terça-feira, maio 23, 2017

Mais um buquê com dez limeriques que até que dão pro gasto, não?

*
Havia um poeta funesto
Que além de tristonho era mesto;
Viveu entre os tais
E entre os marginais
Foi tido como o mais honesto.
__

Havia um poeta inconteste
Que fez meio verso que preste;
Depois de estudar
Veio a se diplomar
Doutor em poesia rupestre.
__

Havia um poeta pedestre:
Achava-se um mestre entre os mestres;
Entrou para a história
Coberto de glória:
Cavalo em monumento equestre.
__

Havia uma deusa dos jogos
Chamada Caíssa, e seu lógos
Não dava repúdio
Pois era interlúdio
Da vida e de todos seus fogos.
__

Havia um moleque Ricardo
Que tinha estatura de bardo:
Não era vagal
E seu nome - Chacal -
Ecoa em jograu goliardo.
__

Havia uma música míope
Mais bela do que Calíope:
Tocava sem pauta
Violão, banjo e flauta
Na banda dum médico etíope.
__

Havia um poeta medíocre
Que achava que a rima era tudo:
Porém neste caso
Não deu muito certo
E acaba sem rima o poema.
__

Havia um humano sujeito
Que achava esse mundo imperfeito:
Bolou muitos planos
E após muitos anos
Morreu: e só assim teve jeito.
__

Havia um velhinho careta:
fazia poesia concreta;
mas era bem quisto
bem mais do que o quisto
sebáceo do velho poeta.
__

Havia um versinho maroto
Com rimas achadas no esgoto:
Chorava sorrindo,
Sorria chorando,
Assoviando "Bichos Escrotos"!
__

Havia uma garota exótica
Que tinha visão hipnótica:
Sofreu um processo
Que trouxe o sucesso
Perdoada mesmo sendo erótica...

...

Um poema em duas partes

*
Por onde anda o poeta?
Pela água. Pela espuma.
Por becos de buracos negros.
Pelas estrelas vermelhas.
Por onde anda o poeta?
Pela matéria escura. Pela
via jamais trilhada, pela
estrada nunca pisada,
pela área ainda incompleta.
Por onde anda o poeta?
Pelas calhas de roda
desse comboio de corda
que se chama você sabe como:
é por onde o vento fez a curva
e a água clara ficou turva,
não bebida pela onça.
Por onde anda o poeta?
Por sua própria geringonça
de insuspeita canaleta:
pensando que era privada
aquela cabina estreita
na porta escrito: não se meta.
Por onde anda o poeta?
Não é por este planeta.

__

POR ONDE ANDA O POETA II: O DESGASTE

Por onde anda o poeta?
Por aqui mesmo, nesta sarjeta.
Na latrina mais nojenta,
comendo a carnificina
como se fosse caviar:
azar do poeta, sem mistifórios:
frequentamos os mesmos lavatórios,
ouvimos os mesmos discursos laudatórios,
fomos expulsos juntos dos melhores escritórios,
e estamos a sós aqui neste mesmo inferno.

Por onde anda o poeta?
Na palma da mão da amada,
que, se quiser, estala os dedos
e esmaga seu pobre estafeta:
por ali rasteja este poeta,
tenteando alguma fresta, ou retreta:
ali, ali sim está caminhando o poeta
por onde sequer lhe deu na veneta:
pela alameda larga
que vai dar numa valeta.

Por ela então anda o poeta?
Não anda: só estraleja. Ajeita
a jaqueta da dentadura na boca
e gargareja: a vida errada
está certa
menos completa
que imperfeita.

ijs

sexta-feira, maio 19, 2017

ESSA SERENATA

*
Essa serenata eu faço pra você
que me lê aqui
mesmo sem eu saber;
nesta noite fria
(sem brinca: Curitiba é fria no outono)
fico aqui brincando de gnomo;

sim: estou aqui
fazendo essa serenata
pra você: que sabe que

talvez amanhã seja um jamais
mas que o para sempre
começa esta noite
com essa serenata.

ijs

segunda-feira, maio 08, 2017

UM BUQUÊ DE LIMERIQUES (AVISO: CONTÉM LINGUAGEM CHULA)

Tinha um velhinho aqui de Curitiba
Cuja pica ele enrolava por ser tão comprida;
Dizia em tom tenso
Lambendo o próprio beiço:
"Fosse buça esta boca estava fodida!"

ijs

(versão curitibana do clássico limerick
There once was a man from Nantucket
Whose prick was so long he could suck it;
He said with a grin
As he wiped off his chin:
"If my mouth were a cunt I could fuck it!")

...

Existe uma pessoa em Porto Alegre
Cuja responsabilidade me é entregue;
Mas essa minha filha
É mais que maravilha:
Se eu a deixar que o diabo me carregue.

ijs
(pra Rúbia Augusta)

...

Havia um cidadão morador do centro:
Vivia por fora mas se achava por dentro;
Perguntou na prefeitura
(Onde ingressou de pica dura):
"E aqui nessa suruba onde é que eu entro?"

ijs

...

Havia um cidadão de Ponta Grossa
Que passava a vida toda numa fossa;
Ele foi a Campo Largo
E lá tomou um mate amargo
Mas na volta ele tomou foi uma coça...

ijs

...

Agora li a poeta Priscila Merizzio
E decidi que antes de ter uns chiliques
Esta noite eu controlaria
Essa súbita mania
De ficar versificando em limeriques...

ijs

...

Tinha um poeta chamado Marcos Prado
Mais raro que Pégaso, o cavalo alado;
Cavalo vestido
Era seu apelido,
E será mais clássico que Machado.

ijs

...

Tinha um polaco lá no Pilarzinho:
Chutava poste, fazia verso, bebia vinho;
Com sua poesia
Até pedra sorria
No início, no meio e no fim do caminho.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Paranaguá
Que achava que São Paulo era no Paraná;
Ele morreu feliz
Sempre sendo o que quis
Sem saber se São Paulo estava lá.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Cianorte
Que achava que a vida era a morte;
Um dia o diabo
Pisou no seu rabo
E ao velhinho isso deu muita sorte.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Apiaí
Que achava que cá era aqui;
Ele disse vem cá
A uma velha acolá,
Mas pra ela cá não era ali.

ijs

segunda-feira, maio 01, 2017

O POETA QUE PERDEU A GRAÇA

*
Era uma vez um bardo escandaloso,
afeito a arroubos de expressividade:
por vezes mais palhaço do que o Bozo,
por vezes sem qualquer necessidade.

Aos trinta e um tal poeta tão pateta
criou seu blog, o qual salvou sua vida,
tornando o também tradutor e exegeta
um alvo e uma figura conhecida.

Aos trinta e nove o nosso herói do verso
conheceu sua musa --- graça a maior:
mas antes que completo o multiverso
visse o giro de cinco anos desse amor

catástrofes se abateram sobre este
que agora por onde quer que passa
carrega a sombra triste e agreste
do poeta que perdeu a graça.


IJS (Curitiba, 01/05/2017)

quarta-feira, abril 19, 2017

NUM ANIVERSÁRIO DA MORTE DE LORD BYRON

*
__Hoje vou ensinar como é a estrofe
__Que um lorde inglês usou num certo poema
__No qual versou de si tal qual mau bofe
__Que faz da própria vida o velho tema
__Fingindo que o fazer não tem problema:
__A estrofe chama-se “spenseriana”,
__E as rimas se intercalam neste esquema,
__Em nove versos feito este sacana
Aqui compõe e assina: Ivan Justen Santana.

ijs

terça-feira, abril 04, 2017

Elegia 2017

*
Caí em desgraça
co´a musa mais bela
e agora sem raça
meu potro se atrela.
Meu sonho sacode
do bolso de poemas:
não saco uma ode
sem estratagemas
e estratos de gemas:

componho umas flores
nos versos das dores.

ijs
__

quarta-feira, março 22, 2017

VOCÊ (NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

*
Você
queria ser
Mallarmé:
mala
você
já é.

Você
queria ser
um Rimbaud
mas nem
o fogo
você
roubou.

Você
queria ser
um sacana
dum artista
mas se
cansou até
de fazer
essa
lista.


ijs

terça-feira, março 21, 2017

SEM CONSEGUIR AINDA DORMIR

*
Sem conseguir ainda dormir, e lembrando
que este blog ainda existe e anda vivo se movendo,
e eu estou caindo e recaindo no que antes esnobei,
pensei que quase dá no mesmo mas nem tanto,
e que escrever em versos
à vontade no teclado de um computador de colo
é outro jogo de futebol, ou melhor:
é o velho jogo novo e mais estiloso,
ou mesmo apenas papo furado
mesclado
com pretensa alta poesia.

Mas
se eu ainda me presto
e acho que presto
a isto e nisto
então
não
importa
tanto o meio, e a mídia:
(será?)

li agora pouco um artigo
que fez uma crítica redutora
sobre o poder
ou pior
a falta de relevância
do trocadilho
por si só:
ou da paronomásia
(o efeito de semelhança
diferença de palavras e nomes),
e me chamou a atenção
a intenção de dar relevo
maior aos conteúdos --- melhor reformular:
talvez o interessante seria/seja conseguir
aliar sonoridade e sentido e desenho animado
e humor e prazer e borrachada na cara
spray de pimenta nos olhos das outras
pessoas que também aparecem no jornal majoritário...

Enfim: além de tudo isso
também acho que valem
a construção, a métrica, a técnica,
o uso correto da escansão e das cesuras
eventuais ou súbitos encavalamentos de
versos.

Como queiram que os façam,
conseguindo ou não criar suposta música
mesmo que às vezes silenciosa de si mesma
e que acompanhe as imagens
as quais sejam farejadas
cheiradas
sentidas
como puras
uvas
maduras
ou
até
como
aquelas
"ameixas:
ame-as
ou deixe-as."*

ijs

* Paulo Leminski Filho

P.S. É a abreviatura de Post Scriptum, do latim para "escrito depois", do tempo em que se escrevia com pena e tinteiro (com tinta, evidentemente), mergulhando a ponta da pena no tinteiro e a seguir desenhando as letras no papel, e foi assim durante pelo menos mil e centenas e dezenas de anos até ser criada a tipografia móvel, enfim --
não existe mais a necessidade de usar um P.S. porque você pode editar o que escreve, sempre.
Mas resolvi usar um P.S. e me perdoem o estilo rebarbativo: eu só queria esclarecer que nem sempre o uso puro de rimas é suficiente para dizer que é poesia
só que não
só que sim
soque-se quem puder.

Ah, sim: tem que ter o link do artigo, senão não fecha o dialogismo: (editado)
fui buscar e achei mais esse -> http://www.curvilingua.com.br/ave-trocadilho/


quinta-feira, março 02, 2017

Este soneto vai para Wagner Schadeck, Caio Tardelli, Rodolfo Jaruga, e Thadeu Wojciechowski

*
Eu sei que mais ninguém dá trela a versos
e que a leitura é coisa descolada
da realidade de quem sabe um nada
e opina em tantos temas controversos.
E sei também o quanto são perversos
os poucos que controlam a mão armada
da mídia a tratar todos qual manada
enquanto os temas sãos ficam submersos.
Mas sei também dessas aspirações
estranhas que cantou um poeta alerta
às músicas e às cores dos seus sons
e às notas dum perfume que desperta
a gargalhada oculta no sorriso
interno que empetala o chão que piso.

ijs
*

domingo, fevereiro 26, 2017

Hoje troquei a imagem-cabeçalho deste blogue...

E aqui vai um poema meu que o Roberto Prado postou na rede social que cada vez mais tem virado sinônimo de internet aos desavisados sempre de plantão.


hoje vou tirar a alma da lama
falar baixo a quem me odeia
e calar fundo em quem me ama

IJS

domingo, fevereiro 19, 2017

Dois poemas que merecem transcrição...

Conforme alguns dos leitores desse blog sabem, e outros possivelmente nem soubessem se eu não comentasse aqui, um grande amigo meu e da minha turma de poetas parceiros de composições musicais e outras nem tanto, aqui em Curitiba, morreu na semana passada.

Edilson Del Grossi é talvez o mais marginal de nós marginais, e nunca chegou a publicar um livro-solo de poemas. Ele costumava compor em parceria, especialmente com o Antonio Thadeu Wojciechowski, o Sérgio Viralobos, o Chico "Capetão" Cardoso, o Edson de Vulcanis, entre outros meliantes que ainda não perderam seu latim.

Então aqui estão dois poemas excepcionalmente compostos a apenas duas mãos pelo Edilson, e que merecem entrar em qualquer antologia da poesia curitibana, paranaense, brasileira e intergalática (completa ou incompleta:)


POETA LAVANDO ROUPA

O tanque e o poeta
saíram pra conversar.
Um falando de guerra,
o outro falido de amar.

Quando as explosões começaram
o poeta fingiu de morto.
O tanque, muito vivo,
pensava só em seu corpo.

Um indiferente:
tanto faz morrer ou matar.
O outro segue em frente:
o mundo é pra passear.

Edilson Del Grossi
__

DEZ MIL ANOS EM BUSCA DO AMOR

Dez mil anos anos em busca do amor
que nos redimisse.
O poeta, mais que todos,
vem sofrendo dessa tolice.

Como é esquisito
ver um homem bonito,
forte, inteligente,
consumir-se nessa patetice!?

Como se no país das maravilhas
só existisse ele,
e não Alice.

Edilson Del Grossi
__


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Presente do Dia de São Valentino

pra Faena Figueiredo Rossilho:

MONSTRUOSA BELEZA QUE NUNCA MORREU: TENS LUGAR À MESA ANTERIOR AO MEU

Quero amar apenas
desse amor completo
que mesmo nas curvas
vai direto e reto:
pois sou gente humana
com medo e receio
e este poema emana
seu fim pelo meio.
Tanto sentimento
sempre expresso a ela:
minha amada e templo
onde acendo a vela;
minha companheira,
minha companhia,
minha vida inteira
em meio à poesia;
minha celebrada,
festejada minha:
vinha a qualquer nada
e fez toda a linha;
minha Faeninha,
minha linda amada:
pena da almofada
da fada madrinha;
este poeminha
você já esperava
qual graça marinha
do seu rio de lava
que aqui encaminha
só mais um versinho
e um fogo no incenso
e um fumo mais denso
e vamos ao vinho.

ijs
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quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Não é sempre que o pai da sua namorada faz sessenta anos de idade...

*
SESSENTA
(Ao Cesar Rossilho)

A vida está completa
Do ser humano em chama
Que mesmo sem resposta
Completa os seus sessenta

Com tudo que ele acerta
E tudo que ele ama
E tudo que ele gosta
E tudo que ele aguenta.


ijs
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terça-feira, dezembro 13, 2016

PECARAM

*
PECARAM a favor de quem os elegeu:
não foi você, tampouco fui eu:
eleição = ilusão.

Pecaram a favor de quem detém a grana:
não é o João, muito menos a Joana:
são poucos = ouvidos moucos.

Pecaram a favor da salvação nacional:
salvação da revista, da TV e do jornal:

e o povo vai ter vez = feliz 2036!

__