Recordo em primeiro lugar que o prolongamento da Virada, a Corrente Cultural, segue até o próximo sábado, e estarei no Cabaret Parangolé, no café de mesmo nome, nas noites de 10/11 (quinta-feira) e 12/11 (sábado), estreando meu recital poético Inédito & Blogado.
A Virada Cultural foi estapafúrdia: no sentido de "acachapante, irrefragável, colossal e supimpa".
Um mundo de eventos.
De início, participei diretamente (como poeta convidado) no Panelaço, em sua segunda edição. A primeira foi em homenagem a Ivo Rodrigues. Esta celebrou o poeta curitibano Marcos Prado (1961-1996), tendo as participações poéticas de Roberto Prado, Batista de Pilar, Thadeu Wojciechowski, Monica Berger, Edilson Del Grossi, e este seu criado blogueiro. Fiz também a "amestragem de cerimônias", apresentando além dos poetas as bandas (Os Elementos, Bardot em Coma, Crocodilla, Os Chuvas, A Sexta Geração da Família Palim, bem como Diego Medina).
Fiquei das 12h às 18h no teatro do SESC da Esquina. Os poetas tiveram por volta de 15 minutos para suas récitas. As bandas, 35 minutos. Eu poderia escrever um conto (ou até uma novela) sobre essa tarde. Foram apresentações de altíssima qualidade. Sendo eu suspeito para julgar, quero que se foda quem achar que estou sendo arrogante: na verdade, o único senão foi a presença de público, numericamente falando - mas qualitativamente a minoria que esteve por lá foi uma minoria esmagadora.
Depois, fui ao palco das Ruínas de São Francisco. A Banda Mais Bonita da Cidade estava lavando a alma dos compositores curitibanos. Munido de credencial, assisti a boa parte do show literalmente no backstage: a parte de trás do palco. Ali estavam Alexandre França, Luiz Felipe Leprevost e Troy Rossilho. Consagração deles, destacados pela adorável Uyara Torrente. Indescritível a emoção: aproximadamente dez mil pessoas vendo uma nova geração de artistas concentrados aqui em Curitiba sendo entronizados no panteão da cultura pop do momento.
A seguir, na companhia do grande poeta carioca Chacal, e daquele que eu qualifico "o Imperador da poesia curitibana": Adriano Smaniotto, subimos ao segundo andar da galeria de arte Um Lugar ao Sol, e participamos do RádioCaos ao vivo no palco das Ruínas, com as canções de Giovanni Caruso & o Escambau. Recitamos poemas a um grande público, mesmo tendo se dispersado a multidão que viu a Banda Mais Bonita.
Depois do show do Copacabana Club, novamente aconteceu o RádioCaos ao vivo, para um público ainda maior e mais participativo. O programa é produzido e apresentado pelo vocalista e aglutinador cultural Rodrigo Barros Homem Del Rey, junto com Samuel "Big Lips", que insere bases sonoras com grande sensibilidade para seu encaixe nos poemas. A segunda entrada do RádioCaos teve o impagável e genial compositor, músico e cantor curitibano Carlos Careqa, que dominou e pasmou o público. Nós três poetas (Chacal, Imperador Smaniotto e eu) acho que também não fizemos feio -- na verdade, ficou tudo registrado: quem viu, viu, quem não viu poderá conferir futuramente, se tiver sorte, os vídeos que a esposa e o filho de Samuel fizeram: momentos que agora estão na galeria de tesouros da minha memória. Sem abusar desse lugar comum. Assim foi, é e será.
Depois, a festa no Parangolé. Foi só a abertura do Cabaret, com o Klezmorim levando a audiência a êxtases de dança, palmas e gritos.
Hoje, show do grupo vocal Brasileirão, e Sá e Guarabyra. E o encerramento da Virada no Bicicletário. Um fim de semana real e mágico, absurdo e verdadeiro, simples e sublime.
* * *
Adiciono aqui três nomes de pessoas-chave para mim nesse fim de semana:
Getúlio Guerra
Rogéria Holtz
Edson de Vulcanis (torcemos pela sua recuperação, Aranha!)
e agradeço ao público, em especial a quem tem sorrido e se alegrado com os meus êxitos.
Saúdes!
* * *
domingo, novembro 06, 2011
quinta-feira, novembro 03, 2011
INSPIRADO EM PALADAS DE ALEXANDRIA
(E DEDICADO À GRANDE ALEXANDRA LEMOS ZAGONEL)
Eu falo da vida e também falo da morte.
Tenho dó da menina mas deixo chorar.
Ainda rimo porque a rima é um belo esporte.
Ainda escrevo assim sem hora nem lugar.
Se me aparece a morte e diz que vai pro norte,
Será que vai porque não há mais que matar
E elas, eles, vós, nós, ele, ela, você, eu
Estamos vivos mas a vida já morreu?
_____________________________________________
Eu falo da vida e também falo da morte.
Tenho dó da menina mas deixo chorar.
Ainda rimo porque a rima é um belo esporte.
Ainda escrevo assim sem hora nem lugar.
Se me aparece a morte e diz que vai pro norte,
Será que vai porque não há mais que matar
E elas, eles, vós, nós, ele, ela, você, eu
Estamos vivos mas a vida já morreu?
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terça-feira, novembro 01, 2011
Em luto
pelo falecimento de Ivar Luiz Nunes Piazetta
padrasto de minha filha Rúbia Augusta,
e pai da irmã dela, Nyna Tereza.
Presto tributo também a
Amílcar Gioppo do Nascimento
meu padrasto, de 1979 a 1993,
falecido há um mês, no dia 29/09/2011.
*
padrasto de minha filha Rúbia Augusta,
e pai da irmã dela, Nyna Tereza.
Presto tributo também a
Amílcar Gioppo do Nascimento
meu padrasto, de 1979 a 1993,
falecido há um mês, no dia 29/09/2011.
*
segunda-feira, outubro 31, 2011
CINCO HAICAIS OCASIONAIS À VIGÍLIA DE TODOS OS SANTOS
(para Ricardo Pozzo, Marilda Confortin, Alvaro Posselt, Tania Mara Chaiben, e Luiz Felipe Leprevost)
* * *
noite das bruxas:
de quem os cachos
que puxas?
* * *
afinados e desafinados
ensaiam pra ser celebrados
talvez só nalgum dia de finados
* * *
halloween diferente:
Curupira, de Michael Jackson,
dança o moonwalk pra frente
* * *
uma razão pra Walpurga:
o que a igreja suja
o diabo purga
* * *
infâncias felizes
curvas obscuras
travessuras ou gostosuras?
* * *
* * *
noite das bruxas:
de quem os cachos
que puxas?
* * *
afinados e desafinados
ensaiam pra ser celebrados
talvez só nalgum dia de finados
* * *
halloween diferente:
Curupira, de Michael Jackson,
dança o moonwalk pra frente
* * *
uma razão pra Walpurga:
o que a igreja suja
o diabo purga
* * *
infâncias felizes
curvas obscuras
travessuras ou gostosuras?
* * *
domingo, outubro 30, 2011
ORDEM E CAOS
“No início não era no início,
Abismo, buraco, precipício,
Hospital, penhasco, resquício,
Hospício, silício, vício, estropício”,
Disse o Caos e calou a boca.
Fechou o tempo. Voltou pra toca.
Conforme macho e fêmea concordem,
Bocas que se beijem mordem.
E antes que apocalipses acordem
Cosmos e átomo explodem em Ordem.
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Abismo, buraco, precipício,
Hospital, penhasco, resquício,
Hospício, silício, vício, estropício”,
Disse o Caos e calou a boca.
Fechou o tempo. Voltou pra toca.
Conforme macho e fêmea concordem,
Bocas que se beijem mordem.
E antes que apocalipses acordem
Cosmos e átomo explodem em Ordem.
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sábado, outubro 29, 2011
7.000.000.000
Dia das bruxas, dia de você,
ou dia até de Curupira e Pererê,
compartilho o que descubro:
neste 31 de outubro,
neste mundo e nesta humanidade,
em meio ao sonho e à maldade,
entre religiões e fés, imo-
lações e amolações, nãos, sins,
abracadabras e sinsalabins,
nasce o nosso sétimo bilionésimo.
Ivan Justen Santana
(após interceptar a seguinte mensagem do enxadrista Henrique Marinho: "Cálculos preveem que no primeiro segundo do dia 31 de outubro de 2011 nascerá o ser humano (bebê) de n.º 7.000.000.000 ... seja bem vindo!)
ou dia até de Curupira e Pererê,
compartilho o que descubro:
neste 31 de outubro,
neste mundo e nesta humanidade,
em meio ao sonho e à maldade,
entre religiões e fés, imo-
lações e amolações, nãos, sins,
abracadabras e sinsalabins,
nasce o nosso sétimo bilionésimo.
Ivan Justen Santana
(após interceptar a seguinte mensagem do enxadrista Henrique Marinho: "Cálculos preveem que no primeiro segundo do dia 31 de outubro de 2011 nascerá o ser humano (bebê) de n.º 7.000.000.000 ... seja bem vindo!)
quinta-feira, outubro 27, 2011
Em pleno surto poético...
PROCURA-SE DESESPERADAMENTE:
Pessoas boas que consigam festejar.
Que falem o que sentem bem como o que querem.
Que saibam ser gentis. Respeitem lar e bar.
Mantenham bom humor. E as que vierem e derem.
Que venham sim. Sutis. E demonstrem prazer.
Tanto em cumprimentar quanto em reconhecer.
Gente que leia mais. Frequente lançamentos
No veneno de ler. De avaliar as artes.
De verdadeiramente ampliar conhecimentos
E divulgar o que acha bom por quaisquer partes.
Um público que assista aos genuínos artistas.
Que aplauda sem ligar se assim vai dar nas vistas.
Alguém que não precise do choque de agora.
Que leia isto e tolere este tapa na cara.
Que entenda o que é linguagem. Som. Tom. Dor. Cor. Fora
Tudo mais que não cabe em rima pobre ou rara.
Quem ofereça a face. A fuça. A carapuça.
Fure-se a carapaça. Engula. Cuspa. Tussa.
Ivan Justen Santana
(27-10-2011)
Pessoas boas que consigam festejar.
Que falem o que sentem bem como o que querem.
Que saibam ser gentis. Respeitem lar e bar.
Mantenham bom humor. E as que vierem e derem.
Que venham sim. Sutis. E demonstrem prazer.
Tanto em cumprimentar quanto em reconhecer.
Gente que leia mais. Frequente lançamentos
No veneno de ler. De avaliar as artes.
De verdadeiramente ampliar conhecimentos
E divulgar o que acha bom por quaisquer partes.
Um público que assista aos genuínos artistas.
Que aplauda sem ligar se assim vai dar nas vistas.
Alguém que não precise do choque de agora.
Que leia isto e tolere este tapa na cara.
Que entenda o que é linguagem. Som. Tom. Dor. Cor. Fora
Tudo mais que não cabe em rima pobre ou rara.
Quem ofereça a face. A fuça. A carapuça.
Fure-se a carapaça. Engula. Cuspa. Tussa.
Ivan Justen Santana
(27-10-2011)
quarta-feira, outubro 26, 2011
QUEM TEM MEDO DE DALTON TREVISAN?
(ou: PROSINHA MAIS QUE ORDINÁRIA)
Releio Em busca de Curitiba perdida:
a chance não merece o autor de Desgracida?
Conto umas seis menções expressas a Emiliano.
Desconto o humor: nenhum, na Negrinha acenando.
Contudo até que não se salva a Pensão Nápoles?
Não soa bem o tom deste último dos crápulas?
Não limpa a barra a graça deste aflito drácula?
À nossa sujeira é mais pura dele a mácula?
Se até não colho alexandrino sem cesura
(“um que se salve aos pulos da perninha dura”)
no agressivo Curitiba revisitada?
E essa A faca no coração? Melhor que nada.
Concedo: tem estilo o nosferatu. Lírico,
dramático, e até épico, além de satírico.
Será que desistiu então da própria morte
pra reescrever Canção do exílio que o conforte?
Tá bem. Eu sei. Vazou aqui o alexandrino.
E diante de Dalton eu menos que um menino.
Mas mijo na Cartinha a um velho prosador
e não perco o final: pau em seja quem for!
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Releio Em busca de Curitiba perdida:
a chance não merece o autor de Desgracida?
Conto umas seis menções expressas a Emiliano.
Desconto o humor: nenhum, na Negrinha acenando.
Contudo até que não se salva a Pensão Nápoles?
Não soa bem o tom deste último dos crápulas?
Não limpa a barra a graça deste aflito drácula?
À nossa sujeira é mais pura dele a mácula?
Se até não colho alexandrino sem cesura
(“um que se salve aos pulos da perninha dura”)
no agressivo Curitiba revisitada?
E essa A faca no coração? Melhor que nada.
Concedo: tem estilo o nosferatu. Lírico,
dramático, e até épico, além de satírico.
Será que desistiu então da própria morte
pra reescrever Canção do exílio que o conforte?
Tá bem. Eu sei. Vazou aqui o alexandrino.
E diante de Dalton eu menos que um menino.
Mas mijo na Cartinha a um velho prosador
e não perco o final: pau em seja quem for!
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domingo, outubro 23, 2011
EXTRA! EXTRA! DALTON TREVISAN TOMA UM CACETE E NEM FICA SABENDO
Vou tentar explicar, então tome fôlego quem quiser saber qual é.
Neste sábado, estava eu na casa do polaco da barreirinha quando com todos os fios de seu bigode ele repetiu e sublinhou que foram três os caras que lhe ensinaram a escrever boa prosa: Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan (não por coincidência, o polaco usou muito o pseudônimo de Dalton Machado Rodrigues).
No domingo, o polaco postou no facebook uma foto do Dalton e um poema de homenagem, convidando os amigos a prestarem as suas respectivas celebrações da trevisânica figura.
Não resistindo ao convite, perpetrei a seguinte, que aqui intitulo
DAI A DALTON O QUE É DE JÉRSON,
E A TREVISAN, O QUE VEIO DE IVAN
Que vampiro? Gênio aonde?
Vai seguindo sempre em busca
dum estilo que se esconde
numa angústia tão patusca
que nem chega a ser de velho:
um fraquinho autoevangelho.
Sabe apenas pôr o dedo
na ferida se é a alheia:
possivelmente isso é medo
de pulsar a própria veia,
que mete nesse inseguro
um pavor de claro e escuro.
Mas não rimarei com dalton
rima nenhuma biônica.
Faço rimas só pros nêutrons
da prosa dele chatônica:
nem mil anos na salmoura
nem biotônico fontoura
não elevarão o status
deste literato cactus,
porque a lei de Jérson é
diminuir o cacife
pra ver se ainda para em pé
o seu conto de patife.
Assim prestei homenagem
a este Jérson Trevisan,
dos Daltons tem bandidagem,
muita prosa e pouco elã.
E o polaco que me aguente
pois ponho um pingo num i:
ninguém xinga impunemente
Emiliano e Kolody.
Ivan Justen Santana
Neste sábado, estava eu na casa do polaco da barreirinha quando com todos os fios de seu bigode ele repetiu e sublinhou que foram três os caras que lhe ensinaram a escrever boa prosa: Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan (não por coincidência, o polaco usou muito o pseudônimo de Dalton Machado Rodrigues).
No domingo, o polaco postou no facebook uma foto do Dalton e um poema de homenagem, convidando os amigos a prestarem as suas respectivas celebrações da trevisânica figura.
Não resistindo ao convite, perpetrei a seguinte, que aqui intitulo
DAI A DALTON O QUE É DE JÉRSON,
E A TREVISAN, O QUE VEIO DE IVAN
Que vampiro? Gênio aonde?
Vai seguindo sempre em busca
dum estilo que se esconde
numa angústia tão patusca
que nem chega a ser de velho:
um fraquinho autoevangelho.
Sabe apenas pôr o dedo
na ferida se é a alheia:
possivelmente isso é medo
de pulsar a própria veia,
que mete nesse inseguro
um pavor de claro e escuro.
Mas não rimarei com dalton
rima nenhuma biônica.
Faço rimas só pros nêutrons
da prosa dele chatônica:
nem mil anos na salmoura
nem biotônico fontoura
não elevarão o status
deste literato cactus,
porque a lei de Jérson é
diminuir o cacife
pra ver se ainda para em pé
o seu conto de patife.
Assim prestei homenagem
a este Jérson Trevisan,
dos Daltons tem bandidagem,
muita prosa e pouco elã.
E o polaco que me aguente
pois ponho um pingo num i:
ninguém xinga impunemente
Emiliano e Kolody.
Ivan Justen Santana
sábado, outubro 22, 2011
RAPACIÊNCIA
Eu só ouço e obedeço.
Esse mundo é da obediência.
O valor é mais que o preço
E a medida é a paciência.
Mas se eu fosse um bom rapaz,
Obediente a toda classe,
Eu rimava como faz
A batata quando nasce.
Só que sou insuficiente.
Não obstante, digo quando
Certa voz me alerta a mente:
Sim, senhora, ao seu comando!
E a quem doma a vida e vence-a
Lego assim a rapaciência.
Esse mundo é da obediência.
O valor é mais que o preço
E a medida é a paciência.
Mas se eu fosse um bom rapaz,
Obediente a toda classe,
Eu rimava como faz
A batata quando nasce.
Só que sou insuficiente.
Não obstante, digo quando
Certa voz me alerta a mente:
Sim, senhora, ao seu comando!
E a quem doma a vida e vence-a
Lego assim a rapaciência.
quarta-feira, outubro 19, 2011
EPÍLOGO DOS PEQUENOS POEMAS EM PROSA
De coração contente eu subo ao precipício
Dali de onde se enxerga toda esta cidade,
Prisão, bordel, inferno, purgatório, hospício,
Dos quais qual uma flor floresce a enormidade.
Tu sabes bem, Satã, meu guia na desgraça,
Que aqui no abismo o choro inútil não me invade;
Que feito o velho amante da velha devassa
Eu vim me embebedar dessa enorme vadia
Cujo charme infernal remoça quando passa.
E mesmo que ainda durmas nos lençóis do dia,
Surda, obscura, gripada, ou que ainda em afãs
Nos véus da tarde tu te exibas, joia fria,
Eu te amo, ó capital infame! As cortesãs
E os bandidos, às vezes são tais os prazeres
Incompreendidos pelas leigas massas vãs.
Charles Baudelaire
versão curitibana: Ivan Justen Santana
Dali de onde se enxerga toda esta cidade,
Prisão, bordel, inferno, purgatório, hospício,
Dos quais qual uma flor floresce a enormidade.
Tu sabes bem, Satã, meu guia na desgraça,
Que aqui no abismo o choro inútil não me invade;
Que feito o velho amante da velha devassa
Eu vim me embebedar dessa enorme vadia
Cujo charme infernal remoça quando passa.
E mesmo que ainda durmas nos lençóis do dia,
Surda, obscura, gripada, ou que ainda em afãs
Nos véus da tarde tu te exibas, joia fria,
Eu te amo, ó capital infame! As cortesãs
E os bandidos, às vezes são tais os prazeres
Incompreendidos pelas leigas massas vãs.
Charles Baudelaire
versão curitibana: Ivan Justen Santana
sábado, outubro 15, 2011
sexta-feira, outubro 14, 2011
O TEMPLO TODO
Impronunciavelmente,
numa pequena barreira
polaca e bem brasileira,
muito igual e diferente,
existe um templo da gente
do Oriente e até mineira.
Mais que só gente festeira,
gente muito inteligente.
Neste templo, o tempo todo
tem batuque e tem fanfarra,
tem godo, ostro e visigodo,
tem poesia que te agarra
numa algazarra tão zen
que o quintal tem Tao também.
(esta foi, obviamente, uma homenagem gratuita e merecida
ao Polaco da Barreirinha, sua casa, sua poesia e sua vida)
Ivan Justen Santana
numa pequena barreira
polaca e bem brasileira,
muito igual e diferente,
existe um templo da gente
do Oriente e até mineira.
Mais que só gente festeira,
gente muito inteligente.
Neste templo, o tempo todo
tem batuque e tem fanfarra,
tem godo, ostro e visigodo,
tem poesia que te agarra
numa algazarra tão zen
que o quintal tem Tao também.
(esta foi, obviamente, uma homenagem gratuita e merecida
ao Polaco da Barreirinha, sua casa, sua poesia e sua vida)
Ivan Justen Santana
quarta-feira, outubro 12, 2011
QUATRO RAPFASES DE VIVERPOOL
Nasci Lennon:
me mataram cedo.
Cresci McCartney:
parei de comer carne.
Envelheci Harrison:
uma faca no coração.
Morri Ringo:
super Starr.
* * *
Lincoln Fabricio [líder do Splipple Man]
Ivan Justen Santana [líder dos Dublês de Dublin]
me mataram cedo.
Cresci McCartney:
parei de comer carne.
Envelheci Harrison:
uma faca no coração.
Morri Ringo:
super Starr.
* * *
Lincoln Fabricio [líder do Splipple Man]
Ivan Justen Santana [líder dos Dublês de Dublin]
domingo, outubro 09, 2011
A ESTRELA, A SEREIA E O BOBO
A Estrela Leminski, Jana Fellini e Monica Berger
Brilhava a Estrela um brilho raro:
Quarto crescente de manhã;
Qual um luar que sem forçar o
Raiar atinge Aldebarã.
“A luz e a cor posso escutar
Se vêm até profundos poços
Que em meu cantar têm seu lugar
Pra tornar ricos pobres moços...”
Assim falava o canto alado
De uma Sereia à Estrela então;
E um Bobo, bobisco, abobado,
Babava bolhas de sabão.
* * *
Brilhava a Estrela um brilho raro:
Quarto crescente de manhã;
Qual um luar que sem forçar o
Raiar atinge Aldebarã.
“A luz e a cor posso escutar
Se vêm até profundos poços
Que em meu cantar têm seu lugar
Pra tornar ricos pobres moços...”
Assim falava o canto alado
De uma Sereia à Estrela então;
E um Bobo, bobisco, abobado,
Babava bolhas de sabão.
* * *
O SONHO DA SEREIA
Para Jana Fellini
“Serei a última?
Serei Lorelei ou só uma seara de cara da Iara?
Ou só uma única Uyara Torrente?
Seria o caso de simplesmente mergulhar na torrente?”
Enquanto sua consciência suava e lutava,
o inconsciente da Sereia deslizava
qual metal desfeito em lava:
“Sim: sinto as origens no fundo de um épico,
como uma Ilíada em mares sempre dantes navegados;
sei que tudo pode virar só mais um texto dramático,
como um romance realista de personagens-gados
(ou mesmo drogados e estragados), mas ainda assim é lírico
o final infeliz de um clichê banal inédito, extático,
talvez em cirílico.”
E o sonho da sereia buscava,
não um brusco Pã, nem um buscopan,
mas sim um brusco fim:
feito um regime político democrático e tirânico,
como se acha a atual liberdade que ri do pânico,
qual se ela disputasse algum combate titânico
e, ainda com as próprias escamas, acordasse
e lhe aparecesse esse poeta sem classe
que lhe dissesse:
Bom dia! Bem vinda a nove do dez do onze:
ouça agora os nossos sinos de bronze
numa rima de raros sons e
sinta o calor. Nada com nada se parece,
mas não se iluda: é tudo mecânico.
Beba uma tônica. A vida é crônica.
E hoje é outro dia ivânico.
____________________________________________________
domingo, outubro 02, 2011
O FAUNO, AS NINFAS E O MOVIMENTO PUNK CURITIBANO
Chifres, dois, primeiro,
Emergia um fauno
Do raso ribeiro
No qual o vagau, no
Final do verão,
Enfim se banhava,
Qual se de um vulcão
Fosse a água que o lava;
Quando fedia tanto até pra si
Mesmo aquele egipã (filho de Pã
E duma putativa mãe que ri
A quem vem de tarde, noite e manhã),
Tão satiricamente então topava
Atirar o dúbio corpo no rio,
A título de banho: depois dava
Pra correr molhado sem passar frio;
Emergia assim o fauno,
Molhado e mais malicioso
Que um poeta botando sal no
Caldo ralo e malcheiroso
Dado a um hóspede orgulhoso;
Muito mais feliz que um Bozo,
E muito mais angustiado, o
Fauno molhado, dengoso,
Olhava pra todo lado
Com brilho no olhar afiado:
Eis lhe surgem visões mais que belas
Na sagrada e profana quantia
De três, sim, três visões, como estrelas
Numa cinta que ao fauno cingia,
E a linguagem a fim de escrevê-las
Curva turva treva e claro dia:
Que esporro não faria o fauno pelo mato
Se em vez de fauno fosse um malaco em mocó!
A primeira visão fê-lo de estupefato
Ao ‘fêla’ duma putrefata rata só! –
Era uma ninfa
Tirando chinfra
De mina punk –
Botando banca
Que a bota espanca
Quem quer que a espanque –
Cabelos verdes,
Nas meias redes
Que arrastam trouxas –
O fauno treme:
Figura o creme
Daquelas coxas.
Só que aquela era uma oréade das montanhas
Que falava um grego de inflexões estranhas:
“Qualé a tua, pé-de-bode, assim, limpinho?
Tá me achando aqui com panca duma puta?
Não sou raspa pra esse teu caminhãozinho.
Tchau, que eu já vou lá cuidar da minha gruta.”
E o nosso herói notou que dói
Não ser bem seu o dom de Orfeu.
Eis que surgiu por sua vez outra visão
Que torceria até do cego Homero a nuca;
Vamos falar o que é, sem mais enrolação:
Mais uma ninfa ao fauno a vista já cutuca...
Aquela tinha a trança tão vermelha
Que ferro, fogo e forja já ajoelha
E a curva da cintura tão macia
Súbita sinuosa desafia
Sob a chispa da pupila de esguelha:
Mais, de-
Mais da
Saia de
Náiade
Feita, a-
Jeita as-
Sim (com o per-
Dão da
Língua) en-
Tão dis-
Sílaba e dis-
Cípula que
Tinha a te-
Tinha...
Não disse coisa alguma
E sumiu como espuma.
Protestaria o fauno, mas
Não achou as visões tão más;
Pois depois de prima e segunda
Da terceira viu logo: a bunda!
E a seguir notou que era uma loira dríade
Que ele amaria como a uma hamadríade,
Mas que tão logo surgiu ia de
De si pra si falando
E a rima atando
Sem mando.
E então pulsou: fogo, fênix,
Facho em flama, fulgor de ônix,
Embebendo ambos num cálix –
Tudo em tantra
Dum só mantra;
Salamandra
Mais malandra
Em chamas metamorfoseando-se
Até que como uma escola de escândalos
O fauno e a ninfa foram transformando-se
Numa situação simples lá num bar.
Pois é; não tem mais o que se estranhar:
Estamos em pleno movimento punk curitibano
Nos idos de sei lá eu nem muito bem qual ano.
Três garotas sentadas numa mesa redonda ali no –
Sim, agora estamos percebendo: é o Bar do Lino.
E tudo termina quando, olhando do balcão,
Um poeta vagabundo comenta a um seu não-irmão:
“Você até parece um Pã, fauno poeta punk fedendo a alho,
Mas cá pra nós não passa dum tremendo pau no cu do caralho!”
Imagem incidental: Halcyone, de Herbert James Draper
(visualizar melhor clicando aqui)
Emergia um fauno
Do raso ribeiro
No qual o vagau, no
Final do verão,
Enfim se banhava,
Qual se de um vulcão
Fosse a água que o lava;
Quando fedia tanto até pra si
Mesmo aquele egipã (filho de Pã
E duma putativa mãe que ri
A quem vem de tarde, noite e manhã),
Tão satiricamente então topava
Atirar o dúbio corpo no rio,
A título de banho: depois dava
Pra correr molhado sem passar frio;
Emergia assim o fauno,
Molhado e mais malicioso
Que um poeta botando sal no
Caldo ralo e malcheiroso
Dado a um hóspede orgulhoso;
Muito mais feliz que um Bozo,
E muito mais angustiado, o
Fauno molhado, dengoso,
Olhava pra todo lado
Com brilho no olhar afiado:
Eis lhe surgem visões mais que belas
Na sagrada e profana quantia
De três, sim, três visões, como estrelas
Numa cinta que ao fauno cingia,
E a linguagem a fim de escrevê-las
Curva turva treva e claro dia:
Que esporro não faria o fauno pelo mato
Se em vez de fauno fosse um malaco em mocó!
A primeira visão fê-lo de estupefato
Ao ‘fêla’ duma putrefata rata só! –
Era uma ninfa
Tirando chinfra
De mina punk –
Botando banca
Que a bota espanca
Quem quer que a espanque –
Cabelos verdes,
Nas meias redes
Que arrastam trouxas –
O fauno treme:
Figura o creme
Daquelas coxas.
Só que aquela era uma oréade das montanhas
Que falava um grego de inflexões estranhas:
“Qualé a tua, pé-de-bode, assim, limpinho?
Tá me achando aqui com panca duma puta?
Não sou raspa pra esse teu caminhãozinho.
Tchau, que eu já vou lá cuidar da minha gruta.”
E o nosso herói notou que dói
Não ser bem seu o dom de Orfeu.
Eis que surgiu por sua vez outra visão
Que torceria até do cego Homero a nuca;
Vamos falar o que é, sem mais enrolação:
Mais uma ninfa ao fauno a vista já cutuca...
Aquela tinha a trança tão vermelha
Que ferro, fogo e forja já ajoelha
E a curva da cintura tão macia
Súbita sinuosa desafia
Sob a chispa da pupila de esguelha:
Mais, de-
Mais da
Saia de
Náiade
Feita, a-
Jeita as-
Sim (com o per-
Dão da
Língua) en-
Tão dis-
Sílaba e dis-
Cípula que
Tinha a te-
Tinha...
Não disse coisa alguma
E sumiu como espuma.
Protestaria o fauno, mas
Não achou as visões tão más;
Pois depois de prima e segunda
Da terceira viu logo: a bunda!
E a seguir notou que era uma loira dríade
Que ele amaria como a uma hamadríade,
Mas que tão logo surgiu ia de
De si pra si falando
E a rima atando
Sem mando.
E então pulsou: fogo, fênix,
Facho em flama, fulgor de ônix,
Embebendo ambos num cálix –
Tudo em tantra
Dum só mantra;
Salamandra
Mais malandra
Em chamas metamorfoseando-se
Até que como uma escola de escândalos
O fauno e a ninfa foram transformando-se
Numa situação simples lá num bar.
Pois é; não tem mais o que se estranhar:
Estamos em pleno movimento punk curitibano
Nos idos de sei lá eu nem muito bem qual ano.
Três garotas sentadas numa mesa redonda ali no –
Sim, agora estamos percebendo: é o Bar do Lino.
E tudo termina quando, olhando do balcão,
Um poeta vagabundo comenta a um seu não-irmão:
“Você até parece um Pã, fauno poeta punk fedendo a alho,
Mas cá pra nós não passa dum tremendo pau no cu do caralho!”
Imagem incidental: Halcyone, de Herbert James Draper
(visualizar melhor clicando aqui)
sexta-feira, setembro 23, 2011
A PANTERA
No Jardin des Plantes, Paris
O olhar, de tanto passar pelas grades
gastou-se: não está preso a mais nada.
A ela, só existem mil grades, e atrás de
mil grades o seu mundo todo acaba.
O ritmo macio do seu movimento
forte, em círculos cada vez menores,
é uma dança de energia até um centro
onde jazem suas vontades enormes.
Raramente ela descerra em silêncio
o véu da pupila – e a imagem vivaz
adentra a mansidão do corpo tenso,
cai no coração e se desfaz.
Rainer Maria Rilke
Versão felina brasileira
(reescovando os pelos da pantera
numa singela homenagem a Monica Berger:)
Ivan Justen Santana
O olhar, de tanto passar pelas grades
gastou-se: não está preso a mais nada.
A ela, só existem mil grades, e atrás de
mil grades o seu mundo todo acaba.
O ritmo macio do seu movimento
forte, em círculos cada vez menores,
é uma dança de energia até um centro
onde jazem suas vontades enormes.
Raramente ela descerra em silêncio
o véu da pupila – e a imagem vivaz
adentra a mansidão do corpo tenso,
cai no coração e se desfaz.
Rainer Maria Rilke
Versão felina brasileira
(reescovando os pelos da pantera
numa singela homenagem a Monica Berger:)
Ivan Justen Santana
quarta-feira, setembro 21, 2011
Diálogo automático consigo mesmo
"Olá, Ivan, como foi a apresentação musical dos Dublês de Dublin?"
"O show foi muito bom, Ivan. Foi quase excelente mesmo. Obrigado por se interessar em saber."
"E como vai o doutorado, Ivan? Passou bem nas matérias do primeiro semestre?"
"Ainda não sei das notas, Ivan, mas acho que não fiz feio."
"E a família, Ivan? Como vai?"
"Faça um favor a nós dois, Ivan: vá dormir, e só volte aqui quando tiver algo de bom pra postar, valeu?"
"Valeu, Ivan, boa noite."
"Boa noite."
...
"O show foi muito bom, Ivan. Foi quase excelente mesmo. Obrigado por se interessar em saber."
"E como vai o doutorado, Ivan? Passou bem nas matérias do primeiro semestre?"
"Ainda não sei das notas, Ivan, mas acho que não fiz feio."
"E a família, Ivan? Como vai?"
"Faça um favor a nós dois, Ivan: vá dormir, e só volte aqui quando tiver algo de bom pra postar, valeu?"
"Valeu, Ivan, boa noite."
"Boa noite."
...
quarta-feira, setembro 14, 2011
sábado, setembro 10, 2011
DECLARADO O DIA IVÂNICO DESCARADO DESCARACTERIZADO
Hoje não era pra ser um Dia Ivânico
(pra quem não sabe o que é isso: clique aqui)
mas como no ano passado o Dia Ivânico
(8/9/10) passou em branco, eis que aqui
está declarado o Dia Ivânico Descarado Descaracterizado:
Dez do Nove do Onze:
como um gonzo que gonze,
como um guizo à guisa de gaze,
ou só esses versos passando de fase,
feito em casa um caso do casal de coisa que nem me case:
RASTROS DOS ASTROS DE SISTROS SINISTROS DAQUELES DESASTRES JAMAIS VISTOS DESDE OS SETEMBROS PRETÉRITOS PASSADOS (Ou: POEMA QUE NÃO DEVIA TER TÍTULO)
Minha pedra tem artistas.
Tem enxames de turistas.
Não permitam que alguém chame
nossa classe assim de Lóki,
mesmo que ela se coloque
a serviços de reclame.
Minha pedra não é a perda
de quem fume a pedra-merda,
de quem caia a mesma queda,
ou quem ri da lesma surda
das que zombam ui que meda:
mesmo que ela se coloque
a serviços de reclame,
nossa classe tem estoque
além do bem velho róque,
posta a chama ou seu vexame:
a quem cale ou a quem ame.
________________________________
(pra quem não sabe o que é isso: clique aqui)
mas como no ano passado o Dia Ivânico
(8/9/10) passou em branco, eis que aqui
está declarado o Dia Ivânico Descarado Descaracterizado:
Dez do Nove do Onze:
como um gonzo que gonze,
como um guizo à guisa de gaze,
ou só esses versos passando de fase,
feito em casa um caso do casal de coisa que nem me case:
RASTROS DOS ASTROS DE SISTROS SINISTROS DAQUELES DESASTRES JAMAIS VISTOS DESDE OS SETEMBROS PRETÉRITOS PASSADOS (Ou: POEMA QUE NÃO DEVIA TER TÍTULO)
Minha pedra tem artistas.
Tem enxames de turistas.
Não permitam que alguém chame
nossa classe assim de Lóki,
mesmo que ela se coloque
a serviços de reclame.
Minha pedra não é a perda
de quem fume a pedra-merda,
de quem caia a mesma queda,
ou quem ri da lesma surda
das que zombam ui que meda:
mesmo que ela se coloque
a serviços de reclame,
nossa classe tem estoque
além do bem velho róque,
posta a chama ou seu vexame:
a quem cale ou a quem ame.
________________________________
segunda-feira, setembro 05, 2011
AO IAN NADOLNY ROLAND JUSTEN SANTANA, NO MOMENTO EM QUE FAZ 8 MESES E 8 DIAS
O maior dilema
não é fazer ou não fazer
para você ou para a sua mãe
um primeiro ou mais um poema.
O maior dilema
é mais que só ser ou sequer
nem ser quem perca ou ganhe
ou grite ou chore ou sofra ou gema.
Dilemas totais
mais fundamentais
que mamães e papais:
isso existe?
Talvez as razões
de ao tentar ser bons
tocarmos tantos sons
num tom triste.
não é fazer ou não fazer
para você ou para a sua mãe
um primeiro ou mais um poema.
O maior dilema
é mais que só ser ou sequer
nem ser quem perca ou ganhe
ou grite ou chore ou sofra ou gema.
Dilemas totais
mais fundamentais
que mamães e papais:
isso existe?
Talvez as razões
de ao tentar ser bons
tocarmos tantos sons
num tom triste.
(Foto: Gianna Roland)
quinta-feira, setembro 01, 2011
O CORUJÃO & A GATINHA
________I
O Corujão e a Gatinha foram pro mar,__Num belo dum barquinho bem verdinho,
Levaram muito mel, e dinheiro a granel,
__Empacotado em cédulas de cinco.
O Corujão via as estrelas com ardor,
__E cantava com seu violãozinho,
“Ó minha adorável Gatinha! Ó meu amor,
__Ó Gatinha do meu coraçãozinho,
____Zinho,
____Zinho!
Ó Gatinha do meu coraçãozinho!”
________II
E a Gatinha ao Corujão: “Você é cortesão! __Que doce essa canção que você fez!
Ó vamos já casar! Em boa hora e lugar:
__Porém o que fazer quanto aos anéis?”
Navegaram em calmaria, um ano e um dia,
__Às terras onde a planta Bonga tem raiz
E lá numa vereda um Porco tinha venda
__Com anéis no final do seu nariz,
____Nariz,
____Nariz,
Com anéis no final do seu nariz.
________III
“Caro porco janota, aceita alguma nota __Por tais anéis?” Disse o Porco: “Eu aceito.”
E então os compraram e a seguir se casaram
__Declarados pelo Peru, o Prefeito.
Jantaram araruta, e fatias de fruta,
__Que comeram com uma colher nua;
De mãos dadas, em par, pela beira do mar,
__Cantaram e dançaram à luz da lua,
____Da lua,
____Da lua,
Cantaram e dançaram à luz da lua.
corujice original: Edward Lear (1812-1888)
[clique aqui pra ver o texto fonte]
gatimanha tradutória: Ivan Justen Santana
Imagem surrupiada do site storynory.com,
(na verdade é uma colorização da ilustração
do próprio Edward Lear, mas não contem pra ninguém).
quarta-feira, agosto 31, 2011
AOS ANIVERSARIANTES
Béco Prado e Catarina:
Não é dupla nordestina –
São dois aniversariantes
Deste trinta-e-um de agosto,
A gosto de não ser antes
Ou ser bem mais que só rosto:
Aos dois aniversariantes
Eu estrofo assim, sem regra,
Que regra pode ser negra
Ou ser branca ou bailarina:
Mas nunca será qual dantes
Aos dois aniversariantes
Béco Prado e Catarina.
E as rimas pra mim dão gosto
Posto rimar seja sina
Que se aprende meio imposto
Como fosse nervo exposto
Que meio que contamina
Mas quero por outras rimas
Dizer aos baixos e aos cimas
Nessas pobres estruturas
Imitadas das esquinas
Que aqui fica essa homenagem
Com sons que junto a mim agem
Em rimas pobres e duras
Mas intenções cristalinas:
Desejo então um Feliz
Aniversário ao Roberto
Prado e à cara Velasco,
Catarina, a quem eu tasco
Este bom fim meu incerto,
Quase médio por um triz!
(aos aniversariantes: perdoem o poema improvisado e quase ruinzinho, e saibam que, com ou sem poesia, ou até com alguma prosa, vocês são pessoas muito brilhantes e especiais pra mim:)
Ivan, assim.
Não é dupla nordestina –
São dois aniversariantes
Deste trinta-e-um de agosto,
A gosto de não ser antes
Ou ser bem mais que só rosto:
Aos dois aniversariantes
Eu estrofo assim, sem regra,
Que regra pode ser negra
Ou ser branca ou bailarina:
Mas nunca será qual dantes
Aos dois aniversariantes
Béco Prado e Catarina.
E as rimas pra mim dão gosto
Posto rimar seja sina
Que se aprende meio imposto
Como fosse nervo exposto
Que meio que contamina
Mas quero por outras rimas
Dizer aos baixos e aos cimas
Nessas pobres estruturas
Imitadas das esquinas
Que aqui fica essa homenagem
Com sons que junto a mim agem
Em rimas pobres e duras
Mas intenções cristalinas:
Desejo então um Feliz
Aniversário ao Roberto
Prado e à cara Velasco,
Catarina, a quem eu tasco
Este bom fim meu incerto,
Quase médio por um triz!
(aos aniversariantes: perdoem o poema improvisado e quase ruinzinho, e saibam que, com ou sem poesia, ou até com alguma prosa, vocês são pessoas muito brilhantes e especiais pra mim:)
Ivan, assim.
terça-feira, agosto 30, 2011
AVIADOR IRLANDÊS ANTEVENDO A PRÓPRIA MORTE
Eu sei que sigo a um fim funesto
Nalgum lugar do céu sonoro;
Os que eu combato eu não detesto,
Os que eu defendo eu não adoro;
Kiltartan Cross é a minha terra,
E os pobres dela são meu povo,
Triunfo ou perda nesta guerra
Não trazem nada aos meus de novo.
Nem lei, nem honra põem-me aqui,
Nem homens públicos, nem fãs,
Mas só um prazer que eu só senti
Na fúria destas nuvens vãs;
Pesei tudo isto em minha mente:
Adiante, nada que me importe,
Atrás, passado indiferente:
Leve esta vida, e esta morte.
Antevisão original:
William Butler Yeats
Retrospectivo estresse pós-tradutomático:
Ivan Justen Santana
[saibam mais a respeito clicando aqui]
Nalgum lugar do céu sonoro;
Os que eu combato eu não detesto,
Os que eu defendo eu não adoro;
Kiltartan Cross é a minha terra,
E os pobres dela são meu povo,
Triunfo ou perda nesta guerra
Não trazem nada aos meus de novo.
Nem lei, nem honra põem-me aqui,
Nem homens públicos, nem fãs,
Mas só um prazer que eu só senti
Na fúria destas nuvens vãs;
Pesei tudo isto em minha mente:
Adiante, nada que me importe,
Atrás, passado indiferente:
Leve esta vida, e esta morte.
Antevisão original:
William Butler Yeats
Retrospectivo estresse pós-tradutomático:
Ivan Justen Santana
[saibam mais a respeito clicando aqui]
segunda-feira, agosto 29, 2011
O MUNDO & EU & O MEU UMBIGO
(a Tatiana Lemos e a Edson de Vulcanis)
Enquanto Irene atravessa
a Carolina do Norte
nenhuma Carol tem pressa
de me amar num Sul sem sorte.
Enquanto um tufão destrói
tantas coisas em Taiwan,
nenhuma fã deste herói
me diz: eu te amo, Ivan.
De quê te queixas, meu eu?
Só segues teu cego umbigo?
Teu amigo perde um rim
e ri qual nada perdeu.
Tu, cheio de amor e amigo,
rima um bem sim com bom fim.
*
Enquanto Irene atravessa
a Carolina do Norte
nenhuma Carol tem pressa
de me amar num Sul sem sorte.
Enquanto um tufão destrói
tantas coisas em Taiwan,
nenhuma fã deste herói
me diz: eu te amo, Ivan.
De quê te queixas, meu eu?
Só segues teu cego umbigo?
Teu amigo perde um rim
e ri qual nada perdeu.
Tu, cheio de amor e amigo,
rima um bem sim com bom fim.
*
quinta-feira, agosto 25, 2011
CANÇÃOZINHA DA MANADA POÉTICA PARANAENSE
(a todos os poetas vivos que fazem poesia nesse estado)
Um Emiliano passa a Perneta em muita gente:
Dois Leminskis levam no bigode muitos mais.
Três Kolodys helenizam muita gente:
Quatro Vellozos pitagoram muito mais.
Cinco Silveiras traçam Tasso em muita gente:
Seis Wernecks adolficam muito mais.
Sete Júlias guardam da Costa muita gente:
Oito Adas com Macággicas encantam muito mais.
Nove Cadilhes e-agora-José-questionam muita gente:
Dez Wojciechowskis vivos incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam
e incomodarão muitos por muitos e muitos anos muito mais.
*
Nesta foto, da Vila Perneta, a casa onde Emiliano teria nascido e morado.
(Mais informações clicando aqui)
Um Emiliano passa a Perneta em muita gente:
Dois Leminskis levam no bigode muitos mais.
Três Kolodys helenizam muita gente:
Quatro Vellozos pitagoram muito mais.
Cinco Silveiras traçam Tasso em muita gente:
Seis Wernecks adolficam muito mais.
Sete Júlias guardam da Costa muita gente:
Oito Adas com Macággicas encantam muito mais.
Nove Cadilhes e-agora-José-questionam muita gente:
Dez Wojciechowskis vivos incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam incomodam
e incomodarão muitos por muitos e muitos anos muito mais.
*
Nesta foto, da Vila Perneta, a casa onde Emiliano teria nascido e morado.
(Mais informações clicando aqui)
sábado, agosto 20, 2011
O Centenário de ILUSÃO, de Emiliano Perneta...
Hoje foi celebrado, na Ilha da Ilusão, no Passeio Público, o centenário de Ilusão, principal livro de poemas de Emiliano Perneta.
O evento foi organizado por sete entidades culturais curitibanas:
Instituto Neo-Pitagórico, Centro de Letras do Paraná, Academia Paranaense de Letras, Centro Paranaense Feminino de Cultura, Academia Feminina de Letras do Paraná, Academia Paranaense da Poesia, e Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
Participei como mestre de cerimônias. Entre tantas personalidades importantes do cenário atual da cultura curitibana, poetas (registro, por exemplo, a presença do Polaco da Barreirinha, Thadeu Wojciechowski), músicos e autoridades das instituições citadas, também abrilhantou o evento a Bárbara Kirchner (mantenedora o blog Curitiba é um copo vazio cheio de frio), a qual apresentou de impromptu um número musical composto por Octávio Camargo e Paulo Bearzoti, versando sobre Emiliano.
Quem me lê aqui já notou minha simpatia pelo Perneta, não é? Pois é: a obra dele é meu tema de tese de doutorado, atualmente em curso na UFPR. Para saber mais, tem esta entrevista minha ao site Curitiba Cultura (clique aqui).
E, finalmente, já está no ar a Re-Edição Virtual de Ilusão, que pode ser baixada e lida, em dois formatos (ortografia original, e texto atualizado), neste link no site da APL (clicando aqui).
Para terminar a postagem, eis um recorte da folha de rosto da re-edição, conforme o original de 1911:
O evento foi organizado por sete entidades culturais curitibanas:
Instituto Neo-Pitagórico, Centro de Letras do Paraná, Academia Paranaense de Letras, Centro Paranaense Feminino de Cultura, Academia Feminina de Letras do Paraná, Academia Paranaense da Poesia, e Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.
Participei como mestre de cerimônias. Entre tantas personalidades importantes do cenário atual da cultura curitibana, poetas (registro, por exemplo, a presença do Polaco da Barreirinha, Thadeu Wojciechowski), músicos e autoridades das instituições citadas, também abrilhantou o evento a Bárbara Kirchner (mantenedora o blog Curitiba é um copo vazio cheio de frio), a qual apresentou de impromptu um número musical composto por Octávio Camargo e Paulo Bearzoti, versando sobre Emiliano.
Quem me lê aqui já notou minha simpatia pelo Perneta, não é? Pois é: a obra dele é meu tema de tese de doutorado, atualmente em curso na UFPR. Para saber mais, tem esta entrevista minha ao site Curitiba Cultura (clique aqui).
E, finalmente, já está no ar a Re-Edição Virtual de Ilusão, que pode ser baixada e lida, em dois formatos (ortografia original, e texto atualizado), neste link no site da APL (clicando aqui).
Para terminar a postagem, eis um recorte da folha de rosto da re-edição, conforme o original de 1911:
domingo, agosto 14, 2011
sexta-feira, agosto 12, 2011
E agora viro parceiro de um poeta de 145 anos de idade, assim:
TERCETOS PARA COMPLETAR A FLORA DE EMILIANO
As raparigas numa gaze leve,
O som do sopro quase mais que breve,
Hoje eu as vejo e o ouço: som, nudez,
Loucamente ao redor da primavera,
Da flor vermelha que será, e é, e era,
Numa ilusão de quem sabe talvez...
Ivan Justen Santana (Um sim em si, 2011)
[recorte o poema desta postagem e cole debaixo do poema
FLORA, de Emiliano Perneta, que está mais abaixo,
na postagem do dia 8 de agosto;
ou então clique nos comentários daqui mesmo,
e veja como ficou esta parceria inédita:]
As raparigas numa gaze leve,
O som do sopro quase mais que breve,
Hoje eu as vejo e o ouço: som, nudez,
Loucamente ao redor da primavera,
Da flor vermelha que será, e é, e era,
Numa ilusão de quem sabe talvez...
Ivan Justen Santana (Um sim em si, 2011)
[recorte o poema desta postagem e cole debaixo do poema
FLORA, de Emiliano Perneta, que está mais abaixo,
na postagem do dia 8 de agosto;
ou então clique nos comentários daqui mesmo,
e veja como ficou esta parceria inédita:]
terça-feira, agosto 09, 2011
Como fazia tempo que eu não fazia um soneto... Eis:
SIMBOLISMOVOOCONGRESSOCARNALESPIRITUAL
De novo: sim, o simbolismo é erótico,
Mas mais no senso do Eros deus-desejo,
Princípio da atração, fervor hipnótico
Da amada que me vê como eu a vejo,
Ou sequer me vê: sente em som sinótico
O efeito transcendente deste beijo,
Estímulo mais fundo que o nervo ótico,
Ataque no atacado e no varejo,
No corpo e na alma, na essência e substância,
Feito ânsia mais análoga do que ânsia
Que os Anjos não cantam. Lá em letra theta,
Em códigos de línguas, corpos nus
Que em vez das posições dos cangurus
Adotam voos de Emiliano Perneta.
Ivan Justen Santana
Curitiba, 8 -> 9 de agosto de 2011
De novo: sim, o simbolismo é erótico,
Mas mais no senso do Eros deus-desejo,
Princípio da atração, fervor hipnótico
Da amada que me vê como eu a vejo,
Ou sequer me vê: sente em som sinótico
O efeito transcendente deste beijo,
Estímulo mais fundo que o nervo ótico,
Ataque no atacado e no varejo,
No corpo e na alma, na essência e substância,
Feito ânsia mais análoga do que ânsia
Que os Anjos não cantam. Lá em letra theta,
Em códigos de línguas, corpos nus
Que em vez das posições dos cangurus
Adotam voos de Emiliano Perneta.
Ivan Justen Santana
Curitiba, 8 -> 9 de agosto de 2011
segunda-feira, agosto 08, 2011
Mais um do Emiliano
FLORA
Ontem eu me encontrei contigo, ó primavera,
Os lábios a sorrir, como uma flor vermelha,
Tu trazias na mão a clássica corbelha,
E na fronte ideal uma coroa de hera.
Em derredor de ti, loucamente, passava
Um turbilhão febril de raparigas, quase
Nuas, veladas só por um sendal de gaze,
Mais leve do que o som que Zéfiro soprava...
Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)
Ontem eu me encontrei contigo, ó primavera,
Os lábios a sorrir, como uma flor vermelha,
Tu trazias na mão a clássica corbelha,
E na fronte ideal uma coroa de hera.
Em derredor de ti, loucamente, passava
Um turbilhão febril de raparigas, quase
Nuas, veladas só por um sendal de gaze,
Mais leve do que o som que Zéfiro soprava...
Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)
sexta-feira, agosto 05, 2011
Palestra no Instituto Neo-Pitagórico, neste domingo...
Emiliano e Ilusão
por Ivan Justen Santana
doutorando em estudos literários pela UFPR,
pesquisador da obra de Emiliano Perneta.
Neste mês de agosto, comemora-se o centenário de
Ilusão, principal livro de poemas de Emiliano,
publicado em Curitiba, em agosto de 1911.
A palestra será neste domingo (dia 07/08), às 15h.
Entrada franca.
O Instituto Neo-Pitagórico localiza-se na
Rua Prof. Dario Vellozo, 460
no bairro Vila Izabel, em Curitiba.
(telefone: 3242-1840)
Esta foto da fachada do Templo das Musas, que fica no Instituto,
é do arquivo do INP, creditada a AC.
por Ivan Justen Santana
doutorando em estudos literários pela UFPR,
pesquisador da obra de Emiliano Perneta.
Neste mês de agosto, comemora-se o centenário de
Ilusão, principal livro de poemas de Emiliano,
publicado em Curitiba, em agosto de 1911.
A palestra será neste domingo (dia 07/08), às 15h.
Entrada franca.
O Instituto Neo-Pitagórico localiza-se na
Rua Prof. Dario Vellozo, 460
no bairro Vila Izabel, em Curitiba.
(telefone: 3242-1840)
Esta foto da fachada do Templo das Musas, que fica no Instituto,
é do arquivo do INP, creditada a AC.
terça-feira, agosto 02, 2011
ZONAS EROGINECOLÓGICAS
Sim, eu sei que bem mais importantes serão os recheios,
Mas vamos começar com os interessantes bicos dos seios.
A seguir, e ainda mal começando as vistas preliminares,
Vamos refletir sobre abstratas e concretas trocas de olhares.
Começando a nos aquecer e a ficar cada vez mais quentes,
Atentem-se em todas as zonas aos detalhes diferentes.
Pode ser que bem ali mesmo, no encontro de costas e axilas
Haja curvas e certas fendas para tateá-las e descobri-las.
Pois sim, aprofundando-nos, nunca devemos subestimar
Da curva do cocuruto, pela nuca, até a curva do calcanhar.
É lógico e ecológico que uma investigação mais profunda,
É ginecológico e eroginecológico: ronda duplamente a bunda.
E enfim, não sós, mas juntos com mãos, pés, braços, pernas,
Largam-se modas modernas de volta aos templos das cavernas...
Mas vamos começar com os interessantes bicos dos seios.
A seguir, e ainda mal começando as vistas preliminares,
Vamos refletir sobre abstratas e concretas trocas de olhares.
Começando a nos aquecer e a ficar cada vez mais quentes,
Atentem-se em todas as zonas aos detalhes diferentes.
Pode ser que bem ali mesmo, no encontro de costas e axilas
Haja curvas e certas fendas para tateá-las e descobri-las.
Pois sim, aprofundando-nos, nunca devemos subestimar
Da curva do cocuruto, pela nuca, até a curva do calcanhar.
É lógico e ecológico que uma investigação mais profunda,
É ginecológico e eroginecológico: ronda duplamente a bunda.
E enfim, não sós, mas juntos com mãos, pés, braços, pernas,
Largam-se modas modernas de volta aos templos das cavernas...
quinta-feira, julho 28, 2011
Dois gentis poemas em parceria com o Polaco da Barreirinha
APOCALIPSENÃO
serei breve:
calor de neve
sob sol ferve
vem pra porrada
se acha que nada
me deve
eu apelo aos maus elementos
da tabela de mendeleiéve
não discuta como escrevo
pelo que lembro nada lhe devo
posso não saber porra nenhuma
pronome pra gramático que suma
sei que te conheço pela alcunha:
sem dente nem unha
jamais serás minha testemunha
* * *
APOCALIPSE NÃO II
teu olho gordo
emagrece a olhos vistos
pode vir com todos
os teus jesus cristos
nenhum deus aliviará
teus erros crassos mortais
todos os homens são sinistros
imortais somente os sonhos
as catedrais batem os sinais
e os trens apitam os sinos
se for pra ser como você
daqui pra frente
tudo pode
tudo pode e vai acontecer
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
serei breve:
calor de neve
sob sol ferve
vem pra porrada
se acha que nada
me deve
eu apelo aos maus elementos
da tabela de mendeleiéve
não discuta como escrevo
pelo que lembro nada lhe devo
posso não saber porra nenhuma
pronome pra gramático que suma
sei que te conheço pela alcunha:
sem dente nem unha
jamais serás minha testemunha
* * *
APOCALIPSE NÃO II
teu olho gordo
emagrece a olhos vistos
pode vir com todos
os teus jesus cristos
nenhum deus aliviará
teus erros crassos mortais
todos os homens são sinistros
imortais somente os sonhos
as catedrais batem os sinais
e os trens apitam os sinos
se for pra ser como você
daqui pra frente
tudo pode
tudo pode e vai acontecer
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
segunda-feira, julho 25, 2011
Um tributo inevitável à vítima da vez...
I HEARD IT THROUGH THE GRAPEVINE
(Norman Whitfield / Barrett Strong)
UM PASSARINHO ME CONTOU
(Versão Brasileira: Ivan Justen Santana)
I bet you wonderin' how I knew
'Bout your plans to make me blue
With some other guy you knew before
Between two of us guys you know I love you more
It took me by surprise, I must say
When I found you yesterday
Aposto que você imagina como eu sabia
Dos seus planos de me fazer essa judiaria
Com esse outro cara, um velho chapa seu
Mas de nós dois quem te ama mais sou eu
Me pegou de surpresa, é melhor que eu conte
Que eu te vi de longe ontem à noite
Don't you know that
I heard it through the grapevine
Not much longer would you be mine
I heard it through the grapevine
Oh I'm just about to lose my mind
Honey, honey, oh, baby
Não sabia você, mas
Um passarinho me contou
Que não seria longo o nosso amor
Um passarinho me contou
E estou prestes a perder o tom
Minha honey baby
I know a man ain't supposed to cry
But these tears I can't hold inside
Losin' you would end my life you see
Cause you mean that much to me
You could have told me yourself
That you loved someone else
Sei que um homem não se vê chorar
Mas esse choro eu não sei segurar
Perder você pra mim vai ser o fim
Percebeu como valia tanto assim?
Você podia ter me dito uma palavra
Sobre como amava esse outro cara
Instead
I heard it through the grapevine
Not much longer would you be mine
Ohh I heard it through the grapevine
And I'm just about to lose my mind
Honey, honey
Em vez disso
Um passarinho me contou
Que não duraria muito o nosso amor
Ohh, um passarinho me contou
E estou prestes a perder o tom
Minha honey baby
People say believe half of what you see
Oh, and none of what your hear
But I can't help but be confused
If it's true please tell me dear
Do you plan to let me go
For the other guy you loved before?
Dizem não acredite em tudo que é visto
Só não duvide do que chega ao ouvido
Mas não consigo não ficar confuso
Se é verdade então me conte tudo
Você planeja me largar na estrada
E ir ficar com aquele outro cara?
I heard it through the grapevine
Not much longer would you be mine
Ohh I heard it through the grapevine
And I'm just about to lose my mind
Honey, honey
Um passarinho me contou
Que não duraria muito o nosso amor
Ohh, um passarinho me contou
E estou prestes a perder o tom
Minha honey baby
domingo, julho 17, 2011
SARAIVADAS A ILHA E RIO
(Para Alberto Centurião e Sandra Adriana Fasolo)
Nenhuma ilha é um ser humano
se não souber quais livros levar a si.
Desertos são grandes mesmo habitados
e as veredas não molham o mesmo engano
duas vezes num espelho de lagoa que sorri
a um rio cercado de ilhas por todos os lados.
*
Nenhuma ilha é um ser humano
se não souber quais livros levar a si.
Desertos são grandes mesmo habitados
e as veredas não molham o mesmo engano
duas vezes num espelho de lagoa que sorri
a um rio cercado de ilhas por todos os lados.
*
quinta-feira, julho 14, 2011
Versos de Emiliano Perneta, em prenúncio deste mês de agosto...
VERSOS DE OUTRORA
Fui bom. Mas a bondade é coisa trivial:
A infância, a infância fez-me uma guerra infernal.
Fui alegre e sincero. O mundo, a rir, em troco,
Abominavelmente achou que eu era um louco.
Ema, a teus pés caí, beijei-te as mãos, Ester!
Fiz tolices de quem não sabe o que é a mulher...
Com que olhar de altivez, com que fundo desprezo,
Chamastes-me coitado – olhar noutro olhar preso.
Numa ideia de forma esquisita, uma vez,
Aspirei com ardor a esplêndida nudez;
Gente que não entende um fino gozo d’arte,
Que eu era um imoral, disse-o por toda parte.
Indiferentemente eu agora caminho
Sobre rosas em flor ou sobre linho ou espinho;
Automático vou, sem pesar nem prazer;
Ora pois! vamos ver o que é que vão dizer...
[Num País de Bárbaros.]
Emiliano Perneta (1866-1921)
Fonte:
PERNETA, Emiliano
Ilusão e outros poemas.
Rio de Janeiro : GRD, 1966 [pp.51-52]
Fui bom. Mas a bondade é coisa trivial:
A infância, a infância fez-me uma guerra infernal.
Fui alegre e sincero. O mundo, a rir, em troco,
Abominavelmente achou que eu era um louco.
Ema, a teus pés caí, beijei-te as mãos, Ester!
Fiz tolices de quem não sabe o que é a mulher...
Com que olhar de altivez, com que fundo desprezo,
Chamastes-me coitado – olhar noutro olhar preso.
Numa ideia de forma esquisita, uma vez,
Aspirei com ardor a esplêndida nudez;
Gente que não entende um fino gozo d’arte,
Que eu era um imoral, disse-o por toda parte.
Indiferentemente eu agora caminho
Sobre rosas em flor ou sobre linho ou espinho;
Automático vou, sem pesar nem prazer;
Ora pois! vamos ver o que é que vão dizer...
[Num País de Bárbaros.]
Emiliano Perneta (1866-1921)
Fonte:
PERNETA, Emiliano
Ilusão e outros poemas.
Rio de Janeiro : GRD, 1966 [pp.51-52]
quinta-feira, julho 07, 2011
TEORIA LITERÁRIA & PRÁTICA POÉTICA
Nesta trilha estreita de poeta
fujo às vezes da quadrilha.
Mas se aqui não largo
nem alargo a redondilha,
levo pouco perigo à meta.
Mesmo em métrica correta,
me escapa na onda a quilha
e a bola que vai redonda
volta quadrada da forquilha.
Então chega de embromação:
meu verso tem que ser mais
que minha conflagração,
e hoje tive uma sacação
além das rosas do Guimarães
e de seus pães e opiniães,
pra lá do seu bezerro erroso
e do meu estudo de Dario Vellozo.
Acompanhe a maravilha:
se a consciência é a mãe,
a realização será a neta
se a imaginação for filha.
Conclusão com arrepio:
a terceira margem do rio
está ali na beira da ilha.
*
fujo às vezes da quadrilha.
Mas se aqui não largo
nem alargo a redondilha,
levo pouco perigo à meta.
Mesmo em métrica correta,
me escapa na onda a quilha
e a bola que vai redonda
volta quadrada da forquilha.
Então chega de embromação:
meu verso tem que ser mais
que minha conflagração,
e hoje tive uma sacação
além das rosas do Guimarães
e de seus pães e opiniães,
pra lá do seu bezerro erroso
e do meu estudo de Dario Vellozo.
Acompanhe a maravilha:
se a consciência é a mãe,
a realização será a neta
se a imaginação for filha.
Conclusão com arrepio:
a terceira margem do rio
está ali na beira da ilha.
*
domingo, julho 03, 2011
A MIL BEIJOS DE PROFUNDIDADE
(A Thousand Kisses Deep, Leonard Cohen)
The ponies run, the girls are young
The odds are there to beat
You win a while and then its done
Your little winning streak
And summoned now to deal
With your invincible defeat
You live your life as if it's real
A Thousand Kisses Deep
Os pôneis correm, as minas são jovens
A sorte está por ser lançada
Você ganha aqui e ali já morre
Sua sortezinha de chegada
E agora intimam que você encare
Perder sua invencibilidade
E você vive vendo a verdade
A mil beijos de profundidade
I'm turning tricks, I’m getting fixed
I'm back on Boogie Street
You lose your grip and then you slip
Into the Masterpiece
And maybe I had miles to drive
And promises to keep
You ditch it all to stay alive
A Thousand Kisses Deep
Estou no ataque, tomando baque
De volta aos antros da cidade
Você perde a pose e aí desliza
Numa obra-prima de vaidade
Terei eu chão a percorrer
Promessas a manter pra eternidade?
Você larga tudo pra sobreviver
A mil beijos de profundidade
And sometimes when the night is slow
The wretched and the meek
We gather up our hearts and go
A Thousand Kisses Deep
E enquanto a noite vai se arrastando
Os miseráveis e os fracos de vontade
Juntamos nossos corações e vamos
A mil beijos de profundidade
Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea
I saw there were no oceans left
For scavengers like me
I made it to the forward deck
I blessed our remnant fleet
And then consented to be wrecked
A Thousand Kisses Deep
Restritos a sexo, estendemos até
Os limites da navegabilidade
Vi que não tinha mais maré
Pra um pirata da minha linhagem
Pude chegar até o convés
Abençoei o resto da marinhagem
Depois aceitei o naufrágio em pé
A mil beijos de profundidade
I’m turning tricks, I’m getting fixed
I’m back on Boogie Street
I guess they wont exchange the gifts
That you were meant to keep
And quiet is the thought of you
The file on you complete
Except what we forgot to do
A Thousand Kisses Deep
Estou no ataque, tomando baque
De volta aos antros da cidade
Acho que não trocam presentes
Que têm que ser guardados
E está tranquilo pensar em você
O seu arquivo, pronto e revisado
Exceto o que esquecemos de fazer
A mil beijos de profundidade
And sometimes when the night is slow
The wretched and the meek
We gather up our hearts and go
A Thousand Kisses Deep
E enquanto a noite vai se arrastando
Os miseráveis e os fracos de vontade
Juntamos nossos corações e vamos
A mil beijos de profundidade
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
The ponies run, the girls are young
The odds are there to beat
You win a while and then its done
Your little winning streak
And summoned now to deal
With your invincible defeat
You live your life as if it's real
A Thousand Kisses Deep
Os pôneis correm, as minas são jovens
A sorte está por ser lançada
Você ganha aqui e ali já morre
Sua sortezinha de chegada
E agora intimam que você encare
Perder sua invencibilidade
E você vive vendo a verdade
A mil beijos de profundidade
I'm turning tricks, I’m getting fixed
I'm back on Boogie Street
You lose your grip and then you slip
Into the Masterpiece
And maybe I had miles to drive
And promises to keep
You ditch it all to stay alive
A Thousand Kisses Deep
Estou no ataque, tomando baque
De volta aos antros da cidade
Você perde a pose e aí desliza
Numa obra-prima de vaidade
Terei eu chão a percorrer
Promessas a manter pra eternidade?
Você larga tudo pra sobreviver
A mil beijos de profundidade
And sometimes when the night is slow
The wretched and the meek
We gather up our hearts and go
A Thousand Kisses Deep
E enquanto a noite vai se arrastando
Os miseráveis e os fracos de vontade
Juntamos nossos corações e vamos
A mil beijos de profundidade
Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea
I saw there were no oceans left
For scavengers like me
I made it to the forward deck
I blessed our remnant fleet
And then consented to be wrecked
A Thousand Kisses Deep
Restritos a sexo, estendemos até
Os limites da navegabilidade
Vi que não tinha mais maré
Pra um pirata da minha linhagem
Pude chegar até o convés
Abençoei o resto da marinhagem
Depois aceitei o naufrágio em pé
A mil beijos de profundidade
I’m turning tricks, I’m getting fixed
I’m back on Boogie Street
I guess they wont exchange the gifts
That you were meant to keep
And quiet is the thought of you
The file on you complete
Except what we forgot to do
A Thousand Kisses Deep
Estou no ataque, tomando baque
De volta aos antros da cidade
Acho que não trocam presentes
Que têm que ser guardados
E está tranquilo pensar em você
O seu arquivo, pronto e revisado
Exceto o que esquecemos de fazer
A mil beijos de profundidade
And sometimes when the night is slow
The wretched and the meek
We gather up our hearts and go
A Thousand Kisses Deep
E enquanto a noite vai se arrastando
Os miseráveis e os fracos de vontade
Juntamos nossos corações e vamos
A mil beijos de profundidade
versão brasileira:
Ivan Justen Santana
terça-feira, junho 28, 2011
NADA – OU QUASE ATÉ UMA ARTE POÉTICA
mal
lar
me
li
vre
lar
me
li
vre
não vejo mais aquela que num bar me caça
na nossa carne triste uma frágil barcaça
assiste a um fim de missa ao capitão fracassa
e não sobrou poção nesta cabaça escassa
procuro um leito de procusto que revele
até onde se lê neste verso vela ou pele
se foi nela uma tela a bela cela dele
um paralelo entre bacante de biquíni
e tosca execução da tosca a toscanini
num filme de fellini refilmado em rimini
um símbolo de sim tropeçando num toco
bolando um bolo simbolista com ovo oco
coadjuvando um zebu e um gnu e um urubu
para picar o pé de um mestre do kung fu
surge a convocação ao nu de uma surucucu
coloco um lírio em fundo verde e reverdece
só quero ver se sóbria a barca sobe ou desce
nesta maré crescente um livro sobrenada
nele acrescento só o que livro sobre nada
*
segunda-feira, junho 27, 2011
ORBITAIS
(composto sob inspirações dialógicas de Sandra Adriana, Roberto Prado e Alberto Centurião)
uma lua azul no zênite
desliza
uma lua negra no nadir
desluza
enquanto isso
nebulosamente
outro satélite colapsa
numa elipse de eclipse
*
uma lua azul no zênite
desliza
uma lua negra no nadir
desluza
enquanto isso
nebulosamente
outro satélite colapsa
numa elipse de eclipse
*
domingo, junho 26, 2011
NÓS, AS CRIANÇAS DESTE MILÊNIO
(para Monica Berger, Sérgio Viralobos e Sandra Adriana Fasolo)
Nós, as crianças deste milênio
temos dez, vinte, trinta, quarenta,
cinquenta e até cento e poucos anos.
Estamos nesta terra a passeio?
Tem vezes que é isso que aparenta.
Tem vezes que assim nos enganamos.
Aqui neste país meio cheio,
a língua que falamos ostenta
estranhezas em seus muitos planos.
Mas isso não é só aqui. É um veio
que toda língua pensa que inventa
nas babélicas fusões de humanos.
Tal fala falamos, pois também o
falar nos refere a gente, imensa
variação dos tratos cotidianos.
Portanto, a gente, as crianças deste
milênio (notem que os calendários,
quais línguas, tampouco servem todos)
ainda estamos em tempos de peste,
em tempos de desajustes vários.
Notamos quanto nos faltam modos,
quanto falta um respeito que preste
a todos. Sujamos o lugar, e os
saberes que temos são só dos
poucos que pensam que sabem. Neste
cenário, entre impossíveis cenários,
desengatando-nos dos engodos,
se é possível salvar o que reste,
talvez só esta percepção aclare os
fatos, raspe os restos, passe os rodos:
a humanidade ainda engatinha.
Debatemo-nos, bichos dispersos,
filhotes disputando algum prêmio.
Nossa arte? Até que ela é bonitinha.
No meio dos pesadelos: gestos.
No meio da massa rude: gênios.
Religiões, ciências vêm como vinha
comovente a inocência. Imersos,
valores suplicam oxigênio
na atmosfera humana que definha.
Mas sejam ensaios estes restos.
Seja tudo isto parte do treino.
Seja aqui só o início da linha
por mais horizontes e universos
além destes quarenta e seis versos
a nós, crianças deste milênio.
* * *
Nós, as crianças deste milênio
temos dez, vinte, trinta, quarenta,
cinquenta e até cento e poucos anos.
Estamos nesta terra a passeio?
Tem vezes que é isso que aparenta.
Tem vezes que assim nos enganamos.
Aqui neste país meio cheio,
a língua que falamos ostenta
estranhezas em seus muitos planos.
Mas isso não é só aqui. É um veio
que toda língua pensa que inventa
nas babélicas fusões de humanos.
Tal fala falamos, pois também o
falar nos refere a gente, imensa
variação dos tratos cotidianos.
Portanto, a gente, as crianças deste
milênio (notem que os calendários,
quais línguas, tampouco servem todos)
ainda estamos em tempos de peste,
em tempos de desajustes vários.
Notamos quanto nos faltam modos,
quanto falta um respeito que preste
a todos. Sujamos o lugar, e os
saberes que temos são só dos
poucos que pensam que sabem. Neste
cenário, entre impossíveis cenários,
desengatando-nos dos engodos,
se é possível salvar o que reste,
talvez só esta percepção aclare os
fatos, raspe os restos, passe os rodos:
a humanidade ainda engatinha.
Debatemo-nos, bichos dispersos,
filhotes disputando algum prêmio.
Nossa arte? Até que ela é bonitinha.
No meio dos pesadelos: gestos.
No meio da massa rude: gênios.
Religiões, ciências vêm como vinha
comovente a inocência. Imersos,
valores suplicam oxigênio
na atmosfera humana que definha.
Mas sejam ensaios estes restos.
Seja tudo isto parte do treino.
Seja aqui só o início da linha
por mais horizontes e universos
além destes quarenta e seis versos
a nós, crianças deste milênio.
* * *
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
quarta-feira, junho 22, 2011
SE LITERATURA FOSSE CRIME (E NÃO É?)
(inspirado por uma observação de Ricardo Pozzo e um questionamento de Lívia Lakomy)
Todo literato é um tipo manso (ou Manson?) de sociopata.
Portanto:
se James Joyce é um Jesse James,
William Faulkner é um Billy The Kid,
e Jack Kerouac, o Estripador.
Guimarães Rosa é um Lampião.
Dalton Trevisan, um Bandido da Luz Vermelha.
Paulo Leminski, um Monge da Lapa.
E você, Ivan?
Você foi um projeto de Maníaco do Parque
(enquanto amestrava-se no campus da USP)
mas agora você virou um tipo de Dexter
(o do seriado, não o do desenho)
apavorando a cultura curitibana
com o sobrenome artístico de Justen Santana.
*
Todo literato é um tipo manso (ou Manson?) de sociopata.
Portanto:
se James Joyce é um Jesse James,
William Faulkner é um Billy The Kid,
e Jack Kerouac, o Estripador.
Guimarães Rosa é um Lampião.
Dalton Trevisan, um Bandido da Luz Vermelha.
Paulo Leminski, um Monge da Lapa.
E você, Ivan?
Você foi um projeto de Maníaco do Parque
(enquanto amestrava-se no campus da USP)
mas agora você virou um tipo de Dexter
(o do seriado, não o do desenho)
apavorando a cultura curitibana
com o sobrenome artístico de Justen Santana.
*
segunda-feira, junho 20, 2011
I HEAR AN ARMY... (será um exército de leitores de James Joyce?)
[poema XXXVI de Chamber Music (1907),
livro de estreia de James Joyce]
__I hear an army charging upon the land,
And the thunder of horses plunging, foam about their knees:
__Arrogant, in black armour, behind them stand,
Disdaining the reins, with fluttering whips, the charioteers.
__Eu ouço uma tropa atacando por sobre a terra,
E o tropel de cavalos precipitando-se, espuma aos joelhos:
__Arrogantes, em couraça negra, atrás se encerram,
Desdenhando as rédeas, chicotes ao vento, os cocheiros.
__They cry unto the night their battle-name:
I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter.
__They cleave the gloom of dreams, a blinding flame,
Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil.
__Eles gritam noite adentro seu bordão de batalha:
Eu gemo em sono quando ouço ao longe o gargalhar que roda.
__Eles rompem a bruma dos sonhos, flama que aparvalha,
Retinindo, retinindo no peito qual numa bigorna.
__They come shaking in triumph their long, green hair:
They come out of the sea and run shouting by the shore.
__My heart, have you no wisdom thus to despair?
My love, my love, my love, why have you left me alone?
__Eles vêm tremulando em triunfo seu verde, longo cabelo:
Emergem do mar e correm berrando, trazendo desastre.
__Meu coração, falta-te prudência para o desespero?
Meu amor, meu amor, meu amor, por que me abandonaste?
Tradutor abandonado: Ivan Justen Santana
*
livro de estreia de James Joyce]
__I hear an army charging upon the land,
And the thunder of horses plunging, foam about their knees:
__Arrogant, in black armour, behind them stand,
Disdaining the reins, with fluttering whips, the charioteers.
__Eu ouço uma tropa atacando por sobre a terra,
E o tropel de cavalos precipitando-se, espuma aos joelhos:
__Arrogantes, em couraça negra, atrás se encerram,
Desdenhando as rédeas, chicotes ao vento, os cocheiros.
__They cry unto the night their battle-name:
I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter.
__They cleave the gloom of dreams, a blinding flame,
Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil.
__Eles gritam noite adentro seu bordão de batalha:
Eu gemo em sono quando ouço ao longe o gargalhar que roda.
__Eles rompem a bruma dos sonhos, flama que aparvalha,
Retinindo, retinindo no peito qual numa bigorna.
__They come shaking in triumph their long, green hair:
They come out of the sea and run shouting by the shore.
__My heart, have you no wisdom thus to despair?
My love, my love, my love, why have you left me alone?
__Eles vêm tremulando em triunfo seu verde, longo cabelo:
Emergem do mar e correm berrando, trazendo desastre.
__Meu coração, falta-te prudência para o desespero?
Meu amor, meu amor, meu amor, por que me abandonaste?
Tradutor abandonado: Ivan Justen Santana
*
domingo, junho 19, 2011
SONETÃO TÃO ANTIGO QUE JÁ ESTÁ QUASE CONTEMPORÂNEO
Quase procrastinando pra amanhã
tudo que eu tinha que fazer anteontem,
vou tocando minha vida de Ivan
antes que as horas-peças me desmontem.
Não, não, eu não nasci lá na Bahia
e nunca vi mucama nem feitor:
meu troco máximo na travessia
é só um salário mínimo de amor.
Portanto vou sair torcendo muito
que uma onça beba inteira minha mágoa.
Mas se eu não chorar um tufão grau médio,
qualquer copo d’água será fortuito.
Prometo que assim prometeico alago a
terra a vista, a vinho, a vodka ou a tédio.
*
tudo que eu tinha que fazer anteontem,
vou tocando minha vida de Ivan
antes que as horas-peças me desmontem.
Não, não, eu não nasci lá na Bahia
e nunca vi mucama nem feitor:
meu troco máximo na travessia
é só um salário mínimo de amor.
Portanto vou sair torcendo muito
que uma onça beba inteira minha mágoa.
Mas se eu não chorar um tufão grau médio,
qualquer copo d’água será fortuito.
Prometo que assim prometeico alago a
terra a vista, a vinho, a vodka ou a tédio.
*
sexta-feira, junho 17, 2011
Clash of translatitans (ou kléche oftrans leitortaitans) (ou classe de tradutortos)
(postagem dedicada ao Adriano Scandolara, pela derrota que me infligiu no Concurso de Tradução Bloomsday, da Ateliê Editorial)
parágrafos 4 e 5 do Finnegans Wake de James Joyce. Nessa minha reimaginação a seguir, convido os leitores a me verem como um dos "Maláquios Enxacuecas", sendo que o posto de "Solnesstre Finnegan" foi devidamente conquistado pelo Adriano: honras à tradução dele, que merece ser curtida por todos clicando aqui.
versão caída em desgraça: Ivan Justen Santana
parágrafos 4 e 5 do Finnegans Wake de James Joyce. Nessa minha reimaginação a seguir, convido os leitores a me verem como um dos "Maláquios Enxacuecas", sendo que o posto de "Solnesstre Finnegan" foi devidamente conquistado pelo Adriano: honras à tradução dele, que merece ser curtida por todos clicando aqui.
Que confrontos aqui de intenções fregen tensões, ostragodeuses humordaçam peixingodeuses! Bréqueq Quéqueq Quéqueq Quéqueq! Cóaks Cóaks Cóaks! Ualu Ualu Ualu! Quaouauh! Onde os sequases Baldelérios ainda saem assassinalar Maláquios Enxacuecas e os Verdonos catapeitam as camibalísticas fora do Semterroyce de Cabo CaHbEcê. Aziagaios e bumeringuestres. Prole d’áurea, valei-me homedo! Sanglórios, salvai! Armas apelam a larmas, apalermando. Guilhogatilhotina: a paga, a paga. Que amassetetes casuais, que arcaymuros aéreos e crivados! Que mepropõetestantes sinduzidas por que tegotetabsolvos! Que vero tato pelos belcabelos delas com que voz canudora de falso esauluço! Ó: houve, houve como esparracachou-se em pó o pai dos fornicacionistas mas, (Ó meus raios fúlgidos e corpo!) como pendãostendeu-se augusto firmamento o signocéu de macio anúncio! Mas era iz? Issol de? Outreram ermãs? Os carvos antigalhos agora jazem na turfa entre tanto inda adãolmos saltam onde se deitam as cinzevas. Tumbai se menosquereis, erguer-vos devereis: e nenhum tãopronto trará tampouco a pharsa sob a atual circonstância a um secular acerto fimfênix.
Solnesstre Finnegan, o da Mão Gagueja, grãopedreiro dos livres, vivia na mais larga via imarginável em seu candelar muilalonge para cassítios eras antes de juízes josuézes nos darem números ou Helvítico cometer deuteronômio (um dia fermenteontem ele sterneamente enfstixou a catesta num tonel para aswiftir ao futuro de seus fados mas nem a desretirara quando, pelo poder de moisés, a água tonelada evaporiu-se e todas as gênejas tiveram êxodos o que mostra o pentateucado chapa que ele era!) e durante muiscos e múisculos anos ímpares este homem de cochocimento edifícios amontou prédico supra prédico no Vilarejo de Pinguiço sôbolos bancos aos riventes beirinhos. Ele dentinha tiquinha espozéquia Aninha udenda criarturrinha. Cônseus calbelos nas mões encaçapava tuas partesnela. Frequemente bálbulo, mitradiante, envergando avistosa trolha e o macacão marfinado que ele habitacularmente gozotava, como Harum Childérico Eovoberto ele caliculava por multiplicáveis o altitudo e maltitudo até que vaivisse à nitiluz alcoótica duond’era nata, a túvola cabeçonda d’outros dias a erguer-se em desvestida maizonaria (joypermita!), uma uaralha de um arranhassalvo da mais tórrea envergrandura, irlangerando-se de quase a nada e celescalando cimos e laia, hierarquitectictactiptopáltico, com uma sarça ardente entope do babeltopo e com laurons o’tolos sapando acima e tombaldes d’beckets teando abaixo.
James Joyceversão caída em desgraça: Ivan Justen Santana
quarta-feira, junho 15, 2011
ECCE PUER
Quatro gerações Joyce:
retrato de John Joyce (pai do escritor), James Joyce,
Giorgio (o filho) e Stephen (o neto)
em foto de Gisèle Freund.
(fonte: Letras in.verso e re.verso)
retrato de John Joyce (pai do escritor), James Joyce,
Giorgio (o filho) e Stephen (o neto)
em foto de Gisèle Freund.
(fonte: Letras in.verso e re.verso)
(em agradecimentomenagem ao Rodrigo Madeira, poeta-tradutor-irmão-brother-in-arms, e dedicando esta postagem também a meu pai, Rui Antonio Santana, hoje aniversariante:)
ECCE PUER
Do passado escuro
Um menino nasce;
Alegre e sofrido
Meu peito desfaz-se.
Tranquilo no berço
O vivo, à vontade;
Seus olhos que os abram
Amor e piedade!
Nova vida o vidro
Respirada embaça;
O que antes nem era
Como veio passa.
Um velho se foi:
Descansa um menino.
Ó pai renegado,
Perdoa teu filho!
James Joyce
trad.: rodrigo madeira
ECCE PUER
Of the dark past
A child is born;
With joy and grief
My heart is torn.
Calm in his cradle
The living lies.
May love and mercy
Unclose his eyes!
Young life is breathed
On the glass;
The world that was not
Comes to pass.
A child is sleeping:
An old man gone.
O, father forsaken,
Forgive your son!
* ecce puer (é um menino!) foi escrito em 1932, ano em que nasceu o neto e morreu o pai de james joyce.
sexta-feira, junho 10, 2011
BLOOMSDAYS (and night!) EM CURITIBA
De segunda a quinta-feira da semana que vem!
Saibam quando, onde, que horas, o que, e com quem:
Programações do Bloomsday 2011 em Curitiba
13/06 (segunda-feira) – Reitoria da UFPR – Ed. D. Pedro I, Anfiteatro 100
16h15 – Palestra Bloom & Molly
Profa. Dra. Luci Collin (Cadeira 14 da Academia Feminina de Letras do Paraná)
Encerramento do Curso de Extensão Semânticas do Amor (UFPR)
Evento Especial da Segunda no Centro, do Centro Paranaense Feminino de Cultura
Entrada franca
14/06 (terça-feira) – Livrarias Curitiba – Shopping Estação
19h30 – Palestra A literatura e as artes na obra de James Joyce
Prof. Guilherme Gontijo Flores (UFPR)
Entrada franca
14, 15 e 16/06 (de terça a quinta-feira)
Auditório da Biblioteca Pública do Paraná
BLOOMSDAY CONEXÃO CURITIBA
Organização e promoção: Museu da Imagem e do Som – MIS
e Biblioteca Pública do Paraná
Sempre às 19h, palestras e filmes, com entrada franca
Exibição dos filmes Os vivos e os mortos (14/06), Bloom (15/06) e Alucinação de Ulisses (16/06)
Relançamento do livro A pau a pedra a fogo a pique: dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski (org. Prof. Dr. Marcelo Sandmann – UFPR), editado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná
(14/06) Palestra A narrativa "Os Mortos" no texto de Joyce e na tela de Houston
Profa. Dra. Brunilda Reichmann (Uniandrade)
(15/06) Palestra James Paulo Joyce Leminski
Ivan Justen Santana (Doutorando UFPR)
(16/06) Leitura dramática de Giacomo Joyce
com Helena Portella, sob direção de Octavio Camargo
14/06 (terça-feira) – Wonka Bar (Trajano Reis, 326)
22h – BLOOMSnight! na Wonkademia
Celebração joyciana com Ivan Justen Santana e convidados
Entrada: R$ 3,00
16/06 (quinta-feira) – Reitoria da UFPR – Ed. D. Pedro I – Anfiteatro 1100
15h – Bloomsday na Reitoria
Ato variado com récitas, leituras comentadas e leitura dramática (participações de Sabrina Lopes, Límerson Morales, Léo Glück, Márcia Tirapelli, Gleuza Salomon, Marília Kubota, Homero Gomes, Ivan Justen Santana)
Entrada franca
Saibam quando, onde, que horas, o que, e com quem:
Programações do Bloomsday 2011 em Curitiba
13/06 (segunda-feira) – Reitoria da UFPR – Ed. D. Pedro I, Anfiteatro 100
16h15 – Palestra Bloom & Molly
Profa. Dra. Luci Collin (Cadeira 14 da Academia Feminina de Letras do Paraná)
Encerramento do Curso de Extensão Semânticas do Amor (UFPR)
Evento Especial da Segunda no Centro, do Centro Paranaense Feminino de Cultura
Entrada franca
14/06 (terça-feira) – Livrarias Curitiba – Shopping Estação
19h30 – Palestra A literatura e as artes na obra de James Joyce
Prof. Guilherme Gontijo Flores (UFPR)
Entrada franca
14, 15 e 16/06 (de terça a quinta-feira)
Auditório da Biblioteca Pública do Paraná
BLOOMSDAY CONEXÃO CURITIBA
Organização e promoção: Museu da Imagem e do Som – MIS
e Biblioteca Pública do Paraná
Sempre às 19h, palestras e filmes, com entrada franca
Exibição dos filmes Os vivos e os mortos (14/06), Bloom (15/06) e Alucinação de Ulisses (16/06)
Relançamento do livro A pau a pedra a fogo a pique: dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski (org. Prof. Dr. Marcelo Sandmann – UFPR), editado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná
(14/06) Palestra A narrativa "Os Mortos" no texto de Joyce e na tela de Houston
Profa. Dra. Brunilda Reichmann (Uniandrade)
(15/06) Palestra James Paulo Joyce Leminski
Ivan Justen Santana (Doutorando UFPR)
(16/06) Leitura dramática de Giacomo Joyce
com Helena Portella, sob direção de Octavio Camargo
14/06 (terça-feira) – Wonka Bar (Trajano Reis, 326)
22h – BLOOMSnight! na Wonkademia
Celebração joyciana com Ivan Justen Santana e convidados
Entrada: R$ 3,00
16/06 (quinta-feira) – Reitoria da UFPR – Ed. D. Pedro I – Anfiteatro 1100
15h – Bloomsday na Reitoria
Ato variado com récitas, leituras comentadas e leitura dramática (participações de Sabrina Lopes, Límerson Morales, Léo Glück, Márcia Tirapelli, Gleuza Salomon, Marília Kubota, Homero Gomes, Ivan Justen Santana)
Entrada franca
terça-feira, junho 07, 2011
EXCELSIOR
The shades of night were falling fast,
As through an Alpine village passed
A youth, who bore, ’mid snow and ice,
A banner with the strange device,
____Excelsior!
As sombras da noite desciam depressa,
E entre gelo e neve um jovem atravessa
Uma vila Alpina, empunhando altivo
Um pendão com este estranho distintivo:
____Excelsior!
His brow was sad; his eye beneath,
Flashed like a falchion from its sheath,
And like a silver clarion rung
The accents of that unknown tongue,
____Excelsior!
Sua fronte é triste; em seu olhar caminha
A faísca de uma espada na bainha,
E como um clarim de prata, vibra a vida
No sotaque de uma língua já esquecida:
____Excelsior!
In happy homes he saw the light
Of household fires gleam warm and bright;
Above, the spectral glaciers shone,
And from his lips escaped a groan,
____Excelsior!
Ele via as luzes de alegres lareiras,
Chamas fulgindo, quentes e hospitaleiras;
No alto, geleiras de resplendor temido,
E dos seus lábios escapava um grunhido:
____Excelsior!
“Try not the Pass!” the old man said;
“Dark lowers the tempest overhead,
The roaring torrent is deep and wide!”
And loud that clarion voice replied,
____Excelsior!
“Não tentes passar desfiladeiro acima!”
Disse o velho; “a tempestade se aproxima,
A tremenda torrente é profunda e brava!”
E uma voz alta qual clarim replicava:
____Excelsior!
“O stay,” the maiden said, “and rest
Thy weary head upon this breast!”
A tear stood in his bright blue eye,
But still he answered, with a sigh,
____Excelsior!
“Ó, fica,” disse a donzela, “e aplaca
Neste meu seio tua cabeça fraca!”
Do olhar brilhante uma lágrima pendeu,
Mas, suspirando fundo, ele respondeu:
____Excelsior!
“Beware the pine-tree’s withered branch!
Beware the awful avalanche!”
This was the peasant’s last Good-night,
A voice replied, far up the height,
____Excelsior!
“Cuida que a sua bandeira não enganche!
Cuida que caia a cabulosa avalanche!”
Assim o camponês deu-lhe a despedida,
E a voz replicou, prosseguindo a subida:
____Excelsior!
At break of day, as heavenward
The pious monks of Saint Bernard
Uttered the oft-repeated prayer,
A voice cried through the startled air,
____Excelsior!
Ao raiar do dia, quando à luz divina
Os monges piedosos da ordem bernardina
Proferiam sua oração costumeira,
Um grito atravessava a cordilheira:
____Excelsior!
A traveller, by the faithful hound,
Half-buried in the snow was found,
Still grasping in his hand of ice
That banner with the strange device,
____Excelsior!
Um viajante, pelo mastim alerta
Foi desenterrado da branca coberta,
Ainda empunhando com seu modo altivo
O pendão daquele estranho distintivo:
____Excelsior!
There in the twilight cold and gray,
Lifeless, but beautiful, he lay,
And from the sky, serene and far,
A voice fell, like a falling star,
____Excelsior!
Ali, sob uma aurora cinzenta e fria,
Ali, inerte, porém belo, ele jazia,
E lá do céu, longínqua e serenamente,
Uma voz caiu como estrela cadente:
____Excelsior!
Henry Wadsworth Longfellow
(Manuscrito datado de 28/9/1841, 3:30 am)
Tradução: Ivan Justen Santana
E aqui vai um problema de xadrez com o tema Excelsior: as sombras da noite caindo são os peões pretos, o velho camponês é o rei branco, a donzela é a dama branca, e o jovem com o pendão é o peão de b2. As brancas jogam e ganham:
As through an Alpine village passed
A youth, who bore, ’mid snow and ice,
A banner with the strange device,
____Excelsior!
As sombras da noite desciam depressa,
E entre gelo e neve um jovem atravessa
Uma vila Alpina, empunhando altivo
Um pendão com este estranho distintivo:
____Excelsior!
His brow was sad; his eye beneath,
Flashed like a falchion from its sheath,
And like a silver clarion rung
The accents of that unknown tongue,
____Excelsior!
Sua fronte é triste; em seu olhar caminha
A faísca de uma espada na bainha,
E como um clarim de prata, vibra a vida
No sotaque de uma língua já esquecida:
____Excelsior!
In happy homes he saw the light
Of household fires gleam warm and bright;
Above, the spectral glaciers shone,
And from his lips escaped a groan,
____Excelsior!
Ele via as luzes de alegres lareiras,
Chamas fulgindo, quentes e hospitaleiras;
No alto, geleiras de resplendor temido,
E dos seus lábios escapava um grunhido:
____Excelsior!
“Try not the Pass!” the old man said;
“Dark lowers the tempest overhead,
The roaring torrent is deep and wide!”
And loud that clarion voice replied,
____Excelsior!
“Não tentes passar desfiladeiro acima!”
Disse o velho; “a tempestade se aproxima,
A tremenda torrente é profunda e brava!”
E uma voz alta qual clarim replicava:
____Excelsior!
“O stay,” the maiden said, “and rest
Thy weary head upon this breast!”
A tear stood in his bright blue eye,
But still he answered, with a sigh,
____Excelsior!
“Ó, fica,” disse a donzela, “e aplaca
Neste meu seio tua cabeça fraca!”
Do olhar brilhante uma lágrima pendeu,
Mas, suspirando fundo, ele respondeu:
____Excelsior!
“Beware the pine-tree’s withered branch!
Beware the awful avalanche!”
This was the peasant’s last Good-night,
A voice replied, far up the height,
____Excelsior!
“Cuida que a sua bandeira não enganche!
Cuida que caia a cabulosa avalanche!”
Assim o camponês deu-lhe a despedida,
E a voz replicou, prosseguindo a subida:
____Excelsior!
At break of day, as heavenward
The pious monks of Saint Bernard
Uttered the oft-repeated prayer,
A voice cried through the startled air,
____Excelsior!
Ao raiar do dia, quando à luz divina
Os monges piedosos da ordem bernardina
Proferiam sua oração costumeira,
Um grito atravessava a cordilheira:
____Excelsior!
A traveller, by the faithful hound,
Half-buried in the snow was found,
Still grasping in his hand of ice
That banner with the strange device,
____Excelsior!
Um viajante, pelo mastim alerta
Foi desenterrado da branca coberta,
Ainda empunhando com seu modo altivo
O pendão daquele estranho distintivo:
____Excelsior!
There in the twilight cold and gray,
Lifeless, but beautiful, he lay,
And from the sky, serene and far,
A voice fell, like a falling star,
____Excelsior!
Ali, sob uma aurora cinzenta e fria,
Ali, inerte, porém belo, ele jazia,
E lá do céu, longínqua e serenamente,
Uma voz caiu como estrela cadente:
____Excelsior!
Henry Wadsworth Longfellow
(Manuscrito datado de 28/9/1841, 3:30 am)
Tradução: Ivan Justen Santana
E aqui vai um problema de xadrez com o tema Excelsior: as sombras da noite caindo são os peões pretos, o velho camponês é o rei branco, a donzela é a dama branca, e o jovem com o pendão é o peão de b2. As brancas jogam e ganham:
Vladimir Korolkov, 1969.
(pista: para ganhar é preciso que o peão suba [Excelsior = mais alto e avante!], e seu destino será fatal no final, assim como no poema...)
domingo, junho 05, 2011
NADA DE OURO PERMANECE
NOTHING GOLD CAN STAY
Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower,
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
NADA DE OURO PERMANECE
O verde no início é de ouro,
Seu mais difícil tesouro.
Folha nova em flor aflora,
Mas apenas por uma hora.
Depois folhas se sucedem.
Na mágoa naufraga esse Éden,
No dia essa aurora perde-se.
Nada de ouro permanece.
Robert Frost
Ivan Justen Santana
Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower,
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
NADA DE OURO PERMANECE
O verde no início é de ouro,
Seu mais difícil tesouro.
Folha nova em flor aflora,
Mas apenas por uma hora.
Depois folhas se sucedem.
Na mágoa naufraga esse Éden,
No dia essa aurora perde-se.
Nada de ouro permanece.
Robert Frost
Ivan Justen Santana
quinta-feira, junho 02, 2011
A ARTE DE TRANSFORMAR ÃO EM RIMA RICA
Não: isso não é mais um versinho meu anão.
É um conseguir dizer um sim com um "ah, não!"
Pois é: é conforme o Cartola em "com os teus pés"
rimando interestrofe o "não serás mais o que és".
E assim fica um negócio a todas as idades
feito as nossas bandas mais bonitas das cidades:
sim, você leu bem, pois eu conheço mais de uma:
em Curitiba há seleções musicais para um paideuma.
Mas aí abusei em termos de conhecimento médio,
então volto a falar em linguagem de piá de prédio:
a rima daquela canção, de oração com coração,
mais que decoração merece condecoração!
Assim, encerro sem erro este poema de vez:
sem enfarte (o que for mar, foi feito à mão
e não é filme de efeito do Emir Kusturica)
descosturei aqui pra vocês
a arte de transformar ão
em rima rica.
*
É um conseguir dizer um sim com um "ah, não!"
Pois é: é conforme o Cartola em "com os teus pés"
rimando interestrofe o "não serás mais o que és".
E assim fica um negócio a todas as idades
feito as nossas bandas mais bonitas das cidades:
sim, você leu bem, pois eu conheço mais de uma:
em Curitiba há seleções musicais para um paideuma.
Mas aí abusei em termos de conhecimento médio,
então volto a falar em linguagem de piá de prédio:
a rima daquela canção, de oração com coração,
mais que decoração merece condecoração!
Assim, encerro sem erro este poema de vez:
sem enfarte (o que for mar, foi feito à mão
e não é filme de efeito do Emir Kusturica)
descosturei aqui pra vocês
a arte de transformar ão
em rima rica.
*
segunda-feira, maio 30, 2011
ENCHO TUA TAÇA
Encho tua taça até o topo.
Encho teu copo até a graça.
Ser feliz é o nosso escopo.
Escapo como você faça.
Desgraça cá pra nós é pouco.
Nem todo tapa vale um soco.
O que mais você quer?
Eu quero um abraço
de urso sincero
pro gaiteiro louco
e um chute no saco
valendo zero
de troco.
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
Encho teu copo até a graça.
Ser feliz é o nosso escopo.
Escapo como você faça.
Desgraça cá pra nós é pouco.
Nem todo tapa vale um soco.
O que mais você quer?
Eu quero um abraço
de urso sincero
pro gaiteiro louco
e um chute no saco
valendo zero
de troco.
Antonio Thadeu Wojciechowski
Ivan Justen Santana
quarta-feira, maio 25, 2011
ABRIGO DA TEMPESTADE
(SHELTER FROM THE STORM, Bob Dylan)
Aconteceu noutra vida, uma de sangue, esforço e drama
Quando a escuridão era virtude e a estrada, apenas lama
Eu vim dos sertões selvagens, um tipo sem identidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
E se eu passar aqui de novo, considero contada essa fava
Farei sempre o melhor por ela, empenho minha palavra
Neste mundo de ímpia morte, homens lutando sem irmandade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Nenhuma frase troquei com ela, arriscado qualquer assunto
Tudo até aquela altura foi deixado irresoluto
Imagine um lugar tranquilo, sempre seguro de verdade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Eu estava gasto, totalmente exausto, alvejado de granizo
Envenenado das veredas e das trilhas sem mais siso
Caçado como um crocodilo, estraçalhado na vontade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Súbito virei para trás e lá estava ela, sem apelos
Com braceletes de prata nos pulsos e flores nos cabelos
Ela veio a mim, graciosa, limpou-me as marcas da maldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Agora há um muro entre nós, algo havia e se perdeu
Tomei tudo como certo, e o erro acho que foi meu
E pensar que tudo começou numa manhã já sem saudade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
O delegado anda sobre brasas e o pastor escala morro
Mas nada mais importa muito, os destinos não têm socorro
E o coveiro funerário sopra a trompa da futilidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Já ouvi recém-nascidos chorarem como aves de agouro
E velhos de dentes quebrados, sem amores, sem tesouros
Se entendi sua questão, amigo, não há mais fé nem bondade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Numa vila sobre a colina, apostaram minhas vestimentas
Barganhei por salvação e me deram venenos de ação lenta
Ofertei minha inocência, paga com desprezo e crueldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Estou vivendo no estrangeiro, mas prestes a cruzar a fronteira
A beleza vai no fio da navalha, um dia será minha parceira
Se a quando Deus e ela nasceram eu voltasse a realidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Versão Brasileira: Ivan Justen Santana
*
Aconteceu noutra vida, uma de sangue, esforço e drama
Quando a escuridão era virtude e a estrada, apenas lama
Eu vim dos sertões selvagens, um tipo sem identidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
E se eu passar aqui de novo, considero contada essa fava
Farei sempre o melhor por ela, empenho minha palavra
Neste mundo de ímpia morte, homens lutando sem irmandade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Nenhuma frase troquei com ela, arriscado qualquer assunto
Tudo até aquela altura foi deixado irresoluto
Imagine um lugar tranquilo, sempre seguro de verdade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Eu estava gasto, totalmente exausto, alvejado de granizo
Envenenado das veredas e das trilhas sem mais siso
Caçado como um crocodilo, estraçalhado na vontade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Súbito virei para trás e lá estava ela, sem apelos
Com braceletes de prata nos pulsos e flores nos cabelos
Ela veio a mim, graciosa, limpou-me as marcas da maldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Agora há um muro entre nós, algo havia e se perdeu
Tomei tudo como certo, e o erro acho que foi meu
E pensar que tudo começou numa manhã já sem saudade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
O delegado anda sobre brasas e o pastor escala morro
Mas nada mais importa muito, os destinos não têm socorro
E o coveiro funerário sopra a trompa da futilidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Já ouvi recém-nascidos chorarem como aves de agouro
E velhos de dentes quebrados, sem amores, sem tesouros
Se entendi sua questão, amigo, não há mais fé nem bondade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Numa vila sobre a colina, apostaram minhas vestimentas
Barganhei por salvação e me deram venenos de ação lenta
Ofertei minha inocência, paga com desprezo e crueldade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Estou vivendo no estrangeiro, mas prestes a cruzar a fronteira
A beleza vai no fio da navalha, um dia será minha parceira
Se a quando Deus e ela nasceram eu voltasse a realidade
“Entra,” disse ela, “eu te dou abrigo da tempestade”
Versão Brasileira: Ivan Justen Santana
*
domingo, maio 22, 2011
PROPRIAMENTE
Estranha voz diz: devo parecer alguém.
Mas se eu já fosse alguém, pareceria um outro.
Que diferença faz eu ser montanha ou toco?
Se tropeçar em mim, morro sem ir pro além.
Nem toda sílaba perdoa quem faz bem.
Nem toda letra soluciona um verso solto.
É bem possível que este esteja muito louco:
Sem dor sem cor sem som sem bem sem nem sem sem.
Então tornemos ao começo dessa história.
Nem todo deus existe só em nossa memória.
Àquele que nos escolheu, velas acesas,
Desde que ceda a todos todas as riquezas.
Antonio Thadeu Wojciechoski
Ivan Justen Santana
*
Mas se eu já fosse alguém, pareceria um outro.
Que diferença faz eu ser montanha ou toco?
Se tropeçar em mim, morro sem ir pro além.
Nem toda sílaba perdoa quem faz bem.
Nem toda letra soluciona um verso solto.
É bem possível que este esteja muito louco:
Sem dor sem cor sem som sem bem sem nem sem sem.
Então tornemos ao começo dessa história.
Nem todo deus existe só em nossa memória.
Àquele que nos escolheu, velas acesas,
Desde que ceda a todos todas as riquezas.
Antonio Thadeu Wojciechoski
Ivan Justen Santana
*
segunda-feira, maio 16, 2011
CURITIBA EM LOS ANGELES: PROVA DO CRIME
Cliquem aqui e vejam Adam Cahan lendo o poema a seguir, em Los Angeles, e mencionando esse time de poetas curitibanos, ao som de Human Language, do rapper californiano AC Alone
À ALTA CLASSE CULTURAL CURITIBANA
Ivan Justen Santana
TO THE HIGH-CLASSED CULTURED FROM CURITIBA
(Translated by the author)
Quem vai a toda parte,
vai a Alexandria e à França,
vaiaria as grandes artes
(música, letra e dança)
do Alexandre França?
One who travels the world (all its parts),
who travels to Alexandria and to France,
would he or she hiss at the great arts
(songs, plays and dances)
of Alexandre França?
E quem destrói de novo as Tróias
mas já foi a um de noivos cursilho
desconstruiria as canções do Troy Rossilho?
And one who destroys all Troys and Ylions
but who bends and knees to his received religion,
would he deconstruct the songs of Troy Rossilho?
E quem não se alivia e não espanta o tédio
ouvindo Lívia e os Piá de Prédio?
And who is not relieved and away from boredom
by listening to Lívia e os Piá de Prédio?
(Lívia and the Boys in the Condo)
Sei que aquela criatura
que não escanhoa a barba
nem bebe um mate amargo (feito eu)
agadanhará o CD-livro Língua Madura
de Octavio Camargo, Bárbara & Thadeu.
I know for a fact that he who shaves correctly
and doesn’t drink a sour mate [´Ma:te] (a kind of tea)
like me he will buy the Book-CD Língua Madura
(Mature Tongue), from Octavio Camargo,
Bárbara & Thadeu (The Polack from Barreirinha!)
Então não me xingues nem te vingues
e nunca tentes me dar de talho
se eu leio os versos do Mario Domingues
e as lascas do Ricardo Schmitt Carvalho,
e não pense que é lasqueira
se eu tolero e curto as duchas do Ricardo Corona,
e envernizo os livros do Rodrigo Madeira,
bem como os do Adriano Smaniotto
e os do Edson Falcão –
um é imperador, sem ser escroto,
e o outro, filósofo, fez sua lição –
todos estes sabemos o quanto é fabuloso
ler trabalhos críticos e poéticos do Adalberto
Müller e do Maurício Mendonça Cardozo,
os quais não seriam o que são hoje
não fossem mestres da altura de Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
e outros doutos doutores da UFPR...
So do not plan revenge nor send me curses
and never dare attack me with your tallyho
if I read from Mario Domingues his verses
and also those from Ricardo Schmitt Carvalho,
and do not think it is my madness, minha pira [´mi: ɲa ´pi: rə]
if I tolerate and dig the poems from Ricardo Corona,
and if I varnish the books from Rodrigo [Wood] Madeira,
as well as those from Adriano Smaniotto
and from Edson Falcão – (Falcon Edson!)
the former is an emperor without being a scrottum,
and the latter, a philosopher, knows his lesson –
those like us we all can say how fabulous it is
to read the critic and poetic works from Adalberto
Müller and from Maurício Mendonça Cardozo,
who would not be what they are today
were it not because of masters like Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
and other wise professors from UFPR
(the Federal University of Paraná)…
– Tá legal, Ivan: encerre!
– Alright, Ivan: time to settle down… – Ha!
Sim, encerro antes do fim,
pois a poesia também desabrocha
em meninas assim
como Sabrina, Lu, Nara e Lindsey Rocha,
sem esquecer Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger e, sim,
a não menos que magnífica Luci Collin.
Yes, I’ll settle down before the end,
since poetry also blooms from
girls like these (poets, I’d say:)
Sabrina, Lu, Nara and Lindsey,
last but not least Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger and, yes (with a grin!)
the no less than magnificent Luci Collin.
Pois bem: e já que não tens verruga,
dize-me – já que és bambambam –
já leste os poemas de Rodolfo Jaruga,
de Paulo Bearzoti e de Jaques Brand?
Indeed: and since you have no warts (and kick no rugger)
tell me – since you’re whambam (and play the grand) –
ever read the poems from Rodolfo Jaruga,
from Paulo Bearzoti and from Jaques Brand?
Entretanto, e portanto, finalizando
antes que pensem que o cordão dos
puxa-sacos aqui estou cada vez mais
aumentando, o encerramento eis que aí vai
em estilotanka de Pai-Mei-Hai-Kai:
However, and therefore, in conclusion,
before one thinks I’m a great addition to
the team of The Arsekissers (who increase by
numbers), I’ll finish this by saying hi!
in the tankastyle of a Pai-Mei Hai-Ku-Do-Kai:
quem Leminski
– Alice, Paulo, Estrela –
também Leprevost
one who reads and plays Paulo Leminski
– Alice [solitude, récif, étoile, see Mallarmé], Estrela [Star] –
also reads and plays Luiz Felipe Leprevost
e se com todos estes nem todos vão
eu – por minha vez – vou!
and if with all those not everyone will come
I – for my own turn – will go!
À ALTA CLASSE CULTURAL CURITIBANA
Ivan Justen Santana
TO THE HIGH-CLASSED CULTURED FROM CURITIBA
(Translated by the author)
Quem vai a toda parte,
vai a Alexandria e à França,
vaiaria as grandes artes
(música, letra e dança)
do Alexandre França?
One who travels the world (all its parts),
who travels to Alexandria and to France,
would he or she hiss at the great arts
(songs, plays and dances)
of Alexandre França?
E quem destrói de novo as Tróias
mas já foi a um de noivos cursilho
desconstruiria as canções do Troy Rossilho?
And one who destroys all Troys and Ylions
but who bends and knees to his received religion,
would he deconstruct the songs of Troy Rossilho?
E quem não se alivia e não espanta o tédio
ouvindo Lívia e os Piá de Prédio?
And who is not relieved and away from boredom
by listening to Lívia e os Piá de Prédio?
(Lívia and the Boys in the Condo)
Sei que aquela criatura
que não escanhoa a barba
nem bebe um mate amargo (feito eu)
agadanhará o CD-livro Língua Madura
de Octavio Camargo, Bárbara & Thadeu.
I know for a fact that he who shaves correctly
and doesn’t drink a sour mate [´Ma:te] (a kind of tea)
like me he will buy the Book-CD Língua Madura
(Mature Tongue), from Octavio Camargo,
Bárbara & Thadeu (The Polack from Barreirinha!)
Então não me xingues nem te vingues
e nunca tentes me dar de talho
se eu leio os versos do Mario Domingues
e as lascas do Ricardo Schmitt Carvalho,
e não pense que é lasqueira
se eu tolero e curto as duchas do Ricardo Corona,
e envernizo os livros do Rodrigo Madeira,
bem como os do Adriano Smaniotto
e os do Edson Falcão –
um é imperador, sem ser escroto,
e o outro, filósofo, fez sua lição –
todos estes sabemos o quanto é fabuloso
ler trabalhos críticos e poéticos do Adalberto
Müller e do Maurício Mendonça Cardozo,
os quais não seriam o que são hoje
não fossem mestres da altura de Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
e outros doutos doutores da UFPR...
So do not plan revenge nor send me curses
and never dare attack me with your tallyho
if I read from Mario Domingues his verses
and also those from Ricardo Schmitt Carvalho,
and do not think it is my madness, minha pira [´mi: ɲa ´pi: rə]
if I tolerate and dig the poems from Ricardo Corona,
and if I varnish the books from Rodrigo [Wood] Madeira,
as well as those from Adriano Smaniotto
and from Edson Falcão – (Falcon Edson!)
the former is an emperor without being a scrottum,
and the latter, a philosopher, knows his lesson –
those like us we all can say how fabulous it is
to read the critic and poetic works from Adalberto
Müller and from Maurício Mendonça Cardozo,
who would not be what they are today
were it not because of masters like Marcelo Sandmann,
Benito, Bueno, Tezza, Venturelli, Winck,
and other wise professors from UFPR
(the Federal University of Paraná)…
– Tá legal, Ivan: encerre!
– Alright, Ivan: time to settle down… – Ha!
Sim, encerro antes do fim,
pois a poesia também desabrocha
em meninas assim
como Sabrina, Lu, Nara e Lindsey Rocha,
sem esquecer Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger e, sim,
a não menos que magnífica Luci Collin.
Yes, I’ll settle down before the end,
since poetry also blooms from
girls like these (poets, I’d say:)
Sabrina, Lu, Nara and Lindsey,
last but not least Bárbara Lia, Marilia Kubota,
Monica Berger and, yes (with a grin!)
the no less than magnificent Luci Collin.
Pois bem: e já que não tens verruga,
dize-me – já que és bambambam –
já leste os poemas de Rodolfo Jaruga,
de Paulo Bearzoti e de Jaques Brand?
Indeed: and since you have no warts (and kick no rugger)
tell me – since you’re whambam (and play the grand) –
ever read the poems from Rodolfo Jaruga,
from Paulo Bearzoti and from Jaques Brand?
Entretanto, e portanto, finalizando
antes que pensem que o cordão dos
puxa-sacos aqui estou cada vez mais
aumentando, o encerramento eis que aí vai
em estilotanka de Pai-Mei-Hai-Kai:
However, and therefore, in conclusion,
before one thinks I’m a great addition to
the team of The Arsekissers (who increase by
numbers), I’ll finish this by saying hi!
in the tankastyle of a Pai-Mei Hai-Ku-Do-Kai:
quem Leminski
– Alice, Paulo, Estrela –
também Leprevost
one who reads and plays Paulo Leminski
– Alice [solitude, récif, étoile, see Mallarmé], Estrela [Star] –
also reads and plays Luiz Felipe Leprevost
e se com todos estes nem todos vão
eu – por minha vez – vou!
and if with all those not everyone will come
I – for my own turn – will go!
sábado, maio 14, 2011
TELEPATIA
Literatura é telepatia com todo um passado.
As obras são variantes de todas as obras anteriores.
Não é o indivíduo quem faz literatura, é a Humanidade.
A etimologia é o modelo de uma verdadeira ciência da literatura.
E o plágio, o mais importante dos recursos literários.
Os bem vizinhos de Naziazeno assistem ao ‘pega’ com o leiteiro.
Encontraria a Maga? Tudo no mundo começou com um sim. Encontraria a Maga? Milkau cavalgava molemente o cansado cavalo que alugara para ir do Queimado à cidade do Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo. Encontraria a Maga? Não sinto o meu corpo. Encontraria a Maga? Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Encontraria a Maga? – Nonada. Encontraria a Maga? – Aquela criatura – dizia-me sóror Teresa com o olhar nublado de uma piedosa desconsolação – aquela criatura me parece bem extraordinária. Encontraria a Maga? Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Encontraria a Maga? O porteiro do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Encontraria a Maga? Resolvi comprar papel e tinta, tenho muito que escrever. Encontraria a Maga? Eu sobrevoava com meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde. Encontraria a Maga? ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, – vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Encontraria a Maga? No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Encontraria a Maga? Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Encontraria a Maga? Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.
– Espere até eu acabar este cigarro. – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. – Espere até eu acabar este cigarro. Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. – Espere até eu acabar este cigarro. Tem mais não. – Espere até eu acabar este cigarro. Bêbado, quem me comprenderá? – Espere até eu acabar este cigarro. E a cidade se aproximava veloz e eu via os vidros dos edifícios. – Espere até eu acabar este cigarro. ... – Espere até eu acabar este cigarro. Ventos de sul a leste, moderados. – Espere até eu acabar este cigarro. E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos. – Espere até eu acabar este cigarro. Pelo meu espírito passaram tantos incidentes e tantas reminiscências da minha vida, ligados àquelas duas criaturas, que hoje repousam ali no sagrado silêncio da velha necrópole. – Espere até eu acabar este cigarro. Travessia. – Espere até eu acabar este cigarro. Vamos à História dos Subúrbios. – Espere até eu acabar este cigarro. Não sei como vamos todos caber no exíguo quarto da pensão. – Espere até eu acabar este cigarro. Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte... – Espere até eu acabar este cigarro. Sim. – Espere até eu acabar este cigarro.
E ele dorme.
*
As obras são variantes de todas as obras anteriores.
Não é o indivíduo quem faz literatura, é a Humanidade.
A etimologia é o modelo de uma verdadeira ciência da literatura.
E o plágio, o mais importante dos recursos literários.
Os bem vizinhos de Naziazeno assistem ao ‘pega’ com o leiteiro.
Encontraria a Maga? Tudo no mundo começou com um sim. Encontraria a Maga? Milkau cavalgava molemente o cansado cavalo que alugara para ir do Queimado à cidade do Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo. Encontraria a Maga? Não sinto o meu corpo. Encontraria a Maga? Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Encontraria a Maga? – Nonada. Encontraria a Maga? – Aquela criatura – dizia-me sóror Teresa com o olhar nublado de uma piedosa desconsolação – aquela criatura me parece bem extraordinária. Encontraria a Maga? Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Encontraria a Maga? O porteiro do edifício Deauville ouviu o ruído dos passos furtivos descendo as escadas. Encontraria a Maga? Resolvi comprar papel e tinta, tenho muito que escrever. Encontraria a Maga? Eu sobrevoava com meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde. Encontraria a Maga? ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, – vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Encontraria a Maga? No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Encontraria a Maga? Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Encontraria a Maga? Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.
– Espere até eu acabar este cigarro. – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. – Espere até eu acabar este cigarro. Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. – Espere até eu acabar este cigarro. Tem mais não. – Espere até eu acabar este cigarro. Bêbado, quem me comprenderá? – Espere até eu acabar este cigarro. E a cidade se aproximava veloz e eu via os vidros dos edifícios. – Espere até eu acabar este cigarro. ... – Espere até eu acabar este cigarro. Ventos de sul a leste, moderados. – Espere até eu acabar este cigarro. E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos. – Espere até eu acabar este cigarro. Pelo meu espírito passaram tantos incidentes e tantas reminiscências da minha vida, ligados àquelas duas criaturas, que hoje repousam ali no sagrado silêncio da velha necrópole. – Espere até eu acabar este cigarro. Travessia. – Espere até eu acabar este cigarro. Vamos à História dos Subúrbios. – Espere até eu acabar este cigarro. Não sei como vamos todos caber no exíguo quarto da pensão. – Espere até eu acabar este cigarro. Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte... – Espere até eu acabar este cigarro. Sim. – Espere até eu acabar este cigarro.
E ele dorme.
*
sexta-feira, maio 06, 2011
RECONHECENDO...
RECONHECENDO O MARASMO E O PEDANTISMO ORA REINANTES NESTE SEU BLOGUE-HOSPÍCIO PORÉM AINDA HUMILDE-TUGÚRIO-POÉTICO, IVAN ENSAIA UMA TERZA RIMA COMO FORMA DE RETORNO AO PASSADO, EM BUSCA DE TEMAS PERDIDOS NUM JÁ LONGÍNQUO ANO DE DOIS MIL E OITO...
Tá. O clima aqui ficou meio pedante.
Assim, sem mais, pra não perder a mão,
vou ensaiar de novo um metro dantes
utilizado neste blogue tão
pouquinho frequentado ultimamente.
É que a terzina então, certa ocasião,
serviu tanto a um pseudovate inclemente
que quis me desfechar golpe fatal,
quanto ao contra-argumento meu, al dente,
tentando replicar com bem o mal.
Enfim, talvez melhor nem fosse mais
lembrar aquele combate sacal,
de lances bons e maus e outros que tais,
mas isso é só à guisa de introdução.
O fato é que, relendo obras gerais,
me veio novamente esta intenção
de iluminar outras minas escuras,
que o não serão na cor de distinção,
mas sim como se em versiluminuras
pudesse eu combinar agoras mesmos
a passados dantescos e às futuras
gerações de leitores e de textos,
e então de novo provocasse o novo,
ou seja, o encantamento sem pretextos
(e sempre em textos), seja em forma de ovo
de Colombo, ou qualquer outro descoco,
conforme versaram que faço. Chovo,
sim, eu admito, chovo mais um pouco
num molhado mal olhado e pior visto,
e a métrica escapou. Perdoem o louco
manobrando acentos com tons sinistros,
de antitécnica versificatória
que tropeça em ectlipses, pés, sons, ritmos,
e já negligencia a própria história,
deixa de lado, pendurado, o assunto,
posando como cabra expiatória.
Mas se você chegou até aqui, junto
comigo, me compreendendo, merece
que eu seja mais sucinto. Assim, pergunto:
você acredita que poesia é prece?
E esses quarenta versos anteriores?
Quis compô-los como se o fossem. É, e se
me interpretarem falsas minhas flores
das rimas que oferto com fé e esforço,
se acharem que elas não traduzem dores,
amores, horrores, saibam que torço
mais pro mistério que pro ceticismo.
Nas asas do mistério, no seu dorso
a poesia sobrevoa o abismo.
E neste intuito-prece-verso-anarco-
organizado assim no metro cismo
sem cinismo um sismo pra traçar arco
envolvendo tudo e todos, quem amo
e quem sequer odeio, em mesmo barco,
barco insano como assim também o chamo.
E assim também chegamos num momento
bom pra acabar. Não funcionou meu plano.
Valeu a tentativa: sopro ao vento.
Se você continua aqui, assopre-o:
é apenas um impulso ao pensamento,
feito em suspiro mas sem moto próprio.
Moveu-o, ou me moveu, como partida
de ida bêbada e de retorno sóbrio,
alguma inspiração de nossa vida.
*
Tá. O clima aqui ficou meio pedante.
Assim, sem mais, pra não perder a mão,
vou ensaiar de novo um metro dantes
utilizado neste blogue tão
pouquinho frequentado ultimamente.
É que a terzina então, certa ocasião,
serviu tanto a um pseudovate inclemente
que quis me desfechar golpe fatal,
quanto ao contra-argumento meu, al dente,
tentando replicar com bem o mal.
Enfim, talvez melhor nem fosse mais
lembrar aquele combate sacal,
de lances bons e maus e outros que tais,
mas isso é só à guisa de introdução.
O fato é que, relendo obras gerais,
me veio novamente esta intenção
de iluminar outras minas escuras,
que o não serão na cor de distinção,
mas sim como se em versiluminuras
pudesse eu combinar agoras mesmos
a passados dantescos e às futuras
gerações de leitores e de textos,
e então de novo provocasse o novo,
ou seja, o encantamento sem pretextos
(e sempre em textos), seja em forma de ovo
de Colombo, ou qualquer outro descoco,
conforme versaram que faço. Chovo,
sim, eu admito, chovo mais um pouco
num molhado mal olhado e pior visto,
e a métrica escapou. Perdoem o louco
manobrando acentos com tons sinistros,
de antitécnica versificatória
que tropeça em ectlipses, pés, sons, ritmos,
e já negligencia a própria história,
deixa de lado, pendurado, o assunto,
posando como cabra expiatória.
Mas se você chegou até aqui, junto
comigo, me compreendendo, merece
que eu seja mais sucinto. Assim, pergunto:
você acredita que poesia é prece?
E esses quarenta versos anteriores?
Quis compô-los como se o fossem. É, e se
me interpretarem falsas minhas flores
das rimas que oferto com fé e esforço,
se acharem que elas não traduzem dores,
amores, horrores, saibam que torço
mais pro mistério que pro ceticismo.
Nas asas do mistério, no seu dorso
a poesia sobrevoa o abismo.
E neste intuito-prece-verso-anarco-
organizado assim no metro cismo
sem cinismo um sismo pra traçar arco
envolvendo tudo e todos, quem amo
e quem sequer odeio, em mesmo barco,
barco insano como assim também o chamo.
E assim também chegamos num momento
bom pra acabar. Não funcionou meu plano.
Valeu a tentativa: sopro ao vento.
Se você continua aqui, assopre-o:
é apenas um impulso ao pensamento,
feito em suspiro mas sem moto próprio.
Moveu-o, ou me moveu, como partida
de ida bêbada e de retorno sóbrio,
alguma inspiração de nossa vida.
*
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