terça-feira, janeiro 06, 2009

Este dia seis é dia de reis e já faz mais de um mês que... enfim, eis um presente pra vocês:

A COISA MAIS COMPLICADA DO MUNDO

A coisa mais complicada do mundo
é um verso simplissimamente simples:
o paralelo século e segundo
a separar alguma rima assim, impres-
sionante, ante tamanha má vontade
da minha parte com a eternidade.

Tá: a teta do cacófato foi feia,
mas mesmo o bom Camões em alma minha
gentil partiu o peito e abriu a veia
pra não deixar a lira ali sozinha –
e aqui saiu outro poema torto, tonto:
se alguém se importa eu nem me importo e pronto.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Dia 33

Hoje é o dia 33 de nenhuma postagem por aqui -
assim, relaxe,
capriche,
despache
e se espiche:

hoje eu quis postar tudo aquilo que despercebi -
quis fazer uma cançãozinha
que fluísse lírica por uma só linha,
mas vazaram essas duas estrofes irregulares -
portanto, sem mais, desovo a velha rima final
antes que o impulso de postar vá pelos ares.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Outubro acabando

Não são só todas as festas de ontem
que você já perdeu e fim de conversa,
não é só a sua inteligência
virando indigência,
nem apenas o amor que você quer
e precisa sentir e não sente,
ou o advérbio dementemente
que ocorreu agora, por inadvertência -
não é só a sua falta de comando
de qualquer rima chegando em bando:
além disso tudo
é o mês de outubro
que sem escrúpulo está acabando.

sábado, outubro 25, 2008

Surto crítico, de novo...

Vencendo a preguiça, vou ensaiar rapidamente uma retomada do surto crítico anterior:

o blog de bocágil foi retirado (ou retirou-se) da blogosfera - por mais que eu também não concorde com censuras (vide o protesto feito pelo Thadeu), havia naquele blog, além de ofensas pessoais de péssimo gosto, um grande abuso:

o uso de poemas alheios, na falta de réplicas aos seus golpes baixos -

gostaria de assinalar aqui que este "bocágil" chegou aqui com seu primeiro ataque (um soneto em estilo "olha só, mamãe, eu sei fazer soneto") chamando os leitores dos meus poemas de "leitões", e logo após baixou um pouco o tom raivoso, provavelmente porque o elogiei na primeira resposta de bate-pronto que escrevi -

assim, podemos calcular que o que o vate "bocágil" precisava era apenas de elogios ao seu ego inseguro de poeta neófito -

portanto, deixo aqui para bocágil o famoso "elogio do vate", que já recebi, e que faz bem a todos os vates iniciantes:

bocágil, vá te f****!

sexta-feira, outubro 17, 2008

Agia na minha alma algum antídoto

Enquanto eu prosseguia quase cego
rolando rimas sempre verso acima,
agia na minha alma algum antídoto
ao metro martelado, decassílabo,
e, sim, uma canção mais livre se formava,
correndo quente,
mais quente que o magma,
numa gama assim mais difusa de cores,
com o ânimo espontâneo
que os amigos às vezes trazem -
e nesse encantamento de verdade
seguindo um ritmo simples e sincero
ficou cifrado aqui um registro daquela
que me inspirava e continua a me inspirar:

agia na minha alma alguém
roland amor a me levar além...

domingo, outubro 12, 2008

Surtado em fase crítica

Não se assustem: um título melhor pra esta postagem seria "breve surto da minha visão de crítico" -

o advento de um pseudônimo (bocágil) na blogosfera provocou situações que até têm interesse e certa graça, mas vejo que foi atravessada uma fronteira para o lamentável -

a(s) criatura(s), quem quer que sejam - enfim, quem manipula este blog do pseudônimo está promovendo ataques gratuitos a poetas do cenário cultural curitibano - e o que foi feito à Luci Colin ultrapassou de longe os limites aceitáveis, transpirando covardia e péssimos sentimentos...

É difícil mesmo atingir uma visão equilibrada sobre as artes produzidas em Curitiba e no Paraná, já que são mais frequentes as visões de extremos: e normalmente o senso que prevalece, pelo menos na superfície, é o de que tudo aqui é uma porcaria -

pra mim, de positivo a respeito desse "advento do bocágil" (que na confusão tem gente que chega a atribuir a mim e [ou] ao Thadeu) foi a reação do Rodrigo Madeira (poeta que conheci e com quem conversei brevemente já faz uns dois anos) -

ele postou um soneto que não devia passar despercebido (está lá no fim dos comentários da postagem do ovo de colombo) - e o que o Madeira quer dizer ali também já me passou pela cabeça:

por que um "poeta" (bocágil) volta-se contra seus próprios pares, em vez de usar sua boca satírica pra versar sobre problemas de verdade?

Agradeço ao Rodrigo também pelo comentário da postagem anterior -
nesta, um poema longo e ingênuo, arrematei com um apelo de trégua ao "poeta bocágil", para que passasse a escrever "sublimes canções líricas" -

a resposta a isso lá no pseudoblog (estou linkando de novo, mas com certo desagrado e nojo, aquele ambiente agora me provoca repugnância) acabou sendo o já mencionado ataque a uma excelente escritora curitibana - um golpe baixo, que não mereceria muito mais que desprezo.

Pra mim, é importante ainda destacar:

o ataque ao Thadeu, na verdade, foi respondido por outro(s) poeta(s) anônimo(s), enquanto o próprio continua "tirando ouro do nariz" lá no blog dele -

que na "segunda grande resposta", além de mostrar que não sabe soletrar o nome do Leminski, o "bocágil" considera careta uma geração de poetas que tem grande valor, na qual se destaca o Marcos Prado, gênio sim (quem duvida, que leia Ultralyrics, e também O Livro de poemas de Marcos Prado) -

que, apesar de me sentir meio culpado nessa história (o "cara" veio me atacar aqui e acabou criando o seu "polêmico" [blérgt...] blog graças à atenção e às respostas com que brindei seus versinhos sujismundos), pelo menos considero que há uma agitação sobre a poesia paranaense agora, e (continuo um pouco ingênuo sim) isso pode ter boas consequências, como é o caso da interferência do Rodrigo Madeira - se bem que não considero suficiente o arremate do seu soneto: ficou meio pessimista, e achei de gosto suspeito a comparação de poetas com chacretes...

Deixo ainda um alô ao Cláudio Bettega, que fez sua saudação aqui também, e ao Alexandre França (que deve ter sido o autor do comentário mandando "Abrax") -

E, finalmente, depois deste surto crítico, registro que continuo devendo "sublimes canções líricas" à "misteriosa" G., a qual acabou também me aplicando uma satirazinha "animadora", e merece mesmo poemas que realmente valham a pena (e o teclado também...)...


Post Digitatum: "bocágil" postou agora um ataque ao Gustavot (de quem já ouvi falar, tendo visto no Wonka um trecho duma sua peça de teatro, que considerei um trabalho poético muito bem feito) -

até onde pude perceber, os autores do blog-bocágil, Bearzotti e Gustavot, executaram um desvio de atenção, perpetrando um auto-ataque - revisaram o poema que Gustavot postou em comentário assinado, e a sátira está mais engraçada e menos virulenta porque conhecem profundamente (e interiormente) o poeta que golpeiam agora...

Por sinal, Bearzotti achou de me telefonar alguns dias atrás, e em seu tom de voz melífluo declarou que não era "bocágil" - imagino que ele tenha algum temor de levar uma surra do Thadeu ("bocágil" foi ameaçado fisicamente pelo pseudônimo "boca do purgatório", o que resultou num soneto em tom de "ui, não me bata, por favor") ...

Enfim, descontados a gratuidade e o baixo nível de alguns ataques, até que essa história está rendendo algumas coisas interessantes...

segunda-feira, setembro 29, 2008

Depois duma viagem a Londrina...

Depois duma viagem a Londrina
(fui pro Londrix, festar literatura),
me animo a fazer uso da terzina –

talvez eu ilumine a mina escura
na qual chafurda um “vate” possuído
pela nhaca macaca da chatura.

Tal “vate” se acha o máximo: embebido
nos mucos e melecas do seu ego,
surgiu regurgitando por aqui. Do

pico da sua empáfia expressou: “pego
as fezes que tu fazes, Ivan Justen,
e faço delas peças do meu lego”.

Por mais que tais peçonhas não se ajustem
ao ovo de colombo (um simples tema:
não foi composto a fim de que se assustem),

o “vate” despertou ao som de: “gema”.
E então começa um desafio de verve:
eu, questionando as rimas, o problema

do gol de mão, o ritmo que não serve
no metro de arranjos mal ajambrados,
enquanto o sangue corre, queima, ferve;

e o “vate”, inflando, aprimora os brados,
afia as garras nos meus gumes, sobe
a aposta, cria um blogue. Desdobrados

os comentários, outras vozes sobre
as obras tentam provocar mais briga.
O “vate” atinge um tom que se quer “nobre”,

mostrando até que ponto ele se obriga
em sua “primeira grande resposta” –
pra mim, o desgraçado duma figa

tinha feito assim uma grande bosta.
Com três haicais soltei-lhe um peteleco,
e, em sacrifício, pus minha alma exposta –

fantasma irônico, rimando em eco:
achei sinistro o alerta de soberba,
talvez porque eu também sinta que peco...

A coisa ficou toda mais acerba,
perdi minha paciência com uns danos
a versos pro Batista: pô, que merda!

– são versos que já têm mais de dez anos...
Agora o “vate” investe em dois pseudônimos,
mira Thadeu e Béco: cai de enganos –

fascina-se por elogios anônimos?
Fácil, bem fácil: quer fazer “faxina
em Curitiba” o tonto com os encômios!

Porém, na fúria fútil e assassina
mancha a cidade em vez de celebrá-la,
sucumbe a um sádico prazer, e mina

as próprias fontes, paladino mala!
Vieste aqui celebrar meu enterro,
mas minha voz, mesmo em surto, não cala:

Bocágil, tu és o tolo, teu é o erro:
acuso os golpes – mas naquela terza rima
(à qual reconheceram: obra-prima)

a certa altura a tua voz ficou serena -
e a minha, agora, já largando a forma fixa,
pela emoção que sempre triunfa nas arenas,

propõe-te a trégua das sublimes canções líricas...

segunda-feira, setembro 15, 2008

Outro ovo de colombo

Sim, entenda quando zombo
compondo outro ovo de colombo:

não quebre a casca que o mascara,
lendo como se fosse um poema -

diga que a rima está na clara
e gema.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Diálogo archaico após ler Silveira Neto

- Poeta de nossa grei:
dai uma rima às minhas lágrimas!
- Outrossim, dar-ta-ei,
uma vez que tu consagre-mas...

quarta-feira, agosto 27, 2008

Urgência

urgência de sentir
o que uma pessoa
propriamente
sente

urgência de agir
sem se jogar à toa
e ser um pouco mais
inteligente

consequentemente
ser pelo menos
um protótipo de gente

uma idéia ancestral de gente:

Ur-gente

sexta-feira, agosto 01, 2008

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio...

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
sabe que a linguagem presta pra isso mesmo:
fingir de morto assim feito um cachorro,
ensaiar sinceridade que no fim é só disfarce,
querer falar de tudo e mal extrair
de si um versinho simples.

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
queria versos bons mas se saiu com estes
(podia ter desempenhado melhor, talvez uma quadrinha,
algo do tipo:
"Aqui dentro do meu intrincado crânio
tem um poeta morto que soluça
e age como se beneficiasse urânio
amortizando alguma crise russa.")

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
tenta manter seu blog atualizado
(mas só posterga, esquece, nem dá bola),
não tem passado muito bem disposto,
e solta um uivo quase fraco e mal composto
só porque hoje começou o mês de agosto.

quarta-feira, julho 16, 2008

Amor Plathônico

Aí vai a tradução dum soneto de juvenília da idololizada Sylvia Plath, em homenagem às mulheres - parece que ela conhecia o próprio gênero...

Sonnet : To Eva
Soneto : Para Eva

All right, let's say you could take a skull and break it
The way you'd crack a clock; you'd crush the bone
Between steel palms of inclination, take it,
Observing the wreck of metal and rare stone.
Tá: digamos que desse pra quebrar um crânio
Como se racha um relógio; triturando o osso
Entre palmas de aço inclinadas, pegando-o,
Veríamos metais e jóias em destroço.
This was a woman : her loves and stratagems
Betrayed in mute geometry of broken
Cogs and disks, inane mechanic whims,
And idle coils of jargon yet unspoken.
Isso era uma mulher: paixões e estratagemas
Traídos em muda geometria de discos
E engrenagens, fúteis mecânicas venetas,
Molas de palavrórios ainda não ditos.
Not man nor demigod could put together
The scraps of rusted reverie, the wheels
Of notched tin platitudes concerning weather,
Perfume, politics, and fixed ideals.
Nem homem nem um semideus remontariam
As sobras de sonho oxidado, os maquinismos
De platitudes entalhadas sobre clima,
Perfume, política, sobre ideais fixos.
__The idiot bird leaps up and drunken leans
__To chirp the hour in lunatic thirteens.
__O pássaro idiota pula e bêbado ergue-se
__Pra trinar o horário em lunáticos trezes.

Sylvia Plath
Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 10, 2008

Um erudito?

Bem, aproveitando o gancho do comentário do meu mui prezado amigo William sobre eu ser "sempre preciso na erudição", vou escrever uns dois dedos de prosa aqui (fazia um tempinho que eu não fazia isso) - só pra partilhar dois dos milhares de momentos em que meu mundo caiu:

um foi quando descobri que "em meados do século X" significava "na metade do século X" - não me perguntem por que, mas eu costumava entender que "meados" significava "no início"...

E quando aprendi que o nome do Fellini era "Federico", e não "Frederico"?
Foi um baque abissal. Tive que descobrir também que o Garcia Lorca é outro "Federico", o que é realmente estarrecedor...

São lições de humildade, que também fazem a gente pensar: além da letra "r" nesses nomes, o que mais a gente sempre acreditou que existia e no fim era apenas ilusão?

sexta-feira, julho 04, 2008

Parco poema pinçado praticamente pronto d´O Tempo Redescoberto, de Proust

__o tempo
torna espaçados
__os encontros
e vagas
__as relações

as reminiscências
__raras
fazem imprecisas
__as noções

__há romances
que nos brindam
__com uns versos
que pensamos
__quase bons

pois assim lidas
__em voz alta
às vezes
__as palavras
se descolam
__dos seus sons

terça-feira, junho 24, 2008

Três trastes sinistros

Na falta de palavras, uma imagem de um humorista, um poeta e um jovem inútil, todos extremamente sinistros, ali pelos idos do milênio passado...

segunda-feira, junho 16, 2008

Impromptu pra mais um Bloomsday

Pra achar essas rimas fui ao fun-
do da sintaxe que, Tróia, destrói-se:
mais um dia de Stephen, Molly e Bloom,
palestrando sobre o Ulysses, de Joyce...

sexta-feira, junho 13, 2008

Improviso súbito pra hoje

Qual bom pagão que mal se preze
Me vejo numa dessas vezes:
Me faltam deuses a quem reze
Pra atravessar as sextas 13...

sexta-feira, junho 06, 2008

Vilancete em velho estilo

Vim rimar feito quem não tem escolha –
Porém tentando expressar algo vivo,
Mesmo naquele velho estilo bolha.

Palavras já se espalham pela folha –
Fugi do computador pra este arquivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Não tenho mais em mim quem me recolha
Do rosto que no espelho espia esquivo
Também naquele velho estilo bolha.

O leitor que ainda sou sequer me olha –
Sem crítica o que escrevo sai sem crivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Quem dera, como ao saque duma rolha,
Eu libertasse um vinho criativo
Sem me valer dessa forma zarolha,

E jorrasse de versos todo um livro,
Nutrindo os corações. Mas já não sirvo:
Vim rimar feito quem não tem escolha,
Sempre naquele velho estilo bolha.

terça-feira, junho 03, 2008

Contornando

Acho ótimo quando blogueiros e blogueiras camaradas vêm aqui responder comentários meus por aí: a coisa fica bem confusa, combina com meu atual estado de quebradeira.

No entanto, não gostei que a Nara apagou a postagem do seu pô Ema flaubertiano -

também não entendi o porquê da menção do Giuliano ao Piva, sendo que eu fiquei desolado só pelo emoticon de cara triste (que interpretei como insatisfação quanto à postagem anterior).

Outrossim, eu acho interessante o trabalho do Fausto Fawcett (bem como as loiras que costumam estar ao redor...) -

Fui ver a peça do França no Hotel Del Rey: gostei do desempenho das duas atrizes, que não são mãe e filha por acaso. O texto também é bem engraçado.

Estou com dois poemas quase prontos no subconsciente, mas ainda não escrevi nada, porque não quero forçar a mão (mas deve ser preguiça mesmo, enfim).

Ah, e antes que me esqueça de novo, estou devendo muitas saudações e muitos obrigados ao Renato Quege, que anda replicando alguns versinhos e traduções de minha modesta fatura, além de ter incorporado ao repertório de sua atual banda uma composição que fizemos ali pelos idos de 1912... Fucem por aqui .

E pra Nara eu vou colar uma explicação, aproveitando pra puxar sua orelha: a expressão é "pior a emenda que o soneto":

"A expressão "pior a emenda que o soneto" surgiu por causa do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Ele era tão respeitado que, um belo dia, uma pessoa interessada em ser escritor procurou-o com um soneto. Pediu ao poeta que o lesse com carinho e anotasse os erros. Bocage concordou. No dia seguinte, encontraram-se para conversar. Para surpresa do poeta aprendiz, Bocage não havia anotado nada. Tinha achado o texto tão ruim que nem valia a pena corrigir, porque a emenda seria pior do que o soneto. Se o conselho fez com que o escritor desistisse da carreira, a história não registra. Mas a frase se tornou uma espécie de ditado popular. Se alguma coisa que fazemos não sai exatamente como deveria, nem sempre dar um jeitinho resolve. A emenda pode sair pior do que o soneto."