Então,
ultrapassei o meu aniversário de 32 anos quase despercebidos: eu, o aniversário e os 32 anos.
Os presentes vieram depois: quinta-feira passada, livre de obrigações, fui ver a MORDIDA, cheio de mixed emotions pra saber quem seria capaz de substituir minha pequena ídola máxima Tati Lemos nos vocais.
Assisti antes ao Charme Chulo, uma banda de quem eu pensava que “o nome é melhor que a banda”, depois de ter visto só uma apresentação.
Percebi que evoluíram, estão bem ensaiados: gostei, mas nada que chegue próximo da adoração que nutro pela MORDIDA.
Cujo show foi muito muito, com a garota Isis (nome perfeito pruma Garota Esotérica) fazendo um belo batismo de fogo, na minha opinião suspeitíssima de fanático mordido.
O caso é que passei quase o show inteiro grudado boca a boca numa linda garotinha ruiva que o coelhinho da páscoa trouxe pra mim (aniversário atrasado) e lá no fundo do tumulto emotivo e dos catos ouvi a garota Isis mandar muito bem assim:
(...)
só nunca esqueça
não é por mal
o mal que eu te faço não é por mal
o mal que eu te faço
não te peço resposta
não entrego as minhas chaves
sem querer pisei no teu lado mais frágil
[esse é um trecho crucial: Isis foi bem tecnicamente, mas me fez lembrar que a interpretação da Tati era mais dramática: flutuava, desafinava ironicamente pra acentuar FRÁÁÁGIL...]
só nunca esqueça
não é por mal
o mal que eu te faço não é por mal
o mal que eu te faço
É a mensagem perfeita pra mim mesmo, já que só consigo fazer mal pra mim, mas não é por mal.
Outra coisa legal de contar aqui foram os filmes que eu vi, enquanto o festival de teatro comia solto...
A DAMA DE SHANGAI
Orson Welles e Rita Hayworth (loira e de cabelo curto)
HIROSHIMA MON AMOUR
de Alain Resnais
roteiro de Marguerite Duras
na verdade esse eu vou ver agora: amanhã eu conto como foi...
segunda-feira, março 28, 2005
quarta-feira, março 23, 2005
outros tombos
*
a avalanche preparou sua queda
arquitetou a mudança da paisagem
não deixou pedra sobre pedra
num ruído infernal sem frase
o abismo, sentindo-se traído
mergulhou em profunda depressão
"este é um vale por mim desconhecido
não domino mais quem cai ou não"
"caia em si" disse a avalanche
o abismo se olhou de cima a baixo
e descobrindo seu próprio alcance
saltou "por você me esborracho"
a avalanche duvidou de início
mas já rolava em outro precipício
Marcos Prado
a avalanche preparou sua queda
arquitetou a mudança da paisagem
não deixou pedra sobre pedra
num ruído infernal sem frase
o abismo, sentindo-se traído
mergulhou em profunda depressão
"este é um vale por mim desconhecido
não domino mais quem cai ou não"
"caia em si" disse a avalanche
o abismo se olhou de cima a baixo
e descobrindo seu próprio alcance
saltou "por você me esborracho"
a avalanche duvidou de início
mas já rolava em outro precipício
Marcos Prado
segunda-feira, março 21, 2005
MINHAS SETE QUEDAS
*
minha primeira queda
não abriu o pára-quedas
daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda
da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo
Paulo Leminski
minha primeira queda
não abriu o pára-quedas
daí passei feito uma pedra
pra minha segunda queda
da segunda à terceira queda
foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
na sexta continuei caindo
agora com licença
mais um abismo vem vindo
Paulo Leminski
sábado, março 19, 2005
Interrompemos nossa programação normal
*
Que ninguém fique até o fim
pra ver se essas linhas vão desabar:
desabafar foi como consegui sair,
ferido da beleza desse olhar.
Cada olho teve que revezar
o que as telas não puderam vazar:
as lágrimas que todas elas vêm
levando e ainda vão levar.
Mas, depois de ler seu jornal,
minha arte se refez em bem e mal,
e a vida voltou àquela tão banal
educação sentimental:
antes que o amor te amorteça,
tua chama densa ainda me despreza
com presteza, frágil, presa
no inimaginável final:
meus nervos que se retesem,
tua carne aflora à pele,
treme e termina assim:
a jovem Liz Taylor chama o velho
Dean:
James Dean:
carbonizado no carro vermelho,
vestido da velha calça de brim,
sem vencer a beleza
mas prestes a
Que ninguém fique até o fim
pra ver se essas linhas vão desabar:
desabafar foi como consegui sair,
ferido da beleza desse olhar.
Cada olho teve que revezar
o que as telas não puderam vazar:
as lágrimas que todas elas vêm
levando e ainda vão levar.
Mas, depois de ler seu jornal,
minha arte se refez em bem e mal,
e a vida voltou àquela tão banal
educação sentimental:
antes que o amor te amorteça,
tua chama densa ainda me despreza
com presteza, frágil, presa
no inimaginável final:
meus nervos que se retesem,
tua carne aflora à pele,
treme e termina assim:
a jovem Liz Taylor chama o velho
Dean:
James Dean:
carbonizado no carro vermelho,
vestido da velha calça de brim,
sem vencer a beleza
mas prestes a
sexta-feira, março 18, 2005
quinta-feira, março 17, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
segunda-feira, março 14, 2005
quarta-feira, março 09, 2005
Desopilando com uma prosa bem fiada
Então, tá:
A quem interessar possa:
hoje o meu inferno astral mostrou sua face mais cruel: eu acordei atrasado, bebi dez limões do bem e fiz a careta mais horripilante do universo, chamei um táxi, entrei no táxi: o motorista fez que ia pegar o viaduto, mas pegou a Engenheiros Rebouças, trânsito, calor, aí finalmente o carro chegou, estacionou, dézão pagou a corrida (R$10,20 no taxímetro), e quando fui fechar a porta do carro (estou com tique-nervoso de fechar portas de carro, vocês nem sabe[m] porque) o dedão da mão direita quase ficou preso, levou uma espremida da porta, e eu passei o dia mal utilizando a mão do dedão doído, doido como sempre e mandando bênçãos pro mundo inteiro.
É bom voltar ao estilo blog, eu quase esqueci que sabia fazer isso, mas é melhor não me soltar nem confessar muito.
Pra poesia nunca falta assunto:
vamos dançar um xote junto?
A quem interessar possa:
hoje o meu inferno astral mostrou sua face mais cruel: eu acordei atrasado, bebi dez limões do bem e fiz a careta mais horripilante do universo, chamei um táxi, entrei no táxi: o motorista fez que ia pegar o viaduto, mas pegou a Engenheiros Rebouças, trânsito, calor, aí finalmente o carro chegou, estacionou, dézão pagou a corrida (R$10,20 no taxímetro), e quando fui fechar a porta do carro (estou com tique-nervoso de fechar portas de carro, vocês nem sabe[m] porque) o dedão da mão direita quase ficou preso, levou uma espremida da porta, e eu passei o dia mal utilizando a mão do dedão doído, doido como sempre e mandando bênçãos pro mundo inteiro.
É bom voltar ao estilo blog, eu quase esqueci que sabia fazer isso, mas é melhor não me soltar nem confessar muito.
Pra poesia nunca falta assunto:
vamos dançar um xote junto?
segunda-feira, março 07, 2005
AMODORRA
*
DA MODORRA AO AMOR
Vida reduzida ao tédio.
Contemplação sem o templo.
Tempo escasso que não passa.
Rima pobre que contemplo.
Risada incontrolável estalada
no velório do finado iniciado.
Tropeção pelos degraus da escada.
Primeiro beijo do amor acabado.
Todas as coisas que eu procuro,
créditos e débitos sem juro,
cenas sem cinema nem novela:
apanhei a mão dela: quase fria
e um abraço abraçado de alegria
desabrochou feito flor amarela
DA MODORRA AO AMOR
Vida reduzida ao tédio.
Contemplação sem o templo.
Tempo escasso que não passa.
Rima pobre que contemplo.
Risada incontrolável estalada
no velório do finado iniciado.
Tropeção pelos degraus da escada.
Primeiro beijo do amor acabado.
Todas as coisas que eu procuro,
créditos e débitos sem juro,
cenas sem cinema nem novela:
apanhei a mão dela: quase fria
e um abraço abraçado de alegria
desabrochou feito flor amarela
quarta-feira, março 02, 2005
Parado na paródia
*
POEMA DE SETE CORES TODAS DA MESMA COR
quando nasci
um pintor torto
desses que cortam as orelhas
disse
vai tinta!
ser guache na vida
Ivan
POEMA DE SETE CORES TODAS DA MESMA COR
quando nasci
um pintor torto
desses que cortam as orelhas
disse
vai tinta!
ser guache na vida
Ivan
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
O rimador
(agadanhado de Carlos Drummond de Andrade)
Lutar com as rimas
é luta mas ri.
Em tanto nos rimos
de mim e de si.
São muitas, eu pouco,
como já vali!
Não me julgo louco:
como o javali.
Mas lúcido tento
marcar nelas tento.
Lutar com as rimas
parece tão bruto.
Parece tristeza
entre tanto luto.
É fluido inimigo
sem sangue nem músculos
e se ri de tudo:
dos haicais minúsculos
ao épico homérico.
Lutar com as rimas
não rima com lutas,
sejam elas virgens
sejam elas putas.
Essas foram fáceis,
dignas de Hollywood.
Se elas fossem fósseis
ou algo mais sólido,
fossem cicatrizes,
fossem cinco atrizes
ou algo mais óbvio,
tanto faz pra vida.
Lutar com as rimas
é luta mas ri.
Em tanto nos rimos
de mim e de si.
São muitas, eu pouco,
como já vali!
Não me julgo louco:
como o javali.
Mas lúcido tento
marcar nelas tento.
Lutar com as rimas
parece tão bruto.
Parece tristeza
entre tanto luto.
É fluido inimigo
sem sangue nem músculos
e se ri de tudo:
dos haicais minúsculos
ao épico homérico.
Lutar com as rimas
não rima com lutas,
sejam elas virgens
sejam elas putas.
Essas foram fáceis,
dignas de Hollywood.
Se elas fossem fósseis
ou algo mais sólido,
fossem cicatrizes,
fossem cinco atrizes
ou algo mais óbvio,
tanto faz pra vida.
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Na casa 23
*
Na casa vinte e três
existem duas jogadoras de xadrez.
Duplo fascínio: branca e negra.
O tabuleiro treme na vez
das brancas: troiana e grega
delicadas destroem os trebelhos,
pupilas faíscam pelos espelhos,
lances velhos, novas combinações,
sangue veloz nas veias, tentações,
cenas estáticas que se sucedem, e então
um golpe tático!
Previsto muito à frente,
um sacrifício calculado:
as negras entregam material
pra ganhar inevitavelmente
no final.
Na casa vinte e três
existem duas jogadoras de xadrez.
Duplo fascínio: branca e negra.
O tabuleiro treme na vez
das brancas: troiana e grega
delicadas destroem os trebelhos,
pupilas faíscam pelos espelhos,
lances velhos, novas combinações,
sangue veloz nas veias, tentações,
cenas estáticas que se sucedem, e então
um golpe tático!
Previsto muito à frente,
um sacrifício calculado:
as negras entregam material
pra ganhar inevitavelmente
no final.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
uma canção faz dez anos
*
SAMBA DA GLÁUCIA
(Furtado/ Goedert/ Grossi/ Prado/ Santana)
Vamos pra casa da Gláucia
É lá que nóis pode beber
Depois de fritchar oitcho ovo
De fome ninguém vai morrer
Vem Magoo
Pardal, Tatiana e Eduardo
Vem Peru
Ivan, Cobaia e Marcos Prado
E o Gunther
Chorando as mágoas do passado
E a Alessandra
Mais coitada que o coitado
Vem Edílson
E vem a Dani
Vem o Edson
E a Fabiane
Sem a Patrícia
Vem o Podrão
Há mais de mil
Comunistas no salão
Vamos pra casa da Gláucia
É lá que nóis pode beber
Depois de fritchar oitcho ovo
De fome ninguém vai morrer
(repete indefinidamente, batucando e bebendo)
SAMBA DA GLÁUCIA
(Furtado/ Goedert/ Grossi/ Prado/ Santana)
Vamos pra casa da Gláucia
É lá que nóis pode beber
Depois de fritchar oitcho ovo
De fome ninguém vai morrer
Vem Magoo
Pardal, Tatiana e Eduardo
Vem Peru
Ivan, Cobaia e Marcos Prado
E o Gunther
Chorando as mágoas do passado
E a Alessandra
Mais coitada que o coitado
Vem Edílson
E vem a Dani
Vem o Edson
E a Fabiane
Sem a Patrícia
Vem o Podrão
Há mais de mil
Comunistas no salão
Vamos pra casa da Gláucia
É lá que nóis pode beber
Depois de fritchar oitcho ovo
De fome ninguém vai morrer
(repete indefinidamente, batucando e bebendo)
domingo, fevereiro 13, 2005
Tom Waits, but eventually goes (quarto e último ato)
*
ONDE EU CAIR MORTO
Meu cérebro dança
Com o coração nos sapatos
Quis engolir o mar
Que agora está de ressaca
Ela me apunhalou pela frente
E já se diverte às minhas costas
Mas qualquer lugar onde eu cair morto
Ali será minha casa, idiotas
Minha vida era cheia de ouro
Mas tudo virou de pernas pro ar
Agora só nuvens passam pelo meu bolso
Chovendo no meu calcanhar
Aprendi a viver só de minhas respostas
Mas qualquer lugar onde eu cair morto
Ali será minha casa, idiotas
Tom Waits
versão brasileira
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
ONDE EU CAIR MORTO
Meu cérebro dança
Com o coração nos sapatos
Quis engolir o mar
Que agora está de ressaca
Ela me apunhalou pela frente
E já se diverte às minhas costas
Mas qualquer lugar onde eu cair morto
Ali será minha casa, idiotas
Minha vida era cheia de ouro
Mas tudo virou de pernas pro ar
Agora só nuvens passam pelo meu bolso
Chovendo no meu calcanhar
Aprendi a viver só de minhas respostas
Mas qualquer lugar onde eu cair morto
Ali será minha casa, idiotas
Tom Waits
versão brasileira
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
sábado, fevereiro 12, 2005
TW4U3
*
MAGRELAS QUEBRADAS
Magrelas quebradas
Correntes velhas arrebentadas
Guidões enferrujados
Na garoa da madrugada
Essas coisas deviam ter um orfanato
Um lar do objeto desamparado
Março está lembrando Dezembro
Adeus é a única palavra que estão dizendo
O verão se foi
Mas minha paixão ficará congelada
Como as velhas magrelas quebradas
Na garoa da madrugada
Magrelas quebradas
Não digam nada pros meus pais
Se aquelas cartas de baralho foram dar nos seus pedais
Espalhadas como esqueletos nos quintais
As rodas da frente não rodam sem as detrás
Primaveras voam num lance de dados
E o meu azar sempre cai no ano errado
Porém todas essas coisas que você me dá agora
Mesmo depois de quebradas não serão jogadas fora
O verão se foi
Mas minha paixão ficará congelada
Como as velhas magrelas quebradas
Na garoa da madrugada
Tom Waits
dublagem:
Ivan Justen Santana
MAGRELAS QUEBRADAS
Magrelas quebradas
Correntes velhas arrebentadas
Guidões enferrujados
Na garoa da madrugada
Essas coisas deviam ter um orfanato
Um lar do objeto desamparado
Março está lembrando Dezembro
Adeus é a única palavra que estão dizendo
O verão se foi
Mas minha paixão ficará congelada
Como as velhas magrelas quebradas
Na garoa da madrugada
Magrelas quebradas
Não digam nada pros meus pais
Se aquelas cartas de baralho foram dar nos seus pedais
Espalhadas como esqueletos nos quintais
As rodas da frente não rodam sem as detrás
Primaveras voam num lance de dados
E o meu azar sempre cai no ano errado
Porém todas essas coisas que você me dá agora
Mesmo depois de quebradas não serão jogadas fora
O verão se foi
Mas minha paixão ficará congelada
Como as velhas magrelas quebradas
Na garoa da madrugada
Tom Waits
dublagem:
Ivan Justen Santana
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Tom Waits 4 U 2
*
OS BRAÇOS DE RÚBIA
(Ruby´s arms)
Vou deixar pra trás todas as blusas
Que usei quando éramos uma dupla
Levo apenas a bota preta
E a velha e surrada jaqueta
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Apesar do meu coração estar se partindo
Atravesso, sutil, suas venezianas
Logo suas pestanas estarão se abrindo
Seu rosto foi lavado pela aurora
E um azul triste toma o quarto nesta hora
Você sonha um abraço, a fronha enruga
Não há nada que eu possa fazer agora
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Você ainda achará outro soldado
Juro por Deus que na noite de Natal
Haverá alguém como eu do seu lado
Fico só com um lenço do seu enxoval
E num passo leve que o criado-mudo dubla
Desvio dos seus guizos quebrados
E digo adeus aos braços de Rúbia
Saio da sala à meia-luz pruma manhã escura
Vejo os mendigos que vivem na rua
Mantendo o fogo aceso apesar da chuva
Jesus, o ônibus não chega, a garoa me nubla
Não vou dizer te amo nunca
Nem te ferir com qualquer outra frase dúbia
Não tenho mais nenhuma desculpa
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Tom Waits
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
OS BRAÇOS DE RÚBIA
(Ruby´s arms)
Vou deixar pra trás todas as blusas
Que usei quando éramos uma dupla
Levo apenas a bota preta
E a velha e surrada jaqueta
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Apesar do meu coração estar se partindo
Atravesso, sutil, suas venezianas
Logo suas pestanas estarão se abrindo
Seu rosto foi lavado pela aurora
E um azul triste toma o quarto nesta hora
Você sonha um abraço, a fronha enruga
Não há nada que eu possa fazer agora
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Você ainda achará outro soldado
Juro por Deus que na noite de Natal
Haverá alguém como eu do seu lado
Fico só com um lenço do seu enxoval
E num passo leve que o criado-mudo dubla
Desvio dos seus guizos quebrados
E digo adeus aos braços de Rúbia
Saio da sala à meia-luz pruma manhã escura
Vejo os mendigos que vivem na rua
Mantendo o fogo aceso apesar da chuva
Jesus, o ônibus não chega, a garoa me nubla
Não vou dizer te amo nunca
Nem te ferir com qualquer outra frase dúbia
Não tenho mais nenhuma desculpa
– Digo adeus aos braços de Rúbia
Tom Waits
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Tom Waits 4 U
*
ESSA VEIO DO CORAÇÃO
Ao sair tranque a porta
Você é livre, nota?
Enquanto isso bebo outra
Isso é amor ou não?
Nunca me vi dessa forma
Oh baby, essa veio do coração
As silhuetas na parede lembram uma linha férrea
Queria vê-las indo ao avesso do que vão
A lua no céu, uma estação amarela
Oh baby, essa veio do coração
Corro até a esquina numa aposta impossível
Pra atender você no orelhão
Estão desregulados os freios do conversível
Oh baby, essa veio do coração
A larva está escalando o abacateiro
Dando suas costas para o paredão:
Preparo para mim um copo cheio
Oh baby, essa veio do coração
Loiras, ruivas e mulatas
Distribuem marteladas
Esculpindo-me a frio com um formão
Foram apenas apóstrofes mal colocadas
Oh baby, essa veio do coração
Não sei bem, isso são saxofones ou alarmes?
Quando chove a pista escorrega na contramão
Eu te amo mais do que podem dizer essas frases
Oh baby, essa veio do coração
Tom Waits
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
ESSA VEIO DO CORAÇÃO
Ao sair tranque a porta
Você é livre, nota?
Enquanto isso bebo outra
Isso é amor ou não?
Nunca me vi dessa forma
Oh baby, essa veio do coração
As silhuetas na parede lembram uma linha férrea
Queria vê-las indo ao avesso do que vão
A lua no céu, uma estação amarela
Oh baby, essa veio do coração
Corro até a esquina numa aposta impossível
Pra atender você no orelhão
Estão desregulados os freios do conversível
Oh baby, essa veio do coração
A larva está escalando o abacateiro
Dando suas costas para o paredão:
Preparo para mim um copo cheio
Oh baby, essa veio do coração
Loiras, ruivas e mulatas
Distribuem marteladas
Esculpindo-me a frio com um formão
Foram apenas apóstrofes mal colocadas
Oh baby, essa veio do coração
Não sei bem, isso são saxofones ou alarmes?
Quando chove a pista escorrega na contramão
Eu te amo mais do que podem dizer essas frases
Oh baby, essa veio do coração
Tom Waits
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
e
Marcos Prado de Oliveira
desopilando com versinhos
*
é duro
ter que criar
na escuridão
no futuro
toda clareza
será inexatidão
difícil
a beleza
ser mais
que um clarão
quem tem certeza
engole as respostas
dá as costas às costas
e se perde na multidão
sem sombra de dúvida
só sobrará atingida
a iluminação
é duro
ter que criar
na escuridão
no futuro
toda clareza
será inexatidão
difícil
a beleza
ser mais
que um clarão
quem tem certeza
engole as respostas
dá as costas às costas
e se perde na multidão
sem sombra de dúvida
só sobrará atingida
a iluminação
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Postagem carnavalesca
Então é carnaval: visto a máscara de prosador e colo aqui um trecho das minhas historinhas verídicofantásticas (podem crer que foi bem assim que aconteceu).
O RATO ERA ELA
Descia a pé a Treze de Maio desde o viaduto, o céu cada vez mais escuro e olha que nem eram três da tarde, parecia quase noite. Mas eu nem pensava nisso. Pelo menos eu não tinha pulado de cima do viaduto dessa vez, era o que eu pensava, tentando me manter ligado pra desviar dos buracos na calçada. Tinha pulado fora era da faculdade, me candidatando a vagau em tempo integral. Eu me sentia mais um rato, nem podendo imaginar que (é estranho mesmo) o rato era ela.
Ela vinha subindo, nossos olhos se encontraram sorrindos. Aéreo, eu mal percebi que a tempestade já ia começando, com aquelas gotas grossas estalando que nem traques. Ela abriu um guarda chuva ridículo, grotesco, cor berrante, numa palavra: estapafúrdio.
Aonde você vai (quo vadis, ela perguntou com todo o seu latim)?
Não sei, eu disse, e ela já se encostou mais em mim a título de não tomar tanta chuva. Aí pronto, num relâmpago já estávamos no maior malho. Comigo é assim, ou pelo menos tem que ser, já que fico todo pateta se a conversa estica e quase sempre perco a oportunidade de agarrar a mulher: mas nunca achei uma que beijasse mal.
Ai, assim você me tira o fôlego...
Quarenta e cinco segundos e eu já cortaria um braço por ela: um pateta, sempre um pateta. A tempestade ia na mesma medida: a sarjeta já era uma torrente, um bueiro começou a jorrar feito uma fonte. Aproveitei o escândalo do clima pra encaixar melhor o corpo dela no meu, começando a ter flashes das três ou quatro vezes que a tinha visto, uma vez agarrada num dos meus melhores amigos. Mas daí eu nem pensava mais em nada, virando ela contra a parede e atacando alucinadamente a criatura.
Aiiii, hmmmmm......................
Vuushhhhhhhh: o guarda-chuva rocambolesco foi pelos ares sem que eu pudesse piscar, mas ela deu um gritinho sensualíssimo (na minha modesta opinião), só que era também um pedido de socorro, e o herói que existe dentro de todo pateta acordou: a reação máxima foi soltar um dos braços e dar um passo pra trás, no que ela aproveitou pra dar dois à frente e fazer menção do terceiro, em busca do guarda-chuva...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIII!!!!!!!!!
O grito foi mais ou menos assim, estilo fã enlouquecida cruza com atriz de horror B: do bueiro que jorrava um rato foi EJETADO (sem aviso) num pulo de meio metro junto com o jato de água escura.
Ela (a garota, não a água escura) deu um salto quase equivalente ao do rato, caindo nos meus prontos braços (herói!), eu milagrosamente recuperando o poder de reação e me controlando pra não cair chorando de rir. Calculei que conseguiria carregar a mocinha na subida no máximo por duas quadras, mas daí era só mais uma até o cine Bristol.
Foi lá que retomamos com grande intensidade os trabalhos vencidos do amor.
The end
Como é? Não posso terminar este trecho shakespearizando? Azar...
O quê? Vocês querem saber qual filme estava passando? Bem, o terceiro dos Aliens, que a Ripley (Sigourney Weaver) está de cabeça raspada. Por sinal, duas coincidências aí: o alien que pula de dentro da própria boca era a cara do rato saltitante, e aquela garota uma vez raspou a cabeça feito a Sigourney só porque eu disse que ela ia ficar mais bonita careca. Quem me lê até pensa que sou isso tudo... Mas as devidas e maiores explicações ficam pra depois, que agora eu vou dormir.
O RATO ERA ELA
Descia a pé a Treze de Maio desde o viaduto, o céu cada vez mais escuro e olha que nem eram três da tarde, parecia quase noite. Mas eu nem pensava nisso. Pelo menos eu não tinha pulado de cima do viaduto dessa vez, era o que eu pensava, tentando me manter ligado pra desviar dos buracos na calçada. Tinha pulado fora era da faculdade, me candidatando a vagau em tempo integral. Eu me sentia mais um rato, nem podendo imaginar que (é estranho mesmo) o rato era ela.
Ela vinha subindo, nossos olhos se encontraram sorrindos. Aéreo, eu mal percebi que a tempestade já ia começando, com aquelas gotas grossas estalando que nem traques. Ela abriu um guarda chuva ridículo, grotesco, cor berrante, numa palavra: estapafúrdio.
Aonde você vai (quo vadis, ela perguntou com todo o seu latim)?
Não sei, eu disse, e ela já se encostou mais em mim a título de não tomar tanta chuva. Aí pronto, num relâmpago já estávamos no maior malho. Comigo é assim, ou pelo menos tem que ser, já que fico todo pateta se a conversa estica e quase sempre perco a oportunidade de agarrar a mulher: mas nunca achei uma que beijasse mal.
Ai, assim você me tira o fôlego...
Quarenta e cinco segundos e eu já cortaria um braço por ela: um pateta, sempre um pateta. A tempestade ia na mesma medida: a sarjeta já era uma torrente, um bueiro começou a jorrar feito uma fonte. Aproveitei o escândalo do clima pra encaixar melhor o corpo dela no meu, começando a ter flashes das três ou quatro vezes que a tinha visto, uma vez agarrada num dos meus melhores amigos. Mas daí eu nem pensava mais em nada, virando ela contra a parede e atacando alucinadamente a criatura.
Aiiii, hmmmmm......................
Vuushhhhhhhh: o guarda-chuva rocambolesco foi pelos ares sem que eu pudesse piscar, mas ela deu um gritinho sensualíssimo (na minha modesta opinião), só que era também um pedido de socorro, e o herói que existe dentro de todo pateta acordou: a reação máxima foi soltar um dos braços e dar um passo pra trás, no que ela aproveitou pra dar dois à frente e fazer menção do terceiro, em busca do guarda-chuva...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIIIII!!!!!!!!!
O grito foi mais ou menos assim, estilo fã enlouquecida cruza com atriz de horror B: do bueiro que jorrava um rato foi EJETADO (sem aviso) num pulo de meio metro junto com o jato de água escura.
Ela (a garota, não a água escura) deu um salto quase equivalente ao do rato, caindo nos meus prontos braços (herói!), eu milagrosamente recuperando o poder de reação e me controlando pra não cair chorando de rir. Calculei que conseguiria carregar a mocinha na subida no máximo por duas quadras, mas daí era só mais uma até o cine Bristol.
Foi lá que retomamos com grande intensidade os trabalhos vencidos do amor.
The end
Como é? Não posso terminar este trecho shakespearizando? Azar...
O quê? Vocês querem saber qual filme estava passando? Bem, o terceiro dos Aliens, que a Ripley (Sigourney Weaver) está de cabeça raspada. Por sinal, duas coincidências aí: o alien que pula de dentro da própria boca era a cara do rato saltitante, e aquela garota uma vez raspou a cabeça feito a Sigourney só porque eu disse que ela ia ficar mais bonita careca. Quem me lê até pensa que sou isso tudo... Mas as devidas e maiores explicações ficam pra depois, que agora eu vou dormir.
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