terça-feira, dezembro 14, 2010

PRA NÃO DIZEREM QUE NUNCA TENTEI MATAR MEUS PAIS

Tá bom, eu admito. Eu já tentei matar o Paulo Leminski. Só que ele já tinha morrido antes disso. Mas quando eu li Distraídos Venceremos, em fins de 1990, pro meu primeiro vestibular, se o Leminski ainda estivesse vivo e eu trombasse com ele na Quinze, possivelmente eu cometeria, no máximo do mínimo, umas duas ou três tentativas de homicídio.

A propósito, nunca foi e nem será preciso matar o Dalton Trevisan. Além de ele não ser exatamente um poeta, já é um morto-vivo, um nosferatu. Mas pra alegria dessa gente que adora ver sangue, confesso: se Dalton estivesse vivo de verdade, ontem eu talvez o matasse ou, no mínimo do máximo, tentasse executá-lo, ouvindo um som no talo.

Helena Kolody transcende tais questões, já que ninguéns aqui a não ser poetas e poetisas sabem que ela não morreu, nem nunca morrerá. Mas às gentes carniceiras que porventura saibam quem é Helena, por mais improvável que seja ou haja tal combinação de gente, licenciaria que me vissem dilacerando-a, verso por verso jazendo esquartejado num papel branquíssimo de tão transparente.

Já o Marcos Prado eu tive várias chances de matar. Acaba de acabar aqui minha última chance, já que mencionei novamente o nome dele.

E Thadeu Wojciechowski bem que poderia ser minha próxima vítima, porém nunca será, pois não matarei ninguém antes dele, que nunca será tampouco o último da lista. Além disso, apesar de ser um coxa-branca, Thadeu é meu amigo, e assassinato é o tipo do favor que não presta fazer nem ao pior nem ao melhor dos nossos amigos.

Voltemos a falar do Leminski, epítome de todos os que alguns adorariam que eu quisesse matar. Imagino, por exemplo, o que Leminski pensaria de Bocágil, pseudônimo da (ou das) criatura(s) que me mataram (ou quiseram me matar: dá quase na mesma, não é, gentarada?). Talvez o polaco me parabenizasse, nessa ocasião, por eu então ter me tornado um I-Juca-Pirama, ou seja: "aquele que é digno de ser morto".

Leminski certamente agradeceria também ao Rodrigo Madeira, pelo poema em que este confessa ter assassinado aquele: simbolicamente, não há honra maior que matar o maior poeta da geração anterior. Ou há?

Em verdade mentirosa (ou em mentira verdadeira), eu vos digo que há. E digo, outrossim, que eu me considero digno de tais honrarias ainda maiores. Porque se agora eu quero que não digam que nunca tentei matar meus pais, também gostaria que percebessem que não vou matá-los.

Sim: não matarei Emiliano Perneta. Nem Dario Vellozo. Nem Tasso da Silveira. Nem Jamil Snege. Nem Wilson Bueno. Nem os(as) que não li ou que esqueci (por meu desacerto).

Sim: tampouco matarei os vivos e as vivas. Alice Ruiz, durma tranquila. Estrela, idem. Fernando Koproski, Alexandre França, Amarildo Anzolin, Mario Domingues, Jaques Brand, Adriano Smaniotto, Batista de Pilar, Marcelo Sandmann, Luiz Felipe Leprevost, Marilia Kubota, William Teca, Luci Collin, Ricardo Pozzo, Bárbara Lia, Rodolfo Jaruga, Monica Berger, Edson Falcão, Paulo Bearzotti, os Ricardos (o Carvalho e o Corona), os Rodrigos (o já citado Madeira e o Garcia Lopes), enfim, todos vocês que sabem que são poetas, mesmo os mais novinhos e ingênuos (como não é bem o caso do Rafael Walter, e nem era o do Cláudio Bettega), mesmo as aparentemente mais "naïves", como as Lucianas (a Cañete e a do Rocio Mallon), todos e todas que ao não mencionar aqui machucarei (ou não): no que depender de mim, vocês podem descansar em paz, vivos e vivas!

Pois no fundo é muita estupidez precisar matar (ou tão somente anular) qualquer poeta, vivo ou morto, fraco, forte, vitaminado ou meia-boca. E no fundo mesmo, as coisas não são assim. Angústias da influência pertencem aos mais específica e autocondenadamente críticos. E até o Fernando Pessoa acabou se transformando num bando de idiotas da subjetividade, que preferiram não casar e não viver, pra poderem ensaiar e escrever obras imortais.

Contudo, como bem viu e melhor poetou Leminski, é mais tesão viver bem e "quase-feliz" do que querer tentar (ou até ser) Homero, Dante, Shakespeare, quer sendo uma pobre Dickinson abilolada em casa, uma Plath devastada pedindo água morna, ou um Baudelaire sifilítico tentando loucamente dar um beijo nos anjos rebelados.

Já Vladímir Maiakóvski poetou imorredouramente, e foi suicidado (sua última frase: "não atirem, camaradas!"). E, gigante dos gigantes, James Joyce padeceu vítima de glaucomas, hérnias perfuradas, desastres de família, duas guerras mundiais e um dia treze azarado.

Enfim, por tudo isso, eu posso até morrer, mas não matarei, e nem sequer matar-me-ei. Por mais que esperem que eu supere a geração anterior por meio da força bruta e (ou) da desconstrução e (ou) da desleitura e (ou) do ciúme atemporal tornado complexo de castração, e apesar de admitir que já tentei esses caminhos e fracassei, a partir de aqui e agora tudo que declaro e declararei resumir-se-á simplesmente (conforme tenho agido, para horror dos "incompreendedores" a supor a vida menos importante que a poesia), retomando: resumir-se-á numa palavrinha genial de tão desarmadora:

sim.
*


Sim, sou eu, aos 4 ou 5...

8 comentários:

Anônimo disse...

ivan,
dois sins para "si"...

1.

DIGO SIM

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos do meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
– em meio à violência e a solidão dizendo
sim –
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
– digo sim

Ferreira Gullar

Anônimo disse...

2.

"yes".

palavra minúscula escrita no forro, no "céu de gesso", de uma instalação de yoko ono.
john, que vinha de conhecer a artista, subiu uma escada de "handyman" e, com uma lupa que pendia de um fio de nylon, leu aquilo que cantava há anos já sem nehuma fé: sim.*

* foi então que começou o tal "I love her, yeah, yeah, yeah/I love her, yeah, yeah, yeah".
alguns renomados críticos da vida e obra de lennon (philip norman, por exemplo) afiançam que neste lance do destino ficava evidente a canoa furada em que john embarcaria. explico: segundo eles, "sim" às avessas é "mis", prefixo da língua inglesa que significa algo como "mal" ou "equivocado" - misunderstanding, mistake...
se não fosse profundamente míope, argumentam os autores, lennon sacaria a sacanagem e fugiria na mesma hora dos encantos daquela circe nipônica, daquela condessa elizabeth bathory de tóquio.
escusa dizer, no entanto, que esta glosa é totalmente improcedente, fruto exclusivo da perseguição e da maledicência; no mínimo, misreading.
afinal, nem john nem yoko (e mesmo as bruxas não costumam rogar pragas em nossa língua) sabiam falar uma única palavra em português.

abraço,
r.m.

ps - concordo com vc. dalton é um nosferatu, um morto-vivo. logo, "imatável" e "imorrível".

Anônimo disse...

ah, sim, mas e o leminski???

o leminski é outro eterno - condenado a viver e morrer eternamente, viver e morrer eternamente...
ele que esbanjou tanta vida na obra e na vida (e esbanja tanta vida na morte).

o homem mesmo dizia: p.l. é um cachorro louco que merece ser morto a pau e pedra.
não adianta atirar pedras e paus PARA ele - como nos ensinou, ele nunca vai buscar...

tenho certeza de que, daqui a 500 anos, outros poetas como a gente continuarão, agradecidos (isso sem falar nas pulgas de cachorro louco), a atirar nele paus e pedras como ato de profundo respeito e devoção.

r.m.

antónio disse...

ivan,
adiantei cinco minutos o intervalo para concordar, em especial com o final, a partir das idiotias do Fernando Pessoa, ao escolher a obra e a imortalidade e viver zumbindo.

+ malocas disse...

Ao não me citar neste belo texto, você acabou por me matar.

Sérgio Viralobos

Ivan disse...

Sérgio:

você, Roberto Prado, Marilda Confortin, Ademir Assunção, Mário Bortolotto, Jorge Barbosa, Maurício Arruda Mendonça, Karen Debértolis, Flávio Jacobsen, Ildefonso Mello, Hamilton Faria, Eduardo Hoffmann, Édson de Vulcanis, Jussara Salazar, Marcos Losnak, Nivaldo Lopes, Sabrina Lopes, Josely Vianna Baptista, Edilson Del Grossi, Ademir Demarchi, Francisco Cardoso são alguns dos poetas que ao não ter citado no texto eu não quis matar, tampouco machucar, nem que fosse só de raspão -

assim, sinta-se ressuscitado, Sérgio Viralobos!

Anônimo disse...

Vida longa, Ivan, com todo o porvir já, no agora. Abraços. Lepre.

Panda disse...

Sim, Ivan!!

Obrigada pelos parabéns!

Um oáááátimo natal e um ano novo cheio de saúde e felicidade pra toda a família!!!!

Panda Noel

ho ho ho