Domingo, Março 18, 2012

O AMOR VAI NOS DILACERAR

Quando a rotina morde forte
e as ambições estão em baixa
e o ressentimento alto cavalga
mas as emoções não crescerão

então o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo
o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo

Por que a cama está tão fria
tão afastada do teu lado?
Será meu senso de tempo falho?
Nosso respeito mútuo esgotado.
Ainda assim existe esse apelo
que se manteve em nossas vidas

então o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo
o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo

Você grita no seu sono
todas as minhas falhas expostas
fica um gosto na minha boca
o desespero toma conta
por que é que algo tão bom
já não mais funciona?

Então o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo
o amor
o amor vai nos dilacerar
de novo

(Love Will Tear Us Apart, Joy Division)

Ian Curtis
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

link pro videoclipe: clique aqui
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Sexta-feira, Março 16, 2012

Minha orelha numa Piada Louca

(tente entender clicando aqui)

Pra quem ainda pensa que poesia
é coisa de mané desavisado —
quem até saca de entropia (e dentro pia)
mas nem assim desmarca a própria touca —
depois de lerem a piada louca
talvez percebam quem não pia errado,
pois pra mais que chimpanzés e bonobos
são os versos do Sérgio Viralobos.

Quinta-feira, Março 15, 2012

A POESIA & O Π [π = PI]

O π topou com a poesia
num paralelo meridiano:
ele era belo, e ela, fria.

Num plano ingênuo, em pleno engano:

“Olá, meu π — és belo assim?”
disse a poesia, já esquentando.
Porém o π partiu sem quando,
pois nenhum deles viu seu fim.

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PAN NUM TUM

_______I

E finalmente a chuva veio,
Lavando todo o teu torpor.
Veio no meio do teu seio,
Sabendo assim onde se por.

Lavando todo o teu torpor,
Avarandando feito esteio,
Sabendo assim onde se por,
Preenchendo um cio vazio tão cheio.

Avarandando feito esteio
Numa varanda, em vaga cor,
Preenchendo um cio vazio tão cheio,
Chovendo um vinho vingador.

Numa varanda, em vaga cor,
A chuva veio como veio,
Chovendo um vinho vingador,
Receio em meio do teu seio.

Sem finalmente a chuva veio.

_______II

Neste pantum tão tentador,
Tua vontade, mais que rima,
Vem de um desejo que este amor
Percorra em baixo e siga em cima.

Tua vontade mais que rima
Com teu amor amando o amor.
Percorra em baixo e siga em cima,
Diga o que faz ser tua a flor,

Com teu amor amando o amor,
Faz-se o poema arder no clima.
Diga o que faz ser tua a flor,
A flor que fende a dobra prima.

Faz-se o poema arder no clima
Do teu pantum tão tentador.
A flor que fende a dobra prima
Vem de um desejo, deste amor.

Deste pantum tão tentador.

_______III

Vem de um desejo deste amor.
Veio no meio do teu seio.
Neste pantum tão tentador.

E finalmente a chuva veio.

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Terça-feira, Março 13, 2012

CHARLES, CHARLES...

Charles, Charles, caro Charles:
com piedade hoje te entendo,
sem sezões de nojo horrendo,
sem mugido a avacalhar-lhes,

tuas flores — acochar-lhes,
nestes tempos que vêm sem do
teu estilo o dividendo,
brindes caros quero, Charles —

são o Abismo, a Morte, o Vinho;
racham pedras no caminho;
dão o Ideal a quem as lê.

Assim, assim, simplesinho,
brindo a ti, meu bom Baudinho,
traduzindo Mallarmé:

LE TOMBEAU DE CHARLES BAUDELAIRE
THE TOMB OF CHARLES BAUDELAIRE
O TÚMULO DE CHARLES BAUDELAIRE

Le temple enseveli divulgue par la bouche
The buried shrine shows at its sewer-mouth’s
O templo amortalhado mostra pela boca
Sépulcrale d’égout bavant boue et rubis
Sepulchral slobber of mud and rubies
Sepulcral do esgoto a babar lama e rubis
Abominablement quelque idole Anubis
Some abominable statue of Anubis,
Abominavelmente algum ídolo Anúbis
Tout le museau flambé comme un aboi farouche
The muzzle lit like a ferocious snout
A fuça toda em flama qual ganido atroz

Ou que le gaz récent torde la mèche louche
Or as when a dubious wick twists in the new gas,
Ou que ao recente gás se torce a dúbia rosca
Essuyeuse on le sait des opprobres subis
Wiping out, as we know, the insults suffered
Raspando ao que se sabe os sofridos opróbrios
Il allume hagard un immortel pubis
Haggardly lighting an immortal pubis,
Ele incendeia esgazeado um imortal púbis
Dont le vol selon le réverbère découche
Whose flight roosts according to the lamp
Cujo voo de acordo com o lampião decola

Quel feuillage séché dans les cités sans soir
What votive leaves, dried in cities without evening
Ao qual folhas secas nas cidades sem treva
Votif pourra bénir comme elle se rasseoir
Could bless, as she can, vainly sitting
Votivas abençoariam no que se assentam
Contre le marbre vainement de Baudelaire
Against the marble of Baudelaire
Contra o mármore vãmente de Baudelaire

Au voile qui la ceint absente avec frissons
Shudderingly absent from the veil that clothes her
Do véu que a circunda ausente com calafrios
Celle son Ombre même un poison tutélaire
She, his Shade, a protective poisonous air
Ela a própria Sombra um veneno tutelar
Toujours à respirer si nous en périssons
Always to be breathed, although we die of her.
Sempre a o inspirarmos apesar de mortífero

Stéphane Mallarmé
A. S. Kline
Ivan Justen Santana
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Segunda-feira, Março 12, 2012

VOCÊ AGORA É UMA GAROTA CRESCIDA

(You're A Big Girl Now, de Bob Dylan)

Nossa conversa foi curta e doce
Quase fui ao chão, foi como se fosse
Volto pra chuva mais cedo
E você fica em terreno seco
Você conseguiu isso na vida
Você agora é uma garota crescida

Um pássaro no horizonte, sentado numa cerca
Ele canta pra mim, às suas próprias expensas
E eu sou feito aquele pássaro
Só pra você aqui cantando
Espero que esteja escutando
Eu cantando aqui meu pranto

O tempo é um jato, vai rápido demais
Mas é uma vergonha, se o que temos não durar
Eu posso mudar, eu juro
Veja o que vai fazer no futuro
Eu consigo superar
Você também conseguirá

O amor é tão simples, pra citar uma frase
Ainda estou aprendendo, o que você já sabe
Eu sei onde a achar
Dormindo noutro lugar
É o preço que eu pago
Você está crescida, de fato

Mudanças no clima podem ser extremas
Mas saltar do cavalo em face dos problemas?
Garota, estou saindo de giro
Agora só dói quando respiro
Feito um saca-rolha no meu peito
Desde que nosso lar foi desfeito

versão brasileira:
Ivan Justen Santana
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A ALMA INVENCÍVEL

Na mais violenta e agra agrura;
no pesadelo mais pesado;
na óbvia e ululante tortura
da dor doída do adoidado;

na sociedade absurda e crua;
na estupidez vil, chã, banal;
no crasso espaço da hora nua;
no traço lasso em todo mal;

no fel do sal do sofrimento
que te atropela e não tem fim;
grita, alma poética: eu aguento!
Batam mais! Errem mais! Sim! Sim!

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Sexta-feira, Março 09, 2012

A LUA CHEIA

Sinto muito
Por ter alvejado
Belo pássaro raro

Você tinha
Vinte vezes com o olhar
Me fuzilado

Sinto muito
Sua arma colocada
Sobre a mesa do lavabo...

Mas que ideia!
Nunca se deve
Tentar atentar o diabo...

Nunca se deve rasgar seda
Nem mostrar dentes langues
Às noivas quando a lua cheia
Metamorfoseia os sangues...

Legítima defesa
Por que tanto ódio e insolência?
Legítima demência
Será presunção de inocência...

A morte lhe cai bem
Eu até vislumbraria
Com você um pouco de
Necrofagia...

Nunca se deve voar nas plumas
Nem contar os momentos
Das noivas em crise quando a lua
Acelera os batimentos...

Legítima defesa
Por que tanto ódio e insolência?
Legítima demência
Será presunção de inocência...

Sinto muito
Você estava tão mudado
Tão imoral

Sinto muito
Eu realmente não queria
Lhe fazer algum mal...

Eu falo e falo
Você surdo e mudo com esse olhar
Estranhamente pálido...
Você nunca vai mudar?

Françoise Hardy
Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

Quinta-feira, Março 08, 2012

EU QUERO SER O TEU TEXUGO

eternamente a S.L.C.T.
Eu quero ser o teu texugo,
teu monstro da lagoa negra:
antipasticamente al sugo,
constitucionalmente em regra.

Farei pra ti meu verso crebro,
mais caudaloso que o rio Ebro,
e rezar-te-ei qual persa guebro,
fiel à deusa que celebro.

Serei pra ti mais que canção:
exemplo a amantes que virão,
teu templo ao tempo far-te-ei eu.

O teu maior amor, mulher,
quero servir, ser, ver, sorver,
quero ser teu, teu, teu: só teu.

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Quarta-feira, Março 07, 2012

A BIBLIOTECA, A POESIA E O TREM

Todo mundo adora a biblioteca.
Todo mundo adora a poesia.
Contudo, notar isso não breca
o trem-bala da esquizofrenia.

Que trem é esse?, indaga uma mineira,
Sabe lá..., responde um paranaense,
enquanto o vagão de ambos, à beira
da catástrofe, inda em pé mantém-se.

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(homenagem aos 155 anos, hoje, da Biblioteca Pública do Paraná -- por sinal, saiu hoje o número 8 do jornal Cândido [clique pra ler], publicado pela BPP -- matérias sobre a literatura em Curitiba, e na contracapa um poema adivinhem de quem?)

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Terça-feira, Março 06, 2012

Um Madrigal de Petrarca

52
LII
CINQUENTA E DOIS

Non al suo amante piú Dïana piacque,
quando per tal ventura tutta ignuda
la vide in mezzo de le gelide acque,
Diana was not more pleasing to her lover,
when by chance he saw her all naked
in the midst of icy waters,
Não é mais bela Diana ao seu amante,
quando em total ventura toda nua
nas águas gélidas a vê por diante,

ch'a me la pastorella alpestra et cruda
posta a bagnar un leggiadretto velo,
ch'a l'aura il vago et biondo capel chiuda,
than, to me, the fresh mountain shepherdess,
set there to wash a graceful veil,
that ties her vagrant blonde hair from the breeze,
que a mim esta pastora alheia em sua
tarefa de lavar gracioso véu,
que a laura e vaga trança ata e insinua,

tal che mi fece, or quand'egli arde 'l cielo,
tutto tremar d'un amoroso gielo.
so that she makes me, now that the heavens burn,
tremble, wholly, with the chill of love.
e assim me faz, quando incendeia o céu,
gelar tremendo de amor fogaréu.

Francesco Petrarca
A. S. Kline
Ivan Justen Santana

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Quinta-feira, Março 01, 2012

TUDO & NADA

Tudo e Nada eram amigos bastante íntimos
que contavam um ao outro as aventuras
amorosas, as agruras e as loucuras.
Inventavam às palavras novos ritmos,
refaziam seus percursos, longos, ínfimos:
Tudo era dos cortes; Nada, das suturas;
Nada era das puras; Tudo, das misturas;
Tudo era dos máximos; Nada, dos mínimos.
Certo dia decidiram rir das dores.
Só que o resto, aos dois amigos controverso,
não queria nem ouvir tudos nem nadas,
e os ouvidos se taparam com horrores.
Mas nem todos os horrores do universo
conseguiram abafar as gargalhadas.

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Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

UM CASO DE VIDA OU ARTE

Arte e Vida se veem dividindo a mesma toalha
no piquenique organizado pelo chefe, o Tempo,
o qual adora dar tais festinhas nas horas vagas
e sempre as convida pra fruir estes bons momentos.

Começa a Arte: “Dizem que sou longa e você breve.”
“Mas se não fosse por mim você sequer nascia!”,
retruca ríspida a Vida, e em seguida, mais leve:
“Como vai aquela sua filha linda, a Poesia?”

“Ah, aquela uma parece que vai superar a mãe!
Vive arquitetônica, imitando Pintura e Música.”
E a Vida segue bela e expectativa: “Não estranhe,
mas sempre vi a sua Poesia assim, quase medúsica...”

A Arte vem de novo com o papo de breve e longa
e a Vida, lívida e bandida, por dentro se torce,
até que, ávida e sacuda e já farta da delonga,
gesticula ao Tempo um S.O.S. em código Morse.

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Sábado, Fevereiro 25, 2012

DOIS JOGOS

O amor é um peixe com asas:
as asas do amor são as rosas,
e as rosas são ganhas ou perdidas.

O xadrez é luta em casas:
em casas, em lances, em prosas,
as prosas às vezes divididas.

Mas são mais que só dois jogos:
são brasas, são brasões, são fogos
combinando mortes, sortes, vidas.

Peças. Entradas. Estradas. Saídas.

* * *

Sábado, Fevereiro 18, 2012

A MINHA GATA PRIMATA

Tive uma vez um gato cinza:
era um filhote muito esperto.
Tive também gatas ranzinzas:
choravam longe, riam perto.

Mas nunca tive gata alguma
como você, gata primata:
sonho seus lábios numa espuma,
beijo seu beijo de acrobata.

Seres humanos são estranhos
alguns praticam sodomia,
degustam ralos, raspas, ranhos--
enquanto a mim você só mia,

só me na pele acaricia,
some não some, amor de gata,
morde de leve, alonga e guia,
gata primata que me mata...

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Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

JORGE IVAN LUIS JUSTEN BORGES SANTANA

ao Rodolfo Jaruga

[veja antes a explicação entre colchetes ao final da postagem, ou tente solucionar este problema-poema sem usar qualquer colher de chá]

I
II

Num ringue muito grave, jogadores
Frágil Rei, vesgo Bispo, encarniçada
Regem as lentas peças: tabuleiro
Dama, reta Torre, Peão espertinho
E dois detentos, sério picadeiro
Sobre o preto e branco de seu caminho
Onde se odeiam--dançam duas cores.
Buscam e travam a batalha armada.
Dentro brilham os mágicos rigores
Não sabem que uma mão assinalada
Das formas: Torre homérica, ligeiro
De um jogador governa seu destino,
Cavalo, Dama armada, Rei matreiro,
Não sabem que um rigor adamantino
Oblíquo Bispo e Peões violentadores.
Sujeita seus desejos na jornada.
Quando o par de adversários for partido,
O jogador também é um prisioneiro
Quando já o tempo os tenha consumido,
(Frase de Omar) mas noutro tabuleiro
Por certo não terá cessado o rito.
De negras noites e de brancos dias.
No Oriente pegou fogo esta guerra
Deus move o jogador, que move a peça.
Cujo anfiteatro é hoje toda a Terra,
Que Deus por trás de Deus o ardor começa
Como o outro, este jogo é infinito.
De poeira e tempo e sonhos e agonias?

[intercalados aqui acima estão os dois sonetos de Jorge Luis Borges sobre o jogo de xadrez, ambos em versão brasileira de Ivan Justen Santana]

* * *