quinta-feira, março 15, 2012

PAN NUM TUM

_______I

E finalmente a chuva veio,
Lavando todo o teu torpor.
Veio no meio do teu seio,
Sabendo assim onde se por.

Lavando todo o teu torpor,
Avarandando feito esteio,
Sabendo assim onde se por,
Preenchendo um cio vazio tão cheio.

Avarandando feito esteio
Numa varanda, em vaga cor,
Preenchendo um cio vazio tão cheio,
Chovendo um vinho vingador.

Numa varanda, em vaga cor,
A chuva veio como veio,
Chovendo um vinho vingador,
Receio em meio do teu seio.

Sem finalmente a chuva veio.

_______II

Neste pantum tão tentador,
Tua vontade, mais que rima,
Vem de um desejo que este amor
Percorra em baixo e siga em cima.

Tua vontade mais que rima
Com teu amor amando o amor.
Percorra em baixo e siga em cima,
Diga o que faz ser tua a flor,

Com teu amor amando o amor,
Faz-se o poema arder no clima.
Diga o que faz ser tua a flor,
A flor que fende a dobra prima.

Faz-se o poema arder no clima
Do teu pantum tão tentador.
A flor que fende a dobra prima
Vem de um desejo, deste amor.

Deste pantum tão tentador.

_______III

Vem de um desejo deste amor.
Veio no meio do teu seio.
Neste pantum tão tentador.

E finalmente a chuva veio.

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terça-feira, março 13, 2012

CHARLES, CHARLES...

Charles, Charles, caro Charles:
com piedade hoje te entendo,
sem sezões de nojo horrendo,
sem mugido a avacalhar-lhes,

tuas flores — acochar-lhes,
nestes tempos que vêm sem do
teu estilo o dividendo,
brindes caros quero, Charles —

são o Abismo, a Morte, o Vinho;
racham pedras no caminho;
dão o Ideal a quem as lê.

Assim, assim, simplesinho,
brindo a ti, meu bom Baudinho,
traduzindo Mallarmé:

LE TOMBEAU DE CHARLES BAUDELAIRE
THE TOMB OF CHARLES BAUDELAIRE
O TÚMULO DE CHARLES BAUDELAIRE

Le temple enseveli divulgue par la bouche
The buried shrine shows at its sewer-mouth’s
O templo amortalhado mostra pela boca
Sépulcrale d’égout bavant boue et rubis
Sepulchral slobber of mud and rubies
Sepulcral do esgoto a babar lama e rubis
Abominablement quelque idole Anubis
Some abominable statue of Anubis,
Abominavelmente algum ídolo Anúbis
Tout le museau flambé comme un aboi farouche
The muzzle lit like a ferocious snout
A fuça toda em flama qual ganido atroz

Ou que le gaz récent torde la mèche louche
Or as when a dubious wick twists in the new gas,
Ou que ao recente gás se torce a dúbia rosca
Essuyeuse on le sait des opprobres subis
Wiping out, as we know, the insults suffered
Raspando ao que se sabe os sofridos opróbrios
Il allume hagard un immortel pubis
Haggardly lighting an immortal pubis,
Ele incendeia esgazeado um imortal púbis
Dont le vol selon le réverbère découche
Whose flight roosts according to the lamp
Cujo voo de acordo com o lampião decola

Quel feuillage séché dans les cités sans soir
What votive leaves, dried in cities without evening
Ao qual folhas secas nas cidades sem treva
Votif pourra bénir comme elle se rasseoir
Could bless, as she can, vainly sitting
Votivas abençoariam no que se assentam
Contre le marbre vainement de Baudelaire
Against the marble of Baudelaire
Contra o mármore vãmente de Baudelaire

Au voile qui la ceint absente avec frissons
Shudderingly absent from the veil that clothes her
Do véu que a circunda ausente com calafrios
Celle son Ombre même un poison tutélaire
She, his Shade, a protective poisonous air
Ela a própria Sombra um veneno tutelar
Toujours à respirer si nous en périssons
Always to be breathed, although we die of her.
Sempre a o inspirarmos apesar de mortífero

Stéphane Mallarmé
A. S. Kline
Ivan Justen Santana
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segunda-feira, março 12, 2012

VOCÊ AGORA É UMA GAROTA CRESCIDA

(You're A Big Girl Now, de Bob Dylan)

Nossa conversa foi curta e doce
Quase fui ao chão, foi como se fosse
Volto pra chuva mais cedo
E você fica em terreno seco
Você conseguiu isso na vida
Você agora é uma garota crescida

Um pássaro no horizonte, sentado numa cerca
Ele canta pra mim, às suas próprias expensas
E eu sou feito aquele pássaro
Só pra você aqui cantando
Espero que esteja escutando
Eu cantando aqui meu pranto

O tempo é um jato, vai rápido demais
Mas é uma vergonha, se o que temos não durar
Eu posso mudar, eu juro
Veja o que vai fazer no futuro
Eu consigo superar
Você também conseguirá

O amor é tão simples, pra citar uma frase
Ainda estou aprendendo, o que você já sabe
Eu sei onde a achar
Dormindo noutro lugar
É o preço que eu pago
Você está crescida, de fato

Mudanças no clima podem ser extremas
Mas saltar do cavalo em face dos problemas?
Garota, estou saindo de giro
Agora só dói quando respiro
Feito um saca-rolha no meu peito
Desde que nosso lar foi desfeito

versão brasileira:
Ivan Justen Santana
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A ALMA INVENCÍVEL

Na mais violenta e agra agrura;
no pesadelo mais pesado;
na óbvia e ululante tortura
da dor doída do adoidado;

na sociedade absurda e crua;
na estupidez vil, chã, banal;
no crasso espaço da hora nua;
no traço lasso em todo mal;

no fel do sal do sofrimento
que te atropela e não tem fim;
grita, alma poética: eu aguento!
Batam mais! Errem mais! Sim! Sim!

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sexta-feira, março 09, 2012

A LUA CHEIA

Sinto muito
Por ter alvejado
Belo pássaro raro

Você tinha
Vinte vezes com o olhar
Me fuzilado

Sinto muito
Sua arma colocada
Sobre a mesa do lavabo...

Mas que ideia!
Nunca se deve
Tentar atentar o diabo...

Nunca se deve rasgar seda
Nem mostrar dentes langues
Às noivas quando a lua cheia
Metamorfoseia os sangues...

Legítima defesa
Por que tanto ódio e insolência?
Legítima demência
Será presunção de inocência...

A morte lhe cai bem
Eu até vislumbraria
Com você um pouco de
Necrofagia...

Nunca se deve voar nas plumas
Nem contar os momentos
Das noivas em crise quando a lua
Acelera os batimentos...

Legítima defesa
Por que tanto ódio e insolência?
Legítima demência
Será presunção de inocência...

Sinto muito
Você estava tão mudado
Tão imoral

Sinto muito
Eu realmente não queria
Lhe fazer algum mal...

Eu falo e falo
Você surdo e mudo com esse olhar
Estranhamente pálido...
Você nunca vai mudar?

Françoise Hardy
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

quinta-feira, março 08, 2012

EU QUERO SER O TEU TEXUGO

eternamente a S.L.C.T.
Eu quero ser o teu texugo,
teu monstro da lagoa negra:
antipasticamente al sugo,
constitucionalmente em regra.

Farei pra ti meu verso crebro,
mais caudaloso que o rio Ebro,
e rezar-te-ei qual persa guebro,
fiel à deusa que celebro.

Serei pra ti mais que canção:
exemplo a amantes que virão,
teu templo ao tempo far-te-ei eu.

O teu maior amor, mulher,
quero servir, ser, ver, sorver,
quero ser teu, teu, teu: só teu.

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quarta-feira, março 07, 2012

A BIBLIOTECA, A POESIA E O TREM

Todo mundo adora a biblioteca.
Todo mundo adora a poesia.
Contudo, notar isso não breca
o trem-bala da esquizofrenia.

Que trem é esse?, indaga uma mineira,
Sabe lá..., responde um paranaense,
enquanto o vagão de ambos, à beira
da catástrofe, inda em pé mantém-se.

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(homenagem aos 155 anos, hoje, da Biblioteca Pública do Paraná -- por sinal, saiu hoje o número 8 do jornal Cândido [clique pra ler], publicado pela BPP -- matérias sobre a literatura em Curitiba, e na contracapa um poema adivinhem de quem?)

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terça-feira, março 06, 2012

Um Madrigal de Petrarca

52
LII
CINQUENTA E DOIS

Non al suo amante piú Dïana piacque,
quando per tal ventura tutta ignuda
la vide in mezzo de le gelide acque,
Diana was not more pleasing to her lover,
when by chance he saw her all naked
in the midst of icy waters,
Não é mais bela Diana ao seu amante,
quando em total ventura toda nua
nas águas gélidas a vê por diante,

ch'a me la pastorella alpestra et cruda
posta a bagnar un leggiadretto velo,
ch'a l'aura il vago et biondo capel chiuda,
than, to me, the fresh mountain shepherdess,
set there to wash a graceful veil,
that ties her vagrant blonde hair from the breeze,
que a mim esta pastora alheia em sua
tarefa de lavar gracioso véu,
que a laura e vaga trança ata e insinua,

tal che mi fece, or quand'egli arde 'l cielo,
tutto tremar d'un amoroso gielo.
so that she makes me, now that the heavens burn,
tremble, wholly, with the chill of love.
e assim me faz, quando incendeia o céu,
gelar tremendo de amor fogaréu.

Francesco Petrarca
A. S. Kline
Ivan Justen Santana

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quinta-feira, março 01, 2012

TUDO & NADA

Tudo e Nada eram amigos bastante íntimos
que contavam um ao outro as aventuras
amorosas, as agruras e as loucuras.
Inventavam às palavras novos ritmos,
refaziam seus percursos, longos, ínfimos:
Tudo era dos cortes; Nada, das suturas;
Nada era das puras; Tudo, das misturas;
Tudo era dos máximos; Nada, dos mínimos.
Certo dia decidiram rir das dores.
Só que o resto, aos dois amigos controverso,
não queria nem ouvir tudos nem nadas,
e os ouvidos se taparam com horrores.
Mas nem todos os horrores do universo
conseguiram abafar as gargalhadas.

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terça-feira, fevereiro 28, 2012

UM CASO DE VIDA OU ARTE

Arte e Vida se veem dividindo a mesma toalha
no piquenique organizado pelo chefe, o Tempo,
o qual adora dar tais festinhas nas horas vagas
e sempre as convida pra fruir estes bons momentos.

Começa a Arte: “Dizem que sou longa e você breve.”
“Mas se não fosse por mim você sequer nascia!”,
retruca ríspida a Vida, e em seguida, mais leve:
“Como vai aquela sua filha linda, a Poesia?”

“Ah, aquela uma parece que vai superar a mãe!
Vive arquitetônica, imitando Pintura e Música.”
E a Vida segue bela e expectativa: “Não estranhe,
mas sempre vi a sua Poesia assim, quase medúsica...”

A Arte vem de novo com o papo de breve e longa
e a Vida, lívida e bandida, por dentro se torce,
até que, ávida e sacuda e já farta da delonga,
gesticula ao Tempo um S.O.S. em código Morse.

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sábado, fevereiro 25, 2012

DOIS JOGOS

O amor é um peixe com asas:
as asas do amor são as rosas,
e as rosas são ganhas ou perdidas.

O xadrez é luta em casas:
em casas, em lances, em prosas,
as prosas às vezes divididas.

Mas são mais que só dois jogos:
são brasas, são brasões, são fogos
combinando mortes, sortes, vidas.

Peças. Entradas. Estradas. Saídas.

* * *

sábado, fevereiro 18, 2012

A MINHA GATA PRIMATA

Tive uma vez um gato cinza:
era um filhote muito esperto.
Tive também gatas ranzinzas:
choravam longe, riam perto.

Mas nunca tive gata alguma
como você, gata primata:
sonho seus lábios numa espuma,
beijo seu beijo de acrobata.

Seres humanos são estranhos
alguns praticam sodomia,
degustam ralos, raspas, ranhos--
enquanto a mim você só mia,

só me na pele acaricia,
some não some, amor de gata,
morde de leve, alonga e guia,
gata primata que me mata...

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quinta-feira, fevereiro 16, 2012

JORGE IVAN LUIS JUSTEN BORGES SANTANA

ao Rodolfo Jaruga

[veja antes a explicação entre colchetes ao final da postagem, ou tente solucionar este problema-poema sem usar qualquer colher de chá]

I
II

Num ringue muito grave, jogadores
Frágil Rei, vesgo Bispo, encarniçada
Regem as lentas peças: tabuleiro
Dama, reta Torre, Peão espertinho
E dois detentos, sério picadeiro
Sobre o preto e branco de seu caminho
Onde se odeiam--dançam duas cores.
Buscam e travam a batalha armada.
Dentro brilham os mágicos rigores
Não sabem que uma mão assinalada
Das formas: Torre homérica, ligeiro
De um jogador governa seu destino,
Cavalo, Dama armada, Rei matreiro,
Não sabem que um rigor adamantino
Oblíquo Bispo e Peões violentadores.
Sujeita seus desejos na jornada.
Quando o par de adversários for partido,
O jogador também é um prisioneiro
Quando já o tempo os tenha consumido,
(Frase de Omar) mas noutro tabuleiro
Por certo não terá cessado o rito.
De negras noites e de brancos dias.
No Oriente pegou fogo esta guerra
Deus move o jogador, que move a peça.
Cujo anfiteatro é hoje toda a Terra,
Que Deus por trás de Deus o ardor começa
Como o outro, este jogo é infinito.
De poeira e tempo e sonhos e agonias?

[intercalados aqui acima estão os dois sonetos de Jorge Luis Borges sobre o jogo de xadrez, ambos em versão brasileira de Ivan Justen Santana]

* * *

terça-feira, fevereiro 14, 2012

DENTRO WITHIN DE YOU VOCÊ WHITOUT SEM YOU VOCÊ

WITHIN YOU WITHOUT YOU
DENTRO DE VOCÊ SEM VOCÊ

We were talking—about the space between us all
Estávamos falando—do espaço entre nós todos
And the people—who hide themselves behind a wall of illusion
E das pessoas—que se escondem atrás duma parede de ilusão
Never glimpse the truth—then it's far too late
Nunca vislumbram a verdade—então é mais que tarde demais
—when they pass away.
—quando elas falecem.
We were talking—about the love we all could share
Estávamos falando—do amor que todos podíamos compartilhar
—when we find it
—quando o descobrirmos
To try our best to hold it there—with our love
Pra tentar nosso melhor pra o manter lá—com nosso amor
With our love—we could save the world
Com nosso amor—poderíamos salvar o mundo
—if they only knew.
—se ao menos eles soubessem.
Try to realise it's all within yourself
Tente perceber que tudo está dentro de você mesmo
no-one else can make you change,
ninguém mais pode fazer você mudar,
And to see you're really only very small,
E ver que você é realmente apenas muito pequeno,
and life flows on within you and without you.
e a vida segue fluindo dentro de você e sem você.
We were talking—about the love that's gone so cold
Estávamos falando—do amor que ficou tão frio
And the people
E das pessoas
Who gain the world and lose their soul—
Que ganham o mundo e perdem a alma delas—
they don't know—they can't see—are you one of them?
elas não sabem—elas não conseguem ver—você é uma delas?
When you've seen beyond yourself—
Quando você tiver visto além de si mesmo—
then you may find peace of mind is waiting there—
então você talvez descubra que a paz da mente lhe espera lá—
And the time will come when you see
E o tempo chegará quando você vir que
we're all one and life flows on within you and without you.
todos somos um e a vida segue fluindo dentro de você e sem você.

George Harrison
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

VOCÊ VEM ME... VÊ COMO TU... ME DÁ ME DÊ MEDI ME DOU

Em estado de Happy Valentine,
for my beloved querida y amada S.L.C.T


Você vem me montando em peças e aos pedaços--
Me peça o que quiser, pedaço do meu céu--
Você montando em mim, pés, pernas, risos, braços,
Mãos, dedos, seios, cóccix, cócegas, babel
De frases soltas-- junto a nossa língua os traços
De ostras já fósseis, dóceis, gráceis-- mais o mel
Que lambo e lembro ao limbo em lombo e me deslumbro
Num ressumbro umbrófilo dum falar osco-umbro--

Vê como tu me impões que te ponha em meu sonho--
Numa língua desnuda, articulada em sons
Que nem me conto, tonto estonteio, bisonho,
Esculturando pouco a pouco os loucos tons
Daquelas tardes sem sorver fado enfadonho,
Só sorvendo o que é teu, meu, nossas multidões
De dons de bons ronrrons e ardores e os amores
Que tu colores, flor mais flor de todas flores--

Sim: fiz assim pra nós um multilíngue show:
Desmontável, montable, un travel to Moscou--
Eu say: ficou incompreensível mas foi gol:
Como você me dá me dê medi me dou...
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segunda-feira, fevereiro 13, 2012

PRA QUE É QUE SERVE O AMOR?

A QUOI ÇA SERT L'AMOUR
PRA QUE É QUE SERVE O AMOR

A quoi ça sert l'amour?
On raconte toujours
Des histoires insensées.
A quoi ça sert d'aimer?
Pra que é que serve o amor?
Pergunta sempre em flor
Nos contos mais surreais
Pra que é que serve amar?

L'amour ne s'explique pas!
C'est une chose comme ça,
Qui vient on ne sait d'où
Et vous prend tout à coup
O amor é irracional!
É coisa assim que tal
Vinda de onde nem sei
Pega você de vez

Moi, j'ai entendu dire
Que l'amour fait souffrir,
Que l'amour fait pleurer.
A quoi ça sert d'aimer?
Até já ouvi dizer
Que o amor só faz sofrer
Que o amor só faz chorar
Pra que é que serve amar?

L'amour ça sert à quoi?
A nous donner d' la joie
Avec des larmes aux yeux...
C'est triste et merveilleux!
O amor serve pra quê?
Pra nos dar mais prazer
Mais choro em nossos olhos
Tristes, maravilhosos

Pourtant on dit souvent
Que l'amour est décevant,
Qu'il y en a un sur deux
Qui n'est jamais heureux...
Mas sempre vem à tona
Que o amor decepciona
Que em dois um geralmente
Acaba descontente

Même quand on l'a perdu,
L'amour qu'on a connu
Vous laisse un goùt de miel.
L'amour c'est éternel!
Mesmo quando perdemos
O amor que conhecemos
Fica um sabor tão terno
O amor é mesmo eterno!

Tout ça, c'est très joli,
Mais quand tout est fini,
Il ne vous reste rien
Qu'un immense chagrin...
Tudo isso é bem bonito
Mas não sobra um palito
Quando um amor acaba
Só resta imensa mágoa...

Tout ce qui maintenant
Te semble déchirant,
Demain, sera pour toi
Un souvenir de joie!
Tudo que neste instante
Nos é dilacerante
Depois será saudoso
Um suvenir de gozo!

En somme, si j'ai compris,
Sans amour dans la vie,
Sans ses joies, ses chagrins,
On a vécu pour rien?
Em suma, se entendi
Sem o amor por aqui
Sem mais dor nem prazer
Viver não tem porquê

Mais oui! Regarde-moi!
A chaque fois j'y crois
Et j'y croirai toujours...
Ça sert à ça, l'amour!
Assim! Olhe pra mim!
Sim, acredito enfim
Sempre com todo o ardor
Pra isso que serve o amor!

Mais toi, t'es le dernier,
Mais toi, t'es le premier!
Avant toi, 'y avait rien,
Avec toi je suis bien!
Você será pra sempre
Você que é diferente!
Antes de ti ninguém
Contigo eu fico bem!

C'est toi que je voulais,
C'est toi qu'il me fallait!
Toi qui j'aimerai toujours...
Ça sert à ça, l'amour!
Você que eu mais queria
Luz que faltava ao dia!
Eu te amo com ardor
Pra isso que serve o amor!...

Letra e música: Michel Emer
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

Cliquem aqui e assistam a essa animação imperdível,
ao som da canção interpretada
por Edith Piaf & Théo Sarapo:

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

L'AMITIÉ [A AMIZADE]

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre
Muitas das minhas amizades vêm dos ares
Junto com o sol e a chuva e os sutis luares
Fazendo da sinceridade uma estação tão prima
Mais bela que as quatro estações de todo o clima

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse
Possuem a doçura das belas paisagens
Mais a fidelidade de aves em viagem
Nos corações gravada uma eterna ternura
E às vezes por seus olhos passa uma amargura

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras
Então
Elas vêm
Se aquecer
Em meu lar
E assim
Tu também
Chegarás

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse
Tu poderás partir de novo rumo a outros ares
E sorrir novamente aos sóis, às chuvas e aos luares
Compartilhar ao teu redor tua ternura
Enquanto alguém te esconderá sua amargura

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines
Conforme não se sabe o que essa vida traz
Talvez me veja um dia só como jamais
Mas se então me restar uma amizade fiel
Esquecerei as lágrimas, a dor e o fel

Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon cœur à ton bois
Então
Eu talvez
Chegarei
Em teu lar
E o meu
Coração
Tu aquecerás

Letra de Jean-Max Rivière
Música de Gérard Bourgeois

Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

NOSSO AMOR FAZ O AMOR AMAR FAZER AMOR

com S.L.C.T., de novo e de novo

Não é pelo exagero o que eu aqui exagero
pois zero vezes infinito é igual a zero.

Na matemática o primeiro é o número um
mas sei: sozinho eu valho menos do que um pum.

Somado a ti valemos mais que qualquer soma.
Até a potenciação encolhe, empaca e embroma.

Nosso amor faz o amor amar fazer amor.
Amor feliz se em nós é cada vez maior.

Talvez alguém nos ache assim: estão se achando.
Talvez ninguém em nosso voo enxergue o chão do.

Nosso calor inflama a chama quando afago-a.
Nosso licor a encharca e até dá banho n'água.

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A ARTE DA RECUSA

[em parceria com
Fernando de Oliveira Sikorski
Mario Henrique Domingues
Octavio Camargo

numa mesa do Café Parangolé]


a poesia é a arte da recusa

não ser descarte de quem o acusa

não virar pedra em frente à medusa

ser estandarte pra plebe obtusa

paredro que medra na fusa confusa

parte pelo todo

troiano negro

grego ostrogodo

lua em marte sua em vênus

nua ao menos

língua lusa seios plenos

braços pernas descruza

usa abusa hipotenusa

lambe alisa chupa alaga aleita e goza a

musa


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terça-feira, fevereiro 07, 2012

UM ANO, UM MÊS, UMA SEMANA E UM DIA

declaro nestes quatro versos um pouco escassos
a idade com que o Ian ergueu-se e andou de alegria:
filho de poeta completa seus primeiros passos
ao fazer um ano, um mês, uma semana e um dia:

clique aqui pra ver esse momento histórico

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

CONTRA DESALMADOS E IMBECIS, O ANTÍDOTO: GARIBALDIS & SACIS

Quem tem medo de alegria e carnaval?
Quem detesta diversão e encampa o mal?

Tinha uma cidade: já vai tarde e rosna.
Tinha elite amarga feito chá de losna.

Tem ainda gente que cultiva o ódio:
corações de cloreto arrotando sódio.

A brutalidade policial nem sonha,
mas ouçam, parvos do comando sem mando:

logo verga e cai sua pose na vergonha,
e a nossa alegria só está começando...


Pré-Carnaval de 2010, em Curitiba

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

NÃOS NENS ...

Caos e cosmos o ensinaram a versar tão bem
que agora você vai inventar tridecassílabos,
e vai alternar as rimas do jeito que vêm,
em acentos ímpares, em tons de monossílabos.

Você vai chutar os baldes só depois de enchê-los,
tendo em vista os poucos a lhe dar atenção,
vai tirar escalpos sem arrancar os cabelos,
vai pedir licença poética e saber que são:

são da sua turma ricos, pobres, mais ou menos.
Não adiantam raivas, uivos, ais, gritos a Deus.
São do seu terreno grilos grandes e pequenos,
erros, quedas, mortes, sortes, cortes: todos seus.

Toda sua é esta humanidade apatetada.
Todos seus estes contrastes, trastes, som e luz.
Neste instante já notou que fez um quase nada?
Que esses versos se revelam nãos, nens, nis, nós, nus?

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quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Hoje é aniversário...

Hoje é aniversário,
aniversário de Joyce,
James Joyce: um gênio,
que fornece oxigênio,
oxigênio ao cérebro,
que é feito a marmota,
marmota que é esperta,
e o clima ela acerta,
o clima é sagrado,
nem sempre é do agrado,
do agrado dos chatos,
irmãos dos carrapatos,
que Joyce não encheu,
quem encheu fui eu.

* * *

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

O QUE MAIS QUERO O QUE MAIS FAÇO O QUE MAIS TEU

a S.L.C.T., novamente e sempre

Mais uma vez o mundo inteiro se enganou.
Mais uma vez quem ler sequer pode sacar.
Não vão notar nem pois nem mas nem só nem ou.
Talvez só peçam pra sair tomar um ar.

Não vão nem comentar. Não querem compreender.
Perder seu tempo é o mais que sabem como, qual,
por que, quem, onde, quando, em quê. Dar dor se der.
Sem ceder. Sem ousar dizer se é bom, se é mau.

Só nós, é sim, só nós notamos a ironia
de tentar resolver na base da porrada.
Só nosso maior gozo em falas na poesia
expressa mais como é querer bem tudo ou nada.

E assim eu te amo como teu bem mais queria,
minha primeira, grande e verdadeira amada.

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segunda-feira, janeiro 30, 2012

NO INÍCIO DO CAMINHO

No início do caminho tinha:
uma gata de olhos verdes,
um tabuleiro e peças de xadrez,
uma taça de vinho tinto de Falerno,
uma edição autografada do Inferno,
um disco de vinil dos Saltimbancos
e um CD do Wandula --

súbito a gata de olhos verdes pergunta:
"Por que é que sempre dizem o Wandula,
e não a Wandula?" --

prontamente as peças de xadrez
começam a cantar e a dançar
uma complexa coreografia sobre o tabuleiro,
enquanto as palavras da edição do Inferno
entram em combustão espontânea
provocando silenciosas explosões policromáticas
na taça de vinho,
quando então os quatro Saltimbancos
saem de dentro do encarte do disco
e atabalhoadamente apagam as chamas das palavras,
após o quê a gata dos Saltimbancos
diz à gata de olhos verdes:

"Miéé: eu também sempre achei isso muito estranho,
porque Wandula é o diminutivo em polonês de Wanda...
Mas talvez fosse ainda mais estranho
se em vez disso dissessem a Wandula..."

Nisso todos se entreolham
com as pupilas ardendo em mistério:
ouve-se um grito vindo da esquina do cemitério

e...

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sexta-feira, janeiro 27, 2012

CARTA DE OBSTINADOS EXERCÍCIOS LITERÁRIOS, PLÁSTICOS, PAISAGÍSTICOS E MUSICAIS, PARA TENTAR CONVENCER A MULHER AMADA A VIR MORAR COM O AUTOR

Foi numa fria, alegre e triste madrugada,
daquelas que um Camões casmurro cantaria.
Foi numa quente, triste e alegre pós-noitada,
das que um Cervantes antes rindo choraria.

Foi quando, farto já de prosa e de poesia,
eu quis versar nós dois em artes de outra alçada,
pois, em contraste, a falta que você fazia
virou imagem, cor, flor, nota assim tocada:

você posava aqui comigo o tempo todo
sendo pra mim tela e jardim que pinto e podo
e deixo livre, abstrata, clássica, como é.

Eu pra você sou todo um naipe de metais:
trompa, trompete, clarinete, flauta. E mais:
sax alto...sax tenor...flautim...fagote...oboé...

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quinta-feira, janeiro 26, 2012

Mais um sonho de Edgar Allan Poe, em duas versões

UM SONHO

Nas visões da noite escura
Eu sonhei do amor partido--
Mas um sonho de luz pura
Deixou meu peito perdido.

Não é o sonho complicado
A quem cujo olhar se molda
Nas coisas à sua volta
E em raio voltado ao passado?

Aquele sonho sagrado,
Enquanto o mundo zombava,
Me alegrou qual adorável
Alma-guia solitária.

Que importam luz, tempestade,
Noite trêmula à distância--
Haveria mais radiância
Que o dia-estrela da Verdade?

Edgar Allan Poe
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

* * *

UM SONHO

Andando às cegas pelas ruas, eu vi
Visões do amor, tateando às escuras,
Mas um sonho de luz, sem amarguras,
Desviou meu coração e eu me perdi.

Que sonho eu não teria se em meus olhos,
Em vez de escuridão e passado,
Visse meu ser pulsando feito um raio
Ressuscitando meus próprios miolos?

Aquele sonho, como por encanto,
Alegrou-me e deixou-me vigilante,
Enquanto zombava toda a humanidade.

Que importa o relâmpago ofuscar tanto?
O que poderia ser mais brilhante
Se em plena luz luzia a Verdade?

Edgar Allan Poe
versão brasileira:
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana


para confrontar com o texto original, clique aqui

quarta-feira, janeiro 25, 2012

SONHOS DENTRO DE SONHOS

Toma este beijo na testa!
Em despedida me resta
Te compor esta seresta:
Pois bem certa me dizias
Serem sonhos os meus dias;
Porém se a esperança foi-se
Num só dia ou numa noite,
Numa só visão, ou não,
Aumenta assim a ilusão?
Se só vemos ou supomos
Sonhos dentro de outros sonhos.

Fico aqui em meio aos rugidos
De oceanos enfurecidos,
Só retenho em minhas mãos
Das areias de ouro os grãos--
Poucos são, porém escorrem
Dos meus dedos sem socorro
Com meu choro-- com meu choro!
Ó Deus! Não posso detê-los
Apertando mais os dedos?
Ó Deus! Não posso salvar
Só um grão das ondas do mar?
Ou só vemos, só supomos,
Sonhos dentro de outros sonhos?

Texto original:
A Dream Within A Dream
Edgar Allan Poe
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
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domingo, janeiro 22, 2012

UMA FÁBULA ALADA

Depois de uma noite saltando sozinho
topou o Grilinho sutil Borboleta
que linda lhe disse: “Pequeno Grilinho,
notei tua angústia, tão branca e tão preta...”

“Então, Borboleta, que devo eu fazer?
Não tenho mais gostos, não vejo mais graças...”
“Sossega, Grilinho, pois grande prazer
teremos nós juntos: te mostro o que faças...”

E assim ambos juntos voltaram ao sonho
que os dois despertaram na mente de um poeta,
o qual com saudades da Musa, tristonho,
criou esse amor: Grilinho & Borboleta...

* * *

DOMINGO DE SOL, NUM JARDIM (ou: UM CASO DE FUNGOS E RESMUNGOS)

Depois de beber aquele chá de flores astrais,
o cogumelo decidiu não desabrochar mais.

Já a minhoca, após meditar com seus anéis,
assim discursou às cinzas de seu caro caracol:
“Eu já ouvi que o verme passeia na lua cheia!
Nossos colegas só queriam seu lugar ao sol...”

Enquanto isso, as lesmas, lerdas porém espertas,
descartam uma excursão com as lagartas
e permanecem debaixo das cobertas
das mesmas merdas.

* * *

sábado, janeiro 21, 2012

COMUM DE DOIS EM DOIS QUARTETOS: UM TERCEIRO POEMA

Novamente a S.L.C.T.

Um grilinho bateu as asas neste quarto.
Faltavam vinte para a meia-noite em ponto.
O céu, um coração que não sofreu infarto.
A lua, oculta ao olho tonto pronto monto.

Eu quis sofrer mas não assim sem ver você.
Ouvi feliz você dizer que me relê.
Você percebe a quantas vai nosso prazer.
Você comigo. Eu com você. Nós dois. Um ser.

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sexta-feira, janeiro 20, 2012

O CASAL IMAGINÁRIO: SÃO DE VERDADE

para S.L.C.T. (nosso opus dois)

Ele era um palhaço que não apavorava.
Ela havia sido astronauta plástica.
Ele tinha um lindo vulcão sem lava.
Ela tolerava até medida drástica.

Nos tempos de ontem em dia eles
amanheciam com as bocas cheias
dos gostos das próprias peles
dos rostos das mãos das meias.

Um romance datado mas sem fim.
Um épico tântrico: basta um minuto.
Uma horta trepando em seu jardim.
É só recordar e eu já me desemputo.

A felicidade dura uma eternidade.
Vontade e verdade: meu rubi & teu jade.

* * *

quinta-feira, janeiro 19, 2012

ASSIMETRIA ASSIM

assimetria assim
tria em si
sim

ria
ser me ti
missa trai miss

assim assimetria
trem sitia
rim

ter
ias sem mim
ser saci mia a si

assimetria
assim

tri
sim


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quarta-feira, janeiro 18, 2012

A UNIÃO LIVRE

Minha mulher com a cabeleira de fogo de madeira
Com pensamentos de relâmpagos de calor
Com o talhe de ampulheta
Minha mulher com o talhe de lontra entre os dentes do tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo branco sobre a terra branca
Com a língua de âmbar e de vidro lixados
Minha mulher com a língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de pedra incrível
Minha mulher com cílios de lápis de escrita de criança
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E com vapor nas vidraças
Minha mulher com ombros de champanhe
E de fonte com cabeças de golfinhos sob o gelo
Minha mulher com punhos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de ás de copas
Com dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
Da noite de São João
De ligustro de ninho de acarás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura de trigo e de moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de fibra de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de pardais que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’ouro
De encontros no próprio leito da torrente
Com seios de noite
Com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de cadinho de rubi
Com seios de espectro de rosa sobre o orvalho
Minha mulher com ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de ave que foge vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de barquilha
Com ancas de candelabro e de penas de flechas
E de hastes de pluma de pavão branco
De balanço insensível
Minha mulher com nalgas de arenito e de amianto
Minha mulher com nalgas de dorso de cisne
Minha mulher com nalgas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina aurífera e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo d’algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha imantada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar da terra e de fogo

André Breton
Tradução:
Monica Berger
Ivan Justen Santana
Suzel
Barbara Skolimowska
Raquel Frotta

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terça-feira, janeiro 17, 2012

ÓBVIOS HAICAIS PARANAENSES

araucária
não dá
bonsai

pois aqui
quem é bom
também fica

quem sabe
esse estado
fica não fica

nos significa

* * *

(créditos a Bárbara Kirchner, do blogue Curitiba é um copo vazio cheio de frio, pelo texto do primeiro haicai acima)

* * *

domingo, janeiro 15, 2012

DELÍRIOS SEXOPORÍFEROS

para (e com) S.L.C.T.

vontade de fazer tudo de novo:
chamar você rumo a melhor prazer;
bem zen qual tao no dharma alma a benzer;
o como topo o pomo o sorvo provo:

no corpo corvo o domo forço colombo ovo:
enchente embevecer em breve ser;
demente se embeber sem se perder;
voltar à tara quando em gozo chovo:

na sua nua lua atua a pluma:
aquela luz a qual das duas uma:
em dança em transe em tantra a ensandecer;

a gente sua junta massa e povo:
vontade de fazer tudo de novo:
ir com você de novo a mais prazer;...

...

quarta-feira, janeiro 11, 2012

OS TEMPOS SIM TÃO MUDANDO

Cheguem pessoas
De todas as tribos
E admitam que as águas
Em volta subiram
E aceitem que logo
Estarão encharcadas
Se o seu tempo vale algum plano
Então comecem a nadar ou afundem na barca
Pois os tempos sim tão mudando

Cheguem os críticos
Profetas que escrevem
Abram bem os seus olhos
Chances não se repetem
Não falem tão cedo
Pois a roda a girar
Inda não apontou quem nem quando
E o vencido de agora amanhã vencerá
Pois os tempos sim tão mudando

Cheguem políticos
Atendam a chamada
Não parem na porta
Não obstruam a entrada
Pois quem sai ferido
É aquele que para
Tem uma guerra lá fora rondando
Logo quebra a janela e sacode a sua casa
Pois os tempos sim tão mudando

Cheguem as mães
Os avós, tios e pais
Não queiram provar
O que não entendem mais
Seus filhos e filhas
Tão além das suas leis
Sua velha estrada já vai definhando
Liberem caminho e respeitem a vez
Pois os tempos sim tão mudando

A linha traçada
A praga no ar
Quem hoje se arrasta
Amanhã vai voar
Este hoje presente
Logo fica pra trás
Esta ordem já vai se esgotando
E os que agora vão amanhã vão ficar
Pois os tempos sim tão mudando


canção original:
The Times They Are A-Changin'
Bob Dylan
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

* * *

terça-feira, janeiro 10, 2012

UM PAR DE PARCERIAS PORNOAMOROSAS

com a bela Kaley Michelle


minha verdade não me tira: fica
a tua pista doa a própria dica
o beijo dela na boca dele: cuíca

a nossa bola já são duas quando quica
vosso expoente radicaliza a raiz rica
plural deles-delas: soma, subtrai e mica

toda paixão em dividir se multiplica


* * *

quero sacanagem e amor
quero putaria com paixão
quero carinho mais malícia

sem ter que rimar amor e dor
sem se pautar só pelo tesão
sem precisar ligar para a polícia

* * *

segunda-feira, janeiro 09, 2012

O AMOR IMPOSSÍVEL: REALIZADO

O choro que me veio veio como veio
E aí passei de mim para todos, todas
As canções feito aquela, a que ouvi no passeio
De táxi ao Lago Azul, a uma festa entre rodas.

A verdadeira descoberta foi o amor
Impossível tornado possível, irreal
Realizado sabe-se lá como for,
Como foi, como flor, como vem, como qual.

O que achei que entendi foi mais que só o amor:
Foi feito entendesse a natureza felina,
A flora e fauna, o tom do ronronar, a cor,
Aquilo que é dela, bem dela, bem ali na...

Enfim: não sós. Assim: sem nós. Por mim: nem pós.
O que antes sempre vou amar agora e após.

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sábado, janeiro 07, 2012

PORTÕES DO ÉDEN

(Gates Of Eden, de Bob Dylan)
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

De guerra e paz a verdade contrai-se
Desliza e recolhe as asas
Nas nuvens-bosques de quatro patas
O anjo caubói cavalga
Empunha uma vela acesa ao sol
E ela brilha em cera negra
Sempre exceto entre os troncos do Éden

O poste estaca de braços cruzados
Suas garras de ferro atadas
A guias rachadas onde bebês gemem
Embora oculte insígnias metálicas
Tudo e todos só levam seus tombos
Com ruídos vazios de estrondos
Não vem nenhum som dos Portões do Éden

O atroz soldado enfia a cabeça na areia
E então se queixa
Ao caçador descalço que mesmo já surdo
Ainda espreita
Na praia onde cães de caça ladram
Aos navios de velas tatuadas
Que rumam aos Portões do Éden

Com uma agulha de bússola oxidada
Aladim com a lâmpada mágica
Abanca-se junto a eremitas utópicos
Acavalados num Bezerro Dourado
E às promessas deles quanto ao céu
Não se ouve qualquer gargalhada
Nunca exceto além dos Portões do Éden

Relações de sujeições
Sussurram em ruflares de asas
Aos condenados a agir de acordo
E a esperar sucessivos monarcas
E eu tento em canto harmonizar
Um solitário pardal
Não há monarcas além dos Portões do Éden

Madona negra de motocicleta
Rainha cigana sobre rodas
Com sua causa de espectrais pratas
Que o duende de terno brada
Chorando às bicadas das aves malvadas
Que caçam o pecado em migalhas
Não há pecados além dos Portões do Éden

Os reinos das Experiências
Ao vento precioso apodrecem
E os pobres seguem fazendo trocas
Querendo uns o que outros querem
Enquanto princesa e príncipe discutem
O que é real e o que não procede
E que pouco importa além dos Portões do Éden

O sol forasteiro olha de soslaio
Uma cama que nunca é minha
Enquanto amigos e outros estranhos
Procuram livrar-se das sinas
Deixando os humanos totalmente livres
A tudo exceto o final da vida
E não há tribunais além dos Portões do Éden

E a minha amante ao amanhecer
Me conta sobre seus sonhos
Não tenta cobrir vislumbres ali
Nas valas em que estão postos
Às vezes eu penso que não há outras
Frases verdadeiras a não ser essas
E não há verdades aquém dos Portões do Éden

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quinta-feira, janeiro 05, 2012

UM POEMA DE QUALQUER DIA DE REIS OU NEM SEQUER DIA SEIS PARA TODOS E TODAS VOCÊS

Não. Pois então. Hoje não é Dia de Reis.
Nem é o dia da canção Dia 36.

Porém os versos estão aqui pra vocês:
a quem me lê não por eu ser bola da vez,

nem graças a algum interesse em português,
nem pra saber mais sobre esse ano ou sobre o mês.

Por que me leem? Não sei. Sei é que ainda por cima
poesia não se faz só em função duma rima.

Por isso mesmo então: resolvi fazer este
pra entregar a vocês o que talvez nem preste,

mas que justifico aqui em si Justenmente
numa Santana vontade de Ivan ser gente,

compartilhar com tudo e todos essa simples
condição que sim vai vir com rima bem simples,

e me identificar assim sim com vocês:
quem vê em nunca quem sabe e em sempre até talvez.

...

quarta-feira, janeiro 04, 2012

GUARATUBA. CAIEIRAS. 4/1/2012.

Esta vontade de fazer versinhos
não terminou nem quando eu disse: "Sim, os
versinhos são dispensáveis na praia."

Senti que tinha fugido da raia,
como quem vaia a própria vaia e vai à
praia só porque precisa ir à praia.

Mas é verão. Verei. Preciso ver
no fim da dor o abismo do prazer
(e esta vontade de fazer versinhos...)

...

terça-feira, janeiro 03, 2012

PRA VOCÊ TER MEU AMOR

Quando a chuva sopra em sua face
E este mundo lhe parece de aço
Posso oferecer o meu abraço
Pra você ter meu amor

Quando as sombras e as estrelas vêm
E você chora mas não vem ninguém
Posso lhe abraçar pra sempre e além
Pra você ter meu amor

Sei que você inda não se decidiu
Mas nunca vou lhe embaraçar
Eu soube desde que a gente se viu
Onde é que seria o seu lugar

Triste e faminto eu não me abalaria
Eu me arrastava de noite e de dia
Nada nesse mundo eu não faria
Pra você ter meu amor

As tempestades vão varrendo o mar
Varrem a rua da amargura
Os ventos das mudanças vão soprar
Você vai ver que me procura

Posso fazer você feliz enfim
Os sonhos verdadeiros vêm assim
E eu voaria só pra ouvir seu sim
Pra você ter meu amor

canção original: Make You Feel My love,
de Bob Dylan


versão brasileira:
Ivan Justen Santana

clique aqui para conferir a belíssima interpretação
da cantora Adele

segunda-feira, janeiro 02, 2012

GAROTA DO SUL DO PAÍS

(para Camila Melara)

Se você for à feira do sul
Onde os ventos castigam a fronteira
Dê lembranças àquela pessoa
Que foi minha paixão verdadeira

E se neve ou granizo caírem
Nos rios onde os verões são só instantes
Veja se ela veste um bom abrigo
Que a proteja dos ventos uivantes

Veja os cabelos dela, se longos
Se ao seu seio enrolando eles vêm
Veja os cabelos dela, tão longos
Da maneira que eu lembro tão bem

Imagino se ela ainda se lembra
Tantas vezes rezando eu pedia
Nessas trevas da minha noite
Nesses clarões do meu dia

Então se for até a feira do sul
Onde os ventos castigam a fronteira
Dê lembranças àquela pessoa
Que foi minha paixão verdadeira


inspiração e texto orginal:
Girl From The North Country,
de Bob Dylan


versão brasileira:
Ivan Justen Santana
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domingo, janeiro 01, 2012

PROMESSA É DÚVIDA?

exorcizando tudo que é mau
e exercendo só o que me faz bem
quero passar o próximo carnaval
e prosseguir ainda mais além

fazendo aos outros o que queremos
sendo do jeito que eu quero ser eu
trocando figuras com as irmãs Lemos
e uns versos e prosas com o Thadeu

assim soltinho feito arroz com bosta
prometo blogar sem fazer muita pose
e desejo hoje até a quem nem me gosta
feliz entrada em dois mil e doze!


Ivan, num improviso de primeiro de janeiro
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sábado, dezembro 31, 2011

FELIZ ANO NOVO AOS TRISTES

estar na pior no dia de hoje
é ser goleiro que não sai nem na foto
a alegria até parece que foge
mas a tristeza tem um controle remoto

a memória castiga os tristes
com mãos de cacto e acidez na língua
tudo está intacto em seus limites
o amor infecciona mas dá íngua

tirem pulga e arruda detrás da orelha
desfaçam as figas dos dedos do pé
olhem o que a solidão não espelha
e vejam a vida como ela é


antonio thadeu wojciechowski
ivan justen santana


* *

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Prosa dedicada a quem quiser vestir a carapuça (mas eu vi primeiro e ninguém tasca)

É isso mesmo: chega de versinhos. Basta de poesia, metrificada ou não, difícil ou facinha, prosificadinha ainda em rimas ou o escambau a quatro. Agora é prosa mesmo, dialógica naquele... Ah, chega também de teorizações. Vamos falar com você.

Sim: você mesmo: não olhe pro lado: não repare os dois pontos: ouça bem: você mesmo, que não teve iniciativa nos momentos certos.

Você que faltou quando seria bom que estivesse presente, que não compareceu mesmo estando ali, na cara, na boca da botija. É. Na porra da boca da botija -- e digo mais: vou usar todo o vocabulário que aparecer: se você tem não-me-toques com palavrões, suma. Suma mesmo, porque o troço aqui vai virar trôço logo logo.

Você, sua anta atômica, seu nó na garganta apertada e apartada de qualquer tirocínio: você não soube agir e não soube explicar, não teve nem a manha de tentar se fazer entender. Ficou ali, até quem sabe achando que bastava deixar acontecer: e mesmo quando bastou, mesmo quando você se atreveu a pensar que era humildade: não era: era inércia, petulância, prepotência, falácia, complacência.

Eu vou te matar. Eu vou te matar dentro e fora de mim. Você perdeu e agora é tarde. Não passará desse final de ano. Não passará desta sexta-feira. Não passará da próxima hora. Não passará nem desse próximo minuto. Porque você já morreu. Ninguém avisou, mas agora estou fazendo essa preza: este é o seu fim. Engula. E bom proveito.

.

ETERNOS VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA E ÂNSIA

Vejam só: hoje já é dia trinta--
Quem sabe algum poema pinta

Pois é: e agora são dez horas--
Encostas tua cabecinha e choras

Sei não: estamos no mês de dezembro--
Pacóvio, pateta, mané, manembro

Aí sim: passe do tempo pro espaço--
Mesma lesma com passo escasso

Putz: o troço aqui não perdeu a graça?--
Sem problemas... dorme que passa

Mas então... sei: vai seguir rimando--
Sim: sem contexto o tempo é velho quando

Assim melhor deletar o poema:
o tema eu até já esqueci--

Tarde demais: não tema-- falta tema
mas todos já nos leram até aqui

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P.S.: E cadê a circunstância? Foi engano?
--Não. É simples. Amanhã é o fim do ano.

--Filho da mãe. Então termina assim?
--Sim. Sou óbvio. E as rimas também:

fim

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quinta-feira, dezembro 29, 2011

Droga, eu sei que você deve estar

Droga, eu sei que você deve estar
me odiando. Agora que não posso

evitar pensar em você, drogar
meu corpo no velho fundo do poço.

Droga! É impossível admitir isso,
impossível entregar o serviço,

mas vou admitir, vou entregar: sim,
droga, eu te amo. Como me amo, enfim,

como amo tudo e todos neste mundo.
Mas esqueço. Esquece. Esqueçam. Aqui

vai tudo que já vi, li e esqueci.
Agora o tempo não tem mais segundo.

Não tem mais. Acabou. Agora vai.
Você ficou, droga. Eu fui. Estou. Vou.

Sem alma. Nem corpo. Sem gol. Nem voo.
Só me resta eu me raspar sem um ai,

me depenar para eu não ser mais eu,
arrancar essa escova, -cerda a -cerda-

droga, eu sou um bosta, e você venceu.
Mas fui eu quem escreveu essa merda!

...

quarta-feira, dezembro 28, 2011

QUANDO UM MENINO FAZ UM ANO

Quando o menino fez seus seis dias,
lia e sacava Drummond e Pessoa,
sorria a sua mãe e a seu pai,
e dormia como um anjo à toa.

Quando o menino fez sete semanas,
passava as noites sonhando muito,
e pai e mãe igualmente sonhavam,
todos talvez tendo o mesmo intuito.

Quando o menino fez cinco meses,
acordando de meia em meia hora—
mãe e pai já não se entendendo—
o tempo confuso como quem chora.

Quando o menino fez onze meses,
teve a primeira desilusão —
pai em seu surto, mãe com pulsão,
e as rimas não foram revelação.

Quando o menino faz hoje um ano,
a vida segue suave e violenta,
o pai aloprado — a mãe xaropenta,
e a gente celebra, finge que esquece a poesia ou nem lembra da prosa, e tenta, e aguenta, e comenta, e se inventa e venta a menta bolorenta e larga a vírgula e não esquenta e perde a rima mas recupera a razão insana ou sutil ou bacana e diz para se ver vário afã de sol em si com elã que não frustrem em santa gana um feliz aniversário ao Ian Nadolny Roland Justen Santana.

*

segunda-feira, dezembro 26, 2011

UMA HISTÓRIA DE UM PAI, UMA MÃE E UM FILHO

(a dois dias de o filho completar um ano de idade)

Fiz tudo que podia fazer sozinho
naquele carnavalzinho
até conhecê-la
e conceber com ela
o nosso amado filhinho.

Agora ele morará com ela
mas comigo também,
nunca sozinho.

Agora haverá choro e ranger de dentes,
as coisas iguais e as diferentes,
as saudações a parentes,
os sorrisos aparentes,
e as tristezas sem traço.

Agora seremos três corpos no espaço,
ocupando muitos e vários lugares,
diversas salas de estares,
e os três nos mesmos lares
só nas rimas dos versos que faço.


Ivan
(primavera/verão de 2011/2012)

* * *

sábado, dezembro 24, 2011

SUTRA DO SURTADO

acorde sem acordo
campos sem augusto
joyce sem haroldo
leitora de procusto
de laço no pescoço
prato de tremoço
tremo não de susto
suspiro de arroto
todo bortolotto
tem seu texto justo
cada montenegro
em seu santo posto
pira que se acende
perra que dá gosto
flor que não sem custo
brota pelo esgoto
gruta na cidade
greta de algum garbo
pena de algum parvo
tinta pelo almaço
grito pelo almoço
testa este compasso
estuda aquele passo
pulsa no poço
trisca um traste escasso
fresta rumo ao fosso
volta na caverna
abrindo sua perna
chorando o esforço
chama o esfarrapado
chupando o roto
choca muito escroto
correndo o risco
riscando o disco
corroendo o osso
um velho anjo torto
xamã do louco
que racha a taxa
encaixa na faixa
chacoalha a caixa
xucra a macha
e ainda acha pouco

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sexta-feira, dezembro 23, 2011

ORAÇÃO-PEDIDO DE PRÉ-NATAL

(sem blasfêmia, para macho e para fêmea)

Todos solicitamos a todos:
a luz de Jesus,
o coração de João,
o paredro sinedro de Pedro,
a poesia da alegria de Maria,
e até os deus-me-acudas de Judas,
até mesmo a fé-como-é-que-é de Tomé,
e uma amada melena de Madalena...

Mas que não nos venha um baita azar de Baltazar,
e sim o melhor de Melquior, sem raspar Gaspar.
E que nos abram as cadabras de Abraão,
e nos gargalhe a claque de Isaque,
com seus Josés, com Manassés e Moisés.
E que soem as palavras da parábola dos grãos,
para católicos e ortodoxos cristãos,
mas também aos de outra conversão
ou até mesmo de ateísta reversão.

Simplesmente nessa nossa comoção assim como sãos
e salvos ficaremos, festejemos,
estejamos numa muda de Buda,
para lá do lado de Alá,
naquela esquiva de Shiva
ou na rima inexistentíssima de Krishna --

em Pã, Tupã, Iansã, Oxum, Ogum, Oxalá e Ogã,
dos arcos-íris de Osíris até os coquetéis de Quetzalcóatl,
da Asgaard de Thor e Odin até os confins de Aldebarã.


Ivan, celebrando hoje o depois de amanhã.
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PARA TI TANIA

Uma frase espontânea,
uma alegria subcutânea,
uma resposta instantânea.

Uma estranha manha,
um lance de perde ganha,
uma uva itália em plena Alemanha.

Um carinho sem nenhuma inânia.
Um dicionário que nos livre da insânia.
Uma guarânia urânia,
titânia da Lusitânia,
cantada e recitada pela Maria Betânia.

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UM TOQUE DE RETOQUE

Para Kaley Michelle

Não adianta
reclamar
do mundo:
basta olhar
dentro de si.
Pode ser até
sem dó e de ré:
mas o amor
sempre toca
lá no fundo.

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terça-feira, dezembro 20, 2011

A VIDA ÍMPAR

Às Lemos – e aos mais que lemos

– Penso que no fundo elas se querem.
Bem, quem sou eu pra me intrometer,
antes que tudo que elas puderem
façam? – Será abuso de poder?

– E até parece que até posso tanto...
– Enquanto isso, e a sua vida aqui?
– Minha, sua, nossa – Nossa! – Espanto,
parto, pranto, pau, daqui, dali,

pá de cá pá de lá... – Pás de cal?
– Paz decalque? – Ué... É seu recalque?
– Você não acha tudo normal?
– Não é você o poeta, o mestre, o tal que...?

Então. Resolva-se antes, mané!
Primeiro julgue o que você conhece:
entenda-se em si, bote-se fé,
ou registre seu próprio S.O.S.

A vida é ímpar. Se cabe o surto,
cabe também tudo e todo mundo.
Mesmo que só reste um verso curto,
fica um mas... – Mas o amor vai mais fundo.

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sábado, dezembro 17, 2011

ÊXTASE: TU ESTÁS & ESTOU TAL

Nosso amor talhou
depois de dois ois
e uns nuncas num caos.

Mas bastou teu vou,
nós nus nos lençóis:
voltou tudo e talz...

Começou quem sou.
Se és qual lua em sóis
subo os teus degraus.

Porque estás, estou:
mesmo sem alcoóis
êxtase em mil graus...

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sexta-feira, dezembro 16, 2011

AMOROSAMENTE DEDICADO AOS MEUS LEITORES E LEITORAS, MAS MAIS AINDA AOS QUE AINDA ESTÃO APRENDENDO A SER GENTE, REPETENTES DE ANO NA ESCOLA DA VIDA, E QUE MESMO SE LEREM NUNCA HÃO DE ENTENDER ISTO

:::::::::::::::

estes estralos
vão pelos ralos

estas estrelas
trolam novelas

hostes dos grilos
cricrilam trilos

enquanto aos tolos
basta dispô-los

morrerão fulos
seus atos nulos

:::::::::::::::::::...

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Um sexto dedo de prosa e duas ou três carradas de poesia

Hoje é aniversário da Alexandra Lemos Zagonel.

Também é aniversário do finado poeta curitibano Marcos Prado (50 anos hoje).

Depois de praticamente um poema por dia há quinze dias, hoje eu vou postar (em homenagem à Xanda), um poema que fiz imaginando o que teria acontecido a Marcos Prado após sua morte. Aviso aos incautos: é imaginação -- poesia é principalmente imaginação -- realidade exclusivamente realidade é pra quem faz economia e contabilidade, valeu? O poema também se refere ao que o Drummond fez quando morreu o Mário de Andrade. Eu fiz o meu em partes, ficou pronto já há algum tempo, e saiu na revista Coyote, no ano passado.

Enfim, acho que o meu surto poético ainda não acabou, mas talvez não seja muito saudável continuar jorrando versos novos todo dia, quando a vida é bem mais (e me exige bem mais) que poesia. A vida é imaginação mais realidade mais filosofia mais prática mais tudo que ninguém dá conta.

Enfim de novo: tem gente muito inspiradora nessa vida. Aos olhos do observador certo, toda pessoa é uma inspiração mágica. Mas, a olhos tortos, zarolhos e errados (no caso, os meus), tem gente que nos broxa o tesão de produzir, porque conseguem confundir poesia e realidade da maneira menos criativa possível. Mas é pra todas as pessoas, indiscriminadamente, que existem a poesia, a beleza, o amor, as limpezas, as sujeiras, a vaidade, e a verdade. Quer vivam mortas, quer morram vivas, quer consigam ou não entender isso.

E um brinde à Xanda, às criaturas inspiradoras, e à banda Criaturas.

* * *

MARCOS PRADO DESCE AOS INFERNOS

Sem dar pelota às descrições de Dante,
as quais, aliás, ele já traduzira em trio,
Marcos Prado baixou no inferno delirante,
cego de álcool num infinito vazio.

Um diabrete chato pra cacete
gritou sem voz um lembrete:
“Tua alma veio vendendo a saúde
que outras querem negociar por mal...”
“Isso”, fala Marcos, “é o que ilude
quem pensa que fazer o bem é normal.”

Mal pôde abrir a fedorenta boca
um outro diabinho que corrói,
Marcos, à queima-roupa:
“Carinho dói.”

O cáustico olhar de criança
azucrinava os demos, de infante a marmanjo:
“Vamos”, ulularam, “nessa contradança
levá-lo abaixo ao nosso maior anjo!”

“Quem é que te protege, poeta biônico?”
grasnou uma voz, em meio à bulha.
E Marcos, no velho estilo bolha, irônico:
“Santo Antônio da Patrulha!”

Aí Lúcifer, gentil, mostrou a cadeia da liberdade
que impedia Marcos de cruzar o portão,
e concedeu licença ao poeta pra voltar à sua cidade:
“Mas só porque lá já o pregaram num paredão”.

* * *

quarta-feira, dezembro 14, 2011

UM SIM EM NÓS

Meus versinhos são pistolas.
O teu silêncio – uma faca.
Toda cidade te assaca.
Eu gosto quando me amolas.

Te dizem sou louco triste.
Me falam és gata fraca.
Mas pra ver se quica em placa
Nosso amor resiste insiste.

Ontem saiu teu canudo.
Hoje acordei contudo:
Além do mal e do bem.

Eu ando meio incontido
Contando tudo que ouvi do
Sim que em nós teu dom com tem.

*

terça-feira, dezembro 13, 2011

DE CHARLES PARA CHANDALL

Ó Chandall, bela Von Kalckmann,
Ó cantora, eu canto a ti;
Vídeo-games têm seus pácmans,
Sete anões têm seu Atchim;
Tu serás a personagem
Personificada aqui...

Chocolates são mais doces,
Sóis vermelhos têm mais luz;
Mas mais doce tu não fosses
Só na fossa ouvindo um blues;
Mesmo assim és como os totens
De selvagens seminus...

Ó Chandall, a ti declaro
Minha idololização;
Quando ouvi teu timbre raro
De uma queda fui ao chão;
Pois sentiu meu triste faro
Que és maçã, não és melão...

Não me acudam três amazonas,
Não sacudam-me pelos pés;
Pois sei que entre três brincalhonas
Irmãzinhas grande tu és;
E portanto, trocando o ritmo,
Este teu tímido não íntimo
Aqui assina que és mesmo a tal...

Charles Von Ivan de Chandall

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segunda-feira, dezembro 12, 2011

O CÉU AINDA FICA AZUL CAFONA

Para Rose Costa

O céu ainda fica azul cafona.
Filósofos replicam com quem andas.
Os bêbados sabem macia a lona.
O amor ainda dança essas cirandas.

Mulheres lindas numa e noutra Irlanda
Confirmam tais verdades bonitonas:
Um urso é mais bonzinho quando panda –
Paixões alastram-se – asinhas e asonas.

O fim do mundo não começa nunca.
A ponta do nariz é sempre adunca.
Aos Andes haverá de haver as Andas.

Quem dera o com tivesse a sua cona.
O céu ainda fica azul cafona
E o amor ainda dança essas cirandas.

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sábado, dezembro 10, 2011

O AMOR EM SEUS COMEÇOS

O amor em seus começos
transforma os endereços,
revira e vira avessos,
desamolece os gessos,
reinicia o mês, os
dias deslembro-esqueços.

O amor revive o inédito
chavão valor sem crédito
vulgar latim impédito
da rima aqui sem fé dito-
samente ao seu descrédito
num truque desinédito.

O amor só cola assim
repetitivo ah sim
usando de outrossim
com mais sim-sala-bim
rim-tim-tim por tim-tim
para sempre afim.

E até que o mundo entenda
da grana ou da merenda,
viva ou morta esta lenda,
aceitos estes preços,
em vinte e cinco versos
deixei semi-inexpressos
o amor em seus começos.

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sexta-feira, dezembro 09, 2011

O PAPEL INGÊNUO DA VIDA

quem nunca fez uma cagada
que atire a primeira mãozada de bosta
a gente faz porque a gente gosta
cada um por si, todos por cada

Edilson Del Grossi, Edson de Vulcanis, Ars Magoo

...

Cada cagada que se faz no hoje
talvez amanhã se mostre um tesouro
e o gás que a algum nariz talvez enoje
será p’r’outra narina um peido de ouro.

Ivan, inspirando-se em seus irmãos camaradas

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quinta-feira, dezembro 08, 2011

quarta-feira, dezembro 07, 2011

MULTIDÃO

(letra e música: Sérgio Justen)

Tem gente que chora uma desunião
Tem gente que ri pela mesma razão
Tem gente que fala, tem gente que escuta
Tem gente que cala, tem gente que luta

Tem gente voltando pela contramão
Tem gente descendo pelo corrimão
Tem gente saindo, tem gente chegando
Tem gente brigando, tem gente se amando

Tem gente esperando pelo carnaval
Tem gente cansada já sem esperança
Tem gente perdida em meio ao temporal
Tem gente sonhando e que nunca se cansa

Tem gente que dança, dança...

Tem gente que gosta de banho de sol
Tem gente que odeia jogar futebol
Tem gente que agride, tem gente que agrada
Tem gente valente, tem gente de nada

Tem gente parada em frente ao edifício
Tem gente correndo atrás do prejuízo
Tem gente pra cima, tem gente pra baixo
Tem gente prum lado, tem gente pro outro

Tem gente esperando pelo carnaval
Tem gente cansada já sem esperança
Tem gente perdida em meio ao temporal
Tem gente sonhando e que nunca se cansa

Tem gente que dança...

[Vejam e ouçam Anna Toledo cantando uma composição de Sérgio Justen, Novos Ares -- é só clicar aqui]

segunda-feira, dezembro 05, 2011

DOZE MUSAS MUSICISTAS

Uma musa mais que rara
– sorte a qual nunca se aposta:
Nyara Costa.

Musa de pantera pele –
voz que além ninguém compara:
Michele Mara.

Mais versátil que cigana
– faz, desfaz o enredo ledo:
Anna Toledo.

Mais que o sucesso de cara –
mais que indiscutivelmente:
Uyara Torrente.

Criatividade bárbara
– mesmo se óbvio escrevo kirchner:
Barbara Kirchner.

Nota alegre ou nota séria –
mais ligada que mil voltz:
Rogéria Holtz.

Ensinando não se engana
– se até o cardo é mais – é nardo:
Ana Cascardo.

Pairam noites de Cabíria –
caprichosa feita maga:
Iria Braga.

Linda a língua que se edite
– cristalina assina ao largo:
Edith Camargo.

Compõe, canta, toca, emana –
Em latim revelo-a in nuce:
Ana Larousse.

Se a sereia vai menina
– volta máxi ou até míni:
Janaína Fellini.

Brilho que não cega ao vê-la –
dom com tom tão mais feliz
– mesmo quando a um triste trisque:
Estrela Ruiz Leminski.


* * * * * * * * * * * *

Adendo prosaico: hoje é aniversário da Ana Clara Fischer -- mais uma musa musicista que poderia perfeitamente constar nesse poema -- e com a Ana Clara eu poderia/deveria ter adicionado: Thayana Barbosa, Lívia Lakomy, Melina Mulazani, Laís Mann, Selma Batista, Etél Frota, Kátia Drumond, Helena Bel, Xanda Lemos, Cris Lemos, Tatiana Lemos, Chiris Gomes, Zelda-Gi, Márcia Pricilla, Andrea Hellena, Helena Sofia, Grace Torres, Anne Torres, Sílvia Contursi, Alexandra Scotti -- enfim, agora aqui são mais vinte e uma musas musicistas -- entre cantoras, compositoras, instrumentistas -- todas portadoras do instrumento musical natural da voz, portanto: musicistas -- e também musas inspiradoras, disso não tenho a menor dúvida -- mas por minha insuficiência calhei de escolher as doze que me surgiram antes à memória, e às quais as rimas vieram quase que imediatamente -- pois a memória, além de mítica mãe das musas, também é um pouco traiçoeira: me perdoem todas -- as acima versadas, as lembradas nesta prosa, e as muitas (inúmeras) não citadas -- nestes versos de reverso da minha melancolia, foram doze as luzes de que me vali, mais as vinte e uma que a seguir assinalei, das quais não é menor o mérito por isso -- quero deixar afinal aqui um meu genuíno desejo de que as rimas que ainda não achei encaixem-se em todos os nomes de todas, todas as que assim (e também) nas notas musicais brilham...

...

domingo, dezembro 04, 2011

PREDOMÍNIO DE BÍLIS NEGRA

Novamente prego.
Novamente pia.
Nasce-me o sol negro
Da melancolia.

Outra vez dezembro.
Outra vez sem via.
Outra vez sou membro
Dessa confraria.

Vou aos cemitérios.
Vou às catacumbas.
Voo nos mistérios.
Desço em meio às tumbas.

Artes têm segredos.
Artes têm magias.
Ao perder pros medos
Perdem-se alegrias.

Sem as minhas manhas,
Sem você, perdida,
Sangram as tamanhas
Espirais da vida.

Ou é só um remédio,
Ou só o precipício.
Ouço em tom de tédio:
Vício? Vai pro hospício.

Mas se você disse:
'Meu, eu sou feliz --'
Minha cretinice
Não pediu nem bis.

Outra vez um prego.
Outra vez na pia.
Nasce-me o sol negro
Da melancolia.

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sábado, dezembro 03, 2011

O MAIS BONITO SUICÍDIO

(a Cristina Gebran)

O mais bonito suicídio
é o suicídio simulado:

finge-se
uma esfinge. Se

você já se suicidou
assim

sabe que ou-
trossim

é esse
o mais bonito suicídio que acontece.

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sexta-feira, dezembro 02, 2011

Deblaterações autoctônicas em abstruso estilo poéticoprosaico

Meu prezado e caro eu mesmo dentrodemim cúpido, cuspido, estúpido e enterredado Ivan:

o que será que será que você nem não está despercebendo nesta semitonante existência inultilitimemente matem-a-temática? Ou (sejamos claros -- e docemente pornográficos, como queria Drummond com seu duromundo) melhor expressando, com afã e elã sem manhatantã:

qual é a sua?

Aonde você pensa que vai assim?

Pra que toda essa panca de nem nada quase coisa nenhuma e simplesmente tudo na necas de Curitipitibiriba?

Enfim:

foi alguma moça nua

que te deixou estatelado e apatetado desse jeito com cara-de-velhinho-do-Passeio-Público jogando biriba?

Ou terá sido alguma rima que novamente te atravessou a prosaica coloquialidade do ramerrão diário e te botou virando cambalhotas mentais no atravessar em diagonal as marechais em pleno trânsito de intranseuntes motoristas neurastênicos metendo os pés pelas mãos aos volantes?

Ou antes:
(e agora vem a dura realidade, prepare-se:)
-- terá sido esse seu autoproclamado surto poético, de variadas e multíplices produções-sublimações-da-loucura-mais-absoluta, e essa Virada Cultural, e esses teus recitais no Café Parangolé, e enfim todas essas festas de ontens-hojes-amanhãs -- terá sido só e simplesmente tudo isso que acabou por te deixar com a cuca fora da casinha -- o suficiente pra que você se desprendesse assim de mulher e filho e passasse agora à beira do completo desatino do destino, achando bonito correr o risco máximo, conforme apregoou o grande (e suicida, não esqueça disso) poeta Torquato Neto, o qual você manjou no youtube, na maviosa interpretação do superator Paulo José (cliquem e ouçam-vejam-leiam-saibam) ao som da música de grandes bambambans capitaneados por Jards Macalé?)

-- Foi ou é isso que é, meu Zé, meu pé, meu Pelé, meu capilé, meu Tomé Barnabé qual-é como-é-que-é, meu cara-de-quem-faz-o-que-quer-da-vida-e-assim-mesmo-de-si-mesmo-toma-olé?

Não sei. Sei lá. Em tom de ré:

acho que foi. Sigo não obstantemente cumprindo as obrigações mais imediatas. Agradeço a superegoica chamada na chincha. Mas vou continuar desse jeito questionável por enquanto. Sem mais comentários, entretanto. Até.

...

(to be continued -- ou: tupi continha, ué...)
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quinta-feira, dezembro 01, 2011

DEDICADO A A.L.

fui dormir
pra sentir
quem me lê
quando li
logo ali
qu'est-ce que c'est?
(que és que se?)
esquecer
não tem como
nem me domo
vejo o cromo
deixo a pista
quem conquista
solo em mi
sonho um si
ponho aqui
isto a ti
desenhista

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terça-feira, novembro 29, 2011

UMA QUADRA NA TERÇA

O amor é mais duro do que a pedra
e mais mole que a bexiga duma gata:
cresce onde a erva daninha não medra
e aparece lá onde a paixão não mata.


[feito falando a Tania Chaiben, em 28-11-2011]

domingo, novembro 27, 2011

FELICIDADE AMARGA

[prévia do que vou estrear nesta terça-feira, 29/11, à noite,
no Café Parangolé, a convite do Evandro 'Manchinha' Cardoso,
do Manchinha Trio --
o poema inspira-se na composição Tango Negro]


sol negro
violeta negra
todas as negras
festas de amanhãs
nublados
os sinais e os sinaleiros
amarelos verdes azuis
vermelhos negros
fechados

vontade liberdade de partir
içar a panda lança vela
sorrir seguindo
seguir sentindo
a chuva bela
o frio tão lindo

perceber a dor e o prazer
sem perverter o puro olhar
reconhecer tom dom cor
capacidade ainda ao amor
poder de suportar a carga
da felicidade amarga

a qual você já conhecia
porque aprendeu a ler
o que a melancolia

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sexta-feira, novembro 25, 2011

TODAS AS FESTAS DE AMANHÃ

(ALL TOMORROW'S PARTIES --
canção original de Lou Reed e John Cale
em versão brasileira de Ivan Justen Santana)


E qual traje a pobre garota vestirá
Pra todas as festas de amanhã?
Um vestido usado de sabe se lá
Pra todas as festas de amanhã?
E aonde ela irá, e o que ela fará
Quando a meia-noite chegar?

Ela vai apelar outra vez
Pro palhaço de domingo
E chorar atrás da porta, baixinho

E qual traje a pobre garota vestirá
Pra todas as festas de amanhã?
Por que seda, linho e tafetá
Das vestes de ontens
Pra todas as festas de amanhã?
E o que ela fará
Dos trapos da quinta-feira
Quando a segunda chegar?

Ela vai apelar outra vez
Pro palhaço de domingo
E chorar atrás da porta, baixinho

E qual traje a pobre garota usará
Pra todas as festas de amanhã?
Pois a criança de quinta-feira
É o palhaço de domingo
Por quem ninguém veste luto

Uma mortalha enegrecida
Roupas usadas de sedas e trapos
Traje perfeito pra sentar e chorar
Por todas as festas de amanhã

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quarta-feira, novembro 23, 2011

Ao lançamento das Essências Transfiguradas

velocissimamente
velo assim o que sente
esse um sim em si e a
transfigurada essência
do um por si de cada ente
*

segunda-feira, novembro 21, 2011

FÊNIX

dentro
de cada
um de nós
tem uma
fênix

dentro dela
fogo cromo ródio
lilases rododendros
dentes asas membros
de amor e de ódio
sobre tons de
ônix

dentro de
cada tom
violetas vivas
roxos de morte
anéis cristais pós
e algo ainda
e cada vez
mais forte
dentro de cada
um de seus
nós

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sexta-feira, novembro 18, 2011

ACÚSTICA DAS ÁGUAS E DOS CÉUS

De mãos e pés atados, cabelos arrepiados,
entre tortos e queridos e amalbendiçoados,
ainda assim sigo subindo esse riocorrente,
e da jangada quebrada iço e atiço as velas,
soprando incontinente e avassaladoramente
só pra ir ouvindo cantos de sereias e estrelas...


(shows de Jana Fellini -- hoje ali no SESC Paço,
e de Estrela Leminski -- amanhã lá no Paiol:

noites em que haverá sol...)

* * *

quinta-feira, novembro 17, 2011

O ex-surtado, ainda um pouco egomaníaco mas prometendo melhorar, parabeniza sua filha

*
Quando eu enlouqueci, no meu primeiro surto,
Ela foi a razão da minha volta ao controle;
E hoje é também por ela que nunca me furto
A manter com rigor meu coração mole.

Seriam de esperar no mínimo onze versos
Para celebrar este aniversário dela:
Onze anos pulsam hoje como onze universos
E eu sei que ela já sabe o quanto a vida é bela.

Assim perfaço aqui doze dodecassílabos
Nesta homenagem, senão certa, mais que justa
E lanço mão de um truque: a fácil rima em ílabos
Facilitando os parabéns a Rúbia Augusta.


* * * * * * * * * * *
(onze estrelinhas de presente pra você, filha)
________________________________________

terça-feira, novembro 15, 2011

ALÉM DO ZEN E DO TAO

*

folha de papel em branco

implorando por uma metáfora

pra pegar no tranco


falha do poeta bronco

procurando apenas um nome

pra riscar no tronco


ilha do livro onde brinco

siga só pra destroncar

a tranca sem trinco

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sábado, novembro 12, 2011

FIM DA NOITE

(no Wonka Bar)

Um cão fila de pagamento
sem clima de putaria ali dentro.

O poeta, semitonto de absinto,
muito à vontade -- aliás, minto:

pouco morto de vontade de, de,
de contatar a amada via DDD

porém sem saber quem é ela, quem
sou eu, quem nós, vós, tu, você.

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sexta-feira, novembro 11, 2011

A AMARGÚCIA & O ODISSÍNIKO

(ou UM COMEÇO SEM DESMEIO NEM FIM)

A Amargúcia e o Odissíniko,
quais dois rábidos fatentes,
ampulhetavam desperdentes
histercórias de engonzínico.

Ternangantas gatiplantas
flaufam íteos falinúvios,
condilecem cios esgrúvios,
pulcram legres rodimantas.

Certo dia, crômio de ludeza...

...

... >< ... !!!

...

Uma saudação especial (e espacial)

ao fundamental
Ricardo Chacal:
da poesia marginal
ao CEP Vinte Mil,
ao que ele já produziu
e por prosseguir assim a mil --

Chacal me disse que a Virada Cultural
pra ele era como um Rock in Rio --
e isso não foi um exagero sensacional
nem resultou de nossa empolgação febril:
pra mim foi como se a poesia nacional
centralizasse Curitiba no Brasil.

* * *

quinta-feira, novembro 10, 2011

HOJE!

(o "título de trabalho" do meu recital hoje é Inédito & Blogado --
basicamente é um recital de poesia,
mas a quem gosta de surpresas: participação especial
da cantora e acordeonista Helena Sofia...

(clique na imagem para ampliar)

terça-feira, novembro 08, 2011

domingo, novembro 06, 2011

Relato Pessoal da Virada Cultural em Curitiba 2011

Recordo em primeiro lugar que o prolongamento da Virada, a Corrente Cultural, segue até o próximo sábado, e estarei no Cabaret Parangolé, no café de mesmo nome, nas noites de 10/11 (quinta-feira) e 12/11 (sábado), estreando meu recital poético Inédito & Blogado.

A Virada Cultural foi estapafúrdia: no sentido de "acachapante, irrefragável, colossal e supimpa".

Um mundo de eventos.

De início, participei diretamente (como poeta convidado) no Panelaço, em sua segunda edição. A primeira foi em homenagem a Ivo Rodrigues. Esta celebrou o poeta curitibano Marcos Prado (1961-1996), tendo as participações poéticas de Roberto Prado, Batista de Pilar, Thadeu Wojciechowski, Monica Berger, Edilson Del Grossi, e este seu criado blogueiro. Fiz também a "amestragem de cerimônias", apresentando além dos poetas as bandas (Os Elementos, Bardot em Coma, Crocodilla, Os Chuvas, A Sexta Geração da Família Palim, bem como Diego Medina).

Fiquei das 12h às 18h no teatro do SESC da Esquina. Os poetas tiveram por volta de 15 minutos para suas récitas. As bandas, 35 minutos. Eu poderia escrever um conto (ou até uma novela) sobre essa tarde. Foram apresentações de altíssima qualidade. Sendo eu suspeito para julgar, quero que se foda quem achar que estou sendo arrogante: na verdade, o único senão foi a presença de público, numericamente falando - mas qualitativamente a minoria que esteve por lá foi uma minoria esmagadora.

Depois, fui ao palco das Ruínas de São Francisco. A Banda Mais Bonita da Cidade estava lavando a alma dos compositores curitibanos. Munido de credencial, assisti a boa parte do show literalmente no backstage: a parte de trás do palco. Ali estavam Alexandre França, Luiz Felipe Leprevost e Troy Rossilho. Consagração deles, destacados pela adorável Uyara Torrente. Indescritível a emoção: aproximadamente dez mil pessoas vendo uma nova geração de artistas concentrados aqui em Curitiba sendo entronizados no panteão da cultura pop do momento.

A seguir, na companhia do grande poeta carioca Chacal, e daquele que eu qualifico "o Imperador da poesia curitibana": Adriano Smaniotto, subimos ao segundo andar da galeria de arte Um Lugar ao Sol, e participamos do RádioCaos ao vivo no palco das Ruínas, com as canções de Giovanni Caruso & o Escambau. Recitamos poemas a um grande público, mesmo tendo se dispersado a multidão que viu a Banda Mais Bonita.

Depois do show do Copacabana Club, novamente aconteceu o RádioCaos ao vivo, para um público ainda maior e mais participativo. O programa é produzido e apresentado pelo vocalista e aglutinador cultural Rodrigo Barros Homem Del Rey, junto com Samuel "Big Lips", que insere bases sonoras com grande sensibilidade para seu encaixe nos poemas. A segunda entrada do RádioCaos teve o impagável e genial compositor, músico e cantor curitibano Carlos Careqa, que dominou e pasmou o público. Nós três poetas (Chacal, Imperador Smaniotto e eu) acho que também não fizemos feio -- na verdade, ficou tudo registrado: quem viu, viu, quem não viu poderá conferir futuramente, se tiver sorte, os vídeos que a esposa e o filho de Samuel fizeram: momentos que agora estão na galeria de tesouros da minha memória. Sem abusar desse lugar comum. Assim foi, é e será.

Depois, a festa no Parangolé. Foi só a abertura do Cabaret, com o Klezmorim levando a audiência a êxtases de dança, palmas e gritos.

Hoje, show do grupo vocal Brasileirão, e Sá e Guarabyra. E o encerramento da Virada no Bicicletário. Um fim de semana real e mágico, absurdo e verdadeiro, simples e sublime.

* * *

Adiciono aqui três nomes de pessoas-chave para mim nesse fim de semana:

Getúlio Guerra

Rogéria Holtz

Edson de Vulcanis (torcemos pela sua recuperação, Aranha!)

e agradeço ao público, em especial a quem tem sorrido e se alegrado com os meus êxitos.

Saúdes!

* * *

quinta-feira, novembro 03, 2011

INSPIRADO EM PALADAS DE ALEXANDRIA

(E DEDICADO À GRANDE ALEXANDRA LEMOS ZAGONEL)

Eu falo da vida e também falo da morte.
Tenho dó da menina mas deixo chorar.
Ainda rimo porque a rima é um belo esporte.
Ainda escrevo assim sem hora nem lugar.
Se me aparece a morte e diz que vai pro norte,
Será que vai porque não há mais que matar
E elas, eles, vós, nós, ele, ela, você, eu
Estamos vivos mas a vida já morreu?

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terça-feira, novembro 01, 2011

Em luto

pelo falecimento de Ivar Luiz Nunes Piazetta

padrasto de minha filha Rúbia Augusta,
e pai da irmã dela, Nyna Tereza.


Presto tributo também a
Amílcar Gioppo do Nascimento

meu padrasto, de 1979 a 1993,
falecido há um mês, no dia 29/09/2011.

*