domingo, fevereiro 19, 2017

Dois poemas que merecem transcrição...

Conforme alguns dos leitores desse blog sabem, e outros possivelmente nem soubessem se eu não comentasse aqui, um grande amigo meu e da minha turma de poetas parceiros de composições musicais e outras nem tanto, aqui em Curitiba, morreu na semana passada.

Edilson Del Grossi é talvez o mais marginal de nós marginais, e nunca chegou a publicar um livro-solo de poemas. Ele costumava compor em parceria, especialmente com o Antonio Thadeu Wojciechowski, o Sérgio Viralobos, o Chico "Capetão" Cardoso, o Edson de Vulcanis, entre outros meliantes que ainda não perderam seu latim.

Então aqui estão dois poemas excepcionalmente compostos a apenas duas mãos pelo Edilson, e que merecem entrar em qualquer antologia da poesia curitibana, paranaense, brasileira e universal (completa ou incompleta:)


POETA LAVANDO ROUPA

O tanque e o poeta
saíram pra conversar.
Um falando de guerra,
o outro falido de amar.

Quando as explosões começaram
o poeta fingiu de morto.
O tanque, muito vivo,
pensava só em seu corpo.

Um indiferente:
tanto faz morrer ou matar.
O outro segue em frente:
o mundo é pra passear.

Edilson Del Grossi
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DEZ MIL ANOS EM BUSCA DO AMOR

Dez mil anos anos em busca do amor
que nos redimisse.
Como é esquisito
ver um homem bonito, forte, inteligente,
consumir-se nessa patetice!?

Como se no país das maravilhas
só existisse ele,
e não Alice.

Edilson Del Grossi
__


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Presente do Dia de São Valentino

pra Faena Figueiredo Rossilho:

MONSTRUOSA BELEZA QUE NUNCA MORREU: TENS LUGAR À MESA ANTERIOR AO MEU

Quero amar apenas
desse amor completo
que mesmo nas curvas
vai direto e reto:
pois sou gente humana
com medo e receio
e este poema emana
seu fim pelo meio.
Tanto sentimento
sempre expresso a ela:
minha amada e templo
onde acendo a vela;
minha companheira,
minha companhia,
minha vida inteira
em meio à poesia;
minha celebrada,
festejada minha:
vinha a qualquer nada
e fez toda a linha;
minha Faeninha,
minha linda amada:
pena da almofada
da fada madrinha;
este poeminha
você já esperava
qual graça marinha
do seu rio de lava
que aqui encaminha
só mais um versinho
e um fogo no incenso
e um fumo mais denso
e vamos ao vinho.

ijs
__

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Não é sempre que o pai da sua namorada faz sessenta anos de idade...

*
SESSENTA
(Ao Cesar Rossilho)

A vida está completa
Do ser humano em chama
Que mesmo sem resposta
Completa os seus sessenta

Com tudo que ele acerta
E tudo que ele ama
E tudo que ele gosta
E tudo que ele aguenta.


ijs
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terça-feira, dezembro 13, 2016

PECARAM

*
PECARAM a favor de quem os elegeu:
não foi você, tampouco fui eu:
eleição = ilusão.

Pecaram a favor de quem detém a grana:
não é o João, muito menos a Joana:
são poucos = ouvidos moucos.

Pecaram a favor da salvação nacional:
salvação da revista, da TV e do jornal:

e o povo vai ter vez = feliz 2036!

__

sexta-feira, dezembro 09, 2016

MESMO MESMO (PRA MINHA GRAÇA)

(de ijs pra ffr)

mesmo que a rua rua (do verbo ruir)
mesmo que o poema seja vão chavão
e já vão longe as chances de sorrir
e sejam pobres as rimas como são
as comoções diante dos desastres
e os complexos complexos
e os contrastes com trastes
e os nexos desconexos reflexos
dos sexos de nós em nós até que sós
e após as pós e os pós sem dós
a linguagem finja esfinge
e se desfaça

algo sim ainda assim sublime nos atinge
e você foi é sempre será minha graça

___

terça-feira, novembro 08, 2016

SE DEIXAREM-SE

(pra toda humanidade, menos pro um por cento dela que submete os outros 99%)

Se deixarem-se deixar levar
pelas vozes verdadeiras
e entenderem que é pela Educação,
que a causa não é matar ninguém
(ao contrário dos que atacam)
e se perceberem
(e se perceberem?!)
que estão brigando consigo mesmos
quando deveriam
ouvir as vozes verdadeiras
e então entender,
então entenderão
que não é invasão
mas invenção
daquela velha nova escola
e então
só então
não
junto então
entenderão
que se todos se opuserem
ao desmanche
e à entrega da nação
o que é que eles
os poucos traidores
poderão?
Sim:
o que eles poderão?
Eles poderinhos
e nós é que poderão:
juntos então:
pelo aumento
e não diminuição
dos "gastos" com a Saúde
e a Educação!
Redução sim:
de salários e benesses
e auxílios aos que já têm tudo
e de sobra
sim:
auxílio é para quem precisa,
não para juiz com interesse de família
em jogo
que faria melhor
morou?
em se declarar parte interessada
e não dar mais mancada.

E assim, sim:
se deixarem-se
assim
pensarem diferente
de como estão
nesta questão
e se nos deixarmos
compreender
antes de vociferar
então
as vozes
verdadeiras
ver
darão:
e o que pode ser melhor
que um país que gasta
gasta não: investe
em educação?

IJS

segunda-feira, outubro 31, 2016

NUNCA ESQUEÇAM:

(um poema pras Anas Júlias, a pedido de uma garota que não se chama Ana Júlia)

existem muito mais do que só uma aluna Ana Júlia
e as pelo menos novecentas Anas Júlias
que estão pelas novecentas ocupações
poderiam ter ido lá e brilhado
da mesma forma,
expressando-se
com emoção
e com razão, sim,
e respondendo
ao nobre presidente da casa
com igual capacidade e bravura.

Vamos prestar atenção ao que interessa
e fazer as coisas:
e já que eu decidi na vida
que faria versinhos,
vamos lá: que prosaísmo é esse?

Era uma vez
uma garota
que sabia jogar
xadrez.

E era uma vez outra garota
que lia e compreendia
economia política.

E era outra e muita vez
uma garota que falava
o que pensava -- e o que já sabia.

E era mais umas tantas vezes
e muitas e mais ainda
uma garota chamada Ana Júlia --
sim, por causa duma maldita canção
dos Los Hermanos, mas que bom:
esta Ana Júlia escrevia
poesia.

ijs

sexta-feira, outubro 14, 2016

A história dos Estados Unidos da América, contada por seu mais recente laureado...

Com Deus A Nosso Lado
(With God On Our Side - Bob Dylan)

Com Deus Ao Nosso Lado

Meu nome não importa, e a idade, tampouco
Minha terra natal se chama Meio Oeste
Pois lá fui criado pras leis respeitar
E a terra onde vivo tem Deus a seu lado

Os livros de história contam, e contam tão bem
A cavalaria atacava, e os índios caíam
A cavalaria atacava, e os índios morriam
O país era jovem, com Deus a seu lado

A Guerra Hispano-Americana teve o seu dia
E a Guerra Civil também depressa se foi
E os nomes de heróis me forçaram a decorar
Com armas nas mãos e Deus a seu lado

A Primeira Grande Guerra lacrou nosso destino
A razão dessa luta eu nunca entendi
Mas aprendi a aceitá-la e aceitá-la com orgulho
Pois não se contam os mortos quando Deus está a seu lado

A Segunda Grande Guerra chegou ao seu fim
Perdoamos os alemães e nos tornamos seus amigos
E embora seis milhões nos fornos eles tenham fritado
Os alemães agora também têm Deus a seu lado

Aprendi a odiar os russos por toda minha vida
Se outra guerra começar serão eles os inimigos
De odiar e temer, de correr e se esconder
E tudo aceitar bravamente, com Deus a meu lado

Mas agora temos armas de pós químicos tóxicos
Se formos obrigados, vamos usar esses tóxicos
Um apertar um botão, e lá se vai o mundo todo
E você nunca faz perguntas, quando Deus está a seu lado

Nas minhas horas escuras tenho pensado sobre isso:
Que o próprio Jesus Cristo foi traído por um beijo
Mas não posso pensar por você, decidir sobre o fato:
Se Judas Iscariotes tinha Deus a seu lado

Então agora em despedida, estou cansado pra diabo.
A confusão que sinto língua alguma falava
As palavras me enchem a cabeça, e se derramam por terra:
E se Deus está a nosso lado, impedirá a próxima guerra

versão brasileira: ijs



quinta-feira, outubro 13, 2016

NÃO HESITE NÃO (’TÁ TUDO CERTO)

[Don’t Think Twice (It’s Alright)]
Bob Dylan

Não adianta sentar e meditar, garota
De qualquer forma, não importa
E não adianta sentar e meditar, garota
Se não sabe nem agora
O galo canta, já nasceu o dia
Olhe lá fora, lá por onde eu ia
Por ti parti nesta manhã tão fria
Não hesite não,’tá tudo certo

Não adianta acender tua luz, garota
Luz que eu nunca conheci
E não adianta acender tua luz, garota
Meu caminho é escuro assim
Seria bom se você desse de falar
Tentasse argumentar e me fazer ficar
A gente nunca conversou muito, afinal
Então não hesite não, ’tá tudo certo

Não adianta gritar meu nome, menina
Como você nunca gritou
Não adianta gritar meu nome, menina
Eu já não ouço mais teu tom
Vou pensando, matutando pela estrada
Uma vez amei e aquela menina se achava
Dei-lhe o coração, ela queria a alma
Mas não hesite não, ’tá tudo certo

Vou seguindo a estrada solitária, garota
Pra onde eu vou nem sei dizer
Mas até logo é bom demais pra nós, garota
Assim só digo passe bem
Não me queixo de maus tratamentos
É: podia ter sido melhor mas já nem esquento
Você só gastou o meu precioso tempo
Mas não hesite não, ’tá tudo certo

segunda-feira, agosto 29, 2016

PRESENTE DE ANIVERSÁRIOS

(de ijs a ffr)

de fato, existe um presente
entre tantos dos presentes
que só eu posso te dar
e o qual você espera sempre
em qualquer tempo e lugar

--- quanto mais no aniversário
ou antes, nos dois: de namoro
e também de birthday mesmo:
neste mês de agosto do poeta
tentei ser teu poeta a gosto
mesmo com rima indireta
e até sem mostrar o rosto.

Felizes aniversários para nós!
___

segunda-feira, agosto 22, 2016

MERA IRONIA DO DESTINO

(Simple Twist Of Fate - Bob Dylan - vb:ijs)

Os dois sentados ali na praça
Enquanto a tarde virava fumaça
Ela o olhou e ele sentiu uma brasa tisnar seus ossos
Sentiu solidão até o pescoço e desejou ter detido o tino
E ficou atento a uma mera ironia do destino

Andaram ao longo do velho canal
Meio confusos, se não lembro mal
Pararam naquele estranho hotel com o neon de brilho forte
Ele sentiu no calor da noite um impacto de trem sobrevindo
Passando como uma mera ironia do destino

Um saxofone ao longe soprava
Enquanto ela andava pelas arcadas
Enquanto a luz furava a sombra onde ele estava semidesperto
Ela pingou uma moeda no caneco de um cego quase dormindo
E passou esquecida por uma mera ironia do destino

Ele acordou, o quarto vazio
Não viu a direção em que ela saiu
Mas decidiu que seria frio, e escancarou as persianas
Sentiu uma angústia desumana, como um bilhete não escrito
Trazido por uma mera ironia do destino

Ele ouve os tique-taques dos minutos
E anda com um papagaio quase mudo
À caça dela nos becos vagabundos aonde os marinheiros vão
Talvez ela volte a ele então – até quando esperar sorrindo
Outra vez por uma mera ironia do destino

As pessoas me dizem que é pecado
Saber o sentimento encalacrado
Ainda creio, ela é meu fado, mas perdi as alianças
Ela nasceu e cresceu criança, e eu não envelheci menino
Tudo culpa de uma mera ironia do destino

____

sexta-feira, agosto 19, 2016

UM DIA NA VIDA

[A Day In The Life:]
(Lennon/McCartney -- vb:ijs)


eu li a notícia hoje -- que puxa --
sobre um homem sortudo que chegou lá
e apesar da notícia ser um tanto triste
eu bem que tive que dar risada
eu vi a fotografia

ele estourou a cabeça num carro
-- não percebeu o sinal vermelho
umas pessoas pararam e olharam
-- já tinham visto a cara dele --
ninguém tinha certeza mesmo
se ele não era da câmara dos lordes

eu vi um filme hoje -- que puxa --
o exército inglês ganhara a guerra
umas pessoas se afastaram
mas eu tive que olhar
tendo lido o livro
eu adoraria
ligar
você

*despertador*

acordei
caí da cama
passei um pente na cabeça
achei meu caminho descendo as escadas
e bebi uma caneca
e olhando pra cima
percebi: atrasado
achei meu casaco
e peguei o chapéu
subi no ônibus (dois andares)
achei meu caminho subindo as escadas
e acendi um cigarro
e alguém falou
e penetrei um sonho

eu li a notícia hoje -- que puxa --
quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire
e apesar dos buracos serem um tanto pequenos
tiveram que contar todos eles
e agora sabem com quantos buracos
se enche o teatro Albert Hall
eu adoraria
ligar
você

...

quinta-feira, agosto 18, 2016

VOCÊ CAÇOU MEU POKEMON

...

tava demorando:

tava demorando pra colocarem
uma personagem dos videogames
num poema --

enfim,
nada é tão grande novidade
assim --

a poesia é meu game favorito, meu amor:
e você é a personagem principal dela
para mim --

fomos fazer um piquenique
e as crianças só queriam caçar os monstrinhos...

Mas você sabe o que é bom:
por isso, foi você,
sim

só você
foi quem achou
e caçou

meu pokemon.


ijs
[para ffr]

...

terça-feira, agosto 09, 2016

O GALO DE OURO

Poema-conto de Alexandre Pushkin (1799-1837)
Versão brasileira: R. Magalhães Jr (1907-1980)
Seleção e transcrição: Wagner Schadeck
Revisão e preparo: Ivan Justen Santana


Num reino de alto renome,
Do qual não direi o nome,
Viveu um Czar altaneiro
Por nome Dadon Primeiro.
Fero, duro, tudo ousava
E aos vizinhos saqueava.
Mas, minguada com a idade
Sua belicosidade,
Quis então o velho Czar
Das guerrilhas descansar.
Os vizinhos, atrevidos,
Com batalhões aguerridos,
— Como ódio velho não cansa —
Buscaram tirar vingança.
Dadon seu reino perdia
Ou tropas mil manteria...
Seus capitães não dormiam,
Porém às vezes fugiam…
Se era o sul fortificado,
Era o resto vulnerado…
Se era uma brecha coberta,
Já numa praia deserta
Desembarcava o inimigo!
Czar Dadon, ante o perigo,
Quase até mesmo chorava!
Não dormia, — cochilava,
Num viver acabrunhante!
Foi, por isso, a um nigromante
Um velho eunuco pedir
Que viesse o Czar assistir.
O Feiticeiro assentiu
E com o eunuco partiu
Para o palácio do Czar…
Na corte, logo ao chegar,
Tirou de um baú de couro
Um pequeno galo de ouro.
“Este galo — disse o mago —
É a proteção que trago
Ao amado e nobre Czar.
Num poste deve ficar
Bem alto, sobre a cidade,
Dominando a imensidade
Do reino que é vosso orgulho,
Sem ouvir nenhum barulho.
Na altura em que ficará
Este galo cantará
Apontando a direção
Donde quer que haja traição,
Donde a perfídia transpire
Ou o inimigo conspire!”
O mago do galo de ouro
Teve em rublos um tesouro
Mas foi apenas o prólogo:
“— Formula um desejo, astrólogo”,
 Disse o Czar, “e eu, como amigo,
A realizá-lo me obrigo...”

No alto poste colocada,
Ficou a ave bem vigiada,
E, se o perigo apontava,
Como que o galo acordava
E, então, as asas ruflando,
Era de vê-lo cantando,
Co-co-ró, co-co-ri-có!
E indicava um lado só
Por onde vinha o inimigo…
Para Dadon o perigo,
O sobressalto era findo:
Não o pegavam dormindo!

Um ano… Outro ano passou,
E o galo não mais cantou…
Mas um dia, de repente,
Ao Czar Dadon um tenente
Diz: “Acorde, majestade!
O perigo o reino invade!
Venha, venha sem demora!”
“Afinal, que é isto agora?”
Na cama se espreguiçando,
Indaga o Czar gaguejando.
Diz o tenente: “É que o medo
Domina! Senhor, hoje cedo
O galo de ouro cantou!”
Para o galo o Czar olhou
E o viu, no poste, a indicar,
Cantando, o lado do mar.
“Depressa! O inimigo investe!
Cavalheiros! Rumo ao Leste!”
O herdeiro do Czar, valente,
Das tropas saiu à frente.
Como o galo se calou,
Dadon então repousou…

Os dias correram, mágicos,
Sem rumores ou sons trágicos.
Afinal, quem venceria?
O Czar Dadon não sabia…
Mas… Eis o galo cantando
Outra vez… E eis, pois, marchando
Nova tropa, em garbo e brilho,
Tendo à frente o outro filho
Para socorrer o irmão.
Como na outra ocasião,
Dando mostras de contente,
O galo quedou silente.
Más notícias não chegaram…
Oito dias mal passaram,
Já canta o galo e, destarte,
Eis que nova força parte!
Quem a conduz, sobranceiro?
É o Czar Dadon Primeiro!

Noites, dias, ao mormaço,
Marcha, morto de cansaço,
Dadon procurando, em vão,
Uma vaga indicação
Quanto ao campo de batalha…
Nem vestígios de metralha
Nem destroços! Coisa estranha!
Mas ao galgar a montanha
Alta, erguida junto ao mar,
Que veria o nobre Czar?
Toda em seda adamascada
Ali há uma tenda armada…
Reina um silêncio funéreo
Como em vasto cemitério…
Jaz, ao lado, a tropa morta…
Investe o Czar para a porta
Da tenda… E cheio de horror,
Seus filhos, com estupor,
Vê, a ferro traspassado
Um pelo outro, lado a lado!
No solo, sobre o gramado
O sangue real derramado
Nem coagulara ainda…
De Dadon a dor infinda
Leva-o a falar assim:
“Filhos! Filhos! Ai de mim!
Meus falcões, por ínvia trilha,
Caístes numa armadilha!”
Todo o exército chorou…
E o vale, o monte, a devesa,
Vestiu luto a natureza!
Mas da tenda eis se avizinha,
De Samarcândia a Rainha,
— Pomo da discórdia — e, airosa
Estende a mão cor de rosa,
Num gesto de enfeitiçar
A Dadon, o velho Czar,
Que ficou trêmulo, olhando
Para ela, não mais pensando
Nos seus dois filhos defuntos.
Ele a mão beijou-lhe e, juntos,
Na tenda real penetraram…
Lado a lado os dois cearam
E após, num leito dourado,
Recoberto de brocado,
Amável, galante, o Czar
A levou a repousar…
Sete noites, sete dias,
Teve o Czar tais regalias.
Qual moço amante perfeito,
Quase não deixava o leito…

Com a pausa que ordenara
Já bastante retardara
O Czar do regresso o avanço.
“Chega, agora, de descanso”,
Diz… E resolve voltar.
A nova, ao se propagar,
Leva às portas da cidade
Gente em grande quantidade.
Em torno ao coche do Czar,
Iam todos a aclamar,
Como a polidez convinha,
O Czar e a linda Rainha.

Barba branca como um cisne,
Sem fio negro que a tisne,
Sob o seu chapéu mourisco,
Montando um corcel arisco,
Surge o mago fabuloso
E diz: “Salve, poderoso,
Salve, onipotente Czar!”
“Então, não vais formular,
Afinal, o teu desejo?”
Dadon pergunta. “Este ensejo,
Em meio a tanto bulício,
Não me parece propício
— Diz o mago — a formular
Meu desejo, ó nobre Czar!”
Dadon retruca: “Tolice!
Vamos! Faze o que eu te disse…
Dize! A palavra de um rei
Atrás não volta… Empenhei
Contigo a minha”. E o mago
Esboça um sorriso vago...
À frente do povo ouvia
De Dadon o que queria:
“Pois bem, Czar: que seja minha
Esta formosa Rainha!”
Tira o Czar a adaga e brande-a:
“Como? A flor de Samarcândia?
És louco, atrevido mago!”
— “Só com ela estarei pago!”
— “Mas há limite, ora essa!”
— “Meu Czar, promessa é promessa!”
— “Cobrir-te-ei de ouropéis!
Dou-te até os meus corcéis,
Mesmo o meu belo alazão!
Farei de ti um barão!
Metade do meu império
Será teu… Prometo-o, a sério!”
— “Nobre Czar, a ambição minha
É tão somente a Rainha…”
Cuspindo de raiva, o Czar
Começa a vociferar
Injúrias, em vil jargão:
— “Que este infame, este bufão,
Desapareça daqui!”
E o mago apenas sorri…
Sorri sem nada dizer,
Talvez por lhe parecer
Uma imprudência brincar
Com a cólera do Czar…
Mal se vai o nigromante,
Com o cetro, o Czar, radiante,
Toca do eunuco o ombro…
Diante do geral assombro
Morre o pobre de repente!
Mas, de todos diferente,
A Rainha nada teme…
Com seus desvelos, extreme,
Sorri-lhe o Czar… E se vão!
Eis que se alvoroça então
O povo a um certo ruído!
É que — céus! — tinha fugido
Do alto do seu mirante
Naquele trágico instante
O galo de ouro… Ei-lo voando,
As áureas asas ruflando:
Como em presságio feral,
Procura o coche real!
No Czar, aflito, desfeito,
Pousou o galo… Bem feito!
Então, branco de terror,
Eis que salta o imperador
Do coche, aos gritos, tremendo,
No chão rolando e morrendo…
E a Rainha se esvanece,
Qual se ali não estivesse…

Fábulas, sendo invenções,
Mesmo assim nos dão lições…