A Caixa dos Desejos
Agnes Higgins percebeu apenas bem demais a causa da beatífica expressão distraída de seu marido Harold diante dos seus suco de laranja e ovos mexidos matinais.
– Bem, fungou Agnes, espalhando geléia de ameixa na sua torrada com golpes vindicativos de faca, o que você sonhou na noite passada?
– Eu estava só me lembrando, disse Harold, ainda fitando a distância com um olhar extático e impreciso que atravessava diretamente as formas tangíveis e muito atraentes de sua mulher (bochechas rosadas e a loira fofinha de sempre naquela manhã de início de Setembro, em seu peignoir de bolinhas cor-de-rosa), daqueles manuscritos que eu discutia com William Blake.
– Mas, objetou Agnes, tentando com dificuldade esconder sua irritação, como é que você sabia que era William Blake?
Harold pareceu surpreso: – Ora, pelos seus retratos, é claro.
E o que Agnes podia dizer contra isso? Ela se ardia silenciosamente diante de seu café, lutando com o estranho ciúme que vinha crescendo nela como um escuro câncer maligno desde a noite de casamento deles havia apenas três meses quando ela descobrira sobre os sonhos de Harold. Naquela primeira noite de lua-de-mel, durante a madrugada, Harold surpreendeu Agnes dum sono profundo e sem sonhos com uma torção violenta e convulsiva de todo o seu braço direito. Momentaneamente assustada, Agnes sacudira Harold até acordá-lo pra perguntar em carinhosos tons maternais qual era o problema; ela pensou que ele pudesse estar se debatendo nas garras dum pesadelo. Não o Harold.
– Eu estava acabando de começar a tocar o Concerto do Imperador, ele explicou sonolento. Eu devia estar erguendo o braço pro primeiro acorde quando você me acordou.
Agora, no começo de seu casamento, os sonhos vívidos de Harold impressionavam Agnes. Toda manhã ela perguntava a Harold o que ele tinha sonhado durante a noite, e ele lhe contava com detalhes tão ricos como se descrevesse algum significativo evento real.
– Eu estava sendo apresentado num encontro de poetas norte-americanos na Biblioteca do Congresso, ele reportava com gosto. William Carlos Williams estava lá com um grande capote grosso, e aquele que escreve sobre Nantucket, e Robinson Jeffers parecendo um Índio Americano, do jeito que ele está na foto da antologia; e aí o Robert Frost chegou dirigindo um carrinho de salão e disse uma coisa espirituosa que me fez rir. Ou: – Eu vi um belo deserto, todo em tons vermelhos e roxos, com cada grão de areia parecendo um rubi ou uma safira jorrando luz. Um leopardo branco com manchas douradas estava sobre um córrego azul brilhante, as patas traseiras numa margem, as dianteiras na outra, e uma fila de formigas vermelhas cruzava o córrego sobre o leopardo, pela cauda, dorso, entre os olhos, e descendo pelo outro lado.
Os sonhos de Harold não eram nada menos do que meticulosas obras de arte. Inegavelmente, prum contador diplomado com pronunciadas propensões literárias (ele lia E. T. A. Hoffmann, Kafka, e os mensários astrológicos em vez do jornal nas idas de trem ao trabalho), Harold possuía uma imaginação surpreendentemente rápida e colorida. Porém, gradualmente, o hábito peculiar de Harold de aceitar seus sonhos como se fossem realmente uma parte integrante de sua experiência quando acordado começou a enfurecer Agnes. Ela se sentia abandonada. Era como se Harold gastasse um terço de sua vida entre celebridades e fabulosas criaturas lendárias num mundo estimulante do qual Agnes se achava perpetuamente exilada, a não ser de ouvir falar nele.
À medida em que as semanas se passavam, Agnes começou a se remoer. Apesar dela se recusar a contar isso a Harold, seus próprios sonhos, quando ela os tinha (e isso era dolorosamente raro), aterrorizavam-na: paisagens escuras rebrilhando, povoadas com irreconhecíveis figuras ominosas. Ela nunca conseguia se lembrar desses pesadelos em detalhes, mas perdia suas formas na hora mesmo em que lutava por acordar, retendo apenas a sensação aguda de sua atmosfera abafada, carregada de tempestades, sensação opressiva que a assombraria através do dia seguinte. Agnes tinha vergonha de mencionar essas cenas fragmentárias de horror a Harold, por medo que elas refletissem muito desabonadoramente os seus próprios poderes de imaginação. Os sonhos dela – poucos e distantes como quer que fossem – soavam tão prosaicos, tão tediosos em comparação com o majestoso esplendor barroco dos de Harold. Como ela poderia contar pra ele, simplesmente, por exemplo: eu estava caindo, ou: mamãe morreu e eu estava tão triste, ou: alguma coisa me perseguia e eu não conseguia correr? A verdade pura e simples, Agnes percebia com uma fisgada de inveja, era que sua vida de sonho faria o mais dedicado psicanalista se segurar pra não bocejar.
Onde estavam, imaginava Agnes ansiosamente, aqueles férteis dias de infância quando ela acreditava em fadas? Naquela época, pelo menos, o sono dela nunca era sem sonhos nem estes eram chatos e feios. Ela havia sonhado, em seu sétimo ano, como recordava ansiosamente, com uma terra da caixa dos desejos sobre as nuvens onde caixas dos desejos cresciam em árvores, parecendo-se bastante com moedores de café; você escolhia uma caixa, girava a manivela umas nove vezes sussurrando seu desejo no buraquinho do lado da caixa, e o desejo virava realidade. Outra vez, ela sonhara ter descoberto três folhas de grama mágicas crescendo ao lado da caixa de correio no final da sua rua: as folhas brilhavam como fitas metalizadas de presente de Natal, uma vermelha, uma azul e uma prateada. Ainda em outro sonho, ela e seu irmão mais novo Michael estavam de casacos de neve na frente da casa de telhas brancas de Dody Nelson, raízes enroladas de pinheiros serpenteavam pelo solo duro e marrom; ela estava vestindo luvas de lã com listras brancas e vermelhas; e, subitamente, quando ela estendeu uma das mãos em concha, começou a nevar sulfato de chiclete azul turquesa. Mas era praticamente até aí que iam os sonhos que Agnes recordava de seus infinitamente mais criativos dias de infância. Em qual idade aqueles benevolentes mundos pintados de sonho a tinham abandonado? E por causa de quê?
Enquanto isso, infatigavelmente, Harold continuava a recontar seus sonhos no café-da-manhã. Uma vez, numa época depressiva e sombria da vida de Harold antes dele conhecer Agnes, Harold sonhou que uma raposa vermelha corria pela sua cozinha, gravemente queimada, sua pele chamuscada de preto, sangrando com várias feridas. Depois, confidenciou Harold, num período mais auspicioso após seu casamento com Agnes, a raposa vermelha aparecera novamente, miraculosamente curada, com a pelagem florescendo, pra presentear Harold com uma garrafa de tinta preto permanente. Harold tinha uma afeição particular por seus sonhos de raposa; eles recorriam com freqüência. Assim também, notavelmente, acontecia com os sonhos da carpa gigante. – Tinha esse lago, Harold informou Agnes numa manhã abafadiça de Agosto, onde meu primo Albert e eu íamos pescar; era completamente cheio de carpas. Bom, na noite passada eu estava pescando lá, e peguei a carpa mais gigante que você pode imaginar – devia ser a tataravó de todas as outras; eu puxei e puxei e puxei, e ainda assim ela continuava saindo daquele laguinho.
– Uma vez, contra-atacou Agnes, mexendo morosamente o açúcar no seu café preto, quando eu era pequena, sonhei com o Super-Homem, um sonho todo em technicolor. Ele vestia azul, com capa vermelha e cabelo preto, bonito como um príncipe, e eu fui voando com ele pelos ares – eu sentia o vento assobiando, e as lágrimas saindo dos meus olhos. Nós voamos sobre o Alabama; eu sabia que era o Alabama porque a terra parecia um mapa, com as letras maiúsculas de “Alabama” escritas entre aquelas montanhas verdes.
Harold estava visivelmente impressionado. – O que, ele perguntou a Agnes então, você sonhou na noite passada? O tom de Harold era quase contrito: a bem da verdade, sua própria vida de sonho o ocupava tanto que ele honestamente nunca pensara em ser um ouvinte e investigar a de sua mulher. Ele olhava para a bela e preocupada fisionomia dela com novo interesse: Agnes era, como Harold parou para observar talvez pela primeira vez desde seus primeiros dias de casados, uma visão extraordinariamente atraente do outro lado da mesa da cozinha.
Naquele momento, Agnes ficou confusa com a pergunta bem-intencionada de Harold; ela já passara havia muito pelo estágio em que considerara seriamente esconder no seu armário uma cópia dos escritos de Freud sobre sonhos e fortificar-se com uma história substitutiva de sonho com a qual ela prenderia a atenção de Harold a cada manhã. Agora, jogando as reticências ao vento, ela decidira em desespero confessar seu problema.
– Eu não sonho com nada, admitiu Agnes em tons baixos e trágicos. Não mais.
Harold estava obviamente preocupado. – Talvez, consolou ele, você só não use seus poderes de imaginação o suficiente. Você precisa praticar. Tente fechar os olhos.
Agnes fechou os olhos.
– Agora, perguntou Harold esperançosamente, o que você vê?
Agnes entrou em pânico. Ela não via nada. – Nada, tremulou a voz dela. Nada a não ser um tipo de borrão.
– Bem, disse ele com vivacidade, adotando os modos dum médico lidando com uma doença que apesar de angustiante não é necessariamente fatal, imagine uma taça.
– Que tipo de taça? implorou Agnes.
– Isso é com você, disse Harold. Descreva você pra mim.
Com os olhos ainda fechados, Agnes mergulhou loucamente nas profundezas de sua cabeça. Ela conseguiu após grande esforço conjurar brilhando trêmula uma vaga taça prateada que rondava em algum lugar das nebulosas regiões no fundo da sua mente, piscando como se a qualquer momento pudesse apagar-se feito uma vela.
– É prateada, ela disse, quase desafiadoramente. E tem duas alças.
– Ótimo. Agora imagine uma cena gravada na taça.
Agnes forçou uma rena na taça, envolvida com folhas de parreira, gravadas com linhas cruas na prata. – É uma rena numa coroa de folhas de parreira.
– De que cor é a cena? Harold era impiedoso, pensou Agnes.
– Verde, mentiu Agnes, enquanto apressadamente ela esmaltava as folhas de parreira. As folhas de parreira são verdes. E o céu é preto – ela estava quase orgulhosa desse toque original. E a pele da rena tem pintas brancas.
– Certo. Agora faça a taça ficar toda polida com um brilho uniforme.
Agnes poliu a taça imaginária, sentindo-se uma fraude. – Mas está no fundo da minha cabeça, ela disse dubiamente, abrindo os olhos. Eu vejo tudo bem lá no fundo da minha cabeça. É lá que você vê os seus sonhos?
– Não, não é, disse Harold, embaralhado. Eu vejo meus sonhos na frente das minhas pestanas, como numa tela de cinema. Eles apenas surgem; eu não tenho nada com eles. Como agora, ele fechou seus olhos, eu vejo essas coroas brilhantes indo e vindo, penduradas num grande salgueiro.
Agnes silenciou carrancuda.
– Você vai ficar bem, Harold tentou animá-la com um tom jocoso. É só praticar todo dia imaginar coisas diferentes do jeito que eu te ensinei.
Agnes deixou o assunto de lado. Enquanto Harold estava fora no trabalho, ela começou subitamente a ler bastante; a leitura mantinha sua mente cheia de figuras. Atacada por um tipo de histeria voraz, ela percorreu veloz romances, revistas femininas, jornais, e até mesmo as anedotas na sua Alegria de Cozinhar; ela leu folhetos de viagem, circulares de eletrodomésticos, o catálogo da Sears-Roebuck, as instruções em caixas de cereais, os anúncios nas contra-capas de discos – qualquer coisa que evitasse encarar o vazio em sua própria cabeça do qual Harold a tinha feito tão dolorosamente consciente. Mas tão logo ela erguesse os olhos da matéria impressa, era como se um mundo protetor se extinguisse.
A imutável realidade totalmente auto-suficiente das coisas que a envolviam começou a deprimir Agnes. Com um espanto ciumento, seu quase paralisado olhar apavorado absorveu o tapete oriental, o papel de parede azul Williamsburg, os dragões dourados no vaso chinês no aparador, o desenho de medalhões azuis dourados do sofa estofado no qual ela estava sentada. Ela se sentiu engasgada, sufocada por esses objetos cuja bojuda existência pragmática de algum modo ameaçava as mais profundas e secretas raízes de seu próprio efêmero ser. Harold, ela sabia apenas bem demais, não toleraria essa vanglória de absurdos com mesas e cadeiras; se ele não gostasse da cena diante de si, se ela o chateasse, ele a transformaria pra se adequar à sua imaginação. Se nalguma doce alucinação, lamentou Agnes, um polvo viesse pra ela serpenteando pelo chão, com padrões de roxo e laranja nos tentáculos, ela o abençoaria. Qualquer coisa pra provar que seus poderes imaginativos em formação não estivessem irremediavelmente perdidos; que seu olho não era meramente uma lente de câmera que gravava os fenômenos circundantes e os deixava desse jeito. – Uma rosa, ela se descobriu repetindo vaziamente, como uma nênia funeral, é uma rosa é uma rosa....
Uma manhã quando Agnes lia um romance, ela subitamente percebeu pra seu horror que seus olhos tinham passado por quatro páginas sem absorver o significado duma só palavra. Ela tentou de novo, mas as letras se separavam, contorcendo-se como pequenas cobras pretas malevolentes pela página sibilando um jargão intraduzível. Foi então que Agnes começou a freqüentar o cinema da esquina regularmente a cada tarde. Não importava se ela tivesse visto o filme várias vezes anteriormente; o fluido caleidoscópio de formas diante de seus olhos encantava-a num transe ritmado; as vozes, falando nalgum agradável código ininteligível, exorcizavam o silêncio mortal na sua cabeça. Finalmente, por meio de muita adulação, Agnes persuadiu Harold a comprar um aparelho de televisão em prestações. Aquilo era bem melhor que o cinema; ela podia beber licor de cereja enquanto assistia TV durante as longas tardes. Nesses últimos dias, quando Agnes saudava Harold ao retornar a cada noite, ela descobriu, com uma certa satisfação maliciosa, que o rosto dele se borrava diante do olhar dela, de forma que ela podia mudar suas feições conforme quisesse. Às vezes ela lhe dava uma pele verde-ervilha, às vezes lavanda; às vezes um nariz grego, às vezes um bico de águia.
– Mas eu gosto de licor, disse Agnes com teimosia a Harold quando, aparentes que se tornaram as tardes dela bebendo sozinha mesmo aos olhos indulgentes dele, ele pediu pra ela parar. – O licor me relaxa.
O licor, no entanto, não relaxava Agnes o suficiente pra fazê-la dormir. Cruelmente sóbria, gasto o visionário torpor do licor, ela deitava dura, retorcendo os dedos como garras nervosas nos lençóis, muito tempo depois que Harold já respirava pacífica e regularmente, no meio dalguma rara aventura maravilhosa. Com um pânico gelado crescente, Agnes permanecia completamente desperta noite após noite. Pior, ela não se cansava mais. Finalmente, uma consciência soturna e clara do que estava acontecendo apareceu a ela: as cortinas do sono, da escuridão refrescante do esquecimento dividindo cada dia do dia anterior, e do dia posterior, estavam erguidas pra Agnes eterna e irrevogavelmente. Ela vislumbrou uma perspectiva intolerável de dias de vigília sem visões e noites se estendendo inteiras diante dela, sua mente condenada ao perfeito vazio, sem uma única imagem própria pra defendê-la do assalto devastador de mesas e cadeiras esnobes e autônomas. Ela poderia, refletiu Agnes doentiamente, viver até os cem anos: as mulheres na sua família eram todas longevas.
Dr Marcus, o médico da família Higgins, procurou, de maneira jovial, assegurar Agnes sobre suas reclamações de insônia: – Apenas um pouco de tensão nervosa, é só isso. Tome uma dessas cápsulas à noite por um período e veja como você dorme.
Agnes não perguntou ao Dr Marcus se as pílulas lhe dariam sonhos; ela pôs a caixa de cinqüenta pílulas na bolsa e tomou o ônibus pra casa.
Dois dias depois, na última sexta-feira de Setembro, quando Harold voltou do trabalho (ele tinha fechado os olhos durante toda a hora de viagem do trem, fingindo sono mas na realidade viajando num barco de velas cereja sobre um rio luminoso onde elefantes brancos se apinhavam e vagavam sobre a superfície cristalina da água à sombra de minaretes mouros fabricados completamente com vidro multi-colorido), ele encontrou Agnes deitada no sofá da sala, vestida com seu longo preferido de tafetá esmeralda estilo princesa, pálida e adorável como um lírio marrom, olhos fechados, uma caixinha de pílulas vazia e um copo de água virado no tapete ao seu lado. As feições tranqüilas dela estavam paradas num secreto meio-sorriso de triunfo, como se, numa longínqua terra inatingível aos mortais, ela estivesse, finalmente, valsando com o escuro príncipe de capa vermelha dos seus primeiros sonhos.
Sylvia Plath
Ivan Justen Santana
terça-feira, julho 31, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
quinta-feira, julho 12, 2007
Sylvia Plath: a canção
ouça e veja aqui
Sylvia Plath
I wish I had a Sylvia Plath
Busted tooth and a smile
And cigarette ashes in her drink
The kind that goes out and then sleeps for a week
The kind that goes out on her own
To give me a reason, for well, I dunno
Eu queria ter uma Sylvia Plath
dentes estragados e um sorriso
e cinzas de cigarro na sua bebida
o tipo que sai e depois dorme uma vida
o tipo que sai por si só
pra me dar uma razão, sei lá
And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
E talvez ela me levasse pra França
ou pra Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- como eu gostaria de ter uma Sylvia Plath
And she and I would sleep on a boat
And swim in the sea without clothes
With rain falling fast on the sea
While she was swimming away, she'd be winking at me
Telling me it would all be okay
Out on the horizon and fading away
And I'd swim to the boat and I'd laugh
I gotta get me a Sylvia Plath
E eu e ela dormiríamos num barco
e nadaríamos no mar os dois pelados
com a chuva caindo calma no mar
enquanto ela nadasse pra longe, piscando pra mim
me dizendo que tudo estava bem
lá no horizonte e desaparecendo
e eu nadaria pro barco rindo dessa arte
- preciso arranjar pra mim uma Sylvia Plath
And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
I wish I had a Sylvia Plath
E talvez ela me levasse pra França
ou talvez Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- eu gostaria de ter uma Sylvia Plath
Ryan Adams
Ivan Justen Santana
Sylvia Plath
I wish I had a Sylvia Plath
Busted tooth and a smile
And cigarette ashes in her drink
The kind that goes out and then sleeps for a week
The kind that goes out on her own
To give me a reason, for well, I dunno
Eu queria ter uma Sylvia Plath
dentes estragados e um sorriso
e cinzas de cigarro na sua bebida
o tipo que sai e depois dorme uma vida
o tipo que sai por si só
pra me dar uma razão, sei lá
And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
E talvez ela me levasse pra França
ou pra Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- como eu gostaria de ter uma Sylvia Plath
And she and I would sleep on a boat
And swim in the sea without clothes
With rain falling fast on the sea
While she was swimming away, she'd be winking at me
Telling me it would all be okay
Out on the horizon and fading away
And I'd swim to the boat and I'd laugh
I gotta get me a Sylvia Plath
E eu e ela dormiríamos num barco
e nadaríamos no mar os dois pelados
com a chuva caindo calma no mar
enquanto ela nadasse pra longe, piscando pra mim
me dizendo que tudo estava bem
lá no horizonte e desaparecendo
e eu nadaria pro barco rindo dessa arte
- preciso arranjar pra mim uma Sylvia Plath
And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
I wish I had a Sylvia Plath
E talvez ela me levasse pra França
ou talvez Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- eu gostaria de ter uma Sylvia Plath
Ryan Adams
Ivan Justen Santana
terça-feira, julho 10, 2007
terça-feira, junho 26, 2007
Loquax Wonka novamente... E feliz aniversário...

Hoje, no Wonka Bar (ali na Trajano Reis, todo mundo sabe onde), voltarei a atacar com minha eloqüência juvenil, auxiliado pela minha querida banda, os Dublês de Dublin.
Hoje também é aniversário da Zoe: e eu fiz essa postagem com tanto atraso que espero que pelo menos uma alma viva tome conhecimento e apareça lá hoje...
terça-feira, junho 19, 2007
O Sonho, de Henri Rousseau...
Yadwigha dans un beau rêve
s'étant endormie doucement
entendait les sons d'une musette
dont jouait un charmeur bien pensant.
Pendant que la lune reflète
sur les fleurs, les arbres verdoyants,
les fauves serpents prêtent l'oreille
aux airs gais de l'instrument.
s'étant endormie doucement
entendait les sons d'une musette
dont jouait un charmeur bien pensant.
Pendant que la lune reflète
sur les fleurs, les arbres verdoyants,
les fauves serpents prêtent l'oreille
aux airs gais de l'instrument.
Yadwigha em belo sonho
cochilava docemente
escutando os sons da flauta
que tocava um feiticeiro
enquanto a lua refletia
sobre rios e arbustos verdes
as serpentes dando ouvidos
a essas árias tão alegres
versão brasileira: Ivan Justen Santana
quarta-feira, junho 13, 2007
BLOOMSDAY NESTE SÁBADO, NÃO PERDAM! (se perderem não tem perdão...)
Neste dia 16 de junho,
o próximo Sábado,
às 16 horas,
na sede do Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Rua Visconde do Rio Branco, 1717 – fone 3232-8123),
acontecerá a palestra:
Diálogos em torno do Ulysses:
Joyce x Shakespeare - Dalton x Leminski
com o professor de literatura Ivan Justen Santana
(eu mesmo, em pessoa).
Em seguida, apresentação de pré-estréia da dupla curitibana
Dublês de Dublin
executando composições próprias e a folclórica Finnegans Wake , canção que serviu de inspiração para Joyce em seu romance mais radical e inovador.
A entrada é franca e quem estiver presente ganhará de presente o texto original da canção e a magnífica versão brasileira, adubada pelos estapafúrdios e dubilíngües Dubladores dos Dribles (outro dos codinomes desta dupla tão dúbia...)...
o próximo Sábado,
às 16 horas,
na sede do Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Rua Visconde do Rio Branco, 1717 – fone 3232-8123),
acontecerá a palestra:
Diálogos em torno do Ulysses:
Joyce x Shakespeare - Dalton x Leminski
com o professor de literatura Ivan Justen Santana
(eu mesmo, em pessoa).
Em seguida, apresentação de pré-estréia da dupla curitibana
Dublês de Dublin
executando composições próprias e a folclórica Finnegans Wake , canção que serviu de inspiração para Joyce em seu romance mais radical e inovador.
A entrada é franca e quem estiver presente ganhará de presente o texto original da canção e a magnífica versão brasileira, adubada pelos estapafúrdios e dubilíngües Dubladores dos Dribles (outro dos codinomes desta dupla tão dúbia...)...
Faça como Marylin Monroe e leia o Ulysses brincando...
sábado, junho 09, 2007
Nossos Williams são mais Butlers, nossos Yeats muito mais Yeats... Mas gentis como eles são, agradecem a edição...
THE PITY OF LOVE
A PIEDADE DO AMOR
A Pity beyond all telling
Piedade além da verve
Is hid in the heart of Love:
Oculta-se em peito de Amor:
The folk who are buying and selling,
Gente que compra e que vende,
The clouds on their journey above,
Nuvens do vento ao sabor,
The cold wet winds ever blowing,
Ventos soprando pra sempre,
And the shadowy hazel grove
E o sombrio bosque marrom
Where mouse-grey waters are flowing,
Onde as águas cinzas seguem,
Threaten the head that I love.
Ameaçam meu amor.
***
THE SORROW OF LOVE
A TRISTEZA DO AMOR
The brawling of a sparrow in the eaves,
The brilliant moon and all the milky sky,
And all that famous harmony of leaves,
Had blotted out man's image and his cry.
O bulir dum pardal pelas beiradas,
O brilho da lua e o lácteo céu infinito,
E toda a famosa harmonia das floradas,
Mancharam a imagem humana e seu grito.
A girl arose that had red mournful lips
And seemed the greatness of the world in tears,
Doomed like Odysseus and the labouring ships
And proud as Priam murdered with his peers;
Uma garota ergueu-se rubros lábios enlutados
E parecia a grandeza do mundo em lágrimas,
Condenada como Ulisses e os navios danados
E audaz qual Príamo caindo com seus pares;
Arose, and on the instant clamorous eaves,
A climbing moon upon an empty sky,
And all that lamentation of the leaves,
Could but compose man's image and his cry.
Ergueu-se, e presto as clamorosas beiradas,
Uma lua escaladora sobre um céu infinito,
E toda aquela lamentação das floradas,
Não compunham a imagem humana e seu grito.
William Butler Yeats
Ivan Justen Santana
***
Essas duas versões brasileiras de Yeats são dedicadas à admirável Araiê, a qual solicitou-me uma boa tradução do THE SORROW OF LOVE, num comentário bem anterior neste blog.
Ela colocou nesse comentário o texto primitivo do poema, publicado pela primeira vez em 1892 (uma tradução bem ruinzinha dessa primeira versão, mas com notas bem detalhadas, pode ser vista aqui.)
Roman Jakobson dedicou um ensaio inteiro a esse poema de Yeats e as transformações nele operadas. Algo parecido pode ser lido aqui: eu recomendo amplamente...
Nota: agradeço a retificação necessária, porque realmente nenhum Yeats é mais Yeats que o verdadeiro Yeats...
A PIEDADE DO AMOR
A Pity beyond all telling
Piedade além da verve
Is hid in the heart of Love:
Oculta-se em peito de Amor:
The folk who are buying and selling,
Gente que compra e que vende,
The clouds on their journey above,
Nuvens do vento ao sabor,
The cold wet winds ever blowing,
Ventos soprando pra sempre,
And the shadowy hazel grove
E o sombrio bosque marrom
Where mouse-grey waters are flowing,
Onde as águas cinzas seguem,
Threaten the head that I love.
Ameaçam meu amor.
***
THE SORROW OF LOVE
A TRISTEZA DO AMOR
The brawling of a sparrow in the eaves,
The brilliant moon and all the milky sky,
And all that famous harmony of leaves,
Had blotted out man's image and his cry.
O bulir dum pardal pelas beiradas,
O brilho da lua e o lácteo céu infinito,
E toda a famosa harmonia das floradas,
Mancharam a imagem humana e seu grito.
A girl arose that had red mournful lips
And seemed the greatness of the world in tears,
Doomed like Odysseus and the labouring ships
And proud as Priam murdered with his peers;
Uma garota ergueu-se rubros lábios enlutados
E parecia a grandeza do mundo em lágrimas,
Condenada como Ulisses e os navios danados
E audaz qual Príamo caindo com seus pares;
Arose, and on the instant clamorous eaves,
A climbing moon upon an empty sky,
And all that lamentation of the leaves,
Could but compose man's image and his cry.
Ergueu-se, e presto as clamorosas beiradas,
Uma lua escaladora sobre um céu infinito,
E toda aquela lamentação das floradas,
Não compunham a imagem humana e seu grito.
William Butler Yeats
Ivan Justen Santana
***
Essas duas versões brasileiras de Yeats são dedicadas à admirável Araiê, a qual solicitou-me uma boa tradução do THE SORROW OF LOVE, num comentário bem anterior neste blog.
Ela colocou nesse comentário o texto primitivo do poema, publicado pela primeira vez em 1892 (uma tradução bem ruinzinha dessa primeira versão, mas com notas bem detalhadas, pode ser vista aqui.)
Roman Jakobson dedicou um ensaio inteiro a esse poema de Yeats e as transformações nele operadas. Algo parecido pode ser lido aqui: eu recomendo amplamente...
Nota: agradeço a retificação necessária, porque realmente nenhum Yeats é mais Yeats que o verdadeiro Yeats...
segunda-feira, junho 04, 2007
Enquanto a filhinha não vem...
Full Moon and Little Frieda
Lua Cheia e Pequena Frieda
A cool small evening shrunk to a dog bark and the clank of a bucket-
Uma tardinha fria encolheu a um latido de cão e o estalo de um balde-
And you listening.
A spider´s web, tense for the dew´s touch.
A pail lifted, still and brimming - mirror
To tempt a first star to a tremor.
E você escutando.
Uma teia de aranha, tensa com o toque do sereno.
Um vaso erguido, parado e quase transbordando - espelho
A tentar uma primeira estrela a um tremor.
Cows are going home in the lane there, looping the hedges with their warm wreaths of breath-
A dark river of blood, many boulders,
Balancing unspilled milk.
Vacas já vão indo para casa no caminho acolá, circulando as ramagens com suas mornas coroas de bafo-
Um rio escuro de sangue, muito pedregoso,
Equilibrando leite não-derramado.
“Moon!’ you cry suddenly, ‘Moon! Moon!’
– Lua! você grita subitamente: Lua! Lua!
The moon has stepped back like an artist gazing amazed at a work
That points at him amazed.
A lua deu um passo atrás como um artista mirando maravilhado uma obra
Que aponta para ele maravilhada.
Ted Hughes
Versãozinha brasileirinha:
Ivan Justen, o tradutorzinho-problema.
Lua Cheia e Pequena Frieda
A cool small evening shrunk to a dog bark and the clank of a bucket-
Uma tardinha fria encolheu a um latido de cão e o estalo de um balde-
And you listening.
A spider´s web, tense for the dew´s touch.
A pail lifted, still and brimming - mirror
To tempt a first star to a tremor.
E você escutando.
Uma teia de aranha, tensa com o toque do sereno.
Um vaso erguido, parado e quase transbordando - espelho
A tentar uma primeira estrela a um tremor.
Cows are going home in the lane there, looping the hedges with their warm wreaths of breath-
A dark river of blood, many boulders,
Balancing unspilled milk.
Vacas já vão indo para casa no caminho acolá, circulando as ramagens com suas mornas coroas de bafo-
Um rio escuro de sangue, muito pedregoso,
Equilibrando leite não-derramado.
“Moon!’ you cry suddenly, ‘Moon! Moon!’
– Lua! você grita subitamente: Lua! Lua!
The moon has stepped back like an artist gazing amazed at a work
That points at him amazed.
A lua deu um passo atrás como um artista mirando maravilhado uma obra
Que aponta para ele maravilhada.
Ted Hughes
Versãozinha brasileirinha:
Ivan Justen, o tradutorzinho-problema.
terça-feira, maio 29, 2007
Um poema de Robert Desnos
Conte de fée
Il était un grand nombre de fois,
Un homme qui aimait une femme,
Il était un grand nombre de fois,
Une femme qui aimait une homme,
Il était un grand nombre de fois,
Une femme et un homme,
Qui n'aimaient pas celui et celle qui les aimaient,
Il était une seule fois,
Une seule fois peut-être,
Une femme et un homme qui s'aimaient
Conto de Fadas
Era uma porção de vezes,
Um homem que amava uma mulher,
Era uma porção de vezes,
Uma mulher que amava um homem,
Era uma porção de vezes,
Uma mulher e um homem,
Que não amavam aquele e aquela que os amavam,
Era uma só vez,
Uma só vez talvez,
Uma mulher e um homem que se amavam
(versão brasileira: Ivan & Monica)
Il était un grand nombre de fois,
Un homme qui aimait une femme,
Il était un grand nombre de fois,
Une femme qui aimait une homme,
Il était un grand nombre de fois,
Une femme et un homme,
Qui n'aimaient pas celui et celle qui les aimaient,
Il était une seule fois,
Une seule fois peut-être,
Une femme et un homme qui s'aimaient
Conto de Fadas
Era uma porção de vezes,
Um homem que amava uma mulher,
Era uma porção de vezes,
Uma mulher que amava um homem,
Era uma porção de vezes,
Uma mulher e um homem,
Que não amavam aquele e aquela que os amavam,
Era uma só vez,
Uma só vez talvez,
Uma mulher e um homem que se amavam
(versão brasileira: Ivan & Monica)
sexta-feira, maio 18, 2007
DIE INSEL DER SIRENEN
Wenn er denen, die ihm gastlich waren,
spät, nach ihrem Tage noch, da sie
fragten nach den Fahrten und Gefahren,
still berichtete: er wußte nie, wie sie
Nightly, after all their day’s travail,
since his gracious hosts had asked about
his journeys and sojourns, he will regale
them softly with his yarns: and yet without
Quando ai suoi ospiti che domandavano,
alla fine del loro giorno, dei
suoi viaggi sul mare e dei pericoli,
tranquillo raccontava, non sapeva
Quando, atendendo a seus anfitriões,
após o dia inteiro de trabalho, narrava
suas viagens marítimas e tribulações
em voz calma, nem sequer suspeitava
schrecken und mit welchem jähen
Wort sie wenden, daß sie so wie er
in dem blau gestillten Inselmeer
die Vergoldung jener Inseln sähen,
suspecting how they started, and at which
bold word they turned to see, like him, in those
calm, blue island-studded seas how rich
the golden shimmer of that island glows,
mai come spaventarli e quali forti
parole usare perchè come lui
nell'azzurro pacifico arcipelago
vedessero il dorato colore di quell'isole
como apavorá-los, e quais intempestivas
palavras usar para que, como ele viu
naquele tranqüilo arquipélago anil,
também os ofuscasse o dourado das ilhas
deren Anblick macht, daß die Gefahr
umschlägt; denn nun ist sie nicht im Tosen
und im Wüten, wo sie immer war.
Lautlos kommt sie über die Matrosen,
just the sight of which evokes the scent
of danger, well removed from far more common
rage and wrath, where it was often spent.
Soundlessly it overtakes the seamen,
la cui vista fa sì che muti volto
il pericolo, e non è più nel rombo,
non nel tumulto come sempre era;
ma senza suono assale i marinai
cuja mera visão traz novamente
o perigo, e não mais nos repuxos
da fúria em tumulto, como sempre;
mas sem um som toma os marujos
welche wissen, daß es dort auf jenen
goldnen Inseln manchmal singt -,
und sich blindlings in die Ruder lehnen,
wie umringt
who understand that sometimes song will soar
from that golden island’s boundary,
and who apply themselves now to the oars
as though surrounded
i quali sanno che là su quell'isole dorate
qualche volta s'ode un canto,
ed alla cieca premono sui remi,
come accerchiati
que sabem: algumas vezes se ouve
um canto vindo das ilhas douradas -
e se lançam aos remos como se
estivessem cercados
von der Stille, die die ganze Weite
in sich hat und an die Ohren weht,
so als wäre ihre andre Seite
der Gesang, dem keiner widersteht.
by the silence which within holds all
of that expanse, and at their ears insists,
as though its obverse were that very call
which no mere mortal ever can resist.
da quel silenzio che tutto lo spazio
immenso ha in sè e nelle orecchie spira
quasi fosse la faccia opposta del silenzio
il canto cui nessun uomo resiste.
pelo silêncio que no espaço imenso
existe, e nos seus ouvidos insiste,
como se o seu inverso fosse o denso
canto a que nenhum homem resiste.
Rainer Maria Rilke
spät, nach ihrem Tage noch, da sie
fragten nach den Fahrten und Gefahren,
still berichtete: er wußte nie, wie sie
Nightly, after all their day’s travail,
since his gracious hosts had asked about
his journeys and sojourns, he will regale
them softly with his yarns: and yet without
Quando ai suoi ospiti che domandavano,
alla fine del loro giorno, dei
suoi viaggi sul mare e dei pericoli,
tranquillo raccontava, non sapeva
Quando, atendendo a seus anfitriões,
após o dia inteiro de trabalho, narrava
suas viagens marítimas e tribulações
em voz calma, nem sequer suspeitava
schrecken und mit welchem jähen
Wort sie wenden, daß sie so wie er
in dem blau gestillten Inselmeer
die Vergoldung jener Inseln sähen,
suspecting how they started, and at which
bold word they turned to see, like him, in those
calm, blue island-studded seas how rich
the golden shimmer of that island glows,
mai come spaventarli e quali forti
parole usare perchè come lui
nell'azzurro pacifico arcipelago
vedessero il dorato colore di quell'isole
como apavorá-los, e quais intempestivas
palavras usar para que, como ele viu
naquele tranqüilo arquipélago anil,
também os ofuscasse o dourado das ilhas
deren Anblick macht, daß die Gefahr
umschlägt; denn nun ist sie nicht im Tosen
und im Wüten, wo sie immer war.
Lautlos kommt sie über die Matrosen,
just the sight of which evokes the scent
of danger, well removed from far more common
rage and wrath, where it was often spent.
Soundlessly it overtakes the seamen,
la cui vista fa sì che muti volto
il pericolo, e non è più nel rombo,
non nel tumulto come sempre era;
ma senza suono assale i marinai
cuja mera visão traz novamente
o perigo, e não mais nos repuxos
da fúria em tumulto, como sempre;
mas sem um som toma os marujos
welche wissen, daß es dort auf jenen
goldnen Inseln manchmal singt -,
und sich blindlings in die Ruder lehnen,
wie umringt
who understand that sometimes song will soar
from that golden island’s boundary,
and who apply themselves now to the oars
as though surrounded
i quali sanno che là su quell'isole dorate
qualche volta s'ode un canto,
ed alla cieca premono sui remi,
come accerchiati
que sabem: algumas vezes se ouve
um canto vindo das ilhas douradas -
e se lançam aos remos como se
estivessem cercados
von der Stille, die die ganze Weite
in sich hat und an die Ohren weht,
so als wäre ihre andre Seite
der Gesang, dem keiner widersteht.
by the silence which within holds all
of that expanse, and at their ears insists,
as though its obverse were that very call
which no mere mortal ever can resist.
da quel silenzio che tutto lo spazio
immenso ha in sè e nelle orecchie spira
quasi fosse la faccia opposta del silenzio
il canto cui nessun uomo resiste.
pelo silêncio que no espaço imenso
existe, e nos seus ouvidos insiste,
como se o seu inverso fosse o denso
canto a que nenhum homem resiste.
Rainer Maria Rilke
segunda-feira, maio 14, 2007
sexta-feira, maio 11, 2007
Do not go gentle into that good night
Não entre nesta boa noite com brandura
Não entre nesta boa noite com brandura,
A idade deve arder e curtir muito ao fim do dia;
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura.
Os sábios, que ao fim sabem como a noite é escura,
Porque a rede das suas palavras acabou vazia,
Não entram nesta boa noite com brandura.
Os homens bons, ao dar adeus, gritando quão pura-
Mente seus feitos frágeis bailariam em verde baía,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.
Os homens loucos, que cantaram o sol na captura,
E aprendem tarde: só o lamentavam em sua via,
Não entram nesta boa noite com brandura.
Os homens graves, à morte, vendo com cega finura
Que feito um meteoro o olho cego brilharia,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.
E você, meu pai, aí da sua triste altura,
Clame, abençoe irado em lágrimas esta prece arredia.
Não entre nesta boa noite com brandura.
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura.
Dylan Thomas
Traduzido por Ivan Justen Santana
Não entre nesta boa noite com brandura,
A idade deve arder e curtir muito ao fim do dia;
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura.
Os sábios, que ao fim sabem como a noite é escura,
Porque a rede das suas palavras acabou vazia,
Não entram nesta boa noite com brandura.
Os homens bons, ao dar adeus, gritando quão pura-
Mente seus feitos frágeis bailariam em verde baía,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.
Os homens loucos, que cantaram o sol na captura,
E aprendem tarde: só o lamentavam em sua via,
Não entram nesta boa noite com brandura.
Os homens graves, à morte, vendo com cega finura
Que feito um meteoro o olho cego brilharia,
Rugem, rugem contra a luz que morre e não fulgura.
E você, meu pai, aí da sua triste altura,
Clame, abençoe irado em lágrimas esta prece arredia.
Não entre nesta boa noite com brandura.
Ruja, ruja contra a luz que morre e não fulgura.
Dylan Thomas
Traduzido por Ivan Justen Santana
segunda-feira, maio 07, 2007
anyone lived in a pretty how town
qualquerum vivia numa cidade bem qual
qualquerum vivia numa cidade bem qual
(com tão flutuantes muitos sinos acima e tal)
primavera verão outono inverno
ele cantava seus nãos ele dançava seus sins.
Mulheres e homens(os pequenos e os menos)
ligavam pra qualquerum um nada e menos
eles semeavam seus nens eles colhiam seus mesmos
sol lua estrelas chuva
crianças desconfiavam(mas poucas seriam
e abaixo esqueciam enquanto acima cresciam
outono inverno primavera verão)
que nenhuma o amava mais por mais
quando por ora e árvore por folha
ela ria sua alegria ela chorava sua tristeza
pássaro por neve e chocalho por leve
o qualquer de qualquerum era tudo pra ela
alguéns casaram seus todomundos
riram seus choros e fizeram sua dança
(sono vigília esperança e então)eles
disseram seus nuncas eles dormiram seu sonho
(estrelas chuva lua sol
e somente a neve começaria a explicar
como as crianças sabem se esquecer de lembrar
com tão flutuantes muitos sinos acima e tal)
um dia qualquerum morreu eu acho
(e nenhuma dobrou-se para beijar seu rosto)
pessoas ocupadas os enterraram lado a lado
pouco por pouco e foi por foi
todos por todos e fundo por fundo
e mais por mais eles sonharam seu sono
nenhuma e qualquerum terra por abril
desejo por espírito e se por sim.
Mulheres e homens(ambos dom e dim)
verão outono inverno primavera
colheram sua semeadura e foram seu vieram
lua sol estrelas chuva
e.e.cummings
i.j.santana
...
segunda-feira, abril 16, 2007
Assim não fica mais fácil?
Ariadne was wandering distraught along the lonely wave-beaten shores of Naxos.
Scarce had sleep departed from her eyes, and she wore but an airy shift;
her feet were bare and her fair tresses were blowing about her shoulders.
To the heedless billows she was crying wildly for her Theseus,
and tears flowed in torrents down her cheeks.
She cried aloud and wept at the same time.
But both enhanced her beauty.
"Oh, the faithless one," she cried, beating her tender bosom again and again,
"he has abandoned me. Oh, what will become of me! What will be my fate!"
She spake. And on a sudden, drums and cymbals
beaten and tossed by frenzied hands resounded along the shore.
Stricken with terror, she fell gasping out a few broken words,
and the blood faded from her lifeless corpse.
But lo, the Mænads, with their hair floating wildly out behind them,
and the light-footed Satyrs, the rout that leads the procession of Apollo,
came upon the scene. Behold, old Silenus, reeling-ripe as usual,
who can scarce keep his seat on the ass that staggers beneath the heavy burden.
He pursues the Mænads, who flee from him and mock him as they flee,
and as he belabours his long-eared beast with his staff,
the unskilful cavalier tumbles head-foremost from his steed.
And all the Satyrs shout, "Up with you, old man Silenus, up with you again!"
Meanwhile from his lofty chariot with vine branches all bedecked,
the god, handling the golden reins, drives on his team of tigers.
The girl, in losing Theseus, had lost her colour and her voice.
Thrice she attempted flight, thrice did fear paralyse her steps;
she shuddered, she trembled like the tapering stem or the slender reed that sways at the slightest breath.
"Banish all thy fears," cried the god. "In me thou findest a tenderer, more faithful lover than Theseus. Daughter of Minos, thou shalt be the bride of Bacchus. Thy guerdon shall be a dwelling in the sky; thou shalt be a new star and thy bright diadem shall be a guide to the pilot uncertain of his course." So saying he leapt from his chariot lest his tigers should affright her. The sand yielded beneath his feet. Clasping to his breast the swooning, unresisting girl, he bore her away. For a god may do as he wills, and who shall say him nay.
http://www.sacred-texts.com/cla/ovid/lboo/lboo58.htm
Scarce had sleep departed from her eyes, and she wore but an airy shift;
her feet were bare and her fair tresses were blowing about her shoulders.
To the heedless billows she was crying wildly for her Theseus,
and tears flowed in torrents down her cheeks.
She cried aloud and wept at the same time.
But both enhanced her beauty.
"Oh, the faithless one," she cried, beating her tender bosom again and again,
"he has abandoned me. Oh, what will become of me! What will be my fate!"
She spake. And on a sudden, drums and cymbals
beaten and tossed by frenzied hands resounded along the shore.
Stricken with terror, she fell gasping out a few broken words,
and the blood faded from her lifeless corpse.
But lo, the Mænads, with their hair floating wildly out behind them,
and the light-footed Satyrs, the rout that leads the procession of Apollo,
came upon the scene. Behold, old Silenus, reeling-ripe as usual,
who can scarce keep his seat on the ass that staggers beneath the heavy burden.
He pursues the Mænads, who flee from him and mock him as they flee,
and as he belabours his long-eared beast with his staff,
the unskilful cavalier tumbles head-foremost from his steed.
And all the Satyrs shout, "Up with you, old man Silenus, up with you again!"
Meanwhile from his lofty chariot with vine branches all bedecked,
the god, handling the golden reins, drives on his team of tigers.
The girl, in losing Theseus, had lost her colour and her voice.
Thrice she attempted flight, thrice did fear paralyse her steps;
she shuddered, she trembled like the tapering stem or the slender reed that sways at the slightest breath.
"Banish all thy fears," cried the god. "In me thou findest a tenderer, more faithful lover than Theseus. Daughter of Minos, thou shalt be the bride of Bacchus. Thy guerdon shall be a dwelling in the sky; thou shalt be a new star and thy bright diadem shall be a guide to the pilot uncertain of his course." So saying he leapt from his chariot lest his tigers should affright her. The sand yielded beneath his feet. Clasping to his breast the swooning, unresisting girl, he bore her away. For a god may do as he wills, and who shall say him nay.
http://www.sacred-texts.com/cla/ovid/lboo/lboo58.htm
quarta-feira, abril 11, 2007
quinta-feira, abril 05, 2007
A imagem é a única pista: decifre o texto e indique autor e obra, se for capaz...
CNOSIS.IN.IGNOTIS.AMENS.ERRABAT.ARENISQVA.BREVIS.AEQVOREIS.DIA.FERITVR.AQVIS
VIQVE.ERAT.E SOMNO.TVNICA.VELATA.RECINCTA
NVDA.PEDEM.CROCEAS.IRRELIGATA.COMAS
THESEA.CRVDELEM.SVRDAS.CLAMABAT.AD.VNDAS
INDIGNO.TENERAS.IMBRE.RIGANTE.GENAS
CLAMABAT.FLEBATQVE.SIMVL.SED.VTRVMQVE.DECEBAT
NON.FACTA.EST.LACRIMIS.TVRPIOR.ILLA.SVIS
IAMQVE.ITERVM.TVNDENS.MOLISSIMA.PECTORA.PALMIS
PERFIDVS.ILLE.ABIIT.QVID.MIHI.FIET.AIT
QVID.MIHI.FIET.AIT.SONVERVNT.CYMBALA.TOTO
LITORE.ET.ATTONITA.TYMPANA.PVLSA.MANV
EXCIDIT.ILLA.METV.RVPITQVE.NOVISSIMA.VERBA
NVLLVS.IN.EXANIMI.CORPORE.SANGVIS.ERAT
ECCE.MIMALLONIDES.SPARSIS.IN.TERGA.CAPILLIS
ECCE.LEVES.SATYRI.PRAEVIA.TURBA.DEI
EBRIVS.ECCE.SENEX.PANDO.SILENVS.ASELLO
VIX.SEDET.ET.PRESSAS.CONTINET.ARTE.IVBAS
DVM.SEQVITVR.BACCHAS.BACCHAE.FVGIVNTQVE.PETVNTQVE
QVADRVPEDEM.FERVLA.DVM.MALVS.VRGET.EQVES
INCAPVT.AVRITO.CECIDIT.DELAPSVS.ASELLO
CLAMARVNT.SATYRI.SVRGE.AGE.SVRGE.PATER
IAM.DEVS.IN.CVRRV.QVEM.SVMMVM.TEXERAT.VVIS
TIGRIBVS.ADIVNCTIS.AVREA.LORA.DABAT
ET.COLOR.ET.THESEVS.ET.VOX.ABIERE.PVELLAE
TERQVE.FVGAM.PETIIT.TERQVE.RETENTA.METV.EST
HORRVIT.VT.STERILES.AGITAT.QVAS.VENTVS.ARISTAS
VT.LEVIS.IN.MADIDA.CANNA.PALVDE.TREMIT
CVI.DEVS.EM.ADSVM.TIBI.CVRA.FIDELIOR.INQVIT
PONE METVM.BACCHI.GNOSIAS.UXOR.ERIS
MVNVS.HABE.CAELVM.CAELO.SPECTABERE.SIDVS
SAEPE.REGET.DVBIAM.CRESSA.CORONA.RATEM
DIXIT.ET.E.CVRRV.NE.TIGRES.ILLA.TIMERET
DEISILIT.IMPOSITO.CESSIT.ARENA.PEDE
IMPLICITANQVE.SINU.NEQVE.ENIM.PVGNARE.VALEBAT
ABSTVLIT.IN.FACILI.EST.OMNIA.POSSE.DEO
segunda-feira, abril 02, 2007
Tradução de hoje
Quando o Homem Entra na Mulher
Anne Sexton
Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a costa,
de novo e de novo,
e a mulher abre a boca de prazer
e seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó
para que assim
nunca mais estejam separados
e a mulher
trepa numa flor
e engole seu talo
e Logos aparece
e desencadeia seus rios.
Este homem,
esta mulher
com sua dupla fome,
têm procurado penetrar
a cortina de Deus
e conseguem brevemente,
embora Deus, sem dó,
em Sua perversidade
desate o nó.
Casal Tradutor:
Ivan Justen Santana & Priscila Manhães
Anne Sexton
Quando o homem
entra na mulher,
como a onda mordendo a costa,
de novo e de novo,
e a mulher abre a boca de prazer
e seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó
para que assim
nunca mais estejam separados
e a mulher
trepa numa flor
e engole seu talo
e Logos aparece
e desencadeia seus rios.
Este homem,
esta mulher
com sua dupla fome,
têm procurado penetrar
a cortina de Deus
e conseguem brevemente,
embora Deus, sem dó,
em Sua perversidade
desate o nó.
Casal Tradutor:
Ivan Justen Santana & Priscila Manhães
sexta-feira, março 30, 2007
Ao Francisco Cardoso
Aqui vai um poema feito num boteco de subúrbio, bebendo vinho barato.
Eu tinha perdido o papel, aí reconstruí o poema
(ficou diferente, mas bem igualzinho):
foi mal aí, Chico.
A promessa está na jura.
Toda cor no chifre atesta.
Saci cisca e Sara cura.
Jacaré mais sapo é festa.
Boitatá não sai na capa.
Curupira não galopa.
Toupeira não tem caçapa
Mas se der mole ela topa.
Ivan
Francisco
Eu tinha perdido o papel, aí reconstruí o poema
(ficou diferente, mas bem igualzinho):
foi mal aí, Chico.
A promessa está na jura.
Toda cor no chifre atesta.
Saci cisca e Sara cura.
Jacaré mais sapo é festa.
Boitatá não sai na capa.
Curupira não galopa.
Toupeira não tem caçapa
Mas se der mole ela topa.
Ivan
Francisco
sexta-feira, março 23, 2007
A um passo do nunca mais: o sétimo e último, no qual Ivan publica sua tradução do poema de Valéry, aguardando comentários e pedradas...
OS PASSOS
Teus passos, crianças de meu silêncio,
Santamente, lentamente dados,
Ao leito da minha vigilância
Seguem calados e enregelados.
Feito ninguém, qual sombra divina,
Como são doces teus passos-luz!
Céus!... Todos os dons que a alma adivinha
Vêm vindo a mim sobre esses pés nus!
Se com teus lábios, tão saliente,
Preparas tu, para apaziguar,
Ao habitante da minha mente
A nutrição que contém beijar,
Refreia os passos de ação tão terna,
Dulçor de ser e não ser mais (passos),
Pois sigo vivo só à vossa espera,
Meu coração sendo os vossos passos.
Tradutor Passista: Ivan Justen Santana
Teus passos, crianças de meu silêncio,
Santamente, lentamente dados,
Ao leito da minha vigilância
Seguem calados e enregelados.
Feito ninguém, qual sombra divina,
Como são doces teus passos-luz!
Céus!... Todos os dons que a alma adivinha
Vêm vindo a mim sobre esses pés nus!
Se com teus lábios, tão saliente,
Preparas tu, para apaziguar,
Ao habitante da minha mente
A nutrição que contém beijar,
Refreia os passos de ação tão terna,
Dulçor de ser e não ser mais (passos),
Pois sigo vivo só à vossa espera,
Meu coração sendo os vossos passos.
Tradutor Passista: Ivan Justen Santana
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