nada te intimida.
Toda esta tua vida
nunca sai de moda.
Sempre sai de moda
nada nesta vida.
Mesmo a poesia
diversa da prosa
diz o que queria,
diz que nem que ria
e ensina da rosa
em sim: pedregosa.
Em si: generosa.
*
segunda-feira, setembro 15, 2014
SINGELO POEMA SEM GELO PRA FAENA
*
os
maus momentos
têm
sido poucos
enquanto que bem
loucos
os bons
têm
sido muitos
retratos
dos
álbuns que
ainda vamos ver
compor
e ser
juntos
ijs
*
os
maus momentos
têm
sido poucos
enquanto que bem
loucos
os bons
têm
sido muitos
retratos
dos
álbuns que
ainda vamos ver
compor
e ser
juntos
ijs
*
quinta-feira, setembro 04, 2014
Depois da Bishop, eis a bela e enigmática Dickinson
*
I asked no other thing—
No other—was denied—
I offered Being—for it—
The Mighty Merchant sneered—
Brazil? He twirled a Button—
Without a glance my way—
"But—Madam—is there nothing else—
That We can show—Today?"
Eu não quis outra coisa—
Com o resto—ao meu dispor—
Propus o Ser—por ela—
Zombou o Mercador—
Brasil? Girou um Botão—
Sem notar quem eu fosse—
"Porém—Madame—nada mais—
Negociaremos—Hoje?"
Emily Dickinson
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
I asked no other thing—
No other—was denied—
I offered Being—for it—
The Mighty Merchant sneered—
Brazil? He twirled a Button—
Without a glance my way—
"But—Madam—is there nothing else—
That We can show—Today?"
Eu não quis outra coisa—
Com o resto—ao meu dispor—
Propus o Ser—por ela—
Zombou o Mercador—
Brasil? Girou um Botão—
Sem notar quem eu fosse—
"Porém—Madame—nada mais—
Negociaremos—Hoje?"
Emily Dickinson
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
sábado, agosto 30, 2014
COM VOTOS E MAIS VOTOS DE MUITOS ANOS DE VIDA, NESTA OCASIÃO POLÍTICA E ALÉM DE QUALQUER CRÍTICA, IVAN JUSTEN SANTANA PARABENIZA SUA AMADA FAENA COM ESTE DIDÁTICO POEMA:
*
Sou clássico nas horas de te orar;
Barroco, quando vou te requestar;
Fico árcade pra ao campo te levar;
Romântico por te romantizar;
Por ti converto-me ao Parnasianismo
E digo sim aos símbolos do abismo;
Faço poesia até naturalista
E sigo além se você atura a lista:
notou? mudei de tu para você --
e agora no verso livre do modernismo
pode ser até que eu me livre de qualquer -ismo
e passe a um
CONCERTO
CONCRETO
NO TORCE-retorce dos versos --
ou então
viro um poeta marginal
e largo
e ainda volto
a ser estreito:
porque só por você eu tomo jeito
e ainda te dou esse poema de aniversário
fazendo essa cena
de brinquedo, sem medo
e com brilho
pra minha linda
Faena
Figueiredo
Rossilho
IJS
*
Sou clássico nas horas de te orar;
Barroco, quando vou te requestar;
Fico árcade pra ao campo te levar;
Romântico por te romantizar;
Por ti converto-me ao Parnasianismo
E digo sim aos símbolos do abismo;
Faço poesia até naturalista
E sigo além se você atura a lista:
notou? mudei de tu para você --
e agora no verso livre do modernismo
pode ser até que eu me livre de qualquer -ismo
e passe a um
CONCERTO
CONCRETO
NO TORCE-retorce dos versos --
ou então
viro um poeta marginal
e largo
e ainda volto
a ser estreito:
porque só por você eu tomo jeito
e ainda te dou esse poema de aniversário
fazendo essa cena
de brinquedo, sem medo
e com brilho
pra minha linda
Faena
Figueiredo
Rossilho
IJS
*
terça-feira, agosto 26, 2014
VERSINHOS DA TIA BETH
(poema original de Elizabeth Bishop, feito para Lota de Macedo Soares, conforme mostra o filme Flores raras, de Bruno Barreto:)
Close, close all night
the lovers keep.
They turn together
in their sleep.
Close as two pages
in a book
that read each other
in the dark.
Each knows all
the other knows,
learned by heart
from head to toes.
(versão brasileira de Ivan Justen Santana, para Faena Figueiredo Rossilho, que lhe chamou a atenção ao filme e ao poema:)
Perto, perto, a noite
toda o casal passa,
e até no sono esse
casal se enlaça.
Perto feito folhas
da mesma edição
ambas se lendo
na escuridão.
Ambas se testam
e obtêm nota dez,
sabendo-se de cor
da cabeça aos pés.
*
Close, close all night
the lovers keep.
They turn together
in their sleep.
Close as two pages
in a book
that read each other
in the dark.
Each knows all
the other knows,
learned by heart
from head to toes.
(versão brasileira de Ivan Justen Santana, para Faena Figueiredo Rossilho, que lhe chamou a atenção ao filme e ao poema:)
Perto, perto, a noite
toda o casal passa,
e até no sono esse
casal se enlaça.
Perto feito folhas
da mesma edição
ambas se lendo
na escuridão.
Ambas se testam
e obtêm nota dez,
sabendo-se de cor
da cabeça aos pés.
*
domingo, agosto 24, 2014
AOS SETENTA ANOS DE PAULO LEMINSKI FILHO
*
morte mais vivida: adense-a
vida nunca amortecida sempre urgência e
viva mais um fim de adolescência!
ijs
*
morte mais vivida: adense-a
vida nunca amortecida sempre urgência e
viva mais um fim de adolescência!
ijs
*
sexta-feira, agosto 22, 2014
AO MEU FILHO IAN (E AO EMILIANO PERNETA E AO ADOLPHO WERNECK)
*
Busquei pra um Tiranossauro
a ilusão duma riminha
que não fosse apenas minha
mas de cada dinossauro.
Sim, também das Maiassauras,
cuidadoras dos filhinhos:
todos tempos e caminhos
já merecem ter as auras
deste poema meio ingênuo.
Príncipe grande ou pequeno,
pouco importa de onde for,
todo início é uma criança,
e mesmo sofrendo de ânsia
toda rima é por amor.
ijs
*
Busquei pra um Tiranossauro
a ilusão duma riminha
que não fosse apenas minha
mas de cada dinossauro.
Sim, também das Maiassauras,
cuidadoras dos filhinhos:
todos tempos e caminhos
já merecem ter as auras
deste poema meio ingênuo.
Príncipe grande ou pequeno,
pouco importa de onde for,
todo início é uma criança,
e mesmo sofrendo de ânsia
toda rima é por amor.
ijs
*
sexta-feira, agosto 15, 2014
terça-feira, agosto 12, 2014
AMOR & VELHO VERSO
(além de a toda a humanidade, à Faena Figueiredo Rossilho)
Passam caravanas,
cães latem e mordem,
surge uma nova ordem,
novos povos doidivanas,
e no mar os polvos
desenvolvem mais tentáculos
e linguagens e seus sustentáculos
despontam, morrem, nascem,
ingressam noutras áureas decadências
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Modernos, ancestrais, os mesmos
nos princípios eram o verbo,
e eis a escravidão,
e eis uns dois ou três
vivendo o que acham um vidão,
e eis a humanidade agindo feito besta,
e algum lirismo, e algum realismo,
e outra guerra, e outra religião,
e outros cortes
noutros ternos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Nenhumas novidades,
museus contemporâneos,
paixões se achando amor,
extinções em massa, jogos olímpicos,
distrações fenomenais, traições sutis,
o mundo vai girando, os rios correndo,
paraísos imutáveis são reformados,
tudo perde o sentido,
grandes são os desertos,
grandes são os invernos,
grandes ardem os infernos,
grandes os sentimentos
maternos e paternos,
e as teorizações
e as práticas de artistas tão ternos,
e os romances, e as peças, e os contos,
e os filmes, e as exposições,
e os etcéteras, e sim, tudo é tão chato,
tudo tudo tudo já catalogado
como naqueles nossos caquéticos cadernos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Mas não mais
ou nem não mais
e só que não
por nunca menos
pois talvez embora então
alguéns alguma vez
fermentarão uns ancestrais vinhos falernos
enquanto
amor e velho verso vão seguindo eternos.
ijs
*
Passam caravanas,
cães latem e mordem,
surge uma nova ordem,
novos povos doidivanas,
e no mar os polvos
desenvolvem mais tentáculos
e linguagens e seus sustentáculos
despontam, morrem, nascem,
ingressam noutras áureas decadências
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Modernos, ancestrais, os mesmos
nos princípios eram o verbo,
e eis a escravidão,
e eis uns dois ou três
vivendo o que acham um vidão,
e eis a humanidade agindo feito besta,
e algum lirismo, e algum realismo,
e outra guerra, e outra religião,
e outros cortes
noutros ternos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Nenhumas novidades,
museus contemporâneos,
paixões se achando amor,
extinções em massa, jogos olímpicos,
distrações fenomenais, traições sutis,
o mundo vai girando, os rios correndo,
paraísos imutáveis são reformados,
tudo perde o sentido,
grandes são os desertos,
grandes são os invernos,
grandes ardem os infernos,
grandes os sentimentos
maternos e paternos,
e as teorizações
e as práticas de artistas tão ternos,
e os romances, e as peças, e os contos,
e os filmes, e as exposições,
e os etcéteras, e sim, tudo é tão chato,
tudo tudo tudo já catalogado
como naqueles nossos caquéticos cadernos
e amor e velho verso vão seguindo eternos.
Mas não mais
ou nem não mais
e só que não
por nunca menos
pois talvez embora então
alguéns alguma vez
fermentarão uns ancestrais vinhos falernos
enquanto
amor e velho verso vão seguindo eternos.
ijs
*
terça-feira, julho 29, 2014
UMA GUERRA
*
Uma guerra faz cem anos
e faz um milésimo de segundo.
Faz os seres tão humanos
insanos e insanas subindo ao fundo.
Sim: uma guerra até liberta – dizem.
– Não, não, nossa causa é justa – sublinham.
Daqui deste lado da minha fronte
sem muito mais novidade,
penso na razão – ou rima – que aponte
a institucionalidade
da guerra, da guerra interior
da poesia – e largo da métrica
sem desistir
e penso no xadrez, no futebol, no boxe,
na existência aparentemente impossível
sem guerra –
penso em metáforas, metaforizações e justificativas,
me ocorre o poema “guerra sou eu”
do samurai Leminski
mas fico atentado – e estendo
estrategicamente
esta postagem
colando uma tradução:
QUEM MATOU DAVEY MOORE?
[Who Killed Davey Moore? – Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana]
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o juiz
“Não apontem o dedo pra mim
Podia ter suspendido no oitavo assalto
Talvez assim salvasse ele, de fato
Mas eles gritariam (e quem me escolta?)
E exigiriam seu dinheiro de volta
É triste que ele tenha ido assim
Mas tinha muita pressão sobre mim
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não foi nós,” rosnou a multidão
Zumbindo na arena com seu calão
“É uma pena, que nem se discuta
A gente só queria uma boa luta
Não era pra ele encontrar a morte
A gente só queria o suor dos fortes
Nada de errado com esse esporte
E a gente não derrubou ninguém
Não culpem a gente, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o empresário
Fumando seu charuto salafrário
“É difícil falar, é difícil dizer
Eu sempre achei que ele tava bem
Pior para a esposa e para seus filhos
Mas se ele tava mal, devia ter dito
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o apostador
Ainda com seu papel marcador
“Não fui eu que o levei a nocaute
Nem toquei nele naquela noite
Eu não cometi nenhum pecado
E até apostei nele algum bocado
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o jornalista
Tomando umas notas numa lista
Dizendo “A culpa não é do boxe
Perigo existe em qualquer esporte”
Dizendo “As lutas vieram pra ficar
O estilo da América é aí que está
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse aquele cujos punhos
Levaram Davey para além dos sonhos
Ele veio duma ilha lá do Caribe
Lá onde o boxe já se proíbe
“Eu bati nele, não vou negar
Mas eles me pagam pra lutar
E não me chamem de assassino
Deus quis assim, foi o destino”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
__
Uma guerra faz cem anos
e faz um milésimo de segundo.
Faz os seres tão humanos
insanos e insanas subindo ao fundo.
Sim: uma guerra até liberta – dizem.
– Não, não, nossa causa é justa – sublinham.
Daqui deste lado da minha fronte
sem muito mais novidade,
penso na razão – ou rima – que aponte
a institucionalidade
da guerra, da guerra interior
da poesia – e largo da métrica
sem desistir
e penso no xadrez, no futebol, no boxe,
na existência aparentemente impossível
sem guerra –
penso em metáforas, metaforizações e justificativas,
me ocorre o poema “guerra sou eu”
do samurai Leminski
mas fico atentado – e estendo
estrategicamente
esta postagem
colando uma tradução:
QUEM MATOU DAVEY MOORE?
[Who Killed Davey Moore? – Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana]
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o juiz
“Não apontem o dedo pra mim
Podia ter suspendido no oitavo assalto
Talvez assim salvasse ele, de fato
Mas eles gritariam (e quem me escolta?)
E exigiriam seu dinheiro de volta
É triste que ele tenha ido assim
Mas tinha muita pressão sobre mim
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não foi nós,” rosnou a multidão
Zumbindo na arena com seu calão
“É uma pena, que nem se discuta
A gente só queria uma boa luta
Não era pra ele encontrar a morte
A gente só queria o suor dos fortes
Nada de errado com esse esporte
E a gente não derrubou ninguém
Não culpem a gente, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o empresário
Fumando seu charuto salafrário
“É difícil falar, é difícil dizer
Eu sempre achei que ele tava bem
Pior para a esposa e para seus filhos
Mas se ele tava mal, devia ter dito
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o apostador
Ainda com seu papel marcador
“Não fui eu que o levei a nocaute
Nem toquei nele naquela noite
Eu não cometi nenhum pecado
E até apostei nele algum bocado
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse o jornalista
Tomando umas notas numa lista
Dizendo “A culpa não é do boxe
Perigo existe em qualquer esporte”
Dizendo “As lutas vieram pra ficar
O estilo da América é aí que está
E não fui eu quem derrubei
Não, não me culpem, é assim a lei”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
“Não fui eu,” disse aquele cujos punhos
Levaram Davey para além dos sonhos
Ele veio duma ilha lá do Caribe
Lá onde o boxe já se proíbe
“Eu bati nele, não vou negar
Mas eles me pagam pra lutar
E não me chamem de assassino
Deus quis assim, foi o destino”
Quem matou Davey Moore?
Alguma razão, seja qual for?
domingo, junho 29, 2014
DOIS ANOS JUNTOS
(à Faena Figueiredo Rossilho)
Dois anos de carinhos e de espinhos,
De calores, de dores e de flores,
Palmas, calmas, traumas, certezas
E incertezas nessas nossas almas,
Simplicidades, complexidades,
Necessidades, multiplicidades,
Dois anos, mais de setecentos dias
De incontáveis emoções e alegrias,
Com carícias e delícias,
Mágicas, místicas, músicas,
Dois anos com brinco e com afinco,
Pra compor o que for, com cor e com amor.
IJS
*
Dois anos de carinhos e de espinhos,
De calores, de dores e de flores,
Palmas, calmas, traumas, certezas
E incertezas nessas nossas almas,
Simplicidades, complexidades,
Necessidades, multiplicidades,
Dois anos, mais de setecentos dias
De incontáveis emoções e alegrias,
Com carícias e delícias,
Mágicas, místicas, músicas,
Dois anos com brinco e com afinco,
Pra compor o que for, com cor e com amor.
IJS
*
segunda-feira, junho 23, 2014
POR UMA VIDA INTEIRA
(ao Rodrigo Madeira --
e à Luciana Cañete, ao Fernando Koproski, ao Alexandre França, ao Luiz Felipe Leprevost, à Marilia Kubota, à Marilda Confortin, ao Thadeu Wojciechowski, ao Sérgio Viralobos, ao Roberto Prado, à Monica Berger, à Luci Collin, ao Marcelo Sandmann, ao Rodolfo Jaruga, ao Jaques Brand, ao Ricardo Pozzo, ao Adriano Scandolara, ao Adriano Smaniotto, ao Mario Domingues, e a quem mais se considerar)
Um verso por uma vida inteira.
Um verso inteiro por uma vida.
Qual a troca mais descabida:
a segunda ou a primeira?
Se os concretos abstraíram
e o(a)s marginais distraíram
veio uma outra geração?
Ou a poesia migrou
e minguou e morreu
na canção?
Pois é:
não.
A poesia nunca vai tarde
e aí estamos nós, ou a gente
na rede,
rimando o que sente ou quase nem sente
na cara e na coragem covarde
que o verso sempre vai e vem
e revolta
com
ou sem alarde.
ijs
...
e à Luciana Cañete, ao Fernando Koproski, ao Alexandre França, ao Luiz Felipe Leprevost, à Marilia Kubota, à Marilda Confortin, ao Thadeu Wojciechowski, ao Sérgio Viralobos, ao Roberto Prado, à Monica Berger, à Luci Collin, ao Marcelo Sandmann, ao Rodolfo Jaruga, ao Jaques Brand, ao Ricardo Pozzo, ao Adriano Scandolara, ao Adriano Smaniotto, ao Mario Domingues, e a quem mais se considerar)
Um verso por uma vida inteira.
Um verso inteiro por uma vida.
Qual a troca mais descabida:
a segunda ou a primeira?
Se os concretos abstraíram
e o(a)s marginais distraíram
veio uma outra geração?
Ou a poesia migrou
e minguou e morreu
na canção?
Pois é:
não.
A poesia nunca vai tarde
e aí estamos nós, ou a gente
na rede,
rimando o que sente ou quase nem sente
na cara e na coragem covarde
que o verso sempre vai e vem
e revolta
com
ou sem alarde.
ijs
...
segunda-feira, junho 16, 2014
ABC: uma Apresentação do Bloomsday em Curitiba (ou Para: compreender o Paraná?)
*
Antes de tudo, esse texto é para celebrar a data, paradoxalmente fundamental para as literaturas curitibana, paranaense, brasileira e universal, tanto quanto para a irlandesa.
Sim: 16 de junho é o Bloomsday, e se você não sabe do que se trata, a Wikipédia está aí também para isso. O importante para nós aqui e agora é que, desde que o Dalton Trevisan (que fez 89 anos anteontem) publicou na sua revista Joaquim um trecho do Ulysses de James Joyce (não creditou a tradução do trecho, que está no número 4 da revista, mas presume-se que foi ele, Dalton, o tradutor), e desde que o Paulo Leminski publicou seu livro-emblema Catatau, catatotalmente sob o influxo do Finnegans Wake daquele mesmo James Joyce, tais gestos (entre outros) foram estabelecendo um grau de parentesco, uma familiaridade bem tipicamente curitibana, irlandesa, paranaense, inglesa, brasileira, ou -- numa palavra: humana.
Mas eu talvez começasse melhor ainda explicando o título alternativo desse texto: "Para: compreender o Paraná?"
Em idos do milênio passado, meu amigo e parente [primo de minha mãe em terceiro grau] Hélio Puglielli publicou um pequeno livro de breves textos, intitulado "Para comprender o Paraná". O aproveitamento aqui é para expor uma característica fundamental "nossa", como paranaenses, brasileiros, e até -- enfim: humanos.
Chegaremos ao ponto: paciência. Com o novo acordo ortográfico, foi suprimido o acento diferencial, mas (humanos, demasiadamente) só nalguns casos, como esse da palavra "para", quando é verbo, por exemplo em frases como "ele não para de escrever", ou em "o Paraná para para a explicação", o que dificulta assim a desambiguação com a preposição "para", sacaram?
Enfim: para com isso, Ivan! Compreender o Paraná? E estou parando mesmo, mas para, além de propor uma compreensão do Paraná, explicar Joyce, Leminski, Dalton, e tudo mais...
Sim: porque hoje é o Bloomsday, e esta será talvez mais uma única última chance minha de tais explicações, então passemos a um ponto nevrálgico: uma ocasião em que Leminski foi gravado mencionando o nome do Hélio Puglielli. Foi numa entrevista ao jornalista Aramis Millarch, e pode ser ouvida clicando aqui.
Atenção: são 4 horas de gravação, e a partir da segunda hora o nível da conversa começa a escorregar, pois Leminski atinge um pico alcoólico e aí... Aí a certa altura, sem mais censura, ele se refere ao meu caro Helio Puglielli. Mas não é muito elogioso. De qualquer modo, para tudo de novo -- é esse fato de falar mal a característica fundamental do paranaense, do curitibano, do irlandês, do ser humano?
Quero confiar que não: mas é uma das formas de nos irmanarmos e nos identificarmos a todos. Temos origens todas compartilhadas e que se imbricam no fenômeno da vida, nos tornando uma família planetária: isso pode ser percebido melhor, se em vez de nos referirmos à raça paranaense, passarmos essa referência, por exemplo, à literatura paranaense...
Sim: você pode me dizer: a armadilha está armada: quem procura estabelecer um senso de origem, uma separação e definição desse tipo, está a um milímetro do fascismo. Mas eu sou paranaense (sem tanto orgulho, mas com muito amor) e digo: sim, só que a percepção da diferença, ou a tentativa de especialização, acabam por nos fazer perceber a relatividade disso, especialmente num caso como o do Paraná: humanamente, brasileiramente, e até mesmo ortograficamente (tão esquizofrênica e confusa quanto nossa brasilidade expressa na língua portuguesa, humanamente bagunçada e organizada desse jeito), enfim: sim: vivenciamos uma condição de busca de origens, de mitos de unidade, e afinal de contas, de percepções de diversidade, biológica, política, artística -- e assim começamos a nos compreender mesmo a partir dessas percepções.
Enfim: sim: eu pretendia escrever muito mais, mencionar muito mais gente, especialmente gente ainda mais contemporânea na "literatura curitibana", feito o Adriano Scandolara (italiano? curitibano? joyciano?), que postou uma beleza de texto sobre Joyce hoje aqui neste blog Escamandro mencionando aí o também tradutor agora bastante notório de Joyce, Caetano Galindo -- enfim: mas sim: vamos concluir: está tudo relacionado, minha/sua/nossa/outra/toda gente: a mistura de culturas é o que faz a cultura, e a vontade de cercar e definir uma "literatura paranaense" deve incluir e adotar o fato cultural de que esta literatura é formada/deformada/influenciada/engolida/cercada por todas as outras, especialmente neste estado constituído de misturas, mas caracteristicamente em toda a face do planeta -- e quiçá fora dele...
E assim: sim: tudo se explica, não?
Mas parece que tem um evento acontecendo também aqui em Curitiba que também pode explicar isso de certa forma, mas me falhou agora a memória qual é... De qualquer modo: bola pra frente!
...
Antes de tudo, esse texto é para celebrar a data, paradoxalmente fundamental para as literaturas curitibana, paranaense, brasileira e universal, tanto quanto para a irlandesa.
Sim: 16 de junho é o Bloomsday, e se você não sabe do que se trata, a Wikipédia está aí também para isso. O importante para nós aqui e agora é que, desde que o Dalton Trevisan (que fez 89 anos anteontem) publicou na sua revista Joaquim um trecho do Ulysses de James Joyce (não creditou a tradução do trecho, que está no número 4 da revista, mas presume-se que foi ele, Dalton, o tradutor), e desde que o Paulo Leminski publicou seu livro-emblema Catatau, catatotalmente sob o influxo do Finnegans Wake daquele mesmo James Joyce, tais gestos (entre outros) foram estabelecendo um grau de parentesco, uma familiaridade bem tipicamente curitibana, irlandesa, paranaense, inglesa, brasileira, ou -- numa palavra: humana.
Mas eu talvez começasse melhor ainda explicando o título alternativo desse texto: "Para: compreender o Paraná?"
Em idos do milênio passado, meu amigo e parente [primo de minha mãe em terceiro grau] Hélio Puglielli publicou um pequeno livro de breves textos, intitulado "Para comprender o Paraná". O aproveitamento aqui é para expor uma característica fundamental "nossa", como paranaenses, brasileiros, e até -- enfim: humanos.
Chegaremos ao ponto: paciência. Com o novo acordo ortográfico, foi suprimido o acento diferencial, mas (humanos, demasiadamente) só nalguns casos, como esse da palavra "para", quando é verbo, por exemplo em frases como "ele não para de escrever", ou em "o Paraná para para a explicação", o que dificulta assim a desambiguação com a preposição "para", sacaram?
Enfim: para com isso, Ivan! Compreender o Paraná? E estou parando mesmo, mas para, além de propor uma compreensão do Paraná, explicar Joyce, Leminski, Dalton, e tudo mais...
Sim: porque hoje é o Bloomsday, e esta será talvez mais uma única última chance minha de tais explicações, então passemos a um ponto nevrálgico: uma ocasião em que Leminski foi gravado mencionando o nome do Hélio Puglielli. Foi numa entrevista ao jornalista Aramis Millarch, e pode ser ouvida clicando aqui.
Atenção: são 4 horas de gravação, e a partir da segunda hora o nível da conversa começa a escorregar, pois Leminski atinge um pico alcoólico e aí... Aí a certa altura, sem mais censura, ele se refere ao meu caro Helio Puglielli. Mas não é muito elogioso. De qualquer modo, para tudo de novo -- é esse fato de falar mal a característica fundamental do paranaense, do curitibano, do irlandês, do ser humano?
Quero confiar que não: mas é uma das formas de nos irmanarmos e nos identificarmos a todos. Temos origens todas compartilhadas e que se imbricam no fenômeno da vida, nos tornando uma família planetária: isso pode ser percebido melhor, se em vez de nos referirmos à raça paranaense, passarmos essa referência, por exemplo, à literatura paranaense...
Sim: você pode me dizer: a armadilha está armada: quem procura estabelecer um senso de origem, uma separação e definição desse tipo, está a um milímetro do fascismo. Mas eu sou paranaense (sem tanto orgulho, mas com muito amor) e digo: sim, só que a percepção da diferença, ou a tentativa de especialização, acabam por nos fazer perceber a relatividade disso, especialmente num caso como o do Paraná: humanamente, brasileiramente, e até mesmo ortograficamente (tão esquizofrênica e confusa quanto nossa brasilidade expressa na língua portuguesa, humanamente bagunçada e organizada desse jeito), enfim: sim: vivenciamos uma condição de busca de origens, de mitos de unidade, e afinal de contas, de percepções de diversidade, biológica, política, artística -- e assim começamos a nos compreender mesmo a partir dessas percepções.
Enfim: sim: eu pretendia escrever muito mais, mencionar muito mais gente, especialmente gente ainda mais contemporânea na "literatura curitibana", feito o Adriano Scandolara (italiano? curitibano? joyciano?), que postou uma beleza de texto sobre Joyce hoje aqui neste blog Escamandro mencionando aí o também tradutor agora bastante notório de Joyce, Caetano Galindo -- enfim: mas sim: vamos concluir: está tudo relacionado, minha/sua/nossa/outra/toda gente: a mistura de culturas é o que faz a cultura, e a vontade de cercar e definir uma "literatura paranaense" deve incluir e adotar o fato cultural de que esta literatura é formada/deformada/influenciada/engolida/cercada por todas as outras, especialmente neste estado constituído de misturas, mas caracteristicamente em toda a face do planeta -- e quiçá fora dele...
E assim: sim: tudo se explica, não?
Mas parece que tem um evento acontecendo também aqui em Curitiba que também pode explicar isso de certa forma, mas me falhou agora a memória qual é... De qualquer modo: bola pra frente!
...
domingo, junho 15, 2014
Porque a minha namorada Faena esperava que eu escrevesse um poema sobre a abertura da copa, e também porque hoje é aniversário do meu pai, e também em pré-homenagem a James Joyce e Luci Collin e Samuel Beckett e Luiz Felipe Leprevost e Bento Cego e Batista de Pilar e Patativa do Assaré e quem mais chegar e ler e conseguir gostar.
*
Ali é nado.
Ali, nada.
Ali é nação.
Ali, alienação.
Aqui nem começa.
Aqui vem com essa.
Aqui o poema é peça.
Aqui peça e despeça.
Acolá: ninguém mais usa
Ou usa: botões da blusa.
Só termina. Quando acaba.
Lá pode ser nem ou não.
Amor. Morte. Temor. São.
Além do abismo: lá: uma aba.
...
*
Ali é nado.
Ali, nada.
Ali é nação.
Ali, alienação.
Aqui nem começa.
Aqui vem com essa.
Aqui o poema é peça.
Aqui peça e despeça.
Acolá: ninguém mais usa
Ou usa: botões da blusa.
Só termina. Quando acaba.
Lá pode ser nem ou não.
Amor. Morte. Temor. São.
Além do abismo: lá: uma aba.
...
*
segunda-feira, maio 26, 2014
LEVE PRA VOCÊ
(pra Faena)
Já te perdi e assim percebi teu valor
e já tentei viver sem tirar nem compor.
Risquei uns versos –
riscos sempre estão por perto –
e o nosso amor às vezes míngua
feito uma lua – misteriosa língua.
Mas esse poema não é só pra impressionar,
e sim pra te refletir nesse bem simples olhar,
em verso aceso que o coração-cais te escreve
e faz o peso do universo agora tão mais leve.
ijs
...
Já te perdi e assim percebi teu valor
e já tentei viver sem tirar nem compor.
Risquei uns versos –
riscos sempre estão por perto –
e o nosso amor às vezes míngua
feito uma lua – misteriosa língua.
Mas esse poema não é só pra impressionar,
e sim pra te refletir nesse bem simples olhar,
em verso aceso que o coração-cais te escreve
e faz o peso do universo agora tão mais leve.
ijs
...
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