terça-feira, agosto 11, 2009

CEMITÉRIO AÉREO

O olho que escorreu da minha testa
(é favor escandir o hiato: o – olho)
com gesto de quem morre e não protesta
sim sim este olho que desfez-se em molho
foi o rio rubro mais feliz de mim,
melhor que sensação de não-mereço,
maior que a rima alargada no fim,
mais sim que frase de amor no começo.

Foi com tal olho que perdi o contato
duma verdade a qual não foi tão tarde:
aquela mais-verdade do retrato
do artista quando jovem cão covarde
que não viaja numa noite fria
depois do cerco de quarenta invernos,
mas que requenta sim a poesia
e sim repete-a aos quintos dos infernos.

Naquela não-pupila eu fui desejo
de amordaçar a primeira pessoa
e fundir tudo em tudo – ser que almejo
quando o gongo do último assalto soa
por fora da ilusão do tempo-espaço
e o mundo bolha explode sem registro
sem som sem tom sem cor sem descompasso
num assombroso silêncio sinistro.

Junto com o olho foi qualquer suspeita
de que eu cifrasse em versos simples isto
numa levada em que tudo se ajeita
e não sobra a má impressão que despisto.

Assim, exausto de usar tantos ques
os quais nem deixam um quê de mistério,
desovo outro corpo morto a vocês,
meus caros hóspedes dum cemitério aéreo.

16 comentários:

Panda disse...

Ivan, sou sua fã.

Ivan disse...

Panda: a recíproca é mais que verdadeira - fico sempre animado ao ler vossas peripécias na Charlótia (and give also my commendations to Brunior...) -

e se você e todos os "meus caros hóspedes", enfim, quiserem ver mesmo o que é um poema:

http://homepages.wmich.edu/~cooneys/poems/fr/valery.daylewis.html

e isso aqui vai ajudar:

http://anemaecore.blogspot.com/2007/09/o-cemitrio-marinho-paul-valry.html

Anônimo disse...

o olho aéreo é aleatório?

=P


n.

Ivan disse...

Nada é aleatório...

Que olho?

=P

Anônimo disse...

o que olha o cemitério aério, oras!

n.

Anônimo disse...

eu falei aério?

cruzes!

perdão, Ivan

n.

Ivan disse...

Na verdade, eu sempre pensei no olhar como uma coisa aérea, sabe?

As mãos são meio que asas e os olhos seriam naves espaciais que a gente tem grudadas na cabeça...

Mas falando sério mesmo, achei essa imagem (uma vista aérea de um cemitério em Portugal - parece que é no Monte Frio, pode googlar...)
usando "cemitério aéreo" na busca por imagens do google.

Ecco lo occhio!

Anônimo disse...

e já que vc está falando sério, tem um ensaio do Merleau Ponty (traduzido pro português em portugal) que se chama "O olho e o espírito" - vale ver.



n.

Panda disse...

Ivã, protesto! Seus decassílabos são aleatórios! Hora sáficos, ora heróicos, hora nem um nem outro. Fora isso não manjo muito de poesia e sinceramente achei a sua mais bonita (não sei se porque vc sendo tão próximo, da minha geração).

A imagem do olho escorrendo na testa é demais, pois um olho escorrer pela testa é contra a lei da gravidade, a não ser que você esteja de cabeça para baixo, olhando o cemitério de cima, uma possibilidade genial, eu diria.

Mas
"Naquela não-pupila eu fui desejo
de amordaçar a primeira pessoa
e fundir tudo em tudo – ser que almejo
quando o gongo do último assalto soa
por fora da ilusão do tempo-espaço
e o mundo bolha explode sem registro
sem som sem tom sem cor sem descompasso
num assombroso silêncio sinistro.

Pura sinestesia... fundiu tudo em nada. Muito bom, muito bom mesmo, parabéns!

Ivan disse...

Protesto indeferido, Alexãdra!

Inobstantes as afirmações de teorreicos dogmáticos, do tipo "decassílabo só existe se for heroico (acento principal na sexta sílaba) ou sáfico (acentos na quarta e oitava), senão não é um decassílabo, mas apenas um verso de dez sílabas" - eu repilo tais rigidezes cadavéricas e também refuto veementemente vossa afirmação de aleatoriedade, ó, Alexãdra!

Quem quer que se disponha a conferir in loco os grandes poetas da língua portuguesa - os versificadores do quilate de um Camões, um Gregório de Matos, um Gonzaga, um Castro Alves, um Cruz e Sousa, um Augusto dos Anjos (ou até mesmo um Bilac!) comprovará que a malemolência, as síncopes, a ginga são componentes irrefragáveis no repertório técnico do artista - isso também ocorre (você sabe melhor que ninguém, Xãda) na música, nas artes plásticas, etc.

E pra provar que meus decassílabos não tem nada de aleatórios, mas foram cuidadosamente descalculados pra exercitar um ritmo mais que regular, proponho ousadamente que os meus canhestros decassílabos "vira-latas", acentuados na segunda, terceira, quinta e sétima sílabas, quebrando tudo
(e não sobra a má impressão que despisto)
(desovo outro corpo morto a vocês),
sejam doravante conhecidos como decassílabos ivânicos, próprios ao pré-arremate de poemas lapidares, no mesmo estilo de um corte seco no zagueiro antes do petardo final!

Ivan disse...

Ah, mais uma coisa:

gratíssimo pelos elogios - é muita honra e me embevece sobremaneira...

Panda disse...

Caríssimo Ivã, venho mui respeitosamente recorrer de vosso indeferimento pois que os decassílabos de teu poema, não sendo aleatórios, mas sim ivânicos, como tu mesmo apontaste, já não se aplicam nos primeiros versos de teu magnífico Cemitério Aéreo. No entando gostaria de esclarecer que não me prendo a tais formalismos poéticos, nem tampouco assumo qualquer aversão a eles, visto que à arte podem convergir caminhos vários, de acordo com as preferências e liberdades de cada artista. Um beijo da Pãda.

Anônimo disse...

quem decassilaba bem mesmo é o jaruga, esse sim..

g.

Ivan disse...

Idololizada Xãda: acuso recebimento do vosso recurso recorrente, sem maiores obtemperâncias -
vamos deixar aos exaustivos escandidores os misteres de catalogar e classificar metros e ritmos, e aclarar as demais questiúnculas protogramaticais e antipodidáticas...
A nós, que venham os escanções e as escançãs, a cantar canções com seus jarros de hidromel e vinhos rubrivioláceos, e brindemos à dedirrósea e rododáctila aurora das futuras artes!

A mera visão bacanalial já me inspira a impromptuar ao vago comentarista que assina com o singelo grafema g.:

Decassilabai, decassilabentes,
dodecassilabai, silabentes!
Decibelicilmente farfalhai...

Bilabiábeis oclusivistas,
fricativolúveis garguturais retroflexíveis,
em ictos, pictos et poietéses,
prostáticas lipoprotéticas hipognominioses,
firulirai!

Decassilabai, decassilabentes,
dodecassilabai, silabentes!
Docibelicilmente farfalhai...

Panda disse...

Brindemos!

Jéssica V. Amâncio disse...

você escreve de um modo diferente.. interessante ler. =)