Topei com uma breve postagem-poema muito bacana de meu caro amigo Mario Negrello, cientista da inteligência humana. Resolvi prontamente fazer a tradução, e antecipo que um comentarista da referida postagem descreveu-a como "uma obra de Escher em palavras".
Senão vejamos...
The unfathomable of the wise
The unfathomable to the wise
Is the obvious to the dimwit
And vice-versa.
Who is who?
O insondável do sábio
O insondável ao sábio
É o óbvio ao estúpido
E vice-versa.
Qual é qual?
Texto original: Mário Negrello
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
quarta-feira, maio 13, 2009
sexta-feira, maio 08, 2009
O POETAÇO E O POETENTO
O poetaço e o poetento
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:
“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces que não tem preço
o meu cantar de tom tão só?”
O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho
passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:
“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces que não tem preço
o meu cantar de tom tão só?”
O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho
passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.
sexta-feira, maio 01, 2009
OVILEJOS EM FARRAPOS
Com coragem neste drama, ama.
Intimando a nota prima, rima.
Na vertigem do dilema, lema.
Sem vacilo em hora extrema
Trame um tema que resuma
Toda a terra ou lua alguma
E ame a rima como lema.
Chova uns pingos mas não trema.
Se o seu verso é pouco esperto perto
E as palavras não são cruas ruas
Nem apagam as velinhas linhas
Manje as canjas das galinhas
Demonstrando o ritmo certo
De belezas quase nuas,
Quase suas, quase minhas.
Nunca estanque um corte aberto:
Resta o grito no deserto.
Intimando a nota prima, rima.
Na vertigem do dilema, lema.
Sem vacilo em hora extrema
Trame um tema que resuma
Toda a terra ou lua alguma
E ame a rima como lema.
Chova uns pingos mas não trema.
Se o seu verso é pouco esperto perto
E as palavras não são cruas ruas
Nem apagam as velinhas linhas
Manje as canjas das galinhas
Demonstrando o ritmo certo
De belezas quase nuas,
Quase suas, quase minhas.
Nunca estanque um corte aberto:
Resta o grito no deserto.
terça-feira, abril 28, 2009
Sintonizando a blogosfera
Meu mais que prezado amigo Lepre
inaugurou um blog -
já faz um tempinho, e muita gente já sabe,
mas eu me importo bem menos com novidades
do que com poesia...
Mudando de enfant pra terrible,
vou prestar agora
uma homenagem ao cartunista-poeta
mais bem-humorado de Curitiba...
Quem duvida que estou me referindo ao Solda?
Ele que me desculpe por estas
VARIAÇÕES PARA VERSOS DO SOLDA
um poeta sentado
é um poeta em pé de guerra
um poeta rezando
é um poeta em fé que berra
um poeta lutando
é um poeta em paz na terra
um poeta que morre
é um poeta enfim não erra
inaugurou um blog -
já faz um tempinho, e muita gente já sabe,
mas eu me importo bem menos com novidades
do que com poesia...
Mudando de enfant pra terrible,
vou prestar agora
uma homenagem ao cartunista-poeta
mais bem-humorado de Curitiba...
Quem duvida que estou me referindo ao Solda?
Ele que me desculpe por estas
VARIAÇÕES PARA VERSOS DO SOLDA
um poeta sentado
é um poeta em pé de guerra
um poeta rezando
é um poeta em fé que berra
um poeta lutando
é um poeta em paz na terra
um poeta que morre
é um poeta enfim não erra
terça-feira, abril 21, 2009
Para quem ainda acha que letra de música não é poesia...
A ROSE FOR EMILY
UMA ROSA PARA EMÍLIA
Though summer is here at last
The sky is overcast
And no one brings a rose for Emily
O verão finalmente veio
Mas nuvens deixam o céu cheio
E ninguém traz uma rosa para Emília
She watches her flowers grow
While lovers come and go
To give each other roses from her tree
But not a rose for Emily...
Ela vê suas flores se abrindo
E os casais passam indo e vindo
Distribuindo-se rosas de sua roseira
Porém nenhuma rosa para Emília...
Emily, can't you see
There's nothing you can do?
There's loving everywhere
But none for you...
Emília, você não vê?
Não há mesmo nada a fazer
Existe amor por toda parte
Porém nenhum para você...
Her roses are fading now
She keeps her pride somehow
That's all she has protecting her from pain
Suas rosas fenecem agora
Ela mantém o orgulho de alguma forma
É só o que sobrou para protegê-la da dor
And as the years go by
She will grow old and die
The roses in her garden fade away
Not one left for her grave
Not a rose for Emily...
E à medida que o tempo escorrer
Ela vai envelhecer e morrer
As rosas do jardim desaparecerão
Nenhuma restará para seu caixão
Nenhuma rosa para Emília...
The Zombies (Rod Argent)
Ivan Justen Santana

Para ouvir a maravilhosa canção dos Zombies clique aqui.
UMA ROSA PARA EMÍLIA
Though summer is here at last
The sky is overcast
And no one brings a rose for Emily
O verão finalmente veio
Mas nuvens deixam o céu cheio
E ninguém traz uma rosa para Emília
She watches her flowers grow
While lovers come and go
To give each other roses from her tree
But not a rose for Emily...
Ela vê suas flores se abrindo
E os casais passam indo e vindo
Distribuindo-se rosas de sua roseira
Porém nenhuma rosa para Emília...
Emily, can't you see
There's nothing you can do?
There's loving everywhere
But none for you...
Emília, você não vê?
Não há mesmo nada a fazer
Existe amor por toda parte
Porém nenhum para você...
Her roses are fading now
She keeps her pride somehow
That's all she has protecting her from pain
Suas rosas fenecem agora
Ela mantém o orgulho de alguma forma
É só o que sobrou para protegê-la da dor
And as the years go by
She will grow old and die
The roses in her garden fade away
Not one left for her grave
Not a rose for Emily...
E à medida que o tempo escorrer
Ela vai envelhecer e morrer
As rosas do jardim desaparecerão
Nenhuma restará para seu caixão
Nenhuma rosa para Emília...
The Zombies (Rod Argent)
Ivan Justen Santana

Para ouvir a maravilhosa canção dos Zombies clique aqui.
terça-feira, abril 14, 2009
Eloquência com azeite de oliva

À ré poesia a verdade é a sentença,
desde que a nós, cegos poetas, coube
consagrar com oniscipotenpresença
até o mais modesto, humilde e simples pé de couve –
portanto: que o único calo que me cale,
que a única bela que não me abale
e que o único amor que me amordace
eu colha nas fímbrias das fibras duma folha de alface.
desde que a nós, cegos poetas, coube
consagrar com oniscipotenpresença
até o mais modesto, humilde e simples pé de couve –
portanto: que o único calo que me cale,
que a única bela que não me abale
e que o único amor que me amordace
eu colha nas fímbrias das fibras duma folha de alface.
segunda-feira, abril 13, 2009
sábado, abril 04, 2009
PARÁFRASE VITAL EM BILABIAIS ELÍPTICAS
Superar seres, sis e circes
no acesso sensível ao si das sílabas
– sobrar só com os lábios –
triunfar dos perigos das perífrases
– cilas e caríbdis perdido(a)s por
períneos ígneos – furar as fúrias
– pérfidas erínias – simplégades
fenecendo ao final flechado
dos fragmentos de fragrâncias fatais –
sintetizar as sintonias
sem assíndetos ou polissíndetos –
sem venci nem vi tampouco vim –
e desferir enfim um simplíssimo
sim
no acesso sensível ao si das sílabas
– sobrar só com os lábios –
triunfar dos perigos das perífrases
– cilas e caríbdis perdido(a)s por
períneos ígneos – furar as fúrias
– pérfidas erínias – simplégades
fenecendo ao final flechado
dos fragmentos de fragrâncias fatais –
sintetizar as sintonias
sem assíndetos ou polissíndetos –
sem venci nem vi tampouco vim –
e desferir enfim um simplíssimo
sim
domingo, março 22, 2009
Poema a um aniversário
Post digitatum: destaque positivo que já deveria ter sido feito - a tradução deste poema em sete partes deve muito às sugestões e observações feitas por Isa Fonseca, que merece parte do crédito por tudo que você, leitor(a), gostar nestes textos, pois a Isa foi uma leitora atenta das partes 1 a 5, e quem sabe ainda possa fazer mais observações sobre estas e as cabulosas partes 6 e 7...
Destaque negativo de que tomei conhecimento hoje: no dia 16 de março deste ano, Nicholas Hughes, filho de Sylvia e Ted, suicidou-se.
Poema a um aniversário
1. Quem
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.
O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.
Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.
Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.
Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.
Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um adubo de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas qual banha de porco.
Ah, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.
Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.
Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.
Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.
Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem como uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.
2. Casa Escura
Esta é uma casa escura, muito grande.
Eu mesma a fiz,
Cela por cela, de uma esquina discreta,
Mascando o papel cinzento,
Pingando a cola,
Assobiando, mexendo as orelhas,
Distraída em pensamentos.
Ela tem tantos porões,
Tantas reentrâncias traiçoeiras!
Eu sou redonda como uma coruja,
Eu vejo com minha própria luz.
Qualquer dia eu boto uns cãezinhos no lixo
Ou adoto um cavalo. Minha barriga se agita.
Preciso fazer mais mapas.
E estes túneis medulares!
Mãos verruguentas, devoro meu caminho.
O Garganta consome os arbustos
E as paneladas de carne.
Ele mora num velho poço,
Um buraco pedregoso. Ele é o culpado.
Ele é um tipo gorducho.
Cheiros de seixo, aposentos estilo nabo.
Narininhas respirando.
Pequenos amores humildes!
Insignificâncias, cartilagens de narizes,
É morno e tolerável
Na víscera da raiz.
Eis a mãe aconchegante.
3. Mênade
Uma vez eu era comum:
Sentava ao pé de feijão de meu pai
Comendo os dedos da sabedoria.
As aves davam leite.
Quando trovoou me escondi sob uma pedra chata.
A mãe das gargantas não me amava.
O velho encolheu a um boneco.
Ah, eu sou grande demais pra retornar:
Leite de ave é plumagem,
As folhas de feijão são mudas feito mãos.
Este mês serve pra pouca coisa.
Os mortos amadurecem nos vinhedos.
Uma língua vermelha está entre nós.
Mãe, fique longe do meu curral,
Eu estou me tornando outra.
Cabeça-de-cão, devoradora:
Me alimente com as bagas da escuridão.
As pálpebras não fecham. O tempo
Desenrola do grande umbigo do sol
O seu brilho sem fim.
Eu tenho que engolir tudo isso.
Dama, quem são estes outros no tonel da lua –
Dormindo de porre, braços e pernas em discordância?
Sob esta luz o sangue é negro.
Diga-me o meu nome.
4. A Besta-Fera
Ele era homem-touro antes,
Rei da bandeja, meu bicho da sorte.
Respirar era fácil no seu abraço aéreo.
O sol pousava no seu sovaco.
Nada mofava. Os pequenos invisíveis
Desdobravam-se para servi-lo.
As irmãs azuis me mandaram a outra escola.
Macaco vivia embaixo do chapéu de burro.
Ele sempre me atirava beijos.
Eu mal o conhecia.
Livrar-se dele – quem há de?
Patas-choramingas, gementes e doridas,
Alminha de Mascote, entranhas são estranhas.
Uma lata de lixo já lhe é suficiente.
A escuridão é o seu osso.
Chame-o por qualquer nome, ele vai atender.
Lodo-fossa, alegre face de pocilga.
Eu casei com um armário de entulhos.
Eu me deito numa poça de peixe.
Aqui embaixo o céu sempre está caindo.
Lama de chiqueiro na janela.
Os insetos estelares não me pouparão este mês.
Eu cuido de um lar no reto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa do Vazio,
Noiva do Peludentuço.
5. Notas de Flauta numa Lagoa Juncosa
Agora desce, peneirando-se em camadas, o frio
Ao nosso refúgio à raiz do lírio.
Sobre a cabeça os velhos guarda-sóis do estio
Murcham feito mãos sem tutano. Há pouco abrigo.
De hora em hora o olho do céu alarga seu vago
Domínio. Estrelas estão fixas.
A boca-de-sapo e a boca-de-peixe já tragam
O licor da indolência, e tudo naufraga
Numa suave coifa protetora de esquecimento.
As cores fugitivas morrem.
Larvas de mosca d´água dormitam em cápsulas de seda,
As ninfas de cabeças-lâmpadas acenam ao sono, pétreas.
Marionetes, libertas das cordas do manipulador,
Usam chifres-máscaras na cama.
Isso não é a morte, é uma coisa mais segura.
Os mitos alados nunca mais vão nos comover:
Estão mudas as exúvias que cantaram de cima das águas
O gólgota na ponta de um junco,
E como um deus frágil feito o dedo de um infante
Sairá da própria casca e navegará pelos ares.
6. Bruxa em Chamas
Na praça do mercado estão empilhando os galhos secos.
Um mato trançado de sombras é uma pobre manta. Habito
Uma imagem de cera de mim mesma, corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou o alvo de dardos para bruxas.
Somente o diabo pode passar um sabão no diabo.
No mês das folhas secas eu subo numa cama de fogo.
É fácil culpar a treva: a boca de uma porta,
O ventre do celeiro. Apagaram minha chispa.
A dama de élitros pretos me guarda em gaiola de papagaio.
Que olhos grandes os mortos têm!
Estou íntima com um espírito peludo.
Fumaça rodopia do bico deste jarro vazio.
Se eu sou assim, pequena, mal eu não posso fazer.
Se sequer me movimento, nada posso derrubar. Assim falei,
Sentada sob a tampa da panela, inerte grãozinho de arroz.
Estão acendendo os bocais do fogão, anel por anel.
Somos cheios de amido, meus branquinhos camaradas.
Crescemos. Dói no início. Línguas rubras dirão a lição.
Mãe dos besouros, só peço que abras o punho:
Voarei pela boca das velas qual mariposa não-tostada.
Devolve minha forma. Estou pronta para interpretar os dias
Em que fiz par com a poeira à sombra de uma pedra.
Meus tornozelos brilham. O brilho ascende às minhas coxas.
Eu estou perdida, perdida, nos meandros de toda esta luz.
7. As Pedras
Esta é a cidade onde se remendam os homens.
Eu deito sobre uma grande bigorna.
A achatada abóbada azul
Voou feito o chapéu duma boneca
Quando eu caí fora da luz. Ingressei
No estômago da indiferença, armário sem fala.
A mãe dos pilões me reduziu.
Tornei-me um grânulo tranquilo.
As pedras da barriga eram pacíficas,
A pedra-chefe quieta, nada a chacoalhava.
Somente a boca-buraco flauteava,
Grilo impertinente
Numa pedreira de silêncios.
O povo da cidade ouviu.
Caçaram as pedras, taciturnas e apartadas,
A boca-barriga gritando aonde estavam.
Ébria como um feto
Eu sugo as papinhas da escuridão.
Tubos de alimento me envolvem. Esponjas lambem-me os liquens.
O mestre-joalheiro impele seu cinzel para
Extrair um olho da pedra.
Este é o pós-inferno: eu vejo a luz.
Um vento destampa a câmara
Do ouvido, velho preocupador.
A água amolece o lábio da pederneira,
E a luz do dia dispõe sua mesmice na parede.
Os enxertadores são alegres,
Esquentando as torqueses, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt sobre volt. Categute sutura minhas fissuras.
Um operário passa carregando um torso cor-de-rosa.
Os almoxarifados estão cheios de corações.
Esta é a cidade das peças sobressalentes.
Meus membros enfaixados tem cheiro doce feito borracha.
Aqui operam cabeças, ou quaisquer pedaços.
Às sextas-feiras as criancinhas vêm
Para trocar os ganchos por mãos.
Mortos deixam os olhos para os outros.
Amor é o uniforme da minha enfermeira careca.
Amor é tendão e osso da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa elusiva.
Dez dedos moldam um bojo às sombras.
Meus remendos coçam. Não há nada a fazer.
Ficarei nova em folha outra vez.
Sylvia Plathversão brasileira:
Ivan Justen Santana
Destaque negativo de que tomei conhecimento hoje: no dia 16 de março deste ano, Nicholas Hughes, filho de Sylvia e Ted, suicidou-se.
Poema a um aniversário
1. Quem
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.
O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.
Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.
Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.
Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.
Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um adubo de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas qual banha de porco.
Ah, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.
Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.
Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.
Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.
Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem como uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.
2. Casa Escura
Esta é uma casa escura, muito grande.
Eu mesma a fiz,
Cela por cela, de uma esquina discreta,
Mascando o papel cinzento,
Pingando a cola,
Assobiando, mexendo as orelhas,
Distraída em pensamentos.
Ela tem tantos porões,
Tantas reentrâncias traiçoeiras!
Eu sou redonda como uma coruja,
Eu vejo com minha própria luz.
Qualquer dia eu boto uns cãezinhos no lixo
Ou adoto um cavalo. Minha barriga se agita.
Preciso fazer mais mapas.
E estes túneis medulares!
Mãos verruguentas, devoro meu caminho.
O Garganta consome os arbustos
E as paneladas de carne.
Ele mora num velho poço,
Um buraco pedregoso. Ele é o culpado.
Ele é um tipo gorducho.
Cheiros de seixo, aposentos estilo nabo.
Narininhas respirando.
Pequenos amores humildes!
Insignificâncias, cartilagens de narizes,
É morno e tolerável
Na víscera da raiz.
Eis a mãe aconchegante.
3. Mênade
Uma vez eu era comum:
Sentava ao pé de feijão de meu pai
Comendo os dedos da sabedoria.
As aves davam leite.
Quando trovoou me escondi sob uma pedra chata.
A mãe das gargantas não me amava.
O velho encolheu a um boneco.
Ah, eu sou grande demais pra retornar:
Leite de ave é plumagem,
As folhas de feijão são mudas feito mãos.
Este mês serve pra pouca coisa.
Os mortos amadurecem nos vinhedos.
Uma língua vermelha está entre nós.
Mãe, fique longe do meu curral,
Eu estou me tornando outra.
Cabeça-de-cão, devoradora:
Me alimente com as bagas da escuridão.
As pálpebras não fecham. O tempo
Desenrola do grande umbigo do sol
O seu brilho sem fim.
Eu tenho que engolir tudo isso.
Dama, quem são estes outros no tonel da lua –
Dormindo de porre, braços e pernas em discordância?
Sob esta luz o sangue é negro.
Diga-me o meu nome.
4. A Besta-Fera
Ele era homem-touro antes,
Rei da bandeja, meu bicho da sorte.
Respirar era fácil no seu abraço aéreo.
O sol pousava no seu sovaco.
Nada mofava. Os pequenos invisíveis
Desdobravam-se para servi-lo.
As irmãs azuis me mandaram a outra escola.
Macaco vivia embaixo do chapéu de burro.
Ele sempre me atirava beijos.
Eu mal o conhecia.
Livrar-se dele – quem há de?
Patas-choramingas, gementes e doridas,
Alminha de Mascote, entranhas são estranhas.
Uma lata de lixo já lhe é suficiente.
A escuridão é o seu osso.
Chame-o por qualquer nome, ele vai atender.
Lodo-fossa, alegre face de pocilga.
Eu casei com um armário de entulhos.
Eu me deito numa poça de peixe.
Aqui embaixo o céu sempre está caindo.
Lama de chiqueiro na janela.
Os insetos estelares não me pouparão este mês.
Eu cuido de um lar no reto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa do Vazio,
Noiva do Peludentuço.
5. Notas de Flauta numa Lagoa Juncosa
Agora desce, peneirando-se em camadas, o frio
Ao nosso refúgio à raiz do lírio.
Sobre a cabeça os velhos guarda-sóis do estio
Murcham feito mãos sem tutano. Há pouco abrigo.
De hora em hora o olho do céu alarga seu vago
Domínio. Estrelas estão fixas.
A boca-de-sapo e a boca-de-peixe já tragam
O licor da indolência, e tudo naufraga
Numa suave coifa protetora de esquecimento.
As cores fugitivas morrem.
Larvas de mosca d´água dormitam em cápsulas de seda,
As ninfas de cabeças-lâmpadas acenam ao sono, pétreas.
Marionetes, libertas das cordas do manipulador,
Usam chifres-máscaras na cama.
Isso não é a morte, é uma coisa mais segura.
Os mitos alados nunca mais vão nos comover:
Estão mudas as exúvias que cantaram de cima das águas
O gólgota na ponta de um junco,
E como um deus frágil feito o dedo de um infante
Sairá da própria casca e navegará pelos ares.
6. Bruxa em Chamas
Na praça do mercado estão empilhando os galhos secos.
Um mato trançado de sombras é uma pobre manta. Habito
Uma imagem de cera de mim mesma, corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou o alvo de dardos para bruxas.
Somente o diabo pode passar um sabão no diabo.
No mês das folhas secas eu subo numa cama de fogo.
É fácil culpar a treva: a boca de uma porta,
O ventre do celeiro. Apagaram minha chispa.
A dama de élitros pretos me guarda em gaiola de papagaio.
Que olhos grandes os mortos têm!
Estou íntima com um espírito peludo.
Fumaça rodopia do bico deste jarro vazio.
Se eu sou assim, pequena, mal eu não posso fazer.
Se sequer me movimento, nada posso derrubar. Assim falei,
Sentada sob a tampa da panela, inerte grãozinho de arroz.
Estão acendendo os bocais do fogão, anel por anel.
Somos cheios de amido, meus branquinhos camaradas.
Crescemos. Dói no início. Línguas rubras dirão a lição.
Mãe dos besouros, só peço que abras o punho:
Voarei pela boca das velas qual mariposa não-tostada.
Devolve minha forma. Estou pronta para interpretar os dias
Em que fiz par com a poeira à sombra de uma pedra.
Meus tornozelos brilham. O brilho ascende às minhas coxas.
Eu estou perdida, perdida, nos meandros de toda esta luz.
7. As Pedras
Esta é a cidade onde se remendam os homens.
Eu deito sobre uma grande bigorna.
A achatada abóbada azul
Voou feito o chapéu duma boneca
Quando eu caí fora da luz. Ingressei
No estômago da indiferença, armário sem fala.
A mãe dos pilões me reduziu.
Tornei-me um grânulo tranquilo.
As pedras da barriga eram pacíficas,
A pedra-chefe quieta, nada a chacoalhava.
Somente a boca-buraco flauteava,
Grilo impertinente
Numa pedreira de silêncios.
O povo da cidade ouviu.
Caçaram as pedras, taciturnas e apartadas,
A boca-barriga gritando aonde estavam.
Ébria como um feto
Eu sugo as papinhas da escuridão.
Tubos de alimento me envolvem. Esponjas lambem-me os liquens.
O mestre-joalheiro impele seu cinzel para
Extrair um olho da pedra.
Este é o pós-inferno: eu vejo a luz.
Um vento destampa a câmara
Do ouvido, velho preocupador.
A água amolece o lábio da pederneira,
E a luz do dia dispõe sua mesmice na parede.
Os enxertadores são alegres,
Esquentando as torqueses, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt sobre volt. Categute sutura minhas fissuras.
Um operário passa carregando um torso cor-de-rosa.
Os almoxarifados estão cheios de corações.
Esta é a cidade das peças sobressalentes.
Meus membros enfaixados tem cheiro doce feito borracha.
Aqui operam cabeças, ou quaisquer pedaços.
Às sextas-feiras as criancinhas vêm
Para trocar os ganchos por mãos.
Mortos deixam os olhos para os outros.
Amor é o uniforme da minha enfermeira careca.
Amor é tendão e osso da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa elusiva.
Dez dedos moldam um bojo às sombras.
Meus remendos coçam. Não há nada a fazer.
Ficarei nova em folha outra vez.
Sylvia Plathversão brasileira:
Ivan Justen Santana
terça-feira, março 17, 2009
Intermezzo onírico: desperto no cinema e lembro que me prometi a tradução de um poema...
OZYMÂNDIAS
Topei um viajante duma antiga aldeia
Que disse: Há duas pernas de pedra, sem corpo,
De pé no deserto. Perto delas, na areia,
Um rosto meio enterrado jaz, cujo torto
Lábio de escárnio e de frio orgulho alardeia
Que seu escultor tais paixões reconhecia,
As quais ainda vivem, e ali são as marcas
Que a mão tripudiava e o coração nutria.
No pedestal, palavras que sempre lembrei:
“Eu sou Ozymândias, monarca dos monarcas:
Olhai minhas obras, ó Fortes, e tremei!”
Nada mais restou: ao redor da corrosão
Do colossal destroço, nuas e sem lei,
As ermas areias se estendem na amplidão.
I. J. Santana
(decalque do original de
P. B. Shelley:)
OZYMANDIAS
I met a traveller from an antique land
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.
Topei um viajante duma antiga aldeia
Que disse: Há duas pernas de pedra, sem corpo,
De pé no deserto. Perto delas, na areia,
Um rosto meio enterrado jaz, cujo torto
Lábio de escárnio e de frio orgulho alardeia
Que seu escultor tais paixões reconhecia,
As quais ainda vivem, e ali são as marcas
Que a mão tripudiava e o coração nutria.
No pedestal, palavras que sempre lembrei:
“Eu sou Ozymândias, monarca dos monarcas:
Olhai minhas obras, ó Fortes, e tremei!”
Nada mais restou: ao redor da corrosão
Do colossal destroço, nuas e sem lei,
As ermas areias se estendem na amplidão.
I. J. Santana
(decalque do original de
P. B. Shelley:)
OZYMANDIAS
I met a traveller from an antique land
Who said: Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.
sábado, março 14, 2009
Como foi o seu sonho? 4: oriente ao ocidente do ocidente no oriente
_
era um filme japonês:
cura e saia – céu e fêmea –
koan do cai um tanka estanca
sete sons – van gogh – bashô
mil versinhos em um só
era um filme japonês:
cura e saia – céu e fêmea –
koan do cai um tanka estanca
sete sons – van gogh – bashô
mil versinhos em um só
segunda-feira, março 09, 2009
Como foi o seu sonho? 3: Ao trair do outronho...
Ao trair do outronho, num lugar da mecha,
erra um sonhalves castresco, o tombatrilho,
quedos luvernos esverlhando o alidrilho,
abailatrava escarlacéu sedúleo – ...
Em vão eu li na láspide da catatumba:
"deixa aqui dentro toda sua esperancinha",
enquando banzos de vampirilâmpagos
amassamassacravam clécticas mnelistras...
No maio do flábil camirinto das perdas,
a minatáurea dossedice: tinha um livro –
foi um manual munido de instrepções
pra me acordar daquele pesadédalo –
e não é que deu certo?
erra um sonhalves castresco, o tombatrilho,
quedos luvernos esverlhando o alidrilho,
abailatrava escarlacéu sedúleo – ...
Em vão eu li na láspide da catatumba:
"deixa aqui dentro toda sua esperancinha",
enquando banzos de vampirilâmpagos
amassamassacravam clécticas mnelistras...
No maio do flábil camirinto das perdas,
a minatáurea dossedice: tinha um livro –
foi um manual munido de instrepções
pra me acordar daquele pesadédalo –
e não é que deu certo?
sexta-feira, março 06, 2009
SONHO DE VERDADE
(um poema feliz aniversário)
Quando vejo você vivendo de verdade,
sim, é um sonho que invade em parte a realidade,
gravando mais arte no tecido da vida,
com a dádiva mais sincera dividida
entre som, sensação, cor, perfume e sabor –
tudo que se transforma enfim em luz e em amor.
Nem a linguagem mais sublime, nem os velhos
meus versos lerdos se espalhando, escaravelhos
perdidos por pirâmides de poesia,
podem traçar ou expressar o que seria
simplesmente traçado e expresso tão bem
numa só curva do seu sorrisinho zen.
E aqui faltou apenas que você complete
a idade que atingiu (parabéns:) ______
Quando vejo você vivendo de verdade,
sim, é um sonho que invade em parte a realidade,
gravando mais arte no tecido da vida,
com a dádiva mais sincera dividida
entre som, sensação, cor, perfume e sabor –
tudo que se transforma enfim em luz e em amor.
Nem a linguagem mais sublime, nem os velhos
meus versos lerdos se espalhando, escaravelhos
perdidos por pirâmides de poesia,
podem traçar ou expressar o que seria
simplesmente traçado e expresso tão bem
numa só curva do seu sorrisinho zen.
E aqui faltou apenas que você complete
a idade que atingiu (parabéns:) ______
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
O sonho de todos os sonhos
(um epílogo intermediário)
Hoje eu consegui –
sonhei o sonho de todos os sonhos –
mas alguém me disse lá: “Suma daqui!
O Mestre está recebendo a Irmã...”
E eu pensei “pô, nem na sonholândia
eles se livram do gerúndio”,
no entanto, ante meu rosto de pavor,
prosseguiram: “Sim, Ela, a iniludível...”
E então escutei um som de tom-tom tantã
e minha angústia terrível de ivan
me fez crer mais do que cri ser crível
e correr mais do que ainda seria corrível,
e orar ainda mais naquela hora horrível:
– ó, Sonho, soturno caçula da Morte,
permita-me perpetrar bem parcamente
um pobre poema de pequeno porte,
não que eu pense que ninguém se importe,
porém que proponha, simples e pungente,
ó, Sonho, soturno caçula da Morte:
a vida é breve, a arte é longa, a carne é fraca
mas o sonho é forte! –
Naquele instante, o sonho de todos os sonhos
(bem como agora este poema puxa-saco)
teve (tiveram) que sofrer um corte.
Hoje eu consegui –
sonhei o sonho de todos os sonhos –
mas alguém me disse lá: “Suma daqui!
O Mestre está recebendo a Irmã...”
E eu pensei “pô, nem na sonholândia
eles se livram do gerúndio”,
no entanto, ante meu rosto de pavor,
prosseguiram: “Sim, Ela, a iniludível...”
E então escutei um som de tom-tom tantã
e minha angústia terrível de ivan
me fez crer mais do que cri ser crível
e correr mais do que ainda seria corrível,
e orar ainda mais naquela hora horrível:
– ó, Sonho, soturno caçula da Morte,
permita-me perpetrar bem parcamente
um pobre poema de pequeno porte,
não que eu pense que ninguém se importe,
porém que proponha, simples e pungente,
ó, Sonho, soturno caçula da Morte:
a vida é breve, a arte é longa, a carne é fraca
mas o sonho é forte! –
Naquele instante, o sonho de todos os sonhos
(bem como agora este poema puxa-saco)
teve (tiveram) que sofrer um corte.
segunda-feira, fevereiro 23, 2009
Como foi o seu sonho? 2: Dormindo de manhã
Sonhei outro sonho,
também muito gordo:
o gosto de Goethe
sorvendo um sorvete,
os dentes de Dante,
Dalí por diante,
sorrindo satíricos
serviam Cervantes
em régias bandejas
de cérebros líricos –
e contudo veio aquele velho todavia,
arruinando até a métrica,
espantando a freguesia,
espanando a poeira mágica
do meu tempo quando,
quando os fantasmas de todas as poetas,
de Safo até Cecília,
selecionavam a trilha sonora
e palpitavam posições para a mobília.
Àquela hora
e naquele lugar,
percebi que já estava de manhã:
ainda delirava,
me achando um terrível czar,
mas ao despertar
vi que eu era só um ivan.
também muito gordo:
o gosto de Goethe
sorvendo um sorvete,
os dentes de Dante,
Dalí por diante,
sorrindo satíricos
serviam Cervantes
em régias bandejas
de cérebros líricos –
e contudo veio aquele velho todavia,
arruinando até a métrica,
espantando a freguesia,
espanando a poeira mágica
do meu tempo quando,
quando os fantasmas de todas as poetas,
de Safo até Cecília,
selecionavam a trilha sonora
e palpitavam posições para a mobília.
Àquela hora
e naquele lugar,
percebi que já estava de manhã:
ainda delirava,
me achando um terrível czar,
mas ao despertar
vi que eu era só um ivan.
O primeiro de uma série de sete - e todos os sete são na verdade um poema só (Poem for a birthday / Poema a um aniversário)
Who
Quem
The month of flowering's finished. The fruit's in,
Eaten or rotten. I am all mouth.
October's the month for storage.
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.
The shed's fusty as a mummy's stomach:
Old tools, handles and rusty tusks.
I am at home here among the dead heads.
O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.
Let me sit in a flowerpot,
The spiders won't notice.
My heart is a stopped geranium.
Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.
If only the wind would leave my lungs alone.
Dogsbody noses the petals. They bloom upside down.
They rattle like hydrangea bushes.
Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.
Mouldering heads console me,
Nailed to the rafters yesterday:
Inmates who don't hibernate.
Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.
Cabbageheads: wormy purple, silver-glaze,
A dressing of mule ears, mothy pelts, but green-hearted,
Their veins white as porkfat.
Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um molho de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas feito banha de porco.
O the beauty of usage!
The orange pumpkins have no eyes.
These halls are full of women who think they are birds.
Oh, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.
This is a dull school.
I am a root, a stone, an owl pellet,
Without dreams of any sort.
Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.
Mother, you are the one mouth
I would be a tongue to. Mother of otherness
Eat me. Wastebasket gaper, shadow of doorways.
Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.
I said: I must remember this, being small.
There were such enormous flowers,
Purple and red mouths, utterly lovely.
Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.
The hoops of blackberry stems made me cry.
Now they light me up like an electric bulb.
For weeks I can remember nothing at all.
Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem feito uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.
Sylvia Plath
Ivan Justen Santana
Quem
The month of flowering's finished. The fruit's in,
Eaten or rotten. I am all mouth.
October's the month for storage.
O mês de floração acabou. O fruto está guardado,
Comido ou pútrido. Sou inteira uma garganta.
Outubro é o mês de armazenagem.
The shed's fusty as a mummy's stomach:
Old tools, handles and rusty tusks.
I am at home here among the dead heads.
O galpão é bolorento feito estômago de múmia:
Ferramentas velhas, manivelas e ganchos enferrujados.
Estou em casa aqui entre as cabeças mortas.
Let me sit in a flowerpot,
The spiders won't notice.
My heart is a stopped geranium.
Deixe eu me sentar num vaso de flores,
As aranhas não vão perceber.
Meu coração é um gerânio interrompido.
If only the wind would leave my lungs alone.
Dogsbody noses the petals. They bloom upside down.
They rattle like hydrangea bushes.
Se apenas o vento largasse meus pulmões em paz.
Recruta fuça as pétalas. Elas desabrocham de ponta-cabeça.
Elas chocalham como arbustos de hortênsias.
Mouldering heads console me,
Nailed to the rafters yesterday:
Inmates who don't hibernate.
Cabeças farelentas me consolam,
Pregadas nas vigas ontem:
Internas que não hibernam.
Cabbageheads: wormy purple, silver-glaze,
A dressing of mule ears, mothy pelts, but green-hearted,
Their veins white as porkfat.
Repolhos: roxos carunchosos, esmerilhados,
Um molho de orelhas híbridas, peles puídas de traça,
Mas os corações verdes, as veias brancas feito banha de porco.
O the beauty of usage!
The orange pumpkins have no eyes.
These halls are full of women who think they are birds.
Oh, a beleza da aplicabilidade!
As abóboras alaranjadas não têm olhos.
Estas salas estão cheias de mulheres que pensam ser pássaros.
This is a dull school.
I am a root, a stone, an owl pellet,
Without dreams of any sort.
Esta é uma escola estúpida.
Eu sou uma raiz, uma rocha, uma pelota de coruja,
Sem sonhos de qualquer espécie.
Mother, you are the one mouth
I would be a tongue to. Mother of otherness
Eat me. Wastebasket gaper, shadow of doorways.
Mãe, você é a única boca
À qual eu seria uma língua. Mãe da alteridade
Devore-me. Basbaque de lixo, sombra de vãos de portas.
I said: I must remember this, being small.
There were such enormous flowers,
Purple and red mouths, utterly lovely.
Eu disse: preciso recordar isso, de estar pequena.
Havia flores tão colossais,
Bocas roxas e vermelhas, totalmente adoráveis.
The hoops of blackberry stems made me cry.
Now they light me up like an electric bulb.
For weeks I can remember nothing at all.
Os arcos das hastes de amora me fizeram chorar.
Agora eles me acendem feito uma lâmpada elétrica.
Por semanas eu não consigo lembrar coisa alguma.
Sylvia Plath
Ivan Justen Santana
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
COMO FOI O SEU SONHO?
Sonhei com um sonho,
um sonho bem gordo,
redondo, balofo,
com cara de Byron
e pâncreas de Poe –
o ar de Baudelaire
roubando Rimbaud.
Porém entretanto
nenhum sonho é uma ilha –
aumentando a redondilha,
um poeta brasileiro,
miserável e banguela
veio pro sonho e falou:
– Essa rima aí é velha!
Tira o sorriso do rosto
e vem jogar gol a gol –
e o gordo: – Não vou, não tiro –
e meu sonho só acabou
com seu último suspiro.
um sonho bem gordo,
redondo, balofo,
com cara de Byron
e pâncreas de Poe –
o ar de Baudelaire
roubando Rimbaud.
Porém entretanto
nenhum sonho é uma ilha –
aumentando a redondilha,
um poeta brasileiro,
miserável e banguela
veio pro sonho e falou:
– Essa rima aí é velha!
Tira o sorriso do rosto
e vem jogar gol a gol –
e o gordo: – Não vou, não tiro –
e meu sonho só acabou
com seu último suspiro.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Fidji breque (com direito a tradução)
Então, eu não costumava fazer isso, mas tenho voltado a examinar o que o sitemeter diagnostica das visitas e vistos de página aqui neste humilde tugúrio.
Me agradou muito que volta e meia aparecem visitantes que ficam uns cinquenta minutos por aqui e produzem umas vinte ou mais, vá lá, peidjvíiús (page views) - gosto que não tratem o blog como um diário em que a postagem anterior passou a ser embrulho de peixe, e adoro quando surge um comentário novo numa postagem de três meses atrás.
Esses dias veio alguém de Coimbra, Portugal, e acho que foi graças a uma menção do Rodrigo Garcia Lopes em seu EstúdioRealidade -
coincidentemente, ando lendo e curtindo escritores portugueses (nominalmente, António Lobo Antunes [Os cus de Judas] e Gonçalo M. Tavares [Jerusalém] - e aliás, graças àquele, hoje li uns poemas de Ruy Belo, e saboreei-os com muito gosto).
Então, em homenagem à língua portuguesa (espera aí, deixa eu frisar uma coisa - eu gosto mais que um ou dois me leiam umas vinte ou trinta vezes, do que uns trocentos venham e me leiam uma vez só, sumindo sem deixar vestígios),
enfim, em homenagem à língua portuguesa, deixo aqui a tradução de um poema de Theodore Roethke, um vilancete meio canção de ninar para octogenários (que eu - agora corro o risco de ofender, mas vá lá de novo - que eu associo um pouco ao espírito da cultura portuguesa, um negócio assim meio "archaico" e conservador e ao mesmo tempo visionário e infantil - arre, se é que me entendem...), senão vejamos:
The Waking
A Vigília
I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Destino eu sinto no que não posso temer.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.
We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
Pensamos ao sentir. O que é que há pra saber?
De orelha a orelha, escuto o meu ser a dançar.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.
Qual é você, dentre estes, tão perto de mim?
Deus abençoe o Chão, que irei macio trilhar,
E aprender quando for aonde eu devo ir.
Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.
A Planta sofre a Luz; mas quem explica o fim?
O verme vil escala a escada em espiral;
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.
A Natureza tem outra coisa a cumprir
Comigo e com você; receba então este ar,
E, adorável, aprenda indo onde deve ir.
This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.
Este tremor mantém-me firme. Sim, eu sei.
O que perece é sempre. E está perto aqui.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.
Theodore Roethke (1952)
Ivan Justen Santana
Me agradou muito que volta e meia aparecem visitantes que ficam uns cinquenta minutos por aqui e produzem umas vinte ou mais, vá lá, peidjvíiús (page views) - gosto que não tratem o blog como um diário em que a postagem anterior passou a ser embrulho de peixe, e adoro quando surge um comentário novo numa postagem de três meses atrás.
Esses dias veio alguém de Coimbra, Portugal, e acho que foi graças a uma menção do Rodrigo Garcia Lopes em seu EstúdioRealidade -
coincidentemente, ando lendo e curtindo escritores portugueses (nominalmente, António Lobo Antunes [Os cus de Judas] e Gonçalo M. Tavares [Jerusalém] - e aliás, graças àquele, hoje li uns poemas de Ruy Belo, e saboreei-os com muito gosto).
Então, em homenagem à língua portuguesa (espera aí, deixa eu frisar uma coisa - eu gosto mais que um ou dois me leiam umas vinte ou trinta vezes, do que uns trocentos venham e me leiam uma vez só, sumindo sem deixar vestígios),
enfim, em homenagem à língua portuguesa, deixo aqui a tradução de um poema de Theodore Roethke, um vilancete meio canção de ninar para octogenários (que eu - agora corro o risco de ofender, mas vá lá de novo - que eu associo um pouco ao espírito da cultura portuguesa, um negócio assim meio "archaico" e conservador e ao mesmo tempo visionário e infantil - arre, se é que me entendem...), senão vejamos:
The Waking
A Vigília
I wake to sleep, and take my waking slow.
I feel my fate in what I cannot fear.
I learn by going where I have to go.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Destino eu sinto no que não posso temer.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.
We think by feeling. What is there to know?
I hear my being dance from ear to ear.
I wake to sleep, and take my waking slow.
Pensamos ao sentir. O que é que há pra saber?
De orelha a orelha, escuto o meu ser a dançar.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Of those so close beside me, which are you?
God bless the Ground! I shall walk softly there,
And learn by going where I have to go.
Qual é você, dentre estes, tão perto de mim?
Deus abençoe o Chão, que irei macio trilhar,
E aprender quando for aonde eu devo ir.
Light takes the Tree; but who can tell us how?
The lowly worm climbs up a winding stair;
I wake to sleep, and take my waking slow.
A Planta sofre a Luz; mas quem explica o fim?
O verme vil escala a escada em espiral;
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Great Nature has another thing to do
To you and me, so take the lively air,
And, lovely, learn by going where to go.
A Natureza tem outra coisa a cumprir
Comigo e com você; receba então este ar,
E, adorável, aprenda indo onde deve ir.
This shaking keeps me steady. I should know.
What falls away is always. And is near.
I wake to sleep, and take my waking slow.
I learn by going where I have to go.
Este tremor mantém-me firme. Sim, eu sei.
O que perece é sempre. E está perto aqui.
Minha vigília é lenta, e velo pra dormir.
Aprendo quando vou aonde eu devo ir.
Theodore Roethke (1952)
Ivan Justen Santana
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
Porque hoje é dia da marmota
No limbo alegre e lúgubre da literatura,
Jorge Luis Borges rosna: "Ninguém me segura!"
e intima o velho John Milton para um páreo duro:
recitar em grego tudo que souber de Homero,
até passar toda a madruga em claro – quero
só ver:
______vai ser uma briga de Joyce no escuro...
Jorge Luis Borges rosna: "Ninguém me segura!"
e intima o velho John Milton para um páreo duro:
recitar em grego tudo que souber de Homero,
até passar toda a madruga em claro – quero
só ver:
______vai ser uma briga de Joyce no escuro...
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Um pouso forçado em Eldorado, pensando em Poe, graças ao Pozzo...
Pois é: se não fosse o meu prezado amigo Ricardo Pozzo,
eu nem ia esboçar qualquer tchuns sobre a data de hoje:
Edgar Allan Poe assopra duzentas velinhas -
(*Boston, 19/01/1809 – †Baltimore, 07/10/1849)
então dedico ao Pozzo, que por meio de e-mail me alertou
(e a seus outros amigos) para essa fantástica efeméride,
a versão brasileira que acabei de perpetrar do pelágico poema
ELDORADO
ELDORADO
__Gaily bedight,
__A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
__Had journeyed long,
__Singing a song,
In search of Eldorado.
Trajado galhardamente,
Um cavaleiro galante,
Sob sombra e sol saturado,
Viajara um estirão,
A cantar uma canção,
À procura do Eldorado.
__But he grew old–
__This knight so bold–
And o'er his heart a shadow
__Fell as he found
__No spot of ground
That looked like Eldorado.
Porém ele envelheceu –
Com orgulho todo seu –
Seu coração conturbado
Mergulhou em densa treva
Por não ver traço de terra
Semelhante ao Eldorado.
__And, as his strength
__Failed him at length,
He met a pilgrim shadow–
__"Shadow," said he,
__"Where can it be–
This land of Eldorado?"
Quase exausto em sua sina,
Topou sombra peregrina
Que estacou ao seu chamado –
"Sombra," indaga o cavaleiro,
"Como chego ao verdadeiro
Território do Eldorado?"
__"Over the Mountains
__Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
__Ride, boldly ride,"
__The shade replied,–
"If you seek for Eldorado!"
"Sobre as Montanhas da Lua,
Que subir não se insinua,
Descerás Vale Assombrado:
Cavalga com ousadia,"
Disse a sombra fugidia,–
"Se tu buscas o Eldorado!"
Edgar Allan Poe
Ivan Justen Santana
eu nem ia esboçar qualquer tchuns sobre a data de hoje:
Edgar Allan Poe assopra duzentas velinhas -
(*Boston, 19/01/1809 – †Baltimore, 07/10/1849)
então dedico ao Pozzo, que por meio de e-mail me alertou
(e a seus outros amigos) para essa fantástica efeméride,
a versão brasileira que acabei de perpetrar do pelágico poema
ELDORADO
ELDORADO
__Gaily bedight,
__A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
__Had journeyed long,
__Singing a song,
In search of Eldorado.
Trajado galhardamente,
Um cavaleiro galante,
Sob sombra e sol saturado,
Viajara um estirão,
A cantar uma canção,
À procura do Eldorado.
__But he grew old–
__This knight so bold–
And o'er his heart a shadow
__Fell as he found
__No spot of ground
That looked like Eldorado.
Porém ele envelheceu –
Com orgulho todo seu –
Seu coração conturbado
Mergulhou em densa treva
Por não ver traço de terra
Semelhante ao Eldorado.
__And, as his strength
__Failed him at length,
He met a pilgrim shadow–
__"Shadow," said he,
__"Where can it be–
This land of Eldorado?"
Quase exausto em sua sina,
Topou sombra peregrina
Que estacou ao seu chamado –
"Sombra," indaga o cavaleiro,
"Como chego ao verdadeiro
Território do Eldorado?"
__"Over the Mountains
__Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
__Ride, boldly ride,"
__The shade replied,–
"If you seek for Eldorado!"
"Sobre as Montanhas da Lua,
Que subir não se insinua,
Descerás Vale Assombrado:
Cavalga com ousadia,"
Disse a sombra fugidia,–
"Se tu buscas o Eldorado!"
Edgar Allan Poe
Ivan Justen Santana
terça-feira, janeiro 06, 2009
Este dia seis é dia de reis e já faz mais de um mês que... enfim, eis um presente pra vocês:
A COISA MAIS COMPLICADA DO MUNDO
A coisa mais complicada do mundo
é um verso simplissimamente simples:
o paralelo século e segundo
a separar alguma rima assim, impres-
sionante, ante tamanha má vontade
da minha parte com a eternidade.
Tá: a teta do cacófato foi feia,
mas mesmo o bom Camões em alma minha
gentil partiu o peito e abriu a veia
pra não deixar a lira ali sozinha –
e aqui saiu outro poema torto, tonto:
se alguém se importa eu nem me importo e pronto.
A coisa mais complicada do mundo
é um verso simplissimamente simples:
o paralelo século e segundo
a separar alguma rima assim, impres-
sionante, ante tamanha má vontade
da minha parte com a eternidade.
Tá: a teta do cacófato foi feia,
mas mesmo o bom Camões em alma minha
gentil partiu o peito e abriu a veia
pra não deixar a lira ali sozinha –
e aqui saiu outro poema torto, tonto:
se alguém se importa eu nem me importo e pronto.
quarta-feira, dezembro 03, 2008
Dia 33
Hoje é o dia 33 de nenhuma postagem por aqui -
assim, relaxe,
capriche,
despache
e se espiche:
hoje eu quis postar tudo aquilo que despercebi -
quis fazer uma cançãozinha
que fluísse lírica por uma só linha,
mas vazaram essas duas estrofes irregulares -
portanto, sem mais, desovo a velha rima final
antes que o impulso de postar vá pelos ares.
assim, relaxe,
capriche,
despache
e se espiche:
hoje eu quis postar tudo aquilo que despercebi -
quis fazer uma cançãozinha
que fluísse lírica por uma só linha,
mas vazaram essas duas estrofes irregulares -
portanto, sem mais, desovo a velha rima final
antes que o impulso de postar vá pelos ares.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Outubro acabando
Não são só todas as festas de ontem
que você já perdeu e fim de conversa,
não é só a sua inteligência
virando indigência,
nem apenas o amor que você quer
e precisa sentir e não sente,
ou o advérbio dementemente
que ocorreu agora, por inadvertência -
não é só a sua falta de comando
de qualquer rima chegando em bando:
além disso tudo
é o mês de outubro
que sem escrúpulo está acabando.
que você já perdeu e fim de conversa,
não é só a sua inteligência
virando indigência,
nem apenas o amor que você quer
e precisa sentir e não sente,
ou o advérbio dementemente
que ocorreu agora, por inadvertência -
não é só a sua falta de comando
de qualquer rima chegando em bando:
além disso tudo
é o mês de outubro
que sem escrúpulo está acabando.
sábado, outubro 25, 2008
Surto crítico, de novo...
Vencendo a preguiça, vou ensaiar rapidamente uma retomada do surto crítico anterior:
o blog de bocágil foi retirado (ou retirou-se) da blogosfera - por mais que eu também não concorde com censuras (vide o protesto feito pelo Thadeu), havia naquele blog, além de ofensas pessoais de péssimo gosto, um grande abuso:
o uso de poemas alheios, na falta de réplicas aos seus golpes baixos -
gostaria de assinalar aqui que este "bocágil" chegou aqui com seu primeiro ataque (um soneto em estilo "olha só, mamãe, eu sei fazer soneto") chamando os leitores dos meus poemas de "leitões", e logo após baixou um pouco o tom raivoso, provavelmente porque o elogiei na primeira resposta de bate-pronto que escrevi -
assim, podemos calcular que o que o vate "bocágil" precisava era apenas de elogios ao seu ego inseguro de poeta neófito -
portanto, deixo aqui para bocágil o famoso "elogio do vate", que já recebi, e que faz bem a todos os vates iniciantes:
bocágil, vá te f****!
o blog de bocágil foi retirado (ou retirou-se) da blogosfera - por mais que eu também não concorde com censuras (vide o protesto feito pelo Thadeu), havia naquele blog, além de ofensas pessoais de péssimo gosto, um grande abuso:
o uso de poemas alheios, na falta de réplicas aos seus golpes baixos -
gostaria de assinalar aqui que este "bocágil" chegou aqui com seu primeiro ataque (um soneto em estilo "olha só, mamãe, eu sei fazer soneto") chamando os leitores dos meus poemas de "leitões", e logo após baixou um pouco o tom raivoso, provavelmente porque o elogiei na primeira resposta de bate-pronto que escrevi -
assim, podemos calcular que o que o vate "bocágil" precisava era apenas de elogios ao seu ego inseguro de poeta neófito -
portanto, deixo aqui para bocágil o famoso "elogio do vate", que já recebi, e que faz bem a todos os vates iniciantes:
bocágil, vá te f****!
sexta-feira, outubro 17, 2008
Agia na minha alma algum antídoto
Enquanto eu prosseguia quase cego
rolando rimas sempre verso acima,
agia na minha alma algum antídoto
ao metro martelado, decassílabo,
e, sim, uma canção mais livre se formava,
correndo quente,
mais quente que o magma,
numa gama assim mais difusa de cores,
com o ânimo espontâneo
que os amigos às vezes trazem -
e nesse encantamento de verdade
seguindo um ritmo simples e sincero
ficou cifrado aqui um registro daquela
que me inspirava e continua a me inspirar:
agia na minha alma alguém
roland amor a me levar além...
rolando rimas sempre verso acima,
agia na minha alma algum antídoto
ao metro martelado, decassílabo,
e, sim, uma canção mais livre se formava,
correndo quente,
mais quente que o magma,
numa gama assim mais difusa de cores,
com o ânimo espontâneo
que os amigos às vezes trazem -
e nesse encantamento de verdade
seguindo um ritmo simples e sincero
ficou cifrado aqui um registro daquela
que me inspirava e continua a me inspirar:
agia na minha alma alguém
roland amor a me levar além...
domingo, outubro 12, 2008
Surtado em fase crítica
Não se assustem: um título melhor pra esta postagem seria "breve surto da minha visão de crítico" -
o advento de um pseudônimo (bocágil) na blogosfera provocou situações que até têm interesse e certa graça, mas vejo que foi atravessada uma fronteira para o lamentável -
a(s) criatura(s), quem quer que sejam - enfim, quem manipula este blog do pseudônimo está promovendo ataques gratuitos a poetas do cenário cultural curitibano - e o que foi feito à Luci Colin ultrapassou de longe os limites aceitáveis, transpirando covardia e péssimos sentimentos...
É difícil mesmo atingir uma visão equilibrada sobre as artes produzidas em Curitiba e no Paraná, já que são mais frequentes as visões de extremos: e normalmente o senso que prevalece, pelo menos na superfície, é o de que tudo aqui é uma porcaria -
pra mim, de positivo a respeito desse "advento do bocágil" (que na confusão tem gente que chega a atribuir a mim e [ou] ao Thadeu) foi a reação do Rodrigo Madeira (poeta que conheci e com quem conversei brevemente já faz uns dois anos) -
ele postou um soneto que não devia passar despercebido (está lá no fim dos comentários da postagem do ovo de colombo) - e o que o Madeira quer dizer ali também já me passou pela cabeça:
por que um "poeta" (bocágil) volta-se contra seus próprios pares, em vez de usar sua boca satírica pra versar sobre problemas de verdade?
Agradeço ao Rodrigo também pelo comentário da postagem anterior -
nesta, um poema longo e ingênuo, arrematei com um apelo de trégua ao "poeta bocágil", para que passasse a escrever "sublimes canções líricas" -
a resposta a isso lá no pseudoblog (estou linkando de novo, mas com certo desagrado e nojo, aquele ambiente agora me provoca repugnância) acabou sendo o já mencionado ataque a uma excelente escritora curitibana - um golpe baixo, que não mereceria muito mais que desprezo.
Pra mim, é importante ainda destacar:
o ataque ao Thadeu, na verdade, foi respondido por outro(s) poeta(s) anônimo(s), enquanto o próprio continua "tirando ouro do nariz" lá no blog dele -
que na "segunda grande resposta", além de mostrar que não sabe soletrar o nome do Leminski, o "bocágil" considera careta uma geração de poetas que tem grande valor, na qual se destaca o Marcos Prado, gênio sim (quem duvida, que leia Ultralyrics, e também O Livro de poemas de Marcos Prado) -
que, apesar de me sentir meio culpado nessa história (o "cara" veio me atacar aqui e acabou criando o seu "polêmico" [blérgt...] blog graças à atenção e às respostas com que brindei seus versinhos sujismundos), pelo menos considero que há uma agitação sobre a poesia paranaense agora, e (continuo um pouco ingênuo sim) isso pode ter boas consequências, como é o caso da interferência do Rodrigo Madeira - se bem que não considero suficiente o arremate do seu soneto: ficou meio pessimista, e achei de gosto suspeito a comparação de poetas com chacretes...
Deixo ainda um alô ao Cláudio Bettega, que fez sua saudação aqui também, e ao Alexandre França (que deve ter sido o autor do comentário mandando "Abrax") -
E, finalmente, depois deste surto crítico, registro que continuo devendo "sublimes canções líricas" à "misteriosa" G., a qual acabou também me aplicando uma satirazinha "animadora", e merece mesmo poemas que realmente valham a pena (e o teclado também...)...
Post Digitatum: "bocágil" postou agora um ataque ao Gustavot (de quem já ouvi falar, tendo visto no Wonka um trecho duma sua peça de teatro, que considerei um trabalho poético muito bem feito) -
até onde pude perceber, os autores do blog-bocágil, Bearzotti e Gustavot, executaram um desvio de atenção, perpetrando um auto-ataque - revisaram o poema que Gustavot postou em comentário assinado, e a sátira está mais engraçada e menos virulenta porque conhecem profundamente (e interiormente) o poeta que golpeiam agora...
Por sinal, Bearzotti achou de me telefonar alguns dias atrás, e em seu tom de voz melífluo declarou que não era "bocágil" - imagino que ele tenha algum temor de levar uma surra do Thadeu ("bocágil" foi ameaçado fisicamente pelo pseudônimo "boca do purgatório", o que resultou num soneto em tom de "ui, não me bata, por favor") ...
Enfim, descontados a gratuidade e o baixo nível de alguns ataques, até que essa história está rendendo algumas coisas interessantes...
o advento de um pseudônimo (bocágil) na blogosfera provocou situações que até têm interesse e certa graça, mas vejo que foi atravessada uma fronteira para o lamentável -
a(s) criatura(s), quem quer que sejam - enfim, quem manipula este blog do pseudônimo está promovendo ataques gratuitos a poetas do cenário cultural curitibano - e o que foi feito à Luci Colin ultrapassou de longe os limites aceitáveis, transpirando covardia e péssimos sentimentos...
É difícil mesmo atingir uma visão equilibrada sobre as artes produzidas em Curitiba e no Paraná, já que são mais frequentes as visões de extremos: e normalmente o senso que prevalece, pelo menos na superfície, é o de que tudo aqui é uma porcaria -
pra mim, de positivo a respeito desse "advento do bocágil" (que na confusão tem gente que chega a atribuir a mim e [ou] ao Thadeu) foi a reação do Rodrigo Madeira (poeta que conheci e com quem conversei brevemente já faz uns dois anos) -
ele postou um soneto que não devia passar despercebido (está lá no fim dos comentários da postagem do ovo de colombo) - e o que o Madeira quer dizer ali também já me passou pela cabeça:
por que um "poeta" (bocágil) volta-se contra seus próprios pares, em vez de usar sua boca satírica pra versar sobre problemas de verdade?
Agradeço ao Rodrigo também pelo comentário da postagem anterior -
nesta, um poema longo e ingênuo, arrematei com um apelo de trégua ao "poeta bocágil", para que passasse a escrever "sublimes canções líricas" -
a resposta a isso lá no pseudoblog (estou linkando de novo, mas com certo desagrado e nojo, aquele ambiente agora me provoca repugnância) acabou sendo o já mencionado ataque a uma excelente escritora curitibana - um golpe baixo, que não mereceria muito mais que desprezo.
Pra mim, é importante ainda destacar:
o ataque ao Thadeu, na verdade, foi respondido por outro(s) poeta(s) anônimo(s), enquanto o próprio continua "tirando ouro do nariz" lá no blog dele -
que na "segunda grande resposta", além de mostrar que não sabe soletrar o nome do Leminski, o "bocágil" considera careta uma geração de poetas que tem grande valor, na qual se destaca o Marcos Prado, gênio sim (quem duvida, que leia Ultralyrics, e também O Livro de poemas de Marcos Prado) -
que, apesar de me sentir meio culpado nessa história (o "cara" veio me atacar aqui e acabou criando o seu "polêmico" [blérgt...] blog graças à atenção e às respostas com que brindei seus versinhos sujismundos), pelo menos considero que há uma agitação sobre a poesia paranaense agora, e (continuo um pouco ingênuo sim) isso pode ter boas consequências, como é o caso da interferência do Rodrigo Madeira - se bem que não considero suficiente o arremate do seu soneto: ficou meio pessimista, e achei de gosto suspeito a comparação de poetas com chacretes...
Deixo ainda um alô ao Cláudio Bettega, que fez sua saudação aqui também, e ao Alexandre França (que deve ter sido o autor do comentário mandando "Abrax") -
E, finalmente, depois deste surto crítico, registro que continuo devendo "sublimes canções líricas" à "misteriosa" G., a qual acabou também me aplicando uma satirazinha "animadora", e merece mesmo poemas que realmente valham a pena (e o teclado também...)...
Post Digitatum: "bocágil" postou agora um ataque ao Gustavot (de quem já ouvi falar, tendo visto no Wonka um trecho duma sua peça de teatro, que considerei um trabalho poético muito bem feito) -
até onde pude perceber, os autores do blog-bocágil, Bearzotti e Gustavot, executaram um desvio de atenção, perpetrando um auto-ataque - revisaram o poema que Gustavot postou em comentário assinado, e a sátira está mais engraçada e menos virulenta porque conhecem profundamente (e interiormente) o poeta que golpeiam agora...
Por sinal, Bearzotti achou de me telefonar alguns dias atrás, e em seu tom de voz melífluo declarou que não era "bocágil" - imagino que ele tenha algum temor de levar uma surra do Thadeu ("bocágil" foi ameaçado fisicamente pelo pseudônimo "boca do purgatório", o que resultou num soneto em tom de "ui, não me bata, por favor") ...
Enfim, descontados a gratuidade e o baixo nível de alguns ataques, até que essa história está rendendo algumas coisas interessantes...
segunda-feira, setembro 29, 2008
Depois duma viagem a Londrina...
Depois duma viagem a Londrina
(fui pro Londrix, festar literatura),
me animo a fazer uso da terzina –
talvez eu ilumine a mina escura
na qual chafurda um “vate” possuído
pela nhaca macaca da chatura.
Tal “vate” se acha o máximo: embebido
nos mucos e melecas do seu ego,
surgiu regurgitando por aqui. Do
pico da sua empáfia expressou: “pego
as fezes que tu fazes, Ivan Justen,
e faço delas peças do meu lego”.
Por mais que tais peçonhas não se ajustem
ao ovo de colombo (um simples tema:
não foi composto a fim de que se assustem),
o “vate” despertou ao som de: “gema”.
E então começa um desafio de verve:
eu, questionando as rimas, o problema
do gol de mão, o ritmo que não serve
no metro de arranjos mal ajambrados,
enquanto o sangue corre, queima, ferve;
e o “vate”, inflando, aprimora os brados,
afia as garras nos meus gumes, sobe
a aposta, cria um blogue. Desdobrados
os comentários, outras vozes sobre
as obras tentam provocar mais briga.
O “vate” atinge um tom que se quer “nobre”,
mostrando até que ponto ele se obriga
em sua “primeira grande resposta” –
pra mim, o desgraçado duma figa
tinha feito assim uma grande bosta.
Com três haicais soltei-lhe um peteleco,
e, em sacrifício, pus minha alma exposta –
fantasma irônico, rimando em eco:
achei sinistro o alerta de soberba,
talvez porque eu também sinta que peco...
A coisa ficou toda mais acerba,
perdi minha paciência com uns danos
a versos pro Batista: pô, que merda!
– são versos que já têm mais de dez anos...
Agora o “vate” investe em dois pseudônimos,
mira Thadeu e Béco: cai de enganos –
fascina-se por elogios anônimos?
Fácil, bem fácil: quer fazer “faxina
em Curitiba” o tonto com os encômios!
Porém, na fúria fútil e assassina
mancha a cidade em vez de celebrá-la,
sucumbe a um sádico prazer, e mina
as próprias fontes, paladino mala!
Vieste aqui celebrar meu enterro,
mas minha voz, mesmo em surto, não cala:
Bocágil, tu és o tolo, teu é o erro:
acuso os golpes – mas naquela terza rima
(à qual reconheceram: obra-prima)
a certa altura a tua voz ficou serena -
e a minha, agora, já largando a forma fixa,
pela emoção que sempre triunfa nas arenas,
propõe-te a trégua das sublimes canções líricas...
(fui pro Londrix, festar literatura),
me animo a fazer uso da terzina –
talvez eu ilumine a mina escura
na qual chafurda um “vate” possuído
pela nhaca macaca da chatura.
Tal “vate” se acha o máximo: embebido
nos mucos e melecas do seu ego,
surgiu regurgitando por aqui. Do
pico da sua empáfia expressou: “pego
as fezes que tu fazes, Ivan Justen,
e faço delas peças do meu lego”.
Por mais que tais peçonhas não se ajustem
ao ovo de colombo (um simples tema:
não foi composto a fim de que se assustem),
o “vate” despertou ao som de: “gema”.
E então começa um desafio de verve:
eu, questionando as rimas, o problema
do gol de mão, o ritmo que não serve
no metro de arranjos mal ajambrados,
enquanto o sangue corre, queima, ferve;
e o “vate”, inflando, aprimora os brados,
afia as garras nos meus gumes, sobe
a aposta, cria um blogue. Desdobrados
os comentários, outras vozes sobre
as obras tentam provocar mais briga.
O “vate” atinge um tom que se quer “nobre”,
mostrando até que ponto ele se obriga
em sua “primeira grande resposta” –
pra mim, o desgraçado duma figa
tinha feito assim uma grande bosta.
Com três haicais soltei-lhe um peteleco,
e, em sacrifício, pus minha alma exposta –
fantasma irônico, rimando em eco:
achei sinistro o alerta de soberba,
talvez porque eu também sinta que peco...
A coisa ficou toda mais acerba,
perdi minha paciência com uns danos
a versos pro Batista: pô, que merda!
– são versos que já têm mais de dez anos...
Agora o “vate” investe em dois pseudônimos,
mira Thadeu e Béco: cai de enganos –
fascina-se por elogios anônimos?
Fácil, bem fácil: quer fazer “faxina
em Curitiba” o tonto com os encômios!
Porém, na fúria fútil e assassina
mancha a cidade em vez de celebrá-la,
sucumbe a um sádico prazer, e mina
as próprias fontes, paladino mala!
Vieste aqui celebrar meu enterro,
mas minha voz, mesmo em surto, não cala:
Bocágil, tu és o tolo, teu é o erro:
acuso os golpes – mas naquela terza rima
(à qual reconheceram: obra-prima)
a certa altura a tua voz ficou serena -
e a minha, agora, já largando a forma fixa,
pela emoção que sempre triunfa nas arenas,
propõe-te a trégua das sublimes canções líricas...
segunda-feira, setembro 15, 2008
Outro ovo de colombo
Sim, entenda quando zombo
compondo outro ovo de colombo:
não quebre a casca que o mascara,
lendo como se fosse um poema -
diga que a rima está na clara
e gema.
compondo outro ovo de colombo:
não quebre a casca que o mascara,
lendo como se fosse um poema -
diga que a rima está na clara
e gema.
segunda-feira, setembro 01, 2008
Diálogo archaico após ler Silveira Neto
- Poeta de nossa grei:
dai uma rima às minhas lágrimas!
- Outrossim, dar-ta-ei,
uma vez que tu consagre-mas...
dai uma rima às minhas lágrimas!
- Outrossim, dar-ta-ei,
uma vez que tu consagre-mas...
quarta-feira, agosto 27, 2008
Urgência
urgência de sentir
o que uma pessoa
propriamente
sente
urgência de agir
sem se jogar à toa
e ser um pouco mais
inteligente
consequentemente
ser pelo menos
um protótipo de gente
uma idéia ancestral de gente:
Ur-gente
o que uma pessoa
propriamente
sente
urgência de agir
sem se jogar à toa
e ser um pouco mais
inteligente
consequentemente
ser pelo menos
um protótipo de gente
uma idéia ancestral de gente:
Ur-gente
sexta-feira, agosto 15, 2008
sexta-feira, agosto 01, 2008
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio...
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
sabe que a linguagem presta pra isso mesmo:
fingir de morto assim feito um cachorro,
ensaiar sinceridade que no fim é só disfarce,
querer falar de tudo e mal extrair
de si um versinho simples.
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
queria versos bons mas se saiu com estes
(podia ter desempenhado melhor, talvez uma quadrinha,
algo do tipo:
"Aqui dentro do meu intrincado crânio
tem um poeta morto que soluça
e age como se beneficiasse urânio
amortizando alguma crise russa.")
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
tenta manter seu blog atualizado
(mas só posterga, esquece, nem dá bola),
não tem passado muito bem disposto,
e solta um uivo quase fraco e mal composto
só porque hoje começou o mês de agosto.
sabe que a linguagem presta pra isso mesmo:
fingir de morto assim feito um cachorro,
ensaiar sinceridade que no fim é só disfarce,
querer falar de tudo e mal extrair
de si um versinho simples.
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
queria versos bons mas se saiu com estes
(podia ter desempenhado melhor, talvez uma quadrinha,
algo do tipo:
"Aqui dentro do meu intrincado crânio
tem um poeta morto que soluça
e age como se beneficiasse urânio
amortizando alguma crise russa.")
O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
tenta manter seu blog atualizado
(mas só posterga, esquece, nem dá bola),
não tem passado muito bem disposto,
e solta um uivo quase fraco e mal composto
só porque hoje começou o mês de agosto.
quarta-feira, julho 16, 2008
Amor Plathônico
Aí vai a tradução dum soneto de juvenília da idololizada Sylvia Plath, em homenagem às mulheres - parece que ela conhecia o próprio gênero...
Sonnet : To Eva
Soneto : Para Eva
All right, let's say you could take a skull and break it
The way you'd crack a clock; you'd crush the bone
Between steel palms of inclination, take it,
Observing the wreck of metal and rare stone.
Tá: digamos que desse pra quebrar um crânio
Como se racha um relógio; triturando o osso
Entre palmas de aço inclinadas, pegando-o,
Veríamos metais e jóias em destroço.
This was a woman : her loves and stratagems
Betrayed in mute geometry of broken
Cogs and disks, inane mechanic whims,
And idle coils of jargon yet unspoken.
Isso era uma mulher: paixões e estratagemas
Traídos em muda geometria de discos
E engrenagens, fúteis mecânicas venetas,
Molas de palavrórios ainda não ditos.
Not man nor demigod could put together
The scraps of rusted reverie, the wheels
Of notched tin platitudes concerning weather,
Perfume, politics, and fixed ideals.
Nem homem nem um semideus remontariam
As sobras de sonho oxidado, os maquinismos
De platitudes entalhadas sobre clima,
Perfume, política, sobre ideais fixos.
__The idiot bird leaps up and drunken leans
__To chirp the hour in lunatic thirteens.
__O pássaro idiota pula e bêbado ergue-se
__Pra trinar o horário em lunáticos trezes.
Sylvia Plath
Ivan Justen Santana
Sonnet : To Eva
Soneto : Para Eva
All right, let's say you could take a skull and break it
The way you'd crack a clock; you'd crush the bone
Between steel palms of inclination, take it,
Observing the wreck of metal and rare stone.
Tá: digamos que desse pra quebrar um crânio
Como se racha um relógio; triturando o osso
Entre palmas de aço inclinadas, pegando-o,
Veríamos metais e jóias em destroço.
This was a woman : her loves and stratagems
Betrayed in mute geometry of broken
Cogs and disks, inane mechanic whims,
And idle coils of jargon yet unspoken.
Isso era uma mulher: paixões e estratagemas
Traídos em muda geometria de discos
E engrenagens, fúteis mecânicas venetas,
Molas de palavrórios ainda não ditos.
Not man nor demigod could put together
The scraps of rusted reverie, the wheels
Of notched tin platitudes concerning weather,
Perfume, politics, and fixed ideals.
Nem homem nem um semideus remontariam
As sobras de sonho oxidado, os maquinismos
De platitudes entalhadas sobre clima,
Perfume, política, sobre ideais fixos.
__The idiot bird leaps up and drunken leans
__To chirp the hour in lunatic thirteens.
__O pássaro idiota pula e bêbado ergue-se
__Pra trinar o horário em lunáticos trezes.
Sylvia Plath
Ivan Justen Santana
quinta-feira, julho 10, 2008
Um erudito?
Bem, aproveitando o gancho do comentário do meu mui prezado amigo William sobre eu ser "sempre preciso na erudição", vou escrever uns dois dedos de prosa aqui (fazia um tempinho que eu não fazia isso) - só pra partilhar dois dos milhares de momentos em que meu mundo caiu:
um foi quando descobri que "em meados do século X" significava "na metade do século X" - não me perguntem por que, mas eu costumava entender que "meados" significava "no início"...
E quando aprendi que o nome do Fellini era "Federico", e não "Frederico"?
Foi um baque abissal. Tive que descobrir também que o Garcia Lorca é outro "Federico", o que é realmente estarrecedor...
São lições de humildade, que também fazem a gente pensar: além da letra "r" nesses nomes, o que mais a gente sempre acreditou que existia e no fim era apenas ilusão?
um foi quando descobri que "em meados do século X" significava "na metade do século X" - não me perguntem por que, mas eu costumava entender que "meados" significava "no início"...
E quando aprendi que o nome do Fellini era "Federico", e não "Frederico"?
Foi um baque abissal. Tive que descobrir também que o Garcia Lorca é outro "Federico", o que é realmente estarrecedor...
São lições de humildade, que também fazem a gente pensar: além da letra "r" nesses nomes, o que mais a gente sempre acreditou que existia e no fim era apenas ilusão?
sexta-feira, julho 04, 2008
Parco poema pinçado praticamente pronto d´O Tempo Redescoberto, de Proust
__o tempo
torna espaçados
__os encontros
e vagas
__as relações
as reminiscências
__raras
fazem imprecisas
__as noções
__há romances
que nos brindam
__com uns versos
que pensamos
__quase bons
pois assim lidas
__em voz alta
às vezes
__as palavras
se descolam
__dos seus sons
torna espaçados
__os encontros
e vagas
__as relações
as reminiscências
__raras
fazem imprecisas
__as noções
__há romances
que nos brindam
__com uns versos
que pensamos
__quase bons
pois assim lidas
__em voz alta
às vezes
__as palavras
se descolam
__dos seus sons
terça-feira, junho 24, 2008
Três trastes sinistros
segunda-feira, junho 16, 2008
Impromptu pra mais um Bloomsday
Pra achar essas rimas fui ao fun-
do da sintaxe que, Tróia, destrói-se:
mais um dia de Stephen, Molly e Bloom,
palestrando sobre o Ulysses, de Joyce...
do da sintaxe que, Tróia, destrói-se:
mais um dia de Stephen, Molly e Bloom,
palestrando sobre o Ulysses, de Joyce...
sexta-feira, junho 13, 2008
Improviso súbito pra hoje
Qual bom pagão que mal se preze
Me vejo numa dessas vezes:
Me faltam deuses a quem reze
Pra atravessar as sextas 13...
Me vejo numa dessas vezes:
Me faltam deuses a quem reze
Pra atravessar as sextas 13...
sexta-feira, junho 06, 2008
Vilancete em velho estilo
Vim rimar feito quem não tem escolha –
Porém tentando expressar algo vivo,
Mesmo naquele velho estilo bolha.
Palavras já se espalham pela folha –
Fugi do computador pra este arquivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.
Não tenho mais em mim quem me recolha
Do rosto que no espelho espia esquivo
Também naquele velho estilo bolha.
O leitor que ainda sou sequer me olha –
Sem crítica o que escrevo sai sem crivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.
Quem dera, como ao saque duma rolha,
Eu libertasse um vinho criativo
Sem me valer dessa forma zarolha,
E jorrasse de versos todo um livro,
Nutrindo os corações. Mas já não sirvo:
Vim rimar feito quem não tem escolha,
Sempre naquele velho estilo bolha.
Porém tentando expressar algo vivo,
Mesmo naquele velho estilo bolha.
Palavras já se espalham pela folha –
Fugi do computador pra este arquivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.
Não tenho mais em mim quem me recolha
Do rosto que no espelho espia esquivo
Também naquele velho estilo bolha.
O leitor que ainda sou sequer me olha –
Sem crítica o que escrevo sai sem crivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.
Quem dera, como ao saque duma rolha,
Eu libertasse um vinho criativo
Sem me valer dessa forma zarolha,
E jorrasse de versos todo um livro,
Nutrindo os corações. Mas já não sirvo:
Vim rimar feito quem não tem escolha,
Sempre naquele velho estilo bolha.
terça-feira, junho 03, 2008
Contornando
Acho ótimo quando blogueiros e blogueiras camaradas vêm aqui responder comentários meus por aí: a coisa fica bem confusa, combina com meu atual estado de quebradeira.
No entanto, não gostei que a Nara apagou a postagem do seu pô Ema flaubertiano -
também não entendi o porquê da menção do Giuliano ao Piva, sendo que eu fiquei desolado só pelo emoticon de cara triste (que interpretei como insatisfação quanto à postagem anterior).
Outrossim, eu acho interessante o trabalho do Fausto Fawcett (bem como as loiras que costumam estar ao redor...) -
Fui ver a peça do França no Hotel Del Rey: gostei do desempenho das duas atrizes, que não são mãe e filha por acaso. O texto também é bem engraçado.
Estou com dois poemas quase prontos no subconsciente, mas ainda não escrevi nada, porque não quero forçar a mão (mas deve ser preguiça mesmo, enfim).
Ah, e antes que me esqueça de novo, estou devendo muitas saudações e muitos obrigados ao Renato Quege, que anda replicando alguns versinhos e traduções de minha modesta fatura, além de ter incorporado ao repertório de sua atual banda uma composição que fizemos ali pelos idos de 1912... Fucem por aqui .
E pra Nara eu vou colar uma explicação, aproveitando pra puxar sua orelha: a expressão é "pior a emenda que o soneto":
"A expressão "pior a emenda que o soneto" surgiu por causa do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Ele era tão respeitado que, um belo dia, uma pessoa interessada em ser escritor procurou-o com um soneto. Pediu ao poeta que o lesse com carinho e anotasse os erros. Bocage concordou. No dia seguinte, encontraram-se para conversar. Para surpresa do poeta aprendiz, Bocage não havia anotado nada. Tinha achado o texto tão ruim que nem valia a pena corrigir, porque a emenda seria pior do que o soneto. Se o conselho fez com que o escritor desistisse da carreira, a história não registra. Mas a frase se tornou uma espécie de ditado popular. Se alguma coisa que fazemos não sai exatamente como deveria, nem sempre dar um jeitinho resolve. A emenda pode sair pior do que o soneto."
No entanto, não gostei que a Nara apagou a postagem do seu pô Ema flaubertiano -
também não entendi o porquê da menção do Giuliano ao Piva, sendo que eu fiquei desolado só pelo emoticon de cara triste (que interpretei como insatisfação quanto à postagem anterior).
Outrossim, eu acho interessante o trabalho do Fausto Fawcett (bem como as loiras que costumam estar ao redor...) -
Fui ver a peça do França no Hotel Del Rey: gostei do desempenho das duas atrizes, que não são mãe e filha por acaso. O texto também é bem engraçado.
Estou com dois poemas quase prontos no subconsciente, mas ainda não escrevi nada, porque não quero forçar a mão (mas deve ser preguiça mesmo, enfim).
Ah, e antes que me esqueça de novo, estou devendo muitas saudações e muitos obrigados ao Renato Quege, que anda replicando alguns versinhos e traduções de minha modesta fatura, além de ter incorporado ao repertório de sua atual banda uma composição que fizemos ali pelos idos de 1912... Fucem por aqui .
E pra Nara eu vou colar uma explicação, aproveitando pra puxar sua orelha: a expressão é "pior a emenda que o soneto":
"A expressão "pior a emenda que o soneto" surgiu por causa do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Ele era tão respeitado que, um belo dia, uma pessoa interessada em ser escritor procurou-o com um soneto. Pediu ao poeta que o lesse com carinho e anotasse os erros. Bocage concordou. No dia seguinte, encontraram-se para conversar. Para surpresa do poeta aprendiz, Bocage não havia anotado nada. Tinha achado o texto tão ruim que nem valia a pena corrigir, porque a emenda seria pior do que o soneto. Se o conselho fez com que o escritor desistisse da carreira, a história não registra. Mas a frase se tornou uma espécie de ditado popular. Se alguma coisa que fazemos não sai exatamente como deveria, nem sempre dar um jeitinho resolve. A emenda pode sair pior do que o soneto."
quinta-feira, maio 29, 2008
Incontornável
Passando mais uma semana sem postagem (está difícil colar os caquinhos), sou forçado a me valer dum poema do Leminski, que fazia tempo que eu não mencionava. Eu di uma busca (sim, eu "di uma busca", porque "quilo", tolerem...), eu di uma busca e não achei esse poema zanzando pela rede...
Leiam e repitam 37 vezes, como um mantra...
vento
que é vento
fica
parede
parede
passa
meu ritmo
bate no vento
e se
___des
_____pe
_______da
________ça
p.leminski
Leiam e repitam 37 vezes, como um mantra...
vento
que é vento
fica
parede
parede
passa
meu ritmo
bate no vento
e se
___des
_____pe
_______da
________ça
p.leminski
quarta-feira, maio 21, 2008
Os pedaços de verso que ainda me caem da cabeça
Tal qual todo horror e medo ela não demonstrasse -
Feito se o prazer e a dor ela descompusesse -
Tipo assim um rito e mito que ela só vestisse -
Como por um bem do qual só ela fosse a posse -
Essa face fez-se doce e disse: "fique susse..."
***
Tal qual um tolo que não mais se controlasse -
Feito em versinhos que ninguém mais entendesse -
Tipo assim mesmo sem poder que redimisse -
Como no tom errado que o surto lhe trouxe -
Você não tinha aqui no fim a rima em "-usse".
Feito se o prazer e a dor ela descompusesse -
Tipo assim um rito e mito que ela só vestisse -
Como por um bem do qual só ela fosse a posse -
Essa face fez-se doce e disse: "fique susse..."
***
Tal qual um tolo que não mais se controlasse -
Feito em versinhos que ninguém mais entendesse -
Tipo assim mesmo sem poder que redimisse -
Como no tom errado que o surto lhe trouxe -
Você não tinha aqui no fim a rima em "-usse".
terça-feira, maio 13, 2008
Para aquela a quem nunca escrevi
Àquela que rolou sobre meu parco limite de poeta,
Que nunca revelou qualquer vontade sua, secreta,
De ser musa daquele que mal sobrou por aqui –
A quem meus pedaços são obras completas,
A ela, que ainda vê gume nessas cegas setas,
Vai o lapso do melhor verso que jamais escrevi.
Que nunca revelou qualquer vontade sua, secreta,
De ser musa daquele que mal sobrou por aqui –
A quem meus pedaços são obras completas,
A ela, que ainda vê gume nessas cegas setas,
Vai o lapso do melhor verso que jamais escrevi.
sexta-feira, maio 02, 2008
De volta a uma obsessão
Semana retrasada foi lançada a revista Cadernos de Literatura em Tradução 8, contendo entre outros textos uma tradução que fiz do conto All the Dead Dears, da Sylvia Plath. No período em que mexia nesse conto, descobri que ela também escreveu, em 1956, um poema com o mesmo título.
Numa noite dessas perpetrei a tradução do poema, que segue aqui abaixo, dedicada à Marina Della Valle. Eu sei que não adianta advertir, mas é um texto muito sinistro: se você é uma pessoa impressionável, evite ler...
All the Dead Dears
Todos os Mortos Queridos
In the Archæological Museum in Cambridge is a stone coffin of the fourth century A.D. containing the skeletons of a woman, a mouse and a shrew. The ankle-bone of the woman has been slightly gnawed.
No Museu Arqueológico em Cambridge há um caixão de pedra do século IV dC, contendo os esqueletos de uma mulher, um camundongo e um mussaranho. O osso do tornozelo da mulher foi levemente roído.
Rigged poker-stiff on her back
With a granite grin
This antique museum-cased lady
Lies, companioned by the gimcrack
Relics of a mouse and a shrew
That battened for a day on her ankle-bone.
Ornamentado atiçador nas suas costas
Com um esgar granítico
Esta arcaica dama museu-encaixotada
Jaz, em companhia dos restos
Sem valor de um rato e um mussaranho
Que por um dia se refestelaram com sua tíbia.
These three, unmasked now, bear
Dry witness
To the gross eating game
We'd wink at if we didn't hear
Stars grinding, crumb by crumb,
Our own grist down to its bony face.
Estes três, já desmascarados, prestam
Seco testemunho
Do grosseiro jogo de comer
Que nem veríamos se não ouvíssemos
Estrelas triturando, migalha por migalha,
Nosso próprio grão até sua face óssea.
How they grip us through thin and thick,
These barnacle dead!
This lady here's no kin
Of mine, yet kin she is: she'll suck
Blood and whistle my marrow clean
To prove it. As I think now of her hand,
Com que esforço eles se agarram a nós,
Estes mortos encalacrados!
Esta dama aqui não é parenta
Minha, mas parenta ela é: vai sugar
Sangue e limpar minha medula até os fiapos
Pra prová-lo. Quando penso agora na mão dela,
From the mercury-backed glass
Mother, grandmother, greatgrandmother
Reach hag hands to haul me in,
And an image looms under the fishpond surface
Where the daft father went down
With orange duck-feet winnowing his hair ---
Da ampulheta banhada de mercúrio
Mãe, avó, tataravó
Estendem mãos megeras pra me arrastar,
E uma imagem surge sob a superfície do lago
Onde o pai apatetado afundou
Com pés-de-pato laranjas joeirando seu cabelo –
All the long gone darlings: They
Get back, though, soon,
Soon: be it by wakes, weddings,
Childbirths or a family barbecue:
Any touch, taste, tang's
Fit for those outlaws to ride home on,
Todas as queridas há muito idas: Elas
Voltam, entretanto, logo,
Logo: seja por velórios, casamentos,
Partos ou um churrasco de família:
Qualquer toque, gosto, olfato
Servem ao retorno destas proscritas ao lar,
And to sanctuary: usurping the armchair
Between tick
And tack of the clock, until we go,
Each skulled-and-crossboned Gulliver
Riddled with ghosts, to lie
Deadlocked with them, taking roots as cradles rock.
E ao santuário: usurpando a poltrona
Entre o tique
E o taque do relógio, até partirmos,
Cada Gulliver de crânio e ossos cruzados
Crivado de fantasmas, jazer com elas
Amortecidos, nos enraizando enquanto berços rangem.
Sylvia Plath
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
Numa noite dessas perpetrei a tradução do poema, que segue aqui abaixo, dedicada à Marina Della Valle. Eu sei que não adianta advertir, mas é um texto muito sinistro: se você é uma pessoa impressionável, evite ler...
All the Dead Dears
Todos os Mortos Queridos
In the Archæological Museum in Cambridge is a stone coffin of the fourth century A.D. containing the skeletons of a woman, a mouse and a shrew. The ankle-bone of the woman has been slightly gnawed.
No Museu Arqueológico em Cambridge há um caixão de pedra do século IV dC, contendo os esqueletos de uma mulher, um camundongo e um mussaranho. O osso do tornozelo da mulher foi levemente roído.
Rigged poker-stiff on her back
With a granite grin
This antique museum-cased lady
Lies, companioned by the gimcrack
Relics of a mouse and a shrew
That battened for a day on her ankle-bone.
Ornamentado atiçador nas suas costas
Com um esgar granítico
Esta arcaica dama museu-encaixotada
Jaz, em companhia dos restos
Sem valor de um rato e um mussaranho
Que por um dia se refestelaram com sua tíbia.
These three, unmasked now, bear
Dry witness
To the gross eating game
We'd wink at if we didn't hear
Stars grinding, crumb by crumb,
Our own grist down to its bony face.
Estes três, já desmascarados, prestam
Seco testemunho
Do grosseiro jogo de comer
Que nem veríamos se não ouvíssemos
Estrelas triturando, migalha por migalha,
Nosso próprio grão até sua face óssea.
How they grip us through thin and thick,
These barnacle dead!
This lady here's no kin
Of mine, yet kin she is: she'll suck
Blood and whistle my marrow clean
To prove it. As I think now of her hand,
Com que esforço eles se agarram a nós,
Estes mortos encalacrados!
Esta dama aqui não é parenta
Minha, mas parenta ela é: vai sugar
Sangue e limpar minha medula até os fiapos
Pra prová-lo. Quando penso agora na mão dela,
From the mercury-backed glass
Mother, grandmother, greatgrandmother
Reach hag hands to haul me in,
And an image looms under the fishpond surface
Where the daft father went down
With orange duck-feet winnowing his hair ---
Da ampulheta banhada de mercúrio
Mãe, avó, tataravó
Estendem mãos megeras pra me arrastar,
E uma imagem surge sob a superfície do lago
Onde o pai apatetado afundou
Com pés-de-pato laranjas joeirando seu cabelo –
All the long gone darlings: They
Get back, though, soon,
Soon: be it by wakes, weddings,
Childbirths or a family barbecue:
Any touch, taste, tang's
Fit for those outlaws to ride home on,
Todas as queridas há muito idas: Elas
Voltam, entretanto, logo,
Logo: seja por velórios, casamentos,
Partos ou um churrasco de família:
Qualquer toque, gosto, olfato
Servem ao retorno destas proscritas ao lar,
And to sanctuary: usurping the armchair
Between tick
And tack of the clock, until we go,
Each skulled-and-crossboned Gulliver
Riddled with ghosts, to lie
Deadlocked with them, taking roots as cradles rock.
E ao santuário: usurpando a poltrona
Entre o tique
E o taque do relógio, até partirmos,
Cada Gulliver de crânio e ossos cruzados
Crivado de fantasmas, jazer com elas
Amortecidos, nos enraizando enquanto berços rangem.
Sylvia Plath
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
quarta-feira, abril 23, 2008
A quem interessar possa a numerologia...
Hoje é aniversário de William Shakespeare.
Aniversário de nascimento e morte.
Curioso, não?
Mais curioso ainda é a idade que ele completa, a qual (pelo menos pra mim) exerce um fascínio meio idiota, uma estupidez que talvez entenda quem já ficou de madrugada assistindo ao relógio digital transmitido pelas emissoras de TV junto com as faixas coloridas...
O momento em que os dígitos ficam todos iguais vira um acontecimento a ser comemorado, no mínimo com um esgar de sorriso e um pouco de baba escorrendo no canto da boca...
Pra não largar mão da minha tradição de poetastro, cometi a seguinte quadra de celebração:
Falar da idade do bardo é meio abstrato,
Mas por acaso alguém viu, neste mundo ingrato,
Que o velho Will, cuja obra eu também idolatro,
Faz hoje quatrocentos e quarenta e quatro?
De brinde extra, publico a seguir o que talvez sejam os únicos versos de Shakespeare ainda não traduzidos trocentas milhões de vezes em português – curiosamente, são os versos do seu epitáfio – será que foi ele mesmo o autor? – em qualquer caso, diz a lenda que estão inscritos na sua lápide – e deviam ter servido pra eu não me meter a besta de mexer com a figurinha mais carimbada da literatura universal...
Good friend, for Jesus´ sake forbear
To dig the dust enclosed here;
Blessed be the man that spares these stones
And cursed be he that moves my bones!
Bom amigo, pelo amor de Jesus não tente
Escavar a poeira que aqui jaz presente;
Bendito aquele que poupar estes destroços,
E maldito seja quem mexer nos meus ossos!
Aniversário de nascimento e morte.
Curioso, não?
Mais curioso ainda é a idade que ele completa, a qual (pelo menos pra mim) exerce um fascínio meio idiota, uma estupidez que talvez entenda quem já ficou de madrugada assistindo ao relógio digital transmitido pelas emissoras de TV junto com as faixas coloridas...
O momento em que os dígitos ficam todos iguais vira um acontecimento a ser comemorado, no mínimo com um esgar de sorriso e um pouco de baba escorrendo no canto da boca...
Pra não largar mão da minha tradição de poetastro, cometi a seguinte quadra de celebração:
Falar da idade do bardo é meio abstrato,
Mas por acaso alguém viu, neste mundo ingrato,
Que o velho Will, cuja obra eu também idolatro,
Faz hoje quatrocentos e quarenta e quatro?
De brinde extra, publico a seguir o que talvez sejam os únicos versos de Shakespeare ainda não traduzidos trocentas milhões de vezes em português – curiosamente, são os versos do seu epitáfio – será que foi ele mesmo o autor? – em qualquer caso, diz a lenda que estão inscritos na sua lápide – e deviam ter servido pra eu não me meter a besta de mexer com a figurinha mais carimbada da literatura universal...
Good friend, for Jesus´ sake forbear
To dig the dust enclosed here;
Blessed be the man that spares these stones
And cursed be he that moves my bones!
Bom amigo, pelo amor de Jesus não tente
Escavar a poeira que aqui jaz presente;
Bendito aquele que poupar estes destroços,
E maldito seja quem mexer nos meus ossos!
domingo, abril 20, 2008
Mais uma colagem...
Você traiu seus próprios sentimentos,
Brincou de vida feito nem ligasse,
Se fez de bobo e disse em versos lentos
Não conhecer nem mais a própria face.
Você prossegue com seu ego enorme
Como se a indulgência comprovasse
Que mesmo quando a consciência dorme
Uma terzina usada ainda a redime.
Você acredita que nesse uniforme
Sua poesia esconde qualquer crime,
Podendo mesmo se fazer verdade
E revelar a imagem mais sublime.
Porém a própria artificialidade
Que com desplante você leva adiante,
Não importando o quanto e a quem agrade,
Só se revela mesmo redundante.
Você devia era criar vergonha,
Em vez de se arvorar aos pés de Dante,
Substituindo essa ilusão bisonha
Por humildade em doses cavalares.
E se de fato você ainda sonha
Em superar contudos e apesares,
Vai ter que detonar seu egoísmo,
Purgando esses infernos pelos ares,
Vai ter que reencontrar o seu lirismo,
Ter mais pureza, não fazer mais cenas,
Atravessar abismo após abismo,
E, pelo jeito, as chances são pequenas.
Brincou de vida feito nem ligasse,
Se fez de bobo e disse em versos lentos
Não conhecer nem mais a própria face.
Você prossegue com seu ego enorme
Como se a indulgência comprovasse
Que mesmo quando a consciência dorme
Uma terzina usada ainda a redime.
Você acredita que nesse uniforme
Sua poesia esconde qualquer crime,
Podendo mesmo se fazer verdade
E revelar a imagem mais sublime.
Porém a própria artificialidade
Que com desplante você leva adiante,
Não importando o quanto e a quem agrade,
Só se revela mesmo redundante.
Você devia era criar vergonha,
Em vez de se arvorar aos pés de Dante,
Substituindo essa ilusão bisonha
Por humildade em doses cavalares.
E se de fato você ainda sonha
Em superar contudos e apesares,
Vai ter que detonar seu egoísmo,
Purgando esses infernos pelos ares,
Vai ter que reencontrar o seu lirismo,
Ter mais pureza, não fazer mais cenas,
Atravessar abismo após abismo,
E, pelo jeito, as chances são pequenas.
segunda-feira, abril 14, 2008
Menipeando a sonetagem...
Soneto é um tipo de vírus que a gente contrai e não é fácil largar mão - quando você se flagra, já começou a calcular as rimas e a escandir o verso em decassílabos.
Nos idos do milênio passado, quando comecei a descobrir a poesia, abominava a técnica parnasiana, e, apesar de nunca ter deixado de idolatrar as sonetagens simbolistas, se me dissessem que dali a uns vinte anos eu estaria perpetrando algo remotamente semelhante a um soneto, seria pior que a última das ilusões perdidas.
Este intróito em prosa não redime nada, mas serve pra me autojustificar, porque vou postar aqui mais um soneto, e ver se na seqüência me livro da infecção - quem sabe um poema visual seja o antídoto, mas ficou difícil desencalacrar um esqueleto tão pronto, que só precisa do recheio carnoso das palavras pra ficar um monstrinho tão cheio de graça...
Senão vejamos...
1, 2, 3, 4, ... , 31
Parte de mim sente um ódio brutal
Sempre que lê as coisas que escrevi:
– Como você pôde, pobre animal,
Matar o lirismo que estava ali? –
Outro pedaço não chega ao extremo,
Perdoa refrão aqui, versinho lá:
– Com essa rima opulenta até tremo,
Mas o teor abstruso, pô: não dá! –
As partes promíscuas que agora admitem
Mais um soneto feito item por item
Nutrem a crença com força de fé –
Que um dia eu redima tantos maus modos
E ao bater trinta-e-um-meu-salva-todos
Mostre a pureza do amor como ela é.
Nos idos do milênio passado, quando comecei a descobrir a poesia, abominava a técnica parnasiana, e, apesar de nunca ter deixado de idolatrar as sonetagens simbolistas, se me dissessem que dali a uns vinte anos eu estaria perpetrando algo remotamente semelhante a um soneto, seria pior que a última das ilusões perdidas.
Este intróito em prosa não redime nada, mas serve pra me autojustificar, porque vou postar aqui mais um soneto, e ver se na seqüência me livro da infecção - quem sabe um poema visual seja o antídoto, mas ficou difícil desencalacrar um esqueleto tão pronto, que só precisa do recheio carnoso das palavras pra ficar um monstrinho tão cheio de graça...
Senão vejamos...
1, 2, 3, 4, ... , 31
Parte de mim sente um ódio brutal
Sempre que lê as coisas que escrevi:
– Como você pôde, pobre animal,
Matar o lirismo que estava ali? –
Outro pedaço não chega ao extremo,
Perdoa refrão aqui, versinho lá:
– Com essa rima opulenta até tremo,
Mas o teor abstruso, pô: não dá! –
As partes promíscuas que agora admitem
Mais um soneto feito item por item
Nutrem a crença com força de fé –
Que um dia eu redima tantos maus modos
E ao bater trinta-e-um-meu-salva-todos
Mostre a pureza do amor como ela é.
terça-feira, abril 08, 2008
FEITO ESQUECENDO...
Feito esquecendo as pulsões mais brutais
Encantasse fácil as almas puras
E administrando delícias nos sais
Das palavras travadas de amarguras
Pudesse mesmo arrelvar com carícias
As passadas pesadas de rotinas
Sem que o medo patético partisse as
Rimas com saturações assassinas,
Eu levaria os versinhos na veia
Feito o flautista aos ratos da aldeia
E aos obrigados diria: de nada!
Mas tem sempre um porém em toda via
E a minha inspiração ficou vazia
Lamentando a saliva derramada.
Encantasse fácil as almas puras
E administrando delícias nos sais
Das palavras travadas de amarguras
Pudesse mesmo arrelvar com carícias
As passadas pesadas de rotinas
Sem que o medo patético partisse as
Rimas com saturações assassinas,
Eu levaria os versinhos na veia
Feito o flautista aos ratos da aldeia
E aos obrigados diria: de nada!
Mas tem sempre um porém em toda via
E a minha inspiração ficou vazia
Lamentando a saliva derramada.
sexta-feira, abril 04, 2008
PÓS-DESCONSTRUÇÃO ARCAICA
Sentindo um cheiro pestilento, lento,
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.
terça-feira, março 25, 2008
TRÊS PARCERIAS RESGATADAS
A primeira é com o Thadeu, feita na maior parte por ele, mas tem os meus pitacos por ali;
a segunda é com o Plínio Gonzaga, no bar A Gata Comeu no dia 8 de dezembro de 2006 (início da semana de homenagens ao finado poeta Marcos Prado) – os dois versos finais são praticamente roubados dum poema que fiz com o Francisco Cardoso;
portanto, a terceira é pra tentar compensar o Francisco, mas essa parceria com ele foi só até o verso 9: o resto eu completei sozinho, e espero que ele me perdoe por todas essas gafes...
UMA GARRAFA SEM GÊNIO
A tristeza foi tudo o que sobrou
Pra mim, dentro da garrafa vazia,
Pois muito longe da festa eu estou,
Empobrecendo a rima da poesia.
Há pouco tantos por aqui havia
Brindando aos deuses o sonho do gol
Num estádio lotado de alegria,
E agora nem eu aplaudo o meu show.
Só um hiato cabe em lapso como esse,
O eclipse é total, e a lua, nova,
Mas à luz do verso me salvo nesse
Interlúdio imortal. Perdi o interesse:
Nada como um som indo atrás da prova
De que existe vida além dessa cova!
***
A CAVERNA DO BURACO NEGRO
prados, colinas e ravinas,
penhascos, depressões, vales,
cidades, maremotos, ruínas,
montes, montes e montes –
todos os lugares de relevo
não mexem um pêlo da minha sina,
todas as montanhas de nervos
e os intensos rios de lava
não valem um cabelo que resvala –
eu não celebro aniversários de morte,
a vida é que deve a essa descida –
dobrei todas as esquinas,
me perdi em todas as propostas
e agora até as frentes frias
me deram as costas.
***
ETERNA FEMININA
A mulher, a que afresca o teto do meu crânio
E algarismou meu alfabeto extemporâneo,
A sempiterna e carinhosa companhia
Cujo espinho de cor-de-rosa me amacia
E me amalgama o barro em lava incandescente –
Se me chama, me amarro, sem trava aparente;
Se me incita, e excita a cítara mais avara,
Ela compartilha o todo que amealhara –
Feliz combinação de forma e de intenção:
Um triz de distração na norma rigorosa,
Um quê de seriedade em meio à desrazão,
Um O de boca, um U de bunda, um A de rosa,
__Um E de bela, um I de indecisivamente,
__Que ilude, molha, frisa e ameniza a mente.
a segunda é com o Plínio Gonzaga, no bar A Gata Comeu no dia 8 de dezembro de 2006 (início da semana de homenagens ao finado poeta Marcos Prado) – os dois versos finais são praticamente roubados dum poema que fiz com o Francisco Cardoso;
portanto, a terceira é pra tentar compensar o Francisco, mas essa parceria com ele foi só até o verso 9: o resto eu completei sozinho, e espero que ele me perdoe por todas essas gafes...
UMA GARRAFA SEM GÊNIO
A tristeza foi tudo o que sobrou
Pra mim, dentro da garrafa vazia,
Pois muito longe da festa eu estou,
Empobrecendo a rima da poesia.
Há pouco tantos por aqui havia
Brindando aos deuses o sonho do gol
Num estádio lotado de alegria,
E agora nem eu aplaudo o meu show.
Só um hiato cabe em lapso como esse,
O eclipse é total, e a lua, nova,
Mas à luz do verso me salvo nesse
Interlúdio imortal. Perdi o interesse:
Nada como um som indo atrás da prova
De que existe vida além dessa cova!
***
A CAVERNA DO BURACO NEGRO
prados, colinas e ravinas,
penhascos, depressões, vales,
cidades, maremotos, ruínas,
montes, montes e montes –
todos os lugares de relevo
não mexem um pêlo da minha sina,
todas as montanhas de nervos
e os intensos rios de lava
não valem um cabelo que resvala –
eu não celebro aniversários de morte,
a vida é que deve a essa descida –
dobrei todas as esquinas,
me perdi em todas as propostas
e agora até as frentes frias
me deram as costas.
***
ETERNA FEMININA
A mulher, a que afresca o teto do meu crânio
E algarismou meu alfabeto extemporâneo,
A sempiterna e carinhosa companhia
Cujo espinho de cor-de-rosa me amacia
E me amalgama o barro em lava incandescente –
Se me chama, me amarro, sem trava aparente;
Se me incita, e excita a cítara mais avara,
Ela compartilha o todo que amealhara –
Feliz combinação de forma e de intenção:
Um triz de distração na norma rigorosa,
Um quê de seriedade em meio à desrazão,
Um O de boca, um U de bunda, um A de rosa,
__Um E de bela, um I de indecisivamente,
__Que ilude, molha, frisa e ameniza a mente.
terça-feira, março 18, 2008
OUTRO PÁSSARO
Levantei de madrugada com o crânio mais que nada
Rebatendo a velha ladainha que um bebum criou;
Sim, aquela, quem não lembra, a velha marcação da lenda
Duma certa ave agourenta, a qual repete um mesmo som —
A ave vem e pousa lenta, repetindo um mesmo som —
__Invenção do velho Poe.
Eu sabia que era fria refazer noutra poesia
Tal estrofe, já vazia, feito andar na contra-mão;
Entretanto fui caindo, como um sol, me achando lindo,
Imitando outros no fim do indecoroso e bom refrão —
Fui caindo, um sol caindo, repetindo o bom refrão —
__Pra alegrar meu coração.
Só que mais triste eu ficava, minha situação mais brava
E a caneta, mais que escrava, já pedia um fim também;
Pois a métrica tão justa e a cadência tão augusta
E insalubre a quem se assusta custam bem mais que um porém;
Custam mais que um entretanto, que um contudo e que um porém;
__Mas eu não passava sem.
Vi depois, sem sacanagem, que faltava um personagem,
Que os bordões, quando eles agem, não se lançam no vazio;
— Chega de metalinguagem, mude a rima agora em cima,
Tente incrementar o clima e diga onde é que já se viu:
Teus versinhos, sem persona, sempre errando, isso é civil?
__Nisso ouvi, distinto, um: — Psiu!
Ah, viu só? — Eu já sabia: nesta madrugada fria
(Que clichês!) demoraria, mas viriam emoções!
— Emoções são coisa de Emo... — Ou será, por outra, o demo?
— Sei que devo mas não temo remover os travessões
(Na cabeça as tantas vozes me causavam confusões)
__— Tire então os travessões!
Reorganizando a mente, notei repetidamente
Que devia tão somente retraçar os passos meus:
Simplifico os descaminhos, deixo ao léu desvios mesquinhos,
Fico aqui no meu cantinho (mais clichês), mercê de Deus...
Fico bem aqui sozinho, não vai só quem vai com Deus...
__— Não é Deus, mas são teus eus...
Dessa vez eu te descubro, refleti, ficando rubro,
Sem saber se já era outubro, ou talvez nem fosse abril -
Pois o caos era tamanho, dava assim em mim um banho,
E eu perdia o jogo ganho pra saber se alguém ouviu -
Pra saber se mais alguma criatura além ouviu
__O distinto e claro: — Psiu!
Novamente o psiu ressoa, vejo então que a hora é boa
Pra flagrar qual é a pessoa causadora da aflição;
Sem tardança ou qualquer falha se projeta-me esta gralha
Cuja voz atroz se espalha declarando enfim quais são —
Quais são as mais necessárias providências da razão —
__Grita a gralha: — Larga mão!
Hoje nem sei se é tão certa dessa gralha a descoberta:
Largar sempre a mente aberta, largar tudo que é ruim —
Sei que enfim vou aplicando o bem que a gralha disse quando
Flutuou na esfera vã do meu poema tão chinfrim —
Flutuou e o próprio Poe, com tal pasticho tão chinfrim,
__Se torceu na tumba e fim.
Rebatendo a velha ladainha que um bebum criou;
Sim, aquela, quem não lembra, a velha marcação da lenda
Duma certa ave agourenta, a qual repete um mesmo som —
A ave vem e pousa lenta, repetindo um mesmo som —
__Invenção do velho Poe.
Eu sabia que era fria refazer noutra poesia
Tal estrofe, já vazia, feito andar na contra-mão;
Entretanto fui caindo, como um sol, me achando lindo,
Imitando outros no fim do indecoroso e bom refrão —
Fui caindo, um sol caindo, repetindo o bom refrão —
__Pra alegrar meu coração.
Só que mais triste eu ficava, minha situação mais brava
E a caneta, mais que escrava, já pedia um fim também;
Pois a métrica tão justa e a cadência tão augusta
E insalubre a quem se assusta custam bem mais que um porém;
Custam mais que um entretanto, que um contudo e que um porém;
__Mas eu não passava sem.
Vi depois, sem sacanagem, que faltava um personagem,
Que os bordões, quando eles agem, não se lançam no vazio;
— Chega de metalinguagem, mude a rima agora em cima,
Tente incrementar o clima e diga onde é que já se viu:
Teus versinhos, sem persona, sempre errando, isso é civil?
__Nisso ouvi, distinto, um: — Psiu!
Ah, viu só? — Eu já sabia: nesta madrugada fria
(Que clichês!) demoraria, mas viriam emoções!
— Emoções são coisa de Emo... — Ou será, por outra, o demo?
— Sei que devo mas não temo remover os travessões
(Na cabeça as tantas vozes me causavam confusões)
__— Tire então os travessões!
Reorganizando a mente, notei repetidamente
Que devia tão somente retraçar os passos meus:
Simplifico os descaminhos, deixo ao léu desvios mesquinhos,
Fico aqui no meu cantinho (mais clichês), mercê de Deus...
Fico bem aqui sozinho, não vai só quem vai com Deus...
__— Não é Deus, mas são teus eus...
Dessa vez eu te descubro, refleti, ficando rubro,
Sem saber se já era outubro, ou talvez nem fosse abril -
Pois o caos era tamanho, dava assim em mim um banho,
E eu perdia o jogo ganho pra saber se alguém ouviu -
Pra saber se mais alguma criatura além ouviu
__O distinto e claro: — Psiu!
Novamente o psiu ressoa, vejo então que a hora é boa
Pra flagrar qual é a pessoa causadora da aflição;
Sem tardança ou qualquer falha se projeta-me esta gralha
Cuja voz atroz se espalha declarando enfim quais são —
Quais são as mais necessárias providências da razão —
__Grita a gralha: — Larga mão!
Hoje nem sei se é tão certa dessa gralha a descoberta:
Largar sempre a mente aberta, largar tudo que é ruim —
Sei que enfim vou aplicando o bem que a gralha disse quando
Flutuou na esfera vã do meu poema tão chinfrim —
Flutuou e o próprio Poe, com tal pasticho tão chinfrim,
__Se torceu na tumba e fim.
segunda-feira, março 10, 2008
TENTANDO COLAR NOVAMENTE OS CAQUINHOS DO ESPELHO DO BANHEIRO
Você voltou pra casa (tá legal: quitinete no centrão nervoso)
Quase correndo porque sabia que um mínimo desvio -
Até um sorriso da vizinha do terceiro andar
Ou a saudação de rotina da porteira ingênua -
Podia estragar a iminência do poema longo -
Você sofreu consciente esse ataque da vida diária,
Ainda é noitinha e o clima ainda é propício,
E você sabe que vai usar o recurso da terceira pessoa
Como se fosse a primeira,
Velho truque de perspectiva já invectivado anteriormente,
Sacado do gibi do Punho-de-Ferro,
Tendo ainda em vista que o texto a ser escrito é quase prosa,
Que o verso longo e sem medida é sinal de explosão e cansaço,
Que depois ao ser postado vai bagunçar tudo por causa da formatação e do comprimento da coluna,
Sabendo sim que nenhum suporte é grande o suficiente pra abrigar a inspiração poética,
Lembrando também de novo e de novo aquele seu poema escrito no rolo de papel higiênico que seria o único a aturar qualquer tamanho de verso quando usado em formato "paisagem",
Percebendo sim que isso está mais pra prosa e que escrever em prosa,
Você já disse uma vez ao Sandrini,
Dá-lhe a sensação de estar traindo a Musa,
Mas até que está musical,
E até vai meio que rimando,
Então toca o pau,
Ivan,
Sim,
Ivan, você sabe que vai usar dessa vez todos os nomes,
Vai aproveitar o embalo destampatório-emocional,
Vai entregar o jogo todo sem disfarce ficcional,
Vai falar da postagem do Pinduca
(que intimidade é essa? Nem você sabe, mas vá lá)
que você leu e lembrou daquela noite de 1999,
homenagem aos dez anos de falecimento do Leminski,
quando você quase recém-ingresso no mestrado na magnífica USP,
recém-ingresso no escalafobético CRUSP e toda a beleza da coisa
(teatro de graça todo fim de semana na ECA,
cinema de graça todo dia no CINUSP,
biblioteca mágica e silenciosa,
sensação de morar no Parque Barigüi em plena Sampa desvairada, etc)
você mal segurou o mal-estar que o Pinduca lhe causou,
com toda aquela ironia em cima dos uspianos,
e anteontem você leu a postagem em que o mesmo Pinduca
faz alguma (enfim, alguma) concessão à academia,
termo sim execrável aos drop-outs e quejandos,
e aos poetas mais ao estilo do Leminski
que era enfim o teu "objeto de estudo"
(e olha a mudança pronominal - teu, seu, você, tu, enfim, foda-se)
enfim,
você nem soube como comentar isso lá na espelunca sem que parecesse
que você é mesmo esse acadêmico,
esse mestre que surtou pra concluir a porra toda,
e você luta pra voltar àquela sensação antiga e boa de escrever poesia,
você luta pra colar novamente os caquinhos do espelho do banheiro,
peleja pra voltar a ser o grande poeta de bosta que você achava que era -
você chegou na quitinete e ligou o computador,
insuportável a pressa de começar a despejar o surto-impulso em verso,
você não agüentou o tempo de inicialização,
pegou um caderno pra não perder o embalo,
não escreveu nada porque nunca aparece uma caneta nessa hora,
é uma das neuroses que você herdou da sua mãe,
e aí achou lá uma página mal-caligrafada pela Joelma:
"Ivan, fomos a praça caminhar
liguei o PC p/ ouvir música
e deu a tela azul"
muito poético, sim, praticamente
um haicai selvagem em estado de animação suspensa,
do tempo que tua filha ainda morava com vocês,
do tempo em que as coisas não estavam condenadas,
tá, você sabe que ainda não estão,
vai rastejando ainda agora,
conseguiu estopar com a canabis diária e o álcool ocasional,
mas vê que anda sempre por um fio pra recair de novo,
está aí acordando cedo,
fazendo exercício,
cozinhando o blog em banho hiper Maria,
traduzindo o Johnny Panic and the Bible of Dreams
& Other prose writings da idolatrada Sylvia,
a suicida favorita de todos e todas,
e isso te remete à Ana Cristina César,
sim,
você acaba de voltar da BPP,
onde perlustrou o Inéditos & Dispersos
e se assombrou com o primeiro poema infantil ilustrado
no qual a protagonista se joga das alturas,
putz, você sabe que não vai se jogar também,
você sabe que está ainda achando tudo horrível e por certo também fabuloso,
você prevê que ainda assim não vai ser sincero o suficiente,
não vai falar (ops, já está falando) que quase se mijou de rir
na lan-house lendo os poemas em parceria
do Thadeu e do Edson,
e que leu o poema mais recente do Thadeu,
sentindo aquele ciúme leproso de
"Porra, quando é que eu vou jorrar versos assim?",
e...
vai, continua!
E a tua vida afetiva que você bagunçou o quanto pôde,
Não vai citar alguma coisa?
Você sabe que não, que elas vão se arrepiar,
Que uma não quer, que outra babaria, que aqueloutra nem me fale,
Mas que no momento você decidiu ficar "um tempo sozinho"
Provavelmente pelo velho egoísmo e crueldade naturais,
Pra poder ir dormir quase chorando feito o covarde fraco que tu és,
E agora a empolgação vai diminuindo,
Você já atacou o teclado a la Bukowski (bata nela, bata na máquina
Feito um boxeador), você sabe que vai quem sabe até editar os inícios de linha
Porque a porra do editor de texto está maiusculizando sozinho de novo,
Você sabe que daqui a pouco vai salvar esse troço no disquete
Sim, você ainda usa o venerado disquinho quadrado,
Vai revisar, vai falsificar aqui e ali,
Mas vai correr até a cyber loja próxima pra postar tudo isso,
Depois voltar pra casa (vide o início),
Ler a Clarice que te anda obsedando,
E o primeiro livro da tetralogia do Rio Apa
Pra complementar leituras do teu hipotético doutorado,
A respeito da Literatura Paranaense, "A Angústia da Existência",
Que você sabe que existe mas que também não existe
Se for considerar o panorama brasileiro,
O qual já é ultra-periférico mundialmente,
O teu estado do Paraná, então,
Periferia da periferia da periferia da periferia,
E ainda assim os livros estão todos lá,
Caindo aos pedaços mas estão lá,
E o texto do Jamil Snege sobre isso, então,
Aquele capítulo do Como eu se fiz por si mesmo,
Não é genial? Não é aquilo mesmo?
Enfim, que nojo de usar esse enfim que você flagra
Quando não é você mesmo que está usando,
Voltando:
Você vai postar esse troço e amanhã já vai acordar pensando
Se alguém comentou, se o Pinduca tomou conhecimento:
Porra, você quer o quê?
Quer voltar sim a ser considerado gênio
Do jeito que você sabe que não é,
Quer repercussão, quer ser amado e odiado
(você já é, isso não é tão difícil assim)
enfim,
de novo,
você tentou voltar com tudo (e contudo...)
não disse nem metade do que queria,
ou talvez um pouco mais do que queria ou podia,
ou seria capaz,
e agora, rapaz,
agora é hora de encerrar a sessão de descarrego
e ir até o mercado buscar os teus limões do bem,
antes passar no cyber-treco e postar essas,
essas...
você sabe que tem que mandar alguma artilharia pesada aqui,
no final: esse é o final -
você disfarça,
olha pra janela,
nenhum Esteves vai te dar Adeus,
a paisagem urbana é aquela mesma, sim, aquela
e existe apenas o cansaço da noite de um dia fácil/difícil,
existe a possibilidade do sorriso,
a auto-complacência,
o momento em hífen que aguarda a próxima palavra,
e, eventualmente, alguma rima boa por ali à toa
que ainda te abençoa
e te escalavra.
Quase correndo porque sabia que um mínimo desvio -
Até um sorriso da vizinha do terceiro andar
Ou a saudação de rotina da porteira ingênua -
Podia estragar a iminência do poema longo -
Você sofreu consciente esse ataque da vida diária,
Ainda é noitinha e o clima ainda é propício,
E você sabe que vai usar o recurso da terceira pessoa
Como se fosse a primeira,
Velho truque de perspectiva já invectivado anteriormente,
Sacado do gibi do Punho-de-Ferro,
Tendo ainda em vista que o texto a ser escrito é quase prosa,
Que o verso longo e sem medida é sinal de explosão e cansaço,
Que depois ao ser postado vai bagunçar tudo por causa da formatação e do comprimento da coluna,
Sabendo sim que nenhum suporte é grande o suficiente pra abrigar a inspiração poética,
Lembrando também de novo e de novo aquele seu poema escrito no rolo de papel higiênico que seria o único a aturar qualquer tamanho de verso quando usado em formato "paisagem",
Percebendo sim que isso está mais pra prosa e que escrever em prosa,
Você já disse uma vez ao Sandrini,
Dá-lhe a sensação de estar traindo a Musa,
Mas até que está musical,
E até vai meio que rimando,
Então toca o pau,
Ivan,
Sim,
Ivan, você sabe que vai usar dessa vez todos os nomes,
Vai aproveitar o embalo destampatório-emocional,
Vai entregar o jogo todo sem disfarce ficcional,
Vai falar da postagem do Pinduca
(que intimidade é essa? Nem você sabe, mas vá lá)
que você leu e lembrou daquela noite de 1999,
homenagem aos dez anos de falecimento do Leminski,
quando você quase recém-ingresso no mestrado na magnífica USP,
recém-ingresso no escalafobético CRUSP e toda a beleza da coisa
(teatro de graça todo fim de semana na ECA,
cinema de graça todo dia no CINUSP,
biblioteca mágica e silenciosa,
sensação de morar no Parque Barigüi em plena Sampa desvairada, etc)
você mal segurou o mal-estar que o Pinduca lhe causou,
com toda aquela ironia em cima dos uspianos,
e anteontem você leu a postagem em que o mesmo Pinduca
faz alguma (enfim, alguma) concessão à academia,
termo sim execrável aos drop-outs e quejandos,
e aos poetas mais ao estilo do Leminski
que era enfim o teu "objeto de estudo"
(e olha a mudança pronominal - teu, seu, você, tu, enfim, foda-se)
enfim,
você nem soube como comentar isso lá na espelunca sem que parecesse
que você é mesmo esse acadêmico,
esse mestre que surtou pra concluir a porra toda,
e você luta pra voltar àquela sensação antiga e boa de escrever poesia,
você luta pra colar novamente os caquinhos do espelho do banheiro,
peleja pra voltar a ser o grande poeta de bosta que você achava que era -
você chegou na quitinete e ligou o computador,
insuportável a pressa de começar a despejar o surto-impulso em verso,
você não agüentou o tempo de inicialização,
pegou um caderno pra não perder o embalo,
não escreveu nada porque nunca aparece uma caneta nessa hora,
é uma das neuroses que você herdou da sua mãe,
e aí achou lá uma página mal-caligrafada pela Joelma:
"Ivan, fomos a praça caminhar
liguei o PC p/ ouvir música
e deu a tela azul"
muito poético, sim, praticamente
um haicai selvagem em estado de animação suspensa,
do tempo que tua filha ainda morava com vocês,
do tempo em que as coisas não estavam condenadas,
tá, você sabe que ainda não estão,
vai rastejando ainda agora,
conseguiu estopar com a canabis diária e o álcool ocasional,
mas vê que anda sempre por um fio pra recair de novo,
está aí acordando cedo,
fazendo exercício,
cozinhando o blog em banho hiper Maria,
traduzindo o Johnny Panic and the Bible of Dreams
& Other prose writings da idolatrada Sylvia,
a suicida favorita de todos e todas,
e isso te remete à Ana Cristina César,
sim,
você acaba de voltar da BPP,
onde perlustrou o Inéditos & Dispersos
e se assombrou com o primeiro poema infantil ilustrado
no qual a protagonista se joga das alturas,
putz, você sabe que não vai se jogar também,
você sabe que está ainda achando tudo horrível e por certo também fabuloso,
você prevê que ainda assim não vai ser sincero o suficiente,
não vai falar (ops, já está falando) que quase se mijou de rir
na lan-house lendo os poemas em parceria
do Thadeu e do Edson,
e que leu o poema mais recente do Thadeu,
sentindo aquele ciúme leproso de
"Porra, quando é que eu vou jorrar versos assim?",
e...
vai, continua!
E a tua vida afetiva que você bagunçou o quanto pôde,
Não vai citar alguma coisa?
Você sabe que não, que elas vão se arrepiar,
Que uma não quer, que outra babaria, que aqueloutra nem me fale,
Mas que no momento você decidiu ficar "um tempo sozinho"
Provavelmente pelo velho egoísmo e crueldade naturais,
Pra poder ir dormir quase chorando feito o covarde fraco que tu és,
E agora a empolgação vai diminuindo,
Você já atacou o teclado a la Bukowski (bata nela, bata na máquina
Feito um boxeador), você sabe que vai quem sabe até editar os inícios de linha
Porque a porra do editor de texto está maiusculizando sozinho de novo,
Você sabe que daqui a pouco vai salvar esse troço no disquete
Sim, você ainda usa o venerado disquinho quadrado,
Vai revisar, vai falsificar aqui e ali,
Mas vai correr até a cyber loja próxima pra postar tudo isso,
Depois voltar pra casa (vide o início),
Ler a Clarice que te anda obsedando,
E o primeiro livro da tetralogia do Rio Apa
Pra complementar leituras do teu hipotético doutorado,
A respeito da Literatura Paranaense, "A Angústia da Existência",
Que você sabe que existe mas que também não existe
Se for considerar o panorama brasileiro,
O qual já é ultra-periférico mundialmente,
O teu estado do Paraná, então,
Periferia da periferia da periferia da periferia,
E ainda assim os livros estão todos lá,
Caindo aos pedaços mas estão lá,
E o texto do Jamil Snege sobre isso, então,
Aquele capítulo do Como eu se fiz por si mesmo,
Não é genial? Não é aquilo mesmo?
Enfim, que nojo de usar esse enfim que você flagra
Quando não é você mesmo que está usando,
Voltando:
Você vai postar esse troço e amanhã já vai acordar pensando
Se alguém comentou, se o Pinduca tomou conhecimento:
Porra, você quer o quê?
Quer voltar sim a ser considerado gênio
Do jeito que você sabe que não é,
Quer repercussão, quer ser amado e odiado
(você já é, isso não é tão difícil assim)
enfim,
de novo,
você tentou voltar com tudo (e contudo...)
não disse nem metade do que queria,
ou talvez um pouco mais do que queria ou podia,
ou seria capaz,
e agora, rapaz,
agora é hora de encerrar a sessão de descarrego
e ir até o mercado buscar os teus limões do bem,
antes passar no cyber-treco e postar essas,
essas...
você sabe que tem que mandar alguma artilharia pesada aqui,
no final: esse é o final -
você disfarça,
olha pra janela,
nenhum Esteves vai te dar Adeus,
a paisagem urbana é aquela mesma, sim, aquela
e existe apenas o cansaço da noite de um dia fácil/difícil,
existe a possibilidade do sorriso,
a auto-complacência,
o momento em hífen que aguarda a próxima palavra,
e, eventualmente, alguma rima boa por ali à toa
que ainda te abençoa
e te escalavra.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
experimentalismo poético?
PAPAJOYCEATWORK
PAPAJOYCETRAMPANDO
(Noite. Joyce começa a escrever)
(Night. Joyce begins to write)
Madmanam eye! Light gone out!
Olho malucadãome! Luz se foi!
(Cai no papel)
(Falls over the sheet)
Mustmakesomething! Reverythming!
Temquefazeralgo! Ritudsonhindo!
(Morde os lábios e gargalha)
(Bites his lips and laughs out loud)
A poorirish is a writer mehrlichtsearching,
Um pobrirlandês é um escritor soluzmentbuscando,
Yesternighteternidades!
Ontemanoiteternities!
(Troveja. Relâmpagos iluminam o quarto. Joyce prossegue)
(It thunders. Lightnings brighten up the room. Joyce goes on)
Thomasmorrows? Horriver!
Amanhantonios? Horriopilante!
Nice and sweet – the speech of England, damnyou! Dont?
Bela e doce – a fala da Inglaterra, dane-se! Não?
Must destroy it, just like a destroyer would do it yourself!
Tenho que destruí-la, bem como um destróier faria você mesmo!
Como um verme. Yes, I no.
Like a vermin. Sim, eu say.
Done to Ireland! What have they done? It will do.
Feito pra Irlanda! O que eles fizeram? Servirá.
Beforeblacksblanco, we are even, this very evening! Think is so.
Antespretéwhite, estamos quites, nesta noite esquisita! Pensar é tão.
My vengeance will be as big as say a country as big as say Brazil.
Minha vingança será grande qual digamos um país grande qual digamos o Brasil.
Someday my prince will come. Our prince: Seabastião!
Dum mingo meu príncipe virá. Nosso príncipe: Semarstião!
Arrise, Lewisrockandcarrol!
Erga-se, Monteirockandlobato!
Waterrestrela, am I a dayer?
Agüearthstar, sereia eu um dia rio?
Just a wakewriter.
Só um escrivelório.
p.leminski – 1977
ivan j.s. – 2004
PAPAJOYCETRAMPANDO
(Noite. Joyce começa a escrever)
(Night. Joyce begins to write)
Madmanam eye! Light gone out!
Olho malucadãome! Luz se foi!
(Cai no papel)
(Falls over the sheet)
Mustmakesomething! Reverythming!
Temquefazeralgo! Ritudsonhindo!
(Morde os lábios e gargalha)
(Bites his lips and laughs out loud)
A poorirish is a writer mehrlichtsearching,
Um pobrirlandês é um escritor soluzmentbuscando,
Yesternighteternidades!
Ontemanoiteternities!
(Troveja. Relâmpagos iluminam o quarto. Joyce prossegue)
(It thunders. Lightnings brighten up the room. Joyce goes on)
Thomasmorrows? Horriver!
Amanhantonios? Horriopilante!
Nice and sweet – the speech of England, damnyou! Dont?
Bela e doce – a fala da Inglaterra, dane-se! Não?
Must destroy it, just like a destroyer would do it yourself!
Tenho que destruí-la, bem como um destróier faria você mesmo!
Como um verme. Yes, I no.
Like a vermin. Sim, eu say.
Done to Ireland! What have they done? It will do.
Feito pra Irlanda! O que eles fizeram? Servirá.
Beforeblacksblanco, we are even, this very evening! Think is so.
Antespretéwhite, estamos quites, nesta noite esquisita! Pensar é tão.
My vengeance will be as big as say a country as big as say Brazil.
Minha vingança será grande qual digamos um país grande qual digamos o Brasil.
Someday my prince will come. Our prince: Seabastião!
Dum mingo meu príncipe virá. Nosso príncipe: Semarstião!
Arrise, Lewisrockandcarrol!
Erga-se, Monteirockandlobato!
Waterrestrela, am I a dayer?
Agüearthstar, sereia eu um dia rio?
Just a wakewriter.
Só um escrivelório.
p.leminski – 1977
ivan j.s. – 2004
quinta-feira, janeiro 31, 2008
THE TOWER OF FAMINE (A Torre da Fome)
Amid the desolation of a city,
Which was the cradle, and is now the grave
Of an extinguished people, --- so that Pity
Entre a desolação de uma cidade,
Que foi berço, e agora é sepultura
De um povo extinto, - e assim a Piedade
Weeps o'er the shipwrecks of oblivion's wave,
There stands the Tower of Famine. It is built
Upon some prison-homes, whose dwellers rave
Chora os naufrágios nessa onda obscura,
Lá está a Torre da Fome. Construída
Sobre prisões, nas quais se habita em fúria
For bread and gold and blood: Pain linked to Guilt,
Agitates the light flame of their hours,
Until its vital oil is spent or spilt.
Por pão, e ouro, e sangue: a Dor, unida
À Culpa, agita a luz dos moradores,
Até a chama vital ser consumida.
There stands the pile, a tower amid the towers
And sacred domes, each marble-ribbed roof,
The brazen-gated temples, and the bowers
Lá está a pilha, uma torre entre as torres
E os domos sacros; todo teto ornado,
Os templos brônzeos, e abrigos de flores
Of solitary wealth, --- the tempest-proof
Pavilions of the dark Italian air, ---
Are by its presence dimmed --- they stand aloof,
Ao luxo solitário, - o reforçado
Pavilhão do soturno ar da Itália, -
São diminuídos - ficam de lado,
And are withdrawn --- so that the world is bare;
As if a spectre, wrapped in shapeless terror,
Amid a company of ladies fair
E se retiram - e o vazio se espalha;
Qual se um espectro envolto em puro medo
Entre várias damas trajando gala
Should glide and glow, till it became a mirror
Of all their beauty, --- and their hair and hue,
The life of their sweet eyes with all its error,
Deslizasse e reluzisse, e em espelho
De todos esses charmes se tornasse,
E a vida desses olhos, com seu erro,
Should be absorbed till they to marble grew.
Fosse absorvida até crescer no mármore.
P.B.Shelley
Ivan Justen Santana
Which was the cradle, and is now the grave
Of an extinguished people, --- so that Pity
Entre a desolação de uma cidade,
Que foi berço, e agora é sepultura
De um povo extinto, - e assim a Piedade
Weeps o'er the shipwrecks of oblivion's wave,
There stands the Tower of Famine. It is built
Upon some prison-homes, whose dwellers rave
Chora os naufrágios nessa onda obscura,
Lá está a Torre da Fome. Construída
Sobre prisões, nas quais se habita em fúria
For bread and gold and blood: Pain linked to Guilt,
Agitates the light flame of their hours,
Until its vital oil is spent or spilt.
Por pão, e ouro, e sangue: a Dor, unida
À Culpa, agita a luz dos moradores,
Até a chama vital ser consumida.
There stands the pile, a tower amid the towers
And sacred domes, each marble-ribbed roof,
The brazen-gated temples, and the bowers
Lá está a pilha, uma torre entre as torres
E os domos sacros; todo teto ornado,
Os templos brônzeos, e abrigos de flores
Of solitary wealth, --- the tempest-proof
Pavilions of the dark Italian air, ---
Are by its presence dimmed --- they stand aloof,
Ao luxo solitário, - o reforçado
Pavilhão do soturno ar da Itália, -
São diminuídos - ficam de lado,
And are withdrawn --- so that the world is bare;
As if a spectre, wrapped in shapeless terror,
Amid a company of ladies fair
E se retiram - e o vazio se espalha;
Qual se um espectro envolto em puro medo
Entre várias damas trajando gala
Should glide and glow, till it became a mirror
Of all their beauty, --- and their hair and hue,
The life of their sweet eyes with all its error,
Deslizasse e reluzisse, e em espelho
De todos esses charmes se tornasse,
E a vida desses olhos, com seu erro,
Should be absorbed till they to marble grew.
Fosse absorvida até crescer no mármore.
P.B.Shelley
Ivan Justen Santana
sexta-feira, janeiro 25, 2008
quinta-feira, dezembro 06, 2007
Nome?
MEU NOME É FRANZ:
FRANZ KAFKA.
SOU UM JUDEU DE PRAGA,
NA TCHECOSLOVÁQUIA.
EU SOU ADVOGADO,
ESPECIALISTA EM SEGUROS.
TRABALHO NUMA FIRMA DE SEGUROS.
EU ESCREVO ÀS VEZES.
ESCREVO COISAS ESTRANHAS:
A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE
VIROU UMA BARATA.
UM JARDINEIRO QUE QUER
UM EMPREGO NUM CASTELO.
UM RÉU ACUSADO DE UM
CRIME QUE NUNCA COMETEU.
NÃO ME BATAM.
EU NUNCA COMETI CRIME ALGUM.
MEU ÚNICO CRIME É SER EU.
(extraído do encarte do Leminski Multimídia)
FRANZ KAFKA.
SOU UM JUDEU DE PRAGA,
NA TCHECOSLOVÁQUIA.
EU SOU ADVOGADO,
ESPECIALISTA EM SEGUROS.
TRABALHO NUMA FIRMA DE SEGUROS.
EU ESCREVO ÀS VEZES.
ESCREVO COISAS ESTRANHAS:
A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE
VIROU UMA BARATA.
UM JARDINEIRO QUE QUER
UM EMPREGO NUM CASTELO.
UM RÉU ACUSADO DE UM
CRIME QUE NUNCA COMETEU.
NÃO ME BATAM.
EU NUNCA COMETI CRIME ALGUM.
MEU ÚNICO CRIME É SER EU.
(extraído do encarte do Leminski Multimídia)
segunda-feira, novembro 19, 2007
Uma Pequena Fábula
(vertida desta tradução, que eu nem sei contar até sete em alemão...)
- Ai de mim - disse o rato - o mundo inteiro vai ficando cada vez menor dia após dia. No começo era tão grande que eu tinha medo, eu corria e corria, e ficava contente ao ver paredes distantes à direita e à esquerda, mas essas paredes enormes se estreitaram tão depressa que já estou na última peça, e ali no canto está a ratoeira para a qual estou correndo.
- Você só precisa mudar de direção - disse o gato e devorou-o.
Franz Kafka
- Ai de mim - disse o rato - o mundo inteiro vai ficando cada vez menor dia após dia. No começo era tão grande que eu tinha medo, eu corria e corria, e ficava contente ao ver paredes distantes à direita e à esquerda, mas essas paredes enormes se estreitaram tão depressa que já estou na última peça, e ali no canto está a ratoeira para a qual estou correndo.
- Você só precisa mudar de direção - disse o gato e devorou-o.
Franz Kafka
sábado, outubro 27, 2007
O ano lírico
PRIMAVERIL
Mês de rosas. Minhas rimas
giram para a vasta selva,
a recolher mel e aromas
de flores ora entreabertas.
Vem, amada. O grande bosque
é nosso templo; ali ondeia,
flutua um santo perfume
de amor. O pássaro voeja
de uma árvore a outra e saúda
tua fronte rosada e bela
como a aurora; e os carvalhos
robustos, altos, soberbos,
quando tu passas agitam
suas folhas verdes trêmulas,
e arcam as ramas como
à passagem da princesa.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Olha em teu olhar o meu,
dá ao vento a cabeleira,
e que banhe o sol esse aro
da tua luz alva e esplêndida.
Deixa que me apertem as mãos
as tuas de rosa e de seda
e ri, e mostrem teus lábios
a púrpura úmida e fresca.
E eu te direi minhas rimas,
tu me ouvirás brejeira;
se acaso algum rouxinol
vier e pousar por perto
e contar alguma história
de ninfa, rosa ou estrela,
não ouvirás nota ou trino,
mas, enamorada e régia,
escutarás minhas músicas
destes meus lábios trêmulos.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Ali há uma clara fonte
que brota de uma caverna,
onde se banham desnudas
as ninfas com seus folguedos.
Riem ao som da espuma,
fendem a linfa serena;
entre a poeira cristalina
escovam as cabeleiras
e sabem hinos de amores
na formosa língua grega,
que em glorioso tempo antigo
Pan inventou nas florestas.
Amada, porei nestas rimas
a palavra mais soberba
das frases dos versos todos
dos hinos da língua mestra
e te direi essa palavra
empapada em mel de Hibléia...
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Vão em seus grupos vibrantes
voando as muitas abelhas
como um áureo torvelinho
que esta branca luz alegra;
e sobre a água sonora
passam radiantes, ligeiras,
com suas asas cristalinas
as irisadas libélulas.
Ouve: canta a cigarra
porque ama o sol, que na selva
seu pó dourado polvilha
entre essas folhas espessas.
Seu alento nos dá num sopro
fecundo a nossa mãe terra,
com a alma destes cálices
e o aroma destas ervas.
Vês este ninho? Há uma ave.
São duas: o macho e a fêmea.
Ela tem o ventre branco,
ele tem as plumas negras.
Na garganta possui gorjeio,
as asas brancas e trêmulas;
e os bicos que se entrechocam
como lábios que se beijam.
O ninho é cântico. A ave
incuba o trino, oh, poetas!
das liras universais,
a ave pulsa certeira.
Bendito o calor sagrado
que fez brotar as sementes.
Oh minha amada! É o doce
período da primavera.
A doce musa Delícia
me trouxe uma ânfora grega
cinzelada de alabastro,
de vinho de Naxos plena;
e formosa taça de ouro,
a base cheia de pérolas,
para que eu bebesse o vinho
que é propício para os poetas.
Na ânfora está Diana,
real, orgulhosa e esbelta,
com sua nudez divina
em sua atitude cinegética.
Não quero o vinho de Naxos
nem a ânfora de ansas belas,
nem a taça de onde a Cípria
ao galhardo Adônis reza.
Quero beber deste amor
só em tua boca vermelha.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Rubén Darío
versão brasileira: Ivan Justen Santana
Mês de rosas. Minhas rimas
giram para a vasta selva,
a recolher mel e aromas
de flores ora entreabertas.
Vem, amada. O grande bosque
é nosso templo; ali ondeia,
flutua um santo perfume
de amor. O pássaro voeja
de uma árvore a outra e saúda
tua fronte rosada e bela
como a aurora; e os carvalhos
robustos, altos, soberbos,
quando tu passas agitam
suas folhas verdes trêmulas,
e arcam as ramas como
à passagem da princesa.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Olha em teu olhar o meu,
dá ao vento a cabeleira,
e que banhe o sol esse aro
da tua luz alva e esplêndida.
Deixa que me apertem as mãos
as tuas de rosa e de seda
e ri, e mostrem teus lábios
a púrpura úmida e fresca.
E eu te direi minhas rimas,
tu me ouvirás brejeira;
se acaso algum rouxinol
vier e pousar por perto
e contar alguma história
de ninfa, rosa ou estrela,
não ouvirás nota ou trino,
mas, enamorada e régia,
escutarás minhas músicas
destes meus lábios trêmulos.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Ali há uma clara fonte
que brota de uma caverna,
onde se banham desnudas
as ninfas com seus folguedos.
Riem ao som da espuma,
fendem a linfa serena;
entre a poeira cristalina
escovam as cabeleiras
e sabem hinos de amores
na formosa língua grega,
que em glorioso tempo antigo
Pan inventou nas florestas.
Amada, porei nestas rimas
a palavra mais soberba
das frases dos versos todos
dos hinos da língua mestra
e te direi essa palavra
empapada em mel de Hibléia...
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Vão em seus grupos vibrantes
voando as muitas abelhas
como um áureo torvelinho
que esta branca luz alegra;
e sobre a água sonora
passam radiantes, ligeiras,
com suas asas cristalinas
as irisadas libélulas.
Ouve: canta a cigarra
porque ama o sol, que na selva
seu pó dourado polvilha
entre essas folhas espessas.
Seu alento nos dá num sopro
fecundo a nossa mãe terra,
com a alma destes cálices
e o aroma destas ervas.
Vês este ninho? Há uma ave.
São duas: o macho e a fêmea.
Ela tem o ventre branco,
ele tem as plumas negras.
Na garganta possui gorjeio,
as asas brancas e trêmulas;
e os bicos que se entrechocam
como lábios que se beijam.
O ninho é cântico. A ave
incuba o trino, oh, poetas!
das liras universais,
a ave pulsa certeira.
Bendito o calor sagrado
que fez brotar as sementes.
Oh minha amada! É o doce
período da primavera.
A doce musa Delícia
me trouxe uma ânfora grega
cinzelada de alabastro,
de vinho de Naxos plena;
e formosa taça de ouro,
a base cheia de pérolas,
para que eu bebesse o vinho
que é propício para os poetas.
Na ânfora está Diana,
real, orgulhosa e esbelta,
com sua nudez divina
em sua atitude cinegética.
Não quero o vinho de Naxos
nem a ânfora de ansas belas,
nem a taça de onde a Cípria
ao galhardo Adônis reza.
Quero beber deste amor
só em tua boca vermelha.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.
Rubén Darío
versão brasileira: Ivan Justen Santana
sábado, setembro 29, 2007
outro poema felino?
La rêve du jaguar
The jaguar´s dream
O sonho do jaguar
Sous les noirs acajous, les lianes en fleur,
Beneath the dark mahoganies, creepers in flower
Sob os negros acajus, as lianas em flor,
Dans l'air lourd, immobile et saturé de mouches,
Hang in the heavy, motionless, fly-filled air,
Num ar pesado, imóvel e saturado de moscas,
Pendent, et, s'enroulant en bas parmi les souches,
Twining among the tree-stumps, falling where,
Pendem, e, enrolando-se entre os troncos,
Bercent le perroquet splendide et querelleur,
They cradle the brilliant parrot, the quarreller,
Ninam o papagaio esplêndido e palrador,
L'araignée au dos jaune et les singes farouches.
The wild monkeys, spiders with yellow hair.
A aranha de dorso amarelo e os macacos loucos.
C'est là que le tueur de boeufs et de chevaux,
There the wearied, ominous horse-killer,
É ali que o matador de bois e de cavalos,
Le long des vieux troncs morts à l'écorce moussue,
The ox-slayer, returns with a steady tread,
Ao longo dos velhos caules de cascas musgosas,
Sinistre et fatigué, revient à pas égaux.
Over the dead mossy trunks of old timber.
Sinistro e fatigado, retorna em passo regular.
Il va, frottant ses reins musculeux qu'il bossue;
Stretching, arching his muscular loins, a breath
Ele segue, alongando suas ancas musculosas;
Et, du mufle béant par la soif alourdi,
From his gaping muzzle heavy with thirst
E, da mandíbula aberta pela sede agravante,
Un souffle rauque et bref, d'une brusque secousse,
Issues with a sudden shock, quick and harsh,
Um sopro rouco e breve, num brusco arranco,
Trouble les grands lézards, chauds des feux de midi,
And great lizards warm from the noon heat stir,
Assusta os grandes lagartos, quentes do meio-dia,
Dont la fuite étincelle à travers l'herbe rousse.
Then vanish gleaming through the tawny grass.
Cuja fuga cintila através das ervas rubras.
En un creux du bois sombre interdit au soleil
He sinks down; stretched out on a level stone,
Num nicho interdito ao sol na floresta sombria
Il s'affaisse, allongé sur quelque roche plate;
Cleans his paw with a broad lick of his tongue
Ele se esgueira, esticado numa rocha mais plana;
D'un large coup de langue il se lustre la patte;
Veiled from the sun in a hollow of the forest,
Com um golpe largo da língua lustra a pata;
Il cligne ses yeux d'or hébétés de sommeil;
Blinks golden eyes dull with sleepiness;
Pisca os olhos dourados abestalhados de sono;
Et, dans l'illusion de ses forces inertes,
And, as his inert forces, in imagination
E, na ilusão de suas forças inertes,
Faisant mouvoir sa queue et frissonner ses flancs,
Make his tail flicker and his flanks quiver,
Movendo a cauda e sacudindo os flancos,
Il rêve qu'au milieu des plantations vertes,
Dreams himself deep in some green plantation,
Ele sonha que em meio às plantações verdes,
Il enfonce d'un bond ses ongles ruisselants
Leaping, and plunging dripping claws forever
Crava com um só bote suas unhas rutilantes
Dans la chair des taureaux effarés et beuglants.
Into bullocks' flesh as they bellow and shiver.
Na carne dos touros estupefatos e lancinantes.
Leconte de Lisle
A.S.Kline
Ivan Justen Santana
The jaguar´s dream
O sonho do jaguar
Sous les noirs acajous, les lianes en fleur,
Beneath the dark mahoganies, creepers in flower
Sob os negros acajus, as lianas em flor,
Dans l'air lourd, immobile et saturé de mouches,
Hang in the heavy, motionless, fly-filled air,
Num ar pesado, imóvel e saturado de moscas,
Pendent, et, s'enroulant en bas parmi les souches,
Twining among the tree-stumps, falling where,
Pendem, e, enrolando-se entre os troncos,
Bercent le perroquet splendide et querelleur,
They cradle the brilliant parrot, the quarreller,
Ninam o papagaio esplêndido e palrador,
L'araignée au dos jaune et les singes farouches.
The wild monkeys, spiders with yellow hair.
A aranha de dorso amarelo e os macacos loucos.
C'est là que le tueur de boeufs et de chevaux,
There the wearied, ominous horse-killer,
É ali que o matador de bois e de cavalos,
Le long des vieux troncs morts à l'écorce moussue,
The ox-slayer, returns with a steady tread,
Ao longo dos velhos caules de cascas musgosas,
Sinistre et fatigué, revient à pas égaux.
Over the dead mossy trunks of old timber.
Sinistro e fatigado, retorna em passo regular.
Il va, frottant ses reins musculeux qu'il bossue;
Stretching, arching his muscular loins, a breath
Ele segue, alongando suas ancas musculosas;
Et, du mufle béant par la soif alourdi,
From his gaping muzzle heavy with thirst
E, da mandíbula aberta pela sede agravante,
Un souffle rauque et bref, d'une brusque secousse,
Issues with a sudden shock, quick and harsh,
Um sopro rouco e breve, num brusco arranco,
Trouble les grands lézards, chauds des feux de midi,
And great lizards warm from the noon heat stir,
Assusta os grandes lagartos, quentes do meio-dia,
Dont la fuite étincelle à travers l'herbe rousse.
Then vanish gleaming through the tawny grass.
Cuja fuga cintila através das ervas rubras.
En un creux du bois sombre interdit au soleil
He sinks down; stretched out on a level stone,
Num nicho interdito ao sol na floresta sombria
Il s'affaisse, allongé sur quelque roche plate;
Cleans his paw with a broad lick of his tongue
Ele se esgueira, esticado numa rocha mais plana;
D'un large coup de langue il se lustre la patte;
Veiled from the sun in a hollow of the forest,
Com um golpe largo da língua lustra a pata;
Il cligne ses yeux d'or hébétés de sommeil;
Blinks golden eyes dull with sleepiness;
Pisca os olhos dourados abestalhados de sono;
Et, dans l'illusion de ses forces inertes,
And, as his inert forces, in imagination
E, na ilusão de suas forças inertes,
Faisant mouvoir sa queue et frissonner ses flancs,
Make his tail flicker and his flanks quiver,
Movendo a cauda e sacudindo os flancos,
Il rêve qu'au milieu des plantations vertes,
Dreams himself deep in some green plantation,
Ele sonha que em meio às plantações verdes,
Il enfonce d'un bond ses ongles ruisselants
Leaping, and plunging dripping claws forever
Crava com um só bote suas unhas rutilantes
Dans la chair des taureaux effarés et beuglants.
Into bullocks' flesh as they bellow and shiver.
Na carne dos touros estupefatos e lancinantes.
Leconte de Lisle
A.S.Kline
Ivan Justen Santana
quarta-feira, setembro 19, 2007
Atirando cavalos ao mar...
HORSE LATITUDES
LATITUDES CAVALARES
When the still sea conspires an armor
Quando o mar parado conspira uma armadura
And her sullen and aborted currents breed tiny monsters
E suas correntes soturnas e abortadas geram monstrículos
True sailing is dead
A navegação verdadeira está morta
Awkward instant
Instante canhestro
And the first animal is jettisoned
E o primeiro animal é arremessado
Legs furiously pumping
Patas furiosamente bombeando
Their stiff green gallop
Seu galope imaturo e tenso
And heads bob up
E cabeças empinam com o solavanco
Poise
Altivez
Delicate
Delicada
Pause
Pausa
Consent
Permissão
In mute nostril agony
Numa agonia muda de narina
Carefully refined
Cuidadosamente refinada
And sealed over
E selada por cima
James Douglas Morrison
Ivan Justen Santana
LATITUDES CAVALARES
When the still sea conspires an armor
Quando o mar parado conspira uma armadura
And her sullen and aborted currents breed tiny monsters
E suas correntes soturnas e abortadas geram monstrículos
True sailing is dead
A navegação verdadeira está morta
Awkward instant
Instante canhestro
And the first animal is jettisoned
E o primeiro animal é arremessado
Legs furiously pumping
Patas furiosamente bombeando
Their stiff green gallop
Seu galope imaturo e tenso
And heads bob up
E cabeças empinam com o solavanco
Poise
Altivez
Delicate
Delicada
Pause
Pausa
Consent
Permissão
In mute nostril agony
Numa agonia muda de narina
Carefully refined
Cuidadosamente refinada
And sealed over
E selada por cima
James Douglas Morrison
Ivan Justen Santana
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