segunda-feira, janeiro 19, 2009

Um pouso forçado em Eldorado, pensando em Poe, graças ao Pozzo...

Pois é: se não fosse o meu prezado amigo Ricardo Pozzo,
eu nem ia esboçar qualquer tchuns sobre a data de hoje:

Edgar Allan Poe assopra duzentas velinhas -
(*Boston, 19/01/1809 – †Baltimore, 07/10/1849)

então dedico ao Pozzo, que por meio de e-mail me alertou
(e a seus outros amigos) para essa fantástica efeméride,
a versão brasileira que acabei de perpetrar do pelágico poema

ELDORADO
ELDORADO

__Gaily bedight,
__A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
__Had journeyed long,
__Singing a song,
In search of Eldorado.
Trajado galhardamente,
Um cavaleiro galante,
Sob sombra e sol saturado,
Viajara um estirão,
A cantar uma canção,
À procura do Eldorado.

__But he grew old–
__This knight so bold–
And o'er his heart a shadow
__Fell as he found
__No spot of ground
That looked like Eldorado.
Porém ele envelheceu –
Com orgulho todo seu –
Seu coração conturbado
Mergulhou em densa treva
Por não ver traço de terra
Semelhante ao Eldorado.

__And, as his strength
__Failed him at length,
He met a pilgrim shadow–
__"Shadow," said he,
__"Where can it be–
This land of Eldorado?"
Quase exausto em sua sina,
Topou sombra peregrina
Que estacou ao seu chamado –
"Sombra," indaga o cavaleiro,
"Como chego ao verdadeiro
Território do Eldorado?"

__"Over the Mountains
__Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
__Ride, boldly ride,"
__The shade replied,–
"If you seek for Eldorado!"
"Sobre as Montanhas da Lua,
Que subir não se insinua,
Descerás Vale Assombrado:
Cavalga com ousadia,"
Disse a sombra fugidia,–
"Se tu buscas o Eldorado!"

Edgar Allan Poe
Ivan Justen Santana

terça-feira, janeiro 06, 2009

Este dia seis é dia de reis e já faz mais de um mês que... enfim, eis um presente pra vocês:

A COISA MAIS COMPLICADA DO MUNDO

A coisa mais complicada do mundo
é um verso simplissimamente simples:
o paralelo século e segundo
a separar alguma rima assim, impres-
sionante, ante tamanha má vontade
da minha parte com a eternidade.

Tá: a teta do cacófato foi feia,
mas mesmo o bom Camões em alma minha
gentil partiu o peito e abriu a veia
pra não deixar a lira ali sozinha –
e aqui saiu outro poema torto, tonto:
se alguém se importa eu nem me importo e pronto.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Dia 33

Hoje é o dia 33 de nenhuma postagem por aqui -
assim, relaxe,
capriche,
despache
e se espiche:

hoje eu quis postar tudo aquilo que despercebi -
quis fazer uma cançãozinha
que fluísse lírica por uma só linha,
mas vazaram essas duas estrofes irregulares -
portanto, sem mais, desovo a velha rima final
antes que o impulso de postar vá pelos ares.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Outubro acabando

Não são só todas as festas de ontem
que você já perdeu e fim de conversa,
não é só a sua inteligência
virando indigência,
nem apenas o amor que você quer
e precisa sentir e não sente,
ou o advérbio dementemente
que ocorreu agora, por inadvertência -
não é só a sua falta de comando
de qualquer rima chegando em bando:
além disso tudo
é o mês de outubro
que sem escrúpulo está acabando.

sábado, outubro 25, 2008

Surto crítico, de novo...

Vencendo a preguiça, vou ensaiar rapidamente uma retomada do surto crítico anterior:

o blog de bocágil foi retirado (ou retirou-se) da blogosfera - por mais que eu também não concorde com censuras (vide o protesto feito pelo Thadeu), havia naquele blog, além de ofensas pessoais de péssimo gosto, um grande abuso:

o uso de poemas alheios, na falta de réplicas aos seus golpes baixos -

gostaria de assinalar aqui que este "bocágil" chegou aqui com seu primeiro ataque (um soneto em estilo "olha só, mamãe, eu sei fazer soneto") chamando os leitores dos meus poemas de "leitões", e logo após baixou um pouco o tom raivoso, provavelmente porque o elogiei na primeira resposta de bate-pronto que escrevi -

assim, podemos calcular que o que o vate "bocágil" precisava era apenas de elogios ao seu ego inseguro de poeta neófito -

portanto, deixo aqui para bocágil o famoso "elogio do vate", que já recebi, e que faz bem a todos os vates iniciantes:

bocágil, vá te f****!

sexta-feira, outubro 17, 2008

Agia na minha alma algum antídoto

Enquanto eu prosseguia quase cego
rolando rimas sempre verso acima,
agia na minha alma algum antídoto
ao metro martelado, decassílabo,
e, sim, uma canção mais livre se formava,
correndo quente,
mais quente que o magma,
numa gama assim mais difusa de cores,
com o ânimo espontâneo
que os amigos às vezes trazem -
e nesse encantamento de verdade
seguindo um ritmo simples e sincero
ficou cifrado aqui um registro daquela
que me inspirava e continua a me inspirar:

agia na minha alma alguém
roland amor a me levar além...

domingo, outubro 12, 2008

Surtado em fase crítica

Não se assustem: um título melhor pra esta postagem seria "breve surto da minha visão de crítico" -

o advento de um pseudônimo (bocágil) na blogosfera provocou situações que até têm interesse e certa graça, mas vejo que foi atravessada uma fronteira para o lamentável -

a(s) criatura(s), quem quer que sejam - enfim, quem manipula este blog do pseudônimo está promovendo ataques gratuitos a poetas do cenário cultural curitibano - e o que foi feito à Luci Colin ultrapassou de longe os limites aceitáveis, transpirando covardia e péssimos sentimentos...

É difícil mesmo atingir uma visão equilibrada sobre as artes produzidas em Curitiba e no Paraná, já que são mais frequentes as visões de extremos: e normalmente o senso que prevalece, pelo menos na superfície, é o de que tudo aqui é uma porcaria -

pra mim, de positivo a respeito desse "advento do bocágil" (que na confusão tem gente que chega a atribuir a mim e [ou] ao Thadeu) foi a reação do Rodrigo Madeira (poeta que conheci e com quem conversei brevemente já faz uns dois anos) -

ele postou um soneto que não devia passar despercebido (está lá no fim dos comentários da postagem do ovo de colombo) - e o que o Madeira quer dizer ali também já me passou pela cabeça:

por que um "poeta" (bocágil) volta-se contra seus próprios pares, em vez de usar sua boca satírica pra versar sobre problemas de verdade?

Agradeço ao Rodrigo também pelo comentário da postagem anterior -
nesta, um poema longo e ingênuo, arrematei com um apelo de trégua ao "poeta bocágil", para que passasse a escrever "sublimes canções líricas" -

a resposta a isso lá no pseudoblog (estou linkando de novo, mas com certo desagrado e nojo, aquele ambiente agora me provoca repugnância) acabou sendo o já mencionado ataque a uma excelente escritora curitibana - um golpe baixo, que não mereceria muito mais que desprezo.

Pra mim, é importante ainda destacar:

o ataque ao Thadeu, na verdade, foi respondido por outro(s) poeta(s) anônimo(s), enquanto o próprio continua "tirando ouro do nariz" lá no blog dele -

que na "segunda grande resposta", além de mostrar que não sabe soletrar o nome do Leminski, o "bocágil" considera careta uma geração de poetas que tem grande valor, na qual se destaca o Marcos Prado, gênio sim (quem duvida, que leia Ultralyrics, e também O Livro de poemas de Marcos Prado) -

que, apesar de me sentir meio culpado nessa história (o "cara" veio me atacar aqui e acabou criando o seu "polêmico" [blérgt...] blog graças à atenção e às respostas com que brindei seus versinhos sujismundos), pelo menos considero que há uma agitação sobre a poesia paranaense agora, e (continuo um pouco ingênuo sim) isso pode ter boas consequências, como é o caso da interferência do Rodrigo Madeira - se bem que não considero suficiente o arremate do seu soneto: ficou meio pessimista, e achei de gosto suspeito a comparação de poetas com chacretes...

Deixo ainda um alô ao Cláudio Bettega, que fez sua saudação aqui também, e ao Alexandre França (que deve ter sido o autor do comentário mandando "Abrax") -

E, finalmente, depois deste surto crítico, registro que continuo devendo "sublimes canções líricas" à "misteriosa" G., a qual acabou também me aplicando uma satirazinha "animadora", e merece mesmo poemas que realmente valham a pena (e o teclado também...)...


Post Digitatum: "bocágil" postou agora um ataque ao Gustavot (de quem já ouvi falar, tendo visto no Wonka um trecho duma sua peça de teatro, que considerei um trabalho poético muito bem feito) -

até onde pude perceber, os autores do blog-bocágil, Bearzotti e Gustavot, executaram um desvio de atenção, perpetrando um auto-ataque - revisaram o poema que Gustavot postou em comentário assinado, e a sátira está mais engraçada e menos virulenta porque conhecem profundamente (e interiormente) o poeta que golpeiam agora...

Por sinal, Bearzotti achou de me telefonar alguns dias atrás, e em seu tom de voz melífluo declarou que não era "bocágil" - imagino que ele tenha algum temor de levar uma surra do Thadeu ("bocágil" foi ameaçado fisicamente pelo pseudônimo "boca do purgatório", o que resultou num soneto em tom de "ui, não me bata, por favor") ...

Enfim, descontados a gratuidade e o baixo nível de alguns ataques, até que essa história está rendendo algumas coisas interessantes...

segunda-feira, setembro 29, 2008

Depois duma viagem a Londrina...

Depois duma viagem a Londrina
(fui pro Londrix, festar literatura),
me animo a fazer uso da terzina –

talvez eu ilumine a mina escura
na qual chafurda um “vate” possuído
pela nhaca macaca da chatura.

Tal “vate” se acha o máximo: embebido
nos mucos e melecas do seu ego,
surgiu regurgitando por aqui. Do

pico da sua empáfia expressou: “pego
as fezes que tu fazes, Ivan Justen,
e faço delas peças do meu lego”.

Por mais que tais peçonhas não se ajustem
ao ovo de colombo (um simples tema:
não foi composto a fim de que se assustem),

o “vate” despertou ao som de: “gema”.
E então começa um desafio de verve:
eu, questionando as rimas, o problema

do gol de mão, o ritmo que não serve
no metro de arranjos mal ajambrados,
enquanto o sangue corre, queima, ferve;

e o “vate”, inflando, aprimora os brados,
afia as garras nos meus gumes, sobe
a aposta, cria um blogue. Desdobrados

os comentários, outras vozes sobre
as obras tentam provocar mais briga.
O “vate” atinge um tom que se quer “nobre”,

mostrando até que ponto ele se obriga
em sua “primeira grande resposta” –
pra mim, o desgraçado duma figa

tinha feito assim uma grande bosta.
Com três haicais soltei-lhe um peteleco,
e, em sacrifício, pus minha alma exposta –

fantasma irônico, rimando em eco:
achei sinistro o alerta de soberba,
talvez porque eu também sinta que peco...

A coisa ficou toda mais acerba,
perdi minha paciência com uns danos
a versos pro Batista: pô, que merda!

– são versos que já têm mais de dez anos...
Agora o “vate” investe em dois pseudônimos,
mira Thadeu e Béco: cai de enganos –

fascina-se por elogios anônimos?
Fácil, bem fácil: quer fazer “faxina
em Curitiba” o tonto com os encômios!

Porém, na fúria fútil e assassina
mancha a cidade em vez de celebrá-la,
sucumbe a um sádico prazer, e mina

as próprias fontes, paladino mala!
Vieste aqui celebrar meu enterro,
mas minha voz, mesmo em surto, não cala:

Bocágil, tu és o tolo, teu é o erro:
acuso os golpes – mas naquela terza rima
(à qual reconheceram: obra-prima)

a certa altura a tua voz ficou serena -
e a minha, agora, já largando a forma fixa,
pela emoção que sempre triunfa nas arenas,

propõe-te a trégua das sublimes canções líricas...

segunda-feira, setembro 15, 2008

Outro ovo de colombo

Sim, entenda quando zombo
compondo outro ovo de colombo:

não quebre a casca que o mascara,
lendo como se fosse um poema -

diga que a rima está na clara
e gema.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Diálogo archaico após ler Silveira Neto

- Poeta de nossa grei:
dai uma rima às minhas lágrimas!
- Outrossim, dar-ta-ei,
uma vez que tu consagre-mas...

quarta-feira, agosto 27, 2008

Urgência

urgência de sentir
o que uma pessoa
propriamente
sente

urgência de agir
sem se jogar à toa
e ser um pouco mais
inteligente

consequentemente
ser pelo menos
um protótipo de gente

uma idéia ancestral de gente:

Ur-gente

sexta-feira, agosto 01, 2008

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio...

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
sabe que a linguagem presta pra isso mesmo:
fingir de morto assim feito um cachorro,
ensaiar sinceridade que no fim é só disfarce,
querer falar de tudo e mal extrair
de si um versinho simples.

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
queria versos bons mas se saiu com estes
(podia ter desempenhado melhor, talvez uma quadrinha,
algo do tipo:
"Aqui dentro do meu intrincado crânio
tem um poeta morto que soluça
e age como se beneficiasse urânio
amortizando alguma crise russa.")

O poeta morto dentro do meu intrincado crânio
tenta manter seu blog atualizado
(mas só posterga, esquece, nem dá bola),
não tem passado muito bem disposto,
e solta um uivo quase fraco e mal composto
só porque hoje começou o mês de agosto.

quarta-feira, julho 16, 2008

Amor Plathônico

Aí vai a tradução dum soneto de juvenília da idololizada Sylvia Plath, em homenagem às mulheres - parece que ela conhecia o próprio gênero...

Sonnet : To Eva
Soneto : Para Eva

All right, let's say you could take a skull and break it
The way you'd crack a clock; you'd crush the bone
Between steel palms of inclination, take it,
Observing the wreck of metal and rare stone.
Tá: digamos que desse pra quebrar um crânio
Como se racha um relógio; triturando o osso
Entre palmas de aço inclinadas, pegando-o,
Veríamos metais e jóias em destroço.
This was a woman : her loves and stratagems
Betrayed in mute geometry of broken
Cogs and disks, inane mechanic whims,
And idle coils of jargon yet unspoken.
Isso era uma mulher: paixões e estratagemas
Traídos em muda geometria de discos
E engrenagens, fúteis mecânicas venetas,
Molas de palavrórios ainda não ditos.
Not man nor demigod could put together
The scraps of rusted reverie, the wheels
Of notched tin platitudes concerning weather,
Perfume, politics, and fixed ideals.
Nem homem nem um semideus remontariam
As sobras de sonho oxidado, os maquinismos
De platitudes entalhadas sobre clima,
Perfume, política, sobre ideais fixos.
__The idiot bird leaps up and drunken leans
__To chirp the hour in lunatic thirteens.
__O pássaro idiota pula e bêbado ergue-se
__Pra trinar o horário em lunáticos trezes.

Sylvia Plath
Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 10, 2008

Um erudito?

Bem, aproveitando o gancho do comentário do meu mui prezado amigo William sobre eu ser "sempre preciso na erudição", vou escrever uns dois dedos de prosa aqui (fazia um tempinho que eu não fazia isso) - só pra partilhar dois dos milhares de momentos em que meu mundo caiu:

um foi quando descobri que "em meados do século X" significava "na metade do século X" - não me perguntem por que, mas eu costumava entender que "meados" significava "no início"...

E quando aprendi que o nome do Fellini era "Federico", e não "Frederico"?
Foi um baque abissal. Tive que descobrir também que o Garcia Lorca é outro "Federico", o que é realmente estarrecedor...

São lições de humildade, que também fazem a gente pensar: além da letra "r" nesses nomes, o que mais a gente sempre acreditou que existia e no fim era apenas ilusão?

sexta-feira, julho 04, 2008

Parco poema pinçado praticamente pronto d´O Tempo Redescoberto, de Proust

__o tempo
torna espaçados
__os encontros
e vagas
__as relações

as reminiscências
__raras
fazem imprecisas
__as noções

__há romances
que nos brindam
__com uns versos
que pensamos
__quase bons

pois assim lidas
__em voz alta
às vezes
__as palavras
se descolam
__dos seus sons

terça-feira, junho 24, 2008

Três trastes sinistros

Na falta de palavras, uma imagem de um humorista, um poeta e um jovem inútil, todos extremamente sinistros, ali pelos idos do milênio passado...

segunda-feira, junho 16, 2008

Impromptu pra mais um Bloomsday

Pra achar essas rimas fui ao fun-
do da sintaxe que, Tróia, destrói-se:
mais um dia de Stephen, Molly e Bloom,
palestrando sobre o Ulysses, de Joyce...

sexta-feira, junho 13, 2008

Improviso súbito pra hoje

Qual bom pagão que mal se preze
Me vejo numa dessas vezes:
Me faltam deuses a quem reze
Pra atravessar as sextas 13...

sexta-feira, junho 06, 2008

Vilancete em velho estilo

Vim rimar feito quem não tem escolha –
Porém tentando expressar algo vivo,
Mesmo naquele velho estilo bolha.

Palavras já se espalham pela folha –
Fugi do computador pra este arquivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Não tenho mais em mim quem me recolha
Do rosto que no espelho espia esquivo
Também naquele velho estilo bolha.

O leitor que ainda sou sequer me olha –
Sem crítica o que escrevo sai sem crivo:
Vim rimar feito quem não tem escolha.

Quem dera, como ao saque duma rolha,
Eu libertasse um vinho criativo
Sem me valer dessa forma zarolha,

E jorrasse de versos todo um livro,
Nutrindo os corações. Mas já não sirvo:
Vim rimar feito quem não tem escolha,
Sempre naquele velho estilo bolha.

terça-feira, junho 03, 2008

Contornando

Acho ótimo quando blogueiros e blogueiras camaradas vêm aqui responder comentários meus por aí: a coisa fica bem confusa, combina com meu atual estado de quebradeira.

No entanto, não gostei que a Nara apagou a postagem do seu pô Ema flaubertiano -

também não entendi o porquê da menção do Giuliano ao Piva, sendo que eu fiquei desolado só pelo emoticon de cara triste (que interpretei como insatisfação quanto à postagem anterior).

Outrossim, eu acho interessante o trabalho do Fausto Fawcett (bem como as loiras que costumam estar ao redor...) -

Fui ver a peça do França no Hotel Del Rey: gostei do desempenho das duas atrizes, que não são mãe e filha por acaso. O texto também é bem engraçado.

Estou com dois poemas quase prontos no subconsciente, mas ainda não escrevi nada, porque não quero forçar a mão (mas deve ser preguiça mesmo, enfim).

Ah, e antes que me esqueça de novo, estou devendo muitas saudações e muitos obrigados ao Renato Quege, que anda replicando alguns versinhos e traduções de minha modesta fatura, além de ter incorporado ao repertório de sua atual banda uma composição que fizemos ali pelos idos de 1912... Fucem por aqui .

E pra Nara eu vou colar uma explicação, aproveitando pra puxar sua orelha: a expressão é "pior a emenda que o soneto":

"A expressão "pior a emenda que o soneto" surgiu por causa do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage. Ele era tão respeitado que, um belo dia, uma pessoa interessada em ser escritor procurou-o com um soneto. Pediu ao poeta que o lesse com carinho e anotasse os erros. Bocage concordou. No dia seguinte, encontraram-se para conversar. Para surpresa do poeta aprendiz, Bocage não havia anotado nada. Tinha achado o texto tão ruim que nem valia a pena corrigir, porque a emenda seria pior do que o soneto. Se o conselho fez com que o escritor desistisse da carreira, a história não registra. Mas a frase se tornou uma espécie de ditado popular. Se alguma coisa que fazemos não sai exatamente como deveria, nem sempre dar um jeitinho resolve. A emenda pode sair pior do que o soneto."

quinta-feira, maio 29, 2008

Incontornável

Passando mais uma semana sem postagem (está difícil colar os caquinhos), sou forçado a me valer dum poema do Leminski, que fazia tempo que eu não mencionava. Eu di uma busca (sim, eu "di uma busca", porque "quilo", tolerem...), eu di uma busca e não achei esse poema zanzando pela rede...

Leiam e repitam 37 vezes, como um mantra...


vento
que é vento
fica

parede
parede
passa

meu ritmo
bate no vento
e se
___des
_____pe
_______da
________ça


p.leminski

quarta-feira, maio 21, 2008

Os pedaços de verso que ainda me caem da cabeça

Tal qual todo horror e medo ela não demonstrasse -
Feito se o prazer e a dor ela descompusesse -
Tipo assim um rito e mito que ela só vestisse -
Como por um bem do qual só ela fosse a posse -

Essa face fez-se doce e disse: "fique susse..."

***

Tal qual um tolo que não mais se controlasse -
Feito em versinhos que ninguém mais entendesse -
Tipo assim mesmo sem poder que redimisse -
Como no tom errado que o surto lhe trouxe -

Você não tinha aqui no fim a rima em "-usse".

terça-feira, maio 13, 2008

Para aquela a quem nunca escrevi

Àquela que rolou sobre meu parco limite de poeta,
Que nunca revelou qualquer vontade sua, secreta,
De ser musa daquele que mal sobrou por aqui –

A quem meus pedaços são obras completas,
A ela, que ainda vê gume nessas cegas setas,
Vai o lapso do melhor verso que jamais escrevi.

sexta-feira, maio 02, 2008

De volta a uma obsessão

Semana retrasada foi lançada a revista Cadernos de Literatura em Tradução 8, contendo entre outros textos uma tradução que fiz do conto All the Dead Dears, da Sylvia Plath. No período em que mexia nesse conto, descobri que ela também escreveu, em 1956, um poema com o mesmo título.

Numa noite dessas perpetrei a tradução do poema, que segue aqui abaixo, dedicada à Marina Della Valle. Eu sei que não adianta advertir, mas é um texto muito sinistro: se você é uma pessoa impressionável, evite ler...


All the Dead Dears
Todos os Mortos Queridos

In the Archæological Museum in Cambridge is a stone coffin of the fourth century A.D. containing the skeletons of a woman, a mouse and a shrew. The ankle-bone of the woman has been slightly gnawed.
No Museu Arqueológico em Cambridge há um caixão de pedra do século IV dC, contendo os esqueletos de uma mulher, um camundongo e um mussaranho. O osso do tornozelo da mulher foi levemente roído.

Rigged poker-stiff on her back
With a granite grin
This antique museum-cased lady
Lies, companioned by the gimcrack
Relics of a mouse and a shrew
That battened for a day on her ankle-bone.
Ornamentado atiçador nas suas costas
Com um esgar granítico
Esta arcaica dama museu-encaixotada
Jaz, em companhia dos restos
Sem valor de um rato e um mussaranho
Que por um dia se refestelaram com sua tíbia.
These three, unmasked now, bear
Dry witness
To the gross eating game
We'd wink at if we didn't hear
Stars grinding, crumb by crumb,
Our own grist down to its bony face.
Estes três, já desmascarados, prestam
Seco testemunho
Do grosseiro jogo de comer
Que nem veríamos se não ouvíssemos
Estrelas triturando, migalha por migalha,
Nosso próprio grão até sua face óssea.
How they grip us through thin and thick,
These barnacle dead!
This lady here's no kin
Of mine, yet kin she is: she'll suck
Blood and whistle my marrow clean
To prove it. As I think now of her hand,
Com que esforço eles se agarram a nós,
Estes mortos encalacrados!
Esta dama aqui não é parenta
Minha, mas parenta ela é: vai sugar
Sangue e limpar minha medula até os fiapos
Pra prová-lo. Quando penso agora na mão dela,
From the mercury-backed glass
Mother, grandmother, greatgrandmother
Reach hag hands to haul me in,
And an image looms under the fishpond surface
Where the daft father went down
With orange duck-feet winnowing his hair ---
Da ampulheta banhada de mercúrio
Mãe, avó, tataravó
Estendem mãos megeras pra me arrastar,
E uma imagem surge sob a superfície do lago
Onde o pai apatetado afundou
Com pés-de-pato laranjas joeirando seu cabelo –
All the long gone darlings: They
Get back, though, soon,
Soon: be it by wakes, weddings,
Childbirths or a family barbecue:
Any touch, taste, tang's
Fit for those outlaws to ride home on,
Todas as queridas há muito idas: Elas
Voltam, entretanto, logo,
Logo: seja por velórios, casamentos,
Partos ou um churrasco de família:
Qualquer toque, gosto, olfato
Servem ao retorno destas proscritas ao lar,
And to sanctuary: usurping the armchair
Between tick
And tack of the clock, until we go,
Each skulled-and-crossboned Gulliver
Riddled with ghosts, to lie
Deadlocked with them, taking roots as cradles rock.
E ao santuário: usurpando a poltrona
Entre o tique
E o taque do relógio, até partirmos,
Cada Gulliver de crânio e ossos cruzados
Crivado de fantasmas, jazer com elas
Amortecidos, nos enraizando enquanto berços rangem.

Sylvia Plath
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

quarta-feira, abril 23, 2008

A quem interessar possa a numerologia...

Hoje é aniversário de William Shakespeare.

Aniversário de nascimento e morte.

Curioso, não?

Mais curioso ainda é a idade que ele completa, a qual (pelo menos pra mim) exerce um fascínio meio idiota, uma estupidez que talvez entenda quem já ficou de madrugada assistindo ao relógio digital transmitido pelas emissoras de TV junto com as faixas coloridas...

O momento em que os dígitos ficam todos iguais vira um acontecimento a ser comemorado, no mínimo com um esgar de sorriso e um pouco de baba escorrendo no canto da boca...

Pra não largar mão da minha tradição de poetastro, cometi a seguinte quadra de celebração:


Falar da idade do bardo é meio abstrato,
Mas por acaso alguém viu, neste mundo ingrato,
Que o velho Will, cuja obra eu também idolatro,
Faz hoje quatrocentos e quarenta e quatro?


De brinde extra, publico a seguir o que talvez sejam os únicos versos de Shakespeare ainda não traduzidos trocentas milhões de vezes em português – curiosamente, são os versos do seu epitáfio – será que foi ele mesmo o autor? – em qualquer caso, diz a lenda que estão inscritos na sua lápide – e deviam ter servido pra eu não me meter a besta de mexer com a figurinha mais carimbada da literatura universal...


Good friend, for Jesus´ sake forbear
To dig the dust enclosed here;
Blessed be the man that spares these stones
And cursed be he that moves my bones!

Bom amigo, pelo amor de Jesus não tente
Escavar a poeira que aqui jaz presente;
Bendito aquele que poupar estes destroços,
E maldito seja quem mexer nos meus ossos!

domingo, abril 20, 2008

Mais uma colagem...

Você traiu seus próprios sentimentos,
Brincou de vida feito nem ligasse,
Se fez de bobo e disse em versos lentos

Não conhecer nem mais a própria face.
Você prossegue com seu ego enorme
Como se a indulgência comprovasse

Que mesmo quando a consciência dorme
Uma terzina usada ainda a redime.
Você acredita que nesse uniforme

Sua poesia esconde qualquer crime,
Podendo mesmo se fazer verdade
E revelar a imagem mais sublime.

Porém a própria artificialidade
Que com desplante você leva adiante,
Não importando o quanto e a quem agrade,

Só se revela mesmo redundante.
Você devia era criar vergonha,
Em vez de se arvorar aos pés de Dante,

Substituindo essa ilusão bisonha
Por humildade em doses cavalares.
E se de fato você ainda sonha

Em superar contudos e apesares,
Vai ter que detonar seu egoísmo,
Purgando esses infernos pelos ares,

Vai ter que reencontrar o seu lirismo,
Ter mais pureza, não fazer mais cenas,
Atravessar abismo após abismo,

E, pelo jeito, as chances são pequenas.

segunda-feira, abril 14, 2008

Menipeando a sonetagem...

Soneto é um tipo de vírus que a gente contrai e não é fácil largar mão - quando você se flagra, já começou a calcular as rimas e a escandir o verso em decassílabos.
Nos idos do milênio passado, quando comecei a descobrir a poesia, abominava a técnica parnasiana, e, apesar de nunca ter deixado de idolatrar as sonetagens simbolistas, se me dissessem que dali a uns vinte anos eu estaria perpetrando algo remotamente semelhante a um soneto, seria pior que a última das ilusões perdidas.
Este intróito em prosa não redime nada, mas serve pra me autojustificar, porque vou postar aqui mais um soneto, e ver se na seqüência me livro da infecção - quem sabe um poema visual seja o antídoto, mas ficou difícil desencalacrar um esqueleto tão pronto, que só precisa do recheio carnoso das palavras pra ficar um monstrinho tão cheio de graça...
Senão vejamos...

1, 2, 3, 4, ... , 31

Parte de mim sente um ódio brutal
Sempre que lê as coisas que escrevi:
– Como você pôde, pobre animal,
Matar o lirismo que estava ali? –
Outro pedaço não chega ao extremo,
Perdoa refrão aqui, versinho lá:
– Com essa rima opulenta até tremo,
Mas o teor abstruso, pô: não dá! –
As partes promíscuas que agora admitem
Mais um soneto feito item por item
Nutrem a crença com força de fé –
Que um dia eu redima tantos maus modos
E ao bater trinta-e-um-meu-salva-todos
Mostre a pureza do amor como ela é.

terça-feira, abril 08, 2008

FEITO ESQUECENDO...

Feito esquecendo as pulsões mais brutais
Encantasse fácil as almas puras
E administrando delícias nos sais
Das palavras travadas de amarguras
Pudesse mesmo arrelvar com carícias
As passadas pesadas de rotinas
Sem que o medo patético partisse as
Rimas com saturações assassinas,
Eu levaria os versinhos na veia
Feito o flautista aos ratos da aldeia
E aos obrigados diria: de nada!
Mas tem sempre um porém em toda via
E a minha inspiração ficou vazia
Lamentando a saliva derramada.

sexta-feira, abril 04, 2008

PÓS-DESCONSTRUÇÃO ARCAICA

Sentindo um cheiro pestilento, lento,
Levanto do meu leito estreito, eito,
No tique a que vivo sujeito, jeito
De santo que um dia arrebento, bento –
Notando o quanto me delata, lata,
Aquela sensação tamanha, manha,
A imagem da grande barganha, ganha,
É o nó que na garganta engata, gata –
E o surto a me levar consigo, sigo,
Em ânsia por amor e abrigo, brigo,
Tocando um som que, mesmo surdo, urdo –
Pois graças ao meu velho e cego ego
Entorto verso e rima e blogo, logo,
O nada que me dá, contudo, tudo.

terça-feira, março 25, 2008

TRÊS PARCERIAS RESGATADAS

A primeira é com o Thadeu, feita na maior parte por ele, mas tem os meus pitacos por ali;

a segunda é com o Plínio Gonzaga, no bar A Gata Comeu no dia 8 de dezembro de 2006 (início da semana de homenagens ao finado poeta Marcos Prado) – os dois versos finais são praticamente roubados dum poema que fiz com o Francisco Cardoso;

portanto, a terceira é pra tentar compensar o Francisco, mas essa parceria com ele foi só até o verso 9: o resto eu completei sozinho, e espero que ele me perdoe por todas essas gafes...


UMA GARRAFA SEM GÊNIO

A tristeza foi tudo o que sobrou
Pra mim, dentro da garrafa vazia,
Pois muito longe da festa eu estou,
Empobrecendo a rima da poesia.

Há pouco tantos por aqui havia
Brindando aos deuses o sonho do gol
Num estádio lotado de alegria,
E agora nem eu aplaudo o meu show.

Só um hiato cabe em lapso como esse,
O eclipse é total, e a lua, nova,
Mas à luz do verso me salvo nesse

Interlúdio imortal. Perdi o interesse:
Nada como um som indo atrás da prova
De que existe vida além dessa cova!

***

A CAVERNA DO BURACO NEGRO

prados, colinas e ravinas,
penhascos, depressões, vales,
cidades, maremotos, ruínas,
montes, montes e montes –
todos os lugares de relevo
não mexem um pêlo da minha sina,
todas as montanhas de nervos
e os intensos rios de lava
não valem um cabelo que resvala –
eu não celebro aniversários de morte,
a vida é que deve a essa descida –
dobrei todas as esquinas,
me perdi em todas as propostas
e agora até as frentes frias
me deram as costas.

***

ETERNA FEMININA

A mulher, a que afresca o teto do meu crânio
E algarismou meu alfabeto extemporâneo,
A sempiterna e carinhosa companhia
Cujo espinho de cor-de-rosa me amacia
E me amalgama o barro em lava incandescente –
Se me chama, me amarro, sem trava aparente;
Se me incita, e excita a cítara mais avara,
Ela compartilha o todo que amealhara –
Feliz combinação de forma e de intenção:
Um triz de distração na norma rigorosa,
Um quê de seriedade em meio à desrazão,
Um O de boca, um U de bunda, um A de rosa,
__Um E de bela, um I de indecisivamente,
__Que ilude, molha, frisa e ameniza a mente.

terça-feira, março 18, 2008

OUTRO PÁSSARO

Levantei de madrugada com o crânio mais que nada
Rebatendo a velha ladainha que um bebum criou;
Sim, aquela, quem não lembra, a velha marcação da lenda
Duma certa ave agourenta, a qual repete um mesmo som —
A ave vem e pousa lenta, repetindo um mesmo som —
__Invenção do velho Poe.

Eu sabia que era fria refazer noutra poesia
Tal estrofe, já vazia, feito andar na contra-mão;
Entretanto fui caindo, como um sol, me achando lindo,
Imitando outros no fim do indecoroso e bom refrão —
Fui caindo, um sol caindo, repetindo o bom refrão —
__Pra alegrar meu coração.

Só que mais triste eu ficava, minha situação mais brava
E a caneta, mais que escrava, já pedia um fim também;
Pois a métrica tão justa e a cadência tão augusta
E insalubre a quem se assusta custam bem mais que um porém;
Custam mais que um entretanto, que um contudo e que um porém;
__Mas eu não passava sem.

Vi depois, sem sacanagem, que faltava um personagem,
Que os bordões, quando eles agem, não se lançam no vazio;
— Chega de metalinguagem, mude a rima agora em cima,
Tente incrementar o clima e diga onde é que já se viu:
Teus versinhos, sem persona, sempre errando, isso é civil?
__Nisso ouvi, distinto, um: — Psiu!

Ah, viu só? — Eu já sabia: nesta madrugada fria
(Que clichês!) demoraria, mas viriam emoções!
— Emoções são coisa de Emo... — Ou será, por outra, o demo?
— Sei que devo mas não temo remover os travessões
(Na cabeça as tantas vozes me causavam confusões)
__— Tire então os travessões!

Reorganizando a mente, notei repetidamente
Que devia tão somente retraçar os passos meus:
Simplifico os descaminhos, deixo ao léu desvios mesquinhos,
Fico aqui no meu cantinho (mais clichês), mercê de Deus...
Fico bem aqui sozinho, não vai só quem vai com Deus...
__— Não é Deus, mas são teus eus...

Dessa vez eu te descubro, refleti, ficando rubro,
Sem saber se já era outubro, ou talvez nem fosse abril -
Pois o caos era tamanho, dava assim em mim um banho,
E eu perdia o jogo ganho pra saber se alguém ouviu -
Pra saber se mais alguma criatura além ouviu
__O distinto e claro: — Psiu!

Novamente o psiu ressoa, vejo então que a hora é boa
Pra flagrar qual é a pessoa causadora da aflição;
Sem tardança ou qualquer falha se projeta-me esta gralha
Cuja voz atroz se espalha declarando enfim quais são —
Quais são as mais necessárias providências da razão —
__Grita a gralha: — Larga mão!

Hoje nem sei se é tão certa dessa gralha a descoberta:
Largar sempre a mente aberta, largar tudo que é ruim —
Sei que enfim vou aplicando o bem que a gralha disse quando
Flutuou na esfera vã do meu poema tão chinfrim —
Flutuou e o próprio Poe, com tal pasticho tão chinfrim,
__Se torceu na tumba e fim.

segunda-feira, março 10, 2008

TENTANDO COLAR NOVAMENTE OS CAQUINHOS DO ESPELHO DO BANHEIRO

Você voltou pra casa (tá legal: quitinete no centrão nervoso)
Quase correndo porque sabia que um mínimo desvio -
Até um sorriso da vizinha do terceiro andar
Ou a saudação de rotina da porteira ingênua -
Podia estragar a iminência do poema longo -
Você sofreu consciente esse ataque da vida diária,
Ainda é noitinha e o clima ainda é propício,
E você sabe que vai usar o recurso da terceira pessoa
Como se fosse a primeira,
Velho truque de perspectiva já invectivado anteriormente,
Sacado do gibi do Punho-de-Ferro,
Tendo ainda em vista que o texto a ser escrito é quase prosa,
Que o verso longo e sem medida é sinal de explosão e cansaço,
Que depois ao ser postado vai bagunçar tudo por causa da formatação e do comprimento da coluna,
Sabendo sim que nenhum suporte é grande o suficiente pra abrigar a inspiração poética,
Lembrando também de novo e de novo aquele seu poema escrito no rolo de papel higiênico que seria o único a aturar qualquer tamanho de verso quando usado em formato "paisagem",
Percebendo sim que isso está mais pra prosa e que escrever em prosa,
Você já disse uma vez ao Sandrini,
Dá-lhe a sensação de estar traindo a Musa,
Mas até que está musical,
E até vai meio que rimando,
Então toca o pau,
Ivan,
Sim,
Ivan, você sabe que vai usar dessa vez todos os nomes,
Vai aproveitar o embalo destampatório-emocional,
Vai entregar o jogo todo sem disfarce ficcional,
Vai falar da postagem do Pinduca
(que intimidade é essa? Nem você sabe, mas vá lá)
que você leu e lembrou daquela noite de 1999,
homenagem aos dez anos de falecimento do Leminski,
quando você quase recém-ingresso no mestrado na magnífica USP,
recém-ingresso no escalafobético CRUSP e toda a beleza da coisa
(teatro de graça todo fim de semana na ECA,
cinema de graça todo dia no CINUSP,
biblioteca mágica e silenciosa,
sensação de morar no Parque Barigüi em plena Sampa desvairada, etc)
você mal segurou o mal-estar que o Pinduca lhe causou,
com toda aquela ironia em cima dos uspianos,
e anteontem você leu a postagem em que o mesmo Pinduca
faz alguma (enfim, alguma) concessão à academia,
termo sim execrável aos drop-outs e quejandos,
e aos poetas mais ao estilo do Leminski
que era enfim o teu "objeto de estudo"
(e olha a mudança pronominal - teu, seu, você, tu, enfim, foda-se)
enfim,
você nem soube como comentar isso lá na espelunca sem que parecesse
que você é mesmo esse acadêmico,
esse mestre que surtou pra concluir a porra toda,
e você luta pra voltar àquela sensação antiga e boa de escrever poesia,
você luta pra colar novamente os caquinhos do espelho do banheiro,
peleja pra voltar a ser o grande poeta de bosta que você achava que era -
você chegou na quitinete e ligou o computador,
insuportável a pressa de começar a despejar o surto-impulso em verso,
você não agüentou o tempo de inicialização,
pegou um caderno pra não perder o embalo,
não escreveu nada porque nunca aparece uma caneta nessa hora,
é uma das neuroses que você herdou da sua mãe,
e aí achou lá uma página mal-caligrafada pela Joelma:
"Ivan, fomos a praça caminhar
liguei o PC p/ ouvir música
e deu a tela azul"
muito poético, sim, praticamente
um haicai selvagem em estado de animação suspensa,
do tempo que tua filha ainda morava com vocês,
do tempo em que as coisas não estavam condenadas,
tá, você sabe que ainda não estão,
vai rastejando ainda agora,
conseguiu estopar com a canabis diária e o álcool ocasional,
mas vê que anda sempre por um fio pra recair de novo,
está aí acordando cedo,
fazendo exercício,
cozinhando o blog em banho hiper Maria,
traduzindo o Johnny Panic and the Bible of Dreams
& Other prose writings da idolatrada Sylvia,
a suicida favorita de todos e todas,
e isso te remete à Ana Cristina César,
sim,
você acaba de voltar da BPP,
onde perlustrou o Inéditos & Dispersos
e se assombrou com o primeiro poema infantil ilustrado
no qual a protagonista se joga das alturas,
putz, você sabe que não vai se jogar também,
você sabe que está ainda achando tudo horrível e por certo também fabuloso,
você prevê que ainda assim não vai ser sincero o suficiente,
não vai falar (ops, já está falando) que quase se mijou de rir
na lan-house lendo os poemas em parceria
do Thadeu e do Edson,
e que leu o poema mais recente do Thadeu,
sentindo aquele ciúme leproso de
"Porra, quando é que eu vou jorrar versos assim?",
e...
vai, continua!
E a tua vida afetiva que você bagunçou o quanto pôde,
Não vai citar alguma coisa?
Você sabe que não, que elas vão se arrepiar,
Que uma não quer, que outra babaria, que aqueloutra nem me fale,
Mas que no momento você decidiu ficar "um tempo sozinho"
Provavelmente pelo velho egoísmo e crueldade naturais,
Pra poder ir dormir quase chorando feito o covarde fraco que tu és,
E agora a empolgação vai diminuindo,
Você já atacou o teclado a la Bukowski (bata nela, bata na máquina
Feito um boxeador), você sabe que vai quem sabe até editar os inícios de linha
Porque a porra do editor de texto está maiusculizando sozinho de novo,
Você sabe que daqui a pouco vai salvar esse troço no disquete
Sim, você ainda usa o venerado disquinho quadrado,
Vai revisar, vai falsificar aqui e ali,
Mas vai correr até a cyber loja próxima pra postar tudo isso,
Depois voltar pra casa (vide o início),
Ler a Clarice que te anda obsedando,
E o primeiro livro da tetralogia do Rio Apa
Pra complementar leituras do teu hipotético doutorado,
A respeito da Literatura Paranaense, "A Angústia da Existência",
Que você sabe que existe mas que também não existe
Se for considerar o panorama brasileiro,
O qual já é ultra-periférico mundialmente,
O teu estado do Paraná, então,
Periferia da periferia da periferia da periferia,
E ainda assim os livros estão todos lá,
Caindo aos pedaços mas estão lá,
E o texto do Jamil Snege sobre isso, então,
Aquele capítulo do Como eu se fiz por si mesmo,
Não é genial? Não é aquilo mesmo?
Enfim, que nojo de usar esse enfim que você flagra
Quando não é você mesmo que está usando,
Voltando:
Você vai postar esse troço e amanhã já vai acordar pensando
Se alguém comentou, se o Pinduca tomou conhecimento:
Porra, você quer o quê?
Quer voltar sim a ser considerado gênio
Do jeito que você sabe que não é,
Quer repercussão, quer ser amado e odiado
(você já é, isso não é tão difícil assim)
enfim,
de novo,
você tentou voltar com tudo (e contudo...)
não disse nem metade do que queria,
ou talvez um pouco mais do que queria ou podia,
ou seria capaz,
e agora, rapaz,
agora é hora de encerrar a sessão de descarrego
e ir até o mercado buscar os teus limões do bem,
antes passar no cyber-treco e postar essas,
essas...
você sabe que tem que mandar alguma artilharia pesada aqui,
no final: esse é o final -
você disfarça,
olha pra janela,
nenhum Esteves vai te dar Adeus,
a paisagem urbana é aquela mesma, sim, aquela
e existe apenas o cansaço da noite de um dia fácil/difícil,
existe a possibilidade do sorriso,
a auto-complacência,
o momento em hífen que aguarda a próxima palavra,
e, eventualmente, alguma rima boa por ali à toa
que ainda te abençoa
e te escalavra.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

experimentalismo poético?

PAPAJOYCEATWORK
PAPAJOYCETRAMPANDO

(Noite. Joyce começa a escrever)
(Night. Joyce begins to write)
Madmanam eye! Light gone out!
Olho malucadãome! Luz se foi!
(Cai no papel)
(Falls over the sheet)
Mustmakesomething! Reverythming!
Temquefazeralgo! Ritudsonhindo!
(Morde os lábios e gargalha)
(Bites his lips and laughs out loud)
A poorirish is a writer mehrlichtsearching,
Um pobrirlandês é um escritor soluzmentbuscando,
Yesternighteternidades!
Ontemanoiteternities!
(Troveja. Relâmpagos iluminam o quarto. Joyce prossegue)
(It thunders. Lightnings brighten up the room. Joyce goes on)
Thomasmorrows? Horriver!
Amanhantonios? Horriopilante!
Nice and sweet – the speech of England, damnyou! Dont?
Bela e doce – a fala da Inglaterra, dane-se! Não?
Must destroy it, just like a destroyer would do it yourself!
Tenho que destruí-la, bem como um destróier faria você mesmo!
Como um verme. Yes, I no.
Like a vermin. Sim, eu say.
Done to Ireland! What have they done? It will do.
Feito pra Irlanda! O que eles fizeram? Servirá.
Beforeblacksblanco, we are even, this very evening! Think is so.
Antespretéwhite, estamos quites, nesta noite esquisita! Pensar é tão.
My vengeance will be as big as say a country as big as say Brazil.
Minha vingança será grande qual digamos um país grande qual digamos o Brasil.
Someday my prince will come. Our prince: Seabastião!
Dum mingo meu príncipe virá. Nosso príncipe: Semarstião!
Arrise, Lewisrockandcarrol!
Erga-se, Monteirockandlobato!
Waterrestrela, am I a dayer?
Agüearthstar, sereia eu um dia rio?
Just a wakewriter.
Só um escrivelório.

p.leminski – 1977
ivan j.s. – 2004

quinta-feira, janeiro 31, 2008

THE TOWER OF FAMINE (A Torre da Fome)

Amid the desolation of a city,
Which was the cradle, and is now the grave
Of an extinguished people, --- so that Pity

Entre a desolação de uma cidade,
Que foi berço, e agora é sepultura
De um povo extinto, - e assim a Piedade
Weeps o'er the shipwrecks of oblivion's wave,
There stands the Tower of Famine. It is built
Upon some prison-homes, whose dwellers rave

Chora os naufrágios nessa onda obscura,
Lá está a Torre da Fome. Construída
Sobre prisões, nas quais se habita em fúria
For bread and gold and blood: Pain linked to Guilt,
Agitates the light flame of their hours,
Until its vital oil is spent or spilt.

Por pão, e ouro, e sangue: a Dor, unida
À Culpa, agita a luz dos moradores,
Até a chama vital ser consumida.
There stands the pile, a tower amid the towers
And sacred domes, each marble-ribbed roof,
The brazen-gated temples, and the bowers

Lá está a pilha, uma torre entre as torres
E os domos sacros; todo teto ornado,
Os templos brônzeos, e abrigos de flores
Of solitary wealth, --- the tempest-proof
Pavilions of the dark Italian air, ---
Are by its presence dimmed --- they stand aloof,

Ao luxo solitário, - o reforçado
Pavilhão do soturno ar da Itália, -
São diminuídos - ficam de lado,
And are withdrawn --- so that the world is bare;
As if a spectre, wrapped in shapeless terror,
Amid a company of ladies fair

E se retiram - e o vazio se espalha;
Qual se um espectro envolto em puro medo
Entre várias damas trajando gala
Should glide and glow, till it became a mirror
Of all their beauty, --- and their hair and hue,
The life of their sweet eyes with all its error,
Deslizasse e reluzisse, e em espelho
De todos esses charmes se tornasse,
E a vida desses olhos, com seu erro,
Should be absorbed till they to marble grew.
Fosse absorvida até crescer no mármore.

P.B.Shelley
Ivan Justen Santana

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Nome?

MEU NOME É FRANZ:
FRANZ KAFKA.
SOU UM JUDEU DE PRAGA,
NA TCHECOSLOVÁQUIA.
EU SOU ADVOGADO,
ESPECIALISTA EM SEGUROS.
TRABALHO NUMA FIRMA DE SEGUROS.
EU ESCREVO ÀS VEZES.
ESCREVO COISAS ESTRANHAS:
A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE
VIROU UMA BARATA.
UM JARDINEIRO QUE QUER
UM EMPREGO NUM CASTELO.
UM RÉU ACUSADO DE UM
CRIME QUE NUNCA COMETEU.
NÃO ME BATAM.
EU NUNCA COMETI CRIME ALGUM.
MEU ÚNICO CRIME É SER EU.

(extraído do encarte do Leminski Multimídia)

segunda-feira, novembro 19, 2007

Uma Pequena Fábula

(vertida desta tradução, que eu nem sei contar até sete em alemão...)

- Ai de mim - disse o rato - o mundo inteiro vai ficando cada vez menor dia após dia. No começo era tão grande que eu tinha medo, eu corria e corria, e ficava contente ao ver paredes distantes à direita e à esquerda, mas essas paredes enormes se estreitaram tão depressa que já estou na última peça, e ali no canto está a ratoeira para a qual estou correndo.

- Você só precisa mudar de direção - disse o gato e devorou-o.

Franz Kafka

sábado, outubro 27, 2007

O ano lírico

PRIMAVERIL

Mês de rosas. Minhas rimas
giram para a vasta selva,
a recolher mel e aromas
de flores ora entreabertas.
Vem, amada. O grande bosque
é nosso templo; ali ondeia,
flutua um santo perfume
de amor. O pássaro voeja
de uma árvore a outra e saúda
tua fronte rosada e bela
como a aurora; e os carvalhos
robustos, altos, soberbos,
quando tu passas agitam
suas folhas verdes trêmulas,
e arcam as ramas como
à passagem da princesa.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.

Olha em teu olhar o meu,
dá ao vento a cabeleira,
e que banhe o sol esse aro
da tua luz alva e esplêndida.
Deixa que me apertem as mãos
as tuas de rosa e de seda
e ri, e mostrem teus lábios
a púrpura úmida e fresca.
E eu te direi minhas rimas,
tu me ouvirás brejeira;
se acaso algum rouxinol
vier e pousar por perto
e contar alguma história
de ninfa, rosa ou estrela,
não ouvirás nota ou trino,
mas, enamorada e régia,
escutarás minhas músicas
destes meus lábios trêmulos.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.

Ali há uma clara fonte
que brota de uma caverna,
onde se banham desnudas
as ninfas com seus folguedos.
Riem ao som da espuma,
fendem a linfa serena;
entre a poeira cristalina
escovam as cabeleiras
e sabem hinos de amores
na formosa língua grega,
que em glorioso tempo antigo
Pan inventou nas florestas.
Amada, porei nestas rimas
a palavra mais soberba
das frases dos versos todos
dos hinos da língua mestra
e te direi essa palavra
empapada em mel de Hibléia...
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.

Vão em seus grupos vibrantes
voando as muitas abelhas
como um áureo torvelinho
que esta branca luz alegra;
e sobre a água sonora
passam radiantes, ligeiras,
com suas asas cristalinas
as irisadas libélulas.
Ouve: canta a cigarra
porque ama o sol, que na selva
seu pó dourado polvilha
entre essas folhas espessas.
Seu alento nos dá num sopro
fecundo a nossa mãe terra,
com a alma destes cálices
e o aroma destas ervas.
Vês este ninho? Há uma ave.
São duas: o macho e a fêmea.
Ela tem o ventre branco,
ele tem as plumas negras.
Na garganta possui gorjeio,
as asas brancas e trêmulas;
e os bicos que se entrechocam
como lábios que se beijam.
O ninho é cântico. A ave
incuba o trino, oh, poetas!
das liras universais,
a ave pulsa certeira.
Bendito o calor sagrado
que fez brotar as sementes.
Oh minha amada! É o doce
período da primavera.

A doce musa Delícia
me trouxe uma ânfora grega
cinzelada de alabastro,
de vinho de Naxos plena;
e formosa taça de ouro,
a base cheia de pérolas,
para que eu bebesse o vinho
que é propício para os poetas.
Na ânfora está Diana,
real, orgulhosa e esbelta,
com sua nudez divina
em sua atitude cinegética.
Não quero o vinho de Naxos
nem a ânfora de ansas belas,
nem a taça de onde a Cípria
ao galhardo Adônis reza.
Quero beber deste amor
só em tua boca vermelha.
Oh, minha amada! É o doce
período da primavera.

Rubén Darío
versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, setembro 29, 2007

outro poema felino?

La rêve du jaguar
The jaguar´s dream
O sonho do jaguar

Sous les noirs acajous, les lianes en fleur,
Beneath the dark mahoganies, creepers in flower
Sob os negros acajus, as lianas em flor,
Dans l'air lourd, immobile et saturé de mouches,
Hang in the heavy, motionless, fly-filled air,
Num ar pesado, imóvel e saturado de moscas,
Pendent, et, s'enroulant en bas parmi les souches,
Twining among the tree-stumps, falling where,

Pendem, e, enrolando-se entre os troncos,
Bercent le perroquet splendide et querelleur,
They cradle the brilliant parrot, the quarreller,
Ninam o papagaio esplêndido e palrador,
L'araignée au dos jaune et les singes farouches.
The wild monkeys, spiders with yellow hair.
A aranha de dorso amarelo e os macacos loucos.
C'est là que le tueur de boeufs et de chevaux,
There the wearied, ominous horse-killer,
É ali que o matador de bois e de cavalos,
Le long des vieux troncs morts à l'écorce moussue,
The ox-slayer, returns with a steady tread,
Ao longo dos velhos caules de cascas musgosas,
Sinistre et fatigué, revient à pas égaux.
Over the dead mossy trunks of old timber.
Sinistro e fatigado, retorna em passo regular.
Il va, frottant ses reins musculeux qu'il bossue;
Stretching, arching his muscular loins, a breath
Ele segue, alongando suas ancas musculosas;
Et, du mufle béant par la soif alourdi,
From his gaping muzzle heavy with thirst
E, da mandíbula aberta pela sede agravante,
Un souffle rauque et bref, d'une brusque secousse,
Issues with a sudden shock, quick and harsh,
Um sopro rouco e breve, num brusco arranco,
Trouble les grands lézards, chauds des feux de midi,
And great lizards warm from the noon heat stir,
Assusta os grandes lagartos, quentes do meio-dia,
Dont la fuite étincelle à travers l'herbe rousse.
Then vanish gleaming through the tawny grass.
Cuja fuga cintila através das ervas rubras.
En un creux du bois sombre interdit au soleil
He sinks down; stretched out on a level stone,
Num nicho interdito ao sol na floresta sombria
Il s'affaisse, allongé sur quelque roche plate;
Cleans his paw with a broad lick of his tongue
Ele se esgueira, esticado numa rocha mais plana;
D'un large coup de langue il se lustre la patte;
Veiled from the sun in a hollow of the forest,
Com um golpe largo da língua lustra a pata;
Il cligne ses yeux d'or hébétés de sommeil;
Blinks golden eyes dull with sleepiness;
Pisca os olhos dourados abestalhados de sono;
Et, dans l'illusion de ses forces inertes,
And, as his inert forces, in imagination
E, na ilusão de suas forças inertes,
Faisant mouvoir sa queue et frissonner ses flancs,
Make his tail flicker and his flanks quiver,
Movendo a cauda e sacudindo os flancos,
Il rêve qu'au milieu des plantations vertes,
Dreams himself deep in some green plantation,
Ele sonha que em meio às plantações verdes,
Il enfonce d'un bond ses ongles ruisselants
Leaping, and plunging dripping claws forever
Crava com um só bote suas unhas rutilantes
Dans la chair des taureaux effarés et beuglants.
Into bullocks' flesh as they bellow and shiver.
Na carne dos touros estupefatos e lancinantes.

Leconte de Lisle
A.S.Kline
Ivan Justen Santana

quarta-feira, setembro 19, 2007

Atirando cavalos ao mar...

HORSE LATITUDES
LATITUDES CAVALARES

When the still sea conspires an armor
Quando o mar parado conspira uma armadura
And her sullen and aborted currents breed tiny monsters
E suas correntes soturnas e abortadas geram monstrículos
True sailing is dead
A navegação verdadeira está morta
Awkward instant
Instante canhestro
And the first animal is jettisoned
E o primeiro animal é arremessado
Legs furiously pumping
Patas furiosamente bombeando

Their stiff green gallop
Seu galope imaturo e tenso

And heads bob up
E cabeças empinam com o solavanco

Poise
Altivez
Delicate

Delicada
Pause
Pausa
Consent

Permissão
In mute nostril agony
Numa agonia muda de narina

Carefully refined
Cuidadosamente refinada
And sealed over
E selada por cima

James Douglas Morrison
Ivan Justen Santana

sexta-feira, agosto 31, 2007

Soneto pra escocês emendar...

FRA bank to bank, fra wood to wood I rin,
Ourhailit with my feeble fantasie;
Like til a leaf that fallis from a tree,
Or til a reed ourblawin with the win.

De praia em praia, de selva em selva eu prossigo,
Alheio a tudo em minha fraca fantasia;
Feito a folha que cai do galho em hora fria,
Ou o arbusto que o vento arranca e vai consigo.
Twa gods guides me: the ane of tham is blin,
Yea and a bairn brocht up in vanitie;
The next a wife ingenrit of the sea,
And lichter nor a dauphin with her fin.
Dois divinos seres guiam-me: um deles, cego,
É ainda criança, vaidosa e arredia;
O outro é uma jovem da marítima via,
Veloz qual barbatana dum golfinho amigo.
Unhappy is the man for evermair
That tills the sand and sawis in the air;
But twice unhappier is he, I lairn,
That feidis in his hairt a mad desire,
And follows on a woman throw the fire,
Led by a blind and teachit by a bairn.

Infeliz é o homem, no infinito a vagar,
Que ara só em areia e semeia pelo ar;
Mas muito mais infeliz é aquele que avança
E alimenta no peito um insano querer,
E através do fogo vai atrás da mulher,
Guiado por um cego e seguindo uma criança.

Mark Alexander Boyd (1563-1601)
Ivan Justen Santana (1973 - ?)

domingo, agosto 26, 2007

Este faz 93 anos hoje, apesar de ter morrido em 1984...

Poema

Amo-te por cada pestana, cabelo, debato-me contigo em corredores
branquíssimos de onde nascem fontes de luz,
luto contigo em cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou colocando em teus cabelos cinzas de relâmpago
e espigas que dormiam à chuva.
Não quero que tenhas uma forma, antes que sejas
precisamente o que vem por detrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo suas luzes a metade do seu encontro.
Todas as manhãs são o quadro onde te invento, desenho,
e te apago, assim não és, nem
com esse cabelo caído, esse sorriso.
Procuro-te na tua totalidade, no copo onde o vinho
é também lua e espelho,
procuro esse limite que faz vibrar um homem
numa galeria de museu.
E quero-te, e faz tempo e frio.


Julio Cortázar, versão de manuel a. domingos

sexta-feira, agosto 24, 2007

63 anos de idade mas desde sempre...

Blade Runner Waltz

__Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles,
__dançamos ao luar, ao som da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,
__nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
__ah, não se faz mais tempo
como antigamente.
__Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos, minutos milênios,
__e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
__amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
__que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre

Paulo Leminski

quinta-feira, agosto 23, 2007

SE O NÃO FOSSE AINDA

Se o não fosse ainda
E cada cinzeiro sofresse
Apenas por uma (e mesma) guimba

E a carne que não encontrara
Até aqui seu leito e seu mexer
Pudesse um (e apenas um) encanto entretecer

Eu te decantaria
Num único tom
E sempre nessa mesma levada

Todo esse todo amor todo
Que me acertou
Que não restou mais nada

segunda-feira, agosto 13, 2007

DREAM LIFE

VIDA DE SONHO

As if you descended in each night’s sleep
Into your father’s grave
You seemed afraid to look, or to remember next morning
What you had seen. When you did remember
Your dreams were of a sea clogged with corpses,
Death-camp atrocities, mass amputations.
Como se você descesse a cada noite de sono
Para dentro da sepultura do seu pai
Você parecia ter medo de ver, ou de lembrar na manhã seguinte
O que tinha visto. Quando você conseguia lembrar
Seus sonhos eram de um mar coagulado de cadáveres,
Atrocidades de campo de morte, amputações em massa.

Your sleep was a bloody shrine, it seemed.
And the sacred relic of it
Your father’s gangrenous, cut-off leg.
No wonder you feared sleep.
No wonder you woke, saying: ‘No dreams.’
Seu sono era um santuário sangrento, ao que parecia.
E a relíquia sagrada dele
A perna gangrenada e mutilada do seu pai.
Não espanta que você temesse o sono.
Não espanta que você acordasse, dizendo: “Sem sonhos.”

What was the liturgy
Of that nightly service, that cult
Where you were the priestess?
Were those poems your salvaged fragments of it?
Qual era a liturgia
Daquela missa noturna, aquele culto
Do qual você era a sacerdotisa?
Aqueles poemas eram seus fragmentos salvos dele?

Your day-waking was a harrowed safety
You tried to cling to – not knowing
What had frightened you
Or where your poetry followed you from
With its blood-sticky feet. Each night
I hypnotized calm into you.
Courage, understanding and calm.
Did it help? Each night you descended again
Into the temple-crypt,
That private, primal cave
Under the public dome of father-worship.
All night you lolled unconscious
Over the crevasse
Inhaling the oracle
That spoke only conclusions.
Seu dia acordada era uma segurança atormentada
À qual você se agarrava – sem saber
O que havia lhe assustado
Ou a partir de onde a sua poesia seguia você
Com seus pés sanguigrudentos. A cada noite
Eu hipnotizava calma em você.
Coragem, compreensão e calma.
Ajudava? A cada noite você descia novamente
Para dentro daquele templo-cripta,
Aquela privativa caverna primal
Sob a abóbada pública da adoração-ao-pai.
A noite toda você se debruçava inconsciente
Sobre a fenda
Inalando o oráculo
Que falava apenas conclusões.

Hackings-off of real limbs,
Smoke of the hospital incinerator,
Carnival beggars on stumps,
The gas-chamber and the oven
Of the camera’s war – all this
Was the anatomy of your God of Sleep,
His blue eyes – the sleepless electrodes
In your temples

Pedaços decepados de membros reais,
Fumaça do incinerador do hospital,
Mendigos carnavalescos em cotos,
A câmara de gás e o forno
Da guerra da câmera – tudo isso
Era a anatomia do seu Deus do Sono,
Os olhos azuis dele – os eletrodos insones
Nas suas têmporas

Preparing his Feast of Atonement.
Preparando o Bacanal de Redenção dele.

Ted Hughes
Ivan Justen Santana

terça-feira, julho 31, 2007

The Wishing Box

A Caixa dos Desejos

Agnes Higgins percebeu apenas bem demais a causa da beatífica expressão distraída de seu marido Harold diante dos seus suco de laranja e ovos mexidos matinais.
– Bem, fungou Agnes, espalhando geléia de ameixa na sua torrada com golpes vindicativos de faca, o que você sonhou na noite passada?
– Eu estava só me lembrando, disse Harold, ainda fitando a distância com um olhar extático e impreciso que atravessava diretamente as formas tangíveis e muito atraentes de sua mulher (bochechas rosadas e a loira fofinha de sempre naquela manhã de início de Setembro, em seu peignoir de bolinhas cor-de-rosa), daqueles manuscritos que eu discutia com William Blake.
– Mas, objetou Agnes, tentando com dificuldade esconder sua irritação, como é que você sabia que era William Blake?
Harold pareceu surpreso: – Ora, pelos seus retratos, é claro.
E o que Agnes podia dizer contra isso? Ela se ardia silenciosamente diante de seu café, lutando com o estranho ciúme que vinha crescendo nela como um escuro câncer maligno desde a noite de casamento deles havia apenas três meses quando ela descobrira sobre os sonhos de Harold. Naquela primeira noite de lua-de-mel, durante a madrugada, Harold surpreendeu Agnes dum sono profundo e sem sonhos com uma torção violenta e convulsiva de todo o seu braço direito. Momentaneamente assustada, Agnes sacudira Harold até acordá-lo pra perguntar em carinhosos tons maternais qual era o problema; ela pensou que ele pudesse estar se debatendo nas garras dum pesadelo. Não o Harold.
– Eu estava acabando de começar a tocar o Concerto do Imperador, ele explicou sonolento. Eu devia estar erguendo o braço pro primeiro acorde quando você me acordou.
Agora, no começo de seu casamento, os sonhos vívidos de Harold impressionavam Agnes. Toda manhã ela perguntava a Harold o que ele tinha sonhado durante a noite, e ele lhe contava com detalhes tão ricos como se descrevesse algum significativo evento real.
– Eu estava sendo apresentado num encontro de poetas norte-americanos na Biblioteca do Congresso, ele reportava com gosto. William Carlos Williams estava lá com um grande capote grosso, e aquele que escreve sobre Nantucket, e Robinson Jeffers parecendo um Índio Americano, do jeito que ele está na foto da antologia; e aí o Robert Frost chegou dirigindo um carrinho de salão e disse uma coisa espirituosa que me fez rir. Ou: – Eu vi um belo deserto, todo em tons vermelhos e roxos, com cada grão de areia parecendo um rubi ou uma safira jorrando luz. Um leopardo branco com manchas douradas estava sobre um córrego azul brilhante, as patas traseiras numa margem, as dianteiras na outra, e uma fila de formigas vermelhas cruzava o córrego sobre o leopardo, pela cauda, dorso, entre os olhos, e descendo pelo outro lado.
Os sonhos de Harold não eram nada menos do que meticulosas obras de arte. Inegavelmente, prum contador diplomado com pronunciadas propensões literárias (ele lia E. T. A. Hoffmann, Kafka, e os mensários astrológicos em vez do jornal nas idas de trem ao trabalho), Harold possuía uma imaginação surpreendentemente rápida e colorida. Porém, gradualmente, o hábito peculiar de Harold de aceitar seus sonhos como se fossem realmente uma parte integrante de sua experiência quando acordado começou a enfurecer Agnes. Ela se sentia abandonada. Era como se Harold gastasse um terço de sua vida entre celebridades e fabulosas criaturas lendárias num mundo estimulante do qual Agnes se achava perpetuamente exilada, a não ser de ouvir falar nele.
À medida em que as semanas se passavam, Agnes começou a se remoer. Apesar dela se recusar a contar isso a Harold, seus próprios sonhos, quando ela os tinha (e isso era dolorosamente raro), aterrorizavam-na: paisagens escuras rebrilhando, povoadas com irreconhecíveis figuras ominosas. Ela nunca conseguia se lembrar desses pesadelos em detalhes, mas perdia suas formas na hora mesmo em que lutava por acordar, retendo apenas a sensação aguda de sua atmosfera abafada, carregada de tempestades, sensação opressiva que a assombraria através do dia seguinte. Agnes tinha vergonha de mencionar essas cenas fragmentárias de horror a Harold, por medo que elas refletissem muito desabonadoramente os seus próprios poderes de imaginação. Os sonhos dela – poucos e distantes como quer que fossem – soavam tão prosaicos, tão tediosos em comparação com o majestoso esplendor barroco dos de Harold. Como ela poderia contar pra ele, simplesmente, por exemplo: eu estava caindo, ou: mamãe morreu e eu estava tão triste, ou: alguma coisa me perseguia e eu não conseguia correr? A verdade pura e simples, Agnes percebia com uma fisgada de inveja, era que sua vida de sonho faria o mais dedicado psicanalista se segurar pra não bocejar.
Onde estavam, imaginava Agnes ansiosamente, aqueles férteis dias de infância quando ela acreditava em fadas? Naquela época, pelo menos, o sono dela nunca era sem sonhos nem estes eram chatos e feios. Ela havia sonhado, em seu sétimo ano, como recordava ansiosamente, com uma terra da caixa dos desejos sobre as nuvens onde caixas dos desejos cresciam em árvores, parecendo-se bastante com moedores de café; você escolhia uma caixa, girava a manivela umas nove vezes sussurrando seu desejo no buraquinho do lado da caixa, e o desejo virava realidade. Outra vez, ela sonhara ter descoberto três folhas de grama mágicas crescendo ao lado da caixa de correio no final da sua rua: as folhas brilhavam como fitas metalizadas de presente de Natal, uma vermelha, uma azul e uma prateada. Ainda em outro sonho, ela e seu irmão mais novo Michael estavam de casacos de neve na frente da casa de telhas brancas de Dody Nelson, raízes enroladas de pinheiros serpenteavam pelo solo duro e marrom; ela estava vestindo luvas de lã com listras brancas e vermelhas; e, subitamente, quando ela estendeu uma das mãos em concha, começou a nevar sulfato de chiclete azul turquesa. Mas era praticamente até aí que iam os sonhos que Agnes recordava de seus infinitamente mais criativos dias de infância. Em qual idade aqueles benevolentes mundos pintados de sonho a tinham abandonado? E por causa de quê?

Enquanto isso, infatigavelmente, Harold continuava a recontar seus sonhos no café-da-manhã. Uma vez, numa época depressiva e sombria da vida de Harold antes dele conhecer Agnes, Harold sonhou que uma raposa vermelha corria pela sua cozinha, gravemente queimada, sua pele chamuscada de preto, sangrando com várias feridas. Depois, confidenciou Harold, num período mais auspicioso após seu casamento com Agnes, a raposa vermelha aparecera novamente, miraculosamente curada, com a pelagem florescendo, pra presentear Harold com uma garrafa de tinta preto permanente. Harold tinha uma afeição particular por seus sonhos de raposa; eles recorriam com freqüência. Assim também, notavelmente, acontecia com os sonhos da carpa gigante. – Tinha esse lago, Harold informou Agnes numa manhã abafadiça de Agosto, onde meu primo Albert e eu íamos pescar; era completamente cheio de carpas. Bom, na noite passada eu estava pescando lá, e peguei a carpa mais gigante que você pode imaginar – devia ser a tataravó de todas as outras; eu puxei e puxei e puxei, e ainda assim ela continuava saindo daquele laguinho.
– Uma vez, contra-atacou Agnes, mexendo morosamente o açúcar no seu café preto, quando eu era pequena, sonhei com o Super-Homem, um sonho todo em technicolor. Ele vestia azul, com capa vermelha e cabelo preto, bonito como um príncipe, e eu fui voando com ele pelos ares – eu sentia o vento assobiando, e as lágrimas saindo dos meus olhos. Nós voamos sobre o Alabama; eu sabia que era o Alabama porque a terra parecia um mapa, com as letras maiúsculas de “Alabama” escritas entre aquelas montanhas verdes.
Harold estava visivelmente impressionado. – O que, ele perguntou a Agnes então, você sonhou na noite passada? O tom de Harold era quase contrito: a bem da verdade, sua própria vida de sonho o ocupava tanto que ele honestamente nunca pensara em ser um ouvinte e investigar a de sua mulher. Ele olhava para a bela e preocupada fisionomia dela com novo interesse: Agnes era, como Harold parou para observar talvez pela primeira vez desde seus primeiros dias de casados, uma visão extraordinariamente atraente do outro lado da mesa da cozinha.
Naquele momento, Agnes ficou confusa com a pergunta bem-intencionada de Harold; ela já passara havia muito pelo estágio em que considerara seriamente esconder no seu armário uma cópia dos escritos de Freud sobre sonhos e fortificar-se com uma história substitutiva de sonho com a qual ela prenderia a atenção de Harold a cada manhã. Agora, jogando as reticências ao vento, ela decidira em desespero confessar seu problema.
– Eu não sonho com nada, admitiu Agnes em tons baixos e trágicos. Não mais.
Harold estava obviamente preocupado. – Talvez, consolou ele, você só não use seus poderes de imaginação o suficiente. Você precisa praticar. Tente fechar os olhos.
Agnes fechou os olhos.
– Agora, perguntou Harold esperançosamente, o que você vê?
Agnes entrou em pânico. Ela não via nada. – Nada, tremulou a voz dela. Nada a não ser um tipo de borrão.
– Bem, disse ele com vivacidade, adotando os modos dum médico lidando com uma doença que apesar de angustiante não é necessariamente fatal, imagine uma taça.
– Que tipo de taça? implorou Agnes.
– Isso é com você, disse Harold. Descreva você pra mim.
Com os olhos ainda fechados, Agnes mergulhou loucamente nas profundezas de sua cabeça. Ela conseguiu após grande esforço conjurar brilhando trêmula uma vaga taça prateada que rondava em algum lugar das nebulosas regiões no fundo da sua mente, piscando como se a qualquer momento pudesse apagar-se feito uma vela.
– É prateada, ela disse, quase desafiadoramente. E tem duas alças.
– Ótimo. Agora imagine uma cena gravada na taça.
Agnes forçou uma rena na taça, envolvida com folhas de parreira, gravadas com linhas cruas na prata. – É uma rena numa coroa de folhas de parreira.
– De que cor é a cena? Harold era impiedoso, pensou Agnes.
– Verde, mentiu Agnes, enquanto apressadamente ela esmaltava as folhas de parreira. As folhas de parreira são verdes. E o céu é preto – ela estava quase orgulhosa desse toque original. E a pele da rena tem pintas brancas.
– Certo. Agora faça a taça ficar toda polida com um brilho uniforme.
Agnes poliu a taça imaginária, sentindo-se uma fraude. – Mas está no fundo da minha cabeça, ela disse dubiamente, abrindo os olhos. Eu vejo tudo bem lá no fundo da minha cabeça. É lá que você vê os seus sonhos?
– Não, não é, disse Harold, embaralhado. Eu vejo meus sonhos na frente das minhas pestanas, como numa tela de cinema. Eles apenas surgem; eu não tenho nada com eles. Como agora, ele fechou seus olhos, eu vejo essas coroas brilhantes indo e vindo, penduradas num grande salgueiro.
Agnes silenciou carrancuda.
– Você vai ficar bem, Harold tentou animá-la com um tom jocoso. É só praticar todo dia imaginar coisas diferentes do jeito que eu te ensinei.
Agnes deixou o assunto de lado. Enquanto Harold estava fora no trabalho, ela começou subitamente a ler bastante; a leitura mantinha sua mente cheia de figuras. Atacada por um tipo de histeria voraz, ela percorreu veloz romances, revistas femininas, jornais, e até mesmo as anedotas na sua Alegria de Cozinhar; ela leu folhetos de viagem, circulares de eletrodomésticos, o catálogo da Sears-Roebuck, as instruções em caixas de cereais, os anúncios nas contra-capas de discos – qualquer coisa que evitasse encarar o vazio em sua própria cabeça do qual Harold a tinha feito tão dolorosamente consciente. Mas tão logo ela erguesse os olhos da matéria impressa, era como se um mundo protetor se extinguisse.
A imutável realidade totalmente auto-suficiente das coisas que a envolviam começou a deprimir Agnes. Com um espanto ciumento, seu quase paralisado olhar apavorado absorveu o tapete oriental, o papel de parede azul Williamsburg, os dragões dourados no vaso chinês no aparador, o desenho de medalhões azuis dourados do sofa estofado no qual ela estava sentada. Ela se sentiu engasgada, sufocada por esses objetos cuja bojuda existência pragmática de algum modo ameaçava as mais profundas e secretas raízes de seu próprio efêmero ser. Harold, ela sabia apenas bem demais, não toleraria essa vanglória de absurdos com mesas e cadeiras; se ele não gostasse da cena diante de si, se ela o chateasse, ele a transformaria pra se adequar à sua imaginação. Se nalguma doce alucinação, lamentou Agnes, um polvo viesse pra ela serpenteando pelo chão, com padrões de roxo e laranja nos tentáculos, ela o abençoaria. Qualquer coisa pra provar que seus poderes imaginativos em formação não estivessem irremediavelmente perdidos; que seu olho não era meramente uma lente de câmera que gravava os fenômenos circundantes e os deixava desse jeito. – Uma rosa, ela se descobriu repetindo vaziamente, como uma nênia funeral, é uma rosa é uma rosa....
Uma manhã quando Agnes lia um romance, ela subitamente percebeu pra seu horror que seus olhos tinham passado por quatro páginas sem absorver o significado duma só palavra. Ela tentou de novo, mas as letras se separavam, contorcendo-se como pequenas cobras pretas malevolentes pela página sibilando um jargão intraduzível. Foi então que Agnes começou a freqüentar o cinema da esquina regularmente a cada tarde. Não importava se ela tivesse visto o filme várias vezes anteriormente; o fluido caleidoscópio de formas diante de seus olhos encantava-a num transe ritmado; as vozes, falando nalgum agradável código ininteligível, exorcizavam o silêncio mortal na sua cabeça. Finalmente, por meio de muita adulação, Agnes persuadiu Harold a comprar um aparelho de televisão em prestações. Aquilo era bem melhor que o cinema; ela podia beber licor de cereja enquanto assistia TV durante as longas tardes. Nesses últimos dias, quando Agnes saudava Harold ao retornar a cada noite, ela descobriu, com uma certa satisfação maliciosa, que o rosto dele se borrava diante do olhar dela, de forma que ela podia mudar suas feições conforme quisesse. Às vezes ela lhe dava uma pele verde-ervilha, às vezes lavanda; às vezes um nariz grego, às vezes um bico de águia.
– Mas eu gosto de licor, disse Agnes com teimosia a Harold quando, aparentes que se tornaram as tardes dela bebendo sozinha mesmo aos olhos indulgentes dele, ele pediu pra ela parar. – O licor me relaxa.
O licor, no entanto, não relaxava Agnes o suficiente pra fazê-la dormir. Cruelmente sóbria, gasto o visionário torpor do licor, ela deitava dura, retorcendo os dedos como garras nervosas nos lençóis, muito tempo depois que Harold já respirava pacífica e regularmente, no meio dalguma rara aventura maravilhosa. Com um pânico gelado crescente, Agnes permanecia completamente desperta noite após noite. Pior, ela não se cansava mais. Finalmente, uma consciência soturna e clara do que estava acontecendo apareceu a ela: as cortinas do sono, da escuridão refrescante do esquecimento dividindo cada dia do dia anterior, e do dia posterior, estavam erguidas pra Agnes eterna e irrevogavelmente. Ela vislumbrou uma perspectiva intolerável de dias de vigília sem visões e noites se estendendo inteiras diante dela, sua mente condenada ao perfeito vazio, sem uma única imagem própria pra defendê-la do assalto devastador de mesas e cadeiras esnobes e autônomas. Ela poderia, refletiu Agnes doentiamente, viver até os cem anos: as mulheres na sua família eram todas longevas.
Dr Marcus, o médico da família Higgins, procurou, de maneira jovial, assegurar Agnes sobre suas reclamações de insônia: – Apenas um pouco de tensão nervosa, é só isso. Tome uma dessas cápsulas à noite por um período e veja como você dorme.
Agnes não perguntou ao Dr Marcus se as pílulas lhe dariam sonhos; ela pôs a caixa de cinqüenta pílulas na bolsa e tomou o ônibus pra casa.
Dois dias depois, na última sexta-feira de Setembro, quando Harold voltou do trabalho (ele tinha fechado os olhos durante toda a hora de viagem do trem, fingindo sono mas na realidade viajando num barco de velas cereja sobre um rio luminoso onde elefantes brancos se apinhavam e vagavam sobre a superfície cristalina da água à sombra de minaretes mouros fabricados completamente com vidro multi-colorido), ele encontrou Agnes deitada no sofá da sala, vestida com seu longo preferido de tafetá esmeralda estilo princesa, pálida e adorável como um lírio marrom, olhos fechados, uma caixinha de pílulas vazia e um copo de água virado no tapete ao seu lado. As feições tranqüilas dela estavam paradas num secreto meio-sorriso de triunfo, como se, numa longínqua terra inatingível aos mortais, ela estivesse, finalmente, valsando com o escuro príncipe de capa vermelha dos seus primeiros sonhos.

Sylvia Plath
Ivan Justen Santana

quinta-feira, julho 12, 2007

Sylvia Plath: a canção

ouça e veja aqui

Sylvia Plath

I wish I had a Sylvia Plath
Busted tooth and a smile
And cigarette ashes in her drink
The kind that goes out and then sleeps for a week
The kind that goes out on her own
To give me a reason, for well, I dunno
Eu queria ter uma Sylvia Plath
dentes estragados e um sorriso
e cinzas de cigarro na sua bebida
o tipo que sai e depois dorme uma vida
o tipo que sai por si só
pra me dar uma razão, sei lá

And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
E talvez ela me levasse pra França
ou pra Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- como eu gostaria de ter uma Sylvia Plath

And she and I would sleep on a boat
And swim in the sea without clothes
With rain falling fast on the sea
While she was swimming away, she'd be winking at me
Telling me it would all be okay
Out on the horizon and fading away
And I'd swim to the boat and I'd laugh
I gotta get me a Sylvia Plath
E eu e ela dormiríamos num barco
e nadaríamos no mar os dois pelados
com a chuva caindo calma no mar
enquanto ela nadasse pra longe, piscando pra mim
me dizendo que tudo estava bem
lá no horizonte e desaparecendo
e eu nadaria pro barco rindo dessa arte
- preciso arranjar pra mim uma Sylvia Plath

And maybe she'd take me to France
Or maybe to Spain and she'd ask me to dance
In a mansion on the top of a hill
She'd dash on the carpets
And slip me a pill
Then she'd get pretty loaded on gin
And maybe she'd give me a bath
How I wish I had a Sylvia Plath
I wish I had a Sylvia Plath

E talvez ela me levasse pra França
ou talvez Espanha e me concedesse uma dança
numa mansão no alto da colina
ela se jogaria nos tapetes
e me descolaria uma bolinha
então ela encheria a cara de gim
e talvez me desse um banho de arremate
- eu gostaria de ter uma Sylvia Plath

Ryan Adams
Ivan Justen Santana

terça-feira, junho 26, 2007

Loquax Wonka novamente... E feliz aniversário...


Hoje, no Wonka Bar (ali na Trajano Reis, todo mundo sabe onde), voltarei a atacar com minha eloqüência juvenil, auxiliado pela minha querida banda, os Dublês de Dublin.
Hoje também é aniversário da Zoe: e eu fiz essa postagem com tanto atraso que espero que pelo menos uma alma viva tome conhecimento e apareça lá hoje...

terça-feira, junho 19, 2007

O Sonho, de Henri Rousseau...


Yadwigha dans un beau rêve
s'étant endormie doucement
entendait les sons d'une musette
dont jouait un charmeur bien pensant.
Pendant que la lune reflète
sur les fleurs, les arbres verdoyants,
les fauves serpents prêtent l'oreille
aux airs gais de l'instrument.


Yadwigha em belo sonho

cochilava docemente

escutando os sons da flauta

que tocava um feiticeiro

enquanto a lua refletia

sobre rios e arbustos verdes

as serpentes dando ouvidos

a essas árias tão alegres


versão brasileira: Ivan Justen Santana

quarta-feira, junho 13, 2007

BLOOMSDAY NESTE SÁBADO, NÃO PERDAM! (se perderem não tem perdão...)






Neste dia 16 de junho,
o próximo Sábado,
às 16 horas,
na sede do Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Rua Visconde do Rio Branco, 1717 – fone 3232-8123),
acontecerá a palestra:

Diálogos em torno do Ulysses:
Joyce x Shakespeare - Dalton x Leminski

com o professor de literatura Ivan Justen Santana
(eu mesmo, em pessoa).

Em seguida, apresentação de pré-estréia da dupla curitibana

Dublês de Dublin

executando composições próprias e a folclórica Finnegans Wake , canção que serviu de inspiração para Joyce em seu romance mais radical e inovador.

A entrada é franca e quem estiver presente ganhará de presente o texto original da canção e a magnífica versão brasileira, adubada pelos estapafúrdios e dubilíngües Dubladores dos Dribles (outro dos codinomes desta dupla tão dúbia...)...


Faça como Marylin Monroe e leia o Ulysses brincando...

sábado, junho 09, 2007

Nossos Williams são mais Butlers, nossos Yeats muito mais Yeats... Mas gentis como eles são, agradecem a edição...

THE PITY OF LOVE
A PIEDADE DO AMOR

A Pity beyond all telling

Piedade além da verve
Is hid in the heart of Love:
Oculta-se em peito de Amor:
The folk who are buying and selling,
Gente que compra e que vende,
The clouds on their journey above,
Nuvens do vento ao sabor,
The cold wet winds ever blowing,
Ventos soprando pra sempre,
And the shadowy hazel grove
E o sombrio bosque marrom
Where mouse-grey waters are flowing,
Onde as águas cinzas seguem,
Threaten the head that I love.
Ameaçam meu amor.

***

THE SORROW OF LOVE
A TRISTEZA DO AMOR

The brawling of a sparrow in the eaves,
The brilliant moon and all the milky sky,
And all that famous harmony of leaves,
Had blotted out man's image and his cry.

O bulir dum pardal pelas beiradas,
O brilho da lua e o lácteo céu infinito,
E toda a famosa harmonia das floradas,
Mancharam a imagem humana e seu grito.

A girl arose that had red mournful lips
And seemed the greatness of the world in tears,
Doomed like Odysseus and the labouring ships
And proud as Priam murdered with his peers;
Uma garota ergueu-se rubros lábios enlutados
E parecia a grandeza do mundo em lágrimas,
Condenada como Ulisses e os navios danados
E audaz qual Príamo caindo com seus pares;

Arose, and on the instant clamorous eaves,
A climbing moon upon an empty sky,
And all that lamentation of the leaves,
Could but compose man's image and his cry.
Ergueu-se, e presto as clamorosas beiradas,
Uma lua escaladora sobre um céu infinito,
E toda aquela lamentação das floradas,
Não compunham a imagem humana e seu grito.


William Butler Yeats
Ivan Justen Santana

***

Essas duas versões brasileiras de Yeats são dedicadas à admirável Araiê, a qual solicitou-me uma boa tradução do THE SORROW OF LOVE, num comentário bem anterior neste blog.

Ela colocou nesse comentário o texto primitivo do poema, publicado pela primeira vez em 1892 (uma tradução bem ruinzinha dessa primeira versão, mas com notas bem detalhadas, pode ser vista aqui.)

Roman Jakobson dedicou um ensaio inteiro a esse poema de Yeats e as transformações nele operadas. Algo parecido pode ser lido aqui: eu recomendo amplamente...

Nota: agradeço a retificação necessária, porque realmente nenhum Yeats é mais Yeats que o verdadeiro Yeats...

segunda-feira, junho 04, 2007

Enquanto a filhinha não vem...

Full Moon and Little Frieda
Lua Cheia e Pequena Frieda

A cool small evening shrunk to a dog bark and the clank of a bucket-
Uma tardinha fria encolheu a um latido de cão e o estalo de um balde-

And you listening.
A spider´s web, tense for the dew´s touch.
A pail lifted, still and brimming - mirror
To tempt a first star to a tremor.
E você escutando.
Uma teia de aranha, tensa com o toque do sereno.
Um vaso erguido, parado e quase transbordando - espelho
A tentar uma primeira estrela a um tremor.

Cows are going home in the lane there, looping the hedges with their warm wreaths of breath-
A dark river of blood, many boulders,
Balancing unspilled milk.
Vacas já vão indo para casa no caminho acolá, circulando as ramagens com suas mornas coroas de bafo-
Um rio escuro de sangue, muito pedregoso,
Equilibrando leite não-derramado.

“Moon!’ you cry suddenly, ‘Moon! Moon!’
– Lua! você grita subitamente: Lua! Lua!

The moon has stepped back like an artist gazing amazed at a work
That points at him amazed.
A lua deu um passo atrás como um artista mirando maravilhado uma obra
Que aponta para ele maravilhada.


Ted Hughes
Versãozinha brasileirinha:
Ivan Justen, o tradutorzinho-problema.