sábado, dezembro 08, 2012

Dedicado individual e especialmente a cada pessoa que acha não ser possível traduzir poesia (ou, nesse caso, texto poético de canção do Bob Dylan, sem ouvir e ler e entender no original).


BALADA DE UM MAGRO
Bob Dylan: Ballad Of A Thin Man --

Você entra na sala
Com um lápis na mão
Vê alguém sem roupa
E diz: “Quem é esse?”
Você tenta tanto
Mas não compreende
Nem sabe o que vai dizer
Pros espectadores insones
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você ergue a cabeça
Diz: “É aqui que é o negócio?”
E alguém aponta você e diz: “Sócio”
E você: “O que é meu?”
E um outro: “Onde o que é?”
E você: “Meu Deus
Estarei só entre fingidores?”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você entrega o ingresso
E vai assistir à esquisitice
Que vem direto até você
Ao ouvir o que você disse
E diz: “Como é que é
Ser uma aberração dessas?”
E você diz: “Impossível”
Enquanto ele lhe entrega um cone
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Você tem muitos contatos
Entre lenhadores natos
Pra obter fatos
Se algo faz você torcer o rosto
Mas ninguém tem respeito
Só esperam do seu jeito
Entregar mais um cheque
De caridade abatível no imposto

Você esteve entre professores
Que amaram seus remoques
Com grandes advogados você
Discute leprosos e escroques
Já passou por todos aqueles
Livros de Scott Fitzgerald
Você os leu e já eram de
Domínio de todos, né?
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, o engolidor de espadas vem
Até você e se ajoelha
E se persigna e se benze
E estala os saltos-agulhas
E sem mais nenhum alerta
Pergunta-lhe o que dá na telha
E diz: “Estou devolvendo tua goela
Grato também pelos fones”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz nem ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

Agora você vê um caolho anão
Que grita a palavra “AGORA”
E você: “Por qual razão?”
E ele: “Como fora?”
E você: “O que significa isso?”
E ele: “Você é vaca leiteira
Me dê logo algum leite
Ou sai fora, tetas de clone”
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

É, você entra na sala
Qual camelo, franze a testa
Coloca os olhos no bolso
E o nariz numa fresta
Tinha que haver uma lei
Contra você por perto
Você devia ser forçado
A usar nos ouvidos tampões
Pois alguma coisa acontece aqui
Mas você não faz ideia do quê
Não é mesmo, Mister Jones?

vb: ijs
...

sábado, dezembro 01, 2012

Mais Lord Byron...

[extraído de Childe Harold´s Pilgrimage, Canto I, de Lord Byron --- versão brasileira: Ivan Justen Santana]

O ADEUS DO INFANTE

1.
Adeus, adeus! nativas costas
__Somem no azul do mar;
Ventos suspiram, ondas postas,
__Guincha a espuma a vogar.
O Sol se põe lá no horizonte,
__Seguimos os voos seus;
Boa noite agora a quem te aponte,
__Terra natal---Adeus!

2.
Daqui a umas horas nascerá
__P'ra dar a Aurora à luz;
E eu saudarei os céus de lá
__Mas não meus chãos tão nus.
Deserta está minha mansão,
__Lareira desolada;
Ervas selvagens no portão;
__Meu cão uivando ao nada.

3.
"Vem cá, vem cá, pequeno pagem!
__Por que choras e gemes?
Tens medo de alguma voragem
__Ou pelo barco tremes?
Limpa estas lágrimas dos olhos;
__Nosso barco é potente:
Nosso falcão despreza escolhos,
__Planando alegremente."

4.
"Zurzam ventos; ondas: avante!
__Não temo ondas nem ventos:
Mas não te espantes, Mestre Infante,
__Pelos meus sentimentos;
Do lar de meu pai eu parti
__Deixando a mãe amada,
Não tenho amigos; tenho a ti
__E ao Pai maior---mais nada.

5.
"Meu pai me abençoou com fé,
__E assim restou contente;
Mas minha mãe sofrerá até
__Que eu volte novamente."---
"Já basta, basta, meu rapaz;
__Teu pranto tem valia,
Deixasse tanto para trás
__Eu também choraria.

6.
"Vem cá, vem cá, meu bom feitor,
__Por que pálido estás?
Temes por francês malfeitor
__Ou pelo barco audaz?"---
"Achas que só por mim lamento?
__Ó Infante, não sou fraco;
Na esposa ausente o pensamento
__Comove até um velhaco.

7.
"Esposa e filhos meus deixei
__Lá à borda do teu Lago,
Se eles chamarem por seu pai
__O que ela há de falar?"---
"Já basta, basta, meu feitor
__De dor justa e pesada;
Pois eu, que trago leve o humor
__Fujo dando risada.

8.
"Pois quem confiava nos gemidos
__De esposa ou namorada?
Secam olhos já umedecidos
__Por nova paixão dada.
Por prazer morto não me enluto,
__Perigo não me assusta;
A grande dor pela qual luto
__Lágrima não me custa.

9.
"E agora aqui sozinho estou
__Sobre este vasto mar:
Por que grunhir por outros vou
__Se a mim não vão chorar?
Talvez meu cão se queixe em vão,
__'Té que estranho o alimente;
E se eu voltar noutra estação
__Ele me crava o dente.

10.
"Contigo, barco, eu vou veloz
__Sobre a campa marinha;
Nem ligo aonde vamos nós
__Se não de volta à minha.
Bem-vindas, ondas, vindo eternas!
__Sumindo aos olhos meus;
Bem-vindos, desertos, cavernas!
__Terra natal---Adeus!"

sexta-feira, novembro 30, 2012

VARIAÇÕES MAIS OU MENOS PRÓXIMAS DO LIMERICK 'THERE WAS AN OLD MAN OF PERU', DE EDWARD LEAR (1812-1888)

There was an old man of Peru
Who never knew what he should do;
So he tore off his hair,
And behaved like a bear,
That intrinsic Old Man of Peru.

____5
Havia um velhinho silvícola:
Cultivava uma dúvida ridícula;
__Então raspou a cabeça
__E urrou bem à beça
O intrínseco velho silvícola.

____4
Era uma vez um velho homem
Cujos vacilos já o consomem;
__Resolveu ser careca
__Feito urso que impreca
Idiossincrático, velho homem.

____3
Havia um ancião incapaz
Pedindo a um rapaz inca paz;
__Sem dúvida ignorava
__Sua situação escrava
De ancião, inca, incapaz.

____2
Era uma vez um velho de Madagascar
Que não sabia nem polir e nem lascar;
__Então voltou ao Neolítico,
__Realizando estudo crítico,
Aquele velho da ilha de Madagascar.

____1 
Havia um velhinho do Peru:
Sem saber o que vestir, andava nu;
__Depilado fez discurso
__E comportou-se como um urso
Aquele intrínseco velhinho do Peru.

versões brasileiras:
Ivan Justen Santana

*  *  *

terça-feira, novembro 13, 2012

MÃO PATA


Se era a vida andando estranha ou
Se eram latas no porão,
Macaquinhos pelo sótão,
Borboletas nem se notam,
Galunfantes, como não?
Mas se a vida andava estranha
Nem se a aranha arruína a Espanha
A espada é pena ao violão?

Só essa vida andando estranha e
Borboletas pelo sótão:
Macaquinhas que se socam!
(E uma gata no porão:
Só uma gata, e só esta gata,
Úmida, serena gata
Amaciando minha
Em sua: dela: pata: mão...

[de ijs a ffr]
____< 3____

domingo, novembro 04, 2012

NÓS (CANÇÃO NÚMERO DOIS PARA FAENA)


perdemos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos

queremos
ciganos
sabemos
arcanos
derrames
de sangues
nos mangues
nos becos
trememos
nos mesmos
abismos
extremos
gememos
gingamos
choramos
perdemos

gramamos
ganhamos
gamamos
chegamos
qual gamos
nos campos
nos matos
nos bosques
amantes
estranhos
geramos
gememos
gingamos
choramos
ganhamos
perdemos


[harmonia: Am Em F G Abº -> Am]

sexta-feira, novembro 02, 2012

DESESTRELADO


A estrela que brilha forte
Cai do céu de encontro à morte.
Quer saber o que é o amor?
Astro enfiado no fedor.

Ele é feito um cão sarnento
Que se espoja na sujeira.
Porca grunhe, galo canta,
E ele exclama em sua lama.

Ah, se eu fosse nesta rocha
Onde a amada desabrocha,
Onde eu sonho a terna sova:
Minha e dela em mesma cova...!

Heinrich Heine (1838)
Ivan Justen Santana (2012)

texto original: UNSTERN

Der Stern erstrahlte so munter, 
Da fiel er vom Himmel herunter. 
Du fragst mich, Kind, was Liebe ist? 
Ein Stern in einem Haufen Mist.

Wie 'n räudiger Hund, der verrecket, 
So liegt er mit Unrat bedecket. 
Es kräht der Hahn, die Sau, sie grunzt, 
Im Kote wälzt sich ihre Brunst.

Oh, fiel ich doch in den Garten, 
Wo die Blumen meiner harrten, 
Wo ich mir oft gewünschet hab 
Ein reinliches Sterben, ein duftiges Grab!

FONTE: CLIQUE AQUI

quarta-feira, outubro 31, 2012

VENDAVAL NUMA CANÇÃO

Teu amor na treva: estrela,
no silêncio: melodia,
na brisa: a calmaria
abrigo: no furacão,
céu: poema: noite negra:
vendaval numa canção.


de ijs a ffr

segunda-feira, outubro 29, 2012

NÃO VAMOS MAIS PRA BALADA (mais uma do Lord Byron)

Não vamos mais pra balada
__Tão tarde, na madrugada,
Bem que o peito ainda nos bata
__E a lua ainda vague, alta.

Se a espada gasta a bainha,
__E se a alma desgasta o peito,
Cansa um corpo que caminha,
__E o próprio Amor dorme em leito.

Bem que a noite a amar foi dada,
__E o dia retorne em regra,
Não vamos mais pra balada
__Sob a luz da lua negra.

texto original de Lord Byron:
So We'll Go No More A-Roving ---

versão brasileira e notívaga:
Ivan Justen Santana

*  *  *

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA COM UM CRÂNIO HUMANO

(texto original: Lord Byron ---
versão século XXI:
Ivan Justen Santana)

Não te assustes! Aqui estou, em copo e alma;
__O único crânio (sem remédio)
Do qual, diverso da mente humana,
__Flui tudo menos tédio.

Vivi, amei, bebi, tal como tu:
__Morri: que a terra não me tenha;
Enche-me!--- já estou mais que nu;
__Antes teus lábios que os da tênia.

Antes ser taça a um bom espumante
__Que berço a um verme enroladinho;
Correr de boca em boca, sempre avante,
__Esquivo aos répteis, levando vinho.

Aqui talvez brilhou meu cérebro:
__Agora aos outros brindarei
E após---ó vida!---voar meu gênio
__Trago comigo vinhos de rei.

Bebe tu enquanto podes: outra raça,
__Quando restarem só os teus ossos,
Talvez também os tome e faça
__De ti uma taça e versos insossos.

Então por que não? Se a vida é breve
__E os nossos crânios já estão cheios disso,
Longe de argilas e beijos de vermes,
__Cumpram também tal sacro ofício.

...........................................................

Subitamente, numa segunda-feira de releituras, redescubro este poema:

A LAGARTIXA

Álvares de Azevedo (1831-1852)

A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão dos teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores,
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis dos teus amores.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...
Vivo ao sol dos seus olhos namorados,
Como ao sol do verão a lagartixa.

*  *  *

sábado, outubro 27, 2012

Um soneto de Guido Cavalcanti (1258-1300)

Tu tens a flor e o verdor
E o que luz e é belo ao ver;
Resplendes qual sol maior:
Quem não te vir vai perder.

Neste mundo não há flor
Tão bela, nata ao prazer,
E ao te ver perde o temor
Quem ao Amor quer temer.

As Damas que te acompanham
Me agradam por teu amor;
Peço a elas, se te ganham,

Que te honrem com justo ardor
Pois dentre estas que te banham
De graças és a melhor.

versão brasileira: Ivan Justen Santana

* * *
Seguem a tradução feita por Ezra Pound e o original de Guido Cavalcanti:

THOU hast in thee the flower and the green
And that which gleameth and is fair of sight,
Thy form is more resplendent than sun's sheen;
Who sees thee not, can ne'er know worth aright.
Avete ’n vo’ li fior’ e la verdura
e ciò che luce od è bello a vedere;
risplende più che sol vostra figura:
chi vo’ non vede, ma’ non pò valere.

Nay, in this world there is no creature seen
So fashioned fair and full of all delight;
Who fears Amor, and fearing meets thy mien,
Thereby assured, he solveth him his fright.
In questo mondo non ha creatura
s’ piena di bieltà né di piacere;
e chi d’amor si teme, lu’ assicura
vostro bel vis’ a tanto ’n sé volere.

The ladies of whom thy cortèconsisteth
Please me in this, that they've thy favour won;
I bid them now, as courtesy existeth,
Le donne che vi fanno compagnia
assa’ mi piaccion per lo vostro amore;
ed i’ le prego per lor cortesia

Holding most dear thy lordship of their state,
To honour thee with powers commensurate,
Sith thou art thou, that art sans paragon.
che qual più può più vi faccia onore
ed aggia cara vostra segnoria,
perché di tutte siete la migliore.

Fontes:
POUND [clique aqui e busque o Sonnet XV]
CAVALCANTI [link Wikisource]

Cid, Fernão, Ivan, Sérgio e Márcio, trinta e poucos anos atrás...


O AMOR, DE NOVO

O amor
é uma flor

que racha rocha,
machuca madeixa
e deixa
bochecha
roxa.

---<--{@
...

}{


(de IJS a FFR)

quinta-feira, outubro 25, 2012

O MITO DO MITO DO ERA UMA VEZ

Existe um mito do mito
do era uma vez:
disto estou certo
e convicto aqui eu
me declaro a vocês:
até a tecla mute
é usada no rito
o qual condiz,
por sua vez,
e universal será,
posto que aflito,
tal mito que admito
e enfim finito grito:
já era uma ou duas
mas nunca mais que 3.

*  *  *

terça-feira, outubro 23, 2012

Um soneto de Joachim Du Bellay (1522-1560), curitibanizado por Ivan Justen Santana (1973 - )...

FELIZ QUEM, COMO ULYSSES, FEZ BELA VIAGEM...

Feliz quem, como Ulysses, fez bela viagem,
Ou como este outro herói, o vencedor Jasão,
Que, ganho o Velo de Ouro, volta com razão
A viver entre os seus, em sua prima paisagem!

Quando inspirarei, ai, da minha Vila a aragem,
Seus cheiros, chaminés? E em qual verão que tarda
Reverei o arvoredo da pobre mansarda,
Minha Província, onde levo em tudo vantagem?

Bem mais me agradam céus caingangues, botocudos,
Que dos paços de Roma os frestões e os veludos:
Bem mais que o duro mármore a poeira urbana,

Bem mais meu rio Belém que o Tibre dos latinos,
Bem mais Serra do Mar que Montes Palatinos,
Mais que maresia a brisa curitibana.

texto original: Joachim Du Bellay
versão paranaense:
Ivan Justen Santana
__________________________________________

sábado, outubro 20, 2012

Emiliano Perneta (1866-1921), dialogando com Satanás (?-?)...

CHRISTE, AUDI NOS

A Dario Vellozo

“Meu Senhor, meu Senhor morto, a Teus pés feridos,
Junto ao Teu coração, que sangra e luz, enfim
Eu me prostro, e ajoelho os meus cinco sentidos
– Cinco feras, Senhor! – Tem piedade de mim!”

– “Tu desejas que aos céus, e como estrelas de ouro,
Vá teu Verso insculpir a Mágoa e a Dor cruel,
Para que o mundo, ouvindo o deslumbrante coro,
Do teu Orgulho veja a Torre de Babel.

A ânsia mortal conténs de uma árvore maldita
Que, estéril, sob o sol, flor nem fruto produz,
E, presa à Terra, em vão os braços torce e agita:
Sugam-lhe a seiva e a polpa as ventosas da luz.

Buscas, mas só porque do ‘novo’ o aroma exala,
O crisântemo azul de uma Quimera vã...”
“Surdo! Senhor, sê surdo! É o Demônio quem fala!
É o Blasfemo! É Satã!... Livra-me de Satã!

Creio. Desejo crer. O Invisível fulgura...
A Ciência é um pobre monge estudando o ABC.
Desse Enigma feroz e dessa Luz obscura
Tremo. Quem sou? Quem és? Um Mistério!... Por quê?”

– “Mentes. Tudo isso é pura obra do teu Orgulho.
Tu não crês!” – “Ó cruel, cala-te! Eu hei de crer.
Hei de crer, apesar desse negro marulho
Do teu ódio crescente, abominável Ser!

Hei de crer nessa Mãe Misericordiosa
Que à minha sede o peito oferece do Bem,
Pois vi rolar, rolando em vaga tonitruosa,
Tudo quanto eu amei nos escombros do Além!...

Hei de crer...” – “Não crerás! Não hás de crer mais nunca!
A descrença, infeliz, é como o bronze cru:
Não torce. Eu arranquei a luz dessa espelunca...”
– “Ó maldito Satã!” – “Maldito serás tu!”

“Tem piedade, meu Deus, da lôbrega miséria,
Do veneno animal e da infâmia feroz
De quem Te pede, ó Justo, a paz do Sonho, etérea,
Com angústia no olhar, com soluço na voz!

Do óleo santo do Teu perdão magoado ungi-me,
Dá-me forças, Jesus! Dá-me alento, Senhor!
Para que eu não sucumba ao peso do meu Crime
Antes de ter gozado o verdadeiro Amor!...”

– “Alma, dentro de ti mora um triste coveiro,
Mudo e gelado, como num tanque a boiar...
Sentes-lhe o peso enorme!...” – “Eu faleço, Cordeiro!
Vinho, divino Vinho! Embriaga o meu pesar!

– “Sobre o teu coração dobra angustioso o Remorso,
O Desespero grasna um rouco Cantochão.”
“Em vão, em vão, Senhor, em vão é que eu me esforço
Para deixar de ouvir o clamor da Aflição.

Eu sou triste, Senhor! Triste é a minha existência.
Minha tristeza é bem como a lepra de Jó.
Não resplandece mais a real magnificência...
Tem piedade de mim, meu Senhor! Estou só.”

– 1897 –

Fonte:
Poesias Completas de Emiliano Pernetta
Rio de Janeiro: Livraria Editora Zélio Valverde, 1945
[volume II, pp. 100-102].
Texto transcrito e atualizado por Ivan Justen Santana.

*  *  *

quarta-feira, outubro 17, 2012

NOWA CONJURLGASÇÃO: VER BO TER

eu tenho pinto
e nunca minto

tu tens boceta
e queres treta

você tem acento
e um pau lhe assento

ele tem olhos
e frita os miolos

ela tem cabeça
e é boa à beça

nós temos nada
e tememos tudo

a gente é agente
e atrás tem frente

vós tendes dó
e virastes pó

vocês têm sexo
e circunflexo

eles têm elas
e pra quê mais?

ijs

terça-feira, outubro 09, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

DE PLEITO ABERTO

De pleito aberto sangram os candidatos
___E as candidatas gemem.
As urnas, dentro os óvulos ingratos,
___Recebem os votos: sêmen.

Numa elegia a quem não se elegia,
___Transmudam-se de lado
Os marqueteiros de quem já dizia
___O rei está pelado.

Num último e desesperado apelo
___Propõe-se anulação.
Frágil sufrágio: pode-se empreendê-lo
___Porém prendê-lo não.


______IJS

quarta-feira, outubro 03, 2012

DE PLECTRO ABERTO

Um verbo que você não conheça.
Um verso que ninguém esqueça.
Um pé no lugar da cabeça.

Um P da palavra mais certa
que eu busquei no teu grito de alerta:
nosso caso é uma porta---entre!---aberta.

Nosso amor sim deu certo:
bobo, quieto, tranquilo, esperto---
todas as cores do espectro

de plectro aberto.

*/*
ijs

MÁDIDAS FRESCURAS

Mádidas frescuras: hírcicas contrações.
Espasmos módicos: cáries ósseas de más tenções.
Hastes, trastes, contrastes:
hibridismo nas quantias: e a miséria de acha vero.
Mergulhos intrauterinos: ultrainteriores.
Fuligens na pelugem: gen de nucleotídeo.
Mitos e côndrias, para que vos quero!
Inequações aproximadamente iguais: há zero.

ijs

*/*

quarta-feira, setembro 26, 2012

SE UM POÇO

Se um poço pode ser torre ao contrário,
Se um trôço até parece belo ao fosso,
Se mesmo o velho som do estradivário
Segunda de manhã gera alvoroço,
Se as gralhas vão de azul até o pescoço,
Se um malandro bom não vale um otário,
Se o rosto fala do retardatário
E a farra rói o moço até só o osso,
Sou tão memorioso quanto Funes
Quando repito os itens desta lista
De poetas mal dispostos sem arranjos:
Estou bem mais Arnaldo do que o Antunes,
Mais Arnaldo do que o Dias Baptista,
Mais Augusto que os de Campos dos Anjos.

IJS
__________

DENTRE FACÇÕES

Dentre facções, facões, contrafações,
Colhi pro meu amor uma begônia
E na agonia da espermatogônia
Pintei perfumes fósseis feito ações;
Fui besta e seta aos olhos dos falcões:
Azul a mosca numa mira errônea,
Vergonha enfronha-se fedendo a amônia,
De Navarone soltando os canhões.

Canhoto, fraco, gaguejante, fanho,
Afanador, velhaco, adolescente,
Sinto-me um pulha mas ainda apanho
Da impunidade de quem rouba irmão;
Assim quem sente geme como a gente:
Assim todos os teus serás serão.

IJS

---}--{---

segunda-feira, setembro 24, 2012

PARA CAIR:)

Para cair, chute a queda:
para chutar, lamba os beiços--
caso apareça uma Al-Qaeda
preocupe-se com os óbices.

Mas no caso de um asno no caso,
desde outro desde denteado demônio,
use ônix, safira e, penteada no ocaso,
uma pérola de ofir no estramônio.

Sim, nada mais há a (aha) entender:
reflexos atrasados de pouco adiantam--
antas roem, mães doem, ratos cantam

e os raros que inda extraem prazer
tem que aturar tantas demonstrações:
porém são bons os sons os dons os tons

sem esquecer as rãs tantãs e os meus ronrons...


 */* ... ;]

sexta-feira, setembro 21, 2012

O ASSASSINATO DO POETA CONCRETO

O poeta concreto não saía mais
de seu apartamento.
O mundo ficara pequeno.
Sala, quarto.
Corredor, janela.
Piano, privada.
Ala sul, Zurique.
Nada. Rien.
Nenhum piquenique suficiente
ao poeta concreto,
para trazê-lo, zeloso e com zelo,
a um parque neozelandês,
por exemplo.
E o que se diria
de qualquer outro templo
como sempre o é a natureza?
O poeta concreto
não falava mais
(nem menos)
do que o
estritamente necessário.
Menos, talvez, do que convinha
àquela sua atitude contida,
total, absoluta, demasiado
comedida. Consigo amasiado
o poeta concreto sua própria
e sempre mesma piada pronta.
Outra vez.
E de novo. E novamente.
Mas pelo menos o poeta concreto
ainda comporta piadas,
e uma compota de poetas,
quaisquer poetas, mistos,
vale por uma biblioteca
de velhos prosadores barrigudos
com suas fãzinhas bundudinhas
esbanjando sacadas.
---Bang!

ijs

quinta-feira, setembro 20, 2012

VISÕES DE JOHANNA


VISÕES DE JOHANNA
[Visions Of Johanna, Bob Dylan -- vb: ijs]

Não é a noite exata pra truques quando você só tenta ficar tão quieta?
Sentamos aqui perdidos, mas fazendo o melhor pra não ver isso
E Louise tem um punhado de chuva e atenta você ao desafio
Piscam luzes no apêzão em frente
Aqui cachimbos tossem e acendem
A estação country macia mantém-se
Mas não há nada nem ninguém a quem apelar
Só Louise e seu amante enlaçados tão docemente
E essas visões de Johanna que me ganham a mente.

No galpão vazio onde as damas brincam de gatomia com a chave da cadeia
E as garotas de noite toda sussurram de escapadelas na conexão ligeira
Dá pra ouvir o vigia da noite acender a lanterna
Perguntar-se quem: ele ou elas – quem está louco?
Louise, ela está bem, só está bem perto
Ela é delicada e parecida com o espelho
Ela só coloca cada pingo em seu i
Sobre Johanna não estar aqui
O espectro da eletricidade lhe uiva nos ossos da face
Onde essas visões de Johanna agora vêm encaixar-se.

Já o pequenino perdido, ele se leva mesmo tão a sério
Que se vangloria da miséria, gosta de viver em perigo e mistério
E quando menciono o nome dela
Ele me fala no seu beijo de adeus
Ele certamente tem peito pra ser um inútil tão perfeito
Murmurando coisinhas lá fora quando já estou na sala
Como posso agora explicar a...
Ah é tão difícil até citar a...
E essas visões de Johanna me deixam desperto além da aurora.

Nos museus, o Infinito segue em julgamento
Vozes ecoam que a salvação fica assim com o tempo
Mas Mona Lisa precisa dançar o blues da estrada
Dá pra saber pelo som da sua risada
E a crua parede floreada congela
Quando espirra a mulherada cara de geleia
Ouça aquele de bigode dizer “Meu Jesus,
Já não acho mais meus joelhos”
Ah as joias e binóculos pendurados no pescoço da mula
Mas essas visões de Johanna fazem tudo parecer tão cruel.

O mascate agora fala com a condessa que finge dar bola pra ele
Dizendo “Me conte de um que não é chupim que vou lá e rezo pra ele”
Mas, como Louise sempre diz:
“Nunca dá pra olhar muito em detalhe, né?”
No que ela mesma se prepara pra ele
E Madonna ainda não deu as caras
Vemos essa jaula vazia já enferrujada
Onde a cortina dela já foi levantada
E o violinista já meteu o pé na estrada
E escreve que toda dívida é paga
Na caçamba do caminhão de peixe carregada
E minha consciência explode no nada
As gaitas tocam tons-chaves e a garoa
E essas visões de Johanna são tudo que resta agora.

* * *

quarta-feira, setembro 19, 2012

JÁ ERA: VERÃO

Já era: verão: ou to no inverno?
Foi uma primavera violenta.
As violetas desabrocharam
principalmente pra quebrar o gelo
porque a geada negra veio –
e veio de novo o seu colega granizo
depois de mais um falso verão indiano.

Tudo isso foi naquele mesmo dia.

IJS

terça-feira, setembro 18, 2012

AME & REPROGRAME

(ou: DAS COISAS QUE MARK CHAPMAN DEVERIA ESTAR LENDO EM OUTUBRO DE 1980, EM VEZ DO FAMIGERADO ROMANCE DE J. D. SALINGER)

Ame & Reprograme.
Execute ações invioláveis.
Seja fechado.
Cumprimente a vizinha,
aquela
que mora
ao lado
do pecado.
Aquela
já tem
seu namorado.
Faça algum programa
semelhante
com uma garota
semelhante,
uma garota
bem urbana,
uma garota marginal--
mas nunca assine nada
e acima de tudo
não assassine ninguém
a partir do próximo
final
de semana.

segunda-feira, setembro 17, 2012

FORA DO TEMPO E DO ESPAÇO

Deixe que o sol sozinho a si palestre
__e as cataratas caiam sem se ouvir.
Veja os turistas vendo a estátua equestre
__co’as aves a ruflar e a refluir.
Façamos estalar o som pedestre
__dos nossos passos desgastando a seguir
o chão de trabalhadores sem mestre
__que calçam’as pedras prestes a fugir.
____A fuga é uma ilusão de quem começa
__a correr sabendo permanecer –
____um ser que pensa que nada interessa
__a não ser talvez que já já vai morrer.
O fim dispensa especialista hebraico
feito esta peça co’este apelo arcaico.

________IJS -- 2004-2012

sexta-feira, setembro 14, 2012

ASSIM VEJO

Assim vejo nosso mundo:
num desejo a mais que fundo---
dum modo imbuído inundo
e
canto deite, dama, deite;
você me faz: faz-se em céu:
você bebendo meu leite
e eu absorvendo seu mel.

ijs a ffr

quinta-feira, setembro 13, 2012

O AMOR É

O amor é um poço profundo
que pode ser poço raso:
nele pula todo mundo e
se estabaca em qualquer caso.

IJS

quarta-feira, setembro 12, 2012

SE EU CRESSE

que o que visse
fosse e viesse
aí talvez soubesse
se você supusesse
ou se ao menos
tudo que apodrece
não tivesse esse
sabor doce tão doce
tão doce feito o espólio
de seringas com pólio
que hoje a maré
nos trouxe.

ijs

segunda-feira, setembro 10, 2012

OS DUENDES, TRASGOS, BRUXOS E VAMPIROS...

de ALPHONSUS DE GUIMARAENS (1870-1921)

Os duendes, trasgos, bruxos e vampiros
Vinham, num longo e tenebroso bando,
Os meus passos de múmia acompanhando,
Por entre litanias de suspiros...

Em tudo eu via os infernais retiros,
Onde ficava sem cessar sonhando:
E Satanás mostrava-me, nefando,
Negros sinais traçados em papiros...

Era, na sombra, o meu destino oculto,
--- Sirtes, penhascos, saturnais, paludes,
Todo o mistério de um funéreo culto...

Mas, de repente, os passos meus, tão rudes,
Firmaram-se no chão, e erguendo o vulto
Vi-me amparado pelas Três Virtudes...

(Pulvis -- em Poesias, Rio de Janeiro, 1938)

digitado e revisto por Ivan Justen Santana

sábado, setembro 08, 2012

O AMOR IMORTAL

Todo amor é imortal.
Quem vai a Roma
não embroma: fatal.

Porém no fim
não diz-- pensa um sim.


ijs a ffr

quinta-feira, setembro 06, 2012

O CORO DOS POETAS MORTÍFEROS

Poetas, somos temidos:
se chatos, gênios ou toscos –
se modernos, carcomidos,
enxeridos, decompostos;
nos detestam uns maridos,
nos valem mais desvalidos,
nos abominam, se lidos,
nos leem mesmo em desgostos;
se concretos, visuais,
quer sem letras, vozes, rostos,
somos monstros naturais
artificialmente expostos;
somos mais que um time em campo:
gamos, bisões, sem manada;
uns sem outros solidários
pros leitores ou por nada.
Morreremos abraçados,
distraídos, algemados,
mas na mesma algema extrema
de quem não temeu seu tema.

IJS

terça-feira, setembro 04, 2012

COMO FAZER DE SI UM IDIOTA FINANCEIRO E INCOMODAR A SI MESMO E A OUTREM

Fique devendo para deus e o mundo.
Empreste de uns para pagar os outros.
Dance cirandas financeiras num segundo
e ache suas copas mais caras que os ouros.

Seja torturado, e calado, por seus credores.
Tolere até que abusem dos seus fiadores.
Continue agindo como se nem mesmo aí
dizendo frases de consolo em tom de não ouvi.

Finalmente, à beira da catástrofe total,
quando a merda já estiver toda disseminada,
fature enfim o numerário---sim: o capital---
e o esfregue neles feito não fosse nada.

ijs

segunda-feira, setembro 03, 2012

CANTO ÚLTIMO [ABSQUE METU ABSURDI]

para Rodolfo Jaruga, futuro pai

Para o diabo odiado já parodiado, Ezra Pound,
este canto aqui é pequeno demais para dois Dantes---

e ainda que fossem só uns quatro provençais pingados,
não sobraria espaço nem na sexta dimensão
da poesia de terceiras intenções
suficiente a mais outra paródia
da tua ezravoz de pound oco cada
vez mais vérica e
feérica
eérica
érica
rica
ica
ca
a
ótica
caótica
muvucaótica---
assim -- .

Assim ... :

antes da morte, sonhemos com vidros grisblaus
de vaga, sussurros de pobre, cego poeta,
vagidos de infantes, suspiros vagaus---

todos os turbilhões e as torvelinhas,
e as torpes linhas, nada, estas escunas,
algumas frases traduzidas

da escrita cuneiforme
ou o que mais
sim forme--

porfiriamente, por fim------.......

nos veremos em Naxos, -- ... !?
sim: ver-nos-emos,
lá, lacem, la ci darem, se lapidassem, dilapidassem, ralassem,
relassem,
sem nexos,
os nossos todos lados, de amplos os sexos:
interdesencobrinexos---
roçando a rezar
extrampando
pelo mais puro lazer---

[...] e o séquito
das tigresas avermelhadas
encantava quem tivesse
a imaginação de as ver......

Asvermelhadas.

;]

IJS [III/IX/MMXII]

domingo, setembro 02, 2012

Snakecharmers...

A ENCANTADORA DE SERPENTES

texto original: Sylvia Plath Hughes
versão escamosa: Ivan Justen Santana

Como os deuses iniciaram um mundo, e o homem, outro,
Assim a encantadora inicia uma esfera serpentina, com
Luaolho, bocaflauta. Ela flauteia. Flauteia verde. Flauteia água.

Ela flauteia água verde até verdes águas tremularem
Com juncosas extensões e istmos e ondulações.
E entrelaçando-se as suas verdes notas, o rio verde

Modela as próprias imagens em volta das canções.
Ela flauteia a si um lugar em pé, mas sem pedras,
Sem piso: uma onda de tremeluzentes línguas de relva

Lhe sustenta o pé. Flauteia um mundo de serpentes,
Gingados e coleios, do fundo serpienraizado
Da própria mente. E agora nada a não ser serpentes

Está visível. As serpiescamas se tornaram
Folha, tornada pálpebra; serpicorpos, galho, busto
De árvore e humano. E de dentro da serpentidade

Ela comanda as contorções que fazem manifestos
Sua serpenteza e poder, com melodias flexíveis
Saídas da sua flauta esguia. Afora deste ninho verde,

Como afora do umbigo do Éden, contorcem-se as filas
Das gerações serpiformes: que haja serpentes!
E serpentes houve, há, haverá – até que bocejos

Consumam tal flautista a qual, cansada das canções,
Flauteie o mundo de volta ao tecido simples
Da serpiurdidura, serpitrama. E flauteie os ofídios panos

A uma fusão de águas verdes, até que serpente alguma
Mostre a cabeça, e aquelas águas verdes de volta à
Água, ao verde, a nada semelhante a uma serpente.

E guarde sua flauta, e empalpebre seu enluarado olhar.


http://fr.wikipedia.org/wiki/La_Charmeuse_de_serpents

quinta-feira, agosto 30, 2012

Presentinhos...

VENHA CÁ, MINHA GATA...

Venha cá, minha gata,
e engatilhe a carabina
da minha língua ingrata;
venha até na chuva, mina,

ser a ninfa do meu ribeiro –
ontem você me fez chover
quase que pelo dia inteiro;
agora vou me declarar

nestas frases descompostas:
eu serei sempre o seu amor,
seu segurança mais pessoal,
o seu maior guarda-costas,

seu eterno, seu só e principal,
homem, monstro, felino, parceiro.
Assim de novo me declaro
todo seu todo, e por inteiro.

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ELE & ELA (ou: ELE TEM TUDO MAS CADÊ ELA?)

Ele sempre aposta tudo.
Ela é bela e estrela a tela
(atenção ao tom agudo:
fá tal tom que a estrela atrela).

Não fosse porém, contudo,
oporem ventos à vela,
assim lho deixando mudo.
Mas se a bela estrela a tela

sem remela e só dá trela
pros que gama em sua umbela,
pros que grava em seu escudo,
nele sempre aposta tudo.

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EU TE JURO, MEU AMOR

Eu te juro, meu amor,
te dizer só frases meigas –
ser quem não sofreu horror,
ser-te as broas das manteigas

– todas coisas sem pendor,
mais que coisas, sem rancor,
mais que meigas, mais que lindas
– mais que até nem furta-cor,

mais que as coisas, tuas vindas...

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EU ESTOU QUERENDO VOCÊ QUE DÓI

Eu estou querendo você que dói:
estou só fazendo como se fora
um poeta mais seco – morto, embora
vivo, tola e totalmente um herói –
que faria sim qualquer coisa, sim,
se você deixasse que eu a seguisse
– eu faria toda e qualquer tolice,
seria ao fim quase morto: sem fim.
Se você nem soubesse – fosse o que fosse –
do tiro na quermesse, da cara dura,
da fossa escura a mira mais a loucura:
daquela que foice, e se foi: encabulou-se.
Portanto sacuda a poeira e saiba: o carnaval
sempre começa quando alguém lava o canal.

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QUASE SEM QUERER QUERENDO

Tenho andado distraído com isso isso isso.
Eduardo nem Mônica contavam com nossa astúcia.
Todos os nossos movimentos culturais
foram precisamente calculados:
o livro está sobre a mesa
mas quem me dera ao menos uma vez
se aproveitassem da sua nobreza.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

[as vinhetas entre os poemas são trinta e cinco estrelas-asteriscos para celebrar a data natalícia de Faena Figueiredo Rossilho - e os poemas desta postagem são dedicados a ela, com beijos múltiplos...]

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quarta-feira, agosto 29, 2012

O AMOR E A VERDADE

Encontrei o amor e a verdade
hoje à tarde, na praça central;
descrever sei lá eu quem há de,
sei que rende um Catatau.

Sem jogar suas mãos para o céu,
sem assaltos mortais num beco,
o amor me ofereceu seu chapéu
e ela, um naco de pão seco.

ijs

segunda-feira, agosto 27, 2012

O TIGRE [outradução da estrofe-crânio]

Tigre! Tigre! brilho em fogo
Nas florestas desta noite,

Que imortal mão ou qual olho
Moldar-te-iam tal simetria?


[...]

Ivan William Justen Blake Santana


sexta-feira, agosto 24, 2012

AURORA AUSTRAL

Para quem ama de dia e de noite
é sempre aurora austral.

Ora pois quem viaja para Astrália
(quem viaja, para;
quem para, viaja)
não tem falha nem tralha:
sua carne vale um carnaval;
seu astral, tal e qual;
sua conjunção, sim: carnal;
e assim repetir sequer faz mal---

para quem ama de dia e de noite
é sempre aurora austral:

vale por um fundo mundo
(e uma leitura do Catatau!)...


[no sexagésimo oitavo aniversário de Paulo Leminski Filho; centésimo décimo terceiro aniversário de Jorge Luis Borges --- Curitiba, 24/08/MMXII]

[ __________________________ ;]

sexta-feira, agosto 17, 2012

MEU AMOR:]

eu te amo muito
e te amo mais além

te amo como também
amo
a humanidade
_____________inteira

como eu amo esta cidade
como amo a vazante
e a maré cheia

com a paciência
e a velocidade
dum gato famélico
em meio a ratoeiras

e com muito
mas muito mais
intensidade
que a do ódio
dos que odeiam
as segundas-feiras


* * *

terça-feira, agosto 14, 2012

TRÊS QUARKS

[James Augusta Joyce
Ivan Justen Santana]

--- Três quarks pro Mimostre Marcos!
Certo que os barcos dele já são meio parcos
E certo que todos que tem estão bem além de seus marcos.
Mas, Ó Ceus Corvopoderoso, seria assim tão para lá dos arcos
Vermos o velho babutre a crocitar por largas camisas de marca
E nuns escuros caçando as suas duas calças sujas nos Palmer-
__stown Parkos?

Hohohoho, moulti Marcos!
És o garnizé mais pigarrelante já esvoaçado da noelina arca

E achas que és o talo do galo tetrarca desta grata fuzarca.
Asas, alto! Tristinhoé é um espanto espartano e remarca
Que vai se casar e acasalar e a casa lar dela e escarlateá-la
Sem nunca picapiscar nenhuma pena de cauda nela ou de ala
E é assim que esse chapa fará sua grana e marca (em marcos)!

[FW : 383 : 1-14]

Clica e dá só uma olhada nessa versão do texto original...]

sábado, agosto 11, 2012

NUMA NUVEM DE FLORES ALADAS

Parecia simples a parceria assim animada:
um olhar uma piscadela, uma pupila em brasa em cada
menina dos olhos; -- alguns devaneios verdes de fada
e a vermelha paixão já bebia sua sangria, desatada.

Foram sortes a desafiar vãos entre paredes e escadas,
sinais de afeto e dons e sensações enamoradas,
as maiores dores e seus alívios chegando em manadas,
manás, nadas, damas, danadas, danças, sambas, saladas.

Cai chuva imóvel de cores sobre a paleta da amada adorada:
rigores e amores que emanam,
evolam-se e se irmanam
numa nuvem de flores aladas.


[to _ _ _ _ _ ]
...

sexta-feira, agosto 10, 2012

DEITE, DAMA, DEITE

canção original: Lay, Lady, Lay
Bob Dylan
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
E todas as cores que você quiser imaginar
Te mostro brilhando no fundo do teu olhar

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Fique, dama, fique
Fique com seu cara mais um bocado
Até que nasça o dia
Talvez você lhe diga algo engraçado
Suas roupas são sujas mas as mãos são limpas
E você é a melhor mulher que ele verá na vida

Fique, dama, fique
Fique com seu cara mais um bocado
Pra que esperar que o mundo enfim comece
Você tem o bolo nas mãos: pode comer
Pra que esperar mais pelo seu amor
Se ele está aqui diante de você

Deite, dama, deite
Deite em minha grande cama de latão
Fique, dama, fique
Fique enquanto a noite é nova canção
Quero te ver às luzes da manhã
De noite sem você até a lua é vã
Fique, dama, fique
Fique enquanto a noite é nova canção

* * *

quarta-feira, agosto 08, 2012

Já que uma vez me chamaram de "Em Vão" Justen...

LOVE IN VAIN
AMOR EM VÃO

Robert Johnson
versão brasileira curitibana:
Ivan Justen Santana

É, eu a segui até a estação carregando uma mala na mão
Sim, eu segui ela até a estação com uma mala na minha mão
É, é difícil dizer, é difícil prever, se todo seu amor é em vão

Quando o trem chegou na estação eu a olhei de frente
É, no que o trem chegou na estação eu olhei ela de frente
É, me senti tão triste, tão só, que acabei por chorar, finalmente

E o trem deixou a estação arrastando duas luzes em corrente
Sim, o trem deixou a estação e arrastava duas luzes em corrente
A luz azul era minha pequena e a vermelha era minha mente
Todo meu amor em vão
Todinho meu amor
Em vão

…………………………………………………..

segunda-feira, agosto 06, 2012

EU TEREI MINHA ALFORRIA

[de Bob Dylan -- canção original: I Shall Be Released
versão curitibana: Ivan Justen Santana]

Dizem que tudo é recomposto
Mas a distância é um longe em si
Assim relembro cada rosto
De quem me colocou aqui
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

Dizem todos precisam de proteção
Dizem que todos vão cair
Mas juro que vejo minha reflexão
Num ponto além do muro aqui
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

A meu lado neste grupo solitário
Um cara jura que é inocente
O dia todo ele grita bem alto:
"Caí num esquema inteligente"
Eu vejo minha luz vir brilhando
Da manhã até o fim do dia
Qualquer dia, qualquer dia agora
Eu terei minha alforria

* * * *

sábado, agosto 04, 2012

A CHEGADA

é rápida. A alegria também:
chega, acerta, abala, estupefaz,
suspende, surpreende e invade---

já não tem mais pra ninguém:
porque já me orientei, rapaz--
e agora é só felicidade:

depois da partida da amada

mais emocionante
porque menos distante
é sua chegada.

;]

sexta-feira, agosto 03, 2012

BREVÍSSIMA ANTOLOGIA DE VERSINHOS INVISÍVEIS (Clique selecionando a postagem para ler os versinhos)

ao ver que eu não me enxergava
minha anja de resguarda
me deu translúcidas asas


a teia de aranha
numa gruta do vácuo:
até o espaço apanha


eu te amo quando te vejo
mas meu desejo faz isso inclusive
de olhos bem fechados


ijs

;)

quinta-feira, agosto 02, 2012

SUPLICANDO, CONHECENDO, CONVERGINDO

Neste mundo de ilusões e desavenças
Bichos-gentes se iniciam suplicando
Ou aceitam situações até mais tensas

Ou então nonada. Eis senão quando o
Bicho pensa que imagina que conhece e
Conhecendo segue imaginando. Em bando

Muitas dessas ilusões se tornam prece
E assim surgem desavenças, convergindo.
Só nos resta aqui propor: "O que é, o que é: se

Nasce meio feio às vezes morre lindo?"
Tu respondes "Gente" pois também tu pensas
E até aceitas situações mais tensas

Suplicando, conhecendo, convergindo.

_____


GRILO

grilo cricrila

corrimão coração

na mão da axila

<=;>´

quarta-feira, agosto 01, 2012

CHEGA

Chega de paixões fugazes,
chega de incensar já ídolas,
chega de remédios e antrazes
e das cartas de amor rirridículas.

O que vai e vaivém agora--
quem me vem ao encontro e chega
[chega de verdade: e não gora]
quem me atrai-- eu chamo: "Nêga,

minha Neguinha, minha Lili-lalalá--
ó meus os quatros pontos cardeais---
minha aqui---minha ali---minha acolá
minha fáfá-fin-fizinha ultiminha e mais....

ijs
for
ffr

,]

terça-feira, julho 31, 2012

Um coyote uivando faz dez anos: vamos?


O número 24 da revista Coyote, editada de Londrina às galáxias por Ademir Assunção, Marcos Losnak, e Rodrigo Garcia Lopes, celebra o aniversário de dez anos da publicação.

O lançamento nacional será aqui em Curitiba, neste Sábado, dia 4 de Agosto, no SESC-Paço da Liberdade, a partir das 11h, com entrada franca.

Este que vos escreve saiu no número 21, do inverno de 2010.

O Rodrigo deve trazer números deste número também, portanto, para quem quiser aparecer, eu estarei lá e posso autografar minha estreia numa das mais longevas publicações poéticas nacionais de alto gabarito...

...................................................

domingo, julho 29, 2012

SE CLIN TON [or: IF CLIN TON =]

Se Clinton inalou e disse:
[and I quote:] "fumei mas não traguei"
eu por mim fujo dessa tolice
mas também confesso: fumo mas não trago.
Levar e trazer é uma coisa meio gay
e [excuse me] me trinca os bago.
Isso talvez até me levasse a compor
um Noturno de um Mago.

Porém: e se George Clinton Jorge Benjor?
E se Carla Bruni Maurice Bèjar?
E se eu soubesse pauta e entendesse de cor,
recitaria de cor e salteado [sendo assaltado]
tudo que em você é melhor e maior
do que qualquer mar,
qualquer mármore
qualquer vagau amor...

Esse poema se estragou, mas vai ficar aqui até postagem em contrário, ou indefinidamente.

Pedimos desculpas aos nossos leitores e leitoras: nem sempre se pode ser um poeta consequente

sexta-feira, julho 27, 2012

SEM PRE

sempre pensando em você
sempre querendo te ver
pensando e querendo
e querendo e pensando
num tema: não tema: você

hoje me senti perdido:
hoje perdido sem ti

mas sempre sempre
pensando em você
me encontrei comigo
e fomos te ver na tela do PC

você sempre me acompanha
e até me faz escrever
diferente do que nunca
diferente em muita manha
diferente até de ler

porque estou sempre pensando
[e você sabe] em você

ijs
to
ffr

=]

terça-feira, julho 24, 2012

MAIS FAMILIARMENTE

"Ele não sabe quem eu sou"
disse ela em voz de dó--
e eu pensei se a alma assou
no enquanto do quiproquó--

enquanto conto contente
como desfazer tal nó:
as ligações obviamente
perigosas são, mesmo só

e não seria tão pungente
se outro diverso fosse o dó--
o dó da voz da mãe da gente--
o dó do bem da minha vó.


Ivan: neto, filho, irmão, tio, pai, sobrinho, amigo, e às vezes até poeta...

segunda-feira, julho 23, 2012

BEBENDO DE MANHÃ

Nossa vida não disputa
__Bebendo de manhã

Uma flor nunca se assusta
__Nas calhas do amanhã

Poetas são araruta
__Ou não me chamo Ivan

E hoje o dia se fez fruta
__Feito o amor se faz romã


Ivan Justen Santana
Ricardo "Syd" Janiszweski

terça-feira, julho 17, 2012

VOCÊ PRECISA

Você precisa me tocar
Qual instrumento musical:

Você precisa ser a fã
De um enamorado total:

Você precisa ser a terra
E eu seu enosigeu* mortal --

Você não precisa mais nada:
Uma pequena dose: e tchau.

IJS

* Enosigeu, epíteto do deus Netuno [Poseidon:], de enosíkhton, "abarcador da terra"
[fonte: HOMERO, Odisseia. Tradução de Manuel Odorico Mendes; edição de Antonio Medina Rodrigues. -- São Paulo: Ars Poetica / Edusp, 1992. p. 67. n. 62.]

terça-feira, julho 10, 2012

PORQUE VOCÊ SABE

você sabe que
eu sei que
você sabe que eu
sei que você sabe
que eu sei que você
sabe que eu sei que
você sabe que eu sei
que você sabe
que sabe

ijs

[to

ffr

:]

UM DIA ACHEI QUE TINHA ACHADO

Um dia achei que tinha achado a mulher perfeita:
engano meu, pois só depois achei você.

Um dia achei que tinha achado um amor que aceita:
engano meu, e só você sabe por que.

[de ijs para ffr, a vinte e cinco dias...]

........................................................................

segunda-feira, julho 02, 2012

VINHO DAS FADAS

Estou bêbado do vinho de mel
Da eglantina que a lua deu no céu,
E que as fadas embalam em florpotes.
O arganaz, a toupeira, e os morcegos
Dormem nos muros ou sob o dossel
Do quintal do castelo meio ao léu;
E quando ele encharca a terra, ao verão,
Ou torna os orvalhos mais vaporosos,
Com sonhos cheios de alegre irrisão
Eles murmuram seu gozo em sono; pois
Poucas fadas podem com potes tão novos!

Percy Bysshe Shelley
Ivan Justen Santana

[WINE OF THE FAIRIES]

A LUA: UMA FALENA

A lua desceu hoje na janela
aqui de casa. Tinha um halo: um "moonbow"
[que é quando a gente vê um arco-íris nela,
ou melhor, em volta dela]. Acabou
cedo demais aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela
que é quando a gente vê um arco-íris nela
e é verdade mesmo que já acabou.

Mas aquela palavra, aquele nome
não era o de uma borboleta: letra
a mais faz muita diferença--- E sí-

laba a menos, então?! Até fome some.
E o poema enfeia. Perto dela. Aqui.
---cedo demais!---aquele belo show...

A lua desceu hoje na janela.
A lua parecia uma falena.
Sim... Falena: borboleta tão bela.
Mas até mesmo a lua e a borboleta
ficariam feias perto dela.

O:) O:)

sábado, junho 30, 2012

NOSSO PRIMEIRO BEIJO

[de IJS a FFR]

foi tenso. E sim, eu adoro um sim,
e sim, nossos sins são do bem,
e sim, eles não são sinsalabins,
mas
sim
sala
bens.

Vem
e vai e vai e vem:
maremotos pervagando os mares,
ondas leviatânicas elevando os oceanos,
submergindo as ilhas, devastando os bos-
ques, desbastando as árvores---
e nós?

Procuramos um só refúgio juntos,
só para modos de o primeiro beijo festejar:
eu e você e você e eu e os nossos assuntos,
a sua nota fá, o meu deslize em I
[sem pingo nem rima, mas agora com par:]

ambos em busca de nosso lugar,

mesmo que hoje este seja apenas
um lar doce bar.

<3

segunda-feira, junho 25, 2012

ENTRE MIM E ELA

entre mim e ela é muito mais que sex
nossa alegria é muito mais que tétrica:
provei-lhe com sabor uva e tex mex
e ela me revelou que eu ronco em métrica

* * * * * * * * * *

quinta-feira, junho 21, 2012

OS AMIGOS

No rapé, no café, e também no vinho,
ao limiar da noite eles se levantam
como as vozes que à distância cantam
sem que se saiba o quê, pelo caminho.

Levemente irmãos de igual destininho,
dióscuros, sombras pálidas, me espantam
as moscas das rotinas, me adiantam
a seguir à tona no redemoinho.

Os mortos falam mais alto: ao ouvido,
e os vivos são mão fraca, teto, jeito,
soma do que é ganho e do que é perdido.

Assim, um dia, sombra em barca cheia,
de tanta ausência abrigará meu peito
essa ternura antiga que os nomeia.


Julio Florencio Cortázar
versão curitibana:
Ivan Justen Santana

quarta-feira, junho 20, 2012

Duas parcerias a seis mãos, neste Bloomsday passado


CANTO MÍTICO

Entre o fato e a dança
Como a criança
Chupeta teta valeta

Cavo sombria bonança
Mal da nau catarineta
No cabo da boa esperança

* * *

EIS EINSTEIN

Na prática, a teoria é relativa:
Somos fruto da engrenagem que nunca para--
Universo em curva---uno verso e cura.

O suco é gástrico---ponta da saliva--
O som só uma nota: a mais rara:
Sol sou luar---realidade pura.


Cristiano Farias
Ivan Justen Santana
Juliano Samways Petroski


Curitiba, Villa Bambu, noite de 16 de junho de 2012.

terça-feira, junho 12, 2012

A TELA TREME BEM DE LEVE

A tela treme bem de leve, porém treme:
tremem com ela a mesa e o teclado--
pronto: acendo um cigarro e logo o apago--
o movimento todo faz uma letra ême:

feito funis em ritmo sincopado
ou feito os seis remos de uma mesma trirreme--
de fato, não adianta comparar, já geme
o fim do quarteto em tom de prelado--

E agora, nos tercetos, quem serei?
Um fã dessas sereias que me encantam?
Ou só mais um naufrágio? Outra manhã?

Ao fim e à nota fá, não sei nem sei.
As outras notas todas já me cantam,
já chegam solfejando: Ivan, Ivan, Ivan...


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sábado, junho 09, 2012

VIRAM MEU CORAÇÃO

Viram meu coração virar por água abaixo.
Ou viram apenas um rim, amigo escuso?
Na caixa dela exatamente não me encaixo:
Uso ou abuso? Abuso ou uso? Uso? Uso.

Viram meu coração saindo aos sete mares.
Seriam mais? Oito? Dezoito? Setecentos?
E quantas seriam as ilhas? E os lugares?
Havia de haver mais: e vieram rebentos.

Viram meu coração depois de três batalhas.
De seis, de nove, dezenove vezes mil:
façam as suas apostas, teçam as mortalhas,
o que ontem sempre foi já vai ao fundo rio.

____________________________________

domingo, junho 03, 2012

PARA CELEBRAR

Lutando com chuvas, combatendo tempestades,
ao menos um bom banho vou tomar---
decifrando infernos, comovendo Plutos e Hades,
tocando corações de lar em lar.

Batalhas e batalhas e batalhas:
gemendo a Grécia, geme Gibraltar---
cangalhas gralhas tralhas que atrapalhas:
diversas razões para celebrar.

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segunda-feira, maio 28, 2012

ESSE PERFUME...

Emiliano Perneta

Esse perfume – sândalo e verbenas –
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas ó perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
– E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei – as minhas mãos nas tuas –
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

* * *

segunda-feira, maio 21, 2012

NA RUA DOS CHORÕES

Na rua dos chorões
os lamentos brotam.
São tantas situações
que as fomes notam.

"Não consigo pensar
pois sinto tudo:
as pessoas no ar
e o absurdo mudo."

Devorada por vozes
ela sonha que pensa.
Eu como minhas nozes.
A matéria é densa.

Ivan Justen Santana
em parceria com Ana Paula

* * * * * * * * * * * * *

quinta-feira, maio 17, 2012

ELA ESTAVA ESTUPIDAMENTE

Ela estava estupidamente linda,
o cabelo penteado, liso, brilhoso--

eu estava estupidamente seboso,
como nunca estive ainda.

Ela estava estupidamente bela
as mãos cálidas, as faces pálidas,
os sorrisos dela eram crisálidas,
as frases, as de uma inseta amarela--

e eu, estupidamente, sem o pi da mente,
a considerei bem-vinda--
foi, é, e sempre será,
seja esta ou até se for como aquela.

_(_!_)_

terça-feira, maio 15, 2012

Amanhã, no Palladium

Amanhã, na megaloja Curitiba do Palladium:

recital e noite de autógrafos do livro:

ESSÊNCIAS TRANSFIGURADAS
TRANSFIGURED ESSENCES

de Chloris Casagrande Justen
em tradução de Ivan Justen Santana
ilustrado com as gravuras de
Gianna Nadolny Roland

às 19h30

não percam (nem se não puderem).

:P



domingo, maio 13, 2012

EXISTE AMOR EM CURITIBA

Existe amor em Curitiba:
nos bares cheios de ilusões
e em necas de pitibiriba --

nas tão vazias estações
e nos contratos dessas tribos --
nos ônibus e nas mansões,

nesses lugares sem estribos.
Existe algo até além mais mesmo:
mais que as fatais Paramaribos.

Um restaurante sem torresmo,
uma avenida de uma pista,
e o esposo da lesma: sim: lesmo.

Mas não é ponto pra turista:
pois mesmo sem Sernamentiba
existe amor em Curitiba

e a quem nem sempre tem seu clima.

ijs

terça-feira, maio 08, 2012

CERIMÔNIA


Cerimônia

É por isso que eventos me enervam,
Acham todos uma história diferente
Perceba para quem as rodas giram,
Gire de novo e gire adiante dessa vez,
Tudo que ela pede é a força pra me abraçar,
Ainda assim a mesma velha história,
Os telefones vão tocar, rapidamente,
Chegue antes e se debruce adiante dessa vez.

Ah, eu os quebro, sem dó nem piedade,
Os céus sabem, tem que ser dessa vez,
Assistindo a ela, as coisas que ela disse,
As vezes em que ela chorou,
Frágil demais pra acordar agora

Ah, vou quebrá-los, impiedosamente,
Os Céus sabem, tem que ser agora,
As avenidas em fileiras de árvores,
Me fotografam e você começa a ver,
A assistir eternamente
O amor crescer, eternamente
Me fazendo saber, para sempre

Ian Curtis

versão brasileira curitibana:
Ivan Justen Santana

quinta-feira, maio 03, 2012

BEM MENOS MUITO MAIS

A chuva lava as ruas e as calçadas.
O amigo diz preferir toddy ao tédio.
Ouço canções de Lívia & os Piá de Prédio
e em versos deixo meus tudos e nadas.

Um dia os tudos vão ser mais além
das noites quando os nadas eram sós.
O que hoje falta para todos nós:
bem menos de mal, muito mais de bem.

________________________________

quinta-feira, abril 26, 2012

NEM UM (POEMADEAUTOAJUDA)

Nenhum erro
de qualquer outra
pessoa
pode provocar
qualquer sombra
de culpa ou tristeza em nós.

Nunca mais
é uma frase mais ou menos
e o papagaio diz: sempre menos

principalmente
quando estamos sós.

terça-feira, abril 24, 2012

FLÂMULAS CAMPÂNULAS

Mergulho em tuas almas amorosas.
Engoles os meus sangues rutilantes.
Ouço os teus gritos. Lês as minhas glosas.
Depois será pra sempre o que foi antes.

Regamos rosas. Dálias. Cravos brancos.
Crisântemos crescentes nas janelas.
Teus parapeitos dão pros meus barrancos.
Tuas sacadas dizem sim, singelas.

Já fui abismo noutras quedas, tantas.
Me ladrilhaste em flamas titilantes,
Nas flâmulas campânulas que implantas.
Depois será pra sempre o que foi antes.

(((((( _ _ _ _ _ _ ))))))

domingo, abril 22, 2012

ONIROFAGIA

Sem paz, sem vez, sem triz, sem nós, compus
um sonho só pra escapar do incomum.
Num tom inescapável, sim, comum,
um show de chavões, pás, pés, pis, pós, pus.
Um sonho bom daqueles tempos nus,
quando chamavam bunda de bumbum
e todo desespero era nenhum,
e mesmo as sombras pareciam luz.
Contudo o sonho se tornou minúsculo,
restrito ao coração. E a realidade
veio apertando mais. Até que, em vão,
frenético, mas sem mexer um músculo,
numa ânsia de terror e de piedade,
sonhei que devorei meu coração.

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sexta-feira, abril 20, 2012

EM FEITIÇO

Você deixou aqui seu cinto de esqueleta,
Seu beijo quente encaixotado no meu queixo,
O olhar ardente feito olhar de gata preta,
Pupila arisca me arriscando mais que eu deixo...

Você enfaixou meu pé qual me enfaixasse inteiro,
Qual me amarrasse nas enxárcias de um veleiro
Pra velejar comigo ao lago do seu gozo:
Musgoso e perigoso e seu meu nosso gozo...

Você vem caixa de Pandora e me diz: abra!
Luz câmera tensão numa trama macabra
E eu falo candelabro à cara candelabra:

Fiduscapiscapiscassimteabracadabra!!!


(((((( _ _ _ _ _ _ ))))))

quinta-feira, abril 19, 2012

UM ÊMBOLO DE SIMBOLISMO

Vento -- um vento te aflige --
Te castiga bem ou mal;

Olhos -- olhos de esfinge --
Numa brisa de metal;

Cinto de flor te cinge:
Um precipício afinal;

Terror te regozije --
Tua exigência é mental;

Range, ruge, atinge:
Cada qual teu catatau --

A vertigem da vertigem
Te viu, te veio e crau!

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terça-feira, abril 17, 2012

VERSOS DE SURTO: ME SAQUEIO MAS NUNCA ME FURTO

demonstro afeição: a feição de monstro

plante no pé: espalme na mão: molhe no molhe
console no solo: cole: decole: cair de maduro nunca é mole

grave todo grão: acrisole cada cristal: divida as meias
sem as ampulhetas ficam só os sóis: arados de areias

arranhe a champanhe: chape um sanduíche
para amplos os sexos: no fim que se lixe

todos os rabos de todas as tantas sereias
mudas: mudas: metamorfo-me-sei-a-as

chocolate não: dispara jatos de serotonina
alegria é só impressão: menos pior azarar a mina

cada neurônio com a sua terminação
fibras nervosas que carregam informação

eletricidade que ultrapassa todo o espaço
nossa intenção é a mesma do joão: sem braço

sinapses: ápices: bainhas de mielina
estrépitos: colapsos: rejeitos de dopamina

tudo num mundo de veludo azul: mas muito curto
solto santo surto: assim me saqueio mas nunca me furto

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segunda-feira, abril 16, 2012

TODA MINHA

("All Mine" -- Portishead)

All the stars may shine bright
Todas as estrelas podem reluzir brilhantes
All the clouds may be white
Todas as nuvens podem ser brancas
But when you smile
Mas quando você sorri
Ohh how I feel so good
Ahh como eu me sinto tão bem
That I can hardly wait
Que eu mal posso esperar
To hold you
Pra te abraçar
Enfold you
Te envolver
Never enough
Nunca o bastante
Render your heart to me
Renda o teu coração para mim
All mine.......
Toda minha........
You have to be
Você tem que ser
From that cloud, number nine
Daquela nuvem, número nove
Danger starts the sharp incline
O perigo inicia a inclinação aguda
And such sad regrets
E tais tristes arrependimentos
Ohh as those starry skies
Ahh feito aqueles céus estrelados
As they swiftly fall
No que rapidamente caem
Make no mistake
Não tenha dúvida
You shan't escape
Você não escapará
Tethered and tied
Presa e amarrada
There's nowhere to hide from me
Não há como se esconder de mim
All mine....
Toda minha....
You have to be
Você tem que ser
Don't resist
Sem resistir
We shall exist
Vamos existir
Until the day I die
Até o dia em que eu morra
Until the day I die
Até o dia em que eu morra
All mine.......
Toda minha.......
You have to be
Você tem que ser

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versão brasileira toda minha:
IJS

TUDO QUE AFRODITE

Tudo que Afrodite Dite.
Tudo que Ártemis Prometeu.
Tudo sim sem Medos de Medusa
que numa fusa cheia
nos confunda numa veia
direto do meu coração Proteu.

(((((( _ _ _ _ _ _ ))))))

quinta-feira, abril 12, 2012

NUMSEMPRINSTANTÂNEO

Os pés que se torcem.
As mãos que se dão.
Braçadas vão longas
Nos sins de condão.

Infantes falantes.
Perebas mancebas.
As asas às asas
Abriram Abril.

Sem mais hermetismo
Me abismo em teu cio
Até um verde scismo.

Se a pele transpira
Tira tira a tira:
Teu mar me cobriu.


(((((( _ _ _ _ _ _ ))))))

segunda-feira, abril 09, 2012

QUARTO CHEIO DE ESPELHOS

Room Full Of Mirrors

I used to live in a room full of mirrors
Eu costumava viver num quarto cheio de espelhos
All I could see was me
Tudo que eu podia ver era a mim mesmo
Then I took my spirit and I smash my mirrors
Então peguei meu espírito e estilhacei meus espelhos
And now the whole world is here for me to see
E agora o mundo inteiro está aqui para eu ver
And now the whole world is here for me to see
E agora o mundo inteiro está aqui para eu ver
Now Im searching for my love to be
Agora estou em busca de meu amor para ser

A broken glass was solvin my brain
Um vidro quebrado dissolvia meu cérebro
Cuttin and screamin crowdin in my head
Cortando e gritando e me tumultuando na cabeça
A broken glass was loud in my brain
Um vidro quebrado fazia barulho no meu cérebro
It used to fall on my dreams and cut me in my bed
Ele costumava cair nos meus sonhos e me cortar na cama
It used to fall on my dreams and cut me in my bed
Ele costumava cair nos meus sonhos e me cortar na cama
I say making love was strange in my bed
Eu digo: fazer amor era estranho na minha cama

jmh
versão brasileira espelhada:
ijs

4 PÊSSANKAS

qua
tropeços


e ela
me esgoela
na pascoela

*

hoje
é segun-
da:
gunda gunda gunda


* *

Ovos de respeito:
peito peito peito

* * *

Nunca não se ofenda:
______, ______, ______-----


* * * *

domingo, abril 08, 2012

PARA EFEITO DE COM TRASTE

Eu disse: pare -- e ela, siga--
eu fui jotaésse -- e ela, sigma --

Ela veio para minha vila --
assim como ovinha
como vinha
e como via
com o sol
ela ia

vinha e voltava --
e comia manga ----
comigo

............................

quinta-feira, abril 05, 2012

VIDA APÓS MARTE?

[canção original: LIFE ON MARS]

É um velho e chato namorado
Pra garota com o velho topete ondulado
Mas mamãe botou ela de castigo por um mês
E papai disse pra ela se arrancar duma vez
Mas o chato resolveu lhe dar um cano
E agora ela anda por seu desengano
Pro lugar mais claro da plateia
Onde espera ser agarrada pela tela
Mas o filme é um tédio deprimente
Do tipo que ela vive repetitivamente
Ela podia cuspir nas estúpidas faces
Que lhe solicitam: vejam as imagens

Mais de mil marinheiros no salão
Olha só aonde aqueles trogloditas vão
Neste estúpido espetáculo tresloucado
Olhem bem pro homem da lei
Espancando o sujeito errado
Imagine se ele ao menos suspeitasse
Do comercial sensacional de que faz parte
Haverá vida após Marte?

Está na testa torturada da América
Que Clarabela era só uma vaca histérica
Agora voltaram à greve os operários
"Lennon morto fatura todo nosso salário"
Vejam milhões de hordas de ratos impertinentes
Varrendo de costa a costa os continentes
Governar o Reino Unido não vale a pena
Nem pra minha mãe nem pruma cadela chilena
Mas o filme é um tédio deprimente
Do tipo que passa comigo e roteirizo, inocente
Está prestes a passar às suas faces
No que solicito: vejam as imagens

Mais de mil marinheiros no salão
Olha só aonde aqueles trogloditas vão
Neste estúpido espetáculo tresloucado
Olhem bem pro homem da lei
Espancando o sujeito errado
Imagine se ele ao menos suspeitasse
Do comercial sensacional de que faz parte
Haverá vida após Marte?

David Bowie
versão brasileira e marciana:
Ivan Justen Santana

quarta-feira, abril 04, 2012

AMORTE DOS AMANTES

Nossos leitos plenos, leves odores,
Divans abissais, fundos como criptas,
Sobre aparadores estranhas flores
Abrir-se-nos-ão, auras não descriptas.

Ardentes, rivais, últimos calores,
Nossos corações, duas vastas flamas,
Que refletirão suas duplas cores,
Nosso gêmeo espectro espelhando os dramas.

Uma noite azul cor de rosa mística,
Trocaremos cintilação magnífica,
Qual longo soluço do adeus final;

E mais tarde um Anjo, entreabrindo as portas,
Virá reanimar, feliz e fatal,
Os espelhos foscos e as chamas mortas.


texto original: La mort des amants-- Charles Baudelaire
reversão brasileira: O tradutor anônimo encabulado

* * * * * * * * * * *

AGIGANTA

Nos tempos em que a Verve natural com tanta
Potência concebia infantes cabulosos,
Quem dera que eu morasse junto a uma giganta,
Como aos pés de uma Dama um gato, dos dengosos.

Eu amava ver-lhe em corpo e alma florescendo,
Se avolumando livre em seus terríveis jogos;
Sacar o que o seu peito incuba, percebendo
Pelas neblinas do olhar úmido atros fogos;

Percorrer por lazer formas magnas, modernas;
Trepar sobre a vertente das imensas pernas;
E às vezes, no verão, quando os sóis insalubres,

Lassa, a prostram deitada ao longo da campanha,
Dormir com indolência à sombra dos seus úberes,
Como um pacato rancho ao pé de uma montanha.

texto original: La géante
Charles Baudelaire
perversão brasileira:
Anônimo Encarapuçado
**************************************

terça-feira, abril 03, 2012

UM POETA DESFOLHA A BANDEIRA

eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo
eu só quero amar se a mulher me amar exatamente como a amo


não tem mais eu
não tem mais eu
não tem mais eu
não tem mais eu
não tem mais eu
não tem mais
não tem
não
sim

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sexta-feira, março 30, 2012

O AMOR & A MORTE

O Amor e a Morte resolveram fazer sexo,
mas decidiram que seria sexo livre:
modalidade semi-inédita de sexo
na qual dá até pra usar vestido azul e chifre.

A Morte lhe indagou: "No plexo ou nu complexo?"
O Amor obtemperou: "Contanto que eu me livre..."
Então ela entoou O côncavo e o convexo
("Nossa! Amor, é demais!") e fez menção de um drible,

enquanto o Amor piscava ao seu (dela) reflexo
dentro do espelho onde ambos, sem roupas de grife,
destrinchavam-se em estripulias com nexo
inéditas até que alguém chegue e as decifre.

* * * * * * * * * * * *

sábado, março 24, 2012

ERAM UMAS VEZES

Era uma vez um palhaço:
curtia um estardalhaço.

Foi muita vez um canalha:
gralha que espalha mais tralha.

Seria às vezes tristonho:
pisoteando o próprio sonho.

É vez por vez seu carrasco:
óbvio rasgo escarro de asco.

Será talvez não se sabe:
móbile dique de Ahabe.

Seja outra vez tu o que fores:
vinho daninho das flores.

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sexta-feira, março 23, 2012

PRA? QUÊ?

Pra? Quê? Mais? Um? Pô? Ema?
Pra? Quê? Por? Quê? Pra? Quem?
Um? Só? Nem? Som? Com? Sem?
Sei? Lá? Diz? Trai? A? Gema?

Não? Sobre? Nada? Tema?
É? Assim? Um? Nhenhenhém?
Rima? Fácil? Também?
Palavrão? Sem? Problema?

Põe? Paca? Com? Cacaca?
Sai? Peca? Na? Peteca?
Tira? Põe? Racha? Achaca?

Coragem? Brio? Babieca?
Por? Tu? Tu? Pi? Ni? Quim?
Num? Fim? Tem? Tom? Bom? Sim.

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quinta-feira, março 22, 2012

EU, ALIÁS, NÓS

se de todos os meus dias
um só dia fosse tirado
e para sempre apagado
não seja o dia, por favor,
em que senti que seria
um mensageiro cantor

lembro do papel em branco
a mão tremendo vazia
e uma rima pronta: pranto
pelos olhos escorria
só por tirar da caneta
meu destino no planeta

foi nesse dia que nasci
andando sobre duas pernas
vi que eu não era um saci
nem o homem das cavernas
no espelho que estava à frente
havia um ser diferente

não era forte nem fraco
mas sensível parecia
dele a poesia se erguia
sem precisar de macaco
e hoje, justo hoje, é o dia
em que ele aniversaria

...

este poema foi escrito por Antonio Thadeu Wojciechowski, o qual mo enviou hoje, de presente (sim: é meu aniversário:) -- só posso postar o poema aqui, assinar embaixo, e agradecer, de poeta discípulo para poeta mestre: obrigado, polaco! Evoé!

Ivan Justen Santana

Acrescento aqui agora o poema que recebi do grande jornalista (e também poeta) Luiz Oliveira:

O verso é a vela e o bolo do poeta
O brigadeirinho que adoça a dieta
A bexiga que explode e assusta a criança
O pedaço de bolo dançando na pança

De festa, o poeta não cansa

Se o dia resume a vida e o instante
Se o futuro é meta ausente
Se o passado pesa distante
O verso é sempre presente

...