domingo, fevereiro 28, 2010

BOB DYLAN, VOLTANDO AQUI EM GRANDE ESTYLAN...

(ou melhor: EM GRANDE ESTILO, desculpem pelo trocadallen robertado de zimmerman...)

Esta postagem é dedicada a Luiz Felipe Leprevost, que sugeriu e depois cobrou:

– Lepre, taí o que você queria... Que tal?


A ALA DOS DESCONSOLADOS
(DESOLATION ROW)
_________________Bob Dylan


Vendem-se postais do enforcamento
Pintam-se os passaportes de marrom
O salão de beleza lotou de marinheiros
E esses dias o circo chegou

Lá vem o comissário cego
Mantido em transe permanente
Uma mão atada ao cara da corda bamba
A outra nas suas calças de sempre

E a tropa de choque está inquieta
Precisam ser movimentados
Enquanto Lady e eu observamos
Da Ala dos Desconsolados


Cinderela parece tão acessível
“Os iguais se reconhecem”, sorri ela
E põe as mãos nos bolsos de trás
Feito uma Bette Davis Cinderela

Entra Romeo, gemendo queixas
“Acho que eu sou teu proprietário”
E alguém diz, “Lugar errado, amigo,
Saia sem pagar de otário”

E o único som que sobra
Após sirenes e ossos quebrados
É Cinderela fazendo a faxina
Na Ala dos Desconsolados


Agora a lua está quase oculta
Estrelas se velam em segredo
Mesmo a dama que lê a sorte
Levou suas coisas pra dentro

Todos menos Caim e Abel
E o corcunda de Notre Dame
Todos estão fazendo amor
Ou esperando a tempestade

E o Bom Samaritano veste-se
Tomando todos os cuidados
Ele vai sair no desfile desta noite
Na Ala dos Desconsolados


Ofélia está embaixo da janela
Confesso que temo muito por ela
Após completar vinte e dois anos
Já é uma solteirona velha

Pra ela, a morte é bem romântica
E ela veste um colete blindado
Sua profissão é a sua religião
Sua inação é o seu pecado

E embora ao arco-íris de Noé
Os olhos dela estejam fixados
Ela gasta seu tempo espreitando
A Ala dos Desconsolados


Einstein, disfarçado de Robin Hood
Leva as memórias num baú
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge cru

Parecia tão imaculadamente assustador
Enquanto filava um cigarro
E aí saiu farejando canos de esgoto
E recitando um ABC bizarro

Você nem se incomodaria em vê-lo
Mas ele já foi famoso por esses lados
Tocava um violino elétrico
Na Ala dos Desconsolados


O Dr. Sujeira mantém seu mundo
Dentro dum caneco de couro
E todos os seus pacientes sem sexo
Querem estourar aquele couro

A enfermeira, uma triste qualquer
Administra o cianureto aos traumas
Ela também guarda os cartões que dizem
“Tende piedade desta alma”

Eles todos brincam com apitinhos
Pode-se ouvi-los a soprá-los
Se esticar a cabeça pra fora o suficiente
Da Ala dos Desconsolados


Do outro lado da rua, pregam cortinas
E se preparam prum bacanal
Pois então é o Fantasma da Ópera
A perfeita imagem sacerdotal

Alimentam Casanova às colheradas
Pra ele se sentir mais à vontade
E aí o matarão de autoconfiança
Depois de o envenenarem com frases

E o Fantasma grita às magricelas
“Sumam daqui os que ficaram abalados
Pois Casanova foi punido por ter ido
À Ala dos Desconsolados”


Agora à meia-noite todos os agentes
E a equipe de super-homens
Saem à cata de todas as pessoas
Que sabem mais que os supers podem

Então levam-nas até a fábrica
Onde a máquina de enfarte
É afivelada aos ombros delas
E logo depois eles trazem

O querosene dos castelos
E dos Seguros os homens magros
Vêm conferir que ninguém escapa
Da Ala dos Desconsolados


Seja louvado o Netuno de Nero
O Titanic navega à aurora
E agora todo mundo grita
“De qual lado você mora?”

E Ezra Pound e T. S. Eliot
Lutam na torre de controle
Enquanto calipsocantores riem deles
E pescadores trazem flores

Ali entre as janelas do oceano
Onde sereias têm seus prados
E ninguém precisa pensar muito
Na Ala dos Desconsolados


Sim, recebi sua carta ontem
(Foi quando quebrou a maçaneta)
Me perguntar se estou indo bem
Foi algum tipo de brincadeira?

Todos esses que você menciona
Sim, eu conheço, são uns toscos
Tive que lhes dar nomes diferentes
E rearranjar todos os seus rostos

Agora eu já não leio mais tão bem
Não mande mais estes seus recados
A não ser que sejam remetidos
Da Ala dos Desconsolados



Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

sábado, fevereiro 27, 2010

MAIS UMA POESIA FICÇÃO CIENTÍFICA PROFÉTICA REALIDADE ABSOLUTA

(só que dessa vez é distopia, porque o frio me secou a euforia)

O MUSEU DO MAUSOLÉU

esse é o desenho foto filme
animação jogo virtual
do nosso tempo

estamos no museu do mausoléu

não tema:
a morte não existe mais
e acabou-se o fim de tudo

tudo está e será sempre
novamente registrado

como nunca

essa é a nova lei
ou melhor
o velho postulado:

já não existe mais morte possível
todo cadáver será exumado
tudo que importa e não importa
será razão de sobra e ao lado
pra consagrar a alguma academia
e superar todo mal entendido

tudo merece a atenção
de quem quer que seja
e nada mais se perderá
pois alguém sempre quer rever de novo
basicamente todo mundo

qualquer coisa pode ser importante
contanto que seja qualquer coisa

o corpo é descartável
e a alma sumiu
mas ninguém mais acha
ninguém mais acha necessária

a morte já morreu
a indesejada foi assassinada
pela permanência eterna de tudo
mas principalmente de nada

o epílogo de tudo nada disso
não é inferno purgatório ou paraíso
e nem sequer é um mero céu

já não seria mais que um não epílogo
reencenando este nem não diálogo
de mim comigo e com um de mim eu
fazendo a dança de nenhum véu

aqui
no museu
do mausoléu

terça-feira, fevereiro 23, 2010

INSPIRANDO-ME... (O TÍTULO NÃO COUBE AQUI, ENTÃO ESTE É O PRÉ-TÍTULO) ...

INSPIRANDO-ME NUM HIPOTÉTICO FUTURO TURISMO LÍTERO-POÉTICO, QUANDO PEREGRINOS DE TODAS AS PLAGAS DA GALÁXIA VIRIAM (VIRÃO?) A CURITIBA PARA CONHECER A TERRA EM QUE PONTIFICARAM MARCOS PRADO, DALTON TREVISAN, PAULO LEMINSKI, DARIO VELLOZO, EMILIANO PERNETA ET CATERVA (SEM ESQUECER AS DAMAS, HELENA KOLODY À FRENTE DAS MOCINHAS DA CIDADE...), E TAMBÉM DIANTE DAS ABSOLUTAS REVELAÇÕES EPIFÂNICAS QUE TIVE EM NOSSO CARNAVALZINHO MULTITUDINÁRIO DOS GARIBALDIS & SACIS (AOS DOMINGOS DE JANEIRO E FEVEREIRO NO LARGO DA ORDEM) E NA GALANTÍSSIMA FESTA POPULAR (A QUADRA CULTURAL) NA RUA PAULA GOMES, NO DIA 20/02/2010, QUANDO, PARA CELEBRAR A MEMÓRIA DE PENA BRANCA, O MUI BATUTA "MAGRÃO" ARLINDO VENTURA ORQUESTROU INSOFISMÁVEIS E ESMERADOS ARTISTAS – ESPINHO DA ROSEIRA, FABIO ELIAS, GENTE BOA DA MELHOR QUALIDADE, LAMARÃO & A BANDA DE UM DIA, ÍRIA BRAGA & MULUNGU, PAULINHO CATARINENSE & VIOLEIROS DA CANJA DE VIOLA, O POETA PAULO BEARZOTI FILHO, O ATOR E CINEASTA JOTA ÊME (OU MELHOR, ROBERTO CARLOS), OS VIOLONISTAS ARNALDO FREITAS & RAFAEL SCHIMIDT, VIOLA QUEBRADA, IRMÃS GALVÃO – AOS QUAIS HOMENAGEIO TODOS NA PESSOA DE MEU XARÁ IVAN GRACIANO, PROGÊNIE DE BELARMINO & GABRIELA –, ENFIM, INSPIRANDO-ME EM TODOS ESSES E TUDO ISSO, EU, IVAN JUSTEN SANTANA, CURITIBANO, ESCREVO OS SEGUINTES VERSOS DE CONVITE UNIVERSAL A ESTA CIDADE DE CURITIBA (versos mimicrizados em estilo e modos do poeta SÉRGIO VIRALOBOS)

Vocês querem Prado?
Velho Dalton? Lema? Dario não?
De artistas que tais assim há necessidade?

Não dou nem um dado:
Passo logo uma procuração:
Distribuo o molho de chaves da cidade:

Usem com cuidado,
Apreciem com moderação,
E saboreiem com responsabilidade...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

ARCO-ÍRIS NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

A foto ilustrativa desta postagem veio das lentes de Gilson Camargo, fotógrafo que mantém o belo blog Olhar Comum.

Gilson captou Thadeu puxando o Rancho das Flores, no desfile de domingo de carnaval, em Curitiba.

Já eu, captei a foto do Gilson e muito atrasado lhe dou o devido crédito...

Quando fazem um scaps assim com alguma tradução eu fico uma arara, então vou fazer atos de contrição nesta quaresma, pelo meu saque imperdoável ao Gilson...


Nosso grande amigo Antonio Thadeu Wojciechowski nos dedicou hoje um poema inefável - desvanecidos replicamos e repostamos aqui:


fênix para uma quarta-feira de cinzas

ao ivan e gianna

perguntam-me quem sou
coração? mente? sol? soul?
e sei, sou de tudo um pouco
poeta, santo, profeta, louco

artífice de mim, me conheço
me faço onde me aconteço
são os outros minha ternura
e não a minha envergadura

amigos fiz para toda a vida
ida na subida e na descida
e aconteça o que acontecer
todo dia será dia de colher

sim, abri mão das sementes
como os versos estão contentes!
e já que estamos aqui nessa lida
vamos brindar à nossa vida!

um tanto mais de luz e céu
e deciframos a língua de babel
hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!

Antonio Thadeu Wojciechowski


- QUERIDO AMIGO THADEU:

com versos em tão humana língua angelical
você nos fez muito mais que um carnaval -

eu rio dessas rimas que aqui engancho
ao perceber você aí puxando o rancho -

sua poesia vem de cima, e no entanto atinge
todos, ilumina e decifra toda e qualquer esfinge -

só nos resta fazer nossas as suas lindas
palavras descabeladoras de ranzinzas -

“hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!”

Ivan & Gianna

terça-feira, fevereiro 09, 2010

CARRASCO DE SI E DE MIM

Assim como depois do sol a tempestade
Encharca muito mais – feito ébrio que recai
E estraga o carnaval no abuso da vontade –
Assim degringolou o filho de meu pai.

Não sei quem fui que fez, só sei que sei de cor
A dor de me perder e ser quem mais não sou,
Pois meu saber foi mal, dos bons foi o pior
Se eu errei por querer e acertei no meu gol.

Seria necessário o sim virar um não
Ao beque tão mané que quebra o próprio pé,
Se achando algum herói – pagando de vilão:

Espectador basbaque, em fila atrás de si,
Repete lá e ali, repete a si e a ré
Como quem diz de novo: esse filme eu já vi.