terça-feira, dezembro 12, 2017

SOMENTE SWIFT SALVA

Lemuel Gulliver voltou para a Inglaterra e foi morar num estábulo, com os cavalos, porque a companhia de seres humanos ficou insuportável ao marinheiro poliglota.

Se você acha que conhece aquela "historinha" das viagens de Gulliver, saiba o seguinte:

é um romance de sátira, e suas versões infantojuvenis castram a obra, rasgando as três partes seguintes, mais fortes e ainda mais interessantes;

existe uma maravilhosa paródia, em quadrinhos, feita pelo mago do desenho Milo Manara: intitula-se Gullivera, e somente pessoas divinas abençoadas dispõem de materiais assim;

Swift é foda pra caralho e pra boceta: mas leiam Swift integral, e não semidesnatado...

IJS

sexta-feira, dezembro 08, 2017

LIBERDADE, AMOR E ZONA

*
O país onde a liberdade é só uma puta duma estátua erguendo uma tocha em gesto triunfal é o país com a maior população carcerária do planeta, e com uma sociedade escravizada pela exploração do trabalho, e pelo consumismo como ideal de felicidade.

O país onde o amor é só uma puta duma estátua dum puto dum cristo de braços enganosamente abertos (fugido da cruz?) é o país que tem o maior cultivo organizado de ódio no planeta, e que se deixa escravizar de bom grado por aquele país daquela pretensa liberdade.

Meu país é minha zona. Minha bagunça é meu crime organizado, minha oração não tem sujeito nem objeto nem porra de deus onipotente e onipresente e onisciente nenhum: uma consciência não surge do nada: ela é forçada a se formar, e as consciências humanas soem ser e haver-se imperfeitas, irregulares, deformadas, em estado de calamidade. Quem não é e quem não há de?

Portanto foda-se. Bem vindo(a) à minha zona: estou pouco me fodendo e louco me ofendendo, pouco a tampouco, e você pode ficar, ir à merda, ou nem fazer o que tiver mesmo vontade.

ijs

segunda-feira, dezembro 04, 2017

BOSSACRIFÍCIO

[num cio de dois poemas por segundo instinto:]

nunca enterre o poema
na cova rasa
da piada pronta

devidamente morta
a poesia
não merece cova
com menos
de sete pelouros
de profundidade

seja a favor
ou seja
contra


ijs

sábado, dezembro 02, 2017

"A minha vida foi uma arma pronta"

Emily Dickinson

A minha vida foi uma arma pronta
Na esquina, até que um dia
O dono veio—identificou,
E me levou da via.

E agora andamos soberanos bosques,
E agora temos caça e pesca—
E sempre que eu falo por ele
Montanhas logo se interessam.

E que sorriso o meu, a luz cordial
Rebrilha sobre o vale—
É qual uma covinha no Vesúvio
Surgindo nesta face.

E quando à noite, findo o dia,
A meu mestre faço guarda,
Melhor isso é que ter compartilhado
A mais funda almofada.

Dos seus imigos sou a imiga,
Não há segunda vez
Àquele em quem boto olho torto
Ou polegar veemente.

Mesmo que eu viva por mais tempo,
Vive ele mais do que eu,
Pois só domino a arte de matar—
Sem o poder de morrer.

vb:ijs

quinta-feira, novembro 30, 2017

VIRANDO A QUADRA DO ÓDIO

*
eu resolvi sentir o ódio
só pra saber o que o outro sente:
senti somente outro episódio
do que sem ti ficou minha mente

ijs

quarta-feira, novembro 29, 2017

"A Bíblia é um volume arcaico"

Emily Dickinson (1830-86)

A BÍBLIA é um volume arcaico
Escrito por sumidos homens,
Por sugestão de Espectros Santos—
Assuntos—Belém—
Éden—a velha Herdade—
Satã—o Brigadeiro,
Judas—o grande Infrator,
Davi—o Trovador.
Pecado—um distinto Abismo
Que os outros têm que evitar,
Garotos que "acreditam"
São muito solitários—
E outros estão "perdidos."
Tivesse um Cantador a estória
Viria toda a garotada—
O sermão de Orfeu absorvia,
Não condenava.

[vb:ijs]
__

THE BIBLE is an antique volume
Written by faded men,
At the suggestion of Holy Spectres—
Subjects—Bethlehem—
Eden—the ancient Homestead—
Satan—the Brigadier,
Judas—the great Defaulter,
David—the Troubadour.
Sin—a distinguished Precipice
Others must resist,
Boys that “believe”
Are very lonesome—
Other boys are “lost.”
Had but the tale a warbling Teller
All the boys would come—
Orpheus’ sermon captivated,
It did not condemn.

terça-feira, novembro 21, 2017

DESENCARGO DE INCONSCIÊNCIA

[pra ninguém em particular]

a gente era o casal que dançava colado na cozinha
eu sempre na casa dela: ela, na minha

mesmo em galinheiro cheio nunca tinha rinha:
eu olhava as outras porém me continha

o final da história foi um verso ímpar

sei que minha barra jamais voltará a ser limpa
mas se é triste é alegre porque foi supimpa

ijs

segunda-feira, outubro 30, 2017

UM POEMA PARA UMA PROFESSORA

(para ela que sabe que é ela mesma)


Gostaria de nunca escrever um acróstico.

Ler nunca foi a minha praia deserta.

Aliás, acho que já fiz uns acrósticos.

Um dia eu li um livro inteiro numa tarde.

Caraca! É horrível usar gíria importada...

Ivans são sempre complicadinhos de lidar.

Acho melhor parar por aqui, já deu pra cabeça...

]
ijs

sexta-feira, outubro 06, 2017

O AMOR DE SEMPRE

*
O amor de sempre prossegue crescendo.
Vai ocupando todos os espaços.
Os pés levam as mãos até os abraços.
O peito arfando, o coração batendo.

Por onde eu ando eu sigo a tua pista.
Não sei por que é que eu faço isso de novo.
Eu tenho mais tentáculos que um polvo
Mas só você me faz malabarista.

Tal sentimento, se elevado ao cubo,
Trastejaria qualquer ser humano.
Dentro de ti só floresço e sucumbo

Como a criança que cresce ano a ano.
Se você for a louca eu sou o louco
E a eternidade assim pode ser pouco...


ijs & Chico "Capetão" Cardoso
Bar do Torto, 5 de outubro de 2017.

quinta-feira, outubro 05, 2017

MINHA BALA É MINHA CLAVA

Minha bala é minha clava
E ela se chama palavra:

Palavrão para os pudicos
Se atocha no cu dos ricos
E em rabos de tiriricos
Essa clava também lava:

A chama que arde em fuxicos
Santa Joana já espalhava:

Minha bala é minha clava
E ela se chama palavra.

ijs

segunda-feira, outubro 02, 2017

FODA-SE, SOCIEDADE CAGADA...

Foda-se, sociedade cagada, que valoriza músculos em vez de raciocínios, que sabe uma titica e arrota o que nunca vai saber, que se deixa levar pelas ondas de momento, que só age infantilizada ou em pânico, que sempre reage mal, que sempre leva a mal, que se rende à lei do menor esforço porque combina preguiça com incapacidade e estupidez com quem se esforça.

Foda-se, sociedade cagada, que adora ser enganada, que entra várias vezes na fila para ser manipulada, que repete opiniões e pretensas ideias (no fundo ódios), que sofre mas aceita e admira ídolos vazios e falsos, que não reconhece ou mal e porcamente entende seus supremos artistas, que sustenta luxos grotescos de medíocres divinizados, sociedade antissocial que não se reconhece.

Sim: foda-se, sociedade Caliban, gosma monstruosa que ao se olhar no espelho foge correndo com raiva e incompreensão.

Foda-se várias, inúmeras, infinitas vezes, até a geração que conseguir sobreviver neste meio social apodrecido, fedorento, corrompido, bajulador, poluído e poluente: o lixo é menos tóxico que essa pretensa gente.

ijs

quinta-feira, setembro 28, 2017

AMOR É POLÍTICA

O Paraná é atualmente um estado lastimável.
Mas minha amada quem sabe esteja em estado interessante.

Curitiba é atualmente uma cidade excludente.
Mas minha amada talvez nunca tenha dor de dente.

Minha amada não é bem minha: é antes dela mesma.

Já a cidade é dos vampiros, e o estado, dos exploradores,
dos linchadores, dos corruptores, traidores, hipócritas
sacripantas complacentes mentirosos

Minha querida Curitiba: meu caro Paraná:
vocês atualmente não valem a sujeira do ânus
que eu lavo pra que minha amada
sinta apenas
o meu cheirinho
de piá fedido e suarento.

Com todo o alento.

ijs

quarta-feira, setembro 20, 2017

Anúncio de antiga boa nova, dedicado pra você

(naquela expectativa jamais frustrada...)

charada que se desenigma,
o amor eterno máximo anarquista
passa mais sutil que os passarinhos

ele é protopunk e come flores
mas quando ela a misteriosa vem
junto essa coisa até que se complica

um bardo sempre mal disfarça as cores
e as dores óbvias gritam mudas sem
poder atrapalhar a trapalhada-zona-zica

e um dia um casal sempre se encontra
mesmo há dez milhões de anos atrás

mesmo com um mundo tolo todo contra
e com tudo entre tanto toda via ou mas


ijs [pra ...]

quinta-feira, setembro 14, 2017

INVERNO ESTIVAL

('estival' significa "relativo ao verão", mas guglem assim mesmo)

O inverno nem acabou:
o inferno mau começou:
o inferno mal iniciou:
o tolo sequer estudou.

A temperatura é insana:
me gamo na mina bacana:
me dá gana ser Santana:
aí lembro que sim eu soul:
ânimo que a mina minou:
bagana de aminoácido
clássico e plácido e flácido
no almoço do fim da semana:

hare hare grana grana
ironia já pode dar cana

ijs

segunda-feira, agosto 28, 2017

PIXOS

PÉ EM DEUS E FÉ NA TABA

A MÃO Q BALANÇA O BERÇO BALANÇA O BISPO

ME
WE

QUEM VIGIA OS VIGILANTES?

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

sexta-feira, julho 14, 2017

A CONFISSÃO DO LADRÃO DE BEIJOS

*
sim
novamente
podem parar
de bater
eu confesso

roubei beijos de todas as minhas ex-namoradas
e os passei em cantadas
mal assimiladas
ou às vezes até
bem dissimuladas

sim: já podem parar
de bater em mim
e no meu pobre discursinho
e me encarcerar
no vosso esquecimento:
mais cimento do que
esqueci o que ia dizendo...

sim: sim: sim: foi o que eu disse:
isso isso isso isso isso

aceitei as propinas dos sorrisos
bulindo em bochechas e lambendo olhares
densos
tensos
imensos

negociei as duplicatas das cagadas sentimentais alheias

foram tantas que agora meu desejo são presídios-ilhas
uma a cada ano
na sentença, meritíssimo: tenha essa clemência
com toda a vossa santa sapiência
de piá de prédio

sim: desculpem
eu não quis ofender
eu não quis destratar a colega de trabalho
sendo assim ominosamente um artista de circo

e agora estou aqui livre
sendo torturado instante a instante
e querendo agir de algum jeito
para que a grande maioria não siga como cega
e cegando os camaradas ao redor rumo ao abismo

porém: fim:
masco mais conforme McCartney então,
que já há sangue demais pelas ruas:

deixa estar: a mãe Maria virá para todos.

ijs

quinta-feira, junho 29, 2017

Em aniversário de 13 anos desta bagaça...

*

Era uma vez um casal que usava balaclava.
O homem usava também bala e clava.
E a mulher, ela era
Uma homérica quimera:
Carinhosa como eu sempre sonhava...

ijs

*

domingo, junho 18, 2017

VISITA GUIADA AO ZOOLÓGICO VIRTUAL

[...]
Este é o momento em que o tigre se aproxima a toda velocidade do elefante que transporta e protege o caçador.
Este é o momento em que o tigre salta por sobre as presas do elefante e seus dentes se cravam no pescoço do caçador.
Este é o momento em que caçador e tigre no lombo do elefante recebem [out of the blue], vindo do nada, a visita de uma pantera negra que cai do galho bambo da árvore por sobre os amiguinhos em decúbito dorsal e flagrante delicto...

[...]

Esse é o momento em que a leoparda albina dá à luz uma ninhada de sete felinos de colorações diferentes, incluindo um tigrinho azul, que sabia falar e dizia ser filho de Jorge Luis Borges.

[...]

ijs

terça-feira, maio 30, 2017

E AINDA OUTRO BUQUÊ DE LIMERIQUES...

*
em queda livre para cima
caindo retamente em curva
topando brigas
procurando rimas
e abrindo os olhos n´água turva

ijs
__

Havia este ponto dentro da reta:
Buscava nas curvas uma indireta;
Numa ida parou
Mas não se tocou
Que a ida era a volta completa.

ijs
__

Existe uma pinda na monha de angaba
Que também é cuque e de tiba se gaba:
Cidade sorriso,
Calçada que piso:
Os índios mandamos na taba!

ijs
__

Havia uma sílaba tônica
De certa palavra eletrônica;
Quando assistiu 'Tron'
Subiu o próprio tom
E então se entronou, histriônica.

ijs
__

Era uma vez uma musa dramática
Que tinha estratégia e também tinha tática:
Fazia uma cena
Sem tinta nem pena
Pois pra ela teoria era prática.

ijs
__

Era uma vez um poeta calhorda
Que andava de noite roendo uma corda:
Um dia, no hospício,
Seu fim teve início:
"Gritamos e ele não acorda!"

ijs
__

Atirei uma isca entristecida
No laguinho vazio da nossa vida:
Um peixinho escapuliu
Dizendo: "Onde já se viu
Vir pescar com isca entristecida?"

ijs
__

Havia certa graça em minha vida
A qual me chamava de amor, a querida:
Cometi sete erros,
Soltei alguns berros
E assim ficou sem graça a minha vida.

ijs
__

Havia uma mãe: e era a minha: Liana
Que voltou de viagem nesta semana:
Conheceu Jerusalém
Porém lá não disse amém
Qual legítima curitibana.

ijs
__

terça-feira, maio 23, 2017

Mais um buquê com dez limeriques que até que dão pro gasto, não?

*
Havia um poeta funesto
Que além de tristonho era mesto;
Viveu entre os tais
E entre os marginais
Foi tido como o mais honesto.
__

Havia um poeta inconteste
Que fez meio verso que preste;
Depois de estudar
Veio a se diplomar
Doutor em poesia rupestre.
__

Havia um poeta pedestre:
Achava-se um mestre entre os mestres;
Entrou para a história
Coberto de glória:
Cavalo em monumento equestre.
__

Havia uma deusa dos jogos
Chamada Caíssa, e seu lógos
Não dava repúdio
Pois era interlúdio
Da vida e de todos seus fogos.
__

Havia um moleque Ricardo
Que tinha estatura de bardo:
Não era vagal
E seu nome - Chacal -
Ecoa em jograu goliardo.
__

Havia uma música míope
Mais bela do que Calíope:
Tocava sem pauta
Violão, banjo e flauta
Na banda dum médico etíope.
__

Havia um poeta medíocre
Que achava que a rima era tudo:
Porém neste caso
Não deu muito certo
E acaba sem rima o poema.
__

Havia um humano sujeito
Que achava esse mundo imperfeito:
Bolou muitos planos
E após muitos anos
Morreu: e só assim teve jeito.
__

Havia um velhinho careta:
fazia poesia concreta;
mas era bem quisto
bem mais do que o quisto
sebáceo do velho poeta.
__

Havia um versinho maroto
Com rimas achadas no esgoto:
Chorava sorrindo,
Sorria chorando,
Assoviando "Bichos Escrotos"!
__

Havia uma garota exótica
Que tinha visão hipnótica:
Sofreu um processo
Que trouxe o sucesso
Perdoada mesmo sendo erótica...

...

Um poema em duas partes

*
Por onde anda o poeta?
Pela água. Pela espuma.
Por becos de buracos negros.
Pelas estrelas vermelhas.
Por onde anda o poeta?
Pela matéria escura. Pela
via jamais trilhada, pela
estrada nunca pisada,
pela área ainda incompleta.
Por onde anda o poeta?
Pelas calhas de roda
desse comboio de corda
que se chama você sabe como:
é por onde o vento fez a curva
e a água clara ficou turva,
não bebida pela onça.
Por onde anda o poeta?
Por sua própria geringonça
de insuspeita canaleta:
pensando que era privada
aquela cabina estreita
na porta escrito: não se meta.
Por onde anda o poeta?
Não é por este planeta.

__

POR ONDE ANDA O POETA II: O DESGASTE

Por onde anda o poeta?
Por aqui mesmo, nesta sarjeta.
Na latrina mais nojenta,
comendo a carnificina
como se fosse caviar:
azar do poeta, sem mistifórios:
frequentamos os mesmos lavatórios,
ouvimos os mesmos discursos laudatórios,
fomos expulsos juntos dos melhores escritórios,
e estamos a sós aqui neste mesmo inferno.

Por onde anda o poeta?
Na palma da mão da amada,
que, se quiser, estala os dedos
e esmaga seu pobre estafeta:
por ali rasteja este poeta,
tenteando alguma fresta, ou retreta:
ali, ali sim está caminhando o poeta
por onde sequer lhe deu na veneta:
pela alameda larga
que vai dar numa valeta.

Por ela então anda o poeta?
Não anda: só estraleja. Ajeita
a jaqueta da dentadura na boca
e gargareja: a vida errada
está certa
menos completa
que imperfeita.

ijs

sexta-feira, maio 19, 2017

ESSA SERENATA

*
Essa serenata eu faço pra você
que me lê aqui
mesmo sem eu saber;
nesta noite fria
(sem brinca: Curitiba é fria no outono)
fico aqui brincando de gnomo;

sim: estou aqui
fazendo essa serenata
pra você: que sabe que

talvez amanhã seja um jamais
mas que o para sempre
começa esta noite
com essa serenata.

ijs

segunda-feira, maio 08, 2017

UM BUQUÊ DE LIMERIQUES (AVISO: CONTÉM LINGUAGEM CHULA)

Tinha um velhinho aqui de Curitiba
Cuja pica ele enrolava por ser tão comprida;
Dizia em tom tenso
Lambendo o próprio beiço:
"Fosse buça esta boca estava fodida!"

ijs

(versão curitibana do clássico limerick
There once was a man from Nantucket
Whose prick was so long he could suck it;
He said with a grin
As he wiped off his chin:
"If my mouth were a cunt I could fuck it!")

...

Existe uma pessoa em Porto Alegre
Cuja responsabilidade me é entregue;
Mas essa minha filha
É mais que maravilha:
Se eu a deixar que o diabo me carregue.

ijs
(pra Rúbia Augusta)

...

Havia um cidadão morador do centro:
Vivia por fora mas se achava por dentro;
Perguntou na prefeitura
(Onde ingressou de pica dura):
"E aqui nessa suruba onde é que eu entro?"

ijs

...

Havia um cidadão de Ponta Grossa
Que passava a vida toda numa fossa;
Ele foi a Campo Largo
E lá tomou um mate amargo
Mas na volta ele tomou foi uma coça...

ijs

...

Agora li a poeta Priscila Merizzio
E decidi que antes de ter uns chiliques
Esta noite eu controlaria
Essa súbita mania
De ficar versificando em limeriques...

ijs

...

Tinha um poeta chamado Marcos Prado
Mais raro que Pégaso, o cavalo alado;
Cavalo vestido
Era seu apelido,
E será mais clássico que Machado.

ijs

...

Tinha um polaco lá no Pilarzinho:
Chutava poste, fazia verso, bebia vinho;
Com sua poesia
Até pedra sorria
No início, no meio e no fim do caminho.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Paranaguá
Que achava que São Paulo era no Paraná;
Ele morreu feliz
Sempre sendo o que quis
Sem saber se São Paulo estava lá.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Cianorte
Que achava que a vida era a morte;
Um dia o diabo
Pisou no seu rabo
E ao velhinho isso deu muita sorte.

ijs

...

Tinha um velhinho lá de Apiaí
Que achava que cá era aqui;
Ele disse vem cá
A uma velha acolá,
Mas pra ela cá não era ali.

ijs

segunda-feira, maio 01, 2017

O POETA QUE PERDEU A GRAÇA

*
Era uma vez um bardo escandaloso,
afeito a arroubos de expressividade:
por vezes mais palhaço do que o Bozo,
por vezes sem qualquer necessidade.

Aos trinta e um tal poeta tão pateta
criou seu blog, o qual salvou sua vida,
tornando o também tradutor e exegeta
um alvo e uma figura conhecida.

Aos trinta e nove o nosso herói do verso
conheceu sua musa --- graça a maior:
mas antes que completo o multiverso
visse o giro de cinco anos desse amor

catástrofes se abateram sobre este
que agora por onde quer que passa
carrega a sombra triste e agreste
do poeta que perdeu a graça.


IJS (Curitiba, 01/05/2017)

quarta-feira, abril 19, 2017

NUM ANIVERSÁRIO DA MORTE DE LORD BYRON

*
__Hoje vou ensinar como é a estrofe
__Que um lorde inglês usou num certo poema
__No qual versou de si tal qual mau bofe
__Que faz da própria vida o velho tema
__Fingindo que o fazer não tem problema:
__A estrofe chama-se “spenseriana”,
__E as rimas se intercalam neste esquema,
__Em nove versos feito este sacana
Aqui compõe e assina: Ivan Justen Santana.

ijs

terça-feira, abril 04, 2017

Elegia 2017

*
Caí em desgraça
co´a musa mais bela
e agora sem raça
meu potro se atrela.
Meu sonho sacode
do bolso de poemas:
não saco uma ode
sem estratagemas
e estratos de gemas:

componho umas flores
nos versos das dores.

ijs
__

quarta-feira, março 22, 2017

VOCÊ (NO DIA DO SEU ANIVERSÁRIO)

*
Você
queria ser
Mallarmé:
mala
você
já é.

Você
queria ser
um Rimbaud
mas nem
o fogo
você
roubou.

Você
queria ser
um sacana
dum artista
mas se
cansou até
de fazer
essa
lista.


ijs

terça-feira, março 21, 2017

SEM CONSEGUIR AINDA DORMIR

*
Sem conseguir ainda dormir, e lembrando
que este blog ainda existe e anda vivo se movendo,
e eu estou caindo e recaindo no que antes esnobei,
pensei que quase dá no mesmo mas nem tanto,
e que escrever em versos
à vontade no teclado de um computador de colo
é outro jogo de futebol, ou melhor:
é o velho jogo novo e mais estiloso,
ou mesmo apenas papo furado
mesclado
com pretensa alta poesia.

Mas
se eu ainda me presto
e acho que presto
a isto e nisto
então
não
importa
tanto o meio, e a mídia:
(será?)

li agora pouco um artigo
que fez uma crítica redutora
sobre o poder
ou pior
a falta de relevância
do trocadilho
por si só:
ou da paronomásia
(o efeito de semelhança
diferença de palavras e nomes),
e me chamou a atenção
a intenção de dar relevo
maior aos conteúdos --- melhor reformular:
talvez o interessante seria/seja conseguir
aliar sonoridade e sentido e desenho animado
e humor e prazer e borrachada na cara
spray de pimenta nos olhos das outras
pessoas que também aparecem no jornal majoritário...

Enfim: além de tudo isso
também acho que valem
a construção, a métrica, a técnica,
o uso correto da escansão e das cesuras
eventuais ou súbitos encavalamentos de
versos.

Como queiram que os façam,
conseguindo ou não criar suposta música
mesmo que às vezes silenciosa de si mesma
e que acompanhe as imagens
as quais sejam farejadas
cheiradas
sentidas
como puras
uvas
maduras
ou
até
como
aquelas
"ameixas:
ame-as
ou deixe-as."*

ijs

* Paulo Leminski Filho

P.S. É a abreviatura de Post Scriptum, do latim para "escrito depois", do tempo em que se escrevia com pena e tinteiro (com tinta, evidentemente), mergulhando a ponta da pena no tinteiro e a seguir desenhando as letras no papel, e foi assim durante pelo menos mil e centenas e dezenas de anos até ser criada a tipografia móvel, enfim --
não existe mais a necessidade de usar um P.S. porque você pode editar o que escreve, sempre.
Mas resolvi usar um P.S. e me perdoem o estilo rebarbativo: eu só queria esclarecer que nem sempre o uso puro de rimas é suficiente para dizer que é poesia
só que não
só que sim
soque-se quem puder.

Ah, sim: tem que ter o link do artigo, senão não fecha o dialogismo: (editado)
fui buscar e achei mais esse -> http://www.curvilingua.com.br/ave-trocadilho/


quinta-feira, março 02, 2017

Este soneto vai para Wagner Schadeck, Caio Tardelli, Rodolfo Jaruga, e Thadeu Wojciechowski

*
Eu sei que mais ninguém dá trela a versos
e que a leitura é coisa descolada
da realidade de quem sabe um nada
e opina em tantos temas controversos.
E sei também o quanto são perversos
os poucos que controlam a mão armada
da mídia a tratar todos qual manada
enquanto os temas sãos ficam submersos.
Mas sei também dessas aspirações
estranhas que cantou um poeta alerta
às músicas e às cores dos seus sons
e às notas dum perfume que desperta
a gargalhada oculta no sorriso
interno que empetala o chão que piso.

ijs
*

domingo, fevereiro 26, 2017

Hoje troquei a imagem-cabeçalho deste blogue...

E aqui vai um poema meu que o Roberto Prado postou na rede social que cada vez mais tem virado sinônimo de internet aos desavisados sempre de plantão.


hoje vou tirar a alma da lama
falar baixo a quem me odeia
e calar fundo em quem me ama

IJS

domingo, fevereiro 19, 2017

Dois poemas que merecem transcrição...

Conforme alguns dos leitores desse blog sabem, e outros possivelmente nem soubessem se eu não comentasse aqui, um grande amigo meu e da minha turma de poetas parceiros de composições musicais e outras nem tanto, aqui em Curitiba, morreu na semana passada.

Edilson Del Grossi é talvez o mais marginal de nós marginais, e nunca chegou a publicar um livro-solo de poemas. Ele costumava compor em parceria, especialmente com o Antonio Thadeu Wojciechowski, o Sérgio Viralobos, o Chico "Capetão" Cardoso, o Edson de Vulcanis, entre outros meliantes que ainda não perderam seu latim.

Então aqui estão dois poemas excepcionalmente compostos a apenas duas mãos pelo Edilson, e que merecem entrar em qualquer antologia da poesia curitibana, paranaense, brasileira e intergalática (completa ou incompleta:)


POETA LAVANDO ROUPA

O tanque e o poeta
saíram pra conversar.
Um falando de guerra,
o outro falido de amar.

Quando as explosões começaram
o poeta fingiu de morto.
O tanque, muito vivo,
pensava só em seu corpo.

Um indiferente:
tanto faz morrer ou matar.
O outro segue em frente:
o mundo é pra passear.

Edilson Del Grossi
__

DEZ MIL ANOS EM BUSCA DO AMOR

Dez mil anos anos em busca do amor
que nos redimisse.
O poeta, mais que todos,
vem sofrendo dessa tolice.

Como é esquisito
ver um homem bonito,
forte, inteligente,
consumir-se nessa patetice!?

Como se no país das maravilhas
só existisse ele,
e não Alice.

Edilson Del Grossi
__


terça-feira, fevereiro 14, 2017

Presente do Dia de São Valentino

pra Faena Figueiredo Rossilho:

MONSTRUOSA BELEZA QUE NUNCA MORREU: TENS LUGAR À MESA ANTERIOR AO MEU

Quero amar apenas
desse amor completo
que mesmo nas curvas
vai direto e reto:
pois sou gente humana
com medo e receio
e este poema emana
seu fim pelo meio.
Tanto sentimento
sempre expresso a ela:
minha amada e templo
onde acendo a vela;
minha companheira,
minha companhia,
minha vida inteira
em meio à poesia;
minha celebrada,
festejada minha:
vinha a qualquer nada
e fez toda a linha;
minha Faeninha,
minha linda amada:
pena da almofada
da fada madrinha;
este poeminha
você já esperava
qual graça marinha
do seu rio de lava
que aqui encaminha
só mais um versinho
e um fogo no incenso
e um fumo mais denso
e vamos ao vinho.

ijs
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quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Não é sempre que o pai da sua namorada faz sessenta anos de idade...

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SESSENTA
(Ao Cesar Rossilho)

A vida está completa
Do ser humano em chama
Que mesmo sem resposta
Completa os seus sessenta

Com tudo que ele acerta
E tudo que ele ama
E tudo que ele gosta
E tudo que ele aguenta.


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