terça-feira, outubro 06, 2009

AO LONGO DA TORRE DE CONTROLE

– Tem que ter uma saída de emergência –
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.

– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.

Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam

E o vento inventava de uivar.


Versão brasileira feita por este que vos escreve - quem comentar respondendo de quem é o "texto original" e acertar, ganhará três links de presente...

11 comentários:

Anônimo disse...

Pô, estes versos do --- ----- é demais!
Quero os presentes.

Beijos
G.

Ivan disse...

Não te dou os presentes, porque além de deslizar na concordância verbal (os versos são demais, se é que são mesmo...) você já sabia a resposta, então não valeu. (tóinhóinhóin... :P)

Anônimo disse...

oooops!

juro q já si esqueci.
G.

gibasantos2001 disse...

Caro Ivan:

Sabe o que me dá mais raiva de Curitiba?
Imagino que não, eu sei que pela tua cabeça e pela do Thadeu só passam coisas boas: amigos, cervejas, cantorias e uma eterna celebração da vida.
Vocês não são gente deste mundo. Nós, seres humanos, não merecemos tanto. O que me irrita, é saber que um cara como o Thadeu, compositor de talento (vide prêmios: Itaú Cultural, por exemplo); um poeta de mão cheia, um tradutor dos mais criativos e irreverentes ( vide homenagens). Quem mais em Curitiba recebeu uma homenagem maior: uma rara placa em ouro e prata da região onde nasceu Dante Alighieri, pela tradução do Inferno, da Divina Comédia, junto com seus parceiros Marcos Prado e Sérgio Viralobos? Quem mais pode falar de cabeça erguida que traduziu sem nada perder (até acrescentando alguma graça) à Mallarmé, John Donne, Rimbaud, Poe, Issa, etc etc etc? Quem mais em Curitiba poderia escrever com tanto humor e ritmo uma intrincadíssima novela do calibre da “O Dia Que Matei O Wilson Martins”, ou da engraçadíssima e belíssima história de amor “Os Bêbados Amam Demais”?
E o que dizer do elétrico romance “Assim Até Eu”? E desse monstruosamente hilário “Koan do Como Onde”? São tantas as obras que diariamente tomo contato em blogs ou de outras fontes que fico pensando com meus botões: como é que pode um cara desses não ser amado em sua cidade? Como é que pode uma cidade como Curitiba colocar em segundo (segundo?) plano
uma obra tão vasta, tão rica e tão provida de eternidade?
Eu já falei mil vezes, se manda, Thadeu pra São Paulo ou Rio e dá um pontapé nesses caipiras. Vai cuidar da tua vida, enquanto é tempo. Em Curitiba,Ivan, o máximo que pode acontecer, é o nome virar uma pracinha entulhada de lixo lá num bairro inexpressivo qualquer, porque até a Barreirinha eles vão tentar tirar do Thadeu. Escrevo pra você, Ivan, porque vi que você foi único que postou um comentário decente na Gazeta do Povo. E só por isso já me deu vontade de ser seu amigo.

Um abraço


Gilberto Carvalho dos Santos
gibasantos2001@yahoo.com.br

Ivan disse...

Gilberto:

o negócio é não se grilar se um jornalista em posição de poder (leia-se o Sr. Márcio Renato dos Santos) resolve descontar suas frustrações de semiartista fazendo leituras redutoras e críticas vazias, atiradas sem pontaria. Pelo menos ele publicou alguns comentários (nem todos, porque quando botei o reizinho nu, apontando suas falhas de redação, ele recusou) -

e o Thadeu concedeu-lhe a magnanimidade que os às vezes desavisados merecem.

Pulando para percepções mais ilustrativas e iluminadoras (a verdadeira atitude crítica), veja que não é "Curitiba" que não ama o Thadeu - a obra dele tem encontrado o respeito e o carinho a que faz jus, e no caso da literatura o reconhecimento verdadeiro pode chegar mais devagar, mas uma hora chega.

Confio (e vejo de fato) que cada vez mais a atitude geral daqui, de provincianismo e mesquinharia, vai se transformando em simpatia e reconhecimento aos valores locais, não apenas porque são locais, mas principalmente porque existem sim bons e altos valores.

Vamos manter a cabeça reta, a espinha ereta e o coração tranquilo, porque um dia é da minhoca, outro do grilo...

Do seu amigo e leitor camarada
(poeta e crítico, quando nada),

Ivan San

polacodabarreirinha disse...

Se todos fossem iguais a vocês
que maravilha seria viver...

Rodolfo disse...

Ivan,

de quem é o poema, então?

Olha, eu gostei, mas ou nossa dicção é bem diferente ou eu desdenharia do ritmo de alguns versos.

Por exemplo, o primeiro verso me chama muito a atenção, mas penso que já no segundo com um possível e recomendável 'pro' vc poderia dar mais continuidade ao ritmo... e não fugiria nem à lógica do poema (há um 'duma' mais abaixo) nem ao uso do poeta.

O poema, penso, está muito bonito na versão brasileira, mas além dessa questiúncula, não logro compreender o verso "ao longo da torre de controle": por que 'ao longo'?

Uma torre é sempre vertical!

O 'natural' não seria, portanto, dizer 'do alto'?

Bom, além disso, quando marcamos aquele xadrez com cervejas?

abç, r.

Ivan disse...

Rodolfo:

essa é uma versão de uma letra de canção (que considero também um belo poema) de Bob Dylan: All Along the Watchtower. Foi regravada por Jimi Hendrix, no que é reconhecida como a versão "definitiva".

Pelo comentário e leitura atenta, você ganha dois links de presente:

http://www.youtube.com/watch?v=14qTXRkAKr8

http://www.youtube.com/watch?v=BCwCBh0z3Hs

Quanto à primeira questiúncula, reconheço que um "pro" no segundo verso seria ritmicamente mais ágil, mas penso que vou manter o "para o", porque deixa o clima mais formal ali - aliás, seria até legal colocar Coringa e Ladrão com letra maiúscula, porque interpreto este poema como uma mistura de coloquialidade malandra com clima "clássico" e alegórico. Os dois personagens arquetípicos (que são, obviamente, os dois cavaleiros se aproximando no final), são rebeldes chegando pra bagunçar o coreto, ou antes, a torre, símbolo da ordem estabelecida.
"O Príncipe", por sinal, é uma referência à obra de Maquiavel, num verso que dizia originalmente "princes kept the view".
Penso que o porquê do "ao longo da torre" já tenha sido respondido, mas veja o texto original
(mais um link de presente:
http://www.bobdylan.com/#/songs/all-along-watchtower ) -
a ideia é que "ao longo de toda a torre", ou seja, na circunferência toda, "os príncipes mantinham-se alerta, vigiando, enquanto as mulheres iam e vinham, e também os servos de pés descalços".

Numa interpretação meio simplória, o poema mostra que a associação entre o "artista" (o coringa) e o "marginal" (o ladrão) é uma ameaça que ronda toda civilização organizada de forma controladora e repressora.

Quanto ao xadrez com cervejas, vamos praticá-lo novamente sim, logo mais...

Rodolfo disse...

All along the watchtower!

Mr. Robert Zimmerman, só podia ser...

Veja, pela temática e construção lógica, já havia suposto (detive que sou) que o texto original seria em língua inglesa. Traduzi ao inglês alguns dos versos da tua versão e não pude encontrar o original (via google) por duas razões: não traduzi 'torre de controle' por 'watchtower' nem 'ao longo' por 'all along'.

Eu tinha chegado muito longe: Along the control tower!

E talvez pra tentar maquiar o meu fracasso como detetive, devo fazer três observações à tua bela tradução:

1. ‘Torre de controle’ lembra menos uma torre no interior de um castelo, ou em sua borda (lugar de onde se vê com segurança), que aquelas torres medievais postadas à margem de estradas, onde os comerciantes deviam pagar impostos pela passagem. Além de ser o nome moderno das centrais de controle do tráfego aéreo em aeroportos...

Não é melhor traduzir ‘watchtower’ por torre de vigia?

2. All along: em meu inglês (que modestamente aprendi com Ernest Hemingway e Ezra Pound), é uma locução adverbial que quer dizer "o tempo todo", "desde o começo". Para ser 'ao longo', no original deveríamos ler 'along'.
Não é melhor, portanto, traduzir ‘all along the watchtower’ por ‘desde o princípio lá da torre de vigia’?

3. Embora haja gostado da tua tradução (‘peões’ ficou ótimo, e as inovações ‘pedra no caminho’ e ‘distância gelada’ também,) creio que todos os versos perseguem, erroneamente, a idéia de fundo de que: “os dois personagens arquetípicos (que são, obviamente, os dois cavaleiros se aproximando no final), são rebeldes chegando pra bagunçar o coreto, ou antes, a torre, símbolo da ordem estabelecida”.

Eu – humildemente – não posso concordar com essa interpretação, que dominou a tua tradução e criou, sem querer querendo, um belo texto em português. Acho, antes, que se trata da conversa entre personagens que estão para morrer – ladrão e bufão -, e o povo lá fora, inclusive a princesa no alto da torre, estão aí para ver a execução. Os dois homens que se aproximam no fim são os algozes. Creio que tem fundamento a minha leitura:

O primeiro verso - there must be some way out of here, said the joker to the thief – é claramente a fala de um prisioneiro: deve haver um jeito de escapar! Seguem-se a esse verso falas típicas de um coringa, que pode fazer troça num momento crucial.

Mais adiante escutamos - but you and I, we've been through that, and this is not our fate – e isso corrobora a minha tese: o ladrão diz ao bufão ‘a gente já passou por isso, e esse não é nosso destino’. E o ladrão – que começa fazendo piada, tirando sarro do bufão – termina dizendo que parem de ‘dizer falas falsas’ (talk falsely), porque a hora está chegando - the hour is getting late. Ou seja, o tempo tá ficando curto e não dá pra ficar fazendo piada!

O enigma da trama está concentrado no pronome ‘this’ (do verso ‘this is no our fate). Esse 'this' refere-se à morte por execução em decorrência de um crime, que é o velado tema da canção de Dylan.

Além disso, é possível pensar também que, pelo insólito da conversa (falsely talk), possa se tratar do diálogo interior de um só homem prestes a morrer: inicialmente ele faz piada com a própria desgraça, depois se dá conta que já escapou de morrer algumas vezes e agora que a hora está chegando, que será executado, é melhor começar a falar (levar-se a) sério.

Talvez, se minha leitura estiver correta, os dois supostos primeiros deslizes teus sejam conseqüência desta tua interpretação singular, tão oposta à minha.

De qualquer forma – você o sabe – estes (dilatados) comentários meus só existem porque teu texto é inteligente e causa delícia.

Además, que te parece un ajedrecito el sábado que viene?

abç, r.

Ivan disse...

Rodolfo:

antes de mais nada, agradeço novamente sua leitura atenta e seus elogios. Vamos por itens.

1. Prefiro "torre de controle". O verso seguinte já usa o verbo vigiar, e "torre de vigia" não me soa tão bem - este verso ressoa com a vogal "o", de modo semelhante ao que o original faz com a vogal "a".

2. Ou muito me engano, ou a expressão "all along" serve tanto para tempo quanto para espaço - assim, uma tradução literal poderia ser "em toda a extensão da torre de controle" - mas o verso "ao longo de toda a torre de controle" é problemático, porque fica meio ambíguo e esquisito.

3. "distância gelada" vem da versão que Hendrix estabeleceu - ele cantava: "outside in the cold distance" - (a quebra em versos mais curtos também deve-se ao modo como Hendrix separava os versos).

Tenho que discordar da tua interpretação de que os dois cavaleiros se aproximando no fim seriam os supostos algozes de prisioneiros condenados à morte.

Também discordo de que o diálogo seja claramente o de um ou dois prisioneiros - essa é apenas uma das leituras possíveis. O texto é vago o suficiente pra comportar inúmeras leituras - eu leio a fala do Joker se estendendo na primeira estrofe toda (e ele se considera dono da terra e do vinho).

Só na segunda estrofe o ladrão responde - dizendo que está ficando tarde, o que interpreto como uma chamada para a ação.

De qualquer modo, não acho a tua leitura melhor nem pior que a minha, e nem cogito que haja uma leitura correta: a graça do poema é que cada leitor tem a liberdade de construir seu próprio enredo, porque o texto mais sugere que define - por sinal, a "definição" de poesia, segundo Bob Dylan (conforme Leminski recolheu em LIMITES AO LÉU) é "Poetry is to inspire"...

Quanto aos escaques, mando uma mensagem pra você marcando nossos próximos duelos ao sol...

tecatatau disse...

você anda lendo drummond ou está parado lendo drummond, ultimamente?
abração. IIIVVVAAANNNnnn...