quarta-feira, março 17, 2010

DICIONÁRIO ANALÓGICO DE RIMAS PRA LÍVIA & OS PIÁ DE PRÉDIO

Um dia conheci um poeta andarilho chamado Édio,
Édio Vargas – comprei o livreto dele, ligeiro meio-médio,
mas agora versarei pra banda Lívia e os piá de prédio.

Não quero dar alívio a nenhum ouvido médio,
nem ceder a alguma acídia ou a qualquer assédio,
pois meu verso em melodia mixolídia o próprio metro mede-o.

Remedeia minha ideia uma Medeia morta de tédio,
mastigando um serôdio sorédio e um cipripédio epimédio,
muito nítido e nédio, como um argumento em promédio.

Essa Medeia me instiga sobremaneira a ser seu estapédio
evitando, entretanto, um patropédio, um monoginopédio
ou ainda mesmo (Parcas me acudam!) um patroginopédio.

Minha Medeia inspiradora devoraria um osteopédio
mas também casar-se-ia, se ele fosse um litopédio,
com um ursinho teddy boy marino durante um quinquédio.

Desse casamento poderia surgir um fruto lacepédio,
com um pé de escamédio e um androceu selenipédio,
sobre o qual voaria um coleóptero pentâmero ampédio.

Se eu reunisse esses delírios em forma de macédio
(digamos, neste “poemacédio") e em caractere palamédio
descrevesse tudo isso sob ponto de vista planipédio,

eu mostraria domínio linguístico mais que intermédio,
pois sempre chamei center-half de centromédio
e ao futebol prefiro o cognome arcaico: ludopédio.

Assim, fingindo e fazendo, esgotadas as rimas em -édio,
não me resta outra saída e realmente “não tem mais remédio”:
o piá poeta aqui rendeu tributo a Lívia e os piá de prédio.

segunda-feira, março 15, 2010

DOIS POEMAS DUMA RIMA SÓ, EVOCATIVOS E PREPARATÓRIOS...

*
*
*
PORQUE EU SEMPRE QUIS USAR ESTA RIMA:

nem a rima assim camufla
a tristeza que se insufla
quando uma asa torta rufla


_______________________


LISTRA SINISTRA

você já não se administra
quando uma vozinha sinistra
ao modo daquela ministra
diz: te risquei da minha listra...

quarta-feira, março 10, 2010

MAIS UM POEMA PARA CURITIBA


(Foto: Lina Faria - Não lugar)


À ESTÁTUA DE CURITIBA NO PAÇO DA LIBERDADE

(também dedicado à fotógrafa Lina Faria
e a Bárbara Kirchner e seu
Curitiba é um copo vazio cheio de frio)

Estáutua de Curitiba,
(ou melhor, antes, por outra:)
estátua de Curitiba,
única representação antropomórfica
da nossa cidade, tão querida e antiga
Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais,
conforme versou Leminski rezando,
ou antes, melhor, por outra:
conforme rezou Leminski versando:
imprecisa premissa
(alguma coisa em mim também
não quer que Curitiba mude)
tende piedade de nós!

Prezada Estáutua:
eu te vi e te mostrei a uma criança,
e disse: “olhe, aquela é uma Afrodite Nikeia,
uma Vênus vencedora, uma Palas Ateneia
após a vitória sobre os gigantes,
sentada num trono,
portando a tocha olímpica da liberdade
e da verdade”,
e isso é mesmo verdade:
mais que um arco, é um triunfo,
o fofo triunfo final da inteligência
dominando a força bruta.

Querida Estáutua,
eu só queria te dizer:
nossa Curitiba tem andado muito bruta,
mas continua bonita
e agora mais animada
também por enquanto,
enquanto como uma fruta.
E até este meu trocadilho idiota
enfeita tua vida
que faria muita falta,
ó Curitiba,
minha linda e sábia estáutua.

Eu quis muito te dizer isto
nesta radiosa e azul manhã.

De um dos teus poetas,
o vadio e operoso

Ivan

segunda-feira, março 08, 2010

E MAIS UM DYLAN PROMETIDO A UM CAMARADA...

o mui prezado r.m. pediu:
então aqui estão

MINHAS CONTRACAPAS
(MY BACK PAGES)
_____________Bob Dylan

Flamas carmesins entre as orelhas

Trançando armadilhas maquiavélicas
Fogo me caçou em flamejantes estradas
Usava como mapas as minhas ideias
“Logo bateremos de frente”, eu disse
O orgulho as faces ardentes provem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Pulou adiante um preconceito semidestruído
“Rasgue o ódio até a raiz”, eu urrei
Mentiras da vida ser em preto e branco
Falaram de dentro do meu crânio. Sonhei
Fatos românticos de mosqueteiros
Com profundas bases que os promovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Faces de garotas formaram o caminho
Partindo da inveja fingida
Até memorizar toda a política
Contida na história antiga
Despejada por evangelistas-cadáveres
Que no inconsciente das massas se dissolvem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Uma língua de professor autodiplomado
Muito séria pra qualquer enrolação
Jorrou que a liberdade é
Só igualdade na educação
“Igualdade”, eu disse a palavra
Como votos nupciais que se renovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Em pose de soldado, apontei o braço
Aos vira-latas da pregação
Sem temer me tornar meu inimigo
No instante em que fizesse o sermão
Meu caminho guiado por confusos barcos
Motins de popa a proa o comovem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.

Sim, fiquei alerta às ameaças abstratas
Nobres demais pra desperceber
Elas me iludiram um dia a cogitar
Que eu tinha alguma coisa a proteger
Bem e mal, defino-os com clareza:
De algum jeito esses termos se resolvem.
Mas eu era tão mais velho então
E agora sou muito mais jovem.


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, março 06, 2010

MAIS UMA CELEBRAÇÃO CURITIBANA...

______GIANNA
______MARIA
_____NADOLNY
______ROLAND:

minha inspiração não se engana
mesmo fazendo assim essa poesia
ao seu nome. Tu és um sol, “ni-
versariando” hoje, iluminan-

do meu dia e minha semana,
mês e ano, me dando alegria
(mesmo sem rima legal ao nome)
e me fazendo o mais feliz Ivan

de todos os Ivans do mundo:
um beijo sincero e longo e profundo
(como não daria poeta algum) do

seu amado Ivan

para você: Gianna Maria Nadolny Roland

domingo, fevereiro 28, 2010

BOB DYLAN, VOLTANDO AQUI EM GRANDE ESTYLAN...

(ou melhor: EM GRANDE ESTILO, desculpem pelo trocadallen robertado de zimmerman...)

Esta postagem é dedicada a Luiz Felipe Leprevost, que sugeriu e depois cobrou:

– Lepre, taí o que você queria... Que tal?


A ALA DOS DESCONSOLADOS
(DESOLATION ROW)
_________________Bob Dylan


Vendem-se postais do enforcamento
Pintam-se os passaportes de marrom
O salão de beleza lotou de marinheiros
E esses dias o circo chegou

Lá vem o comissário cego
Mantido em transe permanente
Uma mão atada ao cara da corda bamba
A outra nas suas calças de sempre

E a tropa de choque está inquieta
Precisam ser movimentados
Enquanto Lady e eu observamos
Da Ala dos Desconsolados

Cinderela parece tão acessível
“Os iguais se reconhecem”, sorri ela
E põe as mãos nos bolsos de trás
Feito uma Bette Davis Cinderela
Entra Romeo, gemendo queixas
“Acho que eu sou teu proprietário”
E alguém diz, “Lugar errado, amigo,
Saia sem pagar de otário”

E o único som que sobra
Após sirenes e ossos quebrados
É Cinderela fazendo a faxina
Na Ala dos Desconsolados

Agora a lua está quase oculta
Estrelas se velam em segredo
Mesmo a dama que lê a sorte
Levou suas coisas pra dentro
Todos menos Caim e Abel
E o corcunda de Notre Dame
Todos estão fazendo amor
Ou esperando a tempestade

E o Bom Samaritano veste-se
Tomando todos os cuidados
Ele vai sair no desfile desta noite
Na Ala dos Desconsolados

Ofélia está embaixo da janela
Confesso que temo muito por ela
Após completar vinte e dois anos
Já é uma solteirona velha
Pra ela, a morte é bem romântica
E ela veste um colete blindado
Sua profissão é a sua religião
Sua inação é o seu pecado

E embora ao arco-íris de Noé
Os olhos dela estejam fixados
Ela gasta seu tempo espreitando
A Ala dos Desconsolados

Einstein, disfarçado de Robin Hood
Leva as memórias num baú
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge cru
Parecia tão imaculadamente assustador
Enquanto filava um cigarro
E aí saiu farejando canos de esgoto
E recitando um ABC bizarro

Você nem se incomodaria em vê-lo
Mas ele já foi famoso por esses lados
Tocava um violino elétrico
Na Ala dos Desconsolados

O Dr. Sujeira mantém seu mundo
Dentro dum caneco de couro
E todos os seus pacientes sem sexo
Querem estourar aquele couro

A enfermeira, uma triste qualquer
Administra o cianureto aos traumas
Ela também guarda os cartões que dizem
“Tende piedade desta alma”

Eles todos brincam com apitinhos
Pode-se ouvi-los a soprá-los
Se esticar a cabeça pra fora o suficiente
Da Ala dos Desconsolados

Do outro lado da rua, pregam cortinas
E se preparam prum bacanal
Pois então é o Fantasma da Ópera
A perfeita imagem sacerdotal

Alimentam Casanova às colheradas
Pra ele se sentir mais à vontade
E aí o matarão de autoconfiança
Depois de o envenenarem com frases

E o Fantasma grita às magricelas
“Sumam daqui os que ficaram abalados
Pois Casanova foi punido por ter ido
À Ala dos Desconsolados”

À meia-noite todos os agentes
E a equipe de super-homens
Saem à cata de todas as pessoas
Que sabem mais que os supers podem

Então levam-nas até a fábrica
Onde a máquina de enfarte
É afivelada aos ombros delas
E logo depois eles trazem

O querosene dos castelos
E dos Seguros os homens magros
Vêm conferir que ninguém escapa
Da Ala dos Desconsolados

Seja louvado o Netuno de Nero
O Titanic navega à aurora
E agora todo mundo grita
“De qual lado você mora?”

E Ezra Pound e T. S. Eliot
Lutam na torre de controle
Enquanto calipsocantores riem deles
E pescadores trazem flores

Ali entre as janelas do oceano
Onde sereias têm seus prados
E ninguém precisa pensar muito
Na Ala dos Desconsolados

Sim, recebi sua carta ontem
(Foi quando quebrou a maçaneta)
Me perguntar se estou indo bem
Foi algum tipo de brincadeira?

Todos esses que você menciona
Sim, eu conheço, são uns toscos
Tive que lhes dar nomes diferentes
E rearranjar todos os seus rostos

Agora eu já não leio mais tão bem
Não mande mais estes seus recados
A não ser que sejam remetidos
Da Ala dos Desconsolados



Versão brasileira:
Ivan Justen Santana

sábado, fevereiro 27, 2010

MAIS UMA POESIA FICÇÃO CIENTÍFICA PROFÉTICA REALIDADE ABSOLUTA

(só que dessa vez é distopia, porque o frio me secou a euforia)

O MUSEU DO MAUSOLÉU

esse é o desenho foto filme
animação jogo virtual
do nosso tempo

estamos no museu do mausoléu

não tema:
a morte não existe mais
e acabou-se o fim de tudo

tudo está e será sempre
novamente registrado

como nunca

essa é a nova lei
ou melhor
o velho postulado:

já não existe mais morte possível
todo cadáver será exumado
tudo que importa e não importa
será razão de sobra e ao lado
pra consagrar a alguma academia
e superar todo mal entendido

tudo merece a atenção
de quem quer que seja
e nada mais se perderá
pois alguém sempre quer rever de novo
basicamente todo mundo

qualquer coisa pode ser importante
contanto que seja qualquer coisa

o corpo é descartável
e a alma sumiu
mas ninguém mais acha
ninguém mais acha necessária

a morte já morreu
a indesejada foi assassinada
pela permanência eterna de tudo
mas principalmente de nada

o epílogo de tudo nada disso
não é inferno purgatório ou paraíso
e nem sequer é um mero céu

já não seria mais que um não epílogo
reencenando este nem não diálogo
de mim comigo e com um de mim eu
fazendo a dança de nenhum véu

aqui
no museu
do mausoléu

terça-feira, fevereiro 23, 2010

INSPIRANDO-ME... (O TÍTULO NÃO COUBE AQUI, ENTÃO ESTE É O PRÉ-TÍTULO) ...

INSPIRANDO-ME NUM HIPOTÉTICO FUTURO TURISMO LÍTERO-POÉTICO, QUANDO PEREGRINOS DE TODAS AS PLAGAS DA GALÁXIA VIRIAM (VIRÃO?) A CURITIBA PARA CONHECER A TERRA EM QUE PONTIFICARAM MARCOS PRADO, DALTON TREVISAN, PAULO LEMINSKI, DARIO VELLOZO, EMILIANO PERNETA ET CATERVA (SEM ESQUECER AS DAMAS, HELENA KOLODY À FRENTE DAS MOCINHAS DA CIDADE...), E TAMBÉM DIANTE DAS ABSOLUTAS REVELAÇÕES EPIFÂNICAS QUE TIVE EM NOSSO CARNAVALZINHO MULTITUDINÁRIO DOS GARIBALDIS & SACIS (AOS DOMINGOS DE JANEIRO E FEVEREIRO NO LARGO DA ORDEM) E NA GALANTÍSSIMA FESTA POPULAR (A QUADRA CULTURAL) NA RUA PAULA GOMES, NO DIA 20/02/2010, QUANDO, PARA CELEBRAR A MEMÓRIA DE PENA BRANCA, O MUI BATUTA "MAGRÃO" ARLINDO VENTURA ORQUESTROU INSOFISMÁVEIS E ESMERADOS ARTISTAS – ESPINHO DA ROSEIRA, FABIO ELIAS, GENTE BOA DA MELHOR QUALIDADE, LAMARÃO & A BANDA DE UM DIA, ÍRIA BRAGA & MULUNGU, PAULINHO CATARINENSE & VIOLEIROS DA CANJA DE VIOLA, O POETA PAULO BEARZOTI FILHO, O ATOR E CINEASTA JOTA ÊME (OU MELHOR, ROBERTO CARLOS), OS VIOLONISTAS ARNALDO FREITAS & RAFAEL SCHIMIDT, VIOLA QUEBRADA, IRMÃS GALVÃO – AOS QUAIS HOMENAGEIO TODOS NA PESSOA DE MEU XARÁ IVAN GRACIANO, PROGÊNIE DE BELARMINO & GABRIELA –, ENFIM, INSPIRANDO-ME EM TODOS ESSES E TUDO ISSO, EU, IVAN JUSTEN SANTANA, CURITIBANO, ESCREVO OS SEGUINTES VERSOS DE CONVITE UNIVERSAL A ESTA CIDADE DE CURITIBA (versos mimicrizados em estilo e modos do poeta SÉRGIO VIRALOBOS)

Vocês querem Prado?
Velho Dalton? Lema? Dario não?
De artistas que tais assim há necessidade?

Não dou nem um dado:
Passo logo uma procuração:
Distribuo o molho de chaves da cidade:

Usem com cuidado,
Apreciem com moderação,
E saboreiem com responsabilidade...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

ARCO-ÍRIS NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

A foto ilustrativa desta postagem veio das lentes de Gilson Camargo, fotógrafo que mantém o belo blog Olhar Comum.

Gilson captou Thadeu puxando o Rancho das Flores, no desfile de domingo de carnaval, em Curitiba.

Já eu, captei a foto do Gilson e muito atrasado lhe dou o devido crédito...

Quando fazem um scaps assim com alguma tradução eu fico uma arara, então vou fazer atos de contrição nesta quaresma, pelo meu saque imperdoável ao Gilson...


Nosso grande amigo Antonio Thadeu Wojciechowski nos dedicou hoje um poema inefável - desvanecidos replicamos e repostamos aqui:


fênix para uma quarta-feira de cinzas

ao ivan e gianna

perguntam-me quem sou
coração? mente? sol? soul?
e sei, sou de tudo um pouco
poeta, santo, profeta, louco

artífice de mim, me conheço
me faço onde me aconteço
são os outros minha ternura
e não a minha envergadura

amigos fiz para toda a vida
ida na subida e na descida
e aconteça o que acontecer
todo dia será dia de colher

sim, abri mão das sementes
como os versos estão contentes!
e já que estamos aqui nessa lida
vamos brindar à nossa vida!

um tanto mais de luz e céu
e deciframos a língua de babel
hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!

Antonio Thadeu Wojciechowski


- QUERIDO AMIGO THADEU:

com versos em tão humana língua angelical
você nos fez muito mais que um carnaval -

eu rio dessas rimas que aqui engancho
ao perceber você aí puxando o rancho -

sua poesia vem de cima, e no entanto atinge
todos, ilumina e decifra toda e qualquer esfinge -

só nos resta fazer nossas as suas lindas
palavras descabeladoras de ranzinzas -

“hoje, juntos, damos as tintas
arco-íris na quarta-feira de cinzas!”

Ivan & Gianna

terça-feira, fevereiro 09, 2010

CARRASCO DE SI E DE MIM

Assim como depois do sol a tempestade
Encharca muito mais – feito ébrio que recai
E estraga o carnaval no abuso da vontade –
Assim degringolou o filho de meu pai.

Não sei quem fui que fez, só sei que sei de cor
A dor de me perder e ser quem mais não sou,
Pois meu saber foi mal, dos bons foi o pior
Se eu errei por querer e acertei no meu gol.

Seria necessário o sim virar um não
Ao beque tão mané que quebra o próprio pé,
Se achando algum herói – pagando de vilão:

Espectador basbaque, em fila atrás de si,
Repete lá e ali, repete a si e a ré
Como quem diz de novo: esse filme eu já vi.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

DE NATAL A JOÃO PESSOA – DE JOÃO PESSOA A NATAL

Chegamos a Natal em mês de festa
Pois Natal vive em festa o ano inteiro:
Suas paisagens são feito seresta
E mais não fosse de Janeiro o mês
Todo mês em Natal é mês festeiro,
Todo dia em Natal, dia de Reis.

A chegada a Natal, para quem chega
E se depara com a Ponta Negra,
A quem, parco poeta, flagra ali
O mar de Cotovelo e Pirangi,
E redescobre em si sua alma a nu,
Sentindo o quanto o coração se agita
Subindo as dunas de Genipabu,
Perlustrando as pedras de Santa Rita,

Enfim, a este verboso cantador,
Que no Nordeste purgou com suor
A dor de ser assim seja onde for,
Essa ideia-rima vem tão banal
Mas nunca surgiria diferente
Pois, do passado ao futuro, Natal
É realmente bem mais que um presente.

Neste estado do Rio Grande do Norte
Ficamos eu e minha nega Gianna
Em êxtase por esta enorme sorte
De vosso bardo Ivan Justen Santana,
Pois lá tivemos um tão grande aporte
Da parte do pai da dita Gianna:
Márcio Roland, anfitrião galante
E então feliz aniversariante.

Márcio e sua bela Waleska Maux
Nos receberam com comes e bebes –
Cervas, caranguejos, nada faltou
Para tornar nossas almas mais leves.
Já os corpos... Bem, foram repletos
Na hospitalidade dos muitos tetos:
Nos lares de Artúnio, pai de Waleska,
E Herildo, bom amigo desta mestra.

Merece uma menção especial
A praia em que ficamos por dois dias,
Após sair saudosos de Natal:
Foi lá que vi falésias, fantasias
De paisagens, de miragens, e as fadas
Flutuando pelas casas e pousadas –
Lá o azul era um azul mais azul:
Na Praia da Pipa, em Tibau do Sul.

Lá, sorvendo sururus e cervejas,
Confesso que sofri certas invejas
Pois à mesa chegou um cantador
Cujo nome, disse ele, era Saraiva.
Cantou tão bem este improvisador
Que, sorrindo, no fundo senti raiva,
Largada agora, ao provar meu valor
Nestes versos, em vã arte maior.

Agora vou falar de outra cidade
Onde curtimos muitos bons momentos
E quando eu tiver mais felicidade
Versarei ainda mais sobre tais tempos.
Mas chega de versar e rimar em decassílabos
Que já cansei de oitavações que tais –
As rimas podem ficar lá com os ílabos
Das sílabas dos vates ancestrais.

João Pessoa é uma cidade linda,
Não pela específica pessoa deste João,
Mas por todas e quaisqueres – as de lá – pessoas,
Afinal, para este alguém que sim também
Pois não e pois então sou um Ivan,
Sou um Jean, sou um Johann, e sou um John,
Sou Giovanni, Iokanan, e sou João.

João Pessoa é uma cidade linda
Assim também por sua maneira brejeira,
No som com que seu nome ressoa
E a faz ser ainda mais que capital da Paraíba
Pois lá, a este modesto cidadão de Curitiba,
A vida foi tão bela, tão bela e tão boa
Naquela dita cidadela de João Pessoa.

Lá curtimos de relance um show de Pitty –
E por mais que essa lembrança à Gianna irrite
Vou confessar: a mim esta cantora
Revela-se simples, requintada compositora.
Declaro então, emprestando dum seu refrão
Uma palavra que, fofa ou feia, não me incomoda:
A Pitty é realmente muito foda.

E assim eu verso respeitando a regra
Ou mesmo me largando dela sem arranco,
Compondo em forma que ao ouvido alegra
Seja em sonora rima, seja em verso branco.
E ainda que a consoante perca a prega
Ou que as palavras se repitam, o final é franco:
Salve a beleza potiguar na Ponta Negra –
Salve o sossego paraibano em Cabo Branco!

sexta-feira, janeiro 22, 2010

POSTANDO POR POSTAR (ou UM CABRA DA PESTE NO NORDESTE...)

(perdoem a falta de acentuacao...)

esta postagem e' so' pra avisar que, ao contra'rio de dois mu'sicos do Afterdeath,
estou nadando em praias nordestinas e nao morri afogado...

Aqui vai uma foto pra provar.
(eu ia comentar sobre muitos e momentosos assuntos, mas estou com muita pregui,ca...)

segunda-feira, dezembro 28, 2009

UM PRESENTE AO MEU AMIGO FILIPPO, QUE PEDIU E VAI LEVAR

Subterrâneo Banzo Blues

Johnny no subsolo
Manipula os ingredientes
Enquanto eu aqui no térreo
Penso em nossos governantes
O homem do capote
Sem emblema nem emprego
Diz que o troço só deu tosse
Exige troco ou arrego
Cuidado, guri
Você fez alguma aqui
Aprontou sabe Deus quando
E outra vez vem me enrolando
Melhor agachar no beco
Pra ver se acha um novo amigo
O homem do chapéu felpudo
Muita pinta e bem marrudo
Quer trocar nota graúda
Você só tem dez miúdas

Maga vem ligeira
Cara cheia de fuligem
Diz que um x-9 de aplique
Plantou miques no tabique
Mas já tem grampo na linha
Maga tá de conversinha
Que eles vinham em tal dia
Ordens da promotoria
Cuidado, guri
Não estamos nem aí
Ande na ponta dos pés
Sem rebite no café
Melhor evitar manés
Jatos d’água e boa fé
Mantenha o nariz limpo
Verifique o figurino
Não precisa olhar pra cima
Pra saber qual é o clima

Fique ruim, fique bom
Cole lá no poço ou
Toque um som, nesse tom
Pode ser que venda algum
Tente mais, tome um baile
Volte atrás, escreva em Braille
Seja preso, fuja triste
Se falhar então se aliste
Cuidado, guri
Ainda atiram em ti
Usuários, salafrários
Perdedores perdulários
Enchem cines e teatros
Garota em redemoinho
Já procura outro cretino
Não confie em sufrágios
Saiba os preços dos pedágios

Nasça, cresça, se aqueça e não esqueça
Calça curta, escaramuça
Num romance dance rumba
Troque a roupa, faça a crisma
Tente vencer nesta vida
Presenteie ambos os sexos
Com bilhetes em anexo
Não furte nas lojas
Vinte anos de escola
E você ganha essa esmola
Cuidado, guri
Dissimulam mas eu vi
Pule logo num esgoto
Acenda incensos de sândalo
Não use sandálias, evite os escândalos
Não queira ser um pixote
Antes sim mascar chiclete
A bomba não funciona
Foi depredada pelos bandos de vândalos

Bob Dylan

Subterranean Homesick Blues,
versão brasileira:
Ivan Justen Santana,

em oferenda a Filippo Mandarino

...

(outro link recomendável, a propósito)

segunda-feira, dezembro 14, 2009

COMO UM DYLAN DEPOIS DO OUTRO...

– Isso não é coisa que se Dylan,
mas eu adylanmito: sou um dylantante
e curto Cobain ficar me fazendo de Bob...
Afinal, Dylan-me com quem Thomas
e Roberte-ei quem és...

– Argh, Ivan! Não faça aZimmerman...

– Tá bom, então, já que like a rolling estou,
juro que este é o último dos trocadylans...



[E aqui vai mais um Dylan (di)vertido a vocês:]


AMOR MENOS ZERO / INFINITO
(LOVE MINUS ZERO/NO LIMIT)

O meu amor, ela fala silenciosamente,
sem ideais, pacificamente,
não precisa ser abertamente fiel.
Igual ao gelo, igual ao fogo ela fala–
tem pessoas que fazem um escarcéu:
rosas, promessas, bilhetes,
e o meu amor, ela ri em ramalhetes–
paqueradores não podem comprá-la.

Nos pontos de ônibus e nas lojas de conveniência
as pessoas se enchem mutuamente a paciência,
leem livros, repetem poetas,
tiram conclusões em excesso.
Alguns falam como se fossem profetas
e o meu amor, ela delicadamente anota:
–nenhum sucesso é mais que a derrota
e a derrota não é nenhum sucesso.

O romântico chora e se descabela,
a madame acende uma vela–
nas promoções da cavalaria
até os peões amargam desilusões.
Estátuas feitas com palitinhos
desabam umas sobre as outras.
Meu amor pisca e nem se incomoda,
ela sabe demais pra achar as razões.

A ponte à meia-noite balança,
o médico rural vagueia e se cansa,
a sobrinha do banqueiro busca o sublime,
esperando reis magos virem presenteá-la.
O vento uiva como um crime.
A noite é fria e o dia, chuvoso.
E meu amor, ela é como um corvo
de asa quebrada pousado na minha sala.


Bob Dylan
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

domingo, novembro 29, 2009

TÁ TUDO CERTO, MÃE (SÓ ESTOU SANGRANDO)

(It´s Alright, Ma, I´m Only Bleeding)

Ao raiar do meio-dia, a escuridão
Assombra até a lâmina feita à mão,
A colher de prata, o bebê e o balão,
Eclipsa a lua e o sol no chão,
Não adianta nem buscar razão:
Você sabe que não está entendendo.

Ameaças agudas lançadas ao ar,
Declarações suicidas a se rasgar,
Porta-voz de ouro-de-tolo a cornetar
Palavras gastas que só vêm provar:
Quem não está nascendo por lá
Está ocupado ali morrendo.

O pajem da tentação sai pela janela,
Você vai atrás e se acha em guerra,
A cascata piedosa rosna e berra,
Você quer berrar, mas não é mais aquela
Pessoa que achava que você era,
É só mais um gemendo.

Então se um ruído esquisito
Ressoar aí no seu ouvido
Tá tudo certo, mãe, é só meu lamento.


Alguns cantam glória e outros, derrota,
Grandes ou não, razões sempre próprias
São vistas nos olhos daqueles que forçam
E arrastam as pessoas pra serem mortas
Enquanto outros dizem: somente o ódio
Deve ser odiado.

Palavras cínicas disparam em uivos
De deuses humanos criando seus mundos
Com armas de brinquedo feitas pra adultos
E Cristos coloridos que brilham no escuro,
É fácil perceber, sem procurar muito:
Hoje nada mais é sagrado.

Pregadores pregam um destino infeliz,
Professores professam o saber da raiz,
O mapa da mina no quadro de giz,
A bondade se esconde na própria matriz
Mas até o presidente de um grande país
Às vezes precisa andar pelado.

E se a regra do jogo está fora de alcance
É só se desviar de quem faz o lance
E tá tudo certo, mãe, dou conta do recado.


Propagandas te levando a mal,
A pensar que só você é que é o tal
Que pode mais que qualquer mortal
E que merece o mais sensacional
Enquanto isso a vida vai normal
E você nem vê.

Você se perde e se encontra de novo,
Súbito quer ser um pouco mais corajoso,
Sozinho você vai pra longe do povo
Quando uma voz em tom cavernoso
Surpreende o seu ouvido em repouso
E diz achar mesmo que achou você.

Uma pergunta bate à sua porta
Mas você sabe que não tem resposta
Pra assegurar que algo ainda importa,
Pra que a verdade seja toda exposta:
Não há coisa ou pessoa, viva ou morta
A quem você deva pertencer.

E apesar dos senhores fazerem os planos
Aos homens sábios e aos insanos
Nada me obriga, mãe, a corresponder.


Aos que precisam bater continência
À lei que desprezam em sã consciência
E odeiam o que fazem, não têm paciência,
Invejam quem é livre na sua ausência,
Cultivam as flores dessa experiência
Somente como algo a investir.

Enquanto outros, batizados em princípios
A laços estreitos, ideias e partidos,
Clubes restritos disfarçam contidos,
Aqueles que escondem o senso crítico
Só falam em quais devem ser os ídolos
E depois “Deus abençoe aquele ali”.

Enquanto quem canta com a língua em chamas
Gargareja num coral de falsos dramas,
Torto pela sociedade e suas tramas
Não luta pra tirar os seus pés da lama
Mas sim pra arrastar à mesma lama
Todos que passem por ali.

Mas não quero mal nem aponto defeito
A qualquer sujeito que viva sujeito
E tá tudo certo, mãe, se eu fizer ele sorrir.


Velhas senhoras observam casais,
Limitadas no sexo, julgam-se as tais,
Desprezam baseadas em falsas morais
E a grana não fala, xinga e grita mais
Obscenidade em todos os canais,
Propaganda é isso aí, hipocrisia.

Enquanto defende-se o que nem se vê
Com orgulho assassino, e é assim que
As certezas estupidificam você,
E aos que não conseguem nem perceber
A verdade natural de que vão morrer
Deve ser bem solitária a vida.

Meus olhos colidem em cheio em cheios
Cemitérios, deuses vazios, não creio
Na mesquinhez que se impõe no meio,
Vou de ponta-cabeça, algemado, sem freio,
Catando cavaco e enfim, já cheio,
Digo O.K., você disse a que veio,
Tem outro lance na partida?

E se vissem o que minha mente imagina
Provavelmente me condenavam à guilhotina
Mas tá tudo certo, mãe, é a vida, é só a vida.


Bob Dylan

versão brasileira: Ivan Justen Santana

sábado, novembro 07, 2009

CARMINA I, 4

SOLUITUR ACRIS HIEMS GRATA UICE UERIS ET FAUONI
__TRAHUNTQUE SICCAS MACHINAE CARINAS
AC NEQUE IAM STABULIS GAUDET PECUS AUT ARATOR IGNI
__NEC PRATA CANIS ALBICANT PRUINIS
IAM CYTHEREA CHOROS DUCIT UENUS IMMINENTE LUNA
__IUNCTAEQUE NYMPHIS GRATIAE DECENTES
ALTERNO TERRAM QUATIUNT PEDE DUM GRAUIS CYCLOPUM
__VOLCANUS ARDENS UISIT OFFICINAS
NUNC DECET AUT UIRIDI NITIDUM CAPUT IMPEDIRE MYRTO
__AUT FLORE TERRAE QUEM FERUNT SOLUTAE
NUNC ET IN UMBROSIS FAUNO DECET IMMOLARE LUCIS
__SEU POSCAT AGNA SIUE MALIT HAEDO
PALLIDA MORS AEQUO PULSAT PEDE PAUPERUM TABERNAS
__REGUMQUE TURRIS O BEATE SESTI
UITAE SUMMA BREUIS SPEM NOS UETAT INCHOARE LONGAM
__IAM TE PREMET NOX FABULAEQUE MANES
ET DOMUS EXILIS PLUTONIA QUO SIMUL MEARIS
__NEC REGNA UINI SORTIERE TALIS
NEC TENERUM LYCIDAN MIRABERE QUO CALET IUUENTUS
__NUNC OMNIS ET MOX UIRGINES TEPEBUNT

Dissolve-se o áspero inverno, voltando a estação agradável,
__e secas se arrastam as quilhas dos barcos;
já não se aconchegam no estábulo o gado e ao fogo o campônio,
__nem prados alvejam com brancas geadas.

Já Vênus Citérea os coros conduz, sob a Lua alta,
__e junto das Ninfas as Graças tão belas
batem os pés alternados na terra, enquanto aos Ciclopes
__o ardente Vulcano visita nas forjas.

Agora convém elegante envolver a cabeça com o verde mirto
__ou flores que brotam das terras aráveis;
agora também é mister nas sombrias florestas fazer sacrifícios
__ao Fauno, quer queira cordeiros ou mesmo cabritos.

A pálida Morte marcha igualmente em tavernas de pobres
__e em torres de reis. Ó Sesto feliz,
a vida tão breve proíbe erigir esperanças extensas;
__jjá oprimem-te a Noite, as almas das fábulas

e a fúnebre casa Plutônia, aonde tão logo chegares
__não sortearás com teus dados os goles de vinho
nem admirarás o suave Lícidas, por quem ora arde
__toda a juventude e em breve as virgens ferverão.


QUINTUS HORATIUS FLACCUS
Ivan Justen Santana

terça-feira, novembro 03, 2009

EDGAR WILLIAM ALLAN BLAKE POE

Edgar Allan Poe, investido de corvo,
Encontra William Blake em pele de tigre:
A este a pelugem empresta um ar de estorvo
E àquele a plumagem negra não denigre.

Assim figurei-os na imaginação
E um, só por ter visto o outro, se embeveceu
Pois ambos pensaram, cheios de razão:
“Meu poema-bicho é mais animal que o seu!”



sexta-feira, outubro 23, 2009

PARA QUE OS MEUS AMIGOS NÃO SEJAM INFELIZES (E O RENATO VOLTE A POSTAR)

No meio do caminho da poesia
as formas ondulantes voltam como
sempre. A vontade brilhante e sombria
é refazer quem, quando, por que, como.

Onde encontrar a velha vaca fria?
Qual será a língua da vaca sagrada?
As antas e os tatus de antologia
vazam do mato que a ninguém agrada.

E você, o que quer, meu caro Ivan?
Tanta firula e nada de chutar?
Empacou na quadra quadrada e vã
ou vai enfim chegar nalgum lugar?

Bom, o que eu queria, queria muito,
muito bastante mesmo (gaguejando)
era que, mais que um blábláblá fortuito,
meu verso tivesse poder de mando.

Primeiro, pra mandar os meus amigos
largarem mão de brigas por bobeira,
erguendo os olhos longe dos umbigos
(essa foi pro Renato e pro Ferreira).

Segundo, não sei. Era isso que estava
sujando a minha veia de poeta:
venenos agindo na vida brava
e eu só versando feito um mero esteta.

Quero influir na vida de verdade
e, mais que rimas ricas e solenes,
conseguir resgatar uma amizade,
reconciliando a banda dos Marlenes.

Se meus amigos têm que tomar algo,
eu resolvi tomar uma atitude:
o resto é com vocês. Agora eu salgo
essa sopinha e fim – fiz o que pude.

terça-feira, outubro 06, 2009

AO LONGO DA TORRE DE CONTROLE

– Tem que ter uma saída de emergência –
Disse o coringa para o ladrão,
– Eu já não acho mais paciência
No meio de tanta confusão.
Peões cavam no meu cercado,
Empresários bebem o meu vinho,
Mas ninguém sabe o valor estimado
Duma pedra no meio do caminho.

– Não adianta ficar nervoso –
Disse o ladrão, em tom bondoso.
– Muitos de nós têm a ideia engraçada
Que a vida não passa duma piada.
Mas eu e você já passamos por essa
E não fazemos mais fé em promessa,
Então vamos deixar de falsidade
Porque o tempo já vai tarde.

Ao longo da torre de controle
O Príncipe vigiava atentamente,
Iam e vinham as mulheres da corte
E os pés descalços da sua gente.
Lá fora, na distância gelada,
Um gato selvagem rompeu a rosnar,
Dois cavaleiros se aproximavam

E o vento inventava de uivar.


Versão brasileira feita por este que vos escreve - quem comentar respondendo de quem é o "texto original" e acertar, ganhará três links de presente...

quarta-feira, setembro 30, 2009

Poemento de circuritinstância

Hoje dois eventos que ocorrem esta noite me chamaram a textualizar.

Em São Paulo, inaugura-se uma ocupação-exposição da obra de Paulo Leminski, por iniciativa e esforços de Ademir Assunção - maiores detalhes aqui.

Aqui em Curitiba, o jornalista Luiz Claudio Oliveira lança livro sobre a revista Joaquim e seu conspícuo fundador, Dalton Trevisan - outras informações aqui.

Esses acontecimentos me lembraram (e não sei por que) de um poema de Emiliano Perneta, mais especificamente de um verso-risada dele. Fui procurá-lo nesta vasta e áspera rede de silício e não achei.

Ponto para os livros que dormem nas bibliotecas, e que desencavarei pra reproduzir o poema nesta postagem, se possível ainda hoje.

E há mais um acontecimento pra celebrar as nossas letras (se me permitem esta expressão arcaica, e se não permitem vão lá ver se tem um fusca gelo na esquina...) -

Alice Ruiz ganhou o Jabuti de poesia deste ano.

Assim, eu por mim já estou exausto de vergonha reprimida pra não me sentir no mínimo ufano e orgulhoso por ser um escrevinhador curitibano...


(acréscimo em primeiro de outubro:)

O lançamento do livro do Luiz Claudio foi ótimo, e não tenho nenhuma dúvida de que a inauguração da ocupação Leminski em SP também foi uma noitada excelente.

Então aqui vai o poema do Emiliano Perneta que lembrei ontem: acho que lembrei desse poema por conta da radicalidade de versos publicados aqui na "província" em 1911. São versos pra modernista nenhum achar antiquados, e antecipam até mesmo um soneto-retrô do Marcos Prado.

Apesar de encarnarem a voz da morte, leio ironicamente nesses versos uma prova de vida. A transcrição vai especialmente dedicada à Nara (que repostou esta singela postagem e tenho certeza de que vai curtir o poema), com um salve também à Alice Ruiz e a todos os poetas e artistas que tiveram a dúbia sorte e o precioso azar de nascer-viver-morrer no estado do Paraná...


D. MORTE

entrando num albergue:

– Mãe, que és tão pobre e não tens leite,
Ó dor crescente! ó lua cheia!
Vida – candeia sem azeite,
Olha-me, vê, não sou tão feia!
_____Pé ante pé,
_____Queres? olé!

Glacial, esguia, num momento,
Eu entro, sopro essa candeia...
_____Queres? olá!
Quem foi? quem foi?
_____– O norte, o vento...
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!


Emiliano Perneta (Ilusão, 1911)

sábado, setembro 12, 2009

Feriado em Floripa







Neste feriado de setembro, eu e minha nega Gianna fomos pra Floripa, visitar a mãe dela e seu feliz consorte.
As fotos já falam o suficiente sobre como foi a viagem.
Fiz uma ivanzice e não avisei meu amigo Vinícius Alves, poeta local, que iríamos baixar por lá.
É que seria a primeira visita aos sogros, e eu também queria explorar a ilha por minha conta e risco...
Enfim, não há nenhuma justificativa boa pra ter feito tal desfeita - assim, faço um poema...
PREZADO VINÍCIUS,
o ser curitibano é assim: esquivo,
soturno, depressor e repressivo -
contudo, sempre surge quem é vivo...

Então não invoco nem razão nem coração
pra justificar minha falseta tão sacana -
no entanto, aceite este pedido de perdão
do seu poeta camarada
_________________Ivan Justen Santana

quarta-feira, setembro 02, 2009

(...) BEM QUE EU TENTEI DESPISTAR A GOVERNANTA...

porém a poesia pinup poppins veio voando de sombrinha
___e um verso jason me perseguiu até o fim da linha –
tinha uma rima ali muito na sua que também tava na minha
___feito alguma avezinha suavezinha que se avizinha
quando você já despachou o vizinho e refugou a vizinha
___só pra ler sossegado o seu jogo da amarelinha
e aí chega a sua gostosa atrás do açúcar que você nem tinha
___e então vocês passam a noite toda trocando figurinha,
lendo, anotando, interpretando e comentando
___a carta de pero vaz de caminha

segunda-feira, agosto 31, 2009

DÍSTICOS ENSIMÍSTICOS (ou PORQUE HOJE É MAIS UMA MANHÃ DE SEGUNDA...)

Porque hoje é mais uma manhã de segunda
atiro mais um poema que não boia nem afunda

neste blog blaguejante – e com isso me permito
mais um neologismo meio feio e bem bonito.

Desoxirribonucleicamente hipomaníaco,
estribo-me na borboleta do teu osso ilíaco,

ó musa que me averiguou num verão passado:
ainda me averiguas, nua, como temos passado...

Sim, minha linguagem segue sendo hermeticazinha
e talvez eu seja mesmo um piá brincando de casinha,

simplesmente um sapato semivelho – mas ainda sirvo
pra fazer outra rima acabar em livro. Antes de ir, vo-

cês podem comentar aqui na caixa de comentários
e infeccionar mais a blogosfera com vírus vários –

clamem, reclamem e trocem: suas troças me soltam
a macaqueá-las com meus macaquinhos no sótão.

Estar ou não estar – é isto que está em questão:
por que esta dúvida estarrecerá – e outras não?

Afinal, largo ao elíptico e elusivo leitor uns sinais
na tentativa vã de ivan em versos verbivocovisuais:

agora você vê, agora você não V – seja feliz
nos ângulos dos eNes e nos pingos dos Is –

leiafaleveja o que há no vértice desse ralo A
– basta olhar o nada nessa letra e decifra-lo-á.

sábado, agosto 22, 2009

"Quando você nasceu, caiu numa tina de sextinas..."

Doutor nenhum usou tesoura pra este corte
que repartiu meu ser assimétrico assim
e ao satírico pã que sobrou meio à parte
deu flauta de bambu. Nunca flauteei-a bem,
pois sua escala em si define um universo
desmesuradamente infinitesimal.

Lamento muito e sei: não vão achar normal
que eu me remonte ao tom da sextina e recorte
cada cesura – triz! –, cada fatia-verso,
e lance mão de sons – flup! – sem sentido assim,
e gagueje de pró-propósito... Também
ninguém mandou vocês aqui buscarem arte.

Isso que eu faço assim se faz por toda parte
nos reinos mineral, vegetal e animal:
mera reprodução, espelhamento bem
simplório, sim, pois não! Então tome outro corte
no seu bedelhozinho expectativo sim-
ples de grande leitor e masque mais um verso,

um corpo que não cai, um romance ao reverso,
uma rua sem mão, sem cardápio à la carte,
descendo muito mal porque se desse assim
essa semifração decimal desse mal
pra todo mundo não teria mais um corte
bem na cena final pra acabar tudo bem.

Gostei das locuções: mais umas caem bem:
uns loucos sem sessões, outrossins noutro verso,
as rimas sem seus sons, e novamente um corte
pra algo completamente indiferente e à parte:
um Thor de força atroz, um Lóki não-do-mal,
um filho de Odin que faça do não sim

feito aquele versinho assim: não, não, não, sim.
Tá: agora abusei, mas se não fui tão bem,
não fui lá tão – latão? – é, latão: lá tão mal...
Eu só tentei fazer uma sextina verso
a verso, pra ver só como é versar destarte
sem nem tema de amor nem qualquer – mais um corte!

Enfim reverto sim à velha volta ao verso,
desculpo-me a meu bem, que a vida é parca em arte,
e acho esse final mau mas pronto pra outro corte.

domingo, agosto 16, 2009

DIGA SIM OU NÃO: SIM OU NÃO

Não. Um bom versinho não se faz
com pouco risco e menos traço.
Seria melhor deixá-los em paz.

Não agir.
Não traduzir.
Não fazer o que ainda faço.


Mis pasos en esta calle
Resuenan
_________En otra calle
Donde
______Oigo mis pasos
Pasar en esta calle
Donde
Sólo es real la niebla.

________OCTAVIO PAZ
(apud Julio Cortázar,

Rayuela, capítulo 149)


Meus passos nesta praça
Ressoam
________Noutra praça
Onde
_____Ouço meus passos
Passar nesta praça
Onde
Só é real a névoa.

________OCTAVIO PAZ
(Versão brasileira:

Ivan Justen Santana)

Por que trocar calle por praça?
Porque poesia é assim:
numa língua vai de skate,
noutra, de patim...

Sim. Poesia se faz
arriscando-se o pescoço no laço
sem deixar verso algum descansar em paz!

Traduzo sem fuso
e cometendo abuso
com nossa última flor do lácio
a qual classificar-se-ia de fóssil
ou de animalzinho dócil
se ela fosse fêmea fácil.

terça-feira, agosto 11, 2009

CEMITÉRIO AÉREO

O olho que escorreu da minha testa
(é favor escandir o hiato: o – olho)
com gesto de quem morre e não protesta
sim sim este olho que desfez-se em molho
foi o rio rubro mais feliz de mim,
melhor que sensação de não-mereço,
maior que a rima alargada no fim,
mais sim que frase de amor no começo.

Foi com tal olho que perdi o contato
duma verdade a qual não foi tão tarde:
aquela mais-verdade do retrato
do artista quando jovem cão covarde
que não viaja numa noite fria
depois do cerco de quarenta invernos,
mas que requenta sim a poesia
e sim repete-a aos quintos dos infernos.

Naquela não-pupila eu fui desejo
de amordaçar a primeira pessoa
e fundir tudo em tudo – ser que almejo
quando o gongo do último assalto soa
por fora da ilusão do tempo-espaço
e o mundo bolha explode sem registro
sem som sem tom sem cor sem descompasso
num assombroso silêncio sinistro.

Junto com o olho foi qualquer suspeita
de que eu cifrasse em versos simples isto
numa levada em que tudo se ajeita
e não sobra a má impressão que despisto.

Assim, exausto de usar tantos ques
os quais nem deixam um quê de mistério,
desovo outro corpo morto a vocês,
meus caros hóspedes dum cemitério aéreo.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Curitiba, 07 de agosto de 2009

Hoje é dia 07/08/09.

Você queria chamar isso de Dia Ivânico.

O primeiro Dia Ivânico deste milênio foi 01/02/03.

No ano seguinte, foi obviamente o 02/03/04.

Nestes primeiros dias ivânicos,
você não tinha plena consciência da historicidade dessas datas,
pois você estava na pré-história da sua loucura.

No dia 03/04/05, você talvez nem fosse mais você mesmo,
uma dúvida que permanece até o dia de hoje.

Em 04/05/06, a sua confiança dava sinais de recuperação,
e quem sabe uma pálida sombra daquela
sua personalidade anterior ao início dos tempos ivânicos
voltava a mostrar seus reflexos nas suas desfiguradas feições.

Em 2007, o dia 05/06 viu você passar e quis
(mas não conseguiu)
gritar-lhe:
"Ivan! Atenção: sua vida está passando
e este é o quinto Dia Ivânico do resto de todos os tempos!".

Já no ano passado, em 06/07/08,
você devia estar começando a compreender a importância
de tantos eventos significativos na sua vidinha:
a época pré-consciente dava sinais de seu fim.

Hoje, você gostaria de não ter viajado em tantas considerações
totalmente supérfluas,
queria ter feito um texto em prosa sobre tudo que acha importante,
as coisas, pessoas, ideias que ultimamente têm se revolvido
no terreno baldio do seu cérebro,
mas tudo acabou ficando por isso mesmo.

Preste atenção, Ivan:
só restam mais quatro dias ivânicos na história do universo,
e algum dia desses você vai se ver forçado a articular
tudo que poderia ter escrito nestes últimos seis anos...

segunda-feira, julho 27, 2009

O poema a seguir tem uma historinha quase sem graça então eu não vou contar - só advirto os leitores que a linguagem é meio "perniciosa"...

et le poëte soûl engueulait l´univers.
Arthur Rimbaud


Meus cabelos desgrenhados estabelecem
Vínculos contrários à ousadia
Segredos empenhados em ti fenecem
Meus cabelos desgrenhados estabelecem
Imagem aérea do que não se conhece
Frascário ingênuo que se adia
Meus cabelos desgrenhados estabelecem
Vínculos contrários à ousadia

Sonambúlico, funambulesco,
Eu mesmo me desfiz de verdade.
Vida isca: eu, peixe, não te pesco,
Sonambúlico, funambulesco,
O que é ONU? Qual é a da Unesco?
Despertei no pesadelo da humanidade,
Sonambúlico, funambulesco,
Eu mesmo me desfiz de verdade.

Quando pascácios podem menos,
Aonde vingar, desgrenhado espantalho?
Os velhos engenhos destilam venenos
Quando pascácios podem menos
E só sobram úlceras aos duodenos
Nessa boceta de imprecação do caralho!
Quando pascácios podem menos,
Aonde vingar, desgrenhado espantalho?

Ricardo Pozzo

Ivan Justen Santana

sexta-feira, julho 17, 2009

POEMA

POEMA QUASE TOTALMENTE READYMADE EM DECALCOMENAGEM A TORQUATO (O NETO E O TASSO), TRANSLITERADO EM AFEIÇÃO CONCRETROPICURITIBANA, PSEUDOSSECRETAMENTE ALUSIVO AO SUCESSO DO CARTUNISTA SOLDA NOS SALÕES HUMORÍSTICOS DO PIAUÍ


T
TR
TRI
TRIS
TRIST
TRISTE
TRISTER
TRISTERE
TRISTERES
TRISTERESI
TRISTERESIN
TRISTERESINA
RISTERESINA
ISTERESINA
STERESINA
TERESINA
ERESINA
RESINA
ESINA
SINA
INA
NA
A

terça-feira, julho 07, 2009

TERROR

Um fantasma percorre o universo.
Alguns espectros erram pela galáxia.
Vários ectoplasmas rondam este planeta.
Dezenas de almas trilham a cidade.
Legiões de sombras se arrastam pelo bairro.
Milhões de vultos assombram o edifício.
Infinitos espíritos pairam sobre o quarto.

Quantas aparições frequentam o teu cérebro?

segunda-feira, junho 29, 2009

Tradução-Homenagem a Vincent Price, Orson Welles e ...

Darkness falls across the land.
The midnight hour is close at hand.
Creatures crawl in search of blood
To terrorize y'all's neighborhood.
And whosoever shall be found
Without the soul for getting down
Must stand and face the hounds of hell
And rot inside a corpse's shell.

The foulest stench is in the air,
The funk of forty thousand years,
And grizzly ghouls from every tomb
Are closing in to seal your doom.
And though you fight to stay alive
Your body starts to shiver,
For no mere mortal can resist
The evil of the thriller!

As trevas caem por toda a parte.
Os ponteiros estão perto da meia-noite.
Criaturas rastejam em busca de sangue
Para aterrorizar toda a tua vizinhança.
E quem quer que ainda se ache em vida
Sem a alma necessária para a descida
Deve erguer-se diante dos cães do inferno
E apodrecer dentro dum invólucro eterno.

A forte fedentina vai se espalhando,
Um fedor acumulado em quarenta mil anos,
E de todas as criptas os espectros assassinos
Vêm se aproximando para selar o teu destino.
E apesar de ainda lutares por tua vida
Teu corpo trepida ao terror que o invade,
Pois nenhum mero mortal é capaz de resistir
À sinistra e funesta marca da maldade!

RAP:
Vincent Price
Ivan Justen Santana

domingo, junho 14, 2009

Aperitivo pro Bloomsday

(postagem dedicada a Renato Quege, irrestrito leitor de James Joyce)

O poema que apresento aqui foi escrito por James Joyce aos 20 anos de idade, durante sua primeira estadia em Paris, em 1902.

Joyce enviou-o a seu mais prezado amigo de faculdade, John Francis Byrne, em foto-postal, com o título:

Second Part – Openning which tells of the journeyings of the Soul

Segunda Parte – Abertura que fala das jornadas da Alma


Posteriormente o poema foi incluído em Chamber Music (Música de Câmara, 1907), livro de estreia de Joyce, contendo 36 poemas, sendo este o trigésimo-quinto da coleção:


All day I hear the noise of waters
__Making moan,
Sad as the sea-bird is when going
__Forth alone
He hears the winds cry to the waters´
__Monotone.
O dia todo ouço o murmúrio de águas
__Em lamento,
Triste assim como é a gaivota solitária
__Contra o vento
Ouvindo o mar chorando o seu monótono
__Movimento.

The grey winds, the cold winds are blowing
__Where I go.
I hear the noise of many waters
__Far below.
All day, all night, I hear them flowing
__To and fro.
Os ventos frios e cinzentos vêm uivando sobre
__Mim também.
Eu ouço o murmúrio de muitas águas
__Baixo, além.
O dia todo, a noite toda, eu ouço seu eterno
__Vai-e-vem.

James Joyce
Ivan Justen

terça-feira, junho 09, 2009

ORQUESTRO A QUEDA DOS MAESTROS

(título com rima semirroubada de n.)

Tropecei em três alephs
que vinham rolando escada abaixo:
esquecera as instruções: usar o pé e o pé!
Ali onde o jardim bifurca não me encaixo –
chamei o velhinho gigantesco de Mumunes
e ele ficou fu-fu-furioso...
Perguntei às ficções e às famas: undr em Uqbar?
mas Averróis já havia desaparecido
e nem sinal de Menard que traduzisse...

Pra cortar a maré amarelinha de azar,
cantei: "Meu cronópio é vermelho".
Fugindo dos labirintos pela autopista do sul
talvez chegasse a tempo de flagrar
no espelho do espelho do outro espelho
o último sorriso do terceiro tigre azul...

terça-feira, maio 26, 2009

Com vocês, Thomas Stearns Eliot (sim, eu também sempre quis saber o que o T. S. abreviava...)

(As traduções a seguir são um oferecimento de ossurtado.blogspot.com
ao poeta Augusto de Campos, com toda a joco-seriedade e irrestrito respeito.)

Lines for an Old Man

The tiger in the tiger-pit
Is not more irritable than I.
The whipping tail is not more still
Than when I smell the enemy
Writhing in the essential blood
Or dangling from the friendly tree.
When I lay bare the tooth of wit
The hissing over the archèd tongue
Is more affectionate than hate,
More bitter than the love of youth,
And inaccessible by the young.
Reflected from my golden eye
The dullard knows that he is mad.

Tell me if I am not glad!


VERSOS A UM HOMEM VELHO

O tigre na caverna do tigre
Não é mais irritável que eu.
A cauda de chicote é menos fixa
Que quando eu sinto o cheiro do inimigo
Retorcendo-se no sangue essencial
Ou pendurado na árvore amigável.
Se ponho à mostra o dente da argúcia
O assovio sobre a língua em arco
É mais afetuoso do que o ódio,
Mais amargo que um amor juvenil,
E inacessível a quem mal viveu.
Refletido em meu olhar dourado
O bobalhão sabe que enlouqueceu.

Diga pra mim se alegre não sou eu!

***

(segunda versão:)

VERSINHOS A UM VELHINHO AÍ

Um trigue muito susse, internado,
Não surta mais facinho do que eu.
A cauda do bichano não se estica
Mais que se eu farejo um mui amigo
Todo torto ali num básico sanguinho
Ou balangando numa árvore querida.
Se chego mais comeu dente esperto
O pissiu que sai do meio da linguinha
É mais fofo que o rancor de muito otário,
Mais amargo do que o teu primeiro amor,
E cê não saca se por essas não passou.
Bisolhando-se no espelho do meu zóio
O lóki nem pirou e já enlouqueceu.

Existe alguém mais comédia do que eu?

T.S.Eliot
I.J.Santana

terça-feira, maio 19, 2009

Uma postagem desabafo sobre tradução de poesia, com direito a um Dylan Thomas safra 1933...

Pois então - esses tempos eu comprei num sebo de alta periculosidade (é um perigo eu ser sugado a um lugar desses e não conseguir mais sair...) dois números da revista ET CETERA - literatura e arte - [ué? Literatura não é Arte?]) -

Tá vou tentar ser mais breve, mas tolerem os entretantos -

no número 5 (Maio/2005) havia (e continua lá) um artigo de Augusto de Campos sobre Dylan Thomas - seguido por três poemas traduzidos.

Certo, Augusto de Campos é um poeta fora de série, etc e tal e a coisa toda, mas eu tinha certeza de que havia algo ali que não estava totalmente escalafobético (na conotação de supimpa maravilhosíssimo e também ótimo máximo...) -

fui lendo e degustando os saberes e estilo irretocável do príncipe dos poetas concretistas quando de repente (não mais que de repente) ele desliza no tomate e enfia a fuça na maionese (eu tinha a certeza que isso ia acontecer:) - senão vejam:

"Os poemas de Dylan que acompanham este estudo foram mais de uma vez vertidos para o português, mas nunca sob o critério da tradução-arte, que impõe que se recrie, a par da tensão emocional, a estrutura formal: o ritmo, a concentração e os jogos sonoros, e quando isto é possível, também o esquema rímico original. Não é fácil." [grifo meu]

O negócio é que o excelso Augusto julga que só quando é ele quem se dispõe a traduzir aparece automaticamente seu exclusivo "critério da tradução-arte"...

É de causar muita indignação!

Pois o fato é que a obra poética de Dylan Thomas já foi competentíssima e integralmente traduzida (com toda a arte, em minha modesta opinião) por Ivan Junqueira (não é por ser meu xará que afirmo isso) - e o poema In my craft or sullen art também recebeu excelente tratamento ao português brasileiro pelo brilhante tradutor Ivo Barroso - as traduções que estes dois fizeram deste poema podem ser conferidas aqui - e a tradução que Augusto apresentou poderia ser colocada no máximo em terceiro lugar entre as três...

Dos três poemas traduzidos que Augusto apresenta neste artigo na ET CETERA, um merece ser saudado como boa tradução (AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION - E A MORTE NÃO TERÁ DOMÍNIO) - o que significa um aproveitamento tradutório de 33,33%, que corresponde, na minha opinião, à média de aproveitamento geral da obra de Augusto de Campos, entre ensaios, traduções, poemas concretos e etc (tá, essa foi um pouco forte, mas acho que ele mereceu...)...

Por fim, visto que considerei fraquíssima a tradução de Augusto para THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER (A FORÇA QUE O PAVIO VERDE CONDUZ À FLOR - só pelo título já dá pra ver que ele perdeu mesmo a mão no ritmo e na escolha de vocabulário, sem falar no detalhe mínimo para uma tradução: o significado, putzgrila!), apresento aqui uma tradução que, sem se arrogar ao critério de tradução-arte e patati-patatá, procura acertar na veia do poema.

THE FORCE THAT THROUGH THE GREEN FUSE DRIVES THE FLOWER
A FORÇA QUE ATRAVÉS DO FUSO VERDE PROPULSIONA A FLOR

The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.
A força que através do fuso verde propulsiona a flor
Propulsiona minha idade verde; que detona as raízes de árvores
É minha destruidora.
E eu fico mudo pra falar à rosa retorcida
Que minha juventude dobra-se à mesma febre de inverno.

The force that drives the water through the rocks
Drives my red blood; that dries the mouthing streams
Turns mine to wax.
And I am dumb to mouth unto my veins
How at the mountain spring the same mouth sucks.
A força que impulsiona a água através das pedras
Impulsiona meu sangue vermelho; que seca os jorros berrantes
Transforma o meu em cera.
E eu fico mudo pra berrar minhas veias adentro
Como à fonte da montanha a mesma boca suga.

The hand that whirls the water in the pool
Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind
Hauls my shroud sail.
And I am dumb to tell the hanging man
How of my clay is made the hangman's lime.
A mão que redemoinha a água numa poça
Agita a areia movediça; que amarra o vento uivante
Arrasta minha vela-mortalha.
E eu fico mudo pra falar ao enforcado
Como de minha argila é feita do carrasco a cal.

The lips of time leech to the fountain head;
Love drips and gathers, but the fallen blood
Shall calm her sores.
And I am dumb to tell a weather's wind
How time has ticked a heaven round the stars.
Os lábios do tempo sanguessugam a cabeça-fonte;
O amor escorre e se acumula, mas o sangue derramado
Abrandará as feridas dela.
E eu fico mudo pra falar a um vento intempestivo
Como o tempo marca um firmamento em volta das estrelas.

And I am dumb to tell the lover's tomb
How at my sheet goes the same crooked worm.
E eu fico mudo pra falar à sepultura da amante
Como em meus lençóis se arrasta o mesmo verme retorcido.

Dylan Thomas (1933)
Ivan Justen Santana (2009)

sexta-feira, maio 15, 2009

POEMA IMEDIATO IMPROVISADO PARA GIANNA ROLAND, DE SEU AMADO IVAN

Um verso sem qualquer verbo
na redondilha perdido,
voz vazia no deserto,
num ritmo já por aqui do
bate-estaca regular
calculado pra embalar
corações número par;

pé direito em teto torto
feito a um calcanhar canhoto;
luva que perdeu a mão;
cais que aqui ficou sem porto;

não, não é aquela canção
da Adriana Calcanhoto:
são riscos pra descrever
eu e você, um sem o outro.

quarta-feira, maio 13, 2009

Sintonizando novamente a blogosfera

Topei com uma breve postagem-poema muito bacana de meu caro amigo Mario Negrello, cientista da inteligência humana. Resolvi prontamente fazer a tradução, e antecipo que um comentarista da referida postagem descreveu-a como "uma obra de Escher em palavras".

Senão vejamos...


The unfathomable of the wise

The unfathomable to the wise
Is the obvious to the dimwit
And vice-versa.

Who is who?


O insondável do sábio

O insondável ao sábio
É o óbvio ao estúpido
E vice-versa.

Qual é qual?



Texto original: Mário Negrello
Versão brasileira: Ivan Justen Santana

sexta-feira, maio 08, 2009

O POETAÇO E O POETENTO

O poetaço e o poetento
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:

“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces que não tem preço
o meu cantar de tom tão só?”

O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho

passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.

sexta-feira, maio 01, 2009

OVILEJOS EM FARRAPOS

Com coragem neste drama, ama.
Intimando a nota prima, rima.
Na vertigem do dilema, lema.

Sem vacilo em hora extrema
Trame um tema que resuma
Toda a terra ou lua alguma
E ame a rima como lema.

Chova uns pingos mas não trema.

Se o seu verso é pouco esperto perto
E as palavras não são cruas ruas
Nem apagam as velinhas linhas

Manje as canjas das galinhas
Demonstrando o ritmo certo
De belezas quase nuas,
Quase suas, quase minhas.

Nunca estanque um corte aberto:
Resta o grito no deserto.

terça-feira, abril 28, 2009

Sintonizando a blogosfera

Meu mais que prezado amigo Lepre
inaugurou um blog -
já faz um tempinho, e muita gente já sabe,
mas eu me importo bem menos com novidades
do que com poesia...

Mudando de enfant pra terrible,
vou prestar agora
uma homenagem ao cartunista-poeta
mais bem-humorado de Curitiba...

Quem duvida que estou me referindo ao Solda?

Ele que me desculpe por estas


VARIAÇÕES PARA VERSOS DO SOLDA

um poeta sentado
é um poeta em pé de guerra

um poeta rezando
é um poeta em fé que berra

um poeta lutando
é um poeta em paz na terra

um poeta que morre
é um poeta enfim não erra

terça-feira, abril 21, 2009

Para quem ainda acha que letra de música não é poesia...

A ROSE FOR EMILY
UMA ROSA PARA EMÍLIA

Though summer is here at last
The sky is overcast
And no one brings a rose for Emily
O verão finalmente veio
Mas nuvens deixam o céu cheio
E ninguém traz uma rosa para Emília

She watches her flowers grow
While lovers come and go
To give each other roses from her tree
But not a rose for Emily...
Ela vê suas flores se abrindo
E os casais passam indo e vindo
Distribuindo-se rosas de sua roseira
Porém nenhuma rosa para Emília...

Emily, can't you see
There's nothing you can do?
There's loving everywhere
But none for you...
Emília, você não vê?
Não há mesmo nada a fazer
Existe amor por toda parte
Porém nenhum para você...

Her roses are fading now
She keeps her pride somehow
That's all she has protecting her from pain
Suas rosas fenecem agora
Ela mantém o orgulho de alguma forma
É só o que sobrou para protegê-la da dor

And as the years go by
She will grow old and die
The roses in her garden fade away
Not one left for her grave
Not a rose for Emily...
E à medida que o tempo escorrer
Ela vai envelhecer e morrer
As rosas do jardim desaparecerão
Nenhuma restará para seu caixão
Nenhuma rosa para Emília...

The Zombies (Rod Argent)
Ivan Justen Santana



Para ouvir a maravilhosa canção dos Zombies clique aqui.

terça-feira, abril 14, 2009

Eloquência com azeite de oliva


À ré poesia a verdade é a sentença,
desde que a nós, cegos poetas, coube
consagrar com oniscipotenpresença
até o mais modesto, humilde e simples pé de couve –

portanto: que o único calo que me cale,
que a única bela que não me abale
e que o único amor que me amordace
eu colha nas fímbrias das fibras duma folha de alface.

sábado, abril 04, 2009

PARÁFRASE VITAL EM BILABIAIS ELÍPTICAS

Superar seres, sis e circes
no acesso sensível ao si das sílabas
– sobrar só com os lábios –

triunfar dos perigos das perífrases
– cilas e caríbdis perdido(a)s por
períneos ígneos – furar as fúrias
– pérfidas erínias – simplégades
fenecendo ao final flechado
dos fragmentos de fragrâncias fatais –

sintetizar as sintonias
sem assíndetos ou polissíndetos –
sem venci nem vi tampouco vim –
e desferir enfim um simplíssimo
sim