sábado, abril 09, 2011
DE, POR E PARA MEU FILHO IAN, DENTRO E FORA DO ÚTERO
à luz de lusco-fusco dos ovários,
sentindo o sangue quente que me irriga do
rim à vesícula e outros órgãos vários,
assim, aqui, antiaéreo, abrigado,
zútico, zoomórfico, zimbro, zênite,
benzinho, bem zen, banzai, obrigado,
xadrez criptógrafo via satélite,
sou simplesmente um sim em si, no alelo
paralelo a meu próprio paralelo.
Prazer verbal de meu pai não te amole,
ler e entender minha alegria é mole,
mole igual desmolecular moléculas:
enfim, vão-se os grãos, mas ficam as féculas.
*
quinta-feira, abril 07, 2011
Ressaca do "espetáculo" de ontem
- eu pensei que íamos fazer a abertura, preparamos uma série "breve" de sete canções;
- em vez disso, o plano da organização foi que tocássemos depois do Carlos Machado e das récitas do caro amigo Fernando Koproski;
- entramos nervosos: eu, pelo menos, estava uma pilha de nervos; meu comparsa William apresentava indisfarçavelmente o agravante da ingestão de álcool, para "acalmar"; já o Edílson, que só havia tocado duas vezes conosco, uma no "ensaio aberto" no Wonka (no meu aniversário) e outra no único ensaio que fizemos juntos, estava mais tranquilo;
- em vez de dar um intervalo de uns dez minutos, que eu devia ter chamado pra reunir forças e dar oportunidade ao público de se reagrupar, fomos lá e ansiosamente atacamos o primeiro número, enquanto metade do dito público se dispersava pela sala, pra conversar, aproveitar o coquetel, e assim nos providenciar um "caloroso" ruído de fundo (isso ajudou muito na nossa concentração e no entrosamento auditivo e de conjunto, sem retorno e isolados uns dos outros - mas nada disso justifica o nosso fiasco diante de quem teve a sacrossanta educação e paciência de permanecer na plateia);
- erramos muito em todos os números, com o agravante de estar diante da Lívia, compositora de uma das canções ("Nunca houve uma mulher como Gilda"); não anunciei título nem autoria da canção "Se o Marcos Prado fosse o James Joyce" (Rodrigo Barros / Thadeu Wojciechowski/ Ferreira / Renato Quege / Sérgio Viralobos / Edílson Del Grossi); consegui confundir até o Filippo, que veio pra curtir e a quem depois tive que explicar que a Lívia não é autora da nossa versão de "Like a Rolling Stone" ("Como uma pedra rolante"), a qual executamos com requintes de crueldade, desconcatenação e desentrosamento;
Portanto:
será este o triste fim
dos Dublês de Dublin?
Talvez não, mas quem sabe sim:
eu, de minha parte,
não me convidaria mais pra tocar em lugar nenhum,
quanto mais num museu de arte.
Não obstante, sem amor nem ódio,
percam (ou não) o próximo episódio.
segunda-feira, abril 04, 2011
Dublês de Dublin, quarta à noite no MGV
Bons eventos em toda a programação da Semana Literária do MGV, com apresentação dos Dublês de Dublin na quarta-feira (na divulgação oficial, saímos com o "nome falso" de Ivan Justen Trio, mas para saber mais sobre isso vocês vão ter que aparecer por lá...).
Enfim, ao vosso gáudio imediato, segue aqui uma letra de canção de Ivan Justen Santana e William Teca, mentores intelectuais dos Dublês de Dublin.
CRIME PERFEITO
Sei que pra você sou só um brinquedo
Mas quando você brinca assim sinto medo
Do seu jeito
O crime é perfeito
Você planeja e executa
E eu é que fico suspeito
Não sei mais
O que fazer
Pois você fez a magia
Sumiu e não me fez desaparecer
Sei que você guarda algum segredo
Mas brindo ao seu desejo tredo e ledo
Nossas cartas
Estão marcadas
Mas mesmo sabendo disso
Mesmo tendo certeza
Eu jogo assim mesmo
quarta-feira, março 30, 2011
NOVELÓRIO
pós a d’Eva e Adão,
de curva costeira a dobra de baía,
nos traz por um cômodo vício de recirculação
de volta a Holo Caostelo Earredores.
Sir Tristrão,
violério d’amores,
d’além do curto mar
tinha indanão rearribado—
nem rearribará nem rearribou nem rearriba:
a Lívia-Liffey que nem vai nos levar
não passa na nossa Curitiba,
Marcos Prados não são James Joyces,
cavalos dados não se acusam os coices
e dos arredores
vão se os arres, ficam as dores.
Sejamos, então, além de escritores,
além de nossos próprios leitores,
além de violadores de amores,
nossos próprios roedores.
*
terça-feira, março 29, 2011
TRÊS PLANOS DE FUGA (em 29/03)
Procurar postagem com poema e comentário do meu caro amigo incendiário e salafrário que se autodenomina e assim assina com o singelo pseudônimo de Ruga.
Comemorar o aniversário da cidade aparecendo à noite no bar Wonka a fim de fruir a leitura de As Ruínas de Troia, pelo autor, o meu prezado Rodolfo Jaruga.
sexta-feira, março 25, 2011
MAIS UMA AQUARELA EM A-E-I-O-U
e do que nessa cidade dar-te.
Sei dos de repentes do verde
e o verso impossível viver de.
Assim sim enfim enlouqueci
pero que no quiçá pero que si.
Somos só sons monstros de monos
nos solos que osmóticos demo-nos.
Num mundo cru cruel a zebu e a gnu
imune a um bugre de e em cor a nu.
*
segunda-feira, março 21, 2011
VENHA AO MEU ANIVERSÁRIO
terça à noite, no bar Wonka:
poderemos conversar e o
meu conjunto mete bronca!
Sim: os Dublês de Dublin
apresentar-se-ão por lá:
todo público é bem-vin-
do e diversão mór não há!
Então quebre tudo em cima,
perna e pés e metro e rima,
beba vinho, água ou malte,
o que quer que for, não falte!
*
sábado, março 19, 2011
ACORDO, LIGO O COMPUTADOR E...
Ora se não é com o lance lá do blogue milionário da Bethânia?!
Mas não será já interessante a discussão nos revelar a insânia?
Será que a grana basta a desculpar cupânia e achar achânia?
Ou melhor ser gasta assim antes que algum malandro afane-a?
Ou não inventem de gastá-la num Rally de Scânia à Mauritânia?
Ou bem nalgum projeto educativo memorial do césio de Goiânia?
Será que a artista agora vai mudar seu nome pra Maria Afrânia?
Ou será um não-me-toque-em-mim por isso essa voz tamanha?
E se a poesia vale tanto, a minha rima aqui quanto é que ganha?
Não sei. Conforme cantam, a vida é tão rara, e tão estranha
que hoje todo poeta brasileiro amanheceu com cara de Bethânia.
*
sábado, março 12, 2011
Flagrando-se...
Nesta Terra mais que tenra a vaca tussa
Pelo amor dessa coceira a qual não coça:
Pede peça sua caça ganha coça
No nariz que a face oculta inculta fuça.
Não se aclara tal verbal escaramuça
Nem se alguma pena de anjo azul lhe roça,
Pois coceira peça caça coça roça
São sinais de a coisa estar já mais que russa.
Se em tal poça vê-se a fossa levadiça
A qual separa e junta o que não interessa
Ao que diga se a verdade assim se passa
Quem interpretar tais versos sem preguiça
Sinta como essa nossa cabeça avessa
Se debruça engrossa enguiça engessa amassa.
*
quarta-feira, março 09, 2011
A BELEZA E A AGONIA
— Não acredito em você, Beleza?!
A Beleza respondeu com ênfase:
— Feia como você, eu estaria na mesma.
— Mas você só consegue ser você mesma?
— É o máximo que eu consigo.
— Eu se fosse você punha as cartas na mesa.
E a Beleza, sentindo-se em perigo:
— Já não me falta mais nenhum inimigo.
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
Octavio Camargo
*
domingo, março 06, 2011
PEDIU TANTO QUE ACABOU LEVANDO...
Assim como sempre vens,
Teu dia de anos já vinha:
Então tó meus parabéns,
Minha querida Gianninha!
Do jeito que fazes anos,
Do jeito que amor é love,
Meus versos curitibanos
Celebrem teus 29!
Que esta data se repita
Muitas vezes, com carinho
(Conforme aqui fica a escrita)
Do teu poeta Ivanzinho...
*
sábado, março 05, 2011
quinta-feira, março 03, 2011
AUTOCRÍTICA COLETIVISTA UNIVERSAL DO REINO DE CURITIBA
graças aos meus cacoetes de poeta,
e pra eu não ficar com a impressão
de que assim traí aqui as minhas musas.
Entretanto relaxem e aproveitem
que agora é quase prosa e lá vem a história:
após presenciar os debates
sobre a programação da nossa rádio estatal
(vide aqui, ali e acolá)
me veio a impressão
de que nós do Paraná
(os de Curitiba em especial)
temos a vocação de sermos
chatos.
É.
Chatos.
Ou, no mínimo, chatonildos.
Basta um piá que mal saiu da escola
aprender um pouco sobre qualquer assunto
e pronto,
abracadabra e vualá!:
surge um novo chato-crítico,
que após eleger suas poucas preferências
entre as expressões máximas e mais clássicas
da área escolhida,
a seguir passa a condenar tudo mais
ao mesmo inferno inapelável
de lixo ordinário.
Basta também alguém mal iniciar
numa carreira artística
(literária, musical, arquitetônica, etcétera e afins)
pra surgir, noutro passe de mágica,
o chato-artista,
que se especializará
em empurrar suas primas produções
(geralmente de médias a quase-horrendas)
goela abaixo de quem quer que se sujeite
a prestar-lhe uns pingos de atenção.
E raramente o chato-crítico evoluirá
a uma visão equilibrada.
Ao contrário, gastará todos os cartuchos
influenciando quem estiver ao seu alcance
e incomodando quem tiver opinião própria divergente.
E raramente o chato-artista evoluirá
aos domínios técnicos e expressivos de sua arte.
Ao contrário, gastará todos os cartuchos
desinfluenciando os incautos ao seu alcance
e incomodando quem tiver senso crítico equilibrado.
Portanto,
agora eu rogo aos meus contemporâneos
e principalmente às novas gerações insurgentes:
chega de aceitar a nossa chatônica chatice congênita!
Nós já abusamos do direito de ser chatos médios,
ou pequenos ou de máxima grandeza.
Daqui por diante,
pra variar um pouco e totalmente,
vamos concentrar todos nossos esforços
em equilíbrio e competência,
e melhor ainda: em excelência.
Excelência combinada com virtudes como:
abertura ao diálogo,
postura digna e humilde
e consciência do próprio valor,
mas nunca prepotência,
idiotia, abstrusidade e solipsismo.
Nunca mais mediocrões metidos a gênios,
mas sim, ao reverso, absolutamente gênios
e absolutamente simples e espontâneos,
não posemos mais nem de coitados nem de fascistoides.
Vamos combinar o seguinte:
crítico(a)s, artistas e consumidore(a)s de cultura
nessa nossa cidade de Curitiba:
a partir de agora, todos vocês (todos nós)
não têm (não temos)
mais o direito de ser nada além de
incríveis, geniais, elegantes, simples, bons(boas),
culto(a)s, educado(a)s, equilibrado(a)s, bem disposto(a)s
camaradas e mortalmente inteligentes,
almejando e atingindo
sempre o máximo padrão de excelência
em todas as áreas da cultura
e do comportamento humano.
Que tal?
Está bom assim pra todos
ou poderia ser ainda melhor?
Hein? Hein?
*
sábado, fevereiro 26, 2011
QUEM VAI COM FERGUS?
QUEM irá vagar com Fergus agora,
E perfurar do fundo bosque a sombra
Entrelaçada, e dançar sobre as praias?
Jovem, erga então sua fronte rubra,
E, donzela, erga as suas tenras pálpebras,
E sem medo olhem esperanças gaias.
WHO will go drive with Fergus now,
And pierce the deep wood's woven shade,
And dance upon the level shore?
Young man, lift up your russet brow,
And lift your tender eyelids, maid,
And brood on hopes and fear no more.
E não mais se debrucem a pensar
Sobre o amargo mistério do amor;
Pois Fergus guia ao bosque as sombras fundas,
E guia as carruagens brônzeas ao mar,
E os brancos seios do oceano interior
E todas as estrelas vagabundas.
And no more turn aside and brood
Upon love's bitter mystery;
For Fergus rules the brazen cars,
And rules the shadows of the wood,
And the white breast of the dim sea
And all dishevelled wandering stars.
Tradutor-Fergus: Ivan Justen Santana
William Butler Yeats
*
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
BÊ-U: BU
— resistir é fútil.
A poesia é um inutensílio:
— inutensilhútil.
Rasga a túnica inconsútil:
— êne-á-é-í-ó-ú — til.
*
terça-feira, fevereiro 22, 2011
CANSADO RECICLO
onde enterram lixo lá.
As gralhas que cá gorjeiam
não são as do Paraná.
Não permitas mais que eu diga
necas de pitibiriba
senão não és Curitiba.
Nossas pernas são banguelas.
Nossos dentes são manetas.
Nossa gente é tão tão bela
por debaixo das canetas.
Nossa máscara quebrada
antecipa os nossos traços
nesses riscos nas arcadas.
Nas caladas dessas noites,
nossas campas têm mais covas,
nessas tampas tem mais sovas
e os chicotes, tão açoites,
com mil outras brincadeiras,
chispam fontes murmurantes,
jorram sangues de anteontem.
Mas antes que explodam bombas
combateremos às sombras.
*
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
ERA UMA VEZ TU DULCINEIA
Dulcineia del Toboso –
eu Quixote a ti servia
triste e magro mas garboso,
tu no palco eu na plateia,
eu elástico e tu meia,
fada tu e eu fabuloso.
Quis que fosses Dulcineia,
Dulcineia del Toboso –
eu Ulisses tu sereia,
eu galã tu Galateia,
tu medula eu sendo ideia
euforia tu meu gozo.
Ou que tal se ambos nós fôssemos o
duo Vanguarda na Veia:
tu–a prosa e eu–o proso?
Ou tu fosses Tutameia
e eu um Guimarães erroso?
Quis que fosses Dulcineia,
Dulcineia del Toboso,
porém sempre és muita areia
pro meu cami’ãozinho-Bozo.
sábado, fevereiro 19, 2011
A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO
Deixada a desabrochar sozinha;
Todas suas adoráveis amigas
Feneceram no fim da estação;
Pétala alguma da sua espécie,
Botão nenhum a brotar por perto
Reflete o rubro que lhe aparece,
Repete ao suspiro o rumor certo.
“Eu não deixarei você sozinha
Secando em caule sem mais ninguém;
Co’as adoráveis adormecidas
Você já pode ir dormir também.”
Então gentil eu disperso assim
Pétalas rubras na cama morna
Onde as amigas lá do jardim
Jazem já mortas e sem aroma.
Tão logo eu possa, sigo seu rastro,
Quando amizades forem ao chão;
Do anel brilhante do Amor tão vasto
Os diamantes também se vão.
Quando murchar o peito distante
E seu dileto também se for,
Quem vai restar, último habitante
De um mundo escuro e desolador?
(THE LAST ROSE OF SUMMER)
Thomas Moore (1779-1852)
Ivan Justen Santana (1973- )
__
Não percam as fabulosas cantoras do Celtic Woman
interpretando esplendorosamente essa canção!
Cliquem aqui ou arrepender-se-ão mortalmente!
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
PARA FAZER O SEU MELHOR POEMA
você tem que entender os fluxos do floema
e tem que saber que mesmo não estando ali
a rima
sempre estará presente
mesmo quando o tempo fechar.
Para fazer o seu melhor poema
você tem que estender os luxos de um esquema
e tem que refazer a estrofe anterior aqui
acima
do que quem lê pressente
mesmo quando isso não funcionar.
Para fazer o seu melhor poema
esqueça as suas bruxas mesmo que uma gema
e dobre a língua e a linguagem sim em si
na lima
da frase que jamais se apresente
mesmo quando se quer modelar.
*
terça-feira, fevereiro 15, 2011
CONJUGAÇÃO IMPROMPTUCURITIBADA
Esta noite eu vou Curitibar...
Tem quanto tempo que tu não Curitibarcas?
Ele me Curitibarrou ante ontens de ontem.
Deontologia é nós na fita a Curitibarbarizar?
Vossas vozes, vós não as Curitibarbacaçastes?
Elas Curitibarquilham e nem estrilham.
(Conforme o acima exposto em carne viva,
o futuro pós-posto do pretérito subjuntivo
desculhambativo sempre me confunjuntiva.)
*
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
DECIFRAÇÃO DE PALAVRAS MÁGICAS
Saia de ou volte pra casa?
ASA
Pista falsa: Virna Lisi?
NISI
Com ou sem olhos em Gaza?
MASA
Quarteirão que não se arrasa.
Felinura assim refaz a
Fé de rico em tábua rasa:
Rabisca ASA NISI MASA
*
domingo, fevereiro 13, 2011
SETE ANOS NA INTERNET
Em surto talvez filho da poesia;
Mas não blogava ao surto: traduzia
A frígida poesia que o tentava.
Palavras a esperar uma palavra
Fazia, suportando-lhes a azia;
Porém o surto, achando a vaca fria,
Em lugar de inspirá-lo, o escalavra.
Vendo assim triste Ivan que aos desenganos
Não lhes foi negada porra nenhuma
Como sem nem ter que aturar o surto,
Começa de blogar outros sete anos,
Postando: mais eu blogaria em suma
Desta arte tão comprida horror tão curto.
*
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Curitiba se transforma em Los Angeles (and vice-versa)
Mais detalhes, no Samecity´s Blog.
Aí o Octavio me desafiou a verter ao inglês o poema de duas postagens atrás, que faz referência a figuras-chave da cena poética curitibana atual.
Desafio prontamente aceito, produzi a seguinte versão (que vos apresento intercalestrofada ao original, conforme sempre faço, para vosso gáudio e cotejo).
Octavio apresenta-la-á em palestra (lecture), amanhã (quarta-feira, wednesday), às 19h (horário de Los Angeles - Pacific Time) - (em Brasília: 0h de quinta-feira), na sala Braun (Braun Room) da Main Library (Biblioteca Principal) do Occidental College.
Cliquem aqui e deem só uma olhada no gabarito dessa faculdade de artes norte-americana, a mais tradicional da Costa Oeste dos Estados Unidos...
E aí vejam o que será lido por lá, tomorrow (and tomorrow and tomorrow...)...
À ALTA CLASSE CULTURAL CURITIBANA
Ivan Justen Santana
TO THE HIGH-CLASSED CULTURED FROM CURITIBA
(Translated by the author)
Quem vai a toda parte,
vai a Alexandria e à França,
vaiaria as grandes artes
(música, letra e dança)
do Alexandre França?
One who travels the world (all its parts),
who travels to Alexandria and to France,
would he or she hiss at the great arts
(songs, plays and dances)
of Alexandre França?
E quem destrói de novo as Tróias
mas já foi a um de noivos cursilho
desconstruiria as canções do Troy Rossilho?
And one who destroys all Troys and Ylions
but who bends and knees to his received religion,
would he deconstruct the songs of Troy Rossilho?
E quem não se alivia e não espanta o tédio
ouvindo Lívia e os Piá de Prédio?
And who is not relieved and away from boredom
by listening to Lívia e os Piá de Prédio?
(Lívia and the Boys in the Condo)
Sei que aquela criatura
que não escanhoa a barba
nem bebe um mate amargo (feito eu)
agadanhará o CD-livro Língua Madura
de Octavio Camargo, Bárbara & Thadeu.
I know for a fact that he who shaves correctly
and doesn’t drink a sour mate [´Ma:te] (a kind of tea)
like me he will buy the Book-CD Língua Madura
(Mature Tongue), from Octavio Camargo,
Bárbara & Thadeu (The Polack from Barreirinha!)
Então não me xingues nem te vingues
e nunca tentes me dar de talho
se eu leio os versos do Mario Domingues
e as lascas do Ricardo Schmitt Carvalho,
e não pense que é lasqueira
se eu tolero e curto as duchas do Ricardo Corona,
e envernizo os livros do Rodrigo Madeira,
bem como os do Adriano Smaniotto
e os do Edson Falcão –
um é imperador, sem ser escroto,
e o outro, filósofo, fez sua lição –
todos estes sabemos o quanto é fabuloso
ler trabalhos críticos e poéticos do Adalberto
Müller e do Maurício Mendonça Cardozo,
os quais não seriam o que são hoje
não fossem mestres da altura de Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
e outros doutos doutores da UFPR...
So do not plan revenge nor send me curses
and never dare attack me with your tallyho
if I read from Mario Domingues his verses
and also those from Ricardo Schmitt Carvalho,
and do not think it is my madness, minha pira [´mi: ɲa ´pi: rə]
if I tolerate and dig the poems from Ricardo Corona,
and if I varnish the books from Rodrigo [Wood] Madeira,
as well as those from Adriano Smaniotto
and from Edson Falcão – (Falcon Edson!)
the former is an emperor without being a scrottum,
and the latter, a philosopher, knows his lesson –
those like us we all can say how fabulous it is
to read the critic and poetic works from Adalberto
Müller and from Maurício Mendonça Cardozo,
who would not be what they are today
were it not because of masters like Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
and other wise professors from UFPR
(the Federal University of Paraná)…
– Tá legal, Ivan: encerre!
– Alright, Ivan: time to settle down… – Ha!
Sim, encerro antes do fim,
pois a poesia também desabrocha
em meninas assim
como Sabrina, Lu, Nara e Lindsey Rocha,
sem esquecer Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger e, sim,
a não menos que magnífica Luci Collin.
Yes, I’ll settle down before the end,
since poetry also blooms from
girls like these (poets, I’d say:)
Sabrina, Lu, Nara and Lindsey,
last but not least Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger and, yes (with a grin!)
the no less than magnificent Luci Collin.
Pois bem: e já que não tens verruga,
dize-me – já que és bambambam –
já leste os poemas de Rodolfo Jaruga,
de Paulo Bearzoti e de Jaques Brand?
Indeed: and since you have no warts (and kick no rugger)
tell me – since you’re whambam (and play the grand) –
ever read the poems from Rodolfo Jaruga,
from Paulo Bearzoti and from Jaques Brand?
Entretanto, e portanto, finalizando
antes que pensem que o cordão dos
puxa-sacos aqui estou cada vez mais
aumentando, o encerramento eis que aí vai
em estilotanka de Pai-Mei-Hai-Kai:
However, and therefore, in conclusion,
before one thinks I’m a great addition to
the team of The Arsekissers (who increase by
numbers), I’ll finish this by saying hi!
in the tankastyle of a Pai-Mei Hai-Ku-Do-Kai:
quem Leminski
– Alice, Paulo, Estrela –
também Leprevost
one who reads and plays Paulo Leminski
– Alice [solitude, récif, étoile, see Mallarmé], Estrela [Star] –
also reads and plays Luiz Felipe Leprevost
e se com todos estes nem todos vão
eu – por minha vez – vou!
and if with all those not everyone will come
I – for my own turn – will go!
*
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
PROSSEGUINDO A MENSAGEM À ALTA CLASSE CULTURAL CURITIBANA
da poesia paranaense não se descobrem sem
mencionar, além de Retta e de Flávio Jacobsen,
tantos outros nomes nestes testamentos,
bastem para o momento
o de um mestre que rege:
Jamil Snege,
o de um poeta e tradutor
que mapeou do amor
o bosque:
Fernando Koproski,
e o da poeta membro do grupo Pó&Teias
a qual mais contribuiu (até o momento)
àquele blog de poemas
(sem esquecer de Cida, Angela, Andréa,
Glória, Iriene, Joselaine e Maria José),
enfim:
Deisi Perin.
Como vocês podem ver,
a poesia paranaense
continua mais que inteira,
independentemente
dessa postagem que fiz de presente
de segunda-feira.
*
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
À ALTA CLASSE CULTURAL CURITIBANA
vai a Alexandria e à França,
vaiaria as grandes artes
(música, letra e dança)
do Alexandre França?
E quem destrói de novo as Tróias
mas já foi a um de noivos cursilho
desconstruiria as canções do Troy Rossilho?
E quem não se alivia e não espanta o tédio
ouvindo Lívia e os Piá de Prédio?
Sei que aquela criatura
que não escanhoa a barba
nem bebe um mate amargo (feito eu)
agadanhará o CD-livro Língua Madura
de Octavio Camargo, Bárbara & Thadeu.
Então não me xingues nem te vingues
e nunca tentes me dar de talho
se eu leio os versos do Mario Domingues
e as lascas do Ricardo Schmitt Carvalho,
e não pense que é lasqueira
se eu tolero e curto as duchas do Ricardo Corona,
e envernizo os livros do Rodrigo Madeira,
bem como os do Adriano Smaniotto
e os do Edson Falcão –
um é imperador, sem ser escroto,
e o outro, filósofo, fez sua lição –
todos estes sabemos o quanto é fabuloso
ler trabalhos críticos e poéticos do Adalberto
Müller e do Maurício Mendonça Cardozo,
os quais não seriam o que são hoje
não fossem mestres da altura de Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
e outros doutos doutores da UFPR...
– Tá legal, Ivan: encerre!
Sim,
encerro antes do fim,
pois a poesia também desabrocha
em meninas assim
como Sabrina, Lu, Nara e Lindsey Rocha,
sem esquecer Barbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger e, sim,
a não menos que magnífica Luci Collin.
Pois bem: e já que não tens verruga,
dize-me – já que és bambambam –
já leste os poemas de Rodolfo Jaruga,
de Paulo Bearzoti e de Jaques Brand?
Entretanto
e portanto,
finalizando
antes que pensem que o cordão dos
puxa-sacos aqui estou cada vez mais
aumentando,
o encerramento eis que aí vai
em estilotanka de Pai-Mei-Hai-Kai:
quem Leminski
– Alice, Paulo, Estrela –
também Leprevost
e se com todos estes nem todos vão
eu – por minha vez – vou!
*
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Poema que estreei ontem no Wonka Bar:
sou poeta a todo gosto
que gosto não se discute
se o leitor curte sonetos
as trovas também deglute
se a moça prova um salgado
ela não nega um quitute
se em França faço biquinho
na Itália brindo salute
nas rádios enxergo imagem
na TV uso a tecla mute
e se a máquina dá pau
no teclado não dou chute
te deixo um beijo no feice
e uma palmada no orkute
*
terça-feira, fevereiro 01, 2011
segunda-feira, janeiro 31, 2011
No fim do mês, um Bóris Pasternak pra vocês...
ОПРЕДЕЛЕНИЕ ПОЭЗИИ
DEFINIÇÃO DE POESIA
Это – круто налившийся свист,
Это – щелканье сдавленных льдинок,
Это – ночь, леденящая лист,
Это – двух соловьев поединок,
É – trinado perfeitamente maduro,
É – cacarejar do gelo triturado,
É – noite empedrando uma folha no escuro,
É – dois rouxinóis em duelo acirrado,
Это – сладкий заглохший горох,
Это – слезы вселенной в лопатках,
Это – с пультов и флейт – Figaro
Низвергается градом на грядку.
É – canteiro de ervilhas asselvajadas,
É – lágrimas divinas dentro de vagem,
É – das flautas e batutas às rajadas
Fígaro que cai – granizo em flor selvagem.
Все, что ночи так важно сыскать
На глубоких купаленных доньях,
И звезду донести до садка
На трепещущих мокрых ладонях.
Crucial descoberta de uma noite toda
Nas profundezas de buracos flutuantes,
Estrela a ser trazida ao jardim à flor das
Palmas de mãos úmidas e tremulantes.
Площе досок в воде – духота.
Небосвод завалился ольхою.
Этим звездам к лицу б хохотать,
Ан вселенная – место глухое.
Calor – mais chato do que placas nas águas.
O firmamento feito árvore de outono.
As estrelas sentem falta de risadas,
Pena que o cosmo é cômico que dá sono.
Борис Леонидович Пастернак
Bóris Leonidovitch Pasternak (1890-1960)
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana
sábado, janeiro 29, 2011
NÊNIA PRA NINAR LEOPOLDO SCHERNER
é justo que o céu lhe seja dado,
ou no mínimo um púcaro búlgaro
pois quem tem sede será sedado.
Ao homem Leopoldo ainda resta vida.
Por que chorar sobre a cera derretida?
Chorar? Antes sonhar: não custa nada
num naufrágio ser náufrago que sobrenada,
ser navegador e ser Adamastor,
ser o ser que sente além da dor.
Nenhuma questão agora lhe é estorvo.
Até o nunca mais já está no bico do corvo!
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
São José dos Pinhais / Curitiba, 27/01/2011
(Para mais detalhes sobre Leopoldo Scherner,
CLIQUE AQUI)
quarta-feira, janeiro 26, 2011
A HISTÓRIA DE UM POBRE DEUS POBRE
eu já lambera os lapsos todos de todas as línguas
mas minha ira era tamanha que um dia logo ali da
beira da estrada ao nada suicida morri às mínguas
novamente me transformo em metafísica do corpo
e minha alma é recompensa seja vivo seja morto
eu sou meu ogro meu sogro meu lobo meu globo
se alegro mas não trepo joãozeio mas não bobo
numa curva do universo o tempo perde as botas
aproveito pra rever meus velhos cadernos de notas
o deus que move a peça é o deus que move o jogador
entre tantos entretantos mas com tudo em toda via
crio mundos povos sonhos como deus nenhum criaria
fim da aposentadoria pois lá vem de novo amor
*
segunda-feira, janeiro 24, 2011
CARA ÁCARA: MÁSCARA
nada está mesmo na cara
nem baratas ficam de cara
tampouco tapas na própria
mas cara que mascara sua
nunca esqueças minha cara
se a morte não é a tua cara
sequer os orgulhos do cíclope
custaram-lhe os olhos da cara
*
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Medidas dos meus sonhos...
UMA NOITE CHUVOSA NO BATEL SOHO
I've been loving you a long time
Down all the years, down all the days
And I've cried for all your troubles
Smiled at your funny little ways
We watched our friends grow up together
And we saw them as they fell
Some of them fell into Heaven
Some of them fell into Hell
Tenho amado você faz muito tempo
Por todos os anos, por todos os dias
E já chorei por todos os seus problemas
E já sorri de todas as suas manias
Vimos nossos amigos crescerem unidos
E vimos todos os seus tombos eternos
Alguns deles caíram nos Paraísos
E alguns deles, nos Infernos
I took shelter from a shower
And I stepped into your arms
On a rainy night in Soho
The wind was whistling all its charms
I sang you all my sorrows
You told me all your joys
Whatever happened to that old song
To all those little girls and boys
Me abriguei daquele baita toró
Adentrei seu abraço entre os alarmes
Numa noite chuvosa no Batel Soho
O vento assoviava todos seus charmes
Cantei pra você todos meus banzos
Você me contou todas suas alegrias
O que será que foi daqueles velhos cantos
Daqueles piazinhos e daquelas gurias
Now the song is nearly over
We may never find out what it means
But there's a light I hold before me
And you're the measure of my dreams
The measure of my dreams
Agora a canção está quase no fim
Talvez a gente nunca saiba o que significa
Mas uma luz eu trago diante de mim
E dos meus sonhos você é a medida
Dos meus sonhos a medida
Sometimes I wake up in the morning
The gingerlady by my bed
Covered in a cloak of silence
I hear you in my head
I'm not singing for the future
I'm not dreaming of the past
I'm not talking of the first time
I never think about the last
Às vezes eu acordo de manhã
Com a taberneira à minha cama
Coberta num manto de silêncio
Ouço você no crânio em chamas
Eu não canto pro futuro
Eu não sonho com o passado
Eu não falo no momento certo
Nunca penso no minuto errado
Now the song is nearly over
We may never find out what it means
Still there's a light I hold before me
You're the measure of my dreams
The measure of my dreams
Agora a canção está quase no fim
Talvez a gente nunca saiba o que significa
Mas uma luz eu trago diante de mim
E dos meus sonhos você é a medida
Dos meus sonhos a medida
Canção original: The Pogues (Shane MacGowan)
Versão brasileira: Ivan Justen Santana
segunda-feira, janeiro 17, 2011
TENTANDO (E NUNCA CONSEGUINDO) SUPERAR MEUS AMIGOS POETAS
beijo ou não beijo: aí estão os lábios
a marcarem sem batom os alfarrábios
será mais nobre na mente sofrer
as flechas e os estilingues do prazer
ou ajustar tais bodoques na língua
e acertá-la de setra no que xingo-a?
eis o respeito de um peito sem jeito:
fez-se bem redondo e bem redondo foi feito
eis a de graça boceta pandora que aleita
os meus orgasmos nesta colheita perfeita
*
terça-feira, janeiro 11, 2011
Apesar de não ser de verdade um dia ivânico,
onze do um de dois mil e onze
hoje pra mim quase nada está trágico
as horas soando feito estátuas de bronze
hoje fiz tudo como num plano estratégico
como se eu fosse um estrátego desestragado
nenhum trago me foi ingrato ou alérgico
nada me soube amargo nem restou de lado
esta noite está sendo uma noite típica
mas muito mais típica que um som de zê
pois mesmo esta rima típica triplica-se
em noite de onze do um de dois mil e onze
serão onze horas da noite ou vinte e três horas
leio que um amigo poeta está vazando felicidade
parafraseando um verso de todos os amigos e agoras
meu coração vaza estrelas nas nuvens chuvosas da cidade
*
domingo, janeiro 09, 2011
Poema pra comunidade Paulo Leminski no Orkut
(propriedade / capitalismo / poesia)
sugeridas pela "membra" Sandra, no tópico
"seja criativo faça uma poesia com o tema dado")
Quase todo mundo anseia a livre gestão.
Quase ninguém se compromete numa questão.
Quase todo mundo sabe criticar todo o resto.
Quase ninguém ousa uma autocrítica justa.
Quase todo mundo busca a liberdade.
Quase ninguém a nota na disciplina.
Quase todo mundo nunca se procura.
Quase ninguém topa si mesmo ali na esquina.
Quem nasce e cresce neste capitalismo
um dia aprenderá a reconhecer o altruísmo?
Quem só lê (ou nem mal lê) prosa vazia
um dia interpretará (de Mallarmé) a poesia?
Quem é capaz de questionar a propriedade?
Ficai todos vós (em toda voz) à vontade...
*
sábado, janeiro 01, 2011
A MAIOR METÁFORA DO UNIVERSO
são duas:
a primeira é o ferro elétrico,
porque o universo é tudo
e tudo passa.
A segunda maior metáfora é a vinha,
pois, apesar de eu considerar
seus frutos maravilhas da natureza
e talvez a nossa mais incrível argamassa,
a verdade que reafirmo é que
tudo passa,
e assim, até a uva
passa.
*
EPÍLOGO:
Se eu nunca blogasse,
talvez apenas gravasse
os meus versinhos em bronze.
Porém, e portanto, que tudo passe
e mesmo sem métrica nem classe,
feliz 2011!
*
segunda-feira, dezembro 27, 2010
TREVOS DE MORTE, AMOR & LEI
Haverá morte após amar-te?
Haverá amor após a lei?
Sim, haverá, e enquanto houver
Eu a verei e ela os verá
E amor também. Ouvi-los-ei
E haver-vos-eis e me ouvirás
Ver-te mulher conforme a Dama
Que o ouviu e assim reouve-a o Rei.
*
terça-feira, dezembro 21, 2010
EXTRA, EXTRA! COYOTES INVADEM CWB
CURITIBA / URGENTE: Parem as máquinas de café! Nesta quarta-feira (22), às 18h, Mario Domingues e Ivan Justen Santana lançam no Brooklyn Coffee Shop (Trajano Reis, 389 - tel. 3618-0388) o número 21 da revista Coyote, à qual ambos os poetas contribuíram com a expressiva marca de 20 poemas (11 de Mario e 9 de Ivan). Cada exemplar será vendido a módicos 10 reais (eu disse: dez reais! Quem não chegar cedo vai ficar sem revista, e não digam que eu não avisei...).
Também será lançado (e relançado) o segundo livro de poemas de Mario Domingues: Musga (Primeiro de Maio-PR: Mirabilia/ ALL / FCC, 2010). Musga vai ser entregue mediante irrisórios 20 reais (estou avisando: vinte reais! Quem demorar vai ficar a ver versinhos no Natal...).
Seguem-se aqui imagens da Coyote 21 e de Mario e de Ivan (para os arquivos do departamento secreto de polícia antiartística) -- esses meliantes são perigosos e estão armados de metáforas até os dentes!
Mário Domingues, perpetrando poesia.
Ivan Justen Santana, ocultando-se em Floripa.
terça-feira, dezembro 14, 2010
PRA NÃO DIZEREM QUE NUNCA TENTEI MATAR MEUS PAIS
A propósito, nunca foi e nem será preciso matar o Dalton Trevisan. Além de ele não ser exatamente um poeta, já é um morto-vivo, um nosferatu. Mas pra alegria dessa gente que adora ver sangue, confesso: se Dalton estivesse vivo de verdade, ontem eu talvez o matasse ou, no mínimo do máximo, tentasse executá-lo, ouvindo um som no talo.
Helena Kolody transcende tais questões, já que ninguéns aqui a não ser poetas e poetisas sabem que ela não morreu, nem nunca morrerá. Mas às gentes carniceiras que porventura saibam quem é Helena, por mais improvável que seja ou haja tal combinação de gente, licenciaria que me vissem dilacerando-a, verso por verso jazendo esquartejado num papel branquíssimo de tão transparente.
Já o Marcos Prado eu tive várias chances de matar. Acaba de acabar aqui minha última chance, já que mencionei novamente o nome dele.
E Thadeu Wojciechowski bem que poderia ser minha próxima vítima, porém nunca será, pois não matarei ninguém antes dele, que nunca será tampouco o último da lista. Além disso, apesar de ser um coxa-branca, Thadeu é meu amigo, e assassinato é o tipo do favor que não presta fazer nem ao pior nem ao melhor dos nossos amigos.
Voltemos a falar do Leminski, epítome de todos os que alguns adorariam que eu quisesse matar. Imagino, por exemplo, o que Leminski pensaria de Bocágil, pseudônimo da (ou das) criatura(s) que me mataram (ou quiseram me matar: dá quase na mesma, não é, gentarada?). Talvez o polaco me parabenizasse, nessa ocasião, por eu então ter me tornado um I-Juca-Pirama, ou seja: "aquele que é digno de ser morto".
Leminski certamente agradeceria também ao Rodrigo Madeira, pelo poema em que este confessa ter assassinado aquele: simbolicamente, não há honra maior que matar o maior poeta da geração anterior. Ou há?
Em verdade mentirosa (ou em mentira verdadeira), eu vos digo que há. E digo, outrossim, que eu me considero digno de tais honrarias ainda maiores. Porque se agora eu quero que não digam que nunca tentei matar meus pais, também gostaria que percebessem que não vou matá-los.
Sim: não matarei Emiliano Perneta. Nem Dario Vellozo. Nem Tasso da Silveira. Nem Jamil Snege. Nem Wilson Bueno. Nem os(as) que não li ou que esqueci (por meu desacerto).
Sim: tampouco matarei os vivos e as vivas. Alice Ruiz, durma tranquila. Estrela, idem. Fernando Koproski, Alexandre França, Amarildo Anzolin, Mario Domingues, Jaques Brand, Adriano Smaniotto, Batista de Pilar, Marcelo Sandmann, Luiz Felipe Leprevost, Marilia Kubota, William Teca, Luci Collin, Ricardo Pozzo, Bárbara Lia, Rodolfo Jaruga, Monica Berger, Edson Falcão, Paulo Bearzotti, os Ricardos (o Carvalho e o Corona), os Rodrigos (o já citado Madeira e o Garcia Lopes), enfim, todos vocês que sabem que são poetas, mesmo os mais novinhos e ingênuos (como não é bem o caso do Rafael Walter, e nem era o do Cláudio Bettega), mesmo as aparentemente mais "naïves", como as Lucianas (a Cañete e a do Rocio Mallon), todos e todas que ao não mencionar aqui machucarei (ou não): no que depender de mim, vocês podem descansar em paz, vivos e vivas!
Pois no fundo é muita estupidez precisar matar (ou tão somente anular) qualquer poeta, vivo ou morto, fraco, forte, vitaminado ou meia-boca. E no fundo mesmo, as coisas não são assim. Angústias da influência pertencem aos mais específica e autocondenadamente críticos. E até o Fernando Pessoa acabou se transformando num bando de idiotas da subjetividade, que preferiram não casar e não viver, pra poderem ensaiar e escrever obras imortais.
Contudo, como bem viu e melhor poetou Leminski, é mais tesão viver bem e "quase-feliz" do que querer tentar (ou até ser) Homero, Dante, Shakespeare, quer sendo uma pobre Dickinson abilolada em casa, uma Plath devastada pedindo água morna, ou um Baudelaire sifilítico tentando loucamente dar um beijo nos anjos rebelados.
Já Vladímir Maiakóvski poetou imorredouramente, e foi suicidado (sua última frase: "não atirem, camaradas!"). E, gigante dos gigantes, James Joyce padeceu vítima de glaucomas, hérnias perfuradas, desastres de família, duas guerras mundiais e um dia treze azarado.
Enfim, por tudo isso, eu posso até morrer, mas não matarei, e nem sequer matar-me-ei. Por mais que esperem que eu supere a geração anterior por meio da força bruta e (ou) da desconstrução e (ou) da desleitura e (ou) do ciúme atemporal tornado complexo de castração, e apesar de admitir que já tentei esses caminhos e fracassei, a partir de aqui e agora tudo que declaro e declararei resumir-se-á simplesmente (conforme tenho agido, para horror dos "incompreendedores" a supor a vida menos importante que a poesia), retomando: resumir-se-á numa palavrinha genial de tão desarmadora:
sim.
*
Sim, sou eu, aos 4 ou 5...
sábado, dezembro 11, 2010
DOIS LANÇAMENTOS DE HOJE
Será no Espaço Cênico (Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305), a partir das 19 horas.
A propósito, vejam (e leiam) essa nota breve aqui na Gazeta do Povo.
O outro lançamento, aqui neste humilde tugúrio-blog, é o de um poema inédito: voilà!
*
GATO PRETO, GATO PARDO E GATO BRANCO
Gato preto, gato pardo e gato branco
dispunham-se à vontade, os três se encarando.
Não me perguntem como ou quando. Afianço-lhes
que tais felinos formavam um tipo de triângulo.
– Mas é claro que esse cara gosta de gatos! –
disseram os olhos ingênuos de gato branco.
– Tá. Só que fede mais que sete cães molhados,
e fala feito um tolo, e anda igual a um manco –
disseram as pupilas rutilantes de gato preto.
Então entendi que eles se referiam a mim.
Porém gato pardo já detectava em beco estreito
o charme duma gata cujo cio não tinha fim.
*
segunda-feira, dezembro 06, 2010
REDUZINDO HEIDEGGER A PÓ
No meio do sagrado tinha um pecador.
Virtude é a arte de quem ama a dor.
O porco mais triste vira torresmo.
O som que soa em mim é desafinador.
Eu não conto tempo como mingau.
Não leu que nem Thadeu, tomou um pau.
William, quase-ídolo, desvela o adorador.
Ser por ser, a mulher é que é essencial.
Sou capaz de matar qualquer um de vocês.
Somos bem melhores em quatro do que em três.
Burrice se enterra com pá de cal.
__Não há poesia pra filosofia vã.
__Aqui jazem Bruno, William, Thadeu e Ivan.
Antonio Thadeu Wojciechowski
Bruno Sanroman
Ivan Justen Santana
William Crosué de Oliveira Teca
Martin Heidegger em 1960. Fonte: http://www.martin-heidegger.net/
quarta-feira, dezembro 01, 2010
MOTIVO DE OTIMISMO EM DEZEMBRO DE DOIS MIL E DEZ
Que nunca param de recomeçar,
Da sujeirada em cidades e em serras,
Vulcões lavando a terra, o céu e o mar,
Existe ao menos uma razão quântica
(Que talvez não convença na semântica)
Pra sermos pessimistas ao revés:
À parte os traumas deste mundo em crise
Que não tem analista que analise,
A década de zero acaba em dez.
*
terça-feira, novembro 30, 2010
CANÇÃO DE REDENÇÃO
Vendeu eu pros navio mercante
Logo depois que eles tirou eu
Do poço que num tem fundo
Mas minha mão foi feita forte
Pela mão do Todopoderoso
Nessa geração a gente avança
Triunfantemente
Vocês não ajudariam a cantar
Estas canções de liberdade?
Pois só o que jamais me falta
São canções de redenção
Emancipem-se da escravidão mental
Só nós mesmos libertaremos nossas mentes
Não tenham medo da energia atômica
Pois nenhum deles pode parar o tempo
Prosseguirão matando nossos profetas
Enquanto ficamos de lado, assistindo?
Alguns dizem: é só parte da coisa,
Temos que cumprir o Livro
Mas você não ajudaria a cantar
Esta canção de liberdade?
Pois só o que jamais me falta
É esta canção de redenção
Bob Marley (Redemption Song)
Versão brasileira: Ivan Justen Santana,
atendendo um pedido do grande Soruda San
sexta-feira, novembro 26, 2010
Um comunicado e quatro links fora de série...
no Domingo (28/11), às 16h,
pretendo comparecer à Pedreira Paulo Leminski,
e levarei meu arco&flecha
(ou seja: meu violãozinho)
desencordoado.
Para maiores informações, visitem estes links:
http://mordidaoficial.wordpress.com/2010/11/24/movimento-dos-sem-palco/
http://mordidaoficial.wordpress.com/2010/11/23/ode-ao-silencio/
(este é o melhor!)
http://www.gazetadopovo.com.br/blog/sobretudo/?id=1070677
***
Aproveito pra propagandear mais uma maravilha,
a Revista Errática -- clicai e não vos arrependereis!
segunda-feira, novembro 22, 2010
Aguardem mais um lançamento...

Enquanto isso, curtam mais uma brilhante foto de Ricardo Pozzo, e não se esqueçam de visitar o blog PÓ&TEIAS.

Reitoria da UFPR, em Curitiba.
terça-feira, novembro 16, 2010
Para as caravanas ladrarem...

sábado, novembro 13, 2010
PRIMEIRO AUGÚRIO DE INOCÊNCIA COM ÚLTIMA RECEITA DE EXPERIÊNCIA
MODO DE PREPARO:
Pego de jeito uma quadrinha inglesa.
Dispo-lhe as formas, ritmo e substrato.
Remodelando a língua da freguesa,
Mostro pra essa beleza como a trato.
INGREDIENTES:
To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.
VOILÀ:
Notar um mundo na areia de um grão
E um paraíso numa flor do mato:
Ter o infinito na palma da mão
E a eternidade num minuto exato.
*
sábado, novembro 06, 2010
ARQUITETURA DA DESCONSFRUIÇÃO
Era fumaça em gelo seco
Onda de magma – rocha em lava
Quanto mais oculta no beco
Mais revelava
Duma pelugem colorida
Ou fofa nuvem branca e preta
A retina não consolida
Nem interpreta
Proibido fruto – vinha da ira
Quer fosse só a mira da vinha
Ir e vir viram vira-vira
E assim convinha
Se as suas luzes vissem dar
Hostes aureoladas em horda
São abstrações que o paladar
Morda e remorda
Enfim festim vamos manter na
Fusa – confusa sala russa
E a face à mostra que ela alterna
Nua debruça
*

*imagem incidental: escultura de
Max Bill, "Unidade Tripartida", 1949
segunda-feira, novembro 01, 2010
Aquela esquina não quebrava em linha reta
Aquela esquina não quebrava em linha reta.
Sonhei-me ontem à noite escrevendo isso assim
E não, talvez não fosse um isso escrito assim
Num ritmo alexandrinamente anacorético,
Diurético, dispéptico, sinapsilírico,
Simétrico e obstétrico ou somente tétrico,
Sem absorventes íntimos que antipetendam
Seus fluxos sanguíneos de línguas, mínguas, ínguas,
Salivações intensas, perdigotos não-
-Intencionais e os outros mais quetais finais.
Não era nada disso. Tinha nem sumiço.
Nenhuma vez. Esquecida assim que incompleta.
Termina onde começa e se repete nisso.
Aquela esquina não quebrava em linha reta.
*
sexta-feira, outubro 15, 2010
DIÁLOGO SOBRE A RAZÃO E A EMOÇÃO
e Rodolfo Brandão de Proença Jaruga --
em 27/03/2010, este poema foi apresentado ao público
no Paço da Liberdade / SESC Paraná,
durante o Café, Leite Quente e Poesia,
evento organizado sob a curadoria de Élisson de Souza e Silva]
OS POETAS RECORDAM ESSES VERSOS DE PAULO LEMINSKI E BRUNO TOLENTINO, E CONVERSAM
RODOLFO
Se é assim, se os olhos da razão
só vêem falsos vultos na penumbra
ou sombras num espelho impetuoso
que nos revela a cada instante o nada,
o mar vazio em que se agita em vão
o nosso peito ardente, a nossa dor
mais ancestral de ser e já não ser,
se é assim, eu me pergunto então,
que metro mede o mundo, mede o homem?
Os gritos comovidos com a vida
ou a despótica razão regrada?
IVAN
Nem gritos comovidos nem razão
– seja despótica, seja regrada –
são metros pra medir homem ou mundo,
ao menos não só os gritos e as razões.
Os nossos metros são nossas palavras,
infinitas às nossas vidas breves,
mas breves ao vazio do infinito.
Se o homem viu o mundo e disse: é azul!,
nosso azimute é microvibração,
nossas razões, regras e metros são
pequenos demais. E assim se quebram.
RODOLFO
Talvez sejam palavras nosso metro.
Ou não. Talvez não são senão o chão,
o solo, o fundamento da existência,
o denso sedimento do passado,
o resto do que outrora fora rosto.
Tal como uma araucária se levanta
e estende os braços nus à luz do sol,
mas com raízes garras entre o barro,
talvez assim o ser humano seja;
talvez agarre o seu vazio ao verbo
e busque pelos bosques do instantâneo
a luz, a plenitude do sentido.
Talvez não seja busca, seja fuga.
Porém, há sempre esse caminho ambíguo
de rio que flui sem margens pelo abismo,
sem norte certo que não seja ser.
Ou não?
IVAN
_______Ou sim – enfim: não ser ou ser –
mesmo invertendo, interrompendo o rio
que você vê fluindo pelo abismo,
é impossível escapar desse “ou não”.
Mas seus talvezes já viram certezas:
vamos tentar ser mais certeiros, sim?
Pois sim, o ser humano é uma araucária,
e as palavras são, também, chão e resto:
não custa reafirmarmos fundamentos.
Mas que mais? Além disso, só o silêncio?
O choro da Energia abandonada,
a dor da Força desaproveitada,
o rudimentarismo do Desejo
expostos por esta angústia de Augusto
dos Anjos?
RODOLFO
_________Sim, silêncio entre soluços.
É disso que se faz o labirinto
em que rasteja o ser que sente e pensa.
Silêncio entre soluços, nada mais.
IVAN
Nada mais, não! Tem mais tudo no nada,
tem outras travessias (tricks and treats!),
nos trinques tem truques, tratos e extratos,
tem nonadas, tem até dodecuplicadas!,
que as trucadas não acabam nem quando
terminam. Se Leminski na razão
viu paradoxo triplo – vaziomeiocheio –
e Bruno, Tolentino e tautológico,
viu o vazio espelhando o intelecto,
eu digo que há lá mais atrás do espelho,
através deste cheiovaziomeio
há mais sim que neste texto de e-mail...
Driblemos os depressivos gambitos!
Sacrifiquemos com sempreverboímpeto
até mais ver, mais além, muito mais
mais pra lá que quaisqueres infinitos!...
RODOLFO
Pois sim, há sempre um nada além de tudo.
A cada instante o ser que eu sou desfaz-se
e a cada instância inovo a minha face,
enfrento um velho espelho de absurdos.
E nada ou pouco vale o grito surdo
de um peito emocionado ou a sintaxe
de uma razão aflita, mas capaz.
Além de mim, eu sei, o mundo é mudo.
A razão é um poder que a língua exerce
sobre mim, é uma força que me cria.
A emoção é um poder que se irradia
desde mim, são as falhas do alicerce.
Porém, nem a razão nem a emoção
é o que permite, e exige, a criação.
IVAN
Mas não, não é uma falha do alicerce
a força emocional que move o mundo
e as estrelas. Ela, amor – ou qual quer que se
chame este raio a romper o rotundo
vácuo do saber voltado a si: vértice
se achando círculo – nos mostra que um do
outro dependemos. Por mais que quebrem-se
(e aqui se quebram também forma e fundo)
sintaxes, razões, eixos axiomáticos,
tais tentativas subsumem-se a um sim.
Àquele sim fundamental dos práticos,
a esse sim que nos cala e nos diz sim.
Sem sim, metas e teses, em metástase,
sobram simplesmente sem rima sim.
RODOLFO
Talvez o sim dos sábios, esse sim,
princípio feminino do ocidente,
que escapa aos moles lábios mulheris,
decerto lábios dóceis, porém hábeis,
o sim que traz em si o sêmen da razão
e por que não da emoção também,
o duplo e dúbio e amoroso sim
talvez sucumba mudo e genuflexo
ante o sentido, origem do divino,
e dos humanos o mais alvo fim.
IVAN
Protesto viva e veementemente!
Não venha travestir sim de dublê
e os duplos fiquem lá com Dostoiévski!
Um sim nunca sucumbe genuflexo:
sim sem mudez transcende qualquer sexo!
Pois sim não fica à frente do sentido:
sim é sempre assim o próprio sentido!
RODOLFO
Neste momento da conversa, Ivan,
eu me pergunto qual imagem
nos revelar iria a antinomia
que nós mal começamos a tanger.
Que imagem nos seria a bela síntese
desses conceitos, frouxos pelo tempo?
O pensamento criativo, eu creio,
não é senão o esforço sem sentido
que uma razão emocionada faz
para alcançar as lindes do sentido.
E o sim, que é síntese do verbo,
é só o princípio dessa caminhada
em precipício, nunca é o fim.
Perseguir o sentido é dar sentido
à vida. E o pensamento quando vivo,
tenso, emocionado e racional,
ele tende, ao render-se, a se fazer,
a transformar-se em simples poesia.
E a palavra vai a par do pensamento,
e o destino de uma língua é um poema.
Razão e emoção são condições
do denso pensamento ocidental.
E a imagem que me vem aos olhos
é a de um rochedo negro e impassível
ungido por um mar impetuoso.
As altas ondas de um azul marinho
explodem brancas contra a pedra escura,
carícias de cristal em pele rude,
e as aves, riscos negros espirais,
voam alvoroçadas em alarde,
e o céu parece recurvar-se à cena,
acinzentado, atento ao drama, grave.
E este poeta então entende tudo,
entende que a pesar do enfrentamento,
de todas as contradições ingênuas,
da aflição, das feridas e das dores,
que a pesar do passado em cicatrizes
e de todas as incompreensões,
é tudo um baile a desvelar aos olhos
a beleza de instâncias da existência,
fragmentos do real que se reúnem
sob o auspício arbitrário do sentido.
IVAN
Rodolfo: já respondo a questão-síntese,
mas, antes, tolere aqui que eu me queixe
ao Élisson, o maior responsável
por escolher o tema deste diálogo.
Tentarei ser, conforme o nome: Justen.
Cito Élisson, no e-mail de convite,
diz: “Dentro das temáticas propostas,
e após ler alguns escritos seus,
gostaria de convidar vocês
[sim!] para que declamem poesias
na temática razão x emoção.”
Confesso: quando li isso, pensei:
“Falar em razões e emoções é coisa
daquela cançãozinha do NX
Zero”... Zero foi quanto eu mereci
por pensar assim, tão chão, tão mesquinho.
E o Élisson, destaque-se, escolheu
com base em leituras que fez de nós.
Então, com o tema temos nossa vez
e conforme você versou, Rodolfo,
eis que “mal começamos a tanger
a antinomia”. Que imagem seria
“a bela síntese desses conceitos”?
Entre razões e emoções, qual saída?
É, sim, fazer valer a pena ser
poeta, e escutar de volta a chave
na fechadura da porta. Moramos
na Rua Real Grandeza, sim, cito
agora MACALÉ, Jards. Abram, vejam:
jatos de sangue! Abram, voltem, vejam:
espetáculos de beleza!...
Não penso em dar um corte, nem embromo:
sei com Jards que vale a pena ser poeta,
e isso sei também com você, Rodolfo,
com Waly Salomão, com Tolentino,
com quantos, quantas, poetas aqui!
Você, Rodolfo, e todos nós sabemos:
“apesar das contradições ingênuas,”
você versou tão bem que eu cito mais:
“fragmentos do real que se reúnem”
“e este poeta então entende tudo”
“e o destino de uma língua é um poema”!
O destino de uma língua é um poema:
– isso foi sim muito bem dito mesmo,
pois início, meio e fim são poesia
e assim todas questões são respondidas!
***
sexta-feira, outubro 08, 2010
CLÁUDIO BETTEGA (1971-2010)
Só agora confirmei e comecei a tentar assimilar essa saída de cena do Cláudio...
Deixo um tributo, a exemplo do que já fizeram Rafael Walter, Ricardo Pozzo, Barbara Kirchner e Luiz Felipe Leprevost.
Sinal de que para nós, amigos e colegas de arte e de vida, pelo menos poeticamente o Cláudio Bettega vai continuar vivo.
Movimento:
parte do
meu eu,
em distopia,
avança pelo
tempo,
numa sinfonia
de ar e euforia,
perdido
enfrentamento
que me faz
amar e sentir o
vento a todo
momento.
Cláudio Bettega
*
quinta-feira, outubro 07, 2010
PRIMEIRA CARTILHA DE CURITIBANICE APLICADA
Fale como se escreve.
Escreva como se pensa.
Pense como se falasse.
Silencie a um silvo breve.
2
Sorria como se fecham os olhos.
Feche os olhos como se tapam os ouvidos.
Tape os ouvidos como se sorri.
Sim: você nunca esteve nem aqui.
Não: não se troca o E final pelo I.
3
Eu nem te ligo. Eu é um lugar que não existe.
Tu também. Este teu tu inexiste até que triste.
Ele ou ela pouco importa. Casamento atrás da porta.
Nós somos sós enquanto não somos um S. O. S.
Vós não soais na voz. O mundo vos esquece.
Eles miram. Elas passam. Todos saem de moda.
Intervalo comercial: o mundo gira e a lusitana roda.
*
segunda-feira, outubro 04, 2010
CLÁSSICOS PARANAENSES
Orientador: Ivan Justen Santana
(Mestre em Letras pela USP)
Início: 07/10/2010
Período: Quintas-feiras à tarde, das 15h às 17h,
no Centro Paranaense Feminino de Cultura
(Visconde do Rio Branco, 1717, tel. 3232-8123).
Curso aberto a todos os interessados, gratuito
(certificado aos participantes com 80% de presença).
Carga horária: 20h
(em 10 sessões semanais de duas horas).
***
O curso Clássicos Paranaenses objetiva divulgar a literatura paranaense (desde suas origens e formação até a produção contemporânea) e assim ampliar a consciência do público leitor sobre a literatura feita no Paraná.
Compõe-se especialmente de leituras de textos selecionados, acompanhadas de comentários sobre autores e obras.
Apesar de primordialmente destinado às integrantes do Centro Paranaense Feminino de Cultura, o curso estende-se também à comunidade em geral (jovens e adultos), sendo gratuito e franqueando a todos os interessados as instalações do Centro Feminino.
O orientador, Ivan Justen Santana (Licenciado pela UFPR, Mestre pela USP), pesquisa as letras paranaenses desde 1991.
Sinopse da ementa:
(No. da sessão – Tema – Principais autores)
1 – Origens da Literatura Paranaense – Bento Cego
2 – Romantismo no Paraná – Fernando Amaro; Júlia da Costa
3 – Origens do Simbolismo – Dario Vellozo; Silveira Neto; Nestor Victor
4 – Evolução do Simbolismo – Emiliano Perneta; Andrade Muricy
5 – Pré-Modernismo x Modernismo – Emílio de Menezes; Euclides Bandeira; Sharffenberg de Quadros
6 – O Modernismo paranaense – Tasso da Silveira; Ada Macaggi; Newton Sampaio
7 – O caso Dalton Trevisan – Dalton Trevisan
8 – A síntese da poesia paranaense – Helena Kolody
9 – Pós-Modernismo – Jamil Snege; Paulo Leminski; Alice Ruiz
10 – Contemporaneidade – Cristóvão Tezza; Marcos Prado; autores atuais
quarta-feira, setembro 29, 2010
Um poema resgatado dum passado remoto...
em cadências de infinitos semantemas,
reviro temas e remas, lemas e termos,
palmilho os extremos mais extremos,
percorro as passagens mais arcaicas,
os escolhos e os abrolhos ermos,
vasculho dos sinais aos climas,
dos debaixos aos em cimas,
degusto as maneiras várias, todas,
ajusto os jeitos tredos e ledos,
rejeito preitos e alaridos,
sujeito-me aos lodos, lidos, ludos,
apenas para fins e modos
de que graças a estes meus brinquedos
tu te exprimas e me imprimas
e eu te esprema e tu tremas e gemas.
sexta-feira, setembro 17, 2010
no meio
nomeio aquele prado: pardo
nomeio o poder: podre
nomeio nossas palavras: larvas
nomeio-te a endoderme: der-me
nomeio a ingratidão, esta pantera:
pistilo
assim, do caminho – nipônico dô –
tiro o time (ti e me em que me meti),
doo (de doer) e destilo este nosso (osso)
estilo
*
quarta-feira, setembro 15, 2010
EU, O SEU QUERIDO POETA VIRTUAL...
o seu querido
(e desprezado)
poeta (Ivan) virtual,
não sou mesmo (lesmo)
(lês-mo?) um poeta de papel:
meu coração
(também não)
também não é de papel:
meu livro (se me livro)
também (idiotamente)
quando for publicado (se for)
não será feito de papel
e eu e meu livro
seremos feito o dia de hoje
feito este céu:
de onde o sol fugiu
e um vento (frio e cinzento) veio
e o dia terminou e começou
e começou (e terminou)
no meio
segunda-feira, setembro 06, 2010
Atendendo a um "pedylan" da ótima escritora, musicista e compositora Alexandra Lemos Zagonel,
Soprando Ao Vento(Blowin' in the wind)
Quantas estradas alguém tem que trilhar
Até ser chamado de alguém?
E mais quantos mares a pomba vai cruzar
Até deitar e dormir bem?
E mais quantas vezes as bombas vão voar
Até ser banidas pra sempre?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão
Quantos anos mais as montanhas vão durar
Até deslizarem ao mar?
E mais quantos anos essa gente vai durar
Até poder se libertar?
E mais quantas vezes o homem fingirá
Que não pode ouvir nem olhar?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão
Quantas vezes mais o homem tem que olhar
Até conseguir ver o céu?
E mais quantas orelhas o homem tem que ter
Até que escute um grito seu?
E mais quantas mortes até o homem saber
Que gente demais já morreu?
Respostas, meus caros, soprando ao vento vão
Respostas soprando ao vento vão
Robert Allen Zimmerman / Bob Dylan
versão brasileira: Ivan Justen Santana
quarta-feira, setembro 01, 2010
UM CONTO DE SETE
“Muitos sabem que são sete,
porém poucos reconhecem
ou recordam-se – quais são...?”)
Gula é gula, que a tudo engole e que a tudo engula:
“Eu também gosto quando me chamam de Glutonaria,
uma palavra maior, mais cheia de recheio e poesia...
Assim como Gula, começa com um som
que vem lá do fundo da garganta,
conforme Gulodice”, disse a Gula.
A Avareza chega e resmunga:
“Eu, pra mim, prefiro Ganância,
ou melhor, Gana.
Gasta menos letras.”
Pois é, hoje a Ganância estava espoleta:
mal ouviu a voz da gula, subiu-lhe à boca
uma ânsia análoga a nada,
e teve ganas de estrangulá-la,
ou melhor: só esganá-la...
Enquanto isso,
em proclamação universal,
a Soberba declara:
“Atenderei, se me chamarem de
Ostentação, Jactância e Ufania.
Porém Orgulho não!
Orgulho soa bom demais pro meu gosto,
parece virtude...
Outrossim,
nesse ínterim,
Vaidade também não me vai muito bem,
soa feito uma palavra pobre,
meio assim "geralzona", sabem?
Coisa de quem não compreende
todo meu luxo, requinte e sofisticação...”
Por sinal, nota-se que a Soberba
adora luxo e Luxúria,
mas esta só pensa naquilo:
“Naquilo, oras! E tem outra coisa pra pensar?”,
pergunta-se a Luxúria,
com um súbito brilho malicioso no olhar,
já imaginando
se não está perdendo alguma coisa...
Quanto à Preguiça, não está nem aqui.
Mandou dizer que dela não digam nada.
Isso deixou alguém furiosa, mas
já que tem raiva até de que a chamem de Ira
– “Só tem três letras, porra!” –
melhor é sair de perto...
Vejamos o que a Inveja anda fazendo.
Ah, olha só: a Inveja estava aqui
com a gente o tempo todo,
tão dissimulada e tão discreta que ela é,
quase ninguém percebe, né?
Ficou escondidinha,
morrendo de vontade de espiar
o que os outros andavam fazendo da vida...
Nisso, veem-se três sombras que saem de fininho.
Por fim, revela-se que eram sombras
de Mentira, Falsidade e Hipocrisia.
Elas tentavam não chamar atenção demais,
receando que alguém tivesse a ideia
de pegá-las pra pecados capitais...
terça-feira, agosto 24, 2010
FELIZ DIA DO TIO LEMA PRA VOCÊ TAMBÉM
por pior ou melhor
mais ou menos que
quente
eu requente
rerrequente
ou rerrerrequente
levou sessenta e seis anos
até que
talveliz
ficasse pronta
essa sopa rala
instantaneamente
quinta-feira, agosto 12, 2010
Finalmente uma loucura absolutely begins:
Revelo à vera um verso sempre jovem:
Rimas as quais já enjoaram joões vocês
São estas quetais e outra vez comovem.
Se vespas vivem mais, menos um mês,
Fica um ou no ou, e ou mais as chuvas chovem.
Enxovalhantementissimanão:
A gosto do freguês francês e todas vão.
For um quisto de Keats, paira em pira de Byron,
Achei Shelley e soube que Blake na urna de Burns
Se fez de Ossian entre os todos e tantos Ossians:
Porém do pomar dos românticos só sobraram romãs.
sexta-feira, agosto 06, 2010
Ontem à noite. Sem sorvete.
cenário: bar-vagão-restaurante,
de nome-fantasia Parangolé,
sito à rua Clotário Portugal
(otário no Torto é Gal?),
onde sempre tinha um louco da família
acorrentado no porão
(ou seria no sótão? Mistério...) – ...
O bar-vagão-restaurante vibra
como um gigantesco forno de micro-ondas
ligado.
Dois personagens dialogam:
cura-prosador e poeta-barbeiro:
– Mas comé que aqueles concretistas tiveram a pachorra
de querer dar por encerrado o ciclo histórico do verso?
– Manha...
– O quê?
– Manha: “tiveram a manha”.
É assim que se diz, atualmente. Reformule.
– Tá: mas comé que aqueles concretistas tiveram a manha
de querer dar por encerrado o ciclo histórico do verso? –
indaga o poeta-barbeiro.
– É que não sabiam necas de nádegas de etimologia –
replica o cura-prosador:
– Soubessem que verso tem esse nome
porque sempre volta, e volta sempre,
não passavam um vexame desses.
– Necas de nádegas, certeza!
No instante em que o poeta-barbeiro diz “nádegas”,
uma freguesa de largas ancas e polpudas nádegas
adentra o recinto e senta-se numa banqueta,
diante do balcão.
O cura-prosador começa a socar uma bronha
(alá Leopold Bloom na praia às seis da tarde)
e o poeta-barbeiro, atocontínuo,
emenda outro assunto,
pra tentar disfarçar o tesão
que também o acomete:
– Caralhus! Você viu o novo livro da Assionara?
Com sorvete! Puerra: a Nara é poda pra baralho,
sindudalguma!
O cura-prosador sacode a cabeça
(também por consequência
de seus outros sacolejos, “secretos”)
e obtempera:
– Pois é. Ela é. Sinduda!
Mas, então, por que, por que você,
você não foi, não foi no lançamento,
do Amanhã. Com sorvete! Por quê?
– Caralhus! É que eu tava doente,
de cama, com febre,
e também tava com aquela fome,
fome de Knut Hamsun...
– Pelo menos, pelo menos,
não era de Charles Manson!
Os dois se cagam de rir da piada sem graça,
enquanto a freguesa, imóvel, polpudancálida
aguarda a chegada da barwoman,
a qual se recusa a comparecer ao sonho,
pois não tinha cachê,
tampouco suspiros.
Nem sequer sorvete.
