quarta-feira, maio 25, 2011

ABRIGO DA TEMPESTADE

(SHELTER FROM THE STORM, Bob Dylan)

Aconteceu noutra vida, uma de sangue, esforço e drama
Quando a escuridão era virtude e a estrada, apenas lama
Eu vim dos sertões selvagens, um tipo sem identidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

E se eu passar aqui de novo, considero contada essa fava
Farei sempre o melhor por ela, empenho minha palavra
Neste mundo de ímpia morte, homens lutando sem irmandade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Nenhuma frase troquei com ela, arriscado qualquer assunto
Tudo até aquela altura foi deixado irresoluto
Imagine um lugar tranquilo, sempre seguro de verdade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Eu estava gasto, totalmente exausto, alvejado de granizo
Envenenado das veredas e das trilhas sem mais siso
Caçado como um crocodilo, estraçalhado na vontade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Súbito virei para trás e lá estava ela, sem apelos
Com braceletes de prata nos pulsos e flores nos cabelos
Ela veio a mim, graciosa, limpou-me as marcas da maldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Agora há um muro entre nós, algo havia e se perdeu
Tomei tudo como certo, e o erro acho que foi meu
E pensar que tudo começou numa manhã já sem saudade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

O delegado anda sobre brasas e o pastor escala morro
Mas nada mais importa muito, os destinos não têm socorro
E o coveiro funerário sopra a trompa da futilidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Já ouvi recém-nascidos chorarem como aves de agouro
E velhos de dentes quebrados, sem amores, sem tesouros
Se entendi sua questão, amigo, não há mais fé nem bondade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Numa vila sobre a colina, apostaram minhas vestimentas
Barganhei por salvação e me deram venenos de ação lenta
Ofertei minha inocência, paga com desprezo e crueldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Estou vivendo no estrangeiro, mas prestes a cruzar a fronteira
A beleza vai no fio da navalha, um dia será minha parceira
Se a quando Deus e ela nasceram eu voltasse a realidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”

Versão Brasileira: Ivan Justen Santana
*

6 comentários:

rodrigo madeira disse...

agora é a hora e a vez do palhaço barbosinha! you had it coming, you had it coming... conforme clamou augusto matraga, “para o céu eu vou” – e digo mais, para o circo, para o circo eu vou – “nem que seja a porrete”.

ivan, traduzir é foda. porque a homenagem é vizinha de porta da blasfêmia; a entrega, da traição; e o eruditismo, do analfabetismo. a imagem que dylan usa mais do que nos serve: “beauty walks a razor´s edge, someday i´ll make it mine”.
acho que, no geral, a tradução ficou bem boa. mas há altos e baixos, claro, não poderia deixar de haver. vamos então a eles...

antes, os altos: achei brilhantes algumas soluções a que vossa poetência chegou...
“e pensar que tudo começou numa manhã já sem saudade” para “long-forgotten morn”;
“alvejado de granizo” para “buried in the hail”;
e veja se não é bom isso que vc escreveu:
“já ouvi recém-nascidos chorarem como aves de agouro
e velhos de dentes quebrados, sem amores, sem tesouros
se entendi sua questão, amigo, não há mais fé nem bondade
‘entra,´ disse ela, ´eu te dou abrigo da tempestade´
– é , é bom – você diz.
– bom o caralho, ivan! deixa de modéstia. isso é ótimo!

esta letra, cuja tradução poética é tanto mais difícil caso o “undertaker” queira respeitar o esquema rímico, talvez seja a melhor que dylan já tenha escrito, literariamente falando. e daí, obviamente, já se sai com dez corpos de desvantagem em relação à lebre do lirismo. não há nada (ou quase nada) na tradução que possa fazer dylan se revirar na cadeira de balanço ou soprar transtornado aquela gaitinha vagabunda dele. nada que se compare às versões de zé ramalho, por exemplo, que conseguiu transformar o roufenho maravilhoso num compositor medíocre. apesar disso (há sempre um apesar disso), “everybody must get stoned”, ivan - como ambos, irmãos de tinta e de trecho, sabemos...

“there was little risk involved” foi traição semântica na caruda.
“ravaged in the corn” – adoro esta imagem! – se perdeu.
“and the one-eyed undertaker, he blows a futile horn” tbm não ficou bom – uma sugestão? “e o coveiro caolho sopra a trompa da futilidade”. (“undertaker” é “agente funerário”, verdade, mas em nosso idioma laciado - do lácio! -, não é um termo conciso e belo como é bela e concisa a palavra “coveiro”; além disso, convenhamos, “fútil de amizade” não tem nada a ver.)

por último, a última estrofe. tudo ia bem nessa estrofe inesquecível quando, quando...(clímax temido mas inesperado) o funâmbulo caiu do arame; ou, na gentileza idiomática que se sobressai entre meus predicados, quando vossa poetência cagou no pau! ironia das ironias que vc tenha escorregado exatamente no fio da navalha onde também se equilibrava a beleza. “nasceram à necessidade” é pior do que aquele acidente de moto que dylan sofreu em 1966!
sei que este trecho é dificil, mas ele é também o mais lindo verso da canção. outra sugestão? talvez um hiperbatozinho resolvesse:
“atrasar os ponteiros até quando deus e ela nasceram era minha vontade”. “vontade” foi usado antes por vc, mas dylan tbm repete no original a rima “warm”. e, apesar de o verso ficar bem mais longo, bem, não se pode ter tudo, e é muito melhor que ficar por aí nascendo à necessidade.

no mais, ivan, reitero minha admiração e desde já confirmo minha presença no lançamento de sua seleta das letras de dylan – traduzidas, quase sem exceções, com mestria -, lançamento ao qual chegarei tocando, em sua homenagem, aquela insuportável gaitinha de “all along the watchtower” sem parar.

abraço.

Ivan disse...

Caríssimo Rodrigo:

I knew I had it coming, inclusive porque postar essa tradução foi praticamente uma isca pra pescar um comentário seu: e apareceu mesmo um "peixe" de grande envergadura, com críticas e golpes devidamente assimilados, conforme você verá: vou aceitar sua boa sugestão no verso do undertaker, e tentar providenciar uma solução diferente à quadra final (sendo que eu até gostava do "nasceram à necessidade", nhé...).

Valeu mesmo, de qualquer forma: vamos manter a vigilância mútua!

rodrigo madeira disse...

that´s it, aivan!
vamos manter a vigilância, sempre respeitando o trinômio - amor à poesia, companheirismo e má vontade.

abração.

Fanzine Episódio Cultural disse...

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