quarta-feira, março 22, 2017

VOCÊ (NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

*
Você
queria ser
Mallarmé:
mala
você
já é.

Você
queria ser
um Rimbaud
mas nem
o fogo
você
roubou.

Você
queria ser
um sacana
dum artista
mas se
cansou até
de fazer
essa
lista.


ijs

terça-feira, março 21, 2017

SEM CONSEGUIR AINDA DORMIR

*
Sem conseguir ainda dormir, e lembrando
que este blog ainda existe e anda vivo se movendo,
e eu estou caindo e recaindo no que antes esnobei,
pensei que quase dá no mesmo mas nem tanto,
e que escrever em versos
à vontade no teclado de um computador de colo
é outro jogo de futebol, ou melhor:
é o velho jogo novo e mais estiloso,
ou mesmo apenas papo furado
mesclado
com pretensa alta poesia.

Mas
se eu ainda me presto
e acho que presto
a isto e nisto
então
não
importa
tanto o meio, e a mídia:
(será?)

li agora pouco um artigo
que fez uma crítica redutora
sobre o poder
ou pior
a falta de relevância
do trocadilho
por si só:
ou da paronomásia
(o efeito de semelhança
diferença de palavras e nomes),
e me chamou a atenção
a intenção de dar relevo
maior aos conteúdos --- melhor reformular:
talvez o interessante seria/seja conseguir
aliar sonoridade e sentido e desenho animado
e humor e prazer e borrachada na cara
spray de pimenta nos olhos das outras
pessoas que também aparecem no jornal majoritário...

Enfim: além de tudo isso
também acho que valem
a construção, a métrica, a técnica,
o uso correto da escansão e das cesuras
eventuais ou súbitos encavalamentos de
versos.

Como queiram que os façam,
conseguindo ou não criar suposta música
mesmo que às vezes silenciosa de si mesma
e que acompanhe as imagens
as quais sejam farejadas
cheiradas
sentidas
como puras
uvas
maduras
ou
até
como
aquelas
"ameixas:
ame-as
ou deixe-as."*

ijs

* Paulo Leminski Filho

P.S. É a abreviatura de Post Scriptum, do latim para "escrito depois", do tempo em que se escrevia com pena e tinteiro (com tinta, evidentemente), mergulhando a ponta da pena no tinteiro e a seguir desenhando as letras no papel, e foi assim durante pelo menos mil e centenas e dezenas de anos até ser criada a tipografia móvel, enfim --
não existe mais a necessidade de usar um P.S. porque você pode editar o que escreve, sempre.
Mas resolvi usar um P.S. e me perdoem o estilo rebarbativo: eu só queria esclarecer que nem sempre o uso puro de rimas é suficiente para dizer que é poesia
só que não
só que sim
soque-se quem puder.

Ah, sim: tem que ter o link do artigo, senão não fecha o dialogismo: (editado)
fui buscar e achei mais esse -> http://www.curvilingua.com.br/ave-trocadilho/


quinta-feira, março 02, 2017

Este soneto vai para Wagner Schadeck, Caio Tardelli, Rodolfo Jaruga, e Thadeu Wojciechowski

*
Eu sei que mais ninguém dá trela a versos
e que a leitura é coisa descolada
da realidade de quem sabe um nada
e opina em tantos temas controversos.
E sei também o quanto são perversos
os poucos que controlam a mão armada
da mídia a tratar todos qual manada
enquanto os temas sãos ficam submersos.
Mas sei também dessas aspirações
estranhas que cantou um poeta alerta
às músicas e às cores dos seus sons
e às notas dum perfume que desperta
a gargalhada oculta no sorriso
interno que empetala o chão que piso.

ijs
*